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“Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras”

Dezembro 19, 2007 · 1 Comentário

“Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras”

Sempre de cigarro entre os dedos, desafiando as regras do politicamente correcto, António Lobo Antunes desmontou também algumas ideias feitas acerca do ofício da escrita. Por exemplo, a de que uma boa ideia faz sempre um bom livro.

O Meu Nome é Legião, o mais recente romance de António Lobo Antunes, foi o pretexto para uma visita do escritor à Biblioteca Municipal de Beja, na quarta-feira, 5, cidade a que não retornava há 14 anos. Mas o autor de Os Cus de Judas, este ano distinguido com o Prémio Camões, não perdeu muito tempo a falar da obra em si, preferindo deixar a conversa fluir ao sabor das perguntas de um auditório cheio e ávido. “Se eu pudesse resumir um livro em cinco minutos, para quê passar dois anos a escrevê-lo?”, declarou, logo de entrada. Os temas sucederam-se assim, sem rumo certo, desde a infância do autor, passando pela experiência da medicina, até ao mundo da literatura, com repetidas referências ao escritor já desaparecido José Cardoso Pires – “um irmão mais velho para mim” – e à sua própria visão dos livros enquanto autor. Sempre de cigarro entre os dedos, desafiando as regras do politicamente correcto, António Lobo Antunes desmontou também algumas ideias feitas acerca do ofício da escrita. Em primeiro lugar, a de que um bom livro se faz de uma boa história: “Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras. Eu insisto muito neste ponto: quando uma pessoa diz que tem uma ideia muito boa para um livro, eu não tenho a menor dúvida de que o livro é mau. Porque são as palavras que geram as palavras”.

Foi assim com o romance anterior, Ontem não te vi em Babilónia, que partiu da simples conjectura “como é que a noite se transforma em manhã?”, e é assim com O Meu Nome é Legião, que segue a vida dos jovens de um bairro social da periferia de uma grande cidade, descrita através de um relatório de polícia, num registo próximo da crónica. “Cada vez mais, quando começo um livro não tenho nada na cabeça. Neste último livro, o que eu tinha era um grupo de miúdos, aquilo a que as pessoas chamam delinquentes, crianças entre os 12 e os 18 anos. Faziam assaltos, matavam pessoas, roubavam. Porque sempre me pareceu que aquilo era muito mais uma forma de comunicar, a única forma que lhes era possível. E que a vida, a morte e a sociedade tinham para eles um significado diferente”.

E foi tudo o que Lobo Antunes disse sobre o romance que anda a promover pelo País, acompanhado pelo editor da D. Quixote. A partir daqui, colocou-se nas mãos da plateia, mediante o acordo de responder o que quisesse ao que lhe fosse perguntado. Por isso recordou a passagem pelo curso de medicina, em obediência aos desejos do pai, médico, o primeiro contacto com a realidade da morte, nos bancos de faculdade, ou a relutância em deixar a carreira, quando era já o que se chama “um psiquiatra da moda”, para se dedicar inteiramente ao que sempre soube que iria fazer, “desde que nasci”. “Sentia-me uma orelha enorme sentada numa cadeira onde as pessoas despejavam. Mas eu tinha medo de não ganhar o dinheiro suficiente para viver. A primeira vez que ganhei o Grande Prémio de Romance e Novela [Associação Portuguesa de Escritores] pensei que tinha que tomar uma decisão mas fiz isso com muito medo”, reconheceu, não enjeitando, no entanto, o seu anterior modo de vida, do qual conserva uma “certa saudade”. Acima de tudo pela “sensação de ser útil”, no contacto directo com os doentes. Pelo contrário, “enquanto escritor, eu não sei para quem escrevo porque não vejo as pessoas, estou ali sozinho”, disse, confessando que trabalha “virado para a parede”, com recurso ao velho método do papel e caneta, e com um livro aberto à frente, como fazia nos tempos do liceu para tentar dissimular, aos olhos dos pais, a “actividade pouco séria” da escrita.

