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O Meu Nome É Legião — Parte 3
Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário
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O Meu Nome É Legião – Parte 2
Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário
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Entrevista de Mário Crespo a Lobo Antunes
Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário
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«Saber ler é tão difícil como saber escrever»
Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário
Podemos começar por falar de amor?
Se eu souber responder…
O título do seu novo romance, Eu Hei-de Amar Uma Pedra, nascendo embora de um canto popular, terá a ver, igualmente, com impossibilidades do amor?
Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstractos são perigosos.
Há uma personagem no livro, que, à quarta-feira, ao longo de décadas, vai, secretamente, a uma pensão da Graça, ama e ali morre…
Foi daí que o livro veio. Só mudei o sítio. Sempre me espantou essa extraordinária forma de amor. A sexualidade, sempre tão importante para mim – e continua a ser -, cada vez me parece mais vazia de sentido quando não há outro modo de diálogo e de encontro, embora seja muito difícil resistir ao desejo imediato.
Amor é algo mais?
A noção de amor varia de pessoa para pessoa. Muitas vezes estamos apaixonados ou estaremos agradecidos por gostarem de nós? Ou será que o outro é apenas alguém junto de quem nos sentimos menos sozinhos? Não sei bem o que é a verdade acerca do amor e duvido que haja quem saiba. Só tenho perguntas, não tenho respostas. Até que ponto o amor não é apenas a idealização de um outro e de nós mesmos?
Nunca é fácil salvar uma relação…
Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam. Não me preocupa muito. Preocupa-me em relação a mim mesmo, mas há grandes partes da minha vida que eliminei sem piedade. Não vou a jantares, não vou a lançamentos.
E não tem solidões?
Preciso e gosto de estar sozinho.
Ao fim de 25 anos de vida literária, celebrados hoje, quem é António Lobo Antunes para António Lobo Antunes?
Vida literária custa-me a engolir, soa pretensiosa. Digo que se passam 25 anos sobre a publicação do primeiro romance [Memória de Elefante], que andou em bolandas, de editora em editora, a ser rejeitado. Quando saiu, já tinha acabado mais dois livros. Mas 25 anos é muito tempo e serve para ver que já não terei mais 25 para escrever.
Em princípio, a morte não está nas nossas mãos…
Às vezes, a gente morre por desatenção. Outras vezes morre-se quando se pode. Mas, a maior parte das vezes, morremos porque se nos acabou a saúde. Não fomos feitos para a morte, a não ser para a morte voluntária. A involuntária sempre me pareceu uma tremenda injustiça, para não falar em crueldade.
A intensidade poética da sua prosa é para aliviar tensões entre as personagens?
Não me é consciente. Uma coisa para mim é clara: tenho de proteger os meus ovos, que são os meus livros. Se racionalizar as coisas, perco-as. Estaria a fechar portas a mim mesmo e a essas coisas, que não sei bem se me pertencem, e emergem com essa força. Nos momentos felizes, a mão anda sozinha. A cabeça está a ver ao longe e fica contente, porque são as palavras certas que a cabeça não encontraria. É a mão.
Como dissocia o escritor da obra?
Não tenho bem a sensação de o livro nascer de mim. Faço a primeira versão, trabalho muito a segunda, no entanto, depois de entregar o livro, não vejo provas, não faço mais nada. Tudo o que quero é fazer outro. O livro só existe quando estou a escrever. E o tempo é-me muito curto. Se fizer mais dois ou três…
Um autor acéfalo conseguirá realizar uma obra-prima?
Se tiver uma mão suficientemente grande… Prende-se com um conjunto de coisas: primeiro, é preciso ter lido muito. Aprende-se a escrever, lendo. E também é necessária uma grande humildade face ao material da escrita. É a mão que escreve. A nossa mão é mais inteligente do que nós. Não é o autor que tem de ser inteligente, é a obra. O autor não escreve tão bem quanto os livros.
Está a dizer-me que o livro, em relação ao autor, é uma mentira?
Estou a dizer que o livro é melhor do que eu. Não escrevo assim tão bem.
Quem escreve o livro por si?
Um dia, em conversa com Eduardo Lourenço, a propósito de criação literária, ele lembrava o soneto de Pessoa (de quem não sou grande fã e ele é), que fala de «emissário de um rei desconhecido (…)», uma espécie de mensageiro. Há uns tempos, disse ao telefone, ao meu agente, ter a sensação de que era um anjo que estava a escrever por mim. Lembrei- -me, então, que anjo quer dizer mensageiro. Quando estou a escrever, parece que estão a ditar-me e a mão a reproduzir.
Considera-se um predestinado?
Não. Isso até aumenta a humildade. Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.
Despojamento, uma outra riqueza?
Quando uma pessoa morre, tira-se-
-lhe a roupa, objectos pessoais, o dinheiro, os óculos. Que vão vestir os mortos quando voltarem? Que dinheiro têm para comer quando voltarem? Morro, podem ficar os livros, mas os livros não são eu, que terei a boca cheia de terra e estarei no céu ou em parte alguma. Que diferença me faz? Quando voltar, com que óculos é que vou ler?
Como regressam os mortos?
E será que partem? Sou um homem religioso. Há um provérbio húngaro muito velho que diz: «Na cova do lobo não há ateus.» O nosso problema é se Deus acreditará em nós. Deus, porém, tem coisas incompreensíveis para mim. Acho que gosta muito dos tolos, porque não pára de os fazer. Mas, se calhar, o caminho de Deus terá tais profundezas que a gente não as entende. Tenho, sobretudo, a experiência das perdas. A perda de qualquer amigo é uma ferida que nunca cicatriza. A perda de pessoas de quem gostei, e que não são substituídas por nada, deixaram vazios que nunca serão preenchidos. Isso também ajuda a tornar-nos humildes.
Na desmultiplicação do narrador, em Eu Hei-de Amar Uma Pedra, todas as personagens se confrontam com perdas…
Dizem que os meus romances são polifónicos. Não são. É sempre a mesma voz que fala e gostaria que fosse também a voz interior do leitor. Ou melhor: essa voz não fala, nós é que a ouvimos.
Uma voz que se desdobra em vozes de muitas sombras?
Sombras, luzes. Gostaria que fossem vozes totais, para mim são vozes totais, porque trazem consigo carne, corpo. O drama é que a gente está a ler em folhas de papel. E, no entanto, nunca tive a sensação de fazer ficções.
O seu novo romance parte de fotografias. São o maior registo da memória?
Não acho que os romances sejam novos. Existem há muito tempo, à espera que seja capaz de chegar a eles. Em miúdo, conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento. Mas temos fotógrafos geniais.
Não tirou fotografias às suas filhas?
A ninguém. Da mesma maneira que nunca gosto de me ver fotografado.
Acha-se feio?
Nunca lidei bem com o meu corpo. Vejo agora fotografias de quando era bebé ou de há 30 anos, e era bonito. Quando tinha 18 anos, as mulheres metiam conversa comigo.
Em dado momento da sua vida, isso foi razão para o tornar vaidoso?
Não era importante. Importante era que as mulheres fossem bonitas. As mulheres sempre exerceram um grande fascínio sobre mim.
Sentiu falta de um elemento feminino entre os seus seis irmãos?
Não podia sentir, porque não sabia o que era o elemento feminino.
Havia a mãe, as avós…
As mães, os pais não têm sexo. A mãe era a mãe, e mulher do meu pai. Também não sabia muito bem o que era ser mulher do meu pai. Julgo que todos os miúdos vêem os pais de uma maneira assexuada. Eu via a barriga da minha mãe a crescer mas não sabia qual o mecanismo que fazia com que a barriga da minha mãe crescesse.
Acreditava que os bebés chegavam no bico de uma cegonha?
Comigo era diferente. O meu pai estava na Alemanha, vinha uma vez por ano e a barriga da minha mãe começava a crescer. Sabia que tinha alguma coisa a ver com o facto de o meu pai ter estado cá. Mas nunca os vi beijarem-se, não sabia muito bem como aquilo era feito.
Não se falava de sexualidade às crianças. Hoje, o próprio ensino dá-lhe alguma atenção. É melhor?
Não faço juízos de valor, não sou médico.
É médico psiquiatra…
Já não faço nada disso. Só escrevo palavras. Nunca analisei essa parte, só me interessava tentar entender. Se analisarmos, não entendemos.
Como se chega ao entendimento sem análise, sem crítica?
Por osmose. Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver. Acho que era Malraux quem dizia: «A partir do momento em que a gente compreende, deixa de julgar.»
Que tempo vivemos: o do julgamento?
Tenho uma vida um pouco especial. Estive recentemente na Roménia, um país que me encanta e me faz reaprender o que é a liberdade. Um país muito parecido connosco…
No aspecto da liberdade?
No da latinidade. Quando voltei, havia todas essas coisas provocadas por este espantoso governo que temos. Tudo o que se tem passado me dá vontade de rir. Nós nunca vivemos em democracia, tal como os EUA não vivem em democracia. A democracia implicaria um referendar constante das decisões, e isso não acontece.
Há eleições…
Vota-se de quatro em quatro anos, mas, entre esses quatro anos, não nos pedem opinião. O que se tem verificado em Portugal, a propósito da liberdade de imprensa, não passa de uma luta de poder igual a tantas outras. De uma forma geral, olho para os políticos com uma indulgência divertida, sejam de que partidos forem. Há pouco tempo, estava no estrangeiro, num encontro com cento e tal escritores, e ouvi falar de Portugal por causa do «barco do aborto». Comentava-se que um ministro nosso terá dito: O mar português é um mar com princípios. Foi um motivo de troça à minha custa, que não tinha culpa nenhuma.
Portugal é diferente dos outros países?
Claro que não. Nem somos piores. E temos uma língua espantosa. E um clima maravilhoso. Cada vez me seria mais difícil viver longe de Portugal. Gosto muito do meu país.
Costuma ler as críticas à sua obra?
Devo ser dos poucos autores que não lêem as críticas, sejam boas ou más. O que faço ainda é cedo para ser compreendido. Tenho a sensação que estou a escrever coisas maiores do que eu. É preciso deixar passar um tempo. Talvez daqui a 50 ou cem anos seja tudo mais claro. Se uma pessoa está à frente do seu tempo, isso provoca reacções contraditórias. Mas há críticos excelentes que iluminam zonas de sombra dos livros. É também preciso grande humildade para se escrever sobre o que se lê e não julgar-se um livro com a nossa chave. Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons.
Prefere que a chave dos seus livros fique na posse do leitor?
A chave vem com o livro. Saber ler é tão difícil como saber escrever.
Há quem tenha dificuldade em entrar nos seus livros…
Para mim, os livros que escrevo são óbvios e evidentes. Ao lermos certos autores muito bons – estou a pensar no Conrad -, parece caminhar-se no meio do nevoeiro e, de repente, o nevoeiro começa a levantar-se e o livro fica totalmente claro. Quando, aos 20 anos, via um filme de Bergman, aborrecia-me profundamente.
A partir de que idade começou a entender Ingmar Bergman, considerado o cineasta da memória?
A partir dos 40, comovia-me até às lágrimas. Era eu que não estava preparado para ver aqueles filmes e notar o quanto de mim existia neles. Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.
Quando na sua escrita suspende a frase, a palavra, deseja deixar portas abertas? Pretende ter o leitor como um interlocutor constante?
Fui compreendendo que tinha de pôr a prosa a respirar de uma outra forma. É também uma maneira de pontuar. O problema é como isso se traduz para outras línguas. Neste momento, na Rússia, estamos com problemas de tradutores de português; traduz-se a partir do alemão. O português, em muitos países, é como o esloveno para nós. Um país onde se traduz maravilhosamente é em Espanha.
Que imagem tem da língua portuguesa, falada por 250 milhões?
Na sua maior parte, as pessoas que conhecem o português em alguns países conhecem o português do Brasil, cujo léxico e musicalidade são diferentes. Julgo que o meu português coloca problemas específicos. Estou a lembrar-me do problema que foi para um tradutor expressões como alto lá com o charuto. Todas as línguas têm a sua idiossincrasia. Uma tradução acaba por ser uma fotografia a preto e branco.
Sente-se bem a escrever em português?
É a minha língua, não me imagino a escrever noutra.
Nos seus livros faz sempre uma visita à infância. É o património mais vasto e rico da sua escrita?
Queria que os livros tivessem todos os tempos da minha vida. Talvez a partir de uma certa idade estejamos mais atentos à nossa infância.
Estou a lembrar-me de Séneca, que diz: «Ama como se morresses hoje.» No seu caso, escreve como se pudesse morrer hoje?
Não quero nada morrer hoje. Estou a meio de um livro, não o queria deixar imperfeito. E queria viver mais dois anos para fazer outro, e mais dois para fazer outro, como se andasse a negociar a vida. Gostaria de ter mais dez anos para escrever. E se calhar, mesmo morto, a mão vai continuar a avançar.
Quando poderá o escritor ter a percepção de que deve parar?
A partir de certo momento, tudo começa a ossificar-se. Muitas vezes não temos essa percepção.
Tem palavras por meio das quais procure um significado absoluto?
Tenho aprendido mais a escrever com os poetas do que com os prosadores. Em poesia, pelo menos nos poetas que admiro, cada palavra tem um brilho próprio. Mas não gosto de dividir as coisas em romance, conto, novela, poema.
Convoca tantas flores para os seus livros… Fazem parte da sua natureza?
Vivo sem flores, não tenho flores em casa. Vivo com livros e quadros, a maior parte oferecidos pelo Júlio Pomar. Nunca tive bens materiais. Nem uso relógio. Posso fazer a mala e ir-me embora. Não estou agarrado às coisas.
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António Lobo Antunes escritor DN.TEMA: 25 anos de vida literária «Saber ler é tão difícil como saber escrever» |
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«Saber ler é tão difícil como saber escrever»
Dezembro 5, 2007 · Deixe um comentário
Podemos começar por falar de amor?
Se eu souber responder…
O título do seu novo romance, Eu Hei-de Amar Uma Pedra, nascendo embora de um canto popular, terá a ver, igualmente, com impossibilidades do amor?
Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstractos são perigosos.
Há uma personagem no livro, que, à quarta-feira, ao longo de décadas, vai, secretamente, a uma pensão da Graça, ama e ali morre…
Foi daí que o livro veio. Só mudei o sítio. Sempre me espantou essa extraordinária forma de amor. A sexualidade, sempre tão importante para mim – e continua a ser -, cada vez me parece mais vazia de sentido quando não há outro modo de diálogo e de encontro, embora seja muito difícil resistir ao desejo imediato.
Amor é algo mais?
A noção de amor varia de pessoa para pessoa. Muitas vezes estamos apaixonados ou estaremos agradecidos por gostarem de nós? Ou será que o outro é apenas alguém junto de quem nos sentimos menos sozinhos? Não sei bem o que é a verdade acerca do amor e duvido que haja quem saiba. Só tenho perguntas, não tenho respostas. Até que ponto o amor não é apenas a idealização de um outro e de nós mesmos?
Nunca é fácil salvar uma relação…
Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam. Não me preocupa muito. Preocupa-me em relação a mim mesmo, mas há grandes partes da minha vida que eliminei sem piedade. Não vou a jantares, não vou a lançamentos.
E não tem solidões?
Preciso e gosto de estar sozinho.
Ao fim de 25 anos de vida literária, celebrados hoje, quem é António Lobo Antunes para António Lobo Antunes?
Vida literária custa-me a engolir, soa pretensiosa. Digo que se passam 25 anos sobre a publicação do primeiro romance [Memória de Elefante], que andou em bolandas, de editora em editora, a ser rejeitado. Quando saiu, já tinha acabado mais dois livros. Mas 25 anos é muito tempo e serve para ver que já não terei mais 25 para escrever.
Em princípio, a morte não está nas nossas mãos…
Às vezes, a gente morre por desatenção. Outras vezes morre-se quando se pode. Mas, a maior parte das vezes, morremos porque se nos acabou a saúde. Não fomos feitos para a morte, a não ser para a morte voluntária. A involuntária sempre me pareceu uma tremenda injustiça, para não falar em crueldade.
A intensidade poética da sua prosa é para aliviar tensões entre as personagens?
Não me é consciente. Uma coisa para mim é clara: tenho de proteger os meus ovos, que são os meus livros. Se racionalizar as coisas, perco-as. Estaria a fechar portas a mim mesmo e a essas coisas, que não sei bem se me pertencem, e emergem com essa força. Nos momentos felizes, a mão anda sozinha. A cabeça está a ver ao longe e fica contente, porque são as palavras certas que a cabeça não encontraria. É a mão.
Como dissocia o escritor da obra?
Não tenho bem a sensação de o livro nascer de mim. Faço a primeira versão, trabalho muito a segunda, no entanto, depois de entregar o livro, não vejo provas, não faço mais nada. Tudo o que quero é fazer outro. O livro só existe quando estou a escrever. E o tempo é-me muito curto. Se fizer mais dois ou três…
Um autor acéfalo conseguirá realizar uma obra-prima?
Se tiver uma mão suficientemente grande… Prende-se com um conjunto de coisas: primeiro, é preciso ter lido muito. Aprende-se a escrever, lendo. E também é necessária uma grande humildade face ao material da escrita. É a mão que escreve. A nossa mão é mais inteligente do que nós. Não é o autor que tem de ser inteligente, é a obra. O autor não escreve tão bem quanto os livros.
Está a dizer-me que o livro, em relação ao autor, é uma mentira?
Estou a dizer que o livro é melhor do que eu. Não escrevo assim tão bem.
Quem escreve o livro por si?
Um dia, em conversa com Eduardo Lourenço, a propósito de criação literária, ele lembrava o soneto de Pessoa (de quem não sou grande fã e ele é), que fala de «emissário de um rei desconhecido (…)», uma espécie de mensageiro. Há uns tempos, disse ao telefone, ao meu agente, ter a sensação de que era um anjo que estava a escrever por mim. Lembrei- -me, então, que anjo quer dizer mensageiro. Quando estou a escrever, parece que estão a ditar-me e a mão a reproduzir.
Considera-se um predestinado?
Não. Isso até aumenta a humildade. Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.
Despojamento, uma outra riqueza?
Quando uma pessoa morre, tira-se-
-lhe a roupa, objectos pessoais, o dinheiro, os óculos. Que vão vestir os mortos quando voltarem? Que dinheiro têm para comer quando voltarem? Morro, podem ficar os livros, mas os livros não são eu, que terei a boca cheia de terra e estarei no céu ou em parte alguma. Que diferença me faz? Quando voltar, com que óculos é que vou ler?
Como regressam os mortos?
E será que partem? Sou um homem religioso. Há um provérbio húngaro muito velho que diz: «Na cova do lobo não há ateus.» O nosso problema é se Deus acreditará em nós. Deus, porém, tem coisas incompreensíveis para mim. Acho que gosta muito dos tolos, porque não pára de os fazer. Mas, se calhar, o caminho de Deus terá tais profundezas que a gente não as entende. Tenho, sobretudo, a experiência das perdas. A perda de qualquer amigo é uma ferida que nunca cicatriza. A perda de pessoas de quem gostei, e que não são substituídas por nada, deixaram vazios que nunca serão preenchidos. Isso também ajuda a tornar-nos humildes.
Na desmultiplicação do narrador, em Eu Hei-de Amar Uma Pedra, todas as personagens se confrontam com perdas…
Dizem que os meus romances são polifónicos. Não são. É sempre a mesma voz que fala e gostaria que fosse também a voz interior do leitor. Ou melhor: essa voz não fala, nós é que a ouvimos.
Uma voz que se desdobra em vozes de muitas sombras?
Sombras, luzes. Gostaria que fossem vozes totais, para mim são vozes totais, porque trazem consigo carne, corpo. O drama é que a gente está a ler em folhas de papel. E, no entanto, nunca tive a sensação de fazer ficções.
O seu novo romance parte de fotografias. São o maior registo da memória?
Não acho que os romances sejam novos. Existem há muito tempo, à espera que seja capaz de chegar a eles. Em miúdo, conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento. Mas temos fotógrafos geniais.
Não tirou fotografias às suas filhas?
A ninguém. Da mesma maneira que nunca gosto de me ver fotografado.
Acha-se feio?
Nunca lidei bem com o meu corpo. Vejo agora fotografias de quando era bebé ou de há 30 anos, e era bonito. Quando tinha 18 anos, as mulheres metiam conversa comigo.
Em dado momento da sua vida, isso foi razão para o tornar vaidoso?
Não era importante. Importante era que as mulheres fossem bonitas. As mulheres sempre exerceram um grande fascínio sobre mim.
Sentiu falta de um elemento feminino entre os seus seis irmãos?
Não podia sentir, porque não sabia o que era o elemento feminino.
Havia a mãe, as avós…
As mães, os pais não têm sexo. A mãe era a mãe, e mulher do meu pai. Também não sabia muito bem o que era ser mulher do meu pai. Julgo que todos os miúdos vêem os pais de uma maneira assexuada. Eu via a barriga da minha mãe a crescer mas não sabia qual o mecanismo que fazia com que a barriga da minha mãe crescesse.
Acreditava que os bebés chegavam no bico de uma cegonha?
Comigo era diferente. O meu pai estava na Alemanha, vinha uma vez por ano e a barriga da minha mãe começava a crescer. Sabia que tinha alguma coisa a ver com o facto de o meu pai ter estado cá. Mas nunca os vi beijarem-se, não sabia muito bem como aquilo era feito.
Não se falava de sexualidade às crianças. Hoje, o próprio ensino dá-lhe alguma atenção. É melhor?
Não faço juízos de valor, não sou médico.
É médico psiquiatra…
Já não faço nada disso. Só escrevo palavras. Nunca analisei essa parte, só me interessava tentar entender. Se analisarmos, não entendemos.
Como se chega ao entendimento sem análise, sem crítica?
Por osmose. Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver. Acho que era Malraux quem dizia: «A partir do momento em que a gente compreende, deixa de julgar.»
Que tempo vivemos: o do julgamento?
Tenho uma vida um pouco especial. Estive recentemente na Roménia, um país que me encanta e me faz reaprender o que é a liberdade. Um país muito parecido connosco…
No aspecto da liberdade?
No da latinidade. Quando voltei, havia todas essas coisas provocadas por este espantoso governo que temos. Tudo o que se tem passado me dá vontade de rir. Nós nunca vivemos em democracia, tal como os EUA não vivem em democracia. A democracia implicaria um referendar constante das decisões, e isso não acontece.
Há eleições…
Vota-se de quatro em quatro anos, mas, entre esses quatro anos, não nos pedem opinião. O que se tem verificado em Portugal, a propósito da liberdade de imprensa, não passa de uma luta de poder igual a tantas outras. De uma forma geral, olho para os políticos com uma indulgência divertida, sejam de que partidos forem. Há pouco tempo, estava no estrangeiro, num encontro com cento e tal escritores, e ouvi falar de Portugal por causa do «barco do aborto». Comentava-se que um ministro nosso terá dito: O mar português é um mar com princípios. Foi um motivo de troça à minha custa, que não tinha culpa nenhuma.
Portugal é diferente dos outros países?
Claro que não. Nem somos piores. E temos uma língua espantosa. E um clima maravilhoso. Cada vez me seria mais difícil viver longe de Portugal. Gosto muito do meu país.
Costuma ler as críticas à sua obra?
Devo ser dos poucos autores que não lêem as críticas, sejam boas ou más. O que faço ainda é cedo para ser compreendido. Tenho a sensação que estou a escrever coisas maiores do que eu. É preciso deixar passar um tempo. Talvez daqui a 50 ou cem anos seja tudo mais claro. Se uma pessoa está à frente do seu tempo, isso provoca reacções contraditórias. Mas há críticos excelentes que iluminam zonas de sombra dos livros. É também preciso grande humildade para se escrever sobre o que se lê e não julgar-se um livro com a nossa chave. Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons.
Prefere que a chave dos seus livros fique na posse do leitor?
A chave vem com o livro. Saber ler é tão difícil como saber escrever.
Há quem tenha dificuldade em entrar nos seus livros…
Para mim, os livros que escrevo são óbvios e evidentes. Ao lermos certos autores muito bons – estou a pensar no Conrad -, parece caminhar-se no meio do nevoeiro e, de repente, o nevoeiro começa a levantar-se e o livro fica totalmente claro. Quando, aos 20 anos, via um filme de Bergman, aborrecia-me profundamente.
A partir de que idade começou a entender Ingmar Bergman, considerado o cineasta da memória?
A partir dos 40, comovia-me até às lágrimas. Era eu que não estava preparado para ver aqueles filmes e notar o quanto de mim existia neles. Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.
Quando na sua escrita suspende a frase, a palavra, deseja deixar portas abertas? Pretende ter o leitor como um interlocutor constante?
Fui compreendendo que tinha de pôr a prosa a respirar de uma outra forma. É também uma maneira de pontuar. O problema é como isso se traduz para outras línguas. Neste momento, na Rússia, estamos com problemas de tradutores de português; traduz-se a partir do alemão. O português, em muitos países, é como o esloveno para nós. Um país onde se traduz maravilhosamente é em Espanha.
Que imagem tem da língua portuguesa, falada por 250 milhões?
Na sua maior parte, as pessoas que conhecem o português em alguns países conhecem o português do Brasil, cujo léxico e musicalidade são diferentes. Julgo que o meu português coloca problemas específicos. Estou a lembrar-me do problema que foi para um tradutor expressões como alto lá com o charuto. Todas as línguas têm a sua idiossincrasia. Uma tradução acaba por ser uma fotografia a preto e branco.
Sente-se bem a escrever em português?
É a minha língua, não me imagino a escrever noutra.
Nos seus livros faz sempre uma visita à infância. É o património mais vasto e rico da sua escrita?
Queria que os livros tivessem todos os tempos da minha vida. Talvez a partir de uma certa idade estejamos mais atentos à nossa infância.
Estou a lembrar-me de Séneca, que diz: «Ama como se morresses hoje.» No seu caso, escreve como se pudesse morrer hoje?
Não quero nada morrer hoje. Estou a meio de um livro, não o queria deixar imperfeito. E queria viver mais dois anos para fazer outro, e mais dois para fazer outro, como se andasse a negociar a vida. Gostaria de ter mais dez anos para escrever. E se calhar, mesmo morto, a mão vai continuar a avançar.
Quando poderá o escritor ter a percepção de que deve parar?
A partir de certo momento, tudo começa a ossificar-se. Muitas vezes não temos essa percepção.
Tem palavras por meio das quais procure um significado absoluto?
Tenho aprendido mais a escrever com os poetas do que com os prosadores. Em poesia, pelo menos nos poetas que admiro, cada palavra tem um brilho próprio. Mas não gosto de dividir as coisas em romance, conto, novela, poema.
Convoca tantas flores para os seus livros… Fazem parte da sua natureza?
Vivo sem flores, não tenho flores em casa. Vivo com livros e quadros, a maior parte oferecidos pelo Júlio Pomar. Nunca tive bens materiais. Nem uso relógio. Posso fazer a mala e ir-me embora. Não estou agarrado às coisas.
António Lobo Antunes
escritor
DN.TEMA: 25 anos de vida literária
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A morte é uma puta
Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário
O escritor surpreendeu os portugueses ao revelar numa crónica que tinha sido operado a um cancro no intestino. Não se coíbe de falar sobre o assunto, até porque a morte é palavra habitual nas páginas dos seus livros, mas comove-se ao relembrar aqueles dias e o pós-operatório. Uma coisa é certa, saiu deste susto um homem diferente e com vontade de ser mais sincero e de outro amar.
A porta que dá entrada na garagem onde escrevia naquela tarde fica no fundo de um beco. António Lobo Antunes enterra-se num sofá preto e pede para começar a entrevista com um certo ar de vamos cumprir o combinado. No fim, dirá que nem deu pelo tempo passar e encaminha-se para a “tasca” onde pede ao empregado o habitual. Desta vez, só deu duas entrevistas para ajudar o lançamento do novo livro – O Meu Nome é Legião. Está a trabalhar no próximo…
A MORTE
De vez em quando ameaça que só escreverá mais dois ou três livros. Perdeu a vontade?
Não só não é isso que eu tenho vontade como tão-pouco é uma ameaça. Está muito mais relacionado com o medo de não ser mais capaz de escrever. Aparece a cada livro que acabo e pergunto-me se serei capaz de fazer um próximo. Ninguém que escreva a sério vai poder dizer isso. Também é uma espécie de negociação com a morte, deixa-me escrever mais um, mais dois, mais três… Gostava de ter tempo para escrever outro e arredondar o trabalho, é um círculo que ainda não está completo.
Quantos livros faltam para fechar esse círculo. Só mais um?
Gostava que fossem mais porque o círculo vai aumentando sem nos darmos conta. Eu gostava de viver mais duzentos anos mas é improvável que os tenha.
Sofre muito ao escrever?
Há instantes de intensa felicidade – às vezes sinto as lágrimas a caírem-me pela cara – e momentos de grande irritação porque num dia consigo fazer meia página e no noutro só três linhas. O material resiste, as palavras não chegam, o livro não sai. Normalmente as primeiras duas, três horas são perdidas, os mecanismos sensórios ainda estão muito vivos. Então, quando começo a estar cansado, as coisas começam a articular-se com mais facilidade. É como quando estamos a dormir e de repente temos a sensação de termos descoberto os segredos da vida e do mundo, mas sabemos que estamos a dormir. Lutamos para acordar e quando chegamos à superfície não temos nada, diluiu-se enquanto fomos subindo. Quando consigo um estado próximo dos sonhos é muito mais fácil trabalhar e só o tenho estando fatigado.
Já experimentou algumas substâncias para atingir esse estado artificialmente?
Nunca tomei drogas, nunca apanhei uma bebedeira na vida. Não bebo café, não me dá prazer. Acho que o único vício que tenho é fumar.
Portanto, é bem comportado?
Não é uma questão de comportamento, em casa dos meus pais não havia vinho à mesa, só água. Eram muitos filhos…
É normal os filhos romperem hábitos!
Não havia vinho à mesa da mesma maneira que a roupa passava de uns para os outros. Os meus pais deram-nos uma educação de grande austeridade, não tinham muito dinheiro.
Quando faz o julgamento da convivência com a vida acha que ambos se dão bem?
