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António Lobo Antunes

Novembro 5, 2008 · Deixe um comentário

Fico sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. Olha, as flores da jarra estão a murchar na água cinzenta, as folhas soltam-se, uma a uma, dos caules, tudo isto em silêncio.

Fico sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. Olha, as flores da jarra estão a murchar na água cinzenta, as folhas soltam-se, uma a uma, dos caules, tudo isto em silêncio, sem pressa, a tombarem na toalha, enroladas, secas. Dizia eu que fico sempre espantado
com a vida das pessoas: até o que lhes dá prazer me surpreende. Meu Deus, o que se agitam, tanta pressa sempre. E olhos ocos, aflitos. Tenho agora mais flores na sala do que num velório. Vêm daqui e dali com cartõezinhos simpáticos, a lembrança dos vivos. Se calhar morri sem dar por isso e continuo a existir na memória dos outros. Tocam à campainha e é um sujeito com flores. Estendem-me um papel
– Assine aqui

garatujo a hora, garatujo o nome, carregam no botão do elevador, somem-se e eu com aquilo nos braços. Vou deixando os ramos não importa onde: não há esquife aqui, não os posso encostar ao defunto. A voz da minha mãe ao telefone, a gritar como sempre. Coitada, tem passado algumas aflições com os filhos. Olho para ela e vem-me à ideia que a velhice depena as pessoas, tira-lhes bocados, às vezes dá-
-me a impressão que à minha mãe falta um pedaço da crista quando a vejo sentar-se à mesa ou que o tempo, como uma borracha, lhe apagou parte das feições, quebrou um bocadinho a voz, poliu os dedos que se tornaram sedosos, frágeis. Ali está ela a olhar para dentro, por vezes numa espécie de sorriso, quer dizer não é a boca que sorri, o sorriso à frente da boca, a flutuar sozinho. Eu na outra ponta da mesa, no lugar do meu pai a pensar

– Como é que o garfo vai atravessar o sorriso?

com medo que o garfo o leve para o prato e não leva, o sorriso continua intacto, perfeito, e é por baixo dele que a minha mãe mastiga. Chama-se Margarida. Em criança julgava que as pessoas, à medida que o tempo ia correndo, mudavam de nome. Por exemplo Rita assenta bem numa rapariga, não assenta tão bem numa senhora de idade e então trocavam o Rita por Clotilde ou Leopoldina, por exemplo Joana não calha numa ruiva e então muda-se para Beatriz e ao começar a fazer madeixas recupera o Rita, por exemplo Hermes desafina num bébé de maneira que fica à espera que o bébé tenha cinquenta anos e entretanto dizemos Pedro, mas a minha mãe foi Margarida sempre e não a concebo Fortunata nem Elisa nem Cátia embora para mim fosse

– Mãe

e estava encerrada a questão. E lá vai o garfo sem amolgar o sorriso. A única pessoa que não usava o

– Mãe

era o meu pai e as empregadas não

– Mãe

nem

– Margarida

as empregadas

– Senhora

o que me parecia um pleonasmo, como pôr ketchup em cima das rodelas de tomate. Os meus colegas de escola davam igualmente

– Mãe

às mães deles, o que eu achava estranho até perceber que

– Mãe

era o nome mais vulgar em Portugal. Curto, rápido, preciso e fácil de gritar durante o horrível suplício do corte das unhas, sobretudo o mindinho que uma tesoura feroz atacava magoando-me sempre, ou então era o medo que me magoasse que me magoava. Horas tremendas

– Que horror essas unhas

ordens horríveis

– Chega-te mais para a luz

conselhos tenebrosos

– Não te mexas agora

e isso, o arrancar dos pontos pretos com o aviso

– Está quase

seguido da exibição de uma coisa microscópica na ponta do indicador, sem mencionar a sopa

(– Quem não tem fome de sopa não tem fome de doce)