“A literatura não é para distrair ninguém”

Desfiando histórias como se estivesse entre amigos, o premiado e traduzidíssimo escritor, há anos apontado como possível Prémio Nobel da Literatura, confessou também o seu “medo de escrever”. Em primeiro lugar, por nunca estar certo de ser capaz de escrever o próximo livro – “há pessoas que têm três, quatro livros na cabeça. Eu nunca tive nada” – depois, pelo receio de defraudar os leitores, “pessoas que depositaram em mim uma fé que eu nunca tive”. Mas há ainda um terceiro factor: a dificuldade. O primeiro capítulo de um livro pode chegar a ter 15 versões, até a obra “encontrar o seu caminho”, pelo que é frequentemente um processo demorado e penoso, de espera, às vezes infrutífera, pelas palavras certas. Sendo tão difícil escrever, o que mais impressiona o autor é que se publique tanto e – certamente por isso mesmo – tantas vezes, maus livros. Foi talvez o único momento em que Lobo Antunes revelou alguma amargura no discurso, aquele em que se referiu à “política editorial” enquanto algo que o indigna profundamente. “Publica-se o lixo porque o lixo dá dinheiro. E as pessoas compram e dizem: é para me distrair. Mas a literatura não é para distrair ninguém. Eu não quero distrair ninguém, não quero entreter ninguém. A literatura para mim, enquanto leitor, é um acto de conhecimento e aprendizagem. Sobre a vida, sobre mim mesmo”, rematou, deixando também claro a sua especial consideração pelos leitores portugueses, para quem escreve acima de tudo. “Eu escrevo sobretudo para as pessoas do meu país. Cada vez me sinto mais português, cada vez gosto mais do meu país, cada vez me sinto melhor aqui. É aqui que eu quero viver, é aqui que eu quero morrer”.

DIÁRIO DO ALENTEJO

autor Carla Ferreira texto | José Serrano fotos

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«Saber ler é tão difícil como saber escrever»

Dezembro 5, 2007 · Deixe um comentário

Podemos começar por falar de amor?

Se eu souber responder…

O título do seu novo romance, Eu Hei-de Amar Uma Pedra, nascendo embora de um canto popular, terá a ver, igualmente, com impossibilidades do amor?

Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstractos são perigosos.

Há uma personagem no livro, que, à quarta-feira, ao longo de décadas, vai, secretamente, a uma pensão da Graça, ama e ali morre…

Foi daí que o livro veio. Só mudei o sítio. Sempre me espantou essa extraordinária forma de amor. A sexualidade, sempre tão importante para mim – e continua a ser -, cada vez me parece mais vazia de sentido quando não há outro modo de diálogo e de encontro, embora seja muito difícil resistir ao desejo imediato.

Amor é algo mais?

A noção de amor varia de pessoa para pessoa. Muitas vezes estamos apaixonados ou estaremos agradecidos por gostarem de nós? Ou será que o outro é apenas alguém junto de quem nos sentimos menos sozinhos? Não sei bem o que é a verdade acerca do amor e duvido que haja quem saiba. Só tenho perguntas, não tenho respostas. Até que ponto o amor não é apenas a idealização de um outro e de nós mesmos?

Nunca é fácil salvar uma relação…

Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam. Não me preocupa muito. Preocupa-me em relação a mim mesmo, mas há grandes partes da minha vida que eliminei sem piedade. Não vou a jantares, não vou a lançamentos.

E não tem solidões?

Preciso e gosto de estar sozinho.

Ao fim de 25 anos de vida literária, celebrados hoje, quem é António Lobo Antunes para António Lobo Antunes?

Vida literária custa-me a engolir, soa pretensiosa. Digo que se passam 25 anos sobre a publicação do primeiro romance [Memória de Elefante], que andou em bolandas, de editora em editora, a ser rejeitado. Quando saiu, já tinha acabado mais dois livros. Mas 25 anos é muito tempo e serve para ver que já não terei mais 25 para escrever.

Em princípio, a morte não está nas nossas mãos…

Às vezes, a gente morre por desatenção. Outras vezes morre-se quando se pode. Mas, a maior parte das vezes, morremos porque se nos acabou a saúde. Não fomos feitos para a morte, a não ser para a morte voluntária. A involuntária sempre me pareceu uma tremenda injustiça, para não falar em crueldade.

A intensidade poética da sua prosa é para aliviar tensões entre as personagens?