Nunca me pus esse problema, tenho tentado viver o melhor que posso. Fiz certamente muitos erros e continuarei a fazer – espero que menos – mas nós não fomos feitos para a morte, fomos feitos para a vida e sempre me custou ver o sofrimento alheio. Quando fazia muita medicina, não era só o sofrimento que custava mas a minha impotência para com ele. Acho que as pessoas não foram feitas para a morte mas para a vida e para a alegria.
Mas não há escapatória para a morte!
É mais simples do que se pensa. Este ano, tive um problema de saúde e sofri isso na pele, acho que o problema está ultrapassado mas foi um ano duro. E a minha atitude era sobretudo de espanto, e a minha preocupação era ter uma atitude digna e não cobarde. Vi pessoas com uma coragem extraordinária e aprendi com elas lições de vida, coragem e dignidade. As pessoas comportavam-se como príncipes perante a situação e eu pensava estou aqui com pessoas que são melhores do que eu, com uma imensa dignidade no sofrimento. Isso foi uma coisa que me comoveu muito e fez pensar que vale a pena viver entre os homens e com eles. Todo o sofrimento é injusto… Em nome do quê é que uma criança de três anos morre com um cancro ou uma leucemia? É muito injusto, qual a razão disso? Sempre me intrigou a razão deste sofrimento porque o do interior tê-lo-emos sempre. Estamos carregados de dúvidas e certezas e as perguntas que nos fazemos ficam muitas vezes sem resposta. Porque vivo assim, em que falhei e magoamos pessoas sem darmos conta com uma frase que para nós é completamente anódina. Julgo que o segredo é estarmos atentos aos outros mas frequentemente não estamos e, sobretudo, não reparamos que são diferentes de nós. Daí o problema de escrever, como colocar em palavras coisas que por definição são anteriores às palavras? Como tentar cercá-las com palavras? Há zonas em mim que desconheço, portas que nunca abri e que, no entanto, aparecem nos livros e provocam-me uma certa perplexidade ao querer saber de onde é que isto vem, de que profundidades nossas, que todos temos.
O CANCRO
Por isso resguarda tanto a vida privada?
Ela não tem importância nenhuma, só a mim me diz respeito. Quando fui operado escrevi essa crónica sobre o cancro porque já havia tanto jornalista e gente à volta do hospital que resolvi ser eu a dizer: Tenho um cancro no intestino. Não me deu prazer nenhum dizê-lo e garanto que não me deu prazer nenhum tê-lo. O pós-operatório foi horrível e duro, felizmente tive a sorte de ter um grande cirurgião e de todos os que lá trabalhavam serem de uma grande delicadeza. Só tenho gratidão.
O cancro está controlado?
Está controlado, neste momento o que faço são revisões periódicas. Claro que pode haver uma surpresa – pode haver sempre! – mas até agora tem estado tudo bem. É óbvio que na véspera de uma revisão estou tenso e fico assim até saber o resultado mas também sei que se houver um problema o Henrique (o cirurgião) vai lá e resolve-o. Preciso de tempo, preciso desse tempo, preciso ainda de trabalhar.
Está a lutar contra a morte apesar dela estar sempre presente nos seus livros…
Espero que a vida também! É inútil lutar contra a morte tal como é inútil lutar contra a vida. É inútil porque a morte é uma puta – desculpem o palavrão mas é a única palavra que encontro. Quando o meu pai morreu, o padre que foi rezar a missa disse que detestava aquilo porque nós não fomos feitos para a morte. De facto não fomos… Há pessoas de quem gostávamos e que já não podemos tocar e ver e cuja morte foi tão injusta. Ainda no sábado fui a enterrar um camarada da guerra que morreu num acidente de automóvel. Foi muito comovente ver aqueles homens duros, que fizeram a guerra, a chorar como crianças. Eu chorei também, gostava muito dele e agora quando nos reunirmos ele não vai lá estar. E não faz sentido que o Zé não esteja. Eu tenho que viver pelo meu pai, pelo Cardoso Pires, pelo Melo Antunes, estão dentro de mim até eu acabar.
Como contrariar a morte?
Ela corre mais depressa do que qualquer um de nós e a única coisa que posso fazer para contrariar é escrever, a única duração que posso ter é a que os livros tiverem. E aborrece-me que seja assim, é injusto que seja assim, embora haja momentos em que todos nós desejamos morrer, de desânimo e solidão. Há momentos em que quase temos inveja dos mortos porque a vida nem sempre é agradável e fácil mas, agora depois de ver as pessoas lutarem no hospital, senti que muitos pensamentos que tinha eram indignos perante tanta grandeza.
Isso alterou a sua forma de ser?
Eu agora jogo com as cartas para cima, está tudo à vista porque é a única maneira de viver. Demorei anos a perceber porque o conhecimento da vida chega sempre tarde e pensamos que ocultando conseguimos dar boa imagem aos outros. Agora é: eu sou assim! Peguem, larguem, não posso ser amado pelo mundo inteiro embora a sede de amor seja inextinguível.
RELIGIÃO
Qual é a sua atitude perante Deus?
Existe um velho provérbio húngaro que diz que na cova do lobo não há ateus, por isso julgo que não existe quem não acredite. O nada não existe na física ou na biologia e quando se lêem os grandes físicos entende-se como eram homens profundamente crentes, que chegaram a Deus através da física e da matemática e que falavam de Deus de uma maneira fascinante. A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso, cada vez mais, não no sentido desta ou daquela igreja mas porque me parece que a ideia de Deus é óbvia. Cada vez mais o é para mim. É um bocado como diz Einstein, quando afirma que Deus não joga aos dados.
Como é essa relação?
É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo. O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria. A minha atitude em relação à religião é essa, não estou a falar de igrejas, estou a falar em relação a Deus e não acredito quando as pessoas dizem que são agnósticas ou ateias. Não estou a dizer que a pessoa não esteja a ser sincera, mas dentro dela e em qualquer ponto há algo… Uma vez perguntaram ao Hemingway se acreditava em Deus e a resposta foi às vezes, à noite.
Então à noite também acredita?
Acredito sempre mas a dúvida e pôr constantemente em questão é próprio da fé. Muitas vezes pergunto-me será que existe? É óbvio que sim.
Recentemente foram reveladas as dúvidas de madre Teresa sobre a sua própria fé…
Todos os teólogos as tiveram, Sto. Ambrósio dizia “não busco compreender para crer, creio para compreender”; Sto. Agostinho esteve cheio de dúvidas toda a vida e o Sto. António… O mesmo se passa em relação aos livros, pergunto-me será que isto está bem feito? Não é esta palavra ainda, será que é possível fazer aquilo que eu quero fazer ou será demasiado ambicioso?
O título do seu último livro vem da Bíblia?
Estava a passear no Evangelho e apareceu-me. Foi a primeira vez que fui à Bíblia, não tinha título nenhum, não sabia como havia de o chamar e de repente tropeço naqueles versículos do Evangelho de São Lucas e pensei: é isto.
A sua formação em Psiquiatria não lhe dificulta a convivência consigo próprio?
Se os psiquiatras compreendem a mente humana? Não, isso é a vida que nos ensina a entender os outros. Algumas das pessoas mais cultas que conheci eram analfabetas e algumas das coisas mais profundas que ouvi foram ditas por pessoas de pouca instrução. Uma mulher disse-me uma vez ‘quem não tem dinheiro não tem alma’.
Quando está a escrever nunca se sente como se estivesse no divã a tirar coisas de si?
Eu nunca deitei ninguém em nenhum divã e se o fiz ao longo da vida foi para me deitar lá também, não era para ficar a ouvi-la falar. A sensação que tenho é que estamos na idade da pedra do conhecimento, do entendimento humano e das emoções. Não sabemos nada, eu pelo menos sei muito pouco. Isto só tem a ver com a humildade, não sou vaidoso, apenas tenho orgulho. Sei mais ou menos qual é o meu lugar enquanto escritor e o resto da minha vida não é importante, falar da minha vida privada não tem importância nenhuma, os livros sim podem ser importantes mas eu até acho que todos deviam ser publicados anonimamente, sem nome de autor. Isso eliminaria imensos problemas.
O LIVRO
Neste livro O Meu Nome É Legião há uma violência constante?
Não sou eu que a trago, a violência é inerente à situação do livro.
Preocupa-o essa violência quase selvagem num mundo civilizado?
Se é selvagem, o mundo não é civilizado.
Como vê uma realidade com que não é obrigado a conviver?
Era mais ou menos inevitável que isto acontecesse num país onde o abandono, a desigualdade social e a miséria são tão grandes. Com o estrangulamento da classe média era inevitável.
Acha que o Governo devia ter outra atitude?
Não tenho nada que achar porque não sou Governo nem quero ser mas, obviamente, acho que devia haver maior atenção para isto. A partir da altura em que as desigualdades se tornam gritantes é claro que estas crianças são empurradas para a delinquência.
Houve um tempo em que teve militância política. Os partidos terão resposta para estas questões?
Não sei responder mas se achasse que era útil ainda continuava a tê-la. Sou demasiado individualista e rebelde para aceitar uma disciplina partidária, além disso as opções políticas são tão afectivas como as opções clubísticas. Há pessoas de direita mais democratas que as de esquerda, há partidos de esquerda mais conservadores, as ideologias foram-se dissolvendo e a maior parte dos partidos são frentes e aqueles que ainda têm ideologia, ela está caduca. O único partido que vejo com corpo ideológico mais ou menos coerente é o Partido Comunista mas é de um tempo que já não existe. As conquistas de Abril, onde estão? Foram importantes mas passado todo este tempo…
Acha que este Governo é culpado?
Não sei e não estou preparado para responder mas se houvesse eleições – votei muito poucas vezes na vida – e fosse votar era no partido que está no Governo, porque não vejo alternativas.
Por ser o partido que está no Governo ou por ser o Partido Socialista?
Não me parece que este seja o PS do Mário Soares, o que foi fundado em 1973…
Não lhe parece porquê?
Pela prática e pela teoria, mas posso estar enganado.
Conseguiu terminar o livro mas os problemas destes jovens não se resolvem!
Não me compete a mim, sou só um escritor. Esta pergunta terá que ser feita a outro tipo de pessoas, dos que têm respostas para tudo.
Mas se a sua mão seguiu esse caminho foi porque a cabeça também o exigiu?
Eu queria falar era da vida toda, nunca imaginei que saísse assim, nunca estive nestes bairros e nunca conheci estes miúdos. O problema é que não pertencem a parte nenhuma, nasceram cá mas não ganharam Portugal e os pais perderam África. Às vezes comovia-me com a dificuldade de viver deles.
Há frases no livro que revelam racismo!
Pelo menos esses brancos do livro assim o pensam. O racismo é inevitável, vem do medo e do desconhecimento… Às vezes penso que muitas pessoas são como os liberais americanos que dizem dos negros és meu irmão mas nunca serás meu cunhado. Sempre me interroguei porque vi o racismo contra nós portugueses em países como a França. Quando fui receber uma condecoração a Paris, um dos membros do Governo disse-me que pensava que fosse espanhol e ao saber respondeu-me: ‘É português. É engraçado a minha mulher a dias também.’ Isto é profundamente racista, eu estava ao nível da empregada e ao mesmo tempo ali a receber uma condecoração do Presidente.
Há também uma mulher que lamenta não ser branca!
Da mesma maneira que os pobres gostariam de ser ricos, que alguns queriam ser saudáveis… No fundo, o que ela estará a dizer é que gostaria de ter determinados privilégios que no entendimento dela os brancos têm. Mal sabe que o racismo existe entre as várias classes sociais e continua a ser marcante no nosso país.
Mas a desigualdade e a violência preocuparam-no mais neste livro?
Claro que me preocuparam mas sempre houve e até os escritores estabelecem hierarquias ao nível social, para não falar ao nível da literatura. Mas também quantos grandes escritores há hoje em dia a escrever? Três ou quatro no mundo inteiro já não é nada mau, estamos muito longe do século XIX quando havia trinta génios ao mesmo tempo.
Não receia que o seu universo fique desajustado da realidade em que vivemos?
Nunca pensei nisso. Falamos do universo ficcional? Não sei, vivo neste tempo e a realidade é uma coisa que não existe – é muito subjectiva – mas é neste tempo que eu vivo e este é que me foi dado a ter.
Muitas das referências ideológicas do início da sua carreira desapareceram?
Em grande parte por nossa culpa, não fomos suficientemente sedutores para a juventude e refiro-me à participação cívica. Agora, há a ideologia do imediato, do eu quero ser célebre, famoso e rico, jovem e bonito, vive-se uma época de adolescentocracia, o que para mim é repugnante. Uma das minhas filhas esteve em Itália a estudar e as colegas de 17/18 anos quando acabavam o liceu pediam aos pais uma plástica como presente. Houve uma enorme quantidade de valores que a publicidade trouxe e que são seguidos por muitas pessoas.
Nas suas viagens tem medo do terrorismo?
Quando estive em Bogotá era sempre levado por trajectos diferentes porque as pessoas são raptadas na rua em troca de resgates. Fui cobarde tempo de mais para continuar a sê-lo, já não tenho medo. É uma coisa horrível a cobardia, foi em África que me libertei disso tudo, onde aprendi a existência dos outros. Eu nunca teria sido um escritor se não tivesse tido aquela experiência, que mudou muito a minha vida e fez-me perder a concepção ptolemaica do mundo. Passei a faculdade a jogar xadrez, a escrever e a ler, os movimentos estudantis de revolta contra a ditadura passaram-me ao lado por desinteresse e cobardia minha. Tinha medo da polícia, que carregassem na manifestação. Na guerra eu ofereci-me para várias coisas, justamente para me vencer a mim mesmo, para não me envergonhar. A coragem talvez seja uma das formas supremas da elegância e isso os nossos soldados tinham.
Mais alguma vez se sentiu cobarde?
Não.
O sucesso precoce atormentou-o?
Fiquei de boca aberta porque o livro tinha sido sempre recusado. Fui de férias e quando voltei o livro estava por todo o lado e a vender. Foi um espanto, nunca imaginei isto como também o que tem acontecido noutros países. Ainda agora, quando estive doente, vieram milhares de cartas de portugueses. Nunca imaginei que as pessoas fossem tão generosas comigo, dei-me conta que os livros eram importantes para muita gente e acho que não o mereço. Em nome disso tenho a obrigação de dar livros que sejam bons.
Não tem medo de desiludir?
Claro que tenho. Não gostaria nada que estas pessoas que se deram ao trabalho de me escrever ficassem desiludidas com o livro. Afinal, este homem não vale nada e eu gostava dele.
Muito do seu escrever actual é feito de uma reescrita, um livro procura o outro…
Sente isso? Eu queria neste livro dar tudo por tudo e foi um livro que me deu prazer e indignação. Porque estes miúdos que eu não conheço estão à procura de carinho mas não sabem como dá-lo. Do meu ponto de vista, tenho melhorado de livro para livro, sei que nunca vou conseguir lá chegar mas estou mais perto daquilo que queria escrever. Acho que marca um progresso em relação ao livro anterior e espero que o que estou a escrever marque um progresso em relação a este.
O ESCRITOR
Não vê televisão, quase não lê jornais mas quando se começa a ler o livro faz lembrar uma notícia!
Na minha cabeça era um relatório de polícia mas não sei como são porque nunca li nenhum.
Mas aquele início é de quem lê jornais…
Não tenho muito tempo e depois se o vejo fico perdido a ler o jornal. Houve uma altura em que lia A Bola todos os dias… Da televisão, fui-me afastando à medida em que também o fazia do Benfica. Agora já não vejo jogos de futebol, desde que deixou de ser um desporto…
Este Benfica já não o atrai?
Claro que me atrai, continuo a gostar do Benfica mas quando eu era miúdo o lar dos jogadores do clube era ao pé de casa dos meus pais e eles desciam a rua com o fato civil e o emblema na lapela… Era impensável que o Coluna ou o Eusébio fossem jogar para o Sporting ou que o Travassos jogasse no Benfica, eles eram daquele clube. Agora é uma indústria, são sociedades anónimas, deixou de ser um desporto. Os treinadores dizem é preciso paciência, o que é o contrário do desporto e todo o lado lúdico que me interessava deixou de existir, sendo substituído por uma eficácia de marcar golos e de ganhar por interesses económicos. Lembro-me de ter lido uma entrevista do Jesus Correia há muito anos em que ele dizia que o seu doping era o arroz doce que a mãe lhe fazia. Ainda havia aquele prazer como se encontrava no Brasil, de fintar e voltar atrás, como o Garrincha fazia.
Não pára o livro para ver um jogo do Benfica?
Não, já não. Tenho muita pena.
Mas teve conhecimento do murro do Scolari?
É-me completamente indiferente. Não acho normal nem anormal, é-me indiferente. Nem sei se deu o murro… Vi na televisão, foi uma patetice e não comento patetices.
Uma patetice de quem?
Eu não sei o que se passou. Vi o homem estender a mão mas aquilo nem me pareceu um murro, porque se eu der um murro não é assim.
E considera normal que José Mourinho tenha mais biografias do que a maior parte dos escritores portugueses?
Acho natural. José Mourinho atrai mais que Camões ou Shakespeare, as pessoas vivem cada vez mais no sentido hedonista. Não me repugna nada, nem me faz diferença, porque não é isso que tira o público dos livros. As pessoas continuam a comprar livros, portanto esta situação não me incomoda nada.
Um dos prazeres que tinha era dançar. Como é que isso vai de danças?
Não tenho tempo agora.
E tem par?
Isso de arranjar par não deve ser complicado.
Continua a ouvir música?
Tenho problemas de audição e praticamente já não ouço música porque os sons vêm distorcidos.
Disse uma vez que preferia ouvir a Ágata ou Emanuel aos Madredeus?
Disse isso? Eu nem sei bem… Não me recordo de o ter dito, deve ter sido uma boutade. Se me perguntar o nome de uma música desse conjunto não sei mas também não sei dessas outras pessoas referidas.
Mas do jazz continua a gostar?
Não tenho ouvido mas claro que gosto muito porque enquanto escritor aprendi muito com os músicos de jazz a escrever. Pensamos que são os escritores que nos ensinam a escrever mas é mentira, pode ser um fotógrafo, pode ser um músico…
O jazz marcava-lhe o compasso da escrita?
O Charlie Parker fraseava maravilhosamente, aprende-se muito a ouvi-lo.
Também deixou de ir ao cinema?
Muito pouco agora. Vou muito pouco.
E policiais, ainda lê?
Gosto e durante muito tempo tive preconceitos idiotas face à literatura policial. Depois percebi que todos os livros são livros policiais, que têm coisas técnicas que se podem usar e ser muito úteis – a retenção da informação, a informação lateral – e aprendi muito com a sua estrutura.
Algumas mulheres acham-no machista no que escreve?
Não sei, se pensam isso parece-me injusto. Não sei que espécie de gente poderá dizer isso, eu gosto tanto das pessoas…
Como é o seu dia?
Começo às 10.30 e trabalho até às 13.00. Volto a escrever entre as 14.00 e as oito. Das nove até às onze continuo. Sábados e domingos também.
Não folga ao fim-de-semana?
Dou-me umas horas ao sábado como aos magalas. Enquanto estive internado não escrevi e foi muito difícil recomeçar porque pensava que tinha perdido o livro. Para mim é muito importante fazer isto como um trabalho diário.
Como é que escreve?
À mão.
O computador é impensável para si.
Não tenho computador, nem o sei abrir. Gosto de desenhar as letras. Uso os mesmos processos desde o primeiro livro, faço duas versões de cada capítulo, passo para o capítulo seguinte até ao fim, isto demora um ano ou um pouco mais, depois espero quinze dias para começar a rever e quando leio aquilo surpreende-me que tudo se articule.
Diário de Notícias
30.09.2007
(transcrição de Gonçalo Figueiredo Augusto)
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A vida depois do cancro
Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário
Bastou um dia para lhe mudar a vida. Em Março deste ano, António Lobo Antunes, 65 anos, entrou no Hospital de Santa Maria com o manuscrito em que trabalhava debaixo do braço. E dali já não saiu. A notícia, brutal, de que tinha um cancro, chegaria pouco tempo depois. No mês seguinte, após ter sido operado, escreveu na VISÃO uma crónica na qual revelou o inferno que estava a viver. Agora, seis meses passados, o escritor lança O Meu Nome É Legião e, pela primeira vez, conta o que viu e o que sentiu. Sem as meias-palavras das «doenças prolongadas» nem os disfarces dos testemunhos triunfantes. Como ele próprio diz, com as cartas viradas para cima.
Ainda tem a sensação de o seu novo livro, O Meu Nome É Legião, lhe ter sido ditado por um anjo?
Sim, mas também houve partes de Ontem Não te Vi em Babilónia que me pareciam ditadas. Quando a mão está feliz, os livros parecem-me sempre ditados. O Meu Nome É Legião está pronto há mais de um ano. E, como entretanto já estou a escrever outro livro, vou esquecendo o anterior. Tento, aliás, esquecê-lo para evitar fazer uma sequela.
Não voltou sequer a olhar para ele?
Não, apenas o folheei. Corrijo os livros tantas vezes e, mesmo assim, fico sempre com a sensação que os deveria ter corrigido ainda mais, que lhes devia ter dado mais uma volta ou duas. Há sempre um «que», um «mas», um advérbio ou um adjectivo a mais. Há sempre palavras a mais.
É um livro mais curto, com um registo mais rápido que os anteriores. Deixou de gostar daquelas longas «sinfonias»?
Não tem nada a ver porque, como leitor, continuo a gostar de romances grandes. A questão é que, a partir de agora, os meus livros vão sendo sempre cada vez mais curtos. Não sei explicar porquê – o livro acaba por ter a dimensão que ele próprio exige, é ele quem comanda.
Conhece bairros periféricos de Lisboa como o que retrata?
O livro refere-se a um bairro em concreto, embora eu nunca lá tenha estado. Sempre me impressionou o facto de aqueles miúdos não terem raízes de espécie alguma. Não são portugueses, não são africanos, não são nada. Brincam com balas em vez de brincarem com bolas. E no entanto há neles uma sede de ternura, um desejo de amor absolutamente inextinguível. A morte e a vida não têm, para eles, qualquer significado ou, pelo menos, têm um significado muito diferente do que para nós. Na minha ideia, O Meu Nome É Legião era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à procura de uma razão de existir.
Revê-se naqueles garotos?
Quando começo a escrever um livro, não tenho qualquer plano. Aqueles garotos, aqueles polícias e, no fundo, todas aquelas vozes vão-se encadeando de tal modo que sou o primeiro a ficar espantado. Não posso, no entanto, dizer que me revejo neles porque, naquele momento, éramos só uma e a mesma coisa. Uma espécie de relação simbiótica.
Eles estão excluídos deste mundo?
Estão de tal maneira abandonados que matar pessoas é a única maneira que têm de pedir colo. Não sei, porém, o que se passa na realidade, uma palavra idiota porque a realidade é uma coisa que não existe. Todas aquelas pessoas têm, para mim, uma densidade muito profunda.
E, nessa medida, o livro também é uma realidade?
É a única realidade que existe. Não se trata de viver noutro planeta, mas a verdade é que, quando estou a escrever, a minha vida muda por completo. Encontro uma razão, um motivo e uma direcção. E é óbvio que dou muito mais importância aos livros do que às crónicas, que são apenas…
…uma questão alimentar, como costumava explicar.
Não, já não. São antes a possibilidade de poder fazer uma espécie de itinerário paralelo. Como quando, em miúdo, andava com o meu avô em estradas paralelas à via férrea, ficando com a sensação de viajar, ao mesmo tempo, no automóvel e no comboio.
Diz que não conhece aquele bairro…
Não conheço aquela realidade do ponto de vista jornalístico.
Mas sempre gostou de subúrbios.
Aquilo não é sequer um subúrbio. Para mim, o subúrbio é Benfica ou o Cacém. Aquilo é muito pior do que isso. Aquilo é o inferno. Aquelas pessoas vivem num inferno onde eu nunca entrei.
Foi ganhando carinho por aquelas personagens?
Não sei se os leitores entenderão que o livro está a transbordar de amor. Custou-me muito que aquelas personagens morressem. Repare que até o professor não é muito diferente dos garotos – todos estão terrivelmente desamparados. Sempre me comoveu ver o desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo, numa certa desprotecção.
Mas essa não é uma característica apenas do último livro.
Obviamente que não. Lembro-me de começar a escrever Explicação aos Pássaros na Alemanha, em casa da tradutora que tinha na altura. Convencido de que estava a fazer um romance completamente diferente, mostrei-lhe as primeiras linhas e ela disse-me que não via ali nada de diferente: «És tu.» Não consigo fugir disto – há sempre é um «outro eu» que escreve. Como quando aquele admirador da Sarah Bernhardt a encontra na rua e pergunta: «É a dona Sarah Bernhardt?» E ela responde: «Serei esta noite.»
Ficou comovido com o acolhimento que teve agora em Berlim, no Festival Internacional de Literatura?
Comovido é uma palavra exagerada. Agora, a qualquer lado onde vá, é sempre assim. Torna-se um pouco incómodo porque estive o dia inteiro a dar entrevistas no hotel e, quando saí, havia uma série de pessoas cá fora. Queriam um autógrafo não num livro, mas num pedacinho de papel. Como se eu fosse o Enrique Iglesias.
E com o Prémio Camões, que recebeu no princípio deste ano, ficou comovido?
Agora, de três em três meses, recebo um prémio. Antes, tinha vindo o Prémio Ibero-Americano, depois veio o Camões e, há dias, chegou o Neruda. É muito agradável recebê-los, mas um prémio nada tem a ver com a literatura na medida em que não melhora nem piora os livros. Um prémio é só um prémio.
Faz sentido voltar a falar no Nobel?
Nem penso nisso. Agora menos que nunca.
Porquê?
Porque há coisas muito mais importantes. Tenho a certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer Nobel que me possam dar. Mas não me queria alongar sobre esse assunto, porque me parece que se dá excessiva importância a um prémio literário. Tolstoi e Conrad nunca o tiveram. E eles é que são os meus colegas.
Sente-se bem na companhia deles?
Não estou nada mal [sorrisos].
Até se ri…
Sabe, este foi um ano muito duro para mim. Para além de ter recebido constantes lições de dignidade e de coragem por parte de pessoas anónimas, aprendi a ter ainda mais respeito e admiração pelos portugueses. Compreendi porque é que fomos nós a ir naqueles barquinhos de 14 metros sem quilha, porque é que atravessámos o Atlântico, porque é que fizemos o que fizemos. E fiquei muito orgulhoso quando percebi que o povo ainda é o mesmo. Fez-me lembrar aqueles versos de Sophia: «Esta gente cujo rosto/ Às vezes luminoso/ E outras vezes tosco/ Ora me lembra escravos/ Ora me lembra reis». Foi muito bom ter tido essa experiência.
Muito bom?
Aprendi a admirar as pessoas do meu País. E a respeitá-las ainda mais. E a amá-las ainda mais. E a gostar cada vez mais delas. A partir daí, tudo o resto se tornou relativo. Houve coisas que deixaram de ser importantes. E normalmente é quando elas deixam de ser importantes que vêm ter connosco… O que me interessa, neste momento, é poder ter tempo para escrever, viver o suficiente para conseguir acabar o meu trabalho sem decepcionar os que acreditam em mim. Surpreende-me todo este reconhecimento internacional porque, no fundo, só escrevo livros, o que não me dá um mérito por aí além… É apenas trabalho.
E muito trabalho…
Ser pedreiro, médico ou outra coisa qualquer também dá muito trabalho. E ser doente, ser doente dá muito trabalho.
Porque é que decidiu escrever aquela crónica da VISÃO, intitulada Crónica do Hospital, onde revelava que tinha um cancro?
Como já havia muitos boatos contraditórios, resolvi aclarar as coisas e dizer a verdade. A crónica foi escrita mesmo no hospital. Mal conseguia escrever, não tinha forças para nada. O que posso dizer é que eu e todos os outros doentes só recebemos atenções. Dos médicos e dos enfermeiros, mas também das pessoas mais modestas que lá trabalham. Se dizem que tratam mal os doentes nos hospitais, a minha experiência foi justamente a contrária. Sempre vi os doentes serem tratados com a maior dignidade. Estou muito grato às pessoas que cuidaram de mim e que tiveram comigo a maior delicadeza.
O Meu Nome É Legião é, aliás, dedicado a Henrique Bicha Castelo, que o operou.
Para ele, do ponto de vista emocional, não deve ter sido nada fácil. Porque o Henrique não foi apenas o meu médico, é meu amigo. Para além de ser um cirurgião de renome internacional, é um homem de uma qualidade humana, de uma capacidade de amor, de uma generosidade e de uma ternura absolutamente excepcionais.
Durante todo esse período, lembrou-se alguma vez do António Lobo Antunes médico?
Tudo isto me fez ter saudades da Medicina. Pela primeira vez, tive saudades da Medicina. E, nos últimos tempos, tenho tido saudades. Agora já é tarde porque a escolha foi feita há muito tempo. Mas, se pudesse voltar atrás, talvez tentasse manter alguma relação com a Medicina.
Enquanto não pôde viver da escrita, viu a Medicina como uma forma de ganhar a vida.
Eu até gostava de ser médico. O meu pai era médico, cresci no meio dos hospitais, mas estar internado é outra coisa muito diferente. Não há nada de mais horrível do que uma noite passada num hospital.
As noites passadas num hospital duram mais?
São infinitas. E é aí que aparece o desamparo. Não estou a falar de mim, estou a falar de uma maneira geral. É óbvio que senti tudo isto. Sofri muito e, ao mesmo tempo, toda esta experiência também me enriqueceu. Sai-se disto com mais amor pela vida e com a sensação de que é uma honra estar-se vivo.
Sai-se mais sereno?
Não lhe sei responder, porque nunca fui uma pessoa de grandes exaltações. É claro que tomei consciência da minha finitude, porque todos vivemos em função de eternidades. Uma pessoa de 20 anos pensa que tem à sua frente 50 anos e, para ela, esses 50 anos não vão passar nunca. A minha mãe, por exemplo, vive em função de eternidades de seis meses. E, na prática, esses seis meses são tão compridos como os 50 anos do jovem de 20 anos. Quando a Maria Antonieta pedia ao carrasco «só mais um minuto, senhor carrasco», para ela aquele minuto era eterno.
Virginia Woolf dizia que, a partir de certa idade, os dias são uma eternidade, mas os anos passam a correr.