e a lavagem dos dentes, constituíram os suplícios cardinais da minha infância. Entretanto acho que me desviei do princípio desta crónica, ou seja de ficar sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. E as folhas das jarras a desprenderem-se dos caules. Se me deitasse no chão da sala acabavam por cobrir-me por inteiro e eu debaixo delas dando pela empregada a abrir a porta, a olhar para aquilo e a varrer-nos na direcção da pá: lá vou eu para o contentor dentro de um saco plástico, cheio de perfumes moribundos como os das tias-avós, rodeadas de essências vagas e tristes. Claro que se eu chamar a dona Olívia não liga: não acredita que as plantas falem e para o caso de se atreverem a falar nada melhor do que empurrá-las com força para o fundo. O que os outros se agitam, tanta pressa sempre, e eu quieto.
Sou um narciso, uma begónia, uma túlipa, ou antes restos de narcisos, de begónias, de túlipas, tão doces, tão pálidas. Mas não terei olhos ocos nem aflitos, apenas um caule tranquilo e por cima sacos plásticos dos vizinhos. Hoje voltei para casa, a seguir ao jantar, atrás de um bêbado.
Ia de um lado ao outro do passeio,
majestoso, lento. A certa altura parou a fazer chichi contra uma parede, um chichi interminável, uma abundância de fonte. Lembrei-me do bêbado de Pedro Páramo

– Ai vida não me mereces

e de caminho dei-lhe uma palmada no ombro que por pouco não o fez desmoronar-se, caindo tijolo a tijolo na rua mal iluminada, com grandes manchas de sombra que afogavam os automóveis estacionados, os prédios. Jantei sozinho num restaurantezito onde uma rapariga de cabelo pintado de loiro jantava sozinha. Ao levantar-me tinha saído.
Para onde? O que fará agora?
Sentada diante da televisão, com uma revista esquecida nos joelhos? A ler? À espera de um telefonema que não chega? Na janela em frente dois homens penduram um quadro na parede, afastam-se a observar o efeito, endireitam-se. Vinte e três horas e vinte e três minutos, vinte e três horas e vinte e quatro minutos. Hoje de manhã a televisão holandesa a entrevistar-me: deve ser uma estucha para os jornalistas porque não falo da minha vida e muito menos dos meus livros, eles que se defendam sozinhos. A certa altura silêncio e a produtora a perguntar-me o que pensava eu. Não respondi. Para quê?
É que se respondesse dizia-lhe que não pensava em nada, pensava no vácuo.

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António Lobo Antunes

Outubro 7, 2008 · Deixe um comentário

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AS LIÇÕES DO IRAQUE

Outubro 1, 2008 · Deixe um comentário

Por JOSEPH E. STIGLITZ – Prémio Nobel da Economia 2001

A guerra do Iraque foi suplantada pelo declínio da economia como questão mais importante na campanha presidencial dos Estados Unidos, em parte porque os cidadãos desse país crêem que, no Iraque, a maré virou: o reforço de tropas teria, supostamente, intimidado os insurgentes, reduzindo a violência. As implicações são claras: uma demonstração de poder é uma lança em África.

É precisamente este tipo de lógica machista que levou os Estados Unidos para a guerra do Iraque. A guerra tinha por objectivo demonstrar o poder estratégico do poderio militar. Em vez disso, demonstrou as suas limitações. Além disso, a guerra corroeu a verdadeira fonte de poder dos Estados Unidos: a sua autoridade moral.

de Joseph E. Stiglitz

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Micro – Leituras

Setembro 17, 2008 · Deixe um comentário

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O Nada que é Tudo

Setembro 8, 2008 · 1 Comentário


Crente é pouco sê-te Deus
E para o nada que é tudo
Inventa caminhos teus.

Se Ele é o que dizes
Ele nada pode ser
E se nada, livre está
Para ser o que quiser.

Se Deus quisesse ocupar
Lugar a si mesmo igual
Preenchia todo o nada
E o deixava tal e qual.

Do que é o Espírito Santo
Só diga quem ficar mudo
Que palavra há que me leve
Áquele nada que é tudo.

Oxalá por saber tanto
Me apeteça ficar mudo
Só então vendo sem ver
Aquele nada que é tudo.

Agostinho da Silva


Este “nada que é tudo” de que nos fala o mestre Agostinho, falando a partir das bordas do abismo do Mito, essa sobre-excessiva mudez que nada tem que ver com mutismo, não é um vacuum, um vazio, um apelo à nadificação e à abdicação.

Nova Águia

O Nada que é Tudo

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Jogos Olímpicos, Rússia e Paris Hilton

Agosto 25, 2008 · Deixe um comentário

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Lobo Antunes em entrevista

Julho 23, 2008 · 1 Comentário

É um livro mais curto, com um registo mais rápido que os anteriores. Deixou de gostar daquelas longas «sinfonias»?
Não tem nada a ver porque, como leitor, continuo a gostar de romances grandes. A questão é que, a partir de agora, os meus livros vão sendo sempre cada vez mais curtos. Não sei explicar porquê – o livro acaba por ter a dimensão que ele próprio exige, é ele quem comanda.