Não me é consciente. Uma coisa para mim é clara: tenho de proteger os meus ovos, que são os meus livros. Se racionalizar as coisas, perco-as. Estaria a fechar portas a mim mesmo e a essas coisas, que não sei bem se me pertencem, e emergem com essa força. Nos momentos felizes, a mão anda sozinha. A cabeça está a ver ao longe e fica contente, porque são as palavras certas que a cabeça não encontraria. É a mão.

Como dissocia o escritor da obra?

Não tenho bem a sensação de o livro nascer de mim. Faço a primeira versão, trabalho muito a segunda, no entanto, depois de entregar o livro, não vejo provas, não faço mais nada. Tudo o que quero é fazer outro. O livro só existe quando estou a escrever. E o tempo é-me muito curto. Se fizer mais dois ou três…

Um autor acéfalo conseguirá realizar uma obra-prima?

Se tiver uma mão suficientemente grande… Prende-se com um conjunto de coisas: primeiro, é preciso ter lido muito. Aprende-se a escrever, lendo. E também é necessária uma grande humildade face ao material da escrita. É a mão que escreve. A nossa mão é mais inteligente do que nós. Não é o autor que tem de ser inteligente, é a obra. O autor não escreve tão bem quanto os livros.

Está a dizer-me que o livro, em relação ao autor, é uma mentira?

Estou a dizer que o livro é melhor do que eu. Não escrevo assim tão bem.

Quem escreve o livro por si?

Um dia, em conversa com Eduardo Lourenço, a propósito de criação literária, ele lembrava o soneto de Pessoa (de quem não sou grande fã e ele é), que fala de «emissário de um rei desconhecido (…)», uma espécie de mensageiro. Há uns tempos, disse ao telefone, ao meu agente, ter a sensação de que era um anjo que estava a escrever por mim. Lembrei- -me, então, que anjo quer dizer mensageiro. Quando estou a escrever, parece que estão a ditar-me e a mão a reproduzir.

Considera-se um predestinado?

Não. Isso até aumenta a humildade. Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

Despojamento, uma outra riqueza?

Quando uma pessoa morre, tira-se-

-lhe a roupa, objectos pessoais, o dinheiro, os óculos. Que vão vestir os mortos quando voltarem? Que dinheiro têm para comer quando voltarem? Morro, podem ficar os livros, mas os livros não são eu, que terei a boca cheia de terra e estarei no céu ou em parte alguma. Que diferença me faz? Quando voltar, com que óculos é que vou ler?

Como regressam os mortos?

E será que partem? Sou um homem religioso. Há um provérbio húngaro muito velho que diz: «Na cova do lobo não há ateus.» O nosso problema é se Deus acreditará em nós. Deus, porém, tem coisas incompreensíveis para mim. Acho que gosta muito dos tolos, porque não pára de os fazer. Mas, se calhar, o caminho de Deus terá tais profundezas que a gente não as entende. Tenho, sobretudo, a experiência das perdas. A perda de qualquer amigo é uma ferida que nunca cicatriza. A perda de pessoas de quem gostei, e que não são substituídas por nada, deixaram vazios que nunca serão preenchidos. Isso também ajuda a tornar-nos humildes.

Na desmultiplicação do narrador, em Eu Hei-de Amar Uma Pedra, todas as personagens se confrontam com perdas…

Dizem que os meus romances são polifónicos. Não são. É sempre a mesma voz que fala e gostaria que fosse também a voz interior do leitor. Ou melhor: essa voz não fala, nós é que a ouvimos.

Uma voz que se desdobra em vozes de muitas sombras?

Sombras, luzes. Gostaria que fossem vozes totais, para mim são vozes totais, porque trazem consigo carne, corpo. O drama é que a gente está a ler em folhas de papel. E, no entanto, nunca tive a sensação de fazer ficções.

O seu novo romance parte de fotografias. São o maior registo da memória?

Não acho que os romances sejam novos. Existem há muito tempo, à espera que seja capaz de chegar a eles. Em miúdo, conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento. Mas temos fotógrafos geniais.

Não tirou fotografias às suas filhas?

A ninguém. Da mesma maneira que nunca gosto de me ver fotografado.

Acha-se feio?

Nunca lidei bem com o meu corpo. Vejo agora fotografias de quando era bebé ou de há 30 anos, e era bonito. Quando tinha 18 anos, as mulheres metiam conversa comigo.