E Churchill dizia que os anos passam num instante, o que custa a passar são os minutos. Mas quando os escritores querem parecer inteligentes, eu desconfio sempre. A atitude de sedução sempre me irritou e irrita-me cada vez mais. É isso e, sobretudo, a amargura. Há para aí um cronista num jornal diário que deve ser a pessoa mais infeliz do mundo. Destila tanto fel… Meu Deus, como se pode ser assim?
Está a falar de Vasco Pulido Valente?
É uma dedução sua. Não o conheço, mas o que ele escreve faz-me imensa impressão. E pena. Não me irrita, não me enerva, não me exalta, não me comove. Faz-me pena. Não gosto de pessoas amargas porque são mal agradecidas. A ingratidão é o pior sentimento que pode existir.
Sempre prezou a sua privacidade. Hesitou ao escrever aquela crónica na qual se expôs como nunca antes o havia feito?
Para quem souber ler, exponho-me muito mais nos livros. Em O Meu Nome É Legião, por exemplo, aqueles garotos vieram de dentro de mim, são parte de mim. Quando me fala em serenidade, é evidente que estou muito mais sereno, muito mais seguro do valor do meu trabalho.
Depois da operação, foi difícil voltar a escrever?
Muito difícil. Não era capaz, cansava-me. A seguir à operação, nem sequer escrevia. Estava sentado numa cadeira, sem ler, sem fazer nada, a olhar para a parede. Estive quase dois meses assim. Não tinha nada dentro.
Tinha um romance começado?
Sim, tinha começado a escrevê-lo seis ou sete meses antes. E, como nunca tinha feito uma interrupção, só me perguntava: será que sou capaz de retomar o livro? Depois, devagar, comecei a aproximar-me dele, sem lhe tocar, sem lhe tocar mesmo. Tinha ficado a meio de um capítulo, li o último parágrafo e – é curioso – o livro continuou a sair. É muito estranho porque eu costumo demorar mais de um ano a fazer a primeira versão e, quando chego ao fim, já mal me lembro do princípio. Releio e tudo aquilo faz sentido, tudo aquilo está certo. É uma espécie de trabalho interior que nada tem a ver comigo. Ou melhor: tem a ver comigo, eu não sei é de que parte de dentro de mim é que aquilo vem. Acho que agora estou a escrever como nunca escrevi. Falam muito no Manual dos Inquisidores, mas julgo que foi a partir de Ontem Não te Vi em Babilónia que a escrita começou a ganhar uma densidade, uma espessura, uma força que antes não tinha. Não me importa se me lêem porque escrevo para a eternidade? Claro que me importa, claro que quero que me leiam. Há coisas que já não faço.
Como assim?
Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques. São livros que não devem nada a ninguém. Não se nota ali a voz de ninguém, não há ali influência de qualquer outro autor. Nada. Zero. É a minha voz inteira. E a conquista da minha própria voz foi talvez o mais importante que me aconteceu. Não há ninguém a atravessar-se no meu caminho. Se não nos medimos com os melhores, não vale a pena medirmo-nos. Atingir as alturas de Tolstoi ou de Horácio é muito difícil, mas é aí que eu quero estar. E, ao mesmo tempo, isto tem-me permitido admirar o trabalho de outras pessoas que não considero grandes escritores…
Mas admira-lhes o quê? O esforço?
Esforço faz lembrar ciclismo, não é? Admiro o esforço e, quando ele é digno, respeito-o. Embora, em Portugal, se publique demasiado. As pessoas não sabem o quanto custa escrever. Escrever é tremendamente difícil. Não precisamos de mais de – vá lá, para ser generoso – 200 ou 300 livros. Continuo a ficar surpreendido com o aluvião de livros, livros completamente supérfluos, que se editam. As pessoas não têm vergonha de ter feito aquilo? Não são escritores, são pessoas que fazem livros. Uma coisa é ser escritor, como Torga (por exemplo) o era. Outra coisa é fazer livros, o que agora toda a gente faz. Fico pasmado quando vejo jornalistas, advogados ou apresentadores de televisão que se apresentam como escritores. Já reparou?
Ao regressar ao livro, sentiu-o como seu?
Claro que sim. Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde. A doença trouxe-me isso. Já não estou a fazer tratamentos e só lá mais para o final do ano é que voltarei a fazer exames. Tudo isto dá-me uma grande serenidade, porque olho para as coisas com mais distância. Estive muito perto da morte e palavra de honra que é muito mais fácil do que se imagina. A ideia pode angustiar-nos e apavorar-nos, mas quando se está mesmo ao pé dela é muito mais fácil do que se pensa. Lembre-se do que diz a última frase de Os Thibault, o grande romance de Roger Martin du Gard: plus simples qu’ on y pense, mais simples do que se pensa. E é, de facto, mais simples do que se pensa, menos assustador do que se pensa.
Quando ouve a palavra cancro, é a morte que vê à sua frente?
Por mais que racionalmente pensemos que o cancro se cura, associamo-lo à morte. Pedi sempre para não me mentirem e, por isso, quando muito francamente me dizem que tenho um cancro, o que vejo à minha frente é a morte. Não é ver a morte à minha frente, é vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. E é mais fácil do que se pensa, não requer coragem, apenas dignidade e elegância. Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna?
A quem é que perguntava?
Ao médico e a uma ou duas pessoas que faziam o favor de se interessar por mim. Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta dele foi: «Outra puta.» Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança. Uma amiga, que é minha médica, disse-me: «Tens que aprender a viver com isto.» Não, não tenho. Não tenho que viver com um filho da puta. Eu não vivo com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele.
Tem que ter pulso firme?
Tem que lutar contra aquilo. O cancro habita-me, está dentro de mim. E queria portar-me com a mesma dignidade com que acho que me portei na guerra. Não sei se ele se importa com a minha atitude ou não, mas, em princípio, é um pesadelo que estará terminado. De qualquer maneira, sei que, mais tarde ou mais cedo, a puta virá. Só espero ter tempo para acabar o meu trabalho.
Na guerra, já tinha visto a morte de perto.
Na guerra, era mais fácil porque era uma qualquer coisa de exterior, podia sempre agarrar numa arma. Em África, tínhamos inimigos (digamos assim) e estávamos armados com morteiros, espingardas e metralhadoras. Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte. Portanto, o tratamento é como fazer um aborto desse monstro que nos quer destruir. Quando ia às sessões de radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava.
A doença torna-nos mais doces ou, pelo contrário, mais amargos?
No meu caso, fez com que se acabassem os disfarces, as máscaras, as meias-frases e as meias-tintas. Agora digo o que penso e o que sinto. Estou a falar com as cartas viradas para cima. E é a primeira vez que o faço. Não há nada escondido, não há nada na manga, não há truques nem tentativas de a impressionar e de a comover.
Sente-se mais livre?
Foi muito difícil. Enfim, muito difícil é exagero…
Exagero porquê?
Porque, ao lado, vi pessoas que estavam muito piores que eu. Pessoas sem esperança, à espera da morte. As minhas hipóteses eram grandes e, por isso, às vezes, sinto-me culpado. Mas é verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para escrever, livre para viver, livre para amar. No outro dia, com os meus irmãos, disse ao João [o neurocirurgião João Lobo Antunes] que ele tinha escrito um texto muito bonito. E um deles comentou que nós não dizemos essas coisas uns aos outros. Eu agora digo, eu agora digo. E isso foi uma conquista porque, de repente, tornou-se evidente que esta é a única maneira de viver. Claro que tem que haver dignidade, e que não podem existir pieguices, mas acabaram-se as contenções. O meu avô morreu e, ainda hoje, sinto remorsos por não lhe ter dito que gostava muito dele.
Teve medo de perder a mão?
Claro que sim. Sempre senti esse medo e agora senti-o ainda mais. Tinha imenso medo que a operação, para além de me tirar o cancro, me tivesse tirado a capacidade de escrever. Não sei por que bulas uma vez que aquilo estava nos intestinos…
E, depois, foi ganhando confiança?
A pouco e pouco, fui aumentando o número de horas de escrita e, hoje, já estou no meu ritmo normal. Não quer dizer que não possa morrer daqui a dois minutos, mas fisicamente nunca me senti como me sinto. Talvez me tenha dado força o facto de a minha condição de mortal ser agora muito mais patente.
No momento em que lhe dizem, pensa…
Não penso em nada, é uma surpresa infinita. Quando disse que queria ser operado, responderam-me que era preciso ver se havia metástases. Fiz exames e, como não havia, fui operado no dia seguinte. Entrei no hospital a pensar que tinha hemorróidas e já não sai de lá. Foi tudo muito rápido.
Como se o mundo lhe caísse em cima dos ombros?
O mundo nunca cai em cima de ninguém. Naquele momento, só pensei nos livros. O que vai acontecer aos livros? Levei o que andava a escrever para o hospital, mas não tinha forças para trabalhar. Queria fazê-lo, mas não conseguia. E não queria deixar o livro inacabado porque, no meu caso, um livro inacabado é um livro cheio de redundâncias, de inutilidades e toda aquela ganga que se escreve. Preocupava-me que publicassem um livro mau. Talvez por uma qualquer coquetterie, por estar seguro que estou a trabalhar para daqui a 500 anos.
Já cá não estaremos.
Não sei se morremos assim. Não sei se não ficamos cá. Não sei se Camões está morto. Mas isso não tem importância, eu não sou importante, os livros é que são importantes.
Isso não é falsa modéstia?
Não tenho falsa nem verdadeira modéstia. Sou orgulhoso, não sou vaidoso. Para quê estar a jogar consigo? O que é que eu ganho? Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente. É uma conquista recente, ganha com tudo aquilo por que passei. Estar aqui à sua frente é a única maneira de estar. E é a primeira vez que o faço.
Como sentiu a reacção dos leitores à sua Crónica do Hospital?
Não sabia que havia tanta gente que gostava de mim.
Sentiu-se menos desamparado?
Não, senti que não merecia tanto afecto.
Apercebeu-se de que o seu testemunho valeu mais do que dezenas de campanhas?
Não. Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau. Se Deus quiser, hei-de escrever mais alguns livros.
Também já não diz que vai escrever apenas mais dois livros.
Não. Dizia isso para negociar com a morte, para não lhe pedir muito. Porque, na altura, ainda a achava uma senhora digna, o que já não acho. E, portanto, se dantes pedia, agora exijo.
Antes pedia para ver se a morte era boa consigo…
Sim, para ver se ela tinha pena de mim. Agora, já não preciso de pena.
Visão
27.09.2007
(transcrito por Gonçalo Figueiredo Augusto)
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Baptista-Bastos
Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário
Nome respeitado no jornalismo e na literatura, Baptista-Bastos é um homem de causas e de princípios. Não conhece o meio termo: sem papas na língua, exagerado muitas vezes, escreve como poucos, entrevista como ninguém, é um polemista temível. Conheceu o desemprego várias vezes ao longo da vida – mas nunca soçobrou.
Eis a sua história, como ele a contou.
Autores – Vamos começar pelo princípio: as tuas origens, os factos mais marcantes da tua vida…
Baptista-Bastos – Fiquei órfão de mãe muito cedo: aos seis anos. Mas tive a sorte de ter um pai fabuloso e uma madrasta extraordinária. O meu pai era tipógrafo, fundador de jornais (Diário Popular e Diário Ilustrado), tendo terminado a sua carreira n’ “O Século” como chefe de tipografia. Era um grande animal branco, homem sumptuoso, chapéu às três pancadas, lisboeta típico, com muita graça – e um grande profissional, considerado um mágico na sua arte.
A – Marcou-te profundamente, ao que parece.
BB – Foi uma sorte minha. Incentivou em mim a moral proletária do trabalho, que me tem acompanhado pela vida fora. No fundo não passo de um operário braçal da escrita e do jornalismo. Não sei fazer outra coisa. Ganho mal a minha vida, mas ganho-a, através da moral e das palavras. Ele trabalhou até ao fim da vida – era impressionante vê-lo a paginar jornais. Era o banquete dele. E isso ficou-me: trabalhar, trabalhar, trabalhar sempre. Todos os dias, trabalho todos os dias – leio e escrevo sempre, diariamente, qualquer coisa. Desde os 18 anos.
A – Valeu a pena?
BB – Eu acho que sim. Estou mais pobre do que quando comecei – mas mais rico porque o jornalismo e a literatura permitiram-me conhecer as mais extraordinárias pessoas. Sabes, a história da minha vida foi atravessada pela história das vidas de muita gente, o que me ajudou também a construir o homem que eu sou: ateu, brigão e sentimental. Mas sublinha bem aí: não sou agnóstico – sou ateu.
A – Quem são essas pessoas cujas vidas tanto te influenciaram?
BB – Tantas que temo não referir algumas. Olha, privei de perto com o Aquilino, o Redol, o Carlos de Oliveira, o Joaquim Namorado, o Manuel da Fonseca, o Zé Gomes Ferreira, o João Abel Manta… Tantos, tantos! Tomaram conta de mim. Mas posso referir também o Manuel Taínha, o Júlio Pomar, a Maria Keil, o Jorge de Sena, o Lopes-Graça, o Cochofel – a resistência, afinal. Eu era um miúdo no meio de gigantes, no meio do que havia de melhor neste país.
A – E o que é que daí resultou?
BB – Que criássemos a nossa moral particular e a nossa ética de rigor. Esta gente não permitia uma leviandade ou uma traição. Mas já agora deixa que te diga que n’ “O Século” conheci uma figura maior: o Acúrcio Pereira, um jornalista e um chefe de redacção como nunca vi. Entrei para “O Século” com 18 anos, com uma redacção que metia medo. Era conhecida por “Universidade”. O Zambujal chama-lhe “A Catedral”. O Acúrcio puxava por nós todos, que trabalhávamos rodando em todas as secções.
A – Com o teu feitio tiveste dificuldade em adaptar-te?
BB – Eu era muito senhor do meu nariz, mas que remédio… Trabalhava também no “Século Ilustrado” e ganhei fama de polemista terrível. Eu fazia comentários de cinema, o Redondo Júnior de teatro. Era cá uma dupla… No meu caso aquilo era mais uma tribuna política. Nos EUA o McCarthismo estava em grande vigor – e isso servia-me de pretexto para fazer paralelismos comparativos com a realidade portuguesa. Lembro-me de uma crónica em que condenava a traição do Elia Kazan e que apareceu depois nas paredes de todas as Faculdades de Lisboa. Ganhei uma certa notoriedade que me envaideceu – mas que simultaneamente me enfraqueceu.
A – Porquê?
BB – Tinha 18 anos. Era muito novo. Durante um ou dois anos fiquei um tipo muito presumido, até soberbo.
A – E hoje?
BB – Isso passou-se, e passou-me, há muito tempo. Um dia, estava eu a ler a Bíblia, que é um texto a que recorro frequentemente, estava a ler o Levítico, deu-me cá um estremeção, sabes, sobre a soberba e a arrogância, e disse para mim: não estás no bom caminho. Comecei a ficar menos categórico e mais com a ideia de que os outros podem ter também razão.
A – Mas isso não te impediu de teres participado na Revolta da Sé, em 1959…
BB – Fui aliciado pelo Urbano Tavares Rodrigues. Ele ainda me quis explicar uma série de coisas, mas eu cortei: “Não digas nada. Estou na revolução!”, coisas românticas. Mas a verdade é que uma certa ração de romantismo é essencial para que haja algum júbilo na condição humana. Fazer coisas por romantismo é fantástico.
A – Só foste romântico na Sé?
BB – Fiz toda a espécie de disparates por romantismo. Mas também fiz coisas belas, que hoje me arrepiam quando delas falo ou nelas penso. Um dia fui encarregado de lançar uns panfletos no cinema Condes, onde passava o filme “E tudo o vento levou”. Fui para lá de gabardine, à Humphrey Bogart, escondendo os papéis. Eu estava no 2º Balcão, e havia outro camarada no 1º. Um do lado esquerdo, outro do direito. Lançámos os papéis, estabeleceu-se um burburinho na sala, as luzes acenderam-se, a polícia a apitar, um turbilhão de pessoas a descer pelas escada, a escapar. Quando estou também a descer vejo o meu camarada, que era um pouco mais velho, com um lenço na boca cheio de sangue. Teve uma hemoptise, passei-lhe a mão pelo ombro, e fui com ele por aí fora, atravessei a avenida para o elevador da Glória, acartei-o pela calçada acima, do lado direito havia uma cabine telefónica, as pessoas estavam tão preocupadas consigo próprias que nem deram por nada, pu-lo no meio do chão, liguei para um número que me tinham dado, perguntei o que é que devia fazer, disseram-me para sair dali e ir para um banco de jardim esperar, assim fiz, e lá apareceu o Alexandre Cabral com um carro, levando esse nosso amigo, que ainda hoje é vivo…
A – Ao que sei, o episódio da revolta da Sé veio, mais tarde, a ter consequências na tua vida…
BB – Fui denunciado por uns canalhas. Os patrões d’ “O Século” chamaram-me no dia 10 de Abril de 1960, disseram-me “Você esteve metido nessa coisa”, e o Carlos Alberto Pereira da Rosa perguntou-me: “Olhe cá, isso já se passou há uma data de tempo e hoje, em idênticas circunstâncias o que é que fazia?”. Respondi: “A mesma coisa”. Apertou-me a mão e disse-me: “Não pode trabalhar mais neste jornal. Veja lá no que se vai meter”. Tinha 25 anos, fiquei apavorado, pensei que tinha sido denunciado na PIDE, quis ir falar com o meu pai e encontrei o Augusto Abelaira junto do Solar do Vinho do Porto, disse-lhe o que se estava a passar e ele levou-me a casa do Jacinto Baptista – e fiquei a saber que andávam todos metidos no mesmo e passei a uma semi-clandestinidade. Pensei então ir para Paris, o Urbano conseguiu-me arranjar documentos, vendi o carro que tinha… Neste intervalo a PIDE tinha ido ao Século para saber o que se passara comigo, mas os patrões disseram que não tinha nada a ver com a política, garantiram que eu tinha sido despedido por ter publicado no Século Ilustrado três páginas de fotos do Fidel sem terem ido à censura. Conto isto porque quero salientar a grandeza daqueles patrões. Se compararmos com o que se passa agora…
A – Foste para o desemprego, portanto.
BB – Claro. Traduzia livros e vivia com muitas dificuldades.
A – É mais ou menos por essa altura que conheces o Fernando Lopes, trabalhando com ele em vários projectos.
BB – É verdade. O Lopes é um velho camarada de tudo. Quando vivi na tal semi-clandestinidade, estive aboletado em casa dele. Fizemos o “Belarmino” e mais outros filmes para a Televisão. O meu livro “O Secreto Adeus” foi escrito junto dele, na Ericeira, para onde tínhamos ido em Fevereiro de 62, para fazermos a adaptação do “Domingo à Tarde”, do Namora. Estava um frio de rachar, tínhamos 30 dias para fazer o trabalho, despachámos a adaptação em 10 e nos outros 20 escrevi a primeira versão daquele que foi o meu primeiro livro de ficção, mas que na verdade era um livro contra o jornalismo que se fazia naquela altura e que era muito mau. Olha, ainda hoje tem actualidade… Foi um êxito.
A – Continuas muito ligado ao Fernando Lopes…
BB – Gosto muitíssimo dele. Estamos a envelhecer com dignidade e decência, ao longo de cinquenta anos de amizade sem beliscões. Preocupo-me com ele, ele preocupa-se comigo. É, além disso, um dos maiores cineastas europeus, e um intelectual muito brilhante da minha geração que ofereceu à cultura portuguesa gente extremamente talentosa, e até genial!, em múltiplos sectores de actividade.
A – Foi com a ajuda dele que durante uns tempos trabalhaste para o Telejornal da RTP…
BB – Também é verdade. Um dia disse-me que havia um tipo que queria falar comigo. Era o Manuel Figueira, director na RTP, um homem do regime, marcelista, mas de grande qualidade humana. À primeira vista não gostei do seu aspecto. Mas ele era um sedutor e no final do almoço – no “Varina”, no Parque Mayer – eu estava rendido à sua dialéctica, ficando seu amigo até à morte. Ainda hoje venero a sua memória. Diz-me o Figueira: nós sabemos que você se prepara para sair do país, mas eu vou-lhe fazer uma proposta: quer ir trabalhar nos noticiários da RTP? Tem é que ser com outro nome, embora isso não passe de um pró-forma. Hesitei e perguntei: qual é o compromisso que tenho que fazer? Respondeu: nenhum, só tem que fazer notícias assinando Manuel Trindade. Fui e aí ganhei a vida durante uns meses, com o apoio e a solidariedade de pessoas que pensavam o oposto do que eu pensava: o Carlos Miguel de Araújo, monárquico e miguelista, ainda hoje um querido amigo; o Henrique Mendes; o Gomes Ferreira; o Fialho Gouveia; o Manuel Caetano, irmão do Marcelo.
A – Foi sol de pouca dura – voltaste a ser despedido…
BB – Foi o César Moreira Baptista, então secretário nacional da Informação e mais tarde ministro do Interior de Caetano, quem deu instruções nesse sentido, dizendo num ofício: “Esse senhor é um contumaz adversário do regime”. E era mesmo…
A – Como é que te safaste no desemprego outra vez?
BB – Entrei pouco tempo depois para o “República” e daí fui para o Brasil…
A – Para o Brasil?
BB – O meu amigo Raul Solnado foi contratado pela TV Rio e levou-me como seu secretário – cama, mesa, roupa lavada e dinheiro no bolso. Chegámos ao Rio de Janeiro quando aconteceu o golpe militar contra o Presidente Goulart. Mandei logo uma série de telegramas para o “República”, mas o chefe de redacção, o Artur Inês, respondeu-me a dizer para eu mudar de tom que a censura estava a cortar os meus textos todos… Assisti a cenas de violência e perseguição incríveis. Mas percorri o Brasil todo e tive a possibilidade de conviver com pessoas como Rubem Braga, Otto Lara Resende, Vinícius, Péricles do Amaral (secretário do Luís Carlos Prestes na coluna Prestes) e tantos outros – e isso caldeou também a minha maneira de ser e de ver o mundo. Foram oito meses marcantes.
A – De novo em Portugal, arranjaste emprego?
BB – Voltei para o “República”. Mas um dia recebo um telefonema do dr. Guilherme Brás Medeiros, patrão do “Diário Popular”, a perguntar-me se poderia almoçar com ele. Eu julgava que era uma brincadeira, mas ainda perguntei: quando? Hoje, disse ele. Foi a 22 de Fevereiro de 1965. No Parque Mayer, mais uma vez. No final do almoço, avança: quer ir trabalhar para o “Diário Popular”? Quero, disse logo. Quem puxou os cordelinhos disto tudo foram o José de Freitas, o Jacinto Baptista e o Mário Ventura Henriques. Fui aceite por unanimidade pela redacção. Disseram-me: sabemos muito bem o que você pensa, mas os patrões do jornal nunca cortarão uma palavra sua. E quando tive problemas com a censura o dr. Guilherme Brás Monteiro esteve sempre ao meu lado. Nunca assinei qualquer contrato – um aperto de mão bastava. Tenho saudades da honra desse tempo. Não gosto nada do passado, mas não posso deixar de sublinhar que havia um sentido de honra que desapareceu.
A – Quanto tempo trabalhaste no “Diário Popular”?
BB – Saí após 23 anos de intenso trabalho. Foi o mais belo período da minha vida profissional. N’ “O Século” deram-me as ferramentas; no “Popular” escancararam-me as portas e incitaram-me a expender a minha criatividade. Era uma redacção sumptuosa. Recordo, com emoção e orgulho, os nomes de Urbano Carrasco, um dos maiores repórteres portugueses de sempre; José de Freitas, Jacinto Baptista, Abel Pereira, José de Lemos, Alfredo Marques, Álvaro de Andrade, Mário Rocha, Ricardo Ornellas, Aurélio Márcio, António Rêgo Chaves, João Paulo de Oliveira, Manuel Magro, Mário Ventura Henriques. E Chico Rodrigues e Manuel Pereira Rodrigues, excepcionais de faro para a notícia. Havia outros, claro!, mas desejo deliberadamente omiti-los: nada tinham a ver comigo e muito pouco com o jornalismo, tal como eu o entendo. Cito, também, os grandes repórteres-fotográficos João Ribeiro, José Antunes, Corrêa dos Santos, Eurico de Vasconcelos, Miranda Castela. Foram estes os meus companheiros inesquecíveis. Os meus camaradas autênticos, envolvidos, como eu, emocionalmente, em dar continuidade a um admirável projecto jornalístico que nos fora legado.
A – E saíste porquê?
BB – No imediato 25 de Abril, as coisas complicaram-se, e comecei a sentir-me muito mal (eu e outros) com o rumo “editorial” que o vespertino tomava. Registaram-se as traições e as ambiçõezinhas pessoais. O costume. Saí, sem levar comigo um tostão. Ganhava sessenta contos mensais.
A – Foste para onde? Há aí um novo período difícil da tua vida profissional…
BB – Trabalhei, durante seis meses, para o João Soares Louro, fui para o “Europeu” e segui para “o diário”, onde experimentei alguns dos mais nefastos momentos do meu trajecto profissional. Criaturas que possuíam a carteira do sindicato e que nada tinham a ver com jornalismo: eram, apenas, sargentos políticos dispostos a tudo. Desejo colocar os nomes desses senhoritos à margem desta conversa, desejadamente asseada. Claro que me senti feliz em trabalhar com gente como o António Borga, o Luís de Barros, a Teresa Horta, o Joaquim Benite, o Alferes Gonçalves, o João Paulo Guerra, o Sérgio Figueiredo… Deixo para um texto memorialístico que estou a escrever o cuidado de escarmentar quem é desprezível. Mas quero fazer uma grande ressalva: os cuidadosos avisos que me foram feitos pelo José Sucena, querido amigo e homem de bem. “o diário” foi uma experiência de cinco meses, inesquecível pela negativa.
A – Conheceste de novo o desemprego, portanto.
BB – Pedi trabalho em tudo o que é Imprensa portuguesa. Nada. O então director do “Público”, contou-me o João Mesquita, disse que eu não entrava porque era… amigo dos cubanos. Outro, um arquitecto que se diz jornalista, e é um arrebatado medíocre, além de ser uma figurinha hilariante, e esteve na direcção do “Expresso”!, fez-me uma malandrice do pior que possas imaginar. Já o ferrei na praça pública: certa noite, estendeu-me a mão; ficou com ela no ar. Estas coisas devem ser feitas com testemunhas, para que as histórias não sejam contadas de outra maneira. Assistiram ao higiénico acto o José Quitério, o João Carreira Bom, a Maria José Mauperrin, e alguns mais. Contos largos, também assomados na memorialística que redijo. Desempregado, com sete pessoas a meu cargo, lancei-me à tradução, a escrever discursos para empresários e, até, para políticos… de Esquerda, socialistas ou mais ou menos… A Hermínia Rosa, da Caixa dos Jornalistas, agora destruída por um governo… dito socialista… mas ferozmente déspota, autista e autoritário, a Hermínia Rosa aconselhou-me a inscrever-me no Desemprego. Assim fiz. Tinha 56 anos e esperei, na secção do Saldanha, a hora de ser atendido. O Mário Crespo, então pivô na RTP, soube do assunto e enviou a Isabel Horta a fazer uma reportagem do caso. Eles realizaram um comoventíssimo trabalho jornalístico sobre a situação de um camarada deles colocado numa situação extrema. Crespo assinalou os prémios e as traduções de livros meus. A reportagem teve amplas repercussões, e foi vista em várias partes do mundo. Ainda hoje não consigo rever as imagens da cassete que o Mário Crespo me enviou. E estarei sempre grato tanto a ele quanto à Isabel. E, também, a Manuel Luís Goucha, que me convidou, propositadamente, para aparecer num programa dele. Não conhecia pessoalmente o Goucha, nem sabia o que ia lá fazer. Eis senão quando, directo no ar, o Goucha diz: “Este senhor é um dos maiores jornalistas portugueses, e está desempregado. Isto é uma vergonha que desejo assinalar!” Eu não sabia onde me meter, embaraçado e comovido, e o Goucha, então, abraçou-me, ele também muito comovido.
A – Sei que há também um episódio edificante em que entra o José Eduardo Moniz…
BB – Sim, o Moniz (que fora meu estagiário no “Popular”), então figura poderosa na RTP, chamou-me, a instâncias do João Soares Louro, recebeu-me num gabinete do tamanho de um rinque de patinagem, eu estava ali um pouco atrapalhado, embaraçado e, até, envergonhado, ele abre-me os braços, diz: “Você é o meu mestre! Não era preciso o Soares Louro chamar-me a atenção para a sua situação, eu já estava disposto a telefonar-lhe. Vou já chamar um rapaz muito prometedor, que lhe irá arranjar um trabalho”. O rapaz prometedor, qualquer coisa Nogueira, estava cheio de gel no cabelo, casaco de largos ombros descaídos, calças a condizer. O Moniz repetiu, com a gravidade que talvez o momento não recomendasse (eu preferia que a cena fosse mais alegre): “O Bastos foi o meu mestre! O meu mestre!”. Eu, encolhido, sem saber o que dizer, balbuciei: “Mestre, semestre e trimestre”. Aprazaram comigo que me telefonariam dali a dois dias. Até hoje. Coitado do Moniz! Tenho muita pena dele! Quanto ao resto, aguentei-me, meu amigo, aguentei-me! Cheguei onde desejava chegar com algumas mazelas e alguns desgostos mal remendados. Divirto-me com os vencedores do momento. Mas cheguei são e salvo onde desejava chegar!
A – A conversa já vai longa e quase não falámos de literatura portuguesa nem da da tua obra literária.
BB – A minha actividade literária complementa-se com a minha actividade jornalística. A disjunção, pretendida por alguns indivíduos, entre jornalismo e literatura, é mais de ordem corporativa do que de ordem vital. Escrevo todos os dias, leio todos os dias. Publico livros muito espaçadamente. Nada tenho a ver com estes realejos literários que por aí se editam. Tenho profundíssimo respeito, admiração e consideração por Agustina, Saramago, Mário Cláudio. Não vendem fruto com bicho. O resto, deixou de me interessar. A maioria está a escrever sobre a vidinha, sem ter experimentado a vida, sem a ter arriscado. São escritores que vendem muito bem, põem gel no cabelo e na escrita. A literatura, como o jornalismo, deve ser moral em acção, e ambos são tão perigosos como a prática do alpinismo. Mas quanto aos poetas, esses, enchem uma lista imensa, enchem a minha vida de regozijo.