Conhece bairros periféricos de Lisboa como o que retrata?
O livro refere-se a um bairro em concreto, embora eu nunca lá tenha estado. Sempre me impressionou o facto de aqueles miúdos não terem raízes de espécie alguma. Não são portugueses, não são africanos, não são nada. Brincam com balas em vez de brincarem com bolas. E no entanto há neles uma sede de ternura, um desejo de amor absolutamente inextinguível. A morte e a vida não têm, para eles, qualquer significado ou, pelo menos, têm um significado muito diferente do que para nós. Na minha ideia, O Meu Nome É Legião era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à procura de uma razão de existir.

Revê-se naqueles garotos?
Quando começo a escrever um livro, não tenho qualquer plano. Aqueles garotos, aqueles polícias e, no fundo, todas aquelas vozes vão-se encadeando de tal modo que sou o primeiro a ficar espantado. Não posso, no entanto, dizer que me revejo neles porque, naquele momento, éramos só uma e a mesma coisa. Uma espécie de relação simbiótica.

Eles estão excluídos deste mundo?
Estão de tal maneira abandonados que matar pessoas é a única maneira que têm de pedir colo. Não sei, porém, o que se passa na realidade, uma palavra idiota porque a realidade é uma coisa que não existe. Todas aquelas pessoas têm, para mim, uma densidade muito profunda.

E, nessa medida, o livro também é uma realidade?
É a única realidade que existe. Não se trata de viver noutro planeta, mas a verdade é que, quando estou a escrever, a minha vida muda por completo. Encontro uma razão, um motivo e uma direcção. E é óbvio que dou muito mais importância aos livros do que às crónicas, que são apenas…

…uma questão alimentar, como costumava explicar.
Não, já não. São antes a possibilidade de poder fazer uma espécie de itinerário paralelo. Como quando, em miúdo, andava com o meu avô em estradas paralelas à via férrea, ficando com a sensação de viajar, ao mesmo tempo, no automóvel e no comboio.

Diz que não conhece aquele bairro…
Não conheço aquela realidade do ponto de vista jornalístico.

Mas sempre gostou de subúrbios.
Aquilo não é sequer um subúrbio. Para mim, o subúrbio é Benfica ou o Cacém. Aquilo é muito pior do que isso. Aquilo é o inferno. Aquelas pessoas vivem num inferno onde eu nunca entrei.

Foi ganhando carinho por aquelas personagens?
Não sei se os leitores entenderão que o livro está a transbordar de amor. Custou-me muito que aquelas personagens morressem. Repare que até o professor não é muito diferente dos garotos – todos estão terrivelmente desamparados. Sempre me comoveu ver o desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo, numa certa desprotecção.

Mas essa não é uma característica apenas do último livro.
Obviamente que não. Lembro-me de começar a escrever Explicação aos Pássaros na Alemanha, em casa da tradutora que tinha na altura. Convencido de que estava a fazer um romance completamente diferente, mostrei-lhe as primeiras linhas e ela disse-me que não via ali nada de diferente: «És tu.» Não consigo fugir disto – há sempre é um «outro eu» que escreve. Como quando aquele admirador da Sarah Bernhardt a encontra na rua e pergunta: «É a dona Sarah Bernhardt?» E ela responde: «Serei esta noite.»

Ficou comovido com o acolhimento que teve agora em Berlim, no Festival Internacional de Literatura?
Comovido é uma palavra exagerada. Agora, a qualquer lado onde vá, é sempre assim. Torna-se um pouco incómodo porque estive o dia inteiro a dar entrevistas no hotel e, quando saí, havia uma série de pessoas cá fora. Queriam um autógrafo não num livro, mas num pedacinho de papel. Como se eu fosse o Enrique Iglesias.

E com o Prémio Camões, que recebeu no princípio deste ano, ficou comovido?
Agora, de três em três meses, recebo um prémio. Antes, tinha vindo o Prémio Ibero-Americano, depois veio o Camões e, há dias, chegou o Neruda. É muito agradável recebê-los, mas um prémio nada tem a ver com a literatura na medida em que não melhora nem piora os livros. Um prémio é só um prémio.

Faz sentido voltar a falar no Nobel?
Nem penso nisso. Agora menos que nunca.

Porquê?
Porque há coisas muito mais importantes. Tenho a certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer Nobel que me possam dar. Mas não me queria alongar sobre esse assunto, porque me parece que se dá excessiva importância a um prémio literário. Tolstoi e Conrad nunca o tiveram. E eles é que são os meus colegas.