Em dado momento da sua vida, isso foi razão para o tornar vaidoso?

Não era importante. Importante era que as mulheres fossem bonitas. As mulheres sempre exerceram um grande fascínio sobre mim.

Sentiu falta de um elemento feminino entre os seus seis irmãos?

Não podia sentir, porque não sabia o que era o elemento feminino.

Havia a mãe, as avós…

As mães, os pais não têm sexo. A mãe era a mãe, e mulher do meu pai. Também não sabia muito bem o que era ser mulher do meu pai. Julgo que todos os miúdos vêem os pais de uma maneira assexuada. Eu via a barriga da minha mãe a crescer mas não sabia qual o mecanismo que fazia com que a barriga da minha mãe crescesse.

Acreditava que os bebés chegavam no bico de uma cegonha?

Comigo era diferente. O meu pai estava na Alemanha, vinha uma vez por ano e a barriga da minha mãe começava a crescer. Sabia que tinha alguma coisa a ver com o facto de o meu pai ter estado cá. Mas nunca os vi beijarem-se, não sabia muito bem como aquilo era feito.

Não se falava de sexualidade às crianças. Hoje, o próprio ensino dá-lhe alguma atenção. É melhor?

Não faço juízos de valor, não sou médico.

É médico psiquiatra…

Já não faço nada disso. Só escrevo palavras. Nunca analisei essa parte, só me interessava tentar entender. Se analisarmos, não entendemos.

Como se chega ao entendimento sem análise, sem crítica?

Por osmose. Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver. Acho que era Malraux quem dizia: «A partir do momento em que a gente compreende, deixa de julgar.»

Que tempo vivemos: o do julgamento?

Tenho uma vida um pouco especial. Estive recentemente na Roménia, um país que me encanta e me faz reaprender o que é a liberdade. Um país muito parecido connosco…

No aspecto da liberdade?

No da latinidade. Quando voltei, havia todas essas coisas provocadas por este espantoso governo que temos. Tudo o que se tem passado me dá vontade de rir. Nós nunca vivemos em democracia, tal como os EUA não vivem em democracia. A democracia implicaria um referendar constante das decisões, e isso não acontece.

Há eleições…

Vota-se de quatro em quatro anos, mas, entre esses quatro anos, não nos pedem opinião. O que se tem verificado em Portugal, a propósito da liberdade de imprensa, não passa de uma luta de poder igual a tantas outras. De uma forma geral, olho para os políticos com uma indulgência divertida, sejam de que partidos forem. Há pouco tempo, estava no estrangeiro, num encontro com cento e tal escritores, e ouvi falar de Portugal por causa do «barco do aborto». Comentava-se que um ministro nosso terá dito: O mar português é um mar com princípios. Foi um motivo de troça à minha custa, que não tinha culpa nenhuma.

Portugal é diferente dos outros países?

Claro que não. Nem somos piores. E temos uma língua espantosa. E um clima maravilhoso. Cada vez me seria mais difícil viver longe de Portugal. Gosto muito do meu país.

Costuma ler as críticas à sua obra?

Devo ser dos poucos autores que não lêem as críticas, sejam boas ou más. O que faço ainda é cedo para ser compreendido. Tenho a sensação que estou a escrever coisas maiores do que eu. É preciso deixar passar um tempo. Talvez daqui a 50 ou cem anos seja tudo mais claro. Se uma pessoa está à frente do seu tempo, isso provoca reacções contraditórias. Mas há críticos excelentes que iluminam zonas de sombra dos livros. É também preciso grande humildade para se escrever sobre o que se lê e não julgar-se um livro com a nossa chave. Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons.

Prefere que a chave dos seus livros fique na posse do leitor?

A chave vem com o livro. Saber ler é tão difícil como saber escrever.

Há quem tenha dificuldade em entrar nos seus livros…

Para mim, os livros que escrevo são óbvios e evidentes. Ao lermos certos autores muito bons – estou a pensar no Conrad -, parece caminhar-se no meio do nevoeiro e, de repente, o nevoeiro começa a levantar-se e o livro fica totalmente claro. Quando, aos 20 anos, via um filme de Bergman, aborrecia-me profundamente.

A partir de que idade começou a entender Ingmar Bergman, considerado o cineasta da memória?

A partir dos 40, comovia-me até às lágrimas. Era eu que não estava preparado para ver aqueles filmes e notar o quanto de mim existia neles. Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

Quando na sua escrita suspende a frase, a palavra, deseja deixar portas abertas? Pretende ter o leitor como um interlocutor constante?

Fui compreendendo que tinha de pôr a prosa a respirar de uma outra forma. É também uma maneira de pontuar. O problema é como isso se traduz para outras línguas. Neste momento, na Rússia, estamos com problemas de tradutores de português; traduz-se a partir do alemão. O português, em muitos países, é como o esloveno para nós. Um país onde se traduz maravilhosamente é em Espanha.

Que imagem tem da língua portuguesa, falada por 250 milhões?

Na sua maior parte, as pessoas que conhecem o português em alguns países conhecem o português do Brasil, cujo léxico e musicalidade são diferentes. Julgo que o meu português coloca problemas específicos. Estou a lembrar-me do problema que foi para um tradutor expressões como alto lá com o charuto. Todas as línguas têm a sua idiossincrasia. Uma tradução acaba por ser uma fotografia a preto e branco.

Sente-se bem a escrever em português?

É a minha língua, não me imagino a escrever noutra.

Nos seus livros faz sempre uma visita à infância. É o património mais vasto e rico da sua escrita?

Queria que os livros tivessem todos os tempos da minha vida. Talvez a partir de uma certa idade estejamos mais atentos à nossa infância.

Estou a lembrar-me de Séneca, que diz: «Ama como se morresses hoje.» No seu caso, escreve como se pudesse morrer hoje?

Não quero nada morrer hoje. Estou a meio de um livro, não o queria deixar imperfeito. E queria viver mais dois anos para fazer outro, e mais dois para fazer outro, como se andasse a negociar a vida. Gostaria de ter mais dez anos para escrever. E se calhar, mesmo morto, a mão vai continuar a avançar.

Quando poderá o escritor ter a percepção de que deve parar?

A partir de certo momento, tudo começa a ossificar-se. Muitas vezes não temos essa percepção.

Tem palavras por meio das quais procure um significado absoluto?

Tenho aprendido mais a escrever com os poetas do que com os prosadores. Em poesia, pelo menos nos poetas que admiro, cada palavra tem um brilho próprio. Mas não gosto de dividir as coisas em romance, conto, novela, poema.

Convoca tantas flores para os seus livros… Fazem parte da sua natureza?

Vivo sem flores, não tenho flores em casa. Vivo com livros e quadros, a maior parte oferecidos pelo Júlio Pomar. Nunca tive bens materiais. Nem uso relógio. Posso fazer a mala e ir-me embora. Não estou agarrado às coisas.
António Lobo Antunes
escritor
DN.TEMA: 25 anos de vida literária

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UM RAPAZ QUE EU CONHEÇO

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário

A Raríssimas, Associação Nacional de Doenças Mentais e Raras lançou o desafio a personalidades e escritores: escrever um conto sobre o que é para cada um raro. E o desafio foi respondido por 14 individualidades, entre os quais os escritores José Luis Peixoto e Jacinto Lucas Pires, Rosa Lobato de Faria e Carlos Pinto Coelho. O resultado é um livro de contos cuja receita reverte, na totalidade, a favor da Raríssimas.

O conto inédito de José Luís Peixoto é este:

UM RAPAZ QUE EU CONHEÇO

“Eu conheço um rapaz, mais ou menos da minha idade, que sabe ser feliz. Ninguém tem explicação para esta condição altamente fora do normal, altamente improvável. Ele tem três irmãos e todos eles são pessoas comuns, iguais a milhões, biliões de outras. Quanto estão zangados, dizem palavras de que se arrependem. Quando estão desiludidos, vê-se nos seus rostos. Quando estão muito tristes, choram. Já o rapaz que sabe ser feliz nunca diz palavras de que se arrepende, nunca se vê o desalento no seu rosto, nunca chora. O seu rosto é o seu sorriso. Quando chega, sorri. Quando se despede, sorri. Fica muito tempo a ouvir as pessoas que querem falar com ele. Há muitas pessoas que gostam de falar com ele. Ele ouve nos momentos em que as pessoas querem que ele ouça. Ele faz perguntas nos momentos em que as pessoas querem sentir que ele está interessado. Ele sorri durante o tempo todo da conversa. Muitas vezes, as pessoas contam-lhe histórias tristes. Contam-lhe coisas más que fizeram, porque sabem que ele entenderá. Contam-lhe histórias de coisas que aconteceram: maldades e coisas más. Ele ouve porque gosta verdadeiramente de ouvir. Ele faz perguntas porque sente curiosidade verdadeiramente. Ele sorri sempre. Quando as pessoas lhe falam de coisas más, ele não sorri, mas ele sorri. Os seus lábios não têm a forma de um sorriso, mas os seus olhos sorriem. Os seus olhos não sorriem, mas têm um brilho que é um sorriso.

Quando estão muitas pessoas e ele chega, passa pouco tempo e todos sorriem com ele. Os mais amargos sorriem. Os mais invejosos sorriem. Os mais perversos sorriem. Os funcionários de repartições, os poetas, os advogados sorriem. Quando se despede, sorri e o seu sorriso permanece no rosto das pessoas durante o resto do dia. Contam-se muitas histórias sobre ele. Diz-se que, quando ele põe as mãos em concha, cresce uma bola de luz dentro das suas mãos. Diz-se que, quando ninguém está a ver, ele entorna essa luz sobre a cabeça das pessoas. Eu não duvido dessas histórias. Nunca vi essa bola de luz, nunca ninguém a viu, mas acredito. O seu sorriso é a sombra da sua alegria. Quando ele sorri, existe no seu interior uma alegria que é o sol. Quando ele sorri, o sol inteiro está apertado, quase a explodir, dentro dele. O seu sorriso tem muitas formas. É terno, entusiasmado, meigo, vivo, brando. As formas do seu sorriso são as formas exactas da alegria que existe dentro dele. Ele é sincero. Sabe ser feliz e, por isso, ele é feliz.

Contam-se muitas histórias sobre a origem da sua felicidade. Ninguém sabe qual é a verdadeira. Cada pessoa conta uma história diferente. Às vezes, as pessoas discutem sobre isso. Nunca chegam a uma conclusão. Se uns dizem que foi um vírus, outros dizem que nasceu assim. Às vezes, as pessoas zangam-se umas com as outras por causa disso. Às vezes, deixam de falar umas com as outras por causa disso. Fazem as pazes no momento em que voltam a encontrar o rapaz. Se uma dessas pessoas encontrar o rapaz de manhã, se a outra encontrar o rapaz à tarde, ficam com um sorriso grande para o resto do dia. Se depois disso se encontrarem, fazem as pazes. Uma das pessoas ficará a repetir desculpas para a outra que, ao mesmo tempo, repetirá desculpas também. Poucos horas depois de nascer, quando a mãe estava na maternidade, com os cabelos sobre a almofada, sem força, quando o pai estava de pé ao lado da cama, quando a enfermeira chegou com ele ao colo, quando a mãe o aceitou nos braços e fez com os lábios a forma de beijinhos, quando o pai se inclinou para o ver melhor, quando os pais o consideraram seu pela primeira vez, a mãe disse: Olha, parece que está a sorrir. Alguém me contou que, depois dessa hora, os seus pais sorriram durante o resto do dia. As pessoas que eles encontram sorriram também durante o resto do dia, assim como sorriram as pessoas que essas pessoas encontram. Aquele sorriso alastrou-se pelo mundo como se o varresse e, na última hora desse dia, todas as pessoas vivas sorriram. Ninguém sabe ao certo se essa história é verdadeira, mas não deixa de ser uma boa história.

A verdade absoluta é que esse rapaz que eu conheço sabe ser feliz. Já houve gente a pedir-lhe que explicasse a felicidade. Ele sorriu e não soube responder. Aqueles que lhe perguntaram sorriram e aceitaram essa resposta. Talvez ponha as mãos em concha, talvez cresça uma bola de luz dentro das suas mãos. Porque não? Eu e toda a gente que o conhece muitas vezes deixámos que as nossas mãos ficassem em concha durante momentos. Não resultou. Eu e toda a gente que conhece esse rapaz achámos que não conseguíamos. Duvidámos. Sofremos por duvidar. Depois, entendemos. As mãos em concha, uma bola de luz a crescer dentro das mãos. Faltava o mais importante. Eu e todos, em algum momento das nossas vidas percebemos que não basta formar uma concha com as mãos, é preciso sorrir. Depois, se olharmos bem, veremos como cresce uma bola de luz. Natural, incandescente, limpa. Quando ninguém está a ver, podemos entorná-la sobre a cabeça de alguém. O seu sorriso ensinar-nos-à sorrir ainda mais.”

JOSÉ LUÍS PEIXOTO – Escritor

In “Público”

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A Grande Arte

Novembro 23, 2007 · Deixe um comentário

“Imagina o sofrimento das poucas pessoas que conseguiam sofrer por mim. Quando são poucas as pessoas que podem sofrer por outra, o sofrimento é maior, ainda que menos espectacular e repercutível. Quando morre um artista famoso, um montão de pessoas grita as suas lamentações, mas na verdade cada um sofre um pouquinho apenas, mas tudo junto parece um maremoto de dor. Mas vamos imaginar uma mulher sozinha cujo único filho morre. Isso não tem a menor repercussão, mas o sofrimento dessa mãe singular é maior do que o sofrimento epidérmico das outras centenas de pessoas lamentando a morte do ídolo, e todos os ídolos têm pés de barro e cu de hemorróidas.”

Rubem Fonseca, em “A Grande Arte”

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CASAMENTO

Novembro 20, 2007 · 1 Comentário

«Na riqueza e na pobreza, no melhor e no pior, até que a morte vos separe.»
Perfeitamente.
Sempre cumpri o que assinei.
Portanto estrangulei-a e fui-me embora.
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[Mário-Henrique Leiria, de Contos do Gin-Tonic, 1973]

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“A Desilusão de Deus” de Richard Dawkins

Novembro 7, 2007 · 1 Comentário

Capa do livro “A Desilusão de Deus” de Richard Dawkins (editora Casa das Letras) não é apenas uma brilhante obra de divulgação científica, a obra de Dawkins é também uma oportuna obra política. Numa época, em que o fundamentalismo religioso voltou a ganhar terreno, em particular através da progressão do islamismo no Médio Oriente e da ascensão ao poder nos EUA de uma das variantes mais fanáticas de protestantismo evangélico, Dawkins interpela-nos com toda a oportunidade sobre os perigos deste manifesto retrocesso civilizacional.
Artigo de Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra
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Dawkins actualiza a reflexão científica sobre a existência de Deus ao longo de dois capítulos sucessivos onde analisa a hipótese e os argumentos para a existência de Deus. A tendência dos humanos para acreditar em entidades transcendentes ou espirituais é desenvolvida do ponto de vista da evolução da nossa espécie num capítulo dedicado às raízes da religião. Dawkins desmonta a ideia que a moral só pode existir associada à religião. Através de múltiplos exemplos, Dawkins recorda-nos que há mais de dois mil anos que as maiores atrocidades da nossa história têm sido perpetradas em nome de uma miríade de deuses. Dawkins analisa o papel dos regimes laicos na pacificação da sociedade, sem deixar de caracterizar devidamente o estalinismo e o nazismo. Recorda-se o papel da formação seminarista de Estaline e a espiritualidade maniqueísta de Hitler, bem como a sua cumplicidade com o Vaticano. A intolerância religiosa é analisada por Dawkins, referindo-se este em particular à hostilidade das religiões do livro à homossexualidade, ao modo de vida das sociedades mais abertas, à religiões minoritárias e às religiões minoritárias.

Dawkins oferece-nos ainda uma reflexão brilhante dedicada às dificuldades do cidadão comum em compreender os problemas cuja escala o ultrapassa do ponto de vista espacial e temporal. O muito grande ou muito pequeno, o Universo ou um quark não são conceitos intuitivos tendo em conta as nossas dimensões naturais e o alcance do nosso campo de visão. Um tempo de vida média de um positrão inferior ao nanossegundo ou os milhares de milhões anos da vida de uma estrela dificilmente são assimilados pela maioria dos cidadãos. A incompreensão da base científica associada a fenómenos cuja escala nos transcende é uma recorrente fonte de espiritualismo e de sentimentos religiosos.

Outras passagens interessantes desta obra são o desmontar do Desenho Inteligente, a análise ao niilismo militante contra o darwinismo e a ciência moderna, bem como a descrição de variadíssimas passagens insólitas da Bíblia onde se relatam genocídios, homicídios e abuso de mulheres e crianças em nome de Deus. Dawkins relata com humor os evangelhos de conteúdo mais embaraçoso, aqueles que foram estrategicamente deixados fora da Bíblia pelos últimos compiladores das escrituras, em que se descreve Jesus Cristo em criança a abusar dos seus poderes divinos como se fosse um mágico, ora transformando os seus colegas em cabras ora ajudando o seu pai nos trabalhos de carpintaria aumentando miraculosamente as dimensões das peças de madeira.

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Uma oração

Outubro 17, 2007 · Deixe um comentário


Jorge Luís Borges

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

Jorge Luís Borges

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Sulscrito em Loulé

Outubro 15, 2007 · Deixe um comentário

O Sulscrito – Círculo Literário do Algarve tem o prazer de vos convidar para mais uma apresentação do nº 1 da revista de literatura Sulscrito.

Desta vez vamos estar em Loulé, na Casa da Cultura de Loulé, Sábado, dia 13 de Outubro, às 21h30.

Haverá leituras e espaço para conversar.

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Doris Lessing

Outubro 15, 2007 · Deixe um comentário

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O MEU NOME É LEGIÃO

Outubro 2, 2007 · Deixe um comentário

O MEU NOME É LEGIÃO
António Lobo Antunes
O livro começa como um relatório de polícia, descrevendo a vida de um gang numa zona a que se chama simplesmente Bairro e que nos pode fazer evocar um qualquer bairro periférico de uma grande cidade.

A legião que é referida no título reporta-se a uma citação do Evangelho de São Lucas, mais precisamente ao seguinte excerto: “(…) Quando desceu para terra veio-lhes ao encontro um homem da cidade, possesso de vários demónios, que desde há muito não se vestia nem vivia em casa mas nos túmulos. Ao ver Jesus prostrou-se diante dele, gritando em alta voz: ‘Que tens que ver comigo Jesus, filho de Deus altíssimo? Peço-te que não me atormentes!» (…) Jesus perguntou-lhe: ‘Qual é o teu nome?’ ‘O meu nome é Legião’— respondeu.
Porque muitos demónios tinham entrado nele e suplicavam-lhe que os não mandasse para o abismo.”

Com O Meu Nome é Legião percorremos, como se fosse a nossa vida, a vida de pessoas que vivem na pior parte do pior sítio do mundo – pessoas que são muitos, sendo o mesmo, e sendo esse «mesmo» uma parte oculta, desesperada e silenciosa de nós, que se esforça por acreditar que há uma salvação.

Cruzam-se histórias, tendo quase sempre como pano de fundo o bairro; os conflitos homem/mulher, ricos/pobres, brancos/pretos; as histórias não acabam, e é normal – o autor mostra-nos que aquilo que existe de mais parecido com a salvação é esquecer tudo o que aconteceu e pensar:«Não tenho medo de vocês, não tenho medo de nada».

ISBN: 978-972-20-3225-4
Páginas: 384
Dimensões: 15,5×23,5 cm

Colecção: AUTORES DE LÍNGUA PORTUGUESA

Preço sem IVA: 20,90
Preço com IVA: 21,95

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Pio Abreu

Outubro 2, 2007 · Deixe um comentário


Espanha e Brasil publicam Pio Abreu

Quem Nos Faz Como Somos, o mais recente livro do psiquiatra José Luís Pio Abreu, editado pelas Publicações Dom Quixote, vai ser publicado em Espanha e no Brasil. Os direitos de autor foram comprados pela espanhola Paidós e pela Planeta Brasil.

No prefácio, o físico Carlos Fiolhais considera este o melhor livro do médico onde, como em todos as boas obras de divulgação científica, se aprende com gosto.

Pio Abreu é também autor de Como Tornar-se Um Doente Mental, obra que se tornou um verdadeiro best seller e valeu ao psiquiatra do Hospital da Universidade de Coimbra o prémio italiano Città delle Rose para o melhor ensaio de autores estrangeiros.

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