A – Estás muito ácido em relação à nossa prosa actual…
BB – Penso que os escritores têm de conhecer a matéria com que trabalham – para poderem ir para a cama com ela, para ir para o leito nupcial e para poder brincar com o idioma. E nós só aprendemos isso – e nunca aprendemos totalmente – frequentando os clássicos.
A – Quem são os clássicos a que te referes?
BB – Por exemplo, Vieira, Pascoaes, Carlos Oliveira, D. Francisco Manuel de Melo, Aquilino, Tomás de Figueiredo. Temos que começar a recuperar esta gente.
A – Esta gente?
BB – É, é. Esta gente que cito é que representa rigorosamente aquilo que podemos classificar de cultura portuguesa. E esta gente foi quem deu à Pátria a sua fisionomia específica. Não são os políticos que dão a fisionomia à Pátria. Isso é com os escritores, com os artistas.
A – Tens alguma coisa contra os políticos?
BB – Contra estes políticos tenho tudo e mais alguma coisa. Atingiram o grau superlativo da mediocridade. Pode-se estar em desacordo com os nomes que vou citar – mas eles marcaram decisivamente uma época: Mário Soares, Álvaro Cunhal, Francisco Sá Carneiro, Vasco Gonçalves. Cada um deles, à sua maneira, e com as características culturais próprias, tinham um projecto político-ideológico próprio para Portugal. E tinham, esses quatro homens, convicções. E esta gente de agora não tem convicção nenhuma. E andam neste pequeno jogo de interesses que só favorece o mais torpe e o mais feroz dos capitalismos. E os intelectuais, os escritores portugueses, assistem a isto e… nada. Não estão interessados no compromisso moral com a sociedade e o seu povo, contrariando, aliás, as linhas tradicionais da cultura portuguesa.
A – Continuamos sem falar dos teus livros… Que títulos gostarias que não fossem esquecidos?
BB – Os meus livros… Creio que dois ou três vão ficar, talvez “Cão Velho entre Flores”, talvez “Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura”. Do jornalismo, as entrevistas, talvez “As Palavras dos Outros”. Nunca tive pressa. As coisas vão chegando. Um pouco atrasadas, às vezes, mas vão chegando. Não te esqueças que Portugal vive no lodaçal da amnésia histórica. Um país que esqueceu Aquilino, que não lê Tomaz de Figueiredo, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, os dois Camilos, o Castelo Branco e o Pessanha; que desconhece Cesário Verde, e dois poetas tão ou mais importantes do que Pessoa: Nemésio e Jorge de Sena – é um país condenado.
A – Se bem te conheço, estás longe de desistir seja no que for. Fala-me dos teus projectos.
BB – Entreguei, ao meu editor, a ASA, um romance, “As Bicicletas em Setembro”, título extraído a um dos mais belos poemas de Eduardo Guerra Carneiro, parceiro de bares, de noitadas, de jornalismo e de literatura. Vai também ser editado um álbum “A Lisboa de Baptista-Bastos”, com belíssimas aguarelas de João Abel Manta, selecção de textos sobre a cidade, apresentação e aparato crítico do prof. Ernesto Rodrigues. Há o texto memorialístico de que já falámos. E pretendo ordenar um novo livro de crónicas.
A – Não te vou perguntar onde estavas no 25 de Abril, mas gostaria de saber o que esperavas que essa data histórica proporcionasse ao jornalismo e à literatura. A 32 anos de distância, que balanço?
BB – O 25 de Abril foi o dia do meu coração. O Álvaro Guerra estava metido na conspiração e perguntou-me se eu estava disposto a nela entrar. Disse-lhe que não. Todas em que me tinha metido haviam falhado, porque estávamos no meio dos dois sistemas de mundo que, então, se digladiavam. Tinha filhos e não estava disposto a permitir que fossem para a guerra colonial. Preparava-me, pois, para ir embora, talvez Inglaterra, não sei bem. Não acreditava em nada ou quase em nada. Como agora, aliás. Dá-se o 16 de Março, nas Caldas da Rainha. Vai o Marcelo à Televisão e declara que está tudo sob controlo. A partir daí percebi que algo de muito importante ia ocorrer. Quando o tirano diz que controla, é porque já não controla coisíssima nenhuma. Mas os anos posteriores ao 25 de Abril naufragaram na mais atroz mediocridade: escritores e jornalistas que nunca o serão, à força de o quererem ser. Tanto o jornalismo como a literatura são actividades muito sérias. E eu não gosto nada do que por aí vejo: prosa engravatada ou de casaco de peles. Entretanto, continuo ateu, brigão e sentimental.
Ribeiro Cardoso


TALENTOSO E EXCESSIVO
Tem um corpo enorme, cabelos brancos e coração ao pé da boca. A sua voz roufenha e o seu sorriso, por vezes enigmático e mordaz, são bem conhecidos dos portugueses graças aos programas “Conversas Secretas” e “Cara-a-Cara”, que há anos assinou na SIC e marcaram um estilo nas entrevistas televisivas – como antes o seu talento tinha marcado o jornalismo escrito.
Nome grande da nossa imprensa e da nossa literatura da segunda metade do século XX, Armando Baptista-Bastos, BB para os amigos, nasceu em Lisboa, no Bairro da Ajuda, em 27 de Fevereiro de 1934, tendo frequentado a Escola de Artes Decorativas António Arroio e o Liceu Francês. Quanto a universidades, frequentou a maior de todas: a da vida, que subiu a pulso sem nunca renegar as linhas mestras do exemplo paterno – e por isso pagando um preço alto, como se pode ver na fabulosa história de vida que conta nestas páginas.
Casado, com três filhos licenciados – um arquitecto, um jurista e um psicólogo clínico – nos seus 72 anos de vida intensa já não é um homem da noite nem de excessos e vive feliz e realizado, mas não acomodado, junto da mulher que ao longo de uma vida sempre foi o seu esteio maior, tudo lhe aguentando: chama-se Isaura, tem cabelos prateados e um sorriso bom entre todos.
Com 19 livros publicados até ao momento – ensaios, romances, contos, entrevistas e crónicas (nomeadamente sobre Lisboa) -, autor de admiráveis prosas em jornais e revistas, continua a produzir e cheio de projectos. As suas memórias, aqui anunciadas, serão seguramente um acontecimento.
Privilegiando sempre a conversa, o convívio e os afectos, é vê-lo todas as Sextas-Feiras no Solar dos Presuntos, à mesa com os seus parceiros da tertúlia “Os Empatados da Vida” – distribuindo ferroadas à esquerda e à direita (sobretudo à direita…) e contando casos e histórias respeitando escrupulosamente o ditado popular “Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”. Quem o conhece e dele gosta, garante mesmo que acrescenta sempre muitos pontos… Mas ninguém leva a mal. Ah, é verdade: os livros do BB estão traduzidos em várias línguas, têm sido objecto de estudos e teses de licenciatura em universidades portuguesas e estrangeiras e à sua obra – jornalística e literária – já foram atribuídos numerosos e prestigiados prémios.
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“Esforço-me para que as pessoas gostem de mim”
Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário
Helena Teixeira da Silva
Está de férias no Ribatejo. Baptista Bastos, 73 anos, atende o telefone, disponível para responder à entrevista no imediato. Mas também aceita que possa ficar para o dia seguinte. O jornalista e escritor interrompe o livro de memórias durante 29 minutos. Alguém duvidará da razão pela qual é controverso?
António Lobo Antunes só costuma conceder entrevistas a quem leu a obra dele completa. Também só fala com quem conhece o seu percurso jornalístico de 50 anos?
Não conheço o Lobo Antunes.
Quer dizer que ainda não fizeram as pazes?
Não sei quem é. Li só um livro dele.
O seu estilo de entrevistar é reconhecido. Qual é o par que mais respeita?
Na televisão, é o Mário Crespo.
E nos jornais?
É mais difícil, embora eu leia todos os jornais… mas deixe-me cá ver…
Anabela Mota Ribeiro?
Não, não… A entrevista para mim é outra coisa… É o Mário Crespo definitivamente que se aproxima mais da ideia que eu tenho de entrevista.
Por que desatou a perguntar a toda a gente onde havia estado no 25 de Abril?
Queria saber onde não estiveram. É uma data importantíssima. Costumo dizer que é a minha data do coração.
Data a que o tempo fez jus?
Não. O 25 de Abril não foi cumplido. Foi traído pelo PS.
Alguma vez chegou a sentir a inveja de que o seu editor, n’”O Século”, Acúrcio Pereira, disse que iria padecer?
Ele era chefe de redacção; na altura ainda não havia editores. Editor, em Portugal, não quer dizer coisa rigorosamente nenhuma. É uma cedência do jornalismo português ao jornalismo anglo-saxónico. Eu comecei muito novo a trabalhar n’”Século”, que era, de facto, considerado uma universidade. O Mário Zambujal até lhe chama “catedral”, porque saíamos dali como profissionais muito apetrechados. E eu, como vinha de uma tradição literária, comecei a fazer jornalismo de autor, muito marcado, e foi nesse sentido que Acúrcio Pereira disse: “Eh, pá, vais sofrer invejas”. É uma coisa terrível. Mas eu não dou muita importância a essas coisas. Aliás, eu nunca me levei muito a sério. As pessoas que se tomam muito a sério são umas desgraçadas. Tomo a sério os outros.
Miguel Sousa Tavares disse, recentemente, o contrário: que se acha superior e que age como se o país estivesse sempre em dívida consigo…
O Miguel Sousa Tavares tem um problema gravíssimo: pensa e escreve como o Miguel Sousa Tavares.
O que quer isso dizer?
Quer dizer rigorosamente o que acabei de dizer. É um escritor que não existe e um jornalista que dá vontade de rir.
Diz e faz as coisas como lhe apetece. Qual é o preço?
Não podia fazer à maneira do Miguel Sousa Tavares, senão era uma maneira muito mal feita.
A integração dos jornais em grandes grupos económicos restringe a nossa liberdade?
Mas isso é resultado da globalização e do mercado livre, que permite tudo. Hoje, qualquer pessoa chega a director de jornal com uma rapidez impressionante, qualquer pessoa começa a escrever artigos de opinião. Não pode ser! Perde-se completamente a credibilidade. Se calhar sou anacrónico, penso de outra maneira, sou de outro tempo… Mas eu trabalhei em grandes jornais, e aquelas redacções metiam medo, porque cada um vigiava o outro. Era um jornalismo que recusava essa grande tese da distanciação; era um jornalismo da proximidade o que nós fazíamos. Aliás, não entendo essa coisa da distanciação quando a única coisa que o jornalismo pode ser é justo, procurar a justeza das coisas. Quanto mais aproximados estamos, mais entendemos os factos.
Quando fala de proximidade não está a referir-se a uma proximidade geográfica… Digo isto, porque os jornais têm investido em edições múltiplas, com destaques diferentes para cada região do país…
Não, não. Falo de aproximação no sentido do compromisso com o leitor. A tese da distanciação é como se o jornalista não tivesse nada a ver com a notícia, como se o director e o chefe de redacção não tivessem nada a ver com o jornalista, e o jornal não tivesse a ver com nada. A distanciação é absurda.
Os jornais estão a perder leitores. Acredita na inversão do cenário?
Os jornais vendem menos porque estão cada vez estão piores, não correspondem às necessidades e aspirações das pessoas, nem fornecem o retrato da sociedade portuguesa. Veja este caso exemplar: como é possível que durante 15 dias, as televisões, os jornais e as rádios tenham estado a massacrar-nos a cabeça com um problema de dois cavalheiros – Paulo Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves – cujo problema é pessoal? São pessoas, ao que julgo saber, que ganham mais de 50 milhões por ano. Joe Berardo, com aquela forma que lhe é própria disse esta coisa espantosa: “O Jardim tem 40 guarda-costas e aviões particulares”. O que é isto? Isto não pode ser. Aquilo é uma empresa privada, certo, mas as coisas têm que ter um mínimo de ética e moral. Os jornalistas não fizeram uma interpretação factual daqueles acontecimentos. Como vivem? Como educam os filhos? É importante saber isso. Eu tenho três filhos formados e vi-me à nora para os licenciar. Tive que abdicar de muitas coisas. Ninguém nos ajudou. Mas sim, sim, sim, há aí uma nova geração de jornalistas que está a perceber que não pode ser enganada. E isto vai dar frutos, evidentemente.
O futuro da imprensa passa pelos textos curtos ou bem escritos?
Sobretudo bem escritos. Não entrem nessa espécie de depressão que tem sido provocada por uns tipos medíocres que transformaram o jornalismo numa espécie de tabelionato. Há uma frase de um escritor que admiro muito: “Quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Já viu o bando de medíocres que está nas escolas de Comunicação Social sem saber fazer uma notícia?
Os textos de necrologia deveriam regressar às páginas dos jornais?
É uma das notícias mais difíceis, mas o Miguel Sousa Tavares não percebe nada disso, julga que o jornalismo é outra coisa. Há grandes jornalistas que fizeram grandes necrologias. Basta ler o terceiro volume de “As farpas”, de Ramalho Ortigão para perceber o que é fazer uma necrologia.
Ser-lhe-ía mais apetecível escrever as suas memórias ou um manual de jornalismo?
Manuais, nem pensar. Dei aulas numa Universidade. Começaram com 21 alunos e acabaram com 40. Mas isso aconteceu porque eu levava livros do Sena, do Nemésio, do Eugénio de Andrade e discutia com eles. Estou há muito tempo a escrever um texto memorialistico. Não é que a minha vida tenha alguma importância, mas nela atravessou-se muita gente. Conheci meio mundo. Ainda ontem estive a terminar um texto sobre Aquilino Ribeiro. Eu conheci-o. Ele gostava muito de mim. Foi essa gente que formou o homem que eu sou. Gente que tinha o conceito da ética, da moral, da deontologia, e que a aplicava a todos os sistemas de vida.
Está na casa de Constância, no Ribatejo. O que faz aí?
Leio e escrevo no computador.
Tinha de si uma imagem mais romântica: a do homem que ainda escreve à mão…
Mas escrevo à mão. Num Moleskine onde aponto uma data de coisas e com uma Mont Blanc. Só depois passo para o computador.
Que relação tem com a internet? Vasculha blogs?
Não percebo nada disso, nem quero. Gosto do papel impresso, do cheiro dos jornais e das redacções. Aos blogs falta o suor, o cheiro dos corpos, a gritaria…
Ameaçou não votar nas eleições intercalares de Lisboa…
… e não votei. E disse ao António Costa, que conheço desde pequeno, que não iria votar nele, porque ele é cúmplice das malfeitorias que este Governo tem feito. É das coisas mais lamentáveis que tenho visto. Felizmente, não votei neles.
Critica a Esquerda por estar mais à direita que a Direita._Mas também não se revê na Direita. É um órfão político?
Sou um homem de Esquerda, irremediável e jubilosamente.
Mas não é deste PS?
Este PS não tem nada a ver com a Esquerda. Sou de uma Esquerda muito rebelde, que contesta as coisas, que leu Marx, mas que não recusa a bíblia. Que se encontra onde encontra o humanismo. Estamos a precisar de gostar uns dos outros.
Gosta que gostem de si ou basta-lhe que o respeitem?
Gosto muito que gostem de mim e faço grandes esforços para isso, sobretudo com as mulheres.
Porque razão diz que a vida só é bonita se for difícil?
Eu sou muito feliz. Não há nenhuma pessoa feliz, mas poucos homens estarão tão perto da felicidade como eu. Casei com uma mulher que me tem aguentado tudo, tenho a profissão que escolhi e é verdade, a vida só é bela quando é difícil. A gente só gosta das coisas que custam a adquirir. Tenho tantos amigos, que nem julgava que os tinha. Não tenho medo de dizer as coisas. Não gosto da mediocridade, da soberba, da arrogância. Não gosto daqueles jornalistas – e estou a pensar num em particular, e do qual já disse o nome – que querem ser os catões da moralidade quando na verdade tem telhados de vidro. As pessoas têm que ter com os outros uma relação de respeito e admiração. Eu admiro tanta gente que, às vezes, os meus amigos dizem: “Tu admiras demais”. Tenho um grupo que se reúne todas as sextas-feiras. Somos os “Empatados da vida”, aqueles que nem venceram, nem foram vencidos.
Quem são?
O Mário Zambujal, o João Paulo Guerra, o Eugénio Alves, o professor António Borges Coelho, o Fernando Dacosta e o José Manuel Saraiva. Não queira saber o que nós nos divertimos.
Gostava de ser uma mosquinha nessas tertúlias…
Posso convidá-la, se quiser. Às vezes, convidamos pessoas. O último foi o Luís Filipe Menezes.
A idade ainda é um posto?
A idade não, a amizade é que é um posto. Amigo nunca trai amigo.
Recentemente, morreram dois dos seus poetas de eleição: Mário Cesariny e Eugénio de Andrade. Lê-os agora de forma diferente?
Tenho uma colecção de poesia que, se calhar, muitos poetas não tem. A poesia ajudou-me a melhorar a prosa. A poesia e a pintura. Percebi isso muito cedo. Andei em arquitectura, e andei a chumbar, e percebi com Van Gogh e, mais tarde, em Leninegrado – continuo a dizer assim e não São Petersburgo -, no Museu Hermitage, com parte substancial da obra de Picasso, o que era o adjectivo na prosa, com cor, mas com contenção. Não é atirar adjectivos aos molhos como faz o Lobo Antunes.
Raul Brandão, um dos seus escritores, escreveu: “A verdade amarga e única é esta: é que na vida é preciso sonhar para não se morrer transido, tantos são os pontapés que a gente leva na alma e noutra parte”: Concorda com ele?
Ainda ontem estive a reler parte de “A Farsa”. É assim. Sou incapaz de pensar numa pessoa que não sonhe. Pode viver sem ideias, mas não pode viver sem sonhar. A vida seria insuportável
A sua vida é um acto poético?
Sempre foi; sempre será.
Vai continuar a resistir à gravata em prol do laço?
Paginei o “Diário popular” e a gravata, naquela tipografia tradicional, ficava sempre cheia de tinta. Passei a usar laço. O nó do laço é mais fácil de dar do que o da gravata. Sim, porque não os compro feitos.
Baptista Bastos
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A CRISE DA ESQUERDA
Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

D iscreteando sobre La Chinoise, o grande clássico de Godard, para unir a tese de “filme político” ao ensaio de Bernard-Henry Levy, Ce Grand Cadavre à la Renverse, João Lopes escreveu, anteontem, no Diário de Notícias, um belo artigo, que propõe amplas vias de reflexão. O “património de imagens”, referido pelo articulista, a fim de definir o que embala, hoje, a esquerda, coloca o problema na confusão que se apoderou da política. João Lopes nunca se afastou do princípio [de Aristóteles a Adorno] segundo o qual a estética está associada a uma ética, e ambas são o traço identificador de uma cultura relacionada com a ideologia.
As “imagens” são, pois, o património da memória, que a direita tem procurado, amiúde com êxito, apagar ou desvirtuar. Estabelecendo paralelos entre diferentes manifestações de arte, Lopes intitula o texto “Repensando a Crise da Esquerda Europeia”, a fim desembocar nas múltiplas incertezas de que La Chinoise fazia questão central e premonitória, ante-Maio de 68. Porém, a crise da esquerda decorre da crise da direita, porque ambas são complementares. E poucas vozes, na Europa, de um e de outro lado, conseguiram abandonar as concepções ultrapassadas do mundo, de que são dramaticamente prisioneiras. Veja-se a ambiguidade do Tratado de Lisboa, e a astenia política dos seus antagonistas. O capitalismo sai largamente beneficiado, e a Europa dos “valores”, da solidariedade nas diversidades culturais, da justiça e da democracia é severamente sovada. Esta civilização universal do acordo e do consenso não passa de ficção. Apenas o Pacheco Pereira tocou nos pontos sensíveis do pacto, advertindo estar em risco o modelo europeu de sociedade, porque nada, no Tratado, corresponde a uma garantia para o futuro. Podemos estar ou não de acordo com o Pacheco. Por vezes, irrita-me a soberba dos seus tiques de guru e o ar enfastiado com que ancora o discurso. Mas é um homem lido e bem informado, com o qual se pode ter conversa agradável, por vária e fundamentada. Há anos, escreveu uma série de artigos, no Público, sobre esquerda e direita, do melhor que a inteligência portuguesa produziu. Não resultou no debate necessário. Uma tertúlia de que faço parte, Os Empatados da Vida, distinguiu-o, então, com um almoço e o prémio do mês.
O “realismo” político da esquerda tem sido o do cumprimento das regras, sem contrariar o domínio do capitalismo global, cada vez mais selvático. A esquerda tem, somente, tentado salvar a mobília com que ataviou a sua história, aceitando, como mal menor, as imposições do “mercado”. As “imagens” (cinematográficas ou literárias) de que fala lucidamente João Lopes, previnem-nos sobre o mais avassalador empreendimento anti-social de que há conhecimento – e aconselham-nos a agir. Como? A esquerda não ensina porque não sabe.
Baptista-Bastos
escritor e jornalista
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Ser de esquerda
Novembro 7, 2007 · 1 Comentário
Nick Cohen
Entrevista: “Ser de esquerda significa apoiar o Estado e, temo, ser anti-americano”
O que resta da esquerda ou como a esquerda está sempre pronta a desculpar mais depressa Saddam e Osama do que George W. Bush. Entrevista com Nick Cohen, que acaba de lançar “O que Resta da Esquerda?” em Portugal
Em 2003, Nick Cohen, jornalista, colunista do “Observer” e colaborador da “New Statesman”, escreveu um livro que foi considerado a mais devastadora crítica ao New Labour de Tony Blair. De esquerda, entenda-se. Chamava-se “Pretty Straight Guys” e considerava os seus governos os mais absolutistas desde os Stuarts. Levantou uma gigantesca polémica. A mesma que agora provocou o seu último livro “What’s Left?”, publicado em Fevereiro e agora editado em Portugal pela Aletheia com o título “O que Resta da Esquerda?” É uma diatribe violenta contra a esquerda liberal britânica que… se opôs a Blair.
Incoerente? Não tanto, se soubermos que, em 2003, ele já considerava que a guerra contra Saddam fora das poucas coisas que Blair fizera bem, mesmo que nem sempre pelas melhores razões. O que ele tenta provar em 2007 é como a esquerda liberal britânica (e, de caminho, a das democracias ricas do Ocidente) perdeu qualquer sentido moral virando as costas às vítimas da opressão e do terror a não ser que essa opressão e esse terror possam ser assacados aos americanos. É implacável a desmistificar os Michael Moore e os Noam Chomsky da esquerda, mas deixa-nos perplexos quando argumenta que as suas ideias afectam hoje o mainstream liberal e não apenas as suas margens. Acusa a esquerda, de um modo geral, de estar sempre disponível para desculpar mais depressa Bin Laden, Saddam ou qualquer movimento obscurantista do que George W. Bush.
Ele próprio começou por criticar a guerra, para mudar de posição quando se interrogou sobre as gigantescas manifestações de Fevereiro de 2003 contra a guerra. “O Iraque é o único país árabe com um forte movimento de oposição democrática. E, no entanto, eu pergunto-me quantos dos manifestantes sabem sequer da existência dos dissidentes.”
O seu livro, como admite na entrevista ao P2, nasce desta interrogação. Extractos.
Em 2001 era contra a guerra do Afeganistão, contra Blair, contra Bush, como muita gente na esquerda. O que é que o fez mudar desta forma, ao ponto de escrever este livro que deixa a esquerda de rastos, quando as coisas estão mesmo a correr mal no Iraque?
Uma coisa peculiar. Durante a ditadura de Saddam, que se assemelhava em tudo ao fascismo, havia uma oposição que era perfeitamente conhecida pela velha esquerda europeia – os socialistas, os comunistas, os sindicalistas. O que me fez mudar foi a constatação de que a esquerda no Reino Unido, na Europa e na América não conseguia opor-se a Bush e, ao mesmo tempo, continuar a apoiar essas pessoas que, no Iraque, partilhavam os seus valores. A partir do momento em que se pergunta porquê, então temos de perguntar a seguir que valores são esses. Parece uma coisa insignificante, mas não é.
Os valores da esquerda?
Deus sabe os terríveis crimes que a esquerda cometeu no século XX, mas era boa na luta contra o fascismo. Bom, nem sempre, mas quase sempre. E o seu lado mais nobre era o internacionalismo, a solidariedade, a camaradagem. E eu perguntei-me: porque é que tudo isto desapareceu? Nunca consegui ver ninguém de esquerda dizer: esperem aí, porque é que não apoiamos as pessoas que, no Iraque, querem exactamente o mesmo que nós e que sofreram mais do que algum de nós pode sequer imaginar?
Depois, percebi uma coisa terrível: que as pessoas que são vítimas de movimentos extremistas e de regimes ditatoriais cujos actos não podem ser atribuídos à responsabilidade dos americanos passam a ter muito pouco apoio. Por exemplo, as feministas iranianas, os palestinianos secularistas, os sindicalistas chineses. É só quando o sofrimento das pessoas pode ser atribuído à América, ou ao Ocidente em geral, só nessas condições é que merece solidariedade.
O Iraque é um exemplo clássico disto que lhe estou a dizer. Nos anos 80, quando Saddam era aliado dos EUA, as pessoas em Londres reuniam-se, choravam, sofriam com o sofrimento dos iraquianos. No momento em que Saddam invadiu o Koweit e se tornou inimigo da América, foram-se todos embora.
O seu livro foi publicado em Fevereiro, precisamente no momento em que as pessoas, da esquerda ou da direita, que apoiaram a guerra estão a pensar se valeu a pena derrubar um ditador
Mas este não é um livro a favor da guerra no Iraque. E também não é sobre o Iraque. Cada vez que menciono a oposição à guerra digo que havia muito boas razões para o fazer e que quase tudo o que se disse na altura acabou por revelar-se verdadeiro Já lhe disse que a minha questão é outra.
Olhe, no Reino Unido, há uma maneira muito estranha de se descrever o que se passa hoje no Iraque. Diz-se que não sei quantas pessoas foram mortas num atentado, que uma bomba despedaçou um sindicalista, mas não se diz quem fez isso, quem pôs a bomba. Não se diz qual é a ideologia extremista que está por trás disso.
Tenta comparar o que aconteceu na Europa nos anos trinta com o que está a acontecer agora…
O que me interessou não foi o facto de parte da esquerda ter seguido Estaline. Foi ver como é que as pessoas de esquerda que eram contra o fascismo acabaram por estar ao lado de Hitler. Quando se passa a vida, tendo ou não razão, a denunciar a nossa própria sociedade e os seus abusos, fica-se quase sem defesa para compreender como o totalitarismo é mil vezes pior. Dizia-se: “O Hitler é um nazi mas o Churchill é um fascista.” Hoje vimos este tipo de raciocínio todos os dias. “OK, os taliban e a Al Qaeda são horríveis, mas os Abu Ghraib, os Guantánamo são a mesma coisa.”
Pensa que o maior problema dessa esquerda que critica é não gostar da democracia liberal?
É parte do problema. Mas creio que é mais profundo do que isso. O socialismo acabou e era o socialismo que definia a esquerda desde o final do século XIX até ao final dos anos 80. E o que acontece a seguir? De alguma maneira, isso liberta as pessoas para seguir qualquer tipo de ideias e também torna muito mais fácil ser de esquerda. Porque, verdadeiramente, não é preciso acreditar em nada de positivo. Antes, era preciso acreditar num programa positivo. Sou de esquerda porque acredito que os bancos devem ser nacionalizados em Portugal, por exemplo. Agora já não é preciso acreditar em nada disto. O que eu digo é que a esquerda liberal, do mainstream, traiu todos os seus princípios.
É esse salto que não compreendo no seu livro. A sua crítica concentra-se em fenómenos marginais. Mas o Fahrenheit 9/11 de Michael Moore não convence ninguém que seja normal. Noam Chomsky não tem assim tantos adeptos. Isso não é significativo do pensamento da esquerda liberal.
O que tento fazer é mostrar como algumas ideias que começaram na extrema-esquerda, que nasceram dos restos do socialismo, nos movimentos trotskistas, anarquistas, anti-globalização, nas franjas como você diz, se transformaram em ideias comuns do maisnstream liberal.
Foi um crítico duro de Blair e do New Labour. Mas quando se chega ao fim do seu livro somos obrigados a perguntar porquê. Ele foi internacionalista, quis derrubar um ditador terrível, defendeu os valores das nossas sociedades com tenacidade. Nada disso tem a ver com a esquerda?
Agora, estou menos crítico, é verdade. Mas tem razão, era crítico. Perguntava-me quando é que as pessoas iam erguer-se contra aquilo que ele estava a fazer no Reino Unido. E, afinal, as pessoas só se ergueram contra ele quando ele quis derrubar um regime totalitário. A partir daí, você tem de começar a fazer algumas perguntas.
O problema com Blair era o que acontece normalmente com líderes muito fortes. As pessoas que os rodeiam acham que não se pode discordar de uma parte sem discordar de tudo e isso torna-as dogmáticas.
Não acha, pois, que o New Labour seja uma forma moderna de esquerda?
(Pausa longa) Se eu fosse um conservador, chamar-lhe-ia assim. Mas eu não sou. É uma forma de gerir a globalização e tentar encontrar algum dinheiro dos impostos para gerir o Estado de bem-estar. O que perdeu, o que o Labour deixou cair, foi o sentido de missão, de fé.
É pragmático. Isso é mau?
Não estou a dizer que seja errado. Estou a dizer que não é reconhecível no que era a esquerda, que é diferente da esquerda do século XX, que tinha esse zelo, essa fé quase religiosa no progresso. Isso desapareceu porque foi descredibilizado pelo comunismo e também pelo sucesso do capitalismo global em tirar muita gente da pobreza. E isso deixa nas pessoas, que na Europa votam sem estados de alma nos partidos pragmáticos sociais-democratas, um vazio espiritual que pode ser facilmente ocupado por ideias negras e perigosas, essas que vêm dos extremos.
A integração dos imigrantes, as sociedades multiculturais… A esquerda também, do seu ponto de vista, não está a saber responder a isto?
Num certo sentido, o meu livro é sobre isso. As mulheres muçulmanas que vivem na Europa, por exemplo, deviam poder contar com o apoio da esquerda para se poderem emancipar. Mas, por causa do dogmatismo sobre o multiculturalismo, não podem. É a esquerda que hoje lhes diz: isso é a vossa cultura. E qualquer pessoa que se lembre de criticar essa cultura em termos mais duros é logo acusada de ser islamofóbica e racista.
Mas não lhe parece que a sua crítica é demasiado generalizada? Há intelectuais liberais no seu país que sabem perfeitamente fazer as distinções essenciais. Garton Ash, por exemplo…
Sim? Não sabia que Timothy Garton Ash criticou duramente Ayaan Hirsi Ali [a deputado holandesa de origem somali], quando ela escreveu um livro a defender os valores do iluminismo e o feminismo? Não sabia? Os principais ataques a Hirsi Ali não vieram dos conservadores, vieram dos liberais como ele. Quando são confrontados com uma mulher que precisa de guarda-costas para sair de casa porque defende os direitos das mulheres e o direito a escolher a sua fé, a mudar de fé, a não ter qualquer fé, sentem-se desconfortáveis. Penso que se colocaram numa atitude que anda próxima do racismo ao considerarem que os direitos dela são diferentes dos de qualquer mulher branca emancipada que viva em Lisboa ou em Londres só porque tem pele escura e é da Somália ou do Irão, oriunda de uma cultura diferente.
O que sobra para a esquerda então, para além da protecção do ambiente como você refere?
No livro, recuo 100 anos para os socialistas e intelectuais do início do século XX, que hoje diriam que ganharam quase tudo. Essa é uma parte do problema. Actualmente, ser de esquerda significa apoiar o Estado de bem-estar e as instituições públicas. E, temo, ser anti-americano. Não sei como é que as coisas vão avançar a partir daqui. Mas quero acreditar que o lado melhor da esquerda, o seu lado emancipador, volte a existir.
Para além disso, essa ideia do New Labour de saber como é que preservamos essa democracia social que faz a civilização europeia num mundo globalizado é interessante.
Nick Cohen,
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José Saramago – Parte 2
Outubro 2, 2007 · Deixe um comentário
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José Saramago – Parte 1
Outubro 2, 2007 · Deixe um comentário
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Saramago
Outubro 2, 2007 · Deixe um comentário
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“Não sou profeta, mas Portugal acabará por integrar-se na Espanha” |
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Este foi o regresso mais longo de José Saramago a Portugal desde que a polémica que envolveu a candidatura do seu livro O Evangelho segundo Jesus Cristo ao Prémio Literário Europeu o levou para um “exílio” na ilha espanhola de Lanzarote. A atribuição do Prémio Nobel parece tê-lo feito esquecer essas mágoas, mas não amoleceu a sua visão da sociedade e da História, que continua a ser polémica. Como se pode ver nesta entrevista.
Durante dois dias, o Nobel da Literatura português sentou-se no sofá e analisou o estado do mundo.
Na única entrevista que concedeu durante a temporada passada na sua casa de Lisboa, falou muito de política, mais de literatura e também da vida e da morte. Pelo meio ficou o anúncio da criação da fundação com o seu nome e a revelação de que está a escrever um novo livro.
A união ibérica
Este regresso a Portugal é um perdão?
O país não me fez mal algum, não confundamos, nem há nenhuma reconciliação porque não houve nenhum corte. O que aconteceu foi com um governo de um partido que já não é governo, com um senhor chamado Sousa Lara e outro de nome Santana Lopes. Claro que as responsabilidades estendem-se ao governo, a quem eu pedi o favor de fazer qualquer coisa mas não fez nada, e resolvi ir embora. Quando foi do Prémio Nobel, dei uma volta pelo país porque toda a gente me queria ver, até pessoas que não lêem apareceram! E desde então tenho vindo com muita frequência a Lisboa.
Vive num país que pouco a pouco toma conta da economia portuguesa. Não o incomoda?
Acho que é uma situação natural.
Qual é o futuro de Portugal nesta península?
Não vale a pena armar -me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos.
Política, económica ou culturalmente?
Culturalmente, não, a Catalunha tem a sua própria cultura, que é ao mesmo tempo comum ao resto da Espanha, tal como a dos bascos e a galega, nós não nos converteríamos em espanhóis. Quando olhamos para a Península Ibérica o que é que vemos? Observamos um conjunto, que não está partida em bocados e que é um todo que está composto de nacionalidades, e em alguns casos de línguas diferentes, mas que tem vivido mais ou menos em paz. Integrados o que é que aconteceria? Não deixaríamos de falar português, não deixaríamos de escrever na nossa língua e certamente com dez milhões de habitantes teríamos tudo a ganhar em desenvolvimento nesse tipo de aproximação e de integração territorial, administrativa e estrutural. Quanto à queixa que tantas vezes ouço sobre a economia espanhola estar a ocupar Portugal, não me lembro de alguma vez termos reclamado de outras economias como as dos Estados Unidos ou da Inglaterra, que também ocuparam o país. Ninguém se queixou, mas como desta vez é o castelhano que vencemos em Aljubarrota que vem por aí com empresas em vez de armas…
Seria, então, mais uma província de Espanha?
Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla la Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente [Espanha] teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria. Se Espanha ofende os nossos brios, era uma questão a negociar. O Ceilão não se chama agora Sri Lanka, muitos países da Ásia mudaram de nome e a União Soviética não passou a Federação Russa?
Mas algumas das províncias espanholas também querem ser independentes!
A única independência real que se pede é a do País Basco e mesmo assim ninguém acredita.
E os portugueses aceitariam a integração?
Acho que sim, desde que isso fosse explicado, não é uma cedência nem acabar com um país, continuaria de outra maneira. Repito que não se deixaria de falar, de pensar e sentir em português. Seríamos aqui aquilo que os catalães querem ser e estão a ser na Catalunha.
E como é que seria esse governo da Ibéria?
Não iríamos ser governados por espanhóis, haveria representantes dos partidos de ambos os países, que teriam representação num parlamento único com todas as forças políticas da Ibéria, e tal como em Espanha, onde cada autonomia tem o seu parlamento próprio, nós também o teríamos.
Há duas Espanhas
Os espanhóis olham-no como um deles?
Há duas Espanhas neste caso. Evidentemente, tratam-me como se fosse um deles, mas com as finanças espanholas ando numa guerra há, pelo menos, quatro anos porque querem que pague lá os impostos e consideram que lhes devo uma grande quantidade de dinheiro. Eu recusei-me a pagar e o meu argumento é extremamente simples, não pago duas vezes o que já paguei uma. Se há duplicação de impostos, então que o governo espanhol se entenda com o português e decidam. Eu tenho cá a minha casa e a minha residência fiscal sempre foi em Lisboa, ou seja, não há dúvidas de que estou numa situação de plena legalidade. Quanto aos impostos, e é por aí que também se vê o patriotismo, pago-os pontualmente em Portugal. Nunca pus o meu dinheiro num paraíso fiscal e repugna-me pensar que há quem o faça. O meu dinheiro é para aquilo que o Governo entender que serve.
Mas não pode negar que o olham como um deus…
Não diria tanto…
Mesmo sendo a crítica espanhola tão positiva em relação à sua obra?
Também já foi uma ou outra vez um pouco negativa – talvez devido às minhas posições políticas e ideológicas – mas de um modo geral tenho uma excelente crítica em toda a parte, como é o caso dos EUA, onde é quase unânime na apreciação da minha obra.
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Elogio de João Lobo Antunes
Outubro 2, 2007 · Deixe um comentário

Elogio de João Lobo Antunes sobre o doutoramento honoris causa de António Lobo Antunes.
«17-09-2007»
Elogio do padrinho no Doutoramento “Honoris causa” pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro de António Lobo Antunes
João Lobo Antunes
Domingo de manhã. Abro ao acaso (a melhor forma de tomar o pulso a um livro), um volume das “Crónicas”.
Página 157: “E agora a noite e eu sem dar por ela. Ainda há um minuto, se tanto, estava muito bem aqui sentada e era dia, o merceeiro aberto, um homem a brincar com o cão, metade da rua
(a metade de lá)
ao sol, a velha do costume a assistir a nada do peitoril porque não se passa nada no bairro, nem uma briga, nem uma discussão, nem uma dessas mulheres que caminham como cordas que se desenrolam, deixando atrás de si um rastro de assobios de homens, as ordinarices que lhes rebentam na própria boca e as sujam a eles à maneira dos balões das pastilhas elásticas”.
“A assistir a nada do peitoril”. Bairro de Benfica, sessenta anos atrás. Na taxonomia moderna, a ultraperiferia de Lisboa. Numa casa velha de mais de cem anos, ao que consta, ao tempo uma escola, (daí nome da rua que nos envergonhava na adolescência: – “Travessa do Vintém das Escolas”). O quarto era pequeno: duas camas, duas cadeiras, duas estantes. Na parede do meu lado uma fotografia de Charlie Parker e o seu saxofone, em que nem o chiaroscuro da prova, esconde um olhar que contem toda a tristeza do mundo. Num escrito dedicado ao Pai, que no fim da vida se mudara para o nosso quarto, António escrevera que a fotografia lhe lembrava uma frase de Van Gogh ao irmão: “Sofremos por conta de uma porção de malandros e safados”. Em cada estante uma biblioteca miniatura. Na de António os volumes alinhavam-se em sentido, e se notava qualquer desvio, protestava porque eu lhe mexera nos livros. De facto, crescemos mais com livros que com brinquedos.
A licenciatura em medicina fora uma solução feliz. Afinal era preciso que se formasse em qualquer coisa, que tivesse para sobreviver uma “enxada”, metáfora tanto ao gosto de nossa Mãe. Assim ele se tornou-se psiquiatra, a mais literária – por vezes mesmo só literária… – das especialidades médicas. Afinal a ligação entre a medicina e a literatura é tão antiga quanto a própria medicina. Apolo, o deus da poesia, era pai de Asclépio, deus bastardo da medicina. Para Chekhov esta era a mulher legítima e a literatura a amante. No caso de António são ambas, ao mesmo tempo, mulheres e amantes. Como escrevia Torga, que habitava nas nossas duas bibliotecas, no Diário em 20 de Janeiro de 1961, quando lhe perguntavam porque seria que a medicina “dava” (era o termo) tantos escritores, ele respondia “- Não é ela que os dá. Limita-se simplesmente, a preservar esse dom aos que nasceram com ele, o que já não é pouco. (…) Por isso quando se sobrepõe a uma vocação criadora uma condenação clínica, não há dramas sangrentos.”
Cumpriu o curso com ajuda de uma fenomenal memória, arma que ele celebrou no seu primeiro livro – “Memória de Elefante” - e que ele musculou toda a vida. Os jantares de família eram – e agora que partiu o Pai, e ele ocupa a cadeira de braços, continuam a sê-lo – , uma espécie de concerto de amadores, uma “desfolhada” de poesia ou de longos nacos de prosa de Eça a O’Neill. Saber de cor é etimologicamente, saber com o coração. George Steiner, um dos maiores admiráveis “maîtres à penser” do nosso tempo, e um admirador devotado de António, nota que nem a censura nem a polícia secreta conseguiram calar a poesia decorada, e os poemas de Mandelstam sobreviveram de boca em boca, e os “rabis” nos campos da morte eram livros vivos, abertos à consulta dos outros prisioneiros.
Parece ser comum saudar-se hoje o escritor inculto e ignorante, elogiar a escrita que não passa de um mero exercício de um virtuosismo mundano. Para estes, a cultura não só é inútil, como, quem sabe, perigosa. Nada ficará destes escritores de palavras. Pelo contrário, a cultura de António sempre foi alimentada por um apetite insaciável e omnívoro, e ele é, embora o tente esconder, um erudito. A sua cultura tem-lhe servido sobretudo como instrumento de pesquisa das vidas, todos os sentidos convocados por uma curiosidade sem fim, um ouvido apuradíssimo para todo o linguajar, um olhar sorrateiro que parece dormir, mas é tão traiçoeiro como o dos crocodilos que meio submersos vão espiando a vítima. Depois, consolado, mergulha na profundidade de si próprio, como dizia outro poeta médico, William Carlos Williams. Ao mesmo tempo, preserva vivíssima a capacidade de se rir de tudo, e de todos, incluindo ele próprio, e o poder inesgotável de se espantar, que é apanágio dos cientistas da melhor cepa.
Depois de vinte e cinco anos de vida em comum, percorridos em órbitas secantes, cada um seguiu o seu caminho. Ele para África, eu para Nova Iorque. A experiência de África foi decisiva. Atrevo-me a pensar que fez dele um homem e, sobretudo, um escritor. Susan Sontag, e cito-a porque, tal como António, foi distinguida com um dos prémios literários de mais nobre projecção, o Jerusalem Prize, (que no caso do António mereceu entre nós apenas uma menção distraída), escrevia no livro que publicou pouco antes de morrer - “War is a man’s game (…) the killing machine has a gender and it is male”. A escrita de António tem o mesmo género, é claramente masculina, mas também, em surpreendente paradoxo, provavelmente poucos põem como ele uma mulher a falar sem que soe como falsete de “travesti”, ou burla de boneco de ventríloquo.
Anos depois, vivia eu então sozinho em Nova Iorque, António foi até lá apresentar um livro, “Os cus de Judas”, crismados agora “South of Nowhere”. Aliás a reincarnação da sua prosa nas línguas mais diversas, a traduzibilidade da sua escrita – e o neologismo é forçado -, é marca distinta do seu génio e da universalidade da sua prosa. Uma confidência: quando em país estrangeiro entro numa livraria (e faço-o sempre, porque alguém me ensinou a marcar cada viagem pela compra de um livro), procuro as suas obras. A última vez foi em Itália e encontrei-o num canon que compilava os livros que era indispensável ler antes de morrer – neste caso era “O Fado Alexandrino”.
Foi nesses dias em que vivemos juntos, só os dois, numa casa grande, que eu o vi na prática do seu oficio. Embrulhado num lençol de banho, ele escrevia, escrevia, em folhas pequenas (muitas vezes o fez no papel de receita do manicómio Bombarda, onde enfermeiras indiscretas lhe segredavam as histórias do “paizinho” que lá fora médico toda a vida), uma caligrafia belíssima e miniatural, como a de um contínuo do liceu onde andámos, que ia escrevendo a Bíblia em bilhetes postais, frases em espirais ou volutas ou ainda em blocos orientados segundo os eixos mais variados, por vezes em mais de uma cor, papiros depois entregues a paciente decifração por outros escribas.
E assim, ao longo dos anos, nos fomos aproximando, num entendimento silencioso e cúmplice do mister de cada um, ele que escreve, explicou um dia, por não saber dançar como Fred Astaire, quando afinal sabe, no sapatear incansável de uma voz singular na literatura portuguesa.
Até que um dia o destino que se deleita a bisbilhotar a fisiologia intima dos sentimentos, e expor descarnados os laços mais fundos que unem os homens, lhe enviou o primeiro recado da sua mortalidade, e eu vivi durante longos dias o soluço da sua aflição, pois sabia mais que ele sobre o tudo que lhe podia acontecer. E, de súbito, uma crónica angustiada acordou uma multidão inquieta e solícita – e alguns me escreveram, pedindo a minha intercessão – que parecia depender da sua escrita como alimento do espírito e consolo da alma, extensíssima família de gente anónima que toma aquilo que ele escreve como uma carta secreta que só eles lêem .
Surge então o convite, que rompia praxes e porventura perturbava de forma insólita a liturgia destes actos, para lhe servir de padrinho nesta cerimónia na universidade da admirável terra de Torga, cujo centenário, em coincidência feliz, agora se celebra.
Mas a universidade aceitou o capricho deste filho que hoje adopta, e fê-lo com tal elegância que não me senti obrigado a justificar a impertinência de ter acedido ao pedido de meu irmão, em parte também porque sou, medularmente, um académico, e estou por isso sempre no meu mundo, em qualquer universidade em que entro.
Num dos mais clássico dos ensaios sobre a missão da universidade, José Ortega y Gasset fala de duas funções principais: o ensino das profissões intelectuais e a investigação cientifica e a preparação dos futuros investigadores. Recorda que a universidade medieval não investigava e ocupava-se muito pouco das profissões – tudo era “cultura geral”, teologia, filosofia, “artes”. É, no fundo a universidade medieval que hoje aqui renasce, nesta celebração da vagabunda ocupação de escrever. Porque, afirma D. José, a cultura é o que nos salva do “naufragio vital”: “no podemos vivir humanamente sin ideas”, e temos de conter o “nuevo bárbaro”, “el profesional mas sabio que nunca, pero mas inculto también – el ingeniero, el medico, el abogado, el científico”. Quase um século antes, Henry, Cardeal Newman, numa outra obra fundamental, “The Idea of University” chamava a atenção para a importância do conhecimento “como um fim em si mesmo”, citando Cícero para quem isto dizia respeito, em primeiro lugar e acima de tudo, à natureza humana. Disse alguém que é a literatura que melhor revela o sentido das coisas que não são redutíveis a teoremas, que protesta contra a tirania da abstracção e por isso desempenha um papel insubstituível na compreensão do sofrimento humano. Esta cerimónia celebra pois a “umana cosa” com que Boccacio inicia o seu Decameron. É a celebração da força da palavra com que se escreve o amor e o ódio, as virtudes teologais e os pecados capitais, o desprezo absoluto e a indizível ternura, as grandes pulsões do espírito e os sentimentos mais microscópicos, o grito e o murmúrio, o sublime e o ridículo, o que é visível e o que se esconde por detrás da aparência mais inocente, a mais nobilíssima visão e a mais abjecta confidência. De tudo isto e muito mais, António tratou, usando um instrumento de admirável ductilidade que é a língua portuguesa, língua que ele, reconhecem-no os especialistas, constantemente reinventa, e por isso ele é, na contemporaneidade, o grande inovador da nossa linguagem. E a abundância daqueles que o imitam é a prova da sua mestria, pois o “imitatio” é sempre consequência inevitável do verdadeiro magistério.
Italo Calvino quando procurava explicar a razão porque se devem ler os clássicos e a forma de os reconhecer citava, entre outros critérios, que o clássico quando lido a primeira vez nos dá a sensação de já termos lido antes. Isto sucede na obra de António porque – e este é um outro critério – o que ele escreve diz respeito a todo um universo, o que lhe dá um peso talismânico, e se a sua criação descobre um mundo que inventou novas formas de martírio e de solidão, o mundo da modernidade áspera, indiferente, dos encontros que nunca floriram, ele deu voz a quem nunca a teve na ficção contemporânea. Por ele falam assim os mudos que ninguém quer escutar.
Ainda Domingo de manhã. Volto de novo às “Crónicas”
Recuo quatro páginas e leio:
“Gosto de Virgínia Woolf não tanto pelos livros mas porque ouvia os pássaros cantando em grego, eles que normalmente como toda a gente sabe, usam o egípcio quando em liberdade e o latim nos poleiros.
Em que língua comunicam connosco os pássaros de vidro? E os de feltro em gaiolas doiradas, da loja dos chineses ao pé do sitio onde escrevo?
Os pombos cantam rodas dentadas de relógio avariado. O relógio de parede da casa de meu avô não cantava: limitava-se a anunciar
- Sou gordo, sou gordo
a cada badalada pomposa”
Entretanto, digo-vos eu, os neurobiologistas estão preocupados, como ele, com a explicação dos pássaros, investigando se o som dos pássaros é musica ou linguagem. O rouxinol, por exemplo, organiza os elementos das suas canções em hierarquias e segue regras no modo como as constrói semelhantes às que usamos na sintaxe. Outros pássaros, da família das cotovias, têm um reportório de mais de vinte mil canções que nunca repetem.
Sentado à sua mesa, António ouve outros ruídos e termina a crónica que começou com os pássaros de Virgínia Woolf:
“Carros de polícia lá fora, bombeiros: uma mulher em roupão, no telhado do prédio em frente, previne aos gritos que se vai atirar dali abaixo. Atirar-se-á?”
E assim fica suspensa a pergunta que nunca terá reposta, porque a resposta não pode existir, pois é a interrogação perpétua que alimenta a escrita, essa perseguição de um infinito só ao alcance dos eleitos. E é um eleito que esta Universidade agora acolhe, aceitando como prova, em invulgar circunstância, o humilíssimo testemunho de um irmão.
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“Fui cobarde tempo de mais”
Outubro 2, 2007 · 1 Comentário
“Fui cobarde tempo de mais” (continuação da entrevista a António Lobo Antunes)
Neste livro O Meu Nome É Legião há uma violência constante?
Não sou eu que a trago, a violência é inerente à situação do livro.
Preocupa-o essa violência quase selvagem num mundo civilizado?
Se é selvagem, o mundo não é civilizado.
Como vê uma realidade com que não é obrigado a conviver?
Era mais ou menos inevitável que isto acontecesse num país onde o abandono, a desigualdade social e a miséria são tão grandes. Com o estrangulamento da classe média era inevitável.
Acha que o Governo devia ter outra atitude?
Não tenho nada que achar porque não sou Governo nem quero ser mas, obviamente, acho que devia haver maior atenção para isto. A partir da altura em que as desigualdades se tornam gritantes é claro que estas crianças são empurradas para a delinquência.
Houve um tempo em que teve militância política. Os partidos terão resposta para estas questões?
Não sei responder mas se achasse que era útil ainda continuava a tê-la. Sou demasiado individualista e rebelde para aceitar uma disciplina partidária, além disso as opções políticas são tão afectivas como as opções clubísticas. Há pessoas de direita mais democratas que as de esquerda, há partidos de esquerda mais conservadores, as ideologias foram-se dissolvendo e a maior parte dos partidos são frentes e aqueles que ainda têm ideologia, ela está caduca. O único partido que vejo com corpo ideológico mais ou menos coerente é o Partido Comunista mas é de um tempo que já não existe. As conquistas de Abril, onde estão? Foram importantes mas passado todo este tempo…
Acha que este Governo é culpado?
Não sei e não estou preparado para responder mas se houvesse eleições – votei muito poucas vezes na vida – e fosse votar era no partido que está no Governo, porque não vejo alternativas.
Por ser o partido que está no Governo ou por ser o Partido Socialista?
Não me parece que este seja o PS do Mário Soares, o que foi fundado em 1973…
Não lhe parece porquê?
Pela prática e pela teoria, mas posso estar enganado.
Conseguiu terminar o livro mas os problemas destes jovens não se resolvem!
Não me compete a mim, sou só um escritor. Esta pergunta terá que ser feita a outro tipo de pessoas, dos que têm respostas para tudo.
Mas se a sua mão seguiu esse caminho foi porque a cabeça também o exigiu?
Eu queria falar era da vida toda, nunca imaginei que saísse assim, nunca estive nestes bairros e nunca conheci estes miúdos. O problema é que não pertencem a parte nenhuma, nasceram cá mas não ganharam Portugal e os pais perderam África. Às vezes comovia-me com a dificuldade de viver deles.
Há frases no livro que revelam racismo!
Pelo menos esses brancos do livro assim o pensam. O racismo é inevitável, vem do medo e do desconhecimento… Às vezes penso que muitas pessoas são como os liberais americanos que dizem dos negros és meu irmão mas nunca serás meu cunhado. Sempre me interroguei porque vi o racismo contra nós portugueses em países como a França. Quando fui receber uma condecoração a Paris, um dos membros do Governo disse-me que pensava que fosse espanhol e ao saber respondeu-me: ‘É português. É engraçado a minha mulher a dias também.’ Isto é profundamente racista, eu estava ao nível da empregada e ao mesmo tempo ali a receber uma condecoração do Presidente.
Há também uma mulher que lamenta não ser branca!
Da mesma maneira que os pobres gostariam de ser ricos, que alguns queriam ser saudáveis… No fundo, o que ela estará a dizer é que gostaria de ter determinados privilégios que no entendimento dela os brancos têm. Mal sabe que o racismo existe entre as várias classes sociais e continua a ser marcante no nosso país.
Mas a desigualdade e a violência preocuparam-no mais neste livro?
Claro que me preocuparam mas sempre houve e até os escritores estabelecem hierarquias ao nível social, para não falar ao nível da literatura. Mas também quantos grandes escritores há hoje em dia a escrever? Três ou quatro no mundo inteiro já não é nada mau, estamos muito longe do século XIX quando havia trinta génios ao mesmo tempo.
Não receia que o seu universo fique desajustado da realidade em que vivemos?
Nunca pensei nisso. Falamos do universo ficcional? Não sei, vivo neste tempo e a realidade é uma coisa que não existe – é muito subjectiva – mas é neste tempo que eu vivo e este é que me foi dado a ter.
Muitas das referências ideológicas do início da sua carreira desapareceram?
Em grande parte por nossa culpa, não fomos suficientemente sedutores para a juventude e refiro-me à participação cívica. Agora, há a ideologia do imediato, do eu quero ser célebre, famoso e rico, jovem e bonito, vive-se uma época de adolescentocracia, o que para mim é repugnante. Uma das minhas filhas esteve em Itália a estudar e as colegas de 17/18 anos quando acabavam o liceu pediam aos pais uma plástica como presente. Houve uma enorme quantidade de valores que a publicidade trouxe e que são seguidos por muitas pessoas.
Nas suas viagens tem medo do terrorismo?
Quando estive em Bogotá era sempre levado por trajectos diferentes porque as pessoas são raptadas na rua em troca de resgates. Fui cobarde tempo de mais para continuar a sê-lo, já não tenho medo. É uma coisa horrível a cobardia, foi em África que me libertei disso tudo, onde aprendi a existência dos outros. Eu nunca teria sido um escritor se não tivesse tido aquela experiência, que mudou muito a minha vida e fez-me perder a concepção ptolemaica do mundo. Passei a faculdade a jogar xadrez, a escrever e a ler, os movimentos estudantis de revolta contra a ditadura passaram-me ao lado por desinteresse e cobardia minha. Tinha medo da polícia, que carregassem na manifestação. Na guerra eu ofereci-me para várias coisas, justamente para me vencer a mim mesmo, para não me envergonhar. A coragem talvez seja uma das formas supremas da elegância e isso os nossos soldados tinham.
Mais alguma vez se sentiu cobarde?
Não.
O sucesso precoce atormentou-o?
Fiquei de boca aberta porque o livro tinha sido sempre recusado. Fui de férias e quando voltei o livro estava por todo o lado e a vender. Foi um espanto, nunca imaginei isto como também o que tem acontecido noutros países. Ainda agora, quando estive doente, vieram milhares de cartas de portugueses. Nunca imaginei que as pessoas fossem tão generosas comigo, dei-me conta que os livros eram importantes para muita gente e acho que não o mereço. Em nome disso tenho a obrigação de dar livros que sejam bons.
Não tem medo de desiludir?
Claro que tenho. Não gostaria nada que estas pessoas que se deram ao trabalho de me escrever ficassem desiludidas com o livro. Afinal, este homem não vale nada e eu gostava dele.
Muito do seu escrever actual é feito de uma reescrita, um livro procura o outro…
Sente isso? Eu queria neste livro dar tudo por tudo e foi um livro que me deu prazer e indignação. Porque estes miúdos que eu não conheço estão à procura de carinho mas não sabem como dá-lo. Do meu ponto de vista, tenho melhorado de livro para livro, sei que nunca vou conseguir lá chegar mas estou mais perto daquilo que queria escrever. Acho que marca um progresso em relação ao livro anterior e espero que o que estou a escrever marque um progresso em relação a este. |
Não vê televisão, quase não lê jornais mas quando se começa a ler o livro faz lembrar uma notícia!
Na minha cabeça era um relatório de polícia mas não sei como são porque nunca li nenhum.
Mas aquele início é de quem lê jornais…
Não tenho muito tempo e depois se o vejo fico perdido a ler o jornal. Houve uma altura em que lia A Bola todos os dias… Da televisão, fui-me afastando à medida em que também o fazia do Benfica. Agora já não vejo jogos de futebol, desde que deixou de ser um desporto…
Este Benfica já não o atrai?
Claro que me atrai, continuo a gostar do Benfica mas quando eu era miúdo o lar dos jogadores do clube era ao pé de casa dos meus pais e eles desciam a rua com o fato civil e o emblema na lapela… Era impensável que o Coluna ou o Eusébio fossem jogar para o Sporting ou que o Travassos jogasse no Benfica, eles eram daquele clube. Agora é uma indústria, são sociedades anónimas, deixou de ser um desporto. Os treinadores dizem é preciso paciência, o que é o contrário do desporto e todo o lado lúdico que me interessava deixou de existir, sendo substituído por uma eficácia de marcar golos e de ganhar por interesses económicos. Lembro-me de ter lido uma entrevista do Jesus Correia há muito anos em que ele dizia que o seu doping era o arroz doce que a mãe lhe fazia. Ainda havia aquele prazer como se encontrava no Brasil, de fintar e voltar atrás, como o Garrincha fazia.
Não pára o livro para ver um jogo do Benfica?
Não, já não. Tenho muita pena.
Mas teve conhecimento do murro do Scolari?
É-me completamente indiferente. Não acho normal nem anormal, é-me indiferente. Nem sei se deu o murro… Vi na televisão, foi uma patetice e não comento patetices.
Uma patetice de quem?
Eu não sei o que se passou. Vi o homem estender a mão mas aquilo nem me pareceu um murro, porque se eu der um murro não é assim.
E considera normal que José Mourinho tenha mais biografias do que a maior parte dos escritores portugueses?
Acho natural. José Mourinho atrai mais que Camões ou Shakespeare, as pessoas vivem cada vez mais no sentido hedonista. Não me repugna nada, nem me faz diferença, porque não é isso que tira o público dos livros. As pessoas continuam a comprar livros, portanto esta situação não me incomoda nada.
Um dos prazeres que tinha era dançar. Como é que isso vai de danças?
Não tenho tempo agora.
E tem par?
Isso de arranjar par não deve ser complicado.
Continua a ouvir música?
Tenho problemas de audição e praticamente já não ouço música porque os sons vêm distorcidos.
Disse uma vez que preferia ouvir a Ágata ou Emanuel aos Madredeus?
Disse isso? Eu nem sei bem… Não me recordo de o ter dito, deve ter sido uma boutade. Se me perguntar o nome de uma música desse con junto não sei mas também não sei dessas outras pessoas referidas.
Mas do jazz continua a gostar?
Não tenho ouvido mas claro que gosto muito porque enquanto escritor aprendi muito com os músicos de jazz a escrever. Pensamos que são os escritores que nos ensinam a escrever mas é mentira, pode ser um fotógrafo, pode ser um músico…
O jazz marcava-lhe o compasso da escrita?
O Charlie Parker fraseava maravilhosamente, aprende-se muito a ouvi-lo.
Também deixou de ir ao cinema?
Muito pouco agora. Vou muito pouco.
E policiais, ainda lê?
Gosto e durante muito tempo tive preconceitos idiotas face à literatura policial. Depois percebi que todos os livros são livros policiais, que têm coisas técnicas que se podem usar e ser muito úteis – a retenção da informação, a informação lateral – e aprendi muito com a sua estrutura.
Algumas mulheres acham-no machista no que escreve?
Não sei, se pensam isso parece-me injusto. Não sei que espécie de gente poderá dizer isso, eu gosto tanto das pessoas …
Como é o seu dia?
Começo às 10.30 e trabalho até às 13.00. Volto a escrever entre as 14.00 e as oito. Das nove até às onze continuo. Sábados e domingos também.
Não folga ao fim-de-semana?
Dou-me umas horas ao sábado como aos magalas. Enquanto estive internado não escrevi e foi muito difícil recomeçar porque pensava que tinha perdido o livro. Para mim é muito importante fazer isto como um trabalho diário.
Como é que escreve?
À mão.
O computador é impensável para si
Não tenho computador, nem o sei abrir. Gosto de desenhar as letras. Uso os mesmos processos desde o primeiro livro, faço duas versões de cada capítulo, passo para o capítulo seguinte até ao fim, isto demora um ano ou um pouco mais, depois espero quinze dias para começar a rever e quando leio aquilo surpreende-me que tudo se articule.|
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“A morte é uma puta”
Outubro 2, 2007 · Deixe um comentário

O escritor surpreendeu os portugueses ao revelar numa crónica que tinha sido operado a um cancro no intestino. Não se coíbe de falar sobre o assunto, até porque a morte é palavra habitual nas páginas dos seus livros, mas comove-se ao relembrar aqueles dias e o pós-operatório. Uma coisa é certa, saiu deste susto um homem diferente e com vontade de ser mais sincero e de outro amar.
A porta que dá entrada na garagem onde escrevia naquela tarde fica no fundo de um beco. António Lobo Antunes enterra-se num sofá preto e pede para começar a entrevista com um certo ar de vamos cumprir o combinado. No fim, dirá que nem deu pelo tempo passar e encaminha-se para a “tasca” onde pede ao empregado o habitual. Desta vez, só deu duas entrevistas para ajudar o lançamento do novo livro – O Meu Nome é Legião. Está a trabalhar no próximo… De vez em quando ameaça que só escreverá mais dois ou três livros. Perdeu a vontade?
Não só não é isso que eu tenho vontade como tão-pouco é uma ameaça. Está muito mais relacionado com o medo de não ser mais capaz de escrever. Aparece a cada livro que acabo e pergunto-me se serei capaz de fazer um próximo. Ninguém que escreva a sério vai poder dizer isso. Também é uma espécie de negociação com a morte, deixa-me escrever mais um, mais dois, mais três… Gostava de ter tempo para escrever outro e arredondar o trabalho, é um círculo que ainda não está completo.
Quantos livros faltam para fechar esse círculo. Só mais um?
Gostava que fossem mais porque o círculo vai aumentando sem nos darmos conta. Eu gostava de viver mais duzentos anos mas é improvável que os tenha.
Sofre muito ao escrever?
Há instantes de intensa felicidade – às vezes sinto as lágrimas a caírem-me pela cara – e momentos de grande irritação porque num dia consigo fazer meia página e no noutro só três linhas. O material resiste, as palavras não chegam, o livro não sai. Normalmente as primeiras duas, três horas são perdidas, os mecanismos sensórios ainda estão muito vivos. Então, quando começo a estar cansado, as coisas começam a articular-se com mais facilidade. É como quando estamos a dormir e de repente temos a sensação de termos descoberto os segredos da vida e do mundo, mas sabemos que estamos a dormir. Lutamos para acordar e quando chegamos à superfície não temos nada, diluiu-se enquanto fomos subindo. Quando consigo um estado próximo dos sonhos é muito mais fácil trabalhar e só o tenho estando fatigado.
Já experimentou algumas substâncias para atingir esse estado artificialmente?
Nunca tomei drogas, nunca apanhei uma bebedeira na vida. Não bebo café, não me dá prazer. Acho que o único vício que tenho é fumar.
Portanto, é bem comportado?
Não é uma questão de comportamento, em casa dos meus pais não havia vinho à mesa, só água. Eram muitos filhos…
É normal os filhos romperem hábitos!
Não havia vinho à mesa da mesma maneira que a roupa passava de uns para os outros. Os meus pais deram-nos uma educação de grande austeridade, não tinham muito dinheiro.
Quando faz o julgamento da convivência com a vida acha que ambos se dão bem?
Nunca me pus esse problema, tenho tentado viver o melhor que posso. Fiz certamente muitos erros e continuarei a fazer – espero que menos – mas nós não fomos feitos para a morte, fomos feitos para a vida e sempre me custou ver o sofrimento alheio. Quando fazia muita medicina, não era só o sofrimento que custava mas a minha impotência para com ele. Acho que as pessoas não foram feitas para a morte mas para a vida e para a alegria.
Mas não há escapatória para a morte!
É mais simples do que se pensa. Este ano, tive um problema de saúde e sofri isso na pele, acho que o problema está ultrapassado mas foi um ano duro. E a minha atitude era sobretudo de espanto, e a minha preocupação era ter uma atitude digna e não cobarde. Vi pessoas com uma coragem extraordinária e aprendi com elas lições de vida, coragem e dignidade. As pessoas comportavam-se como príncipes perante a situação e eu pensava estou aqui com pessoas que são melhores do que eu, com uma imensa dignidade no sofrimento. Isso foi uma coisa que me comoveu muito e fez pensar que vale a pena viver entre os homens e com eles. Todo o sofrimento é injusto… Em nome do quê é que uma criança de três anos morre com um cancro ou uma leucemia? É muito injusto, qual a razão disso? Sempre me intrigou a razão deste sofrimento porque o do interior tê-lo-emos sempre. Estamos carregados de dúvidas e certezas e as perguntas que nos fazemos ficam muitas vezes sem resposta. Porque vivo assim, em que falhei e magoamos pessoas sem darmos conta com uma frase que para nós é completamente anódina. Julgo que o segredo é estarmos atentos aos outros mas frequentemente não estamos e, sobretudo, não reparamos que são diferentes de nós. Daí o problema de escrever, como colocar em palavras coisas que por definição são anteriores às palavras? Como tentar cercá-las com palavras? Há zonas em mim que desconheço, portas que nunca abri e que, no entanto, aparecem nos livros e provocam-me uma certa perplexidade ao querer saber de onde é que isto vem, de que profundidades nossas, que todos temos.
Por isso resguarda tanto a vida privada?
Ela não tem importância nenhuma, só a mim me diz respeito. Quando fui operado escrevi essa crónica sobre o cancro porque já havia tanto jornalista e gente à volta do hospital que resolvi ser eu a dizer: Tenho um cancro no intestino. Não me deu prazer nenhum dizê-lo e garanto que não me deu prazer nenhum tê-lo. O pós-operatório foi horrível e duro, felizmente tive a sorte de ter um grande cirurgião e de todos os que lá trabalhavam serem de uma grande delicadeza. Só tenho gratidão.
O cancro está controlado?
Está controlado, neste momento o que faço são revisões periódicas. Claro que pode haver uma surpresa – pode haver sempre! – mas até agora tem estado tudo bem. É óbvio que na véspera de uma revisão estou tenso e fico assim até saber o resultado mas também sei que se houver um problema o Henrique (o cirurgião) vai lá e resolve-o. Preciso de tempo, preciso desse tempo, preciso ainda de trabalhar.
Está a lutar contra a morte apesar dela estar sempre presente nos seus livros…
Espero que a vida também! É inútil lutar contra a morte tal como é inútil lutar contra a vida. É inútil porque a morte é uma puta – desculpem o palavrão mas é a única palavra que encontro. Quando o meu pai morreu, o padre que foi rezar a missa disse que detestava aquilo porque nós não fomos feitos para a morte. De facto não fomos… Há pessoas de quem gostávamos e que já não podemos tocar e ver e cuja morte foi tão injusta. Ainda no sábado fui a enterrar um camarada da guerra que morreu num acidente de automóvel. Foi muito comovente ver aqueles homens duros, que fizeram a guerra, a chorar como crianças. Eu chorei também, gostava muito dele e agora quando nos reunirmos ele não vai lá estar. E não faz sentido que o Zé não esteja. Eu tenho que viver pelo meu pai, pelo Cardoso Pires, pelo Melo Antunes, estão dentro de mim até eu acabar.
Como contrariar a morte?
Ela corre mais depressa do que qualquer um de nós e a única coisa que posso fazer para contrariar é escrever, a única duração que posso ter é a que os livros tiverem. E aborrece-me que seja assim, é injusto que seja assim, embora haja momentos em que todos nós desejamos morrer, de desânimo e solidão. Há momentos em que quase temos inveja dos mortos porque a vida nem sempre é agradável e fácil mas, agora depois de ver as pessoas lutarem no hospital, senti que muitos pensamentos que tinha eram indignos perante tanta grandeza.
Isso alterou a sua forma de ser?
Eu agora jogo com as cartas para cima, está tudo à vista porque é a única maneira de viver. Demorei anos a perceber porque o conhecimento da vida chega sempre tarde e pensamos que ocultando conseguimos dar boa imagem aos outros. Agora é: eu sou assim! Peguem, larguem, não posso ser amado pelo mundo inteiro embora a sede de amor seja inextinguível. |
Qual é a sua atitude perante Deus?
Existe um velho provérbio húngaro que diz que na cova do lobo não há ateus, por isso julgo que não existe quem não acredite. O nada não existe na física ou na biologia e quando se lêem os grandes físicos entende-se como eram homens profundamente crentes, que chegaram a Deus através da física e da matemática e que falavam de Deus de uma maneira fascinante. A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso, cada vez mais, não no sentido desta ou daquela igreja mas porque me parece que a ideia de Deus é óbvia. Cada vez mais o é para mim. É um bocado como diz Einstein, quando afirma que Deus não joga aos dados.
Como é essa relação?
É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo. O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria. A minha atitude em relação à religião é essa, não estou a falar de igrejas, estou a falar em relação a Deus e não acredito quando as pessoas dizem que são agnósticas ou ateias. Não estou a dizer que a pessoa não esteja a ser sincera, mas dentro dela e em qualquer ponto há algo… Uma vez perguntaram ao Hemingway se acreditava em Deus e a resposta foi às vezes, à noite.
Então à noite também acredita?
Acredito sempre mas a dúvida e pôr constantemente em questão é próprio da fé. Muitas vezes pergunto-me será que existe? É óbvio que sim.
Recentemente foram reveladas as dúvidas de madre Teresa sobre a sua própria fé…
Todos os teólogos as tiveram, Sto. Ambrósio dizia “não busco compreender para crer, creio para compreender”; Sto. Agostinho esteve cheio de dúvidas toda a vida e o Sto. António… O mesmo se passa em relação aos livros, pergunto-me será que isto está bem feito? Não é esta palavra ainda, será que é possível fazer aquilo que eu quero fazer ou será demasiado ambicioso?
O título do seu último livro vem da Bíblia?
Estava a passear no Evangelho e apareceu-me. Foi a primeira vez que fui à Bíblia, não tinha título nenhum, não sabia como havia de o chamar e de repente tropeço naqueles versículos do Evangelho de São Lucas e pensei: é isto.
A sua formação em Psiquiatria não lhe dificulta a convivência consigo próprio?
Se os psiquiatras compreendem a mente humana? Não, isso é a vida que nos ensina a entender os outros. Algumas das pessoas mais cultas que conheci eram analfabetas e algumas das coisas mais profundas que ouvi foram ditas por pessoas de pouca instrução. Uma mulher disse-me uma vez ‘quem não tem dinheiro não tem alma’.
Quando está a escrever nunca se sente como se estivesse no divã a tirar coisas de si?
Eu nunca deitei ninguém em nenhum divã e se o fiz ao longo da vida foi para me deitar lá também, não era para ficar a ouvi-la falar. A sensação que tenho é que estamos na idade da pedra do conhecimento, do entendimento humano e das emoções. Não sabemos nada, eu pelo menos sei muito pouco. Isto só tem a ver com a humildade, não sou vaidoso, apenas tenho orgulho. Sei mais ou menos qual é o meu lugar enquanto escritor e o resto da minha vida não é importante, falar da minha vida privada não tem importância nenhuma, os livros sim podem ser importantes mas eu até acho que todos deviam ser publicados anonimamente, sem nome de autor. Isso eliminaria imensos problemas. |
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António Lobo Antunes em Buenos Aires, 2004
Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário
Convidado pela Editorial Sudamericana, Grupo Editorial Mondadori, para apresentar o seu livro Buenas Tardes a las cosas de aquí abajo, o escritor português António Lobo Antunes veio no mês de Maio e apresentou-se na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Foi declarado Hóspede de Honra pela Legislatura da Cidade Autónoma de Buenos Aires.
Nós que o lemos nas crónicas que escreve para o diário El País de Espanha, excelentemente traduzidas por Mario Merlino, e lemos seus livros, sabemos quão extraordinário escritor é António Lobo Antunes.
Falava em voz muito baixa, mostrava-se muito cansado, vinha acompanhado do seu editor espanhol, havendo passado pela Colômbia, onde apresentou o mesmo livro. O público escutava o escritor com respeitoso silêncio.
A viagem, o livro
“Foi muito duro“, disse a respeito da sua estadia na Colômbia, referindo-se à pobreza, à violência, à agressividade das pessoas. Na Colômbia as classes altas olham de cima para o povo, disse o escritor. Situação que poderá ser extensiva a vários países da América Latina.
“Encontrei cá na Argentina alguns dos melhores jornalistas que encontrei na minha vida“, disse. “Senti-me compreendido sem palavras“, afirmou. O escritor manifestou o seu cansaço em falar, de mostrar simpatia, de sorrir, de demonstrar interesse durante a promoção do seu livro que já vinha antes de Colômbia, em outros países da Europa. “Creio que que não tenho somente respostas mas também perguntas“, disse. “Não quero falar muito sobre o livro porque se pudesse falar dele, não o havia escrito“, afirmou Lobo Antunes. “Passei dois anos da minha vida escrevendo-o. É muito diferente do livro que queria escrever. Necessitava de um ponto de referência“. Partiu da ideia das seitas religiosas que se apropriam das pessoas sem cultura nem dinheiro. “A mão rejeitava essa solução. A mão voou até África, não tinha regressado a África depois da guerra”, disse. “Não há nada mais violento que a guerra. Uma violência e uma crueldade que ao mesmo tempo me fez dar conta de facetas escondidas em mim“, disse. “Há sentimentos contraditórios que nos habitam. Em todos os livros que as editoras publicam com o meu nome interessa-me que as páginas sejam como espelhos que nos devolvam essa visão dos sentimentos que nos habitam“.
A guerra
Eu queria ter um filho porque pensava que ia morrer. Tive uma filha, quando regressei a casa não a conhecia. Custou-me três ou quatro anos para ter uma relação normal, a minha primeira reacção foi dizer esta não é a minha filha. No país mais sensual que conheci, África, em vez de fazer amor o que se fazia era apanhar prisioneiros, ter mortos.
Quando era médico
Quando era médico interno tinha que fazer três meses de cirurgia, de obstetrícia, de outras especialidades. Mandaram-me para a enfermaria de crianças com cancro terminal. Havia um caso de um menino de quatro anos, eu tinha vinte e dois. O menino, José Francisco, morreu. Estava na porta da enfermaria e via o pé do menino, haviam-no envolvido num lençol e via-lhe o pé. Tenho a sensação que é por esse pé que escrevo. Por um menino morto, não sei porque razão e em nome de quê. Há que escrever pelos que não têm voz, pelos que não podem falar, pela mãe das minhas filhas que morreu de cancro faz quatro anos. Também escrevo com muita alegria, não tenho tempo para deprimir-me. Tenho momentos em que a minha cabeça está cheia de cães negros que se devoram uns aos outros.
O seu último romance: uma história de amor
Em Novembro de 2003 terminou o romance “Eu Hei-de Amar Uma Pedra”. De manhã escrevo no hospital, à noite no meu atelier, escrevo com a porta aberta, não gosto das portas fechadas.
Então contou o seguinte: “Vi passar uma senhora de negro e o médico que estava por ali contou-me a sua história: a mulher era uma camponesa de origem, e trabalhava como costureira. Quando jovem namorava com um rapaz que trabalhava no campo. Os seus pais mandaram-na a Lisboa para que tivesse uma vida melhor, para casa de uns parentes. O noivo também trabalhava muito. Viam-se quando se cruzavam na rua. Ela adoeceu de tuberculose, o rapaz escrevia-lhe mas os parentes não a deixavam responder-lhe. Ele pensou que ela teria morrido. Casou-se, estudou e teve filhos. A rapariga não morreu, voltou a trabalhar como costureira. Dez anos depois, um dia em que ela regressava depois de entregar umas roupas às clientes, encontrou-se com ele na rua. Durante cinquenta e três anos todas as quartas-feiras encontravam-se numa pensão. Ele estava casado. Não faziam amor, davam as mãos. Iam ver as acácias em flor. Ele ganhava muito dinheiro. Tinha alugado um quarto. Morreu quando estava com ela. O problema era como fazer sair o corpo da pensão sem que a esposa soubesse daquela relação. Ela chamou um dos genros dele para que o fizessem. Ela não pode ir ao funeral. Foi ela que contou assim esta história. Contei-a depois às minhas filhas e disseram-me: que mulher tão idiota. Para mim, a mulher da história tinha ficado com o melhor desse homem. Queria escrever essa história. Estive dois anos e escrevi um livro de amor. Hemingway dizia sempre que as histórias de amor têm um final triste. Tenho visto na minha família histórias de amor felizes, queria que essa história de amor me corresse no sangue. Não gosto de contar histórias mas contei-a para dizer que estou feliz por estar aqui“.
original escrito por Araceli Otamendi
encontrado no site Triplov
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]
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Que farei quando tudo arde?
Outubro 1, 2007 · 1 Comentário
Não será necessário gastar muitas linhas para apresentar António Lobo Antunes, talvez apenas dizer que esta entrevista foi o resultado de mais de cinco horas de conversa espalhadas por três tardes, horas bem passadas a falar sobre as coisas pequenas e grandes da vida, sobre a felicidade, loucura, literatura, suicídio, sobre o amor pelas suas três filhas e o desamor pelos pais, sobre o comunismo e a classe politica, sobre a guerra colonial e a amizade. Falámos também de literatura, do que ele gosta e detesta. Do seu último livro, claro. Magnífico Que Farei Quando Tudo Arde?, romance difícil que a partir de um universo homossexual toca magistralmente a perversa questão da identidade. Identidade daquelas personagens, mas sobretudo a nossa própria identidade. Falou-nos sobre o que anda agora a escrever. Explicou o que lhe acontece quando não escreve, o que lhe acontece quando tira o aparelho contra a surdez do único ouvido que ainda tem alguma sensibilidade, o que lhe acontece quando fecha os olhos e volta à mata de Angola, o que Ihe acontece quando pensa nos seus mortos, o que lhe acontece quando pensa no seu próprio fim.
Aos 59 anos, António Lobo Antunes publicou 15 romances traduzidos em dezenas e dezenas de países. Todos os anos o seu nome é falado para o Nobel da Literatura. Todos os anos aumentam as vendas e os seus admiradores. Diz-se que Mario Vargas Llosa tem a sua fotografia no escritório.
Foram três tardes. Ao Augusto Brázio, que lhe mostrou imagens, leu poesia. A mim, deu-me conselhos para a vida. Esperemos que fique a conhecer mais o homem do que o escritor, mais o que tem dentro do que as máscaras que utiliza para disfarçar a timidez, mais a inquietude do que a arrogância do personagem. Esta é uma entrevista com um homem que continua à procura de um sentido para a vida, um homem igual a tantos outros. Talvez mais próximo da genialidade do que a larguíssima maioria, mas também muito mais perto do sofrimento.
Vou ligar o gravador para depois, com o tempo, nos podermos esquecer dele.
Está bem. Falávamos de desamparo, de solidão, da minha solidão e do meu desamparo. Sempre tive uma vida muito sozinha, isso defende-me um bocado. É claro que aos 18 anos achava que sabia tudo sobre a literatura e sobre a vida, com os anos percebi que não sei absolutamente nada. Escrevo cada vez mais, escrevo quase compulsivamente… Agora, mesmo antes de chegar, estava para ali às voltas com a imortalidade.
Com a sua imortalidade?
Com a minha não, com a minha não. Às vezes, muitas vezes, sinto que devia aprender a não escrever, espero que isso me seja possível. O intervalo entre os livros é cada vez mais difícil de suportar, são intervalos muito penosos. E claro que as pessoas são muito gentis comigo, ainda agora em Espanha a recepção que me fizeram foi impressionante e comovente. Tanta gente, tanta gente… Uma pessoa fica aflita com tanta generosidade, fica aflita quando de repente pessoas que não conheço e que falam uma língua diferente da minha me pedem para continuar a escrever, para não parar.
Tem mesmo a intenção de parar?
Escrever mais dois livros e parar. É a minha ideia. Não concebo viver sem escrever, mas julgo que romances não escreverei mais. A maioria dos escritores, a dada altura, limita-se a apodrecer, esse apodrecimento acaba por pôr tudo o que fizeram antes em causa. Por vezes, sinto-me a rapar o tacho e não quero que isso aconteça. Porventura tenho que aprender a não escrever para descobrir múltiplas outras coisas, descobrir coisas que me apeteçam fazer.
O que Ihe apetecia fazer agora?
Ir a um quiosque comprar um livro policial. Depois talvez me sentasse numa paragem de autocarros suburbana, naquelas paragens em que param os autocarros que seguem para Lisboa… Sim, apetecia-me ficar para ali sentado. As pessoas entram, as pessoas saem e vou-me abandonando. Gosto dessa sensação. Todos os dias fico meia-hora na casa de banho sem fazer coisa nenhuma. Não tomo banho, não me barbeio, simplesmente estou sentado, mais nada. Os pensamentos não são claros, mas tenho a sensação que programo o resto do dia nessa meia-hora em que olho o tecto e as paredes.
Já não exerce a psiquiatria a tempo inteiro, mas continua a ir duas vezes por semana ao Hospital Miguel Bombarda. Para manter contacto com a realidade?
Não, não. Ainda sigo alguns doentes e isso dá-me muito prazer.
Que tipo de prazer?
O de ser imediatamente útil. Sabe que no hospital tive a maior lição sobre o que era viver, a maior de todas as lições. Um doente disse-me assim: «Sabe doutor, o mundo foi feito por trás». Na altura não liguei, mas hoje acho uma ideia espantosa. Na literatura e fora dela. Temos de escrever por trás para não estarem visíveis os pregos e as costuras, isso talvez seja o mais difícil porque é grande a tentação de mostrar tudo pela frente. Julgam, e também eu já o julguei, que assim as suas habilidades ficam à mostra, normalmente não percebem que é o leitor que constrói o romance. Sim, no hospital sinto-me útil. Na escrita a utilidade é uma dúvida permanente.
As dúvidas, quando são muitas, podem levar-nos ao hospital onde se continua a sentir útil.
A loucura varia muito. De norma para norma, de cultura para cultura. Aquilo a que os médicos chamam loucura não é mais do que algumas coisas que existem dentro de nós mais desenvolvidas. Por exemplo: o que é a timidez?
É o medo de sermos rejeitados pelo outro.
A timidez é a sensação de que estamos a ser olhados e que estão a reparar em nós. Num grau mais elevado deixa de ser timidez e passa a auto-relacionação, um dos sintomas da esquizofrenia. Todos os sintomas das doenças mentais acabam por não ser mais do que coisas comuns amplificadas, os médicos criam a norma clínica e consideram em alguns casos que determinados sintomas são desviantes da norma clínica que eles próprios criaram. Se estiver excepcionalmente bem disposto corre o risco de o rotularem com uma qualquer doença e dão-Ihe remédios para atenuar essa sua boa disposição.
A loucura varia então de médico para médico.
Julgo que sim. A loucura é exceder os limites impostos pelos médicos, limites que variam muito de caso para caso. O meu amigo Daniel Sampaio tem um patamar de tolerância muito maior do que a maioria, nunca o ouvi usar o termo normalidade. Mas a minha experiência clínica é diminuta, nunca quis ser psiquiatra nem tirar o curso de medicina, sempre quis escrever. Perguntam-me na maior parte das entrevistas se me inquieta a loucura, seria muito mais interessante perguntarem-me se me inquieto com o tempo que tenho à frente… Por um lado a única coisa que temos é o tempo, mas por outro cria-me uma espécie de angústia que tento preencher trabalhando. Talvez seja a razão porque trabalho tantas horas: fintar a angústia crescente.
É por isso que as pausas entre livros são penosas.
Sinto-me infiel e culpado quando não escrevo, não sei em relação a quê ou a quem. Nestes últimos dias passados fora de casa estive sempre a roubar tempo para voltar ao quarto do hotel… Eram recepções, homenagens, conferências de imprensa, sessões de autógrafos e eu sempre a pensar no momento em que o elevador me levaria de volta à minha solidão, mais nada.
Mas nunca lhe apetece fazer outras coisas?
Apetece-me sempre fazer outras coisas, mas isto tornou-se uma obsessão. A minha vida faz pouco sentido fora da literatura… Creio que é um pouco assim em relação à maioria das pessoas, o trabalho é a única forma de realização possível. Tudo o resto é secundário em relação ao trabalho, mesmo a actividade sexual.
E onde coloca o afecto?
Sou uma pessoa muito reservada. Não falo da minha vida privada e dos meus sentimentos, mas não é por ter escolhido ser assim, entristece-me tanto ser assim. Sou assim por causa da educação que tive e pelos problemas que tenho em manifestar afectos, problemas meus. Não falo muito destas coisas nas entrevistas, porque tenho receio da forma como é tratado o jogo entre as perguntas do entrevistador e as minhas respostas. Uma boa entrevista é sempre uma peça de ficção, o jornalista cria uma personagem que é o entrevistado, talvez hoje possamos ir por aí. Mas hoje quase tudo é ficção, as próprias editoras entraram por aí. Com a pressa de vender livros à força publicitam essas meninas todas que por aí andam a escrever e os jornais misturam os que têm qualidade com o que é reles. Essas meninas, esses livros, são reles. Assim como algumas más entrevistas.
É comum dizer-se que António Lobo Antunes é arrogante e vaidoso. O traço da personagem não corresponde à forma como olha.
As pessoas criaram uma ficção e agora é difícil esbater essa ideia. Durante anos, mesmo em relação a jornalistas, tentaram à força colar-me a imagem que imaginavam que eu fosse, ainda agora. Na sessão de autógrafos do lançamento deste livro escreveram-se coisas que eu não disse, coisas totalmente fantasiosas.
Quando se faz um pacto com a fama paga-se sempre um preço.
Não acho grave, surpreende-me apenas. Sou arrogante, mal educado, rebelde, geralmente sou sempre o António Lobo Antunes somado a qualquer coisa desagradável. Não corresponde a nada do que sou, a nada. No estrangeiro, o espaço toma o lugar do tempo. Essa circunstância faz toda a diferença: as pessoas vêem-me com uma distância impossível de conseguir em Portugal, aqui as pessoas confundem a imagem que têm de mim com o meu trabalho. Há sempre esta confusão, esta confusão entre a pessoa que criamos dentro de nós e o trabalho produzido. É fácil etiquetar as pessoas e muito difícil mostrar a nossa verdade. Já reparou que costumamos etiquetar as pessoas pelos seus defeitos físicos? É a critica mais reles que se pode fazer a uma pessoa porque estamos a falar daquilo que elas não têm culpa, criticamo-las pelos nomes que têm ou porque são demasiadamente feias ou gordas ou bêbadas ou fascistas.
O caso do seu grande amigo Melo Antunes é bastante claro sobre o que disse há pouco. Para a direita era visto como um comunista, para os comunistas como um perigoso fascista.
Lá estão as etiquetas da ficção. Na verdade não passava de um homem livre e independente, mais nada. Geralmente não se perdoa a um homem livre e independente. Aí sim, paga-se sempre um preço e ele pagou-o até ao fim.
Conheceu-o em Angola, durante a guerra colonial.
Jogávamos xadrez antes dos bombardeamentos. Eu não gosto de falar da guerra, nunca falei da guerra numa entrevista, custa-me, sabe. Jogávamos xadrez antes dos bombardeamentos, antes do anoitecer, de vez em quando líamos poesia um ao outro. Foi o homem mais corajoso que conheci na frente de combate… Uma ou duas vezes vi-o, no rescaldo dos confrontos, a passear nas trincheiras com uma lanterna, uma ou duas vezes vi-o a servir de alvo. Um dia perguntei-lhe porque o fazia, ele que era geralmente tão cuidadoso com a vida dos homens, e disse-me assim: «Sabes António, é que às vezes apetece-me tanto morrer». Era um homem livre o Ernesto, talvez o único homem com quem podia estar uma tarde inteira sem dizer uma palavra, numa espécie de pacto de silêncio. Sabe que nunca falámos da guerra? Nunca, nunca.
E quem ganhava ao xadrez?
Ganhava-me nove em cada dez jogos. Tenho impressão que, de quando em vez, me deixava ganhar. Era um homem aparentemente muito distante e frio, quem o conheceu sabe que isso não correspondia à figura.
Já falou um pouco sobre a guerra.
Falei sobre o Ernesto Melo Antunes, é diferente. Sobre a minha guerra? Há uns anos vi um filme português acerca da guerra colonial e, a dado passo, os soldados falavam da Pátria, da injustiça da guerra e do colonialismo. Coisa absolutamente imbecil e falsa, nada mais falso do que isto. Na guerra estamos apenas preocupados em chegar ao dia seguinte, não havia considerações adicionais para quem se encontrava nas frentes de combate. Estávamos presos, como um bicho na terra, à tentativa desesperada de chegar ao dia seguinte. Queria lá saber do colonialismo, queria lá saber da democracia, queria lá saber do socialismo. O próprio Melo Antunes, ultra-politizado e que combateu a guerra antes e depois de lá ter estado, nunca disse uma palavra durante o tempo em que chefiou o meu batalhão. O erro formidável era estarmos ali, nós estarmos ali, não havia mais nada senão o desejo de voltar a casa.
Mas diziam poesia um ao outro.
Como forma de não ficarmos totalmente alienados. É tão penoso falar sobre isto, talvez possamos ficar por aqui. Senão já sei: durante uns dias não encontro concentração para escrever.
Continua a ser-lhe difícil voltar.
Tanto ou mais do que antes.
Durante aquele tempo, à semelhança de Melo Antunes, também Ihe apeteceu morrer?
Nunca me passou isso pela cabeça, queria viver. Voltar inteiro.
E hoje, António?
Continuo a querer viver, apesar de tudo.
Apesar da falta de sentido da vida?
A vida faz-me sentido enquanto trabalho.
Só enquanto trabalha?
Fundamentalmente enquanto trabalho. O Daniel Sampaio, que é meu médico, diz-me que sou auto-destrutivo com tendências suicidárias. De há três anos para cá, quando me começaram a acontecer coisas muito más na minha vida, talvez isso se tenha acentuado, não sei. Mas quero viver, quero viver. O Reinaldo Arenas, de quem era muito amigo, telefonou-me uns dias antes de se suicidar com o objectivo de se despedir de mim. Não me passou pela cabeça que o pudesse fazer, para falar verdade não lhe liguei nenhuma.
Se alguma vez pensasse fazer o mesmo tinha muitas pessoas a quem telefonar?
Se alguma vez pensasse fazer o mesmo não telefonaria a ninguém. Mas os livros dão-me sentido à vida, o desafio de lutar contra um material que se revolta contra mim, a escrita deste último foi nesse aspecto muito complicada. Já o leu?
Gostei muito.
Foi um livro tremendo. Nada sabia sobre o mundo da droga, da homossexualidade, dos travestis. Inventei tudo e o problema foi escrever as coisas com a mesma intensidade com que as fui sentindo dentro de mim. Gostava profundamente de todas aquelas pessoas, percebe isto, Luís?
E o contrário acontecia, António? As pessoas que habitavam as suas páginas gostavam de si?
Isso já não sei, não me importa. O importante é que eu gostava delas, o importante é que as tornei vivas em mim – aquela mãe, aquele pai, o rapaz, o namorado do pai. Tudo pessoas por quem tinha um extremo afecto, fui muito sensível ao sofrimento daquele travesti e o que aquele homem sofreu! O livro está muito substantivo, não tem adjectivos ou advérbios, gostava profundamente dele, um amor tudo menos triste.
Não considera este livro triste?
Nada triste, nada desesperado. O livro é sobre a procura da identidade, mas a procura da identidade é algo que nos acompanha toda a vida. Quem sou eu? Quem são os outros? Quem sou eu face aos outros? É um jogo de espelhos, mas o problema é que todos os espelhos são ligeiramente deformados, quanta mais não seja somos canhotos nos espelhos, não somos completamente nós. Para escrever seja o que for, mesmo que seja um atestado médico, é fundamental medir bem as palavras. O Alexandre Herculano dizia em relação ao Almeida Garrett que este era capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita. Esta frase definia um e outro. Mesmo as pessoas que escrevem para os jornais, que no dia a seguir servem para embrulhar o peixe frito, devem medir as palavras por respeito à língua e a nós mesmos.
Gosta de muitos escritores Portugueses?
Há dois ou três escritores com qualidade, já não é mau. Não há exigência, não há rigor, as pessoas não têm um sentido ético da vida e muito menos um sentido ético do seu trabalho. Estou a falar no geral, mas desta generalização não excluo os escritores. O mais difícil de suportar, para isso não tenho mesmo paciência, é o mau carácter e a desonestidade. Não suporto os plágios descarados, os livros medíocres exaltados pelos jornais e revistas cor-de-rosa, tudo isso é miserável, é pequeno e é reles. Para fugir à verdade tudo isso é, também, universal.
Acredita mesmo que a vida se justifica através dos livros?
É a única coisa que vai ficar de mim, pelo menos durante algum tempo.
Por muito tempo?
Muito tempo é sempre pouco. De qualquer maneira, já não estarei cá para saber. Nós morremos quando desaparecem as últimas pessoas que ouviram falar de nós.
A imagem que vai deixar nas suas filhas é diferente da que vai ficar em si quando os seus pais morrerem?
Espero bem que sim. Até porque a imagem que tenho dos meus pais não é muito positiva. Tenho, cada vez mais, tentado ser uma referência e um abrigo onde elas podem voltar sempre. Nunca lhes faço perguntas, mas oiço com a maior atenção o que elas me querem contar. Quero deixar-lhes uma imagem diferente da que os meus pais me deixaram, não me deixaram nenhum vinco na alma, nenhum. Ficaria muito triste se tal acontecesse com as minhas filhas e os meus amigos, gostaria que se lembrassem de mim com alguma saudade, saudade que não sei se terei quando os meus pais morrerem. Ternura é um sentimento que nunca associei aos meus pais, não me lembro, nunca, nunca, de a minha mãe alguma vez me ter beijado. Tive extrema ternura por tias minhas, pelo irmão mais velho da minha mãe, tenho muita pena de não sentir isso pelos meus pais. Mas isso não os desvaloriza, é apenas um sentimento que tenho em relação a eles, nem sequer construí a minha vida contra eles, construí-a de costas voltadas para eles. Nunca houve respostas às minhas perguntas, os pais devem sempre dar respostas mesmo quando as perguntas não são correctamente formuladas. «não podes meter o dedo na ficha. Por que é que não posso meter o dedo na ficha? Porque dá choque. O que é um choque? Com um choque podes morrer. O que é morrer?» Começavam aí os problemas.
O que respondeu às suas filhas quando Ihe perguntaram o que era morrer?
Nunca me perguntaram. Infelizmente para elas tiveram que viver com isso muito mais cedo do que seria desejável, mediante essa realidade não há perguntas.
Há silêncio.
Há tantas coisas. Perguntas não. A morte das pessoas de quem gostamos amputa-nos. De certa forma continuamos nas pessoas de quem gostamos, nos livros de que gostamos, nas cidades que amamos. Felizmente os nossos limites não são os do nosso corpo, guardamos por isso as coisas que nos dizem algo. Enquanto viver, as pessoas de quem gostei vivem aqui dentro, sinto que estou a viver por mim e também por elas. Para onde o Luís for os seus filhos vão consigo, sempre. É muito bom sabermos que não acabamos onde acaba o corpo.
De todos os seus mortos quem está mais vivo aí dentro?
Continuam todos tão vivos como os vivos. É como os livros, como as pessoas que fiz nascer nos livros. Têm muito a ver com a altura em que os escrevi, tudo a ver com a circunstância de estar feliz ou infeliz, mais apaixonado ou menos apaixonado. Na adolescência as minhas leituras eram influenciadas pelas doentias paixões que me chegavam a debilitar fisicamente. Mas as meninas eram substituídas por outras meninas, as outras meninas substituídas pelas actrizes de cinema, as actrizes de cinema substituídas pelas raparigas dos calendários, as meninas dos pneus Pirelli. A atracção pelas mulheres é muito precoce, mais do que os pais podem imaginar…
Eis um território que talvez o tenha unido aos seus irmãos.
O território da sedução e da paixão por mulheres? Não, não. Eu não estou distante nem perto deles, são meus irmãos. A gente não escolhe a família, tenho uma relação cerimoniosa com eles, uma boa relação cerimoniosa mas sem intimidade. Não posso dizer que os conheço muito bem, posso dizer que gosto deles e que me são agradáveis.
Não costumo fazer este tipo de perguntas, mas desta vez não resisto. Qual é a sua definição de felicidade?
São momentos. Há alturas de um enorme bem-estar, também não me parece que haja momentos de grande infelicidade, a não ser que as vidas sejam absolutamente dramáticas. Houve uma altura em que a minha surdez me fez infeliz, agora até isso foi ultrapassado. Há anos que não sei o que é um som natural, a voz que oiço não é a sua voz porque está multiplicada por 20 mil decibéis. No restaurante oiço as conversas todas, sem o aparelho não oiço absolutamente nada. Vivi extremamente infeliz nos primeiros tempos, infeliz com o facto de ser um aleijado, mas até isso passa. Se não fizerem um aparelho mais potente ficarei sem ouvir dentro de um ano ou dois, o que quer que faça? Ao princípio irritava-me muito perceber que as pessoas falavam mais alto e que se aproximavam para que as percebesse…
Encontrou o silêncio da pior forma possível, o que não deixa de ser irónico para quem sempre o procurou.
Não me dou mal com a mudez total. Cai uma coisa e eu não sei que a coisa caiu porque não ouvi barulho algum. Sem o aparelho não oiço nada, nada de nada. Recusei-me a ir ao médico porque não queria admitir a minha surdez, durante três anos não usei aparelho e especializei-me naqueles sorrisos ausentes. Quando as pessoas me falavam fazia o tal sorriso ou dizia que sim, percebia lá o que as pessoas me estavam a dizer.
Podia ter frequentado aulas que o ajudassem a ler nos lábios.
Cheguei a frequentar essas aulas, enfim. As pessoas que me rodeiam não ligam muito, se calhar fingem que não ligam muito para não me magoar. A maioria de nós quando olha para um coxo tenta que o coxo não perceba a anormalidade do nosso olhar, talvez tentem fazer o mesmo comigo.
Voltando ao início da conversa. Quando é que esteve sentado numa paragem de autocarro pela última vez?
Foi neste Verão, na praia das Maçãs. Todas as tardes sentava-me para ali, gosto de estar sentado a olhar para as pessoas.
E as pessoas olhavam para si?
As pessoas tinham mais que fazer do que estar a olhar para mim. Geralmente, um anão fazia-me companhia, até fiquei com vontade de escrever um livro chamado «Todos os Anões Choram Baixinho». Ali estávamos os dois. Um anão de gravata e de bengala, mais uma cadela piolhosa e chata. Estávamos para ali os três.
Ele também observava as pessoas?
Não sei. Ver o movimento nas paragens de autocarro equivale um pouco à meia-hora que passo sentado no bidé antes de todas as coisas começarem a acontecer. É como a arte de governar.
A sua meia-hora no bidé?
Sim. A arte de governar é feita sobretudo de nada fazer. As decisões são muito poucas porque, na maioria das vezes, as coisas resolvem-se por si. Nos Estados Unidos, na Alemanha ou na Suécia ninguém foge aos impostos porque sabem onde o seu dinheiro é investido pelo Estado, podem escolher inclusivamente o destino do seu dinheiro. Aqui os nossos impostos servem para engordar e dar automóveis aos partidos que estão no poder, obviamente as pessoas fogem aos impostos, enfim…
Continua a definir-se como um homem de esquerda?
Sou um homem de esquerda profundamente desiludido com a esquerda. Nos valores fundamentais continuo a sê-lo. Mas quando se aproximam eleições é sempre muito difícil escolher o sentido de voto. Vou votar em quem? No Partido Socialista? Este PS não me interessa. Nos comunistas? Este PCP não me interessa. Os socialistas não são socialistas e o marxismo não é mais do que uma heresia do judaísmo, tal como a psicanálise. Não é por acaso que Marx e Freud são judeus, como é evidente. O marxismo é uma religião em que o paraíso já está prometido à partida, não existe nenhuma diferença entre isso e a mais reaccionária das igrejas. Claro que tudo irá passar, claro que o marxismo e a psicanálise irão passar, claro que o próprio cristianismo irá passar, tudo acaba sempre por passar…
As folhas espalhadas em cima da mesa são as ideias para o novo romance?
Já o estou a escrever. É sobre quatro mulheres. Percebe alguma coisa de mulheres?
Cada vez menos.
Está com sorte. É que eu nada percebo das mulheres. O que sabe um homem sobre as mulheres? É para mim um grande desafio, o desafio de não cristalizar em formas que dão sucesso à partida. Teria sido muito fácil continuar a fazer Memórias de Elefante, iria ter muito sucesso, mas o que ficaria cá dentro? Claro que há uma marca de água na minha escrita, essa fica sempre. Perguntou-me se não acho o Que Farei Quando Tudo Arde? um livro triste, respondi-lhe que não. Mas se nos encontrarmos daqui a algum tempo não Ihe vou poder responder o mesmo em relação às folhas que vê em cima da minha mesa, será um livro muito pesado.
Passa-se onde?
Em Angola, é um regresso a África. Gostava imenso de ser angolano, se me dessem a nacionalidade angolana aceitaria de bom grado. É um país com um cheiro único, um país onde a alteração dos sentidos é constante. Durante a guerra vivi em circunstâncias horríveis numa espécie de paraíso único, até as grandes tempestades eram grandiosas. É muito habitual dizer-se que o nosso colonialismo era brando, era brando o tanas, eu vi coisas atrozes. Se fosse angolano nunca teria perdoado a Portugal, vi coisas horríveis e o espantoso é que não tenha ficado ódio da parte deles. A discriminação era total, total. Há pouco tempo houve desmentidos, por parte de altas instâncias militares portuguesas, sobre a utilização de napalm durante a guerra colonial. São mentirosos porque eu vi o napalm, o napalm estava onde eu estava, eu vi-o. Vi bombardear com napalm e vítimas do seu uso, testemunho isto em qualquer tribunal. Ninguém foi condenado por isso, absolutamente ninguém. Todos os meus companheiros de batalhão o sabem. Justificamo-nos com o que fizeram o MPLA e a UNITA, mas nós fizemos coisas horríveis. Falo da UNITA, mas na UNITA limitavam-se a trabalhar com a PIDE, eram pagos e treinados pela PIDE.
Parece ainda estar ressentido.
Não com os militares. Não tenho a menor razão de queixa de nenhum oficial do exército, era um alferes como outro qualquer e foram impecáveis comigo. Corajosos, correctos e limpos comigo, todos os que conheci. Não partilho das críticas que se fazem aos militares, que são estúpidos e ignorantes, não corresponde nada ao que penso. Os militares no terreno nada tinham a ver com a polícia política, a PIDE matava os prisioneiros e nunca vi o exército matar um único prisioneiro. Um dia apanhámos um grupo de gente onde se incluía uma mulher grávida… Antes de mais nada um PIDE deu um pontapé na barriga da mulher e o Ernesto Melo Antunes apontou-lhe a pistola e mandou-o voltar. Dois dias depois foi transferido para outro comando. Isto passava-se na zona militar leste e o comandante era o General Bettencourt Rodrigues. Havia um posto militar da PIDE em Gago Coutinho, onde pela janela via torturar pessoas de uma maneira horrível, era a mulher do inspector que Ihes punha eléctrodos nos testículos, estavam ajoelhados em cima de umas varinhas de ferro com os dedos por baixo e os joelhos por cima. Toda a guerra é suja e aquela guerra foi horrivelmente suja, de parte a parte é claro. E esta violência continua a existir agora, de outras formas certamente mais subtis.
Que tipo de violência?
Na forma como se manipula, nos telejornais, nos jornais. Não estou a falar de imagens violentas que possam incomodar o normal desenvolvimento das crianças, nada disso, estou a falar da parcialidade e da manipulação. Somos, a maioria de nós, profundamente assassinos e violentos. Apesar de tudo, havia alguma nobreza na guerra: encontrávamos brancos e pretos, sem mais cambiantes. De que livros gostamos mais? Dos que são brancos ou pretos. Nos programas, a que chamam reality shows, o público e os concorrentes não se dão conta de que são manipulados da mais nojenta das maneiras… Estes programas vêm de encontro a um imaginário pobre, acontece o mesmo com alguns livros de grande sucesso. Isso entronca-se com a distinção entre o ser-se de esquerda ou de direita, o respeito pela dignidade de todos os homens. Conheço pessoas de direita profundamente humanas, o José Ribeiro e Castro por exemplo. A bondade, quando a encontro, surpreende-me e alegra-me. Quando encontramos pessoas tão melhores do que nós é um privilégio muito mais importante do que fazer bons livros. Claro que há obras que ficam para sempre, mesmo quando os seus autores não passavam de pulhas – o Wagner, por exemplo.
Casou-se antes de ir para a guerra e a sua primeira filha nasceu quando lá estava.
A meio da minha comissão voltei a Lisboa e foi o mês mais horrível da minha vida. Passava os dias a pensar que faltava cada vez menos tempo para regressar ao campo de batalha, passei a maioria do tempo deitado a olhar para o tecto porque o tempo estava a passar. Não usufruí da minha filha e não há nada de mais extraordinário do que os nossos filhos quando são pequenos. Os nossos filhos não são de ninguém, mas são mais nossos do que dos outros. Não tirei partido da bebé nem da mãe da bebé, não tirei partido de nada. Depois, aqui em Lisboa ninguém falava da guerra, é como se nada estivesse a acontecer. Se a sensação dos condenados à morte corresponde ao que senti, então é atroz.
Que António Lobo Antunes tem estado à minha frente? Parece-me que durante todas estas horas a pessoa foi ganhando espaço à personagem.
O que Ihe posso dizer? O António Lobo Antunes só existe enquanto escreve, eu sou simplesmente o António. Gosto de estar aqui, tem-me apetecido estar aqui estas horas.
Gosta de si?
Nunca me coloquei essa questão. Tenho que viver comigo, direi que não me aborreço. Estou mais preocupado com os outros, com os meus amigos que tanto prezo. Não tenho alguns defeitos: não sou invejoso, não sou pulha, não sou mal formado. Dos defeitos, enfim, dos defeitos…
É inevitável que morremos sempre sozinhos…
Absolutamente.
Mas nesse momento gostaria de ter alguém por perto?
É impossível responder a isso, é impossível saber como nos vamos comportar. A forma como lidamos com o fim é muito judaico-cristã, muito ligada à ideia do cadáver e do horrível ritual da morte. Tentei sempre, em relação aos meus mortos, guardar a imagem da pessoa viva, nunca os quis ver depois de terem morrido. Estou arrependido por ter visto a minha avó, agora lembro-me dela morta quando preferia lembrar-me dela viva. Era assim que gostava de ser lembrado, vivo e não deitado no caixão, onde nada parece que nos assenta bem.
Como é que a sua avó se chamava?
Avó Margarida, a mãe da minha mãe. Essa sim, deixou-me um vinco na alma. As pessoas tocam-nos com um dedo e fica uma nódoa negra, a mais leve impressão deixa
uma nódoa negra que não passa, mesmo quando do contrário estamos convencidos.
António, que fará quando tudo estiver a arder?
Tudo arde desde o princípio. Em mim e nos outros.
Diário de Notícias
08.12.2001
Categorias: Entrevistas com Escritores
Tagged: Lobo Antunes, Que farei quando tudo arde
Exortação ao Lobo
Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário

António Lobo Antunes é, no mínimo, desconcertante. A meio da entrevista, tenho vontade de vir embora. Sinto-me como quando estava no exame de condução – sabia que tinha chumbado mas o examinador continuava a pedir-me que fizesse manobras e tentasse meter o carro em espaços impossíveis. E, no entanto, Lobo Antunes só fez sorrisos – um sorriso angelical que condiz com os seus olhos muito azuis e que se segue, quase como um tique, a uma frase que percebe ter-nos deixado nervosos.
Não grita, fala num tom suave e é educadíssimo – pede para repetirmos a pergunta duas ou tês vezes, as suficientes para que fique bem evidente que estúpida e vazia é.
Afirma repetidamente que não faz juízos de valor, nem se acha acima dos outros, mas depois vai dizendo, a propósito de tudo e de nada, que só gosta de entrevistas quando os entrevistadores têm qualidade, até ao momento em que temos vontade de apresentar desculpas e sair. E aí, faz um outro dos seus sorrisos ternos e garante que não são insinuações, porque não é homem dessas coisas e, de resto, “só a conheço há meia hora”.
Tento mais uma pergunta. “Falar de mim? Mas isso não me interessa”, diz-me hoje, agora, porque quando marcou a entrevista, informado desse mesmo objectivo, não protestou.
E eu volto a sentir a mesma perplexidade que senti quando lhe perguntei qual era a memória mais antiga da mãe e ele me respondeu que isso era pessoal e não me dizia, ou se inclinou várias vezes sobre a secretária para me pedir (educadamente) que repetisse outra vez aquela pergunta absurda, estranha, inacreditável do “Tinha um urso de peluche?”.
Culpo-me a mim própria. “Ele tem toda a razão, isto são perguntas que se façam a um grande escritor?”, penso eu, intoxicada por aquela estratégia que à distância percebo não ser mais do que uma forma de confundir o inimigo.
E, de facto, o que é que interessam as mães, os pais e irmãos, os ursos de peluche e os comboios eléctricos, os psiquiatras e os amigos de infância, a relação com os doentes, as criadas e as tias, os livros lidos alto e os lares de terceira idade, as árvores de Benfica e os jardins onde habitavam os corvos e tudo aquilo com que Lobo Antunes transforma os seus livros em obras de arte, nos atrai, emociona, faz rir e prende página após página? Que importância têm e que interesse há em falar neles, quando podemos meditar sobre o fio da narrativa ou embrenharmo-nos em citações de escritores, grande escritores, que os bananas dos jornalistas não conhecem, nem querem discutir, porque – imagine-se – gastam o tempo todo a tentar perguntar coisas que os leitores da entrevista estariam mais interessados em saber.
E o mais extraordinário de tudo isto é que, durante umas horas, não percebemos a contradição, não damos pelo facto de Lobo Antunes ir falando repetidamente de si próprio – desde, evidentemente, que não seja directamente em resposta a uma pergunta feita, como a criança que só come a sopa quando a mãe olha para o lado. E o mais extraordinário, ainda, é que ficamos com vontade de rezar dois Padres-Nossos e três Avé-Marias por não estarmos à altura de o entrevistar, em lugar de pura e simplesmente batermos com a porta.
E, no entanto, quando deixamos o seu gabinete e percorremos os corredores do Hospital Miguel Bombarda, cruzando-nos com doentes de roupão e a arrastar os chinelos, a conversa parece que normaliza. Ou, pelo menos, a minha cabeça volta a funcionar normalmente – sim, porque não duvido que para o ex-psiquiatra nada disto seja mais que um “delírio persecutório!”.
Vamos almoçar ao restaurante mais próximo. Falamos sobre snobeiras e beijos de um lado e dos dois lados, de espelhos de talha e da grandeza da alma, de telenovelas e de tipos de pessoas. E faço o “diagnóstico”: Lobo Antunes é um “menino bem (formado)”, inteligente, com sentido de humor e espírito crítico que soube libertar-se do casulo onde os “meninos bem” habitualmente vivem a vida toda, e percorrer o resto do mundo, torcendo aqui e ali instintivamente o nariz às mulheres que o tratam por filho e aos escritores que comparam carros parados em semáforos a cavalos impacientes, capaz de gostar para além das aparências, de se emocionar para além do que gostaria e com um génio extraordinário para juntar tudo isto e transformá-lo em personagens e palavras que o tornam num dos nossos melhores escritores. Tudo isto sem deixar de ser, basicamente, um menino “mimado”, que com aquele sorriso e aqueles olhos azuis aprendeu todas as técnicas de deixar os outros desconcertados, infelizes e humilhados. Quando quer. Para no momento seguinte ter tanto charme e encanto, que temos medo de ter incorrido em juízos precipitados. E assim sucessivamente.
[texto de Isabel Stilwell]
Detesta mesmo dar entrevistas?
Não me parece muito importante. Acho que é sempre um exercício de vaidade.
Um exercício de vaidade?
Acho que sim. E também um exercício de voyeurismo de quem a faz. É de parte a parte. O importante são os livros. Depois, a minha vida não tem importância nenhuma.
Mas acha que os entrevistadores querem é tirar uma fotografia consigo e dizer que o conheceram?
Não, não acho nada disso. Há de tudo. Tenho tido a felicidade de encontrar pessoas que são muito boas e que sabem muito de literatura e outras que serão menos boas. É difícil haver em Portugal pessoas com a categoria intelectual, por exemplo, da Marisa Blanco [gralha da revista: o nome é María Luisa Blanco, obviamente], uma grande jornalista espanhola. O País é pequeno e nós somos poucos.
Mas gosta de dar entrevistas sobre os seus livros?
Deve reparar que, normalmente, falo pouco dos livros.
Então, o que é que adianta ao entrevistador saber muito de literatura? Mesmo naquelas em que ele obviamente sabe, diz que não responde!
Mas também falo pouco de mim! É que por vezes as perguntas… Como é que hei-de explicar isto?
São estúpidas?
Não, estava a tentar encontrar uma maneira de dizer isto porque as emoções são muito anteriores às palavras e depois dizer isto em palavras é complicado. Tenho a sensação que me vou repetindo, percebe?
É o mesmo, não pode dizer coisas muito diferentes.
Uma entrevista é boa se o entrevistador é bom. Lembro-me que as entrevistas do Fellini eram maravilhosas, mas ele tinha uma graça, um humor, uma facilidade verbal que eu não tenho.
Nas entrevistas aos jornais estrangeiros, as respostas parecem mais desenvolvidas que as que dá aos portugueses. Faz mais cerimónia, quer ter lá uma imagem diferente da que tem cá?
Muitas vezes nas respostas estão coisas que não disse. Mas julgo que tem a ver… é curioso… com é que eu hei-de dizer? Nós aqui, em Portugal, quer conheçamos quer não as pessoas, temos uma imagem delas. E como normalmente a imagem é errada, as entrevistas também são erradas porque acabamos por querer que o entrevistado corresponda ao estereótipo que temos dele. Enquanto num país estrangeiro não têm nenhuma imagem pessoal, nenhuma fantasia, é uma pessoa que vêem pela primeira vez…
Não têm uma imagem pré-definida?
Exacto. E nós ouvimos falar de uma pessoa e temos imediatamente uma ideia, inventamos coisas, supomos coisas, mesmo acerca da vida pessoal dela e isso necessariamente vai inquinar o trabalho, do ponto de vista jornalístico, percebe?
Eu própria tive sempre medo de pedir-lhe uma entrevista, porque a imagem que me davam de si era a de uma pessoa agressiva, até malcriada…
Isso é uma coisa completamente absurda. Sempre achei (risos) isso tão absurdo. Eu não entendo, não sei de onde é que veio.
Tive uma colega, no Diário de Notícias, que regressou de uma entrevista consigo a dizer que a não tinha feito porque lhe disse que ela era feia e que, de certeza, morava nos Olivais.
Não creio. É possível que tenha feito uma brincadeira qualquer que ela não tenha percebido. Mas acho pouco natural.
Mas em geral não é verdade que gosta de ter uma imagem de pessoa que não tem paciência?
Não, não é verdade. Se conhece algum amigo meu, sabe que não é essa a imagem que têm de mim. A mim, parece-me muito estranho, porque de facto eu não sou assim.
Agora mesmo estava a dizer, irritado, que não atendia o telefone porque não tinha paciência para aturar a pessoa que lhe ligava, e para os seus amigos deve ter a disponibilidade toda do mundo.
Eu não tenho paciência para os meus amigos, tenho amor por eles.
E esse amor cria uma relação que lhes permite ter uma imagem muito positiva de si?
Não sei. Eu tenho muito poucos amigos. Muito poucos. Então agora, que morreram duas pessoas que eram tão importantes para mim.
E porque é que tem poucos amigos?
Porque a amizade é como o amor. É uma coisa muito difícil. Para mim. E é muito engraçado porque as amizades que tenho foram amizades à primeira vista. Por exemplo, a primeira vez que vi o Daniel Sampaio, tinha vindo da guerra. Já o conhecia da Faculdade, ele interessava-se pelo movimento antifascista, associativo, eu jogava xadrez e escrevia e estava-me borrifando, tudo isso me passava ao lado. Fui colocado em Santa Maria e entrei no gabinete de enfermagem e estava um rapaz de olhos claros encostado à balança e foi assim. Ficámos amigos desde aí. E com os outros também. Foram todas amizades assim. Como é que hei-de dizer? A gente conhece-se e fica amigos de infância, não sei explicar… E depois a amizade tem coisas óptimas, é assexuada, não é exclusivista, não tem ciúme. E por outro lado, sentimos que são pessoas que estão ali quando precisamos delas. Por exemplo, com o Ernesto Melo Antunes. Ele já estava tão doente e eu tinha sido operado a uma porcaria qualquer na língua e ele telefonava a perguntar se eu já estava melhor. Feita destas atenções, deste amor. Mas acho que é uma coisa muito rara. Julgo que nós não podemos contar com mais do que quatro ou cinco pessoas na vida. Por exemplo, em relação aos meus irmãos. Nunca tive nenhuma conversa pessoal com nenhum deles, nem com os meus pais, nem nada disso. Existe muita cerimónia entre nós. Não são meus amigos, são meus irmãos.
E porque é que é assim?
Por pudor. Porque éramos uma casa de muitos filhos e de pais austeros, onde ao jantar se falava de música ou poesia ou medicina ou outra coisa qualquer, não havia, nem há, conversas pessoais.
E sente falta dessas conversas pessoais?
Não, porque nunca houve e não posso sentir falta do que nunca tive! Sinto falta das pessoas que morreram. Por exemplo, o telefone toca às 10 da manhã e penso “É o Zé” (Cardoso Pires), que era a hora a que ele telefonava, ou apetece-me ver o Ernesto (Melo Antunes) e não posso vê-lo.
Diz que escreve para si…
Cada vez penso mais que escrevo contra a morte. Então depois destas últimas mortes, porque em face da morte a maior parte das coisas desaparece, a vaidade… Quando o Howard Hughes morreu, um jornalista perguntou ao advogado dele quanto é que ele tinha deixado e o advogado respondeu: “Deixou tudo”. Eu julgo que escrevo fundamentalmente contra a morte.
Tem medo de morrer?
Não sei, não sei responder…
Porquê? Porque o assusta pensar nisso?
Passei muito tempo perto da morte. Quando era miúdo a morte não existia, porque era o filho mais velho de dois filhos mais velhos. Eram todos muito novos, os meus pais, os meus avós. Só aprendi a morte quando fui para a Faculdade, com 16 anos. Fui para medicina por acaso. Nunca pensei ser médico. Mas foi o primeiro contacto que tive com a morte. Depois nos hospitais, depois na guerra. A pouco e pouco, as pessoas de quem gostamos vão morrendo. No fundo, envelhecer é ver morrer as pessoas de quem gostamos e às quais, a maior parte das vezes, não tivemos sequer tempo de dizer, por pudor, que gostávamos delas. E o remorso que se sente depois por não o termos feito.

Não quero desiludir as pessoas
Mas porque é que acha que escreve contra a morte? Explique lá.
Não sei, porque talvez seja a única coisa que posso dar às pessoas. Lembro-me que esses amigos que eu tinha (e os poucos que ainda me sobram) viviam os livros, não enquanto eu os escrevia, mas depois, com muito mais entusiasmo que eu. E é a sensação constante de não ter o direito de os desiludir, escrevendo um livro que seja mau ou que os decepcione.
Nos seus livros e nas suas crónicas, com as devidas proporções, acho que é um pouco o Herman José da literatura. Eu explico: o que o Herman faz mesmo bem é apanhar os diferentes tipos de pessoas e acho que uma das suas qualidades – e não conheço muito da sua obra, nem sou especialista em literatura, nem em nada – é exactamente “apanhar” as pessoas.
Eu, com todo o respeito que tenho pelo Herman José, acho essa comparação perfeitamente atroz. Por essa ordem de ideias, o Camões é o José Cid da literatura, por amor de Deus!
Não, era só uma provocação no sentido de que é capaz de descrever muito bem os diferentes tipos de pessoas.
Mas isso não me preocupa nada. Não é isso que me interessa quando escrevo um livro. Não me interessa nada isso. Se as pessoas estão bem ou mal apanhadas. Nem entendo bem o que é que quer dizer…
Quando descreve, por exemplo no Manual dos Inquisidores, a Sofia…
Não me lembro a Sofia, quem é a Sofia?
A Sofia é a mulher do João.
Não me lembro, esse livro já foi há muito tempo.
Então, pronto, é uma “menina bem” típica e acho que à medida que vamos lendo sobre ela identificamo-la imediatamente com um tipo de pessoa, que existe de facto. E essa capacidade de fazer personagens que existem mesmo, é fascinante.
Não sei. Sabe, uma vez estava em Nova Iorque com o meu agente, que é americano, e líamos o Hemingway. E eu dizia-lhe que as pessoas falam exactamente assim, que os diálogos dele eram assombrosos e o agente comentou: “Ai tu achas isso?”. E começou a ler em voz alta e ficou perfeitamente evidente que ninguém fala assim.
Ninguém fala como os põe a falar nos seus livros?
Não é isso que estou a dizer. É que tudo aquilo me parece tão verosímil quando lemos com os olhos, deixa de o ser quando lemos com a boca. Mas isso não me preocupa nada. A única coisa que me interessa é dar espessura humana às personagens. Caricaturas fazia o Eça de Queirós. Eu quero é que as personagens tenham uma espessura de carne. Embora sejam criaturas de papel, que seja possível senti-las respirar, viver, que nos comovam, como nos comovem as personagens de Tchekhov, percebe?
Mas quando anda pela rua, vai ao supermercado, olha para as pessoas, diverte-se a observá-las?
Não.
Não? Então de onde é que elas surgem?
Não, as pessoas não me divertem, não nesse sentido, estar a ver os tiques das pessoas, acho isso de uma arrogância miúda que não me interessa nada, para isso escreveria light literature, não me interessa nada também.
Mas de onde é que vêm as pessoas, se as não observa, como é que sabe o que elas são? Senão, só era capaz de escrever sobre si.
Eu nunca disse que sabia como elas eram.
Mas sabe, por isso é que as pessoas gostam de ler as coisas que escreve. Quando descreve uma cozinheira ou uma menina de Cascais.
Eu nunca descrevi uma menina de Cascais.
Então não descreveu?
Não, está a reduzir os livros a estereótipos. Não me interessa nada isso. Recuso qualquer explicação psicológica acerca das personagens.
Não estamos a pedir uma explicação psicológica das personagens. Parece-nos é que se diverte, não no sentido de troça, com a variedade de pessoas diferentes que existem.
Primeiro não acho que as pessoas sejam muito diferentes, depois as pessoas espantam-me muito mais do que me divertem. Sinto muito mais espanto que divertimento. Senti imenso espanto com essa história do Herman José da literatura. Se falasse do Camões, com que actor é que o comparava?
Não comparava com ninguém. Porque há-de ser só o senhor a provocar os outros?
Eu não costumo provocar ninguém. Estava aqui tão quietinho.
Não sou psiquiatra
Fale-me da sua mãe. Qual é a memória mais antiga que tem dela?
Isso é muito pessoal. Não sei. Nós vivíamos numa casa muito grande. Lembro-me de nascer o meu irmão Pedro, com dois anos ou três, nós somos seis, todos uns atrás dos outros.
Os seus avós eram muito importantes para si?
A minha família era muito importante para mim, porque eram duas famílias muito diferentes. A família do meu pai e a família da minha mãe. Tinham uma qualidade que é muito rara. Eram pessoas bem formadas.
O que é que entende por bem formado?
O mesmo que você.
É uma palavra muito típica de um certo meio social, não é?
Não sei, nunca pensei nisso. Até porque nenhum dos meus amigos nasceu no meio social onde eu nasci, que foi um meio que rejeitei muito cedo. Mas ser bem formado, para mim é ter bom carácter, e isso para mim é muito importante. Já está a querer colar-me uma imagem e eu recuso isso.
Não estou a querer colar imagem nenhuma!
Está, meninas de Cascais, o bem formado é uma expressão de um certo meio social…
Mas é, desculpe mas é. O bem formado significava que eram baptizados, que tinham valores cristãos, amavam o próximo como a si mesmos, eram honestos…
Por amor de Deus, ninguém ama o próximo como a si mesmo!!! O critério do bem formado tem a ver com a honestidade consigo próprio e com os outros, e se as pessoas tiverem isso eu não lhes peço muito mais.
Fala muito nos seus avós. A psiquiatria não liga muito aos avós, pois não?
Eu não me considero psiquiatra.
Então, médico?
Nem médico. Eu apenas escrevo, a medicina foi porque era necessário escolher um curso.
Mas dá consultas.
É só o que faço.
Mas se dá consultas e passa receitas reconhece-se a si mesmo o estatuto de médico, ou não?
Só aqui. Oiça, a medicina foi sempre para mim apenas uma forma de ganhar a vida enquanto necessitei do dinheiro dela.
E hoje, o que é?
Hoje venho aqui ver pessoas de quem gosto, sabe?
E pagam-lhe para isso?
Não, não me pagam nada.
Não recebe?
Recebo um vencimento por vir ao hospital, é evidente.
Para trabalhar.
Não, o vencimento é muito pequeno.
Quando se aceita ser funcionário de uma casa recebe-se um vencimento para desempenhar determinada tarefa. Portanto, ou recusa isso e diz deus, hei-de cá vir um dia, mas não é como funcionário, ou então vem como funcionário, neste caso médico, por muito que diga que não.
Não posso dizer-lhe o estatuto em que aqui venho. Agora, ser-me-ia difícil viver sem isto. Porque, sabe, escrever é uma actividade muito solitária, muito isolada, e para mim é importante ver pessoas.
Invejo as pessoas que têm fé
Como é Deus para os portugueses? Numa entrevista ao Libération diz que a nossa concepção de Deus é a de um Deus velho, ciumento, cruel, furioso e que faz troça dos homens.
Não creio que tenha dito isso.
Tenho aqui a entrevista.
Deixe ver. Ah, isto é do Gaudemar, coitado.
Inventou, ele também?
Não, é um jornalista do Libé. Isto tinha que ver com determinado contexto. A minha relação com Deus, o meu Deus, a minha ideia de Deus, não é isto.
Mas continua a pensar que é esta a ideia que os portugueses têm de Deus?
Não creio que tenha dito isto. Posso ter falado do Deus do Antigo Testamento, um Deus tremendo, a ideia que nos era incutida no catecismo. No outro dia vi uma entrevista admirável de um padre, José Tolentino de Mendonça, que me parece um excelente poeta – digamos que é os D’ Arrasar da poesia, já que gosta deste tipo de imagens – e que é um homem por quem fiquei cheio de respeito e de admiração e invejei imenso a fé dele. É a única coisa de que tenho inveja mesmo.
Não tem fé e gostaria de ter, é isso?
Penso que é próprio da fé ter dúvidas, não é? Mas depois de um longo afastamento, a minha reaproximação a Deus tem sido gradual. Mas é uma reaproximação conflituosa.
E tem a ver com essa preocupação com a morte?
Não, tem que ver com a minha relação com o transcendente.
O facto de estar numa fase em que tanta gente de quem gosta morreu, contribuiu?
As pessoas de quem a gente gosta vão morrendo. Aos 13 anos morreu o meu primeiro avô. Não, é mais antiga do que isso porque sempre pareceu que o nada não existe. Quando comecei a ler os escritos teóricos, sempre me tocou muito a profunda religiosidade daqueles homens que chegaram a Deus através da Física, da Matemática. Na relação com o sagrado e com Deus acho que aprendi muito com essas pessoas. Tenho inveja da fé. Acho que é a maior graça que uma pessoa pode ter.
E acha que é uma coisa para a qual a pessoa não contribui nada? Acontece?
Não sou eu que falo assim, estou a repetir o que dizem os doutores da Igreja e estou de acordo com eles, acho que é uma graça. Admiro pessoas que chegam à fé através do raciocínio lógico. Admiro e respeito.
Mas a ideia de Deus, de que quando morremos vamos para o Céu, é uma ideia consoladora?
Não sei. Tenho visto pessoas religiosas no sentido de fazerem disso vida, que diante da morte têm um pavor tremendo. Lembre-se do Miguel Marel, filósofo católico, que disse antes de morrer: “Vou finalmente saber se aquilo em que acreditava era verdade”.
Brincava sozinho
Tinha um urso de peluche quando era pequenino?
ALA (hesita) – Não, porquê?
É só uma curiosidade.
Não, nunca fiz colecção de nada.
Nem uma pista de comboios eléctrica?
Não. Não estou a perceber esta entrevista! Brincava sozinho. E agradava-me mais brincar com coisas que eu fazia ou coisas simples que me permitiam maior margem de invenção que os brinquedos já feitos.
Tem memória da coisa que mais o magoou quando era pequeno?
Muita coisa me magoou, mas também não é algo a que vá responder.
E tinha medo do escuro?
Não vou responder-lhe a isso.
Porquê? O João do seu livro tem!
Porque são coisas pessoais.
Não responde a coisas pessoais?
Não.
Mas também não gosta de responder sobre os seus livros. Nem porque é que escreve.
Não é bem assim. Quando as perguntas são bem feitas, respondo. Quando as perguntas são mal feitas, não respondo delicadamente.
Não respondeu delicadamente à maior parte das perguntas que a maioria dos jornalistas portugueses que o entrevistaram lhe fizeram?
Porque não eram bem feitas. Porque há perguntas às quais eu não respondo, como aquela do Herman José. São perguntas para outros escritores, não vou dizer agora nomes, mas não para mim.
Acha que está muito acima desses escritores?
Não estou acima nem abaixo. Não estou acima de ninguém, meu Deus.
Antes de começarmos a entrevista dizia que parece que os jornalistas portugueses só agora se lembraram todos de si.
Era inevitável que mais tarde ou mais cedo houvesse a unanimidade que havia no estrangeiro. Este último livro foi apenas o pretexto e é injusto em relação aos livros anteriores. Como acho ridículo darem às crónicas uma importância que elas não têm. Não são literatura.
As pessoas dão importância àquilo que as toca.
Porque as pessoas são preguiçosas e não sabem ler e aquilo é uma coisa facilmente digerível. Oiça, um livro bom é um livro que existe e que é escrito pelo leitor.
Sim, mas então porque é que escreve as crónicas? Se é assim, ao escrevê-las não está a ser honesto consigo próprio. Se quer ser escritor…
Se quero ser escritor???
Se é escritor…
Não sei se sou. O Hokusai, aos 80 anos, dizia: “Se Deus me tivesse dado mais cinco anos de vida eu tinha-me tornado um escritor”. Escritor é uma palavra muito pesada. Uma coisa é escrever livros, outra coisa é ser escritor. Não sei quantos escritores haverá em Portugal.
A questão que lhe coloco é: se acha que as crónicas são má literatura porque é que as escreve?
As crónicas têm uma função muito simples para mim que é divertirem as pessoas, percebe? E um livro acho que é muito mais que isso. Quando o Vicente Jorge Silva me falou, eu pensei isto é para ser lido os domingos por pessoas que lêem jornais e suplementos de jornais e por isso tem que ser uma coisa que as divirta, que as distraia e que não as faça pensar muito. Apenas isso.
Acha que não fazem pensar muito?
Acho que não. Está a dar-lhes coisas que não exigem uma atitude activa. Aliás, o que é que faz o sucesso de determinados escritores? Não me apetece nada citar nomes porque não me apetece dizer mal de ninguém. Mas, pronto, estrangeiros, a Susana Tamaro ou o Paulo Coelho, de que temos montes de equivalentes neste país. São coisas facilmente digeríveis e que não exigem de si nem atenção nem esforço, são recebidas passivamente, um pouco como a relação do drogado com a droga.
Mas continua a não responder ao porque é que escreve as crónicas.
Comecei a escrever as crónicas porque precisava do dinheiro. Esse foi o ponto de partida.
Mas depois continuou e até as publicou em livro.
Sim. E até aceitei que fossem traduzidas.
Então, não tem assim tão má opinião delas.
Acho que como literatura de entretenimento são agradáveis. Quando digo que são más, é no sentido de que não são literatura. Enquanto nos livros você joga a sua vida, nas crónicas não joga nada. É completamente diferente.
Mas algumas das crónicas têm muito de si.
Algumas. Que provavelmente são as menos apreciadas. Deu-me imenso prazer escrever sobre o Eugénio de Andrade. Ou escrever sobre o Ernesto. Ou escrever sobre o Zé. Mas penso que as pessoas gostam mais de outro tipo de coisas. Divertidas.
Em relação às suas filhas tem várias crónicas em que o afecto é muito manifesto.
As crónicas também são ficções, como tudo. O Malcolm Lowy dizia que não era mentiroso, criava ficções autobiográficas. Nós partimos de uma base real e depois inventamos sempre um pouco. É inevitável. Agora, ao contrário do que as pessoas podem pensar, sempre escondi muitas coisas pessoais, mas acho curioso e divertido pensarem que estou a falar de mim, quando a maior parte das vezes não estou. O que faz depois com que exista a tal imagem.
Mas nessas crónicas expõe-se, investe muito de si.
Oiça, as crónicas são quatro páginas por mês, eu faço-as em meia hora na cozinha, de manhã. Uma página de romance leva-me mais de um dia inteiro a trabalhar. Está a ver a diferença? Não passo mais de uma hora com aquilo, escrevo-as e leio-as uma vez, enquanto que nos livros estou a puxar palavras do poço e faço uma página com sorte em 12 horas de trabalho.
É nos livros que a minha vida se joga
Diz que o mais difícil é corrigir… É perfeccionista em todas as coisas que faz, em relação a si próprio?
Em relação a mim próprio, os meus amigos, as minhas filhas, toda a gente, estão sempre a criticar-me porque eu não ligo ao que como, não ligo ao que visto, não ligo aos automóveis, não ligo a nada, foi uma das coisas que os meus pais me deram, porque acabo por ser uma pessoa barata. Mas em relação aos livros sim, porque é aí que a minha vida se joga, sempre foi aquilo que eu quis fazer desde que me conheço, comecei a escrever muito miúdo. A minha mãe tinha-me ensinado a ler e comecei a escrever sem saber o que isso era, e era muito agradável. Até perceber (muito mais tarde) que escrever é uma coisa tremendamente difícil.
Cada livro é uma correcção do anterior, é isso?
Quando você escreve, a sua ambição é sempre muito simples, quer renovar e alterar a arte do romance. E há mil maneiras de o fazer e cada pessoa faz à sua maneira. Mas o desejo de corrigir sempre tem que ver com a insatisfação que sinto perante os resultados que ficam passada a euforia do primeiro mês de acabar o livro – primeiro acho que fiz um bom livro e depois começa o sentido crítico a funcionar, as qualidades aparecem pequenas, os defeitos aparecem maiores e finalmente surge a convicção de que com mais trabalho…
Escreveu e deitou fora muitos livros, antes de publicar o primeiro…
Comecei a publicar por causa do Daniel (Sampaio). Escrevia os romances e deitava-os fora e recomeçava. Foi o Daniel que me fez publicar o primeiro. Até aí nunca me tinha passado pela cabeça publicar.
E gostou ou preferia ter ficado toda a vida a deitá-los fora?
Retrospectivamente, teria preferido começar a publicar mais tarde.
A partir de qual?
Talvez a partir do Fado Alexandrino. Depende dos dias. Os primeiros romances não têm nada que ver com aquilo que acho hoje que é a literatura. Porque a minha ideia de literatura se foi alterando com o tempo. Escritores de quem gostava aos trinta anos quando escrevi os primeiros livros não são aqueles de quem gosto hoje. E a ideia que tinha do que deve ser um romance é diferente da que tenho hoje. A minha ideia acerca das pessoas é diferente também, sou muito mais indulgente, se não fosse indulgente não estava aqui a dar esta entrevista.
Acha que somos assim tão intelectualmente menores?
Não tem nada a ver com isso. Não julgo as pessoas assim. Nem me acho superior a ninguém. Acho que sou orgulhoso, mas acho que tenho um orgulho humilde, não tenho a sensação de ser melhor que ninguém.
Diz que em Portugal as pessoas não sabem ler. É porque não lêem muito?
As pessoas não sabem ler porque não foram ensinadas a ler e ler ensina-se. Ninguém discute os prémios que dão aos químicos ou aos físicos ou aos matemáticos e toda a gente acha quem é que deve receber um prémio literário. As pessoas não sabem literatura. Lê as críticas e são desoladoras de ignorância. Mas isto também se passa no estrangeiro, não é um fenómeno português.
Mas quem é que o ensinou a si, porque é que é diferente da maioria?
Acho que sei muito pouco de literatura, mas sei mais do que sabia há 20 anos. As pessoas não sabem ler por várias razões. Primeiro, porque antes do 25 de Abril não convinha que as pessoas soubessem ler, a seguir ao 25 de Abril nunca houve uma política cultural, nem com um governo mais à direita ou mais à esquerda. Como não ensinam as pessoas a ouvir música. E ensina-se a ouvir Bach ou Beethoven ou Charlie Parker. Ensina-se.
E consigo como é que foi?
O dramático disso é que muitas vezes somos autodidactas. E depois a aprendizagem torna-se muito mais penosa, muito mais difícil, muito mais lenta e muito mais imperfeita.
Mas tinha livros?
Em casa dos meus pais havia livros, sim.
E liam-lhe alto os livros, quando era pequeno?
Sim, o meu pai lia-me alto poesia, romances, etc. Mas fazia poucos juízos de valor. Gostava que os filhos os fizessem como entendessem. Nisso tive bastante sorte. Aliás, acho que tive bastante sorte com a minha família.
Mas aprendeu a ler sozinho, no sentido em que fala, porque tecnicamente toda a gente sabe ler, não é?
É uma coisa muito curiosa, vamos falar de literatura, uma vez que é isso que eu tento fazer. Não se ensina, mas aprende-se. Há certa coisas básicas que se aprendem, técnica literária aprende-se. Mas há outras coisas que não se aprendem. As pessoas ou nascem com isso ou não nascem. Um bom leitor é tão difícil de encontrar como um bom escritor.
Há pouco era uma questão de ensino, agora é uma graça, como a fé?
Um bom leitor é como um bom escritor, exige trabalho, exige aprendizagem, exige tempo, exige disponibilidade.
Os seus livros em Portugal são muito lidos. Acha que a maior parte deles caem em saco roto porque afinal não são bem lidos?
Continuo a publicar em Portugal apenas por respeito aos meus leitores.
Respeita-os porque acha que os seus leitores sabem ler?
Ponho o problema ainda antes disso: nos afectos. Porque tenho recebido ao longo destes anos cartas e outras manifestações de tal maneira comoventes e tocantes que acho que não posso trair e sinto-me reconhecido às pessoas por isso. Agora não tenho dúvidas que há vários níveis de leitura. Quando o Eugénio de Andrade me diz: “Eu não percebo porque é que a Exortação aos Crocodilos vende tanto, porque é um livro tão difícil”, é preciso saber muito de literatura para apreciar este livro, está a ver? Eu percebo o que ele quer dizer, mas provavelmente haverá vários níveis de leitura, entende? Acho que ele tem toda a razão. A tese dele é, um pouco como Stendhal dizia, o leitor ideal é muito raro. Repare que há livros que as pessoas compram mas não lêem, compram para pôr na estante porque têm que ter na estante.
Sim, mas isso não são os seus livros!
Por exemplo, O Nome da Rosa [do italiano Umberto Eco], que vendeu tanto. Quem é que foi ler aquilo.
Nós lemos.
Está bem, mas muita gente… Por exemplo, fizeram uma edição do Ulisses [de James Joyce], um livro que acho extraordinário, e esgotou num instante. Pergunto-me se as pessoas leram aquilo, porque é um livro extremamente difícil de ler e é preciso entrar naquele arquipélago para poder começar a gostar daquilo. Há certos autores que são muito difíceis e que depois nos podem dar um prazer enorme se se consegue ultrapassar essa resistência inicial.
E considera-se um desses autores?
Não me considero nada. Embora ache que os livros que escrevo não são fáceis. Portanto, espanta-me que vendam tantos exemplares. Mas oiça, não sou um best-seller, nunca serei.
Mas o que estará por detrás desse fenómeno das pessoas comprarem os seus livros?
Há muita coisa que me espanta. Como me espantam as reacções excessivamente emocionais em relação aos meus livros, de aceitação ou de rejeição apriorística e acrítica muitas vezes. Quando os meus primeiros livros saíram, espantavam-me muito as reacções tão emocionais que as pessoas tinham em relação àquilo, que afinal eram apenas livros.
Os seus livros não são livros que contêm uma história, que tenham um fio narrativo, mas sim que se vão vivendo através das personagens.
Os meus primeiros livros têm um fio narrativo.
Sim, os primeiros, os autobiográficos.
Mas depois percebi que não era esse o caminho que me interessava. O que me interessava era o desafio, atendendo a que o fio narrativo num romance é o mesmo que a picareta e a corda para um alpinista, de construir um romance sem fio narrativo. Criar personagens, emoções, situações, etc., sem fazer por um lado escrita estática e sem a ajuda desse fio narrativo.
E conseguiu?
Não sei.
Medo de não voltar a escrever
E como é que cada novo livro vai ganhando vida?
É um mecanismo curioso porque no fim de um livro você sente-se completamente vazio. Há pessoas que têm dois, três livros na cabeça, isso nunca me aconteceu, tenho só um, quando tenho. Portanto, há uma sensação de vazio muito grande e o receio de não ser mais capaz de voltar a fazer outro livro. Isso é constante.
É o medo de não conseguir que o faz avançar para o próximo, para provar que é capaz?
O medo é muito grande porque você não concebe a sua vida sem isso. E em cada livro que acaba é a mesma dança, o mesmo receio. Depois deste último, estive oito meses sem ser capaz de escrever. Depois, a pouco e pouco, o livro começa a aparecer, vagas ideias, vagos episódios, vagas personagens, que vão confluindo, cristalizando até que, a certa altura, o livro pede para começar a ser escrito, da mesma maneira que quando está acabado rejeita mais trabalho sobre ele. Mas o difícil não é escrever, difícil é corrigir e deitar fora o que está a mais. É dramático, porque quando está a escrever a quente parece-lhe que está a ser capaz de transmitir todos os sentimentos, emoções, etc., e depois a frio, passado algum tempo, a diferença entre a intensidade dos sentimentos e os resultados que ficam no papel é tão grande que todo o trabalho é tentar diminuir essa distância.
Onde é que conhece todas aquelas personagens e todos aqueles sentimentos dos seus livros?
Sei lá, com este último livro tinha a sensação de estar a aprender coisas sobre as mulheres com as personagens. Punha-se-me o problema, eu nunca experimentei as vivências femininas, não sei o que é um orgasmo para uma mulher ou o sentimento da maternidade ou o viver a primeira menstruação.
E como é que foi encarnar aquelas mulheres?
A sensação que tinha é que elas estavam a ensinar-me coisas sobre o que eram as mulheres. O meu problema era até que ponto estas raparigas são credíveis e têm uma existência própria independente de mim. Penso que quando o livro é sólido, cria as suas próprias leis e então de nada valem os planos muito pormenorizados que se fez, porque caminha muitas vezes em direcções que de início não se esperava.
Por exemplo?
Aparece-me um pequeno episódio e depois é como encontrar um botão e fazer um fato para o botão. Normalmente é em torno desse pequeno pormenor, sem importância, que as coisas começam a cristalizar-se. E muitas vezes esse pormenor nem aparece no livro. Mas nunca mudei de processo. Nem irei escrever muito mais livros. Se viver o suficiente, queria acabar esse e escrever mais dois livros e acabou. Não escrevo mais.
Porquê?
Leva-se a vida a lutar para arranjar uma maneira própria de dizer as coisas e depois acaba-se por ficar prisioneiro dela. Não acredito em grandes livros que se escrevam antes dos 30 anos e depois dos 70. Há excepções, é evidente.
Reforma-se?
Não, vou fazer outras coisas que me apetece muito fazer e para as quais não tenho tempo. Trabalho muitas, muitas horas.

Tudo menos uma frase mal escrita
Falava na felicidade de encontrar pessoas melhores do que si próprio. Sente que as suas personagens lhe são superiores?
Nunca penso nisso quando estou a escrever. Como elas me aparecem já impostas, não escolho. O problema é que são pessoas com quem vou viver um ano, dois anos. Inevitavelmente, é difícil a gente viver com as pessoas sem gostar delas, não é?
Mas gosta das personagens todas?
Sim, gosto muito delas. Neste livro que estou a escrever é só uma rapariga a falar, não tem várias personagens, apenas uma – é outro desafio, agarrar numa miúda de 18 anos e pôr dentro dela tudo aquilo que ela não viveu, não sabe nada da vida, da morte, disto, daquilo, daqueloutro, tem olhos virgens e uma virgindade em relação às coisas e como pôr tudo dentro dela. Estou a viver com ela desde Outubro de 98. Agora começamos a estar um bocado fartos um do outro. Mas ainda vamos estar juntos mais uns meses.
E os olhos dela continuam virgens depois destes meses todos?
É difícil, só lendo, porque se se pudesse resumir um livro ou um filme para quê escrevê-lo ou realizá-lo, não é? E depois aquilo que conseguimos contar é a anedota, que é o menos importante. Para lhe poder contar um filme do Visconti contava-lhe a anedota que não tem importância nenhuma, o que tem importância é a forma como ele trata a intriga e não a intriga em si, que pouco interessa.
Nos seus livros, a forma é muito mais importante que o conteúdo.
O importante é o como, como escrever.
A forma como escreve. É isso que o distingue?
Exactamente. Porque os temas mais banais são os mais difíceis. Escrever uma história de amor é terrivelmente difícil. Eu gostava de fazer um romance de amor e é-me terrivelmente difícil. Colocar personagens em situações extremas torna-se tecnicamente muito mais fácil que tentar narrar o quotidiano. Para desbanalizar é preciso uma arte muito consumada. Como fazia o Tchekhov, aquelas peças onde nada acontece e as pessoas usam as frases mais banais deste mundo e ele consegue transmitir toda a dor, todo o sofrimento, toda a alegria do mundo. É extraordinário o trabalho que ele fazia. Ou a Jane Austen. Que no fundo é isso que nos toca, o que é que me toca num livro? É estar a ler e pensar: bolas! é isto mesmo que eu sinto e não era capaz de exprimir. É isto que acontece comigo e eu não reparava.
Mas é esse o efeito que as crónicas têm nas pessoas. As suas crónicas tocam as pessoas por aí.
Não sei. Estava a lembrar-me do início desta entrevista, quando falou no pobre do Herman José, em que estava a dizer exactamente o oposto do que está a dizer agora.
O seu mal é que pegou numa imagem que usei para tentar explicar uma ideia concreta e a interpretou como uma classificação do que escreve.
Obviamente, mas essas coisas para mim são muito importantes.
Não é nada óbvio!
Uma vez, o Herculano disse uma coisa ao Garrett, uma frase que acho assombrosa: “Por dez moedas, o Garrett é capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita”. É evidente que me chocou a comparação com o Herman porque o Herman faz caricaturas e eu nunca quis fazer nenhuma caricatura.
Mas não fique chateado.
Não fiquei chateado, mas a caricatura a mim não me toca, pode fazer-me rir. O Herman faz-me rir, mas não me comove.
O que tentava explicar é que não pode ser uma pessoa triste deprimida, como quer às vezes fazer crer – porque quando uma pessoa escreve, tudo na vida é material de trabalho. Por isso, tem que ser uma pessoa alegre, feliz.
Outro dia estava sentado nas Amoreiras divertidíssimo.
Perguntei-lhe se ia ao supermercado e olhava para as pessoas e disse que não.
Claro, eu não era bem olhar, era impregnar-me delas.
É divertir-se com a riqueza humana.
Não tem que ver com riqueza, tem que ver com disponibilidade para os outros, não ter pressa.
Mas pode tirar gozo.
Todos somos capazes de fazer a mesma coisa, basta ter tempo, ter disponibilidade.
Não é nada, isso é mentira!
Eu não sou mentiroso.
Então pronto, acho que tem uma sorte enorme em ser assim.
Em ser o quê?
Em ter talento, em olhar para as pessoas e para as coisas e ser capaz de construir…
Não é uma questão de sorte, é uma questão de tempo, eu tenho tempo, construí a minha vida de maneira a ter tempo para isso. Ou pensa que quando vim de África e tinha que trabalhar no hospital não sei quantas horas e depois como não tinha dinheiro ia fazer bancos para o Montijo e para aqui e para acolá, que tinha tempo? Não tinha tempo nenhum e isso reflectia-se obviamente no que escrevia.
A questão não é só de tempo. Nem todos podem ser grandes escritores.
Acho que o João Renan tinha razão quando dizia que não havia talento, havia bois, pessoas que marram, marram, e marram.
Notícias Magazine
Fevereiro 2000
fotos Lusa, caricatura de Miguel Soares
Categorias: Entrevistas com Escritores
Tagged: ANTÓNIO LOBO ANTUNES