Sente-se bem na companhia deles?
Não estou nada mal [sorrisos].

Até se ri…
Sabe, este foi um ano muito duro para mim. Para além de ter recebido constantes lições de dignidade e de coragem por parte de pessoas anónimas, aprendi a ter ainda mais respeito e admiração pelos portugueses. Compreendi porque é que fomos nós a ir naqueles barquinhos de 14 metros sem quilha, porque é que atravessámos o Atlântico, porque é que fizemos o que fizemos. E fiquei muito orgulhoso quando percebi que o povo ainda é o mesmo. Fez-me lembrar aqueles versos de Sophia: «Esta gente cujo rosto/ Às vezes luminoso/ E outras vezes tosco/ Ora me lembra escravos/ Ora me lembra reis». Foi muito bom ter tido essa experiência.

Muito bom?
Aprendi a admirar as pessoas do meu País. E a respeitá-las ainda mais. E a amá-las ainda mais. E a gostar cada vez mais delas. A partir daí, tudo o resto se tornou relativo. Houve coisas que deixaram de ser importantes. E normalmente é quando elas deixam de ser importantes que vêm ter connosco… O que me interessa, neste momento, é poder ter tempo para escrever, viver o suficiente para conseguir acabar o meu trabalho sem decepcionar os que acreditam em mim. Surpreende-me todo este reconhecimento internacional porque, no fundo, só escrevo livros, o que não me dá um mérito por aí além… É apenas trabalho.

E muito trabalho…
Ser pedreiro, médico ou outra coisa qualquer também dá muito trabalho. E ser doente, ser doente dá muito trabalho.

Porque é que decidiu escrever aquela crónica da VISÃO, intitulada Crónica do Hospital, onde revelava que tinha um cancro?
Como já havia muitos boatos contraditórios, resolvi aclarar as coisas e dizer a verdade. A crónica foi escrita mesmo no hospital. Mal conseguia escrever, não tinha forças para nada. O que posso dizer é que eu e todos os outros doentes só recebemos atenções. Dos médicos e dos enfermeiros, mas também das pessoas mais modestas que lá trabalham. Se dizem que tratam mal os doentes nos hospitais, a minha experiência foi justamente a contrária. Sempre vi os doentes serem tratados com a maior dignidade. Estou muito grato às pessoas que cuidaram de mim e que tiveram comigo a maior delicadeza.

O Meu Nome É Legião é, aliás, dedicado a Henrique Bicha Castelo, que o operou.
Para ele, do ponto de vista emocional, não deve ter sido nada fácil. Porque o Henrique não foi apenas o meu médico, é meu amigo. Para além de ser um cirurgião de renome internacional, é um homem de uma qualidade humana, de uma capacidade de amor, de uma generosidade e de uma ternura absolutamente excepcionais.

Durante todo esse período, lembrou-se alguma vez do António Lobo Antunes médico?
Tudo isto me fez ter saudades da Medicina. Pela primeira vez, tive saudades da Medicina. E, nos últimos tempos, tenho tido saudades. Agora já é tarde porque a escolha foi feita há muito tempo. Mas, se pudesse voltar atrás, talvez tentasse manter alguma relação com a Medicina.

Enquanto não pôde viver da escrita, viu a Medicina como uma forma de ganhar a vida.
Eu até gostava de ser médico. O meu pai era médico, cresci no meio dos hospitais, mas estar internado é outra coisa muito diferente. Não há nada de mais horrível do que uma noite passada num hospital.

As noites passadas num hospital duram mais?
São infinitas. E é aí que aparece o desamparo. Não estou a falar de mim, estou a falar de uma maneira geral. É óbvio que senti tudo isto. Sofri muito e, ao mesmo tempo, toda esta experiência também me enriqueceu. Sai-se disto com mais amor pela vida e com a sensação de que é uma honra estar-se vivo.

Sai-se mais sereno?
Não lhe sei responder, porque nunca fui uma pessoa de grandes exaltações. É claro que tomei consciência da minha finitude, porque todos vivemos em função de eternidades. Uma pessoa de 20 anos pensa que tem à sua frente 50 anos e, para ela, esses 50 anos não vão passar nunca. A minha mãe, por exemplo, vive em função de eternidades de seis meses. E, na prática, esses seis meses são tão compridos como os 50 anos do jovem de 20 anos. Quando a Maria Antonieta pedia ao carrasco «só mais um minuto, senhor carrasco», para ela aquele minuto era eterno.

Virginia Woolf dizia que, a partir de certa idade, os dias são uma eternidade, mas os anos passam a correr.
E Churchill dizia que os anos passam num instante, o que custa a passar são os minutos. Mas quando os escritores querem parecer inteligentes, eu desconfio sempre. A atitude de sedução sempre me irritou e irrita-me cada vez mais. É isso e, sobretudo, a amargura. Há para aí um cronista num jornal diário que deve ser a pessoa mais infeliz do mundo. Destila tanto fel… Meu Deus, como se pode ser assim?

Está a falar de Vasco Pulido Valente?
É uma dedução sua. Não o conheço, mas o que ele escreve faz-me imensa impressão. E pena. Não me irrita, não me enerva, não me exalta, não me comove. Faz-me pena. Não gosto de pessoas amargas porque são mal agradecidas. A ingratidão é o pior sentimento que pode existir.

Sempre prezou a sua privacidade. Hesitou ao escrever aquela crónica na qual se expôs como nunca antes o havia feito?
Para quem souber ler, exponho-me muito mais nos livros. Em O Meu Nome É Legião, por exemplo, aqueles garotos vieram de dentro de mim, são parte de mim. Quando me fala em serenidade, é evidente que estou muito mais sereno, muito mais seguro do valor do meu trabalho.

Depois da operação, foi difícil voltar a escrever?
Muito difícil. Não era capaz, cansava-me. A seguir à operação, nem sequer escrevia. Estava sentado numa cadeira, sem ler, sem fazer nada, a olhar para a parede. Estive quase dois meses assim. Não tinha nada dentro.

Tinha um romance começado?
Sim, tinha começado a escrevê-lo seis ou sete meses antes. E, como nunca tinha feito uma interrupção, só me perguntava: será que sou capaz de retomar o livro? Depois, devagar, comecei a aproximar-me dele, sem lhe tocar, sem lhe tocar mesmo. Tinha ficado a meio de um capítulo, li o último parágrafo e – é curioso – o livro continuou a sair. É muito estranho porque eu costumo demorar mais de um ano a fazer a primeira versão e, quando chego ao fim, já mal me lembro do princípio. Releio e tudo aquilo faz sentido, tudo aquilo está certo. É uma espécie de trabalho interior que nada tem a ver comigo. Ou melhor: tem a ver comigo, eu não sei é de que parte de dentro de mim é que aquilo vem. Acho que agora estou a escrever como nunca escrevi. Falam muito no Manual dos Inquisidores, mas julgo que foi a partir de Ontem Não te Vi em Babilónia que a escrita começou a ganhar uma densidade, uma espessura, uma força que antes não tinha. Não me importa se me lêem porque escrevo para a eternidade? Claro que me importa, claro que quero que me leiam. Há coisas que já não faço.

Como assim?
Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques. São livros que não devem nada a ninguém. Não se nota ali a voz de ninguém, não há ali influência de qualquer outro autor. Nada. Zero. É a minha voz inteira. E a conquista da minha própria voz foi talvez o mais importante que me aconteceu. Não há ninguém a atravessar-se no meu caminho. Se não nos medimos com os melhores, não vale a pena medirmo-nos. Atingir as alturas de Tolstoi ou de Horácio é muito difícil, mas é aí que eu quero estar. E, ao mesmo tempo, isto tem-me permitido admirar o trabalho de outras pessoas que não considero grandes escritores…

Mas admira-lhes o quê? O esforço?
Esforço faz lembrar ciclismo, não é? Admiro o esforço e, quando ele é digno, respeito-o. Embora, em Portugal, se publique demasiado. As pessoas não sabem o quanto custa escrever. Escrever é tremendamente difícil. Não precisamos de mais de – vá lá, para ser generoso – 200 ou 300 livros. Continuo a ficar surpreendido com o aluvião de livros, livros completamente supérfluos, que se editam. As pessoas não têm vergonha de ter feito aquilo? Não são escritores, são pessoas que fazem livros. Uma coisa é ser escritor, como Torga (por exemplo) o era. Outra coisa é fazer livros, o que agora toda a gente faz. Fico pasmado quando vejo jornalistas, advogados ou apresentadores de televisão que se apresentam como escritores. Já reparou?

Ao regressar ao livro, sentiu-o como seu?
Claro que sim. Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde. A doença trouxe-me isso. Já não estou a fazer tratamentos e só lá mais para o final do ano é que voltarei a fazer exames. Tudo isto dá-me uma grande serenidade, porque olho para as coisas com mais distância. Estive muito perto da morte e palavra de honra que é muito mais fácil do que se imagina. A ideia pode angustiar-nos e apavorar-nos, mas quando se está mesmo ao pé dela é muito mais fácil do que se pensa. Lembre-se do que diz a última frase de Os Thibault, o grande romance de Roger Martin Du Gard: plus simples qu’ on y pense, mais simples do que se pensa. E é, de facto, mais simples do que se pensa, menos assustador do que se pensa.

Quando ouve a palavra cancro, é a morte que vê à sua frente?
Por mais que racionalmente pensemos que o cancro se cura, associamo-lo à morte. Pedi sempre para não me mentirem e, por isso, quando muito francamente me dizem que tenho um cancro, o que vejo à minha frente é a morte. Não é ver a morte à minha frente, é vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. E é mais fácil do que se pensa, não requer coragem, apenas dignidade e elegância. Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna?

A quem é que perguntava?
Ao médico e a uma ou duas pessoas que faziam o favor de se interessar por mim. Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta dele foi: «Outra puta.» Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança. Uma amiga, que é minha médica, disse-me: «Tens que aprender a viver com isto.» Não, não tenho. Não tenho que viver com um filho da puta. Eu não vivo com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele.

Tem que ter pulso firme?
Tem que lutar contra aquilo. O cancro habita-me, está dentro de mim. E queria portar-me com a mesma dignidade com que acho que me portei na guerra. Não sei se ele se importa com a minha atitude ou não, mas, em princípio, é um pesadelo que estará terminado. De qualquer maneira, sei que, mais tarde ou mais cedo, a puta virá. Só espero ter tempo para acabar o meu trabalho.

Na guerra, já tinha visto a morte de perto.
Na guerra, era mais fácil porque era uma qualquer coisa de exterior, podia sempre agarrar numa arma. Em África, tínhamos inimigos (digamos assim) e estávamos armados com morteiros, espingardas e metralhadoras. Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte. Portanto, o tratamento é como fazer um aborto desse monstro que nos quer destruir. Quando ia às sessões de radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava.

A doença torna-nos mais doces ou, pelo contrário, mais amargos?
No meu caso, fez com que se acabassem os disfarces, as máscaras, as meias-frases e as meias-tintas. Agora digo o que penso e o que sinto. Estou a falar com as cartas viradas para cima. E é a primeira vez que o faço. Não há nada escondido, não há nada na manga, não há truques nem tentativas de a impressionar e de a comover.

Sente-se mais livre?
Foi muito difícil. Enfim, muito difícil é exagero…

Exagero porquê?
Porque, ao lado, vi pessoas que estavam muito piores que eu. Pessoas sem esperança, à espera da morte. As minhas hipóteses eram grandes e, por isso, às vezes, sinto-me culpado. Mas é verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para escrever, livre para viver, livre para amar. No outro dia, com os meus irmãos, disse ao João [o neurocirurgião João Lobo Antunes] que ele tinha escrito um texto muito bonito. E um deles comentou que nós não dizemos essas coisas uns aos outros. Eu agora digo, eu agora digo. E isso foi uma conquista porque, de repente, tornou-se evidente que esta é a única maneira de viver. Claro que tem que haver dignidade, e que não podem existir pieguices, mas acabaram-se as contenções. O meu avô morreu e, ainda hoje, sinto remorsos por não lhe ter dito que gostava muito dele.

Teve medo de perder a mão?
Claro que sim. Sempre senti esse medo e agora senti-o ainda mais. Tinha imenso medo que a operação, para além de me tirar o cancro, me tivesse tirado a capacidade de escrever. Não sei por que bulas uma vez que aquilo estava nos intestinos…

E, depois, foi ganhando confiança?
A pouco e pouco, fui aumentando o número de horas de escrita e, hoje, já estou no meu ritmo normal. Não quer dizer que não possa morrer daqui a dois minutos, mas fisicamente nunca me senti como me sinto. Talvez me tenha dado força o facto de a minha condição de mortal ser agora muito mais patente.

No momento em que lhe dizem, pensa…
Não penso em nada, é uma surpresa infinita. Quando disse que queria ser operado, responderam-me que era preciso ver se havia metástases. Fiz exames e, como não havia, fui operado no dia seguinte. Entrei no hospital a pensar que tinha hemorróidas e já não sai de lá. Foi tudo muito rápido.

Como se o mundo lhe caísse em cima dos ombros?
O mundo nunca cai em cima de ninguém. Naquele momento, só pensei nos livros. O que vai acontecer aos livros? Levei o que andava a escrever para o hospital, mas não tinha forças para trabalhar. Queria fazê-lo, mas não conseguia. E não queria deixar o livro inacabado porque, no meu caso, um livro inacabado é um livro cheio de redundâncias, de inutilidades e toda aquela ganga que se escreve. Preocupava-me que publicassem um livro mau. Talvez por uma qualquer coquetterie, por estar seguro que estou a trabalhar para daqui a 500 anos.

Já cá não estaremos.
Não sei se morremos assim. Não sei se não ficamos cá. Não sei se Camões está morto. Mas isso não tem importância, eu não sou importante, os livros é que são importantes.

Isso não é falsa modéstia?
Não tenho falsa nem verdadeira modéstia. Sou orgulhoso, não sou vaidoso. Para quê estar a jogar consigo? O que é que eu ganho? Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente. É uma conquista recente, ganha com tudo aquilo por que passei. Estar aqui à sua frente é a única maneira de estar. E é a primeira vez que o faço.

Como sentiu a reacção dos leitores à sua Crónica do Hospital?
Não sabia que havia tanta gente que gostava de mim.

Sentiu-se menos desamparado?
Não, senti que não merecia tanto afecto.

Apercebeu-se de que o seu testemunho valeu mais do que dezenas de campanhas?
Não. Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau. Se Deus quiser, hei-de escrever mais alguns livros.

Também já não diz que vai escrever apenas mais dois livros.
Não. Dizia isso para negociar com a morte, para não lhe pedir muito. Porque, na altura, ainda a achava uma senhora digna, o que já não acho. E, portanto, se dantes pedia, agora exijo.

Antes pedia para ver se a morte era boa consigo…
Sim, para ver se ela tinha pena de mim. Agora, já não preciso de pena.

Fonte:Visão

Sara Belo Luís 28 Set 2007

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Nós os vencidos do catolicismo

Junho 26, 2008 · Deixe um comentário

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»

Autor: Ruy Belo

«A solidão dos filhos de Deus»

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ESQUECEMO-NOS DE VIVER

Fevereiro 20, 2008 · Deixe um comentário

ESQUECEMO-NOS DE VIVER
 
Leonel Marcelino
Engolidos pelas preocupações do dia-a-dia, deixamos a vida escorrer por entre os dedos como a água fugidia. Quando damos conta, estamos a percorrer a recta final, um pouco atordoados, com a angústia instalada dentro de nós, esquecidos de ser felizes, ansiosos por ainda fazermos isto mais aquilo, embora sabendo, por experiência vivida, que os sonhos raramente se cumprem e os projectos se foram adiando sine die.Consumimos a maior percentagem da nossa existência a cumprir rotinas. Isso bastará para nos dar a felicidade que todos perseguimos? Ou, como seres inquietos que nascemos, ambicionamos sempre algo mais, algo diferente do que satisfaz os outros bichos?

Eis um problema existencial que sempre preocupou espíritos sensíveis. Quem é mais feliz? Quem preenche um ideal de vida mais verdadeiro? A gente simples e inculta do campo, que frui a sua existência em contacto com a natureza, sem interrogações, sem angústias, sem dúvidas, limitando-se a viver uma vida natural, acreditando na pureza dos seus actos e na força da fé, ou as pessoas que lêem, viajam, estudam, se interrogam, duvidam, se angustiam, sempre insatisfeitas, sempre em busca de respostas que não encontram, desesperadas?

Que vida tem mais sentido? A vida simples e natural ou a vida complexa de quem ousa questionar? O povo tem um ditado: “Não vá o sapateiro além da chinela.” Isto é, não estaremos a querer saber demais? Os românticos promoveram o mito do bom selvagem…

Na realidade, quem ousa dizer que tem a chave da felicidade? Como vivíamos quando começámos a erguer-nos nos pés? Não foi o homem que criou os deuses? Não foi o homem que inventou as filosofias? Não foi o homem que criou a moeda, a política, o poder, as guerras, as leis, as confusões? Não é o homem que se vai afastando cada vez mais da simplicidade e cria mais e mais barreiras à naturalidade? Não seremos apenas transitórios e insignificantes bichinhos terrenos, arrogantes inventores de mitos?

Será a pessoa humana, depois de experimentar os venenos da civilização, capaz de recuperar a capacidade de viver de modo simples?

Não serão mais felizes os que, depois de romperem as armaduras em combates vários, caiem na humildade, retornam à natureza-mãe e reaprendem o sabor do pão cozido a lenha, o encanto do cantar do pintassilgo, o rumorejar de um regato de água das serras, o prazer de contar histórias, de conviver, de engolir fungos e bactérias?

Às vezes, esquecemo-nos de que os outros também são natureza, e uma natureza especial. Será que, se aprendermos a viver em comunidade, a respeitarmo-nos, não encontraremos as chaves da alegria que procuramos algures, perdidamente? Não estará o segredo da vida aqui, ao nosso lado, nos outros, e em nós, no nosso coração?

Aprendermos a viver juntos não será um projecto autêntico e suficientemente ambicioso para merecer ser vivido em pleno?

Acabo de reler um soneto de Florbela Espanca onde a poetisa invoca, de certo modo, esta temática.

Onze versos descrevem o paraíso na terra centrado na figura de uma camponesa que vive a vida como o rouxinol, aproveitando o que Deus lhe deu, preenchendo os dias com as rotinas do rio que corre sempre para o mar. Aceita o que lhe acontece, agradece, vai em frente até descer à “terra da verdade”, com a consciência do dever cumprido, feliz. Nos outros três, a autora grita o seu pessimismo, a sua angústia, a sua insatisfação, atormentada por dúvidas, destruindo-se, sobretudo, pelos excessos de quem quis devorar a vida em vez de a saborear, acabando devorada!

Leonel Marcelino (Região Sul )

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As monstruosidades do sistema

Janeiro 25, 2008 · Deixe um comentário

O conceito de empresa pública e empresa privada não possui as disjunções que, habitualmente, lhes são atribuídas. Em ambas os dinheiros são sempre públicos: ou através dos depósitos bancários, ou nos empréstimos contraídos. Os dinheiros serão nossos, adquiridos com o nosso trabalho ou as nossas poupanças. Não constitui nenhuma novidade, o que digo. Depois, os malabarismos dos poderes fazem a soma e o resto.

As democracias articulam-se neste sistema. E como não há democracias perfeitas, os sistemas inclinam-se, obviamente, em benefício daqueles que estatuem os códigos, as leis e as regras. Significa que o sistema está repleto de monstruosidades.

O caso da extraordinária reforma do dr. Paulo Teixeira Pinto obedece a esse sistema. Claro que brada aos céus, e Deus ficará certamente incomodado, que o dr. Teixeira Pinto, dedicado católico e ex-zeloso membro do Opus Dei, vá auferir, até ao remate final dos seus dias, uma reforma equivalente a 7 500 contos mensais. Diz-se, também, que recebeu 10 milhões de euros, como indemnização, por ter saído do BCP. Naturalmente, os céus não vão chorar, nem Deus dará sinais de inquietação por tal desconchavo.

Dizem-me que o dr. Paulo Teixeira Pinto, independentemente do ar tenebroso que ostenta, é homem de riso fácil e fina ironia, além de não confundir Kiri Te Kanawa com Madalena Iglésias, nem Thomas Bernhard com Lobo Antunes. Até se diz que, contrariando as indicações do Índex Librorum Prohibitorum, sempre foi leitor entusiasta de autores apontados à execração. Enfim: pessoa prevenida, reservada, cauta e perigosa. Porquê?, perguntará o Dilecto. Ora: um sujeito assim dotado representa ameaça para uma “elite” que faz gala da ignorância e exposição radiante das suas riquezas. Não será, porventura, muito cristão aceitar tamanho maço de notas, quando há dois milhões de portugueses com fome, meio milhão de desempregados e o resto completamente desesperado. Isto dirá, ressentido e colérico, todo aquele que não recebeu, durante uma vida de trabalho, metade do que o dr. Teixeira Pinto receberá por ano. Eu, não o direi. Espero é que o dr. Teixeira Pinto não apareça nas televisões a conclamar a necessidade de sacrifícios – como o outro reformado com 3 600 contos mensais, por seis meses de “função” na Caixa Geral de Depósitos.

Independentemente dos conceitos de “privado” e de “público” há algo de imoral nestas reformas sumptuosas. E o próprio conhecimento desses aleijões separa, cada vez mais, o grupo de privilegiados detentor dos vários poderes, e aqueles que, por infortúnio ou desgraça de classe, servem de trampolim às escaladas triunfantes. É evidente que o dr. Paulo Teixeira Pinto, a quem desejo longa e jubilosa vida, boas leituras e cuidadoso resguardo, não irá distribuir os 7 500 contos pelos pobres da freguesia em cuja igreja vai orar. Porém, no seu íntimo, nos arcanos das suas reflexões, certamente admitirá que é dinheiro a mais aