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Percurso do Regicídio

Julho 3, 2008 · Deixe um comentário

A Liga dos Amigos do Jardim Botânico (LAJB) promove regularmente visitas guiadas a locais de interesse botânico, ecológico e histórico. A propósito do centenário do regicídio, propomos um percurso pela Baixa da cidade para reviver, numa espécie de “viagem no tempo”, os acontecimentos do dia em que o Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe, foram assassinados, a 1 de Fevereiro de 1908. A visita, guiada pela Drª Elisabete Rocha da Hemeroteca Municipal, será repartida pelos locais ligados ao regicídio, desde a espingardaria onde foram compradas as armas que mataram o Rei até ao café onde os conjurados conspiraram o regicídio.
Percurso do Regicídio
Dia: 14 de Julho de 2008
Ponto de encontro: Café Gelo (Rossio)
Duração da visita: 3 horas
Guia: Drª Elisabete Rocha (Hemeroteca Municipal)Tel: 21 392 18 28
Tm: 96 038 24 17
ldbotanico@fc.ul.pt

FOTO: Cortejo fúnebre de D. Carlos e D. Luís Filipe, na Praça do Príncipe Real, no dia 8 de Fevereiro de 1908. Imagem de Joshua Benoliel (1873-1932). Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal

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Conhecimento, de novo o desafio português

Dezembro 17, 2007 · Deixe um comentário

Nós, os portugueses, podemos dizer com orgulho que promovemos a globalização muito antes do termo entrar na vox populi. Os Descobrimentos quinhentistas aproximaram o mundo e inauguraram a competitividade à escala do globo. Competitividade essa que, tal como nos dias de hoje, não assentava apenas em bens e serviços, mas também em capital humano e no conhecimento técnico.

Basta lembrar Fernão de Magalhães que, descontente por não ter obtido de D. Manuel I uma recompensa a que se julgava com direito, foi oferecer os seus serviços a Carlos V da Alemanha e I de Espanha. O imperador confiou, então, ao navegador português uma frota de cinco caravelas, permitindo, assim, que fosse empreendida a primeira viagem de circumnavegação realizada no globo. Já para não falar da tese da origem portuguesa de Cristóvão Colombo, que ofereceu, igualmente, os seus serviços à coroa espanhola e acabou por descobrir a América.

Mas tudo isto serve para dizer que, já nos séculos XV e XVI, o capital humano era determinante para o progresso das nações e a sua mobilidade gerava a partilha de conhecimentos no mundo. As nações mais poderosas eram as que detinham o saber personalizado, neste caso, por navegadores, matemáticos e cosmógrafos. E foi a mobilidade desses especialistas das artes e das técnicas navais que permitiu, por um lado, a disseminação do conhecimento técnico e, por outro, o contacto com realidades culturais fora da Europa.

Ontem como hoje, o progresso económico das nações resultava, essencialmente, do domínio do saber e da sua aplicação às necessidades do Homem. Certo. Mas terá sido sempre assim? Nem sempre. Até há pouco tempo, outras varáveis de negócio rivalizavam em importância com o conhecimento. Falo, por exemplo, da posse de recursos naturais, das vantagens da localização e do acesso a mão-de-obra barata. Tudo variáveis que, nesta transição da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento, perderam relevância face ao imperativo da qualificação humana, da inovação, da investigação científica e do desenvolvimento tecnológico – algo que, no seu conjunto, podemos designar por conhecimento em sentido lato.

Em traços gerais, a criação de empresas resulta do trinómio atitude-capital-conhecimento. A atitude tem origem nas características idiossincráticas do indivíduo, como a iniciativa própria, a coragem para assumir riscos, a capacidade de decisão e o sentido de oportunidade. O capital, pelo contrário, já não depende tanto do perfil do promotor do negócio, mas sim da adequação do projecto empresarial às necessidades do mercado. Ou seja, se um determinado produto ou serviço for pertinente à luz da lógica de mercado, então o respectivo projecto empresarial terá fortes possibilidades de ser financiado pelos diversos instrumentos existentes.

Já o conhecimento, por seu turno, tem uma natureza diferente tanto da atitude como do capital, embora seja transversal a estes dois factores. O conhecimento é percepção, intuição, raciocínio, compreensão, mas também dúvida, incerteza, expectativa e procura. Neste sentido, influencia quer a atitude perante os negócios, quer a capacidade para elaborar projectos empresariais viáveis. Do conhecimento, e em concreto da sua conversão em valor empresarial, depende o futuro das empresas, cuja competitividade resulta, cada vez mais, da compreensão das características e necessidades do ambiente competitivo; da criação permanente de novos produtos, serviços, processos produtivos e sistemas de gestão; e da criatividade, capacidade de aprendizagem e aptidão para as novas tecnologias que o capital humano demonstre.

Esta realidade conduz-nos a um dos mais graves problemas do empreendedorismo português: o défice de qualificação da maioria dos seus protagonistas. Segundo dados recentes do Observatório da Criação de Empresas do IAPMEI (baseados nos inquéritos recolhidos pelos CFE, em 2006, respeitantes a 1084 sociedades e 1748 empresários), 71,3% dos empreendedores portugueses conta apenas com o ensino secundário entre as suas habilitações literárias. Só 22,6% dos empreendedores são licenciados e mais 6,1% têm, para além disso, uma pós-graduação, mestrado ou doutoramento.

Ora, hoje quem se aventura na criação e gestão de empresas necessita de ter qualificações compatíveis com a Economia do Conhecimento, o que significa capacidade de inovação, domínio das TIC e do inglês enquanto língua franca, competências ao nível da I&D e consciência das responsabilidades sociais a que a actividade empresarial obriga. Neste sentido, o empreendedorismo não pode continuar a ser praticado em Portugal de forma naïf. Ou seja, para se ser empreendedor, já não basta ter boas ideias e voluntarismo em doses generosas.

Por isso, importa ter como desígnio nacional a promoção do empreendedorismo qualificado, tal como está, de resto, plasmado na Agenda de Lisboa. É, aliás, por este upgrade do empreendedorismo que a ANJE se tem batido, depois de todo o trabalho desenvolvimento, durante anos, no campo da sensibilização para uma cultura de risco e de iniciativa junto da juventude portuguesa. Só com um empreendedorismo qualificado, Portugal deixará de ser um país de mão-de-obra barata e produtos de baixo perfil tecnológico, para se assumir como um país de capital humano, capaz de operar no topo da cadeia de valor e em áreas de ponta, muitas vezes à escala global e com elevados níveis de competitividade. (JN)

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A SANTIDADE DOS PATRIOTAS

Novembro 28, 2007 · Deixe um comentário

Fiquei grandemente enternecido com o estremecimento patriótico que tem percorrido alguns bondosos agrupamentos financeiros, logo-assim ressurgiu a ideia de construção do novo aeroporto de Lisboa. Atreita a descobrir razões e motivos para aplaudir ou excomungar, a sociedade portuguesa vai tomando confuso partido por um ou por outro dos desinteressados grupos. Acentuemos a nobreza dos pensamentos e a clara distinção dos discursos: tanto os que defendem a Ota como os que pleiteiam a causa de Alcochete são desvelados patriotas e absolutamente alheios ao feio sentimento da ganância. No remanso agasalhante dos seus gabinetes esses homens consomem as meninges, arregimentam olheiras, arquejam de cansaço – apenas com o desígnio exaltante de se sacrificar pela pátria bem-amada.

Preocupa-os a depressão que nos assola, a nós, arraia-miúda; martiriza-os a desdita do nosso destino, a deterioração da nossa qualidade de vida. Arejam os crânios com pensamentos alevantados, caucionados pelos juízos simples e pelas consciências rectas.

Pouco se sabe quem são. Dar outros nomes aos nomes apenas significa modéstia, discrição, orgulho pátrio. Ambos os grupos já gastaram rios de dinheiro em planos, estudos, esboços, gráficos, monografias, análises, testemunhos, depoimentos, exames, investigações. Desinteressadamente, como se sabe. Ambos os intervenientes concla- mam: a minha proposta é melhor do que a tua. Ambos os intervenientes afirmam-se eivados de santas razões e de imaculados propósitos. São impulsionados pelo mesmo ímpeto venturoso que acumulou glórias e saudáveis episódios abençoados por todas as Virgens conhecidas.

A melodia dos desinteressados toca os corações desprevenidos. Quando se soube que o Governo pendia para a Ota, indiscutível e inexoravelmente, a especulação imobiliária foi desencadeada. Mário Lino, dramático e seguro, levemente irado, abertamente decisivo, transformou o jamais francês no estandarte de todas as vitórias. Quando foi apresentada a proposta de Alcochete, argumentativamente muito mais económica, os protestos e os apupos chegaram de alguns pontos cardiais. Mário Lino, calmo como um ser isento de maus costumes, ainda não leu o documento da CIP, diz que vai ler; ao que parece, ninguém o leu ainda. A santidade dos indomáveis patriotas da Ota e de Alcochete, a devoção inextinguível da sua entrega, o piedoso ardor dos seus discursos, a profundidade da sua filantropia, o penoso fardo que transportam – comovem até às lágrimas.

Nunca lhes agradeceremos bastante o grande consolo que nos têm ministrado, com a galante vontade de nos servir a todos. Eles, coitados!, não querem nada. Entre a Ota e Alcochete, venha o LNEC e escolha.
Por BAPTISTA-BASTOS – Escritor e jornalista

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A JUSTIÇA CRIMINOSA

Novembro 28, 2007 · 3 Comentários

Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia que se sabe que nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado. Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços do enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são “abafadas”, como se vivêssemos ainda em ditadura. E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogues, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.

Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa e Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Bragaparques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muito alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos? Vale e Azevedo pagou por todos. Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros. Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência com o vírus da sida? Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático? Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico? Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana? Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?

Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma. No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não substancia. E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou? E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente “importante” estava envolvida, o que aconteceu? Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu. E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente “importante”, jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê? E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha. E aquele médico do Hospital de Santa Maria suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina? E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os “senhores importantes” que abusaram, abusavam, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra. Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa e contra isto o PS e o PSD que fizeram? Assinaram um iníquo pacto de justiça.

Por CLARA FERREIRA ALVES

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“INTELIGENT DESIGN”

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário


Acabei de assistir no Canal Dois, a uma emissão do Programa “Nova”, à volta do “Criacionismo”. Trata-se de uma controvérsia ocorrida numa comunidade rural americana, inspirada pela milenária luta entre a Ciência e Fé. Luta que já fez correr muito sangue à volta do mundo. E quando o sábio Galileu, que já aqui mencionei várias vezes, teve a coragem de dizer que era a Terra que girava à volta do Sol e não o Sol à volta da Terra, como era crença da Igreja Católica, o pobre estudioso, esteve prestes a ser queimado na fogueira da Inquisição, se não abjurasse de joelhos, as suas observações cientificas. Que a fé, exaltada pelo fanatismo, é muito perigosa. Basta ver o que está acontecendo no Iraque, com os bombistas suicidas e fanáticos do Islão.

O Creacionismo, ou “Inteligent Desig”, é uma crença religiosa, a qual postula que os humanos, os animais, as aves e os peixes foram desenhados e criados assim, e que a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin, está errada. E a controvérsia está, em o Criacionismo querer passar por uma teoria científica, e não uma crença religiosa. Claro, a comunidade cientifica bateu o pé, e disse: ciência é ciencia, religião é religião, e há lugar para as duas mas sem misturas. Segundo a Ciência, criacionismo é uma crença, uma suposição, uma fé de cunho religioso, sem fundamento científico. Como não tem qualquer fundamento cientifico o que a Bíblia nos diz àcerca de criação do mundo em seis dias, com Deus, cansado do esforço, a “descansar” ao sétimo dia. A Terra era então o centro do Universo, havia sido criada há dez mil anos – não há dez triliões, mas apenas há dez mil – o Sol é que girava, a Terra era plana e estava quieta, as estrelas eram lamparinas suspensas no tecto do céu e outras coisas mais. A Bíblia não explica também, se Adão e Eva eram brancos, pretos ou amarelos, e como é que se produziram essas diferentes raças, se não houve evolução das espécies. Pelo menos os mulatos, sabemos nós, que foram os portugueses que os produziram, e isto não e uma crença religiosa, mas uma conclusão científica.

O objectivo dos criacionistas americanos, é desbancar as observações de Charles Darwin, sobre a evolução das espécies, dando carácter de ciência, a uma convicção religiosa. Ora a Ciência, é o esforço do homem para desvendar os mistérios da Criação. Ciência, não é religião. Não é uma crença, é um trabalho mental profundo, que analiza minuciosamente as ínfimas partículas de que é formado o Universo, de que nós, e toda a vida, somos parte integrante. A ciência não proselitiza nem vende na praça pública as suas verdades. A ciência não sofre da doença do ódio de que enfermam as religiões, que se guerreiam e contradizem .Todos os cientistas do mundo, são membros da mesma confraria. As suas verdades e experiências são partilhadas .São património da Humanidade. Muitos cientistas até crêem na existência de um ser superior responsável pela criação do Universo, e decerto pedem que essa Força Criadora, que eles procuram desvendar, os inspire nos seus esforços de descoberta. Os cientistas não criam. Descobrem. Levantam um poucochinho o véu do mistério, mas não se arrogam a petulância de dizer que tudo sabem, e que a Ciência é infalível.

E assim sendo, todos os que acreditam nas suas respectivas religiões, utilizam a ciência, mesmo sem acreditar nela.Quando ficam doentes, ou quando têm de extrair um tumor maligno, não confiam apenas nas orações. Eles entregam-se nas mãos de um médico, que pode ser incréu, judeu, católico, protestante , induista ou maometano… A Ciência não faz guerra à religião. A Religião é que, historicamente, tem feito guerra à Ciência. E não só à Ciência, mas a outras religioes. As relações entre as várias crenças não são bentas.

Acho que a Ciência tem sido mais pacífica. Ela procura desvendar os segredos do Universo, e aliviar as dores da humanidade. E presta os seus serviços a toda a gente, independentemente da cor da sua pele, nacionalidade ou religião. E se não fosse assim , não seria ciência pura, mas astrologia. Esta é uma atitude que devia ser imitada pelas religiões. A Ciência personifica a paz de que nos falou o Rabi da Galileia. Os cientistas americanos, não fazem guerra ou odeiam os cientistas do Irão, da Coreia do Norte, da Siria ou de qualquer outro país que o nosso chefe catologou como “inimigos”. Sejam eles comunistas, democratas ou republicanos, na comunidade científica, todos têm pousada. Porque todos trabalham na mesma vinha.

Mas,voltando à vaca fria, como se diz na Bairrada, o caso da tentativa dos criacionistas americanos, de introduzir a crença religiosa, nas escolas públicas, sob a capa de “ciência”, não surtiu efeito. E o Juiz Johnson, por acaso uma nomeação recomendada por Bush, sentenciou que o Criacionismo ou “Inteligent Design”, não é ciência, mas religião, e que o lugar da religião, é na igreja, e a Ciência, é parte da instrução pública e do progresso da Humanidade. E Darwin, mais uma vez, foi vingado.

Por Manuel Calado

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OMOSESSUALITÀ VATICANA

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário


Helena Matos comenta (texto transcrito abaixo) o caso de monsenhor Tommaso Stenico, suspenso das suas funções na Curia Romana. Ao contrário do que diz Helena Matos, que provavelmente não leu os jornais italianos de ontem, monsenhor Stenico não confessou ser gay. Pelo contrário. Tem negado sistematicamente essa condição. O que nós pensamos disso é outra coisa. Monsenhor Stenico, psicanalista, foi surpreendido com a divulgação pública (num canal de televisão) da gravação de uma das sessões que manteve com um paciente jovem, a quem deu conselhos ao arrepio da doutrina da Igreja. Monsenhor Stenico, psicanalista, defende-se (e com razão) com o segredo profissional e denuncia a criminosa invasão de privacidade.

Continua por apurar como foi efectuada a gravação e como é que ela chegou à televisão e aos jornais. O pano de fundo da história é um site com blogue incorporado, que promove encontros homossexuais, e é mantido por um colectivo de altos prelados que assinam sob nome de código. Aparentemente, monsenhor Stenico — que colaborava no blogue com o seu próprio nome — é um alvo mais fácil do que certas eminências. Monsenhor Stenico foi só um pretexto. Onde é que a gente já viu este filme?

Comentário de HELENA MATOS

Coisas que também não se entendem

A notícia do padre suspenso por ter confessado ser gay tem dado a volta ao mundo.

Segundo o PÚBLICO:

«Vaticano suspende padre que confessou ser gay na televisão O Vaticano suspendeu um padre que tem uma posição elevada na Santa Sé por ter confessado, num programa da televisão italiana, ter tido relações sexuais com outros homens.(…) Este era um dos quatro padres que se declararam homossexuais e participaram num programa transmitido a 1 de Outubro pela televisão La 7.»

Talvez a minha ignorância sobre os procedimentos do Vaticano explique a minha dúvida mas se ele tivesse confessado na televisão que mantinha relações sexuais com mulheres o Vaticano não o suspendia?

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LARGAR LASTRO

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário

Há uma diferença entre deter poder ou exercer poder. O poder apenas detido é despido de sentido útil: aproveita ao próprio mas não aos outros. Exercer o poder é uma coisa diferente, é aproveitar uma oportunidade para poder fazer coisas que são úteis para os outros. É assim na política, na vida económica ou cultural. O exercício do poder político confere a possibilidade única de transformar coisas, reformar, melhorar, romper bloqueios – é uma actividade nobre, ao contrário do que a cultura de mesa de café gosta de dizer. Conheci muitos políticos que tanto lhes fazia o lugar que ocupavam ou a capacidade de acção de que dispunham nessas funções. Limitavam-se a deter poder, para satisfação da sua própria vaidade ou para se ‘manterem em jogo’ para futuras e outras oportunidades. Mas também conheci os que apenas quiseram o poder enquanto acreditaram que dele podiam fazer um instrumento transformador para melhorar as coisas. E conheci até alguns que nunca aceitaram os cargos para que foram convidados por entenderem que o seu lugar seria inútil ou desprovido de sentido. De igual modo, o exercício do poder económico pode ser uma oportunidade para acrescentar valor às empresas, postos de trabalho, riqueza para o país. E o poder cultural, exercido criativamente, é também um serviço prestado à comunidade.

Entendido assim, o poder não tem nada de corruptor. É uma coisa fugaz, com um objectivo concreto e um espírito de missão claro. Assim que as circunstâncias mudam ou a missão está cumprida, abandona-se e vai-se fazer outra coisa. Por mais que possa custar pessoalmente, a grandeza está em largar e não em continuar agarrado ao poder. Como acontece com tantas outras situações, em determinadas alturas da vida, a sabedoria consiste em saber sair, antes que nos peçam para sair. É o que eu chamo largar lastro: abandonar o que já não serve ou não faz sentido nem bem algum e ir à procura de outra coisa, porque a vida não tem só um caminho e ninguém, mesmo, é insubstituível. Infelizmente, para certas pessoas, largar equivale como que a uma morte em vida. Pobres vidas!

Dou alguns exemplos de gente que, em áreas diferentes, não sabe largar o poder, se acha único e insubstituível e não é capaz de se retirar de cena, convencendo-se que é a vontade dos outros que os mantém atados ao leme, como dizia Fernando Pessoa, a propósito de Bartolomeu Dias.

Comecemos pelo presidente do FC Porto, Pinto da Costa. Depois de 22 anos de poder pessoal e absoluto, teve em 2004 uma oportunidade de retirada em grande que os deuses raramente concedem em casos destes. Campeão Europeu de clubes (uma proeza dificilmente repetível nas décadas seguintes), tinha acabado de inaugurar um estádio novo e lindo e vendera parte das jóias da coroa ao estrangeiro, conseguindo um encaixe financeiro também ele irrepetível e que lhe poderia ter permitido pagar logo o estádio todo ou reduzir o passivo do clube a números residuais. Se tivesse saído nessa altura, teria o Porto a seus pés, o país esmagado de admiração e roído de inveja e a eterna gratidão dos portistas. Mas, preferiu ficar, aparentemente porque não tem vida fora do clube. E o que se seguiu foi uma série de desastres e erros de gestão de toda a ordem: cinco treinadores contratados, dezenas de jogadores adquiridos, dos quais a esmagadora maioria só podem ter vindo por engano, défices astronómicos acumulados em três anos de descontrolo que rapidamente engoliram os lucros de 2004 e, finalmente, a confusão do ‘Apito Dourado’ e as vinganças da ex-primeira-dama, numa sucessão de episódios degradantes que bem poderia ter evitado. Agora, se sair e quando sair, se mandar calar por instantes os aduladores que sempre rodeiam o poder perpétuo, escutará um surpreende suspiro de alívio das bancadas.

Segue-se o caso terminal de Alberto João Jardim. Ao longo de trinta anos, venceu já vinte e não sei quantas eleições consecutivas – o que lhe garante desde logo um lugar, se não na história, pelo menos no ‘Guiness’. Ganha e governa com a mais eficaz e simples das receitas: dinheiro, muito dinheiro, dos outros. Com tanto dinheiro arrancado aos nossos bolsos, só poderia ter obra feita e que dá nas vistas, apesar de todos os desperdícios, os descaminhos e os gastos sumptuários, que convivem com zonas de miséria inexplicáveis, essas escondidas da vista e dos votos. Mas ‘tem obra feita’, como repetem sempre, muito circunspectos, os PSD. E parece que tinha também ambições políticas mais vastas e mais continentais. Mas, à força de se arrastar no poder fácil da Madeira e nas suas vitórias eleitorais de meia-tigela, queimou-as. Se hoje aqui aparecer a votos, será cilindrado (e felizmente!). Porque o que tinha de aura de fazedor acabou por se revelar à luz crua dos dinheiros sem fim que nos custa e o que, a certa altura, chegou a ter de engraçado, acabou por se tornar previsível e repetitivo, até que a audiência deixou de lhe achar graça.

Último exemplo: Jardim Gonçalves, o fundador e eterno mandante do BCP. Criou o primeiro banco privado português e logo revolucionou a banca, passando a tratar os clientes como clientes e não como suplicantes, como até aí sucedia. Fez os bancários vestirem-se de gravata, abandonando o ar de empregados de cervejaria revolucionários e ensinou-lhes a deixar de tratar os clientes com arrogância e desdém. Depois, modernizou a banca toda e fez parte de uma geração que, de facto, tornou a banca portuguesa um dos raros sectores de excelência na gestão empresarial. A certa altura, criada fama, prestígio e riqueza, ultrapassados os 70 anos de idade, usado até à exaustão cada migalha de poder que foi detendo e sempre acrescentando, anunciou a retirada e a chegada ao poder de uma nova geração. Mas era apenas um truque, para fingir que estava de fora, continuando a tudo controlar. E, quando esse controlo se tornou um obstáculo à governação do banco, em lugar de consumar de vez, e sem mais subterfúgios, a retirada, foi à luta – uma luta feia e desprestigiante – para afastar a tal nova geração que lá havia colocado e continuar a governar por interpostos representantes. Perdeu, também ele, a oportunidade de sair em beleza. Agora, as sequelas da guerra que semeou, por pura vontade de mando e vaidade, viram-se contra si, em sucessivas revelações devastadoras e de que, decerto, ainda não vimos o fundo. Os episódios do perdão de dívida e de juros, ao filho e ao aliado, são de tal maneira chocantes que só uma obstinação que já é do domínio da patologia pode ainda fazê-lo manter-se em funções, uma semana depois de a notícia do Expresso ter destruído para sempre a sua imagem de gestor rigoroso, criada ao longo de trinta anos. E tudo se agravou mais com as inacreditáveis justificações que ele e o próprio filho resolveram dar para explicar como é que o maior banco privado português atira borda fora pelo menos 22 milhões de euros em negócios de favor. Decerto que não terá perdido as qualidades que o fizeram conseguir ver antes e mais longe que muitos outros, no negócio bancário. Mas, porque assim é, ele, mais do que ninguém, deve saber que um banco vive da imagem e da credibilidade pública. E, nos últimos meses, ninguém, mais do que o eng.º Jardim Gonçalves, se tem dedicado afanosamente a destruí-las.

Por MIGUEL SOUSA TAVARES

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Tempo de chacais

Novembro 23, 2007 · Deixe um comentário

Num discurso inflamado aos apoiantes da sua “Rússia Unida”, Vladimir Putin queixou-se dos “chacais”. São os que, segundo ele, mendigam desesperadamente em várias embaixadas estrangeiras em Moscovo, para organizar uma campanha de oposição satisfatória.

Pode perguntar-se se este “peditório” (ao Ocidente, presume- -se) resulta de falta de patriotismo de quem se vende por um prato de lentilhas, ou da asfixia que o Kremlin mantém sobre o sistema político. A doutrina divide-se.

Espera-se, a bem da humanidade, que a possível ausência de observadores internacionais não tire legitimidade às próximas escolhas eleitorais dos russos, em Dezembro e em 2008, depois de longas campanhas.

E espera-se, a bem da possibilidade de análise política, que o presidente seja mais explícito sobre os seus planos.

É que a especulação desceu à rua.

Quererá Putin sair da presidência para a chefia do governo? Fá-lo-á com qualquer presidente, ou só com um grupo selecto de candidatos? Será um PM cerimonial, ou quererá um presidente assim?

Por outro lado, dizem alguns exegetas, o imperativo constitucional que proíbe um terceiro mandato consecutivo só se aplica, na letra e espírito da norma, se os dois anteriores forem “completos”.

A ser esta a interpretação do art.º 81, n.º 3, o que impediria Putin de renunciar, meses ou dias antes de completar o presente período legal, para se candidatar outra vez?

Não forçaria uma revisão constitucional à medida, e tudo estaria no melhor dos mundos.

2. Ainda não li o texto, mas dizem-me que o diário “República Islâmica”, de Teerão, publicou, há dias, um editorial violentíssimo contra o presidente Ahmadinejad. Em síntese, acusa-o de “imoralidade, ilegalidade e ilogicidade”, no tratamento da oposição, sobretudo daquela que acusa de “traição”, por contestar a sua estratégia de afirmação nuclear.

O jornal está próximo do Grande Líder Khamenei, não é pago pelo Grande Satã ianque, e costuma ser visto como uma publicação pia, integrista, conservadora e leal.

Segundo o texto, cujo resumo me chegou, chega a sugerir-se aos tribunais que procedam contra o chefe do Governo, impedindo-o de propagar o alarme social e de difamar os adversários internos.

Outra vez a questão dos “chacais”.

3. Meio da noite, Zagreb, Duisburg, Londres alegria familiar, com a Croácia a dar um banho de bom futebol (e um balde de água fria) à Inglaterra. Justos como sempre, os adeptos britânicos acabaram a bater palmas aos gigantes balcânico-adriáticos.

Desta vez, não houve chacais mediáticos, e até José Mourinho aparece como salvador do desporto-rei (diferente de desporto dos reis) na ex-pérfida Albion.

Nuno Rogeiro, Comentador político

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O Fundo do Poço

Novembro 23, 2007 · Deixe um comentário

OPINIÃO  

Mário Negreiros

O Fundo do Poço


Com uma frequência assustadora e cada vez maior, vejo-me a pedir que chegue logo, o quanto antes, o fundo do poço. É a crença redencionista, apocalíptica, cristianíssima, de que a maldade tem que se revelar em toda a sua grandeza para que depois, só depois, nos rendamos à luz, à paz e à harmonia. E, no entanto, sendo o poço um poço, a queda sem fundo é horrível, abismal, mas a outra alternativa – o encontro com o fundo – é trágica. E fatal.

Mas não é um poço. E não tem fundo – embora possa ser trágica – e fatal. É a realidade, que sempre pode piorar. Sempre! E melhorar.

Vivi muitos anos no Rio de Janeiro, cidade que, berço da gentileza da bossa-nova e de tantas outras gentilezas, foi-se tornando, dia-a-dia, palco de violências de uma crueldade insuperável até que, na semana seguinte, outra crueldade a superasse. Pelo menos uma meia dúzia de tragédias cariocas ao longo dos anos 90 foram capazes de me convencer de que a cidade tinha chegado ao fundo do poço e que, a partir dali, só podia encontrar o caminho da luz, da paz, e da harmonia. Uma leitura rápida nos jornais cariocas de hoje (ou de ontem ou de anteontem, ou da semana passada) é o bastante para que se perceba o quão redondamente me enganava. Não há fundo. Sempre pode piorar.

E Portugal está em queda. Os portugueses estão em queda – ainda mais do que Portugal. O país tem instituições minimamente organizadas, consolidadas, bastante mais estáveis do que a vida das pessoas que o habitam. Essas, sim, estão em queda livre: cada vez mais televisão e menos música; mais carro e menos passeio; mais pressa e menos gozo; mais trabalho e menos filhos (já são raros os filhos – um desavisado que visitasse os parques e jardins de Portugal poderia pensar que os portugueses tinham deixado de fazer filhos e passado a fazer logo netos); cada vez menos pais e mais televisão (e avós, para quem tem a sorte de os ter).

O que mais será preciso para que os portugueses vejam que é concreta a sua queda e, em grande parte, reversível com movimentos de carácter meramente individual, independentes de governos, estados ou partidos? Um exemplo: não me consta que as estradas e, muito menos os carros, tenham piorado neste país. Se não são os carros nem as estradas, quem, se não os próprios portugueses, pode merecer a culpa pelo aumento das mortes nas estradas de Portugal? Claro que ao Estado cabe educar quem usa e reprimir e punir quem abusa. Mas se o Estado é que tem a culpa pelo aumento das mortes nas estradas de Portugal será pela mesma razão por que é do Estado a culpa por tudo o que de mal aconteça neste país – a nossa infantil necessidade de desresponsabilização, que, claro, exige um culpado de plantão (papel a que o Estado português – arrogante, ineficaz, etc, etc e etc, sim – se presta lindamente).

E, no entanto, se vejo algum movimento de reversão da queda geral não é naquilo que se convencionou chamar de “cidadania” (algo como “povo” mas mais sóbrio – enquanto o povo vai ao futebol, a cidadania vai passear na “Marginal sem Carros” ). Se alguns sectores da vida portuguesa tiveram os brios acesos pela crítica geral, a maior parte estará no sector público, onde se começa a ver funcionários firmemente empenhados em mostrar, pela sua postura e empenho, que há ali eficiência e respeito pelo utente.

Enquanto isso, na Net Cabo…

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HÁ ALTURAS ASSIM

Novembro 23, 2007 · Deixe um comentário

HÁ ALTURAS ASSIM


Há alturas assim, parece que se vive naqueles sonhos em que se quer correr e não se sai do sítio. Freud explica, qualquer manual dos sonhos explica, mas a gente continua a sonhar o mesmo. Tudo é pastoso, parece um barco que entra no lodo e não avança mais no meio de um grande e enorme rio. Toda a agitação é vã, sabe-se que algures há um perigo indefinido, uma escuridão que avança, um movimento profundo nas águas. Não é por acaso que esta é um das “sete tramas fundamentais” na literatura. Está no Beowulf, está na lenda de S. Jorge e o Dragão, está nos livros de Stephen King, está no Portugal de 2007. O barco está bem encalhado no meio do rio e não se consegue fugir para fora do perigo.

A gente olha para o Correio da Manhã, aquilo que os anglo-saxónicos chamam uma “fatia de realidade”, e vê bem o sonho do quero andar, mas não ando. “”Marta” (nome fictício), de 24 anos, confessou ontem às autoridades que deitou o seu filho num contentor do lixo“, atrás de muitas outras “martas” que desde tempos imemoriais mataram os seus filhos, ou os deixaram na roda, ou na estrada para serem encontrados com um fiozinho e uma medalha para, dizem os leitores de Dickens e os espectadores de telenovelas, um dia mais tarde se dar o improvável rencontro, ou se confirmar qualquer tragédia incestuosa. Destinos. “Marta” não leu a intelectual Prospect, que coloca o dilema ético-social sobre se há direito a ter filhos que não se podem alimentar, ou dito de outro modo, se é moralmente legítimo e socialmente aceitável os pobres terem filhos que depois vão viver dos impostos dos ricos que não os procriaram. Amanhã haverá outras “martas”. O barco decididamente não anda.

A “assassina do ácido voltou a ser posta em liberdade” escreve, perturbado, o jornal perante mais uma saga judiciária. Escrevendo em “juridiquês”, uma linguagem que hoje se tornou popular de tão usada que é, vê-se que a “assassina do ácido“, que estava detida em Tires para cumprir sete anos e nove meses de pena, “recebeu a ordem de libertação imediata, emanada pelos juízes desembargadores“, após recurso do advogado. Continua o jornal: “Nessa altura, o colectivo de juízes considerou que o acórdão condenatório tinha transitado em julgado e, por consequência, estava esgotado o prazo para um eventual recurso. Para chegar a esta deliberação, os juízes guiaram-se pelos prazos dos processos urgentes, mas (o advogado) contestou. Primeiro, entrou com um pedido de habeas corpus (libertação imediata) da sua cliente, que foi indeferido. Depois, alegou que a decisão dos juízes da primeira instância teria efeitos suspensivos sobre a eficácia dos mandados de captura (…) o que foi aceite pelos juízes desembargadores.” Corre Kafka, busca Kafka, bom cão Kafka!

A “assassina do ácido” anda nesta saga desde Maio de 2001, há mais de seis anos. O crime de amor, ciúme e raiva, que a levou a matar o namorado, crime do “coração” (o mesmo “coração” com que o povo se enleva no “pai de coração”) já não suscita sequer atenção de per si, a não ser no epíteto de “assassina do ácido“, são agora as peripécias jurídicas, o outro pântano, a outra areia que está debaixo do barco. Antes o mundo parecia simples: julgada, condenada, presa, libertada no fim da pena. Agora não, há advogados, juízes, polícias, desembargadores, um nome tão arcaico que se percebe bem encaixar na coisa. De que é que tens medo Kafka, não está nada aí, é só uma sombra…


Mantendo-nos nos crimes, temos mais um acto da saga mediática da “pequena Maddie“, opondo os defensores da tese do rapto aos defensores da tese do assassinato, hoje uma matéria patriótica. Cada revelação, num ou noutro sentido, faz parte da também pequena guerra civil que os portugueses travam contra John Bull, contra a pérfida Albion, que insiste em nos tratar como comedores de sardinhas, insulta o nosso embaixador, goza com os nossos polícias, e suspeita que, se algum louro britânico, algum cidadão civilizado dos países frios, cai nas malhas desses brutos (nós) é como no tempo da Inquisição. E nós, nessa altura, ficamos todos índios venezuelanos diante do Borbón que nos manda calar, nós explorados desde o Tratado de Methuen, vítimas dos vexames de Beresford, espoliados pelo Ultimato e que temos agora que aturar a sobranceria desses “bifes” que acham que podem vir cometer crimes ao nosso Algarve e voltaram para casa a dizer mal do senhor inspector de Portimão. Nós que até lhes ganhamos, de vez em quando, no futebol. Agarrem-me senão eu faço e aconteço, ouve-se no barco encalhado pelo medo.

Depois o Correio da Manhã explica-nos que há portas e portas. Umas servem para abrir, outras para snifar e ganhar muito, muito dinheiro. São “portas da percepção” diria Huxley, cheias de felicidade terrestre, contendo a módica quantia de 301 quilos (o quilo a mais dos trezentos seria para pagar o transporte?) de cocaína metida numas portas vindas do Brasil, cerca de três milhões e cem mil doses individuais com valor de cerca de 15 milhões de euros. No mesmo dia, mostrando a diferença entre o poderoso cartel latino-americano e a pobreza dos PALOP, um infeliz guineense identificado como Isolmané trazia três quilos numa mala de viagem vindo de Caracas e foi direitinho parar à prisão, porque só lhe devia faltar ter escrito na T-shirt ao que vinha e com que vinha. Nas casas de banho da noite chique de Lisboa, onde os famosos da Nova Gente riscam umas linhas de neve, não vai faltar produto, nem que seja a consumir a porta. Se no barco encalhado se tem medo e se quer fazer de conta que não se passa nada, há sempre maneira de o fazer, no nariz, na veia, na garganta.

O resto? Nem no Correio da Manhã sobra alguma coisa como resto: uma greve na Valorsul, uma empresa que dá “valor” ao lixo do Sul; uma mãe que quer que a filha ouça e arranjou o dinheiro para a operação e diz, sábia, que “as mães não devem ficar à espera do Estado“; uma senhora professora que nem três cancros diferentes chegavam para ser aposentada e que só conseguiu “ter justiça”; a ASAE, mostrando como se leva a sério a gestão política das polícias, deixou por um dia de funcionar como braço armado do fisco, para apreender numa humilde loja das Portas de Santo Antão umas aparelhagens de quinta categoria que servem para escutas, obtendo assim um bom título no jornal para o senhor ministro da Administração Interna. O barco está mesmo encalhado e afunda-se pouco a pouco. Haverá piranhas, crocodilos neste rio? Há sempre.

A culpa é do Correio da Manhã? Longe disso, aquilo é o Portugal de 2007, tal como ele é, irrelevâncias antigas, infelicidades de sempre, vidas miúdas, perdidas num mundo que cada vez menos se controla, de que cada vez menos se descola. Não é obra de cínicos intelectuais que só querem dizer mal e não partilham do glorioso optimismo dos governantes, é o retrato do pântano do nosso lento empobrecimento a que nos condena o “modelo social” vigente, da desorganização atávica das nossas instituições, do salve-se quem puder, de uma mediania muito perto da pobreza e do atraso. É o que o espelho da verdade nos mostra.

É como nos sonhos, bem se quer correr, mas é difícil correr no meio de gelatina, da pasta viscosa da nossa anomia, quando uma a uma se perdem as raríssimas oportunidades de fazer diferente. Até o Papa percebeu isso e fez o que fez aos bispos, só que nós, se o tivéssemos à civil, atirávamos pedras ao homem. Não se é feliz no país do Correio da Manhã, mas o país do Correio da Manhã é o nosso país.

Pacheco Pereira

(No Público de 18 de Novembro de 2007)

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QUEM MANDA INFLUENCIA SEMPRE

Novembro 23, 2007 · Deixe um comentário

Não pelos actos de mando, legítimos ou ilegítimos, mas porque vivemos num país que tem reverência com o poder, que tem pouco espaço para escapar à retaliação do poder, que tem pouco emprego fora dos cordelinhos do poder, que precisa sempre de qualquer decisão favorável do poder, que tem pouca, muito pouca, independência face ao poder e pouca, muito pouca, força cívica na opinião e na liberdade. É um velho atavismo, gostamos de ser mandados no corpo e na cabeça, nunca queremos responsabilidade, mas aceitamos a obediência. Somos desorganizados e incumpridores e desleixados, mas gostamos de saber que, algures, permanece uma ordem qualquer, para os outros claro, para os desviantes, para os mal-pensantes que têm a arrogância de não se entusiasmar com as regras do rebanho.

Portugal está cheio desta ordem do mando, como há muito tempo não se verificava. Ela está no PS, no PSD, no PP, no PCP e no BE, ela está no Governo dirigido por um conducator tecnocrático, autoritário e vingativo, para quem a liberdade e a democracia são valores menores subordinados à eficácia e ao culto do progresso, ela está numa comunicação social reverente e cada vez mais condicionada por agentes de comunicação profissionalizados, ela está numa economia tão dependente do Estado e do governo que se organiza mais para a influência junto ao poder do que para a competição, ela está numa sociedade civil tão dependente que não gera espaços de liberdade.

QUEM FICA MAIS POBRE DEVAGAR ACEITA CADA VEZ MAIS O MANDO

Porque é que já estivemos melhor e agora estamos pior e há retrocesso? Porque estamos a ficar mais pobres, com menos esperança, mais presos ao pouco que temos, mais confinados ao mesmo espaço minúsculo, todos em cima dos bens cada vez mais escassos a patrulhar para que os outros não fiquem com eles. Estamos a pagar o preço de um modelo “social” único, de uma Europa única, de um pensamento único que racionaliza este caminho para a pobreza como não tendo alternativa e pune a dissidência.

Só se pode ser pessimista e agir como pessimista, até porque a ideia de que os pessimistas não fazem nada é típíca dos optimistas na sua beatitude. (Abrupto)

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Universidade portuguesa

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

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CONSTRUIR UM PAÍS

Novembro 17, 2007 · 1 Comentário

PRECISA-SE DE MATÉRIA-PRIMA PARA CONSTRUIR UM PAÍS

Por EDUARDO PRADO COELHO

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos… e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram o lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é “muito chato ter que ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns. Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser “compradas”, sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.

Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes. Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.

Como “matéria-prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa “CHICO- ESPERTERTICE PORTUGUESA” congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte…

Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria-prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada… Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier.

Qual é a alternativa?

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa” não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados…igualmente abusados!

É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda… Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um Messias.

Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro… Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.

E você, o que pensa?…. MEDITE!

In “Público”

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Chávez não se cala

Novembro 15, 2007 · Deixe um comentário

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Paulo Pedroso

Novembro 15, 2007 · Deixe um comentário

Pedroso admitiu terem existido diligências junto do PGR

Paulo Pedroso admitiu hoje durante a sessão de julgamento do processo Casa Pia terem existido diligências de António Costa junto do antigo procurador-geral da República Souto Moura e do ex-bastonário da Ordem dos Advogados José Miguel Júdice.

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Membro

Novembro 14, 2007 · Deixe um comentário

Membro: integrante de corporação, organização, sociedade ou família; cada uma das partes de uma equação, separadas pelo sinal de igualdade ou desigualdade.

Para o tema que passo a abordar é ajustada a primeira explicação e sarcástica a segunda.

Todos, grosso modo, fomos ou somos, à nossa maneira, membros de uma corporação, entidade, sociedade ou família. Alguns são membros de um partido político. Têm cartão, pagam as quotas, recebem o jornal e, mais ou menos colaborantes, sentem-se porventura filiados na organização em equidade de deveres e direitos com qualquer outro seu igual. Devo, no entanto, referir que nem todos, à partida, se filiam com o mesmo intento. Aqui há, efectivamente, uma nítida separação de propósitos e interesses imediatos. Há os que se filiaram por acreditarem devotamente que o seu partido serve na perfeição os interesses dos cidadãos e do país. Há os que se filiaram por verem no partido uma franca possibilidade de sustentarem os seus interesses individuais. Devo ainda sublinhar que, não poucas vezes, com o andar da carruagem, estes intuitos se cruzam e se tornam miscíveis. É esta uma forma geral e genuinamente nacional de estar na política e, se quiserem, se servir da política.

Há, no entanto, que contar com o incontornável aparelho, peça condicionante do honesto e democrático sentimento da igualdade de deveres e direitos. Aparelho que, com as suas diversas especificidades, é transversal a todos os engenhos partidários.

Logo, de ânimo leve e de arranque, poderemos dizer que há duas mós no partido. Sendo que os militantes se dividem pela mó de baixo e pela mó de cima, consoante a facção que for dona do aparelho. Vale a pena relevar os do género militante contorcionista que têm por divisa: Bem com deus e com o diabo. Para estes mais ou menos assumidos militantes bóia, à partida, as mós são para os tansos, principalmente a de baixo.

Pormenorizando a questão, posso esgrimi-la da seguinte forma:
- No topo da pirâmide está a direcção, e mau grado um ou outro infiltrado e consequente agente duplo (papel difícil nos dias que correm), é que tem efectivamente o leme e a carta de marear na mão;
- Mais abaixo existe a comissão política, órgão onde se travam algumas guerras, geralmente de alecrim e manjerona, não muitas por mou de não partir o equilíbrio da cantareira das conveniências;
- Depois, espalhados pelos territórios e regiões, existem os directivos de base, órgãos que na generalidade se pautam por uma fidelidade efectiva com a cúpula nacional. E se não se pautam, o único remédio é passarem a pautar. Ainda que, uma vez por outra, se lhe permitam arrufos reivindicativos magnanimamente aceites pela cúpula, mas por demais demonstrativos da falácia democrática;
- Pelos órgãos acima elencados, para além do baronato, se espalham os funcionários que auferem o graveto e outras mordomias, os militantes contorcionistas e outros cortesãos. Desde os primórdios da social-democracia que, a esta facção autocrática, se achou conveniente chamar de nomenclatura;
- No deus dará do excedente militante existe ainda a amálgama do remanescente rebanho, ainda com as mós de baixo e de cima no tudo ao molho;
- Desta amálgama se serve a máquina para a tarefas menores, desde o colar cartazes a serem arregimentados para o laréu da propaganda da esferográfica e da bandeirinha. A amálgama deverá igualmente ter o condão da mobilidade, de modo a compor se necessário, qualquer comício no seu território ou noutros locais caso haja a suspeita de falta de massa crítica, sem que esta, verdadeiramente, tenha direito à crítica;
- Os da mó de cima presentes na dita amálgama, esgatanham como podem e dão lustro ao aparelho para saírem desta desesperante situação e ascenderem à nomenclatura, fiel depositária da esperança em mais elevados voos;
- Os da mó de baixo, quando muito, tornam-se contumazes na esquiva ao arregimentar para as tarefas menores e têm direito a arreganharem o dente nas assembleias ordinárias, isto, enquanto não lhes cortam seraficamente o pio.

Devo ainda referir uma espécie que paira pelas sedes partidárias, os inqualificáveis qualificados tarefeiros menores, geralmente militantes arreigados a uma fé canina que, desde o cafezinho ao macinho de cigarros para o chefe, são pau para toda a colher.

O rumo do partido está traçado pelos iluminados, nada nem ninguém o pode demover.

Um abraço ao compadre,

Joaquim Pulga

Crónica de Opinião

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Memória de África

Novembro 14, 2007 · Deixe um comentário

Por Paulo Dias Figueiredo, da Agência Lusa

Praia da Polana, Moçambique (colecção José dos Santos Rufino)
Praia da Polana, Moçambique (colecção José dos Santos Rufino)

Onze anos depois do lançamento, a biblioteca virtual do projecto Memória de África já conta com perto de 200 mil títulos considerados património comum de Portugal e dos países africanos lusófonos, e prepara-se para aportar ao Brasil.

imagem da igreja do Bom Jesus em Velha Goa
Goa espera fundos: imagem da igreja do Bom Jesus em Velha Goa

Entre os últimos acrescentos ao espólio está a Colecção de Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique (1929), de José dos Santos Rufino, ou o acervo do Arquivo Histórico de São Tomé e Príncipe, onde se encontram, por exemplo, as fichas de identificação dos antigos colonos quando estes chegavam à colónia e outro tipo de documentação a partir da qual é possível traçar o percurso cronológico individual de um colono ou trabalhador desde a sua entrada na colónia até ao seu repatriamento.

Entre os documentos há mais tempo “resgatados”, na maioria de colecções particulares, é possível encontrar algumas curiosidades como o “O Meu Primeiro Livro de Leitura”, publicado na então Guiné Portuguesa, de meados do século XX, ou a Didáctica das Lições do Primeiro Ano do Ensino Primário Rural, da colónia de Angola.

“As pessoas percebem que a digitalização e disponibilização livre é um modo de homenagear e perpetuar o legado de muitos técnicos e quadros do Estado que escreveram livros e relatórios sobre muitos aspectos desses países e que se não forem tratados deste modo se perdem para sempre ou são apenas úteis a meia dúzia de pessoas que os conhecem”, afirmou à Lusa Carlos Sagreman, professor da Universidade de Aveiro, um dos responsáveis do projecto.

Um mês que vale um ano

Além disso, adianta, “nestes últimos tempos acolhemos múltiplos contactos de pessoas que gostariam de encontrar as obras que pais e avós escreveram quando estiveram nos hoje chamados PALOP e que estão referenciadas na base de registos”. Onze anos depois do lançamento (Outubro de 1996), “faz num mês o que fazia num ano de páginas vistas e visitantes”, referiu.

Em Setembro, o número de visitantes ascendeu a 21.355, para um total de 85.233 páginas visitadas, mais 50 por cento do que no mesmo período do ano passado. O total de registos aproxima-se dos 196 mil, dos quais mil estão em fase de validação.

“Todos os meses se acrescentam registos e páginas digitalizadas”, disse Sangreman, responsável do projecto financiado pela Fundação Portugal África, e em que participam o Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) de Lisboa, além da Universidade de Aveiro, onde está o servidor que aloja a documentação digitalizada.

Memória de África

colecção de gravuras portuguesas

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Bienal Internacional de Arquitectura de São Paulo

Novembro 13, 2007 · Deixe um comentário

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“Campanha desesperada”

Novembro 12, 2007 · Deixe um comentário

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Nobel acusado de racismo está correto, diz cientista político

Novembro 7, 2007 · Deixe um comentário

Antes de James Watson, o Prêmio Nobel de 79 anos caído em desgraça depois de fazer comentários racistas, houve Charles Murray. Embora seja mais novo que o co-descobridor da estrutura do DNA, o cientista político norte-americano sessentão sofreu o mesmo tipo de crítica ao lançar “The Bell Curve” (A Curva do Sino, Free Press, 1994).

No livro, que escreveu com o psicólogo e professor de Harvard Richard Herrnstein (1930-1994), Murray defendia basicamente que a inteligência é o factor mais importante no sucesso das pessoas. Mas o barulho veio do que ambos escreveram em dois capítulos, que testes de QI (quoficiente de inteligência) apontavam que há diferenças entre raças, com brancos se saindo em média melhor do que negros.

Defensor da eugenia foi o adjetivo mais brando que ouviu então. Um telejornal chegou a colocar sua foto ao lado da de Hitler. Para comentar o caso de Watson, a Folha foi ouvir Murray, hoje um dos acadêmicos do conservador American Entreprise Institute, em Washington. Na longa entrevista por telefone, ele concorda com o ponto central do argumento do Nobel, defende a superioridade intelectual dos judeus e diz que a ação afirmativa será “uma desgraça” para o Brasil. A polêmica continua.

Leia o que já foi publicado sobre James Watson

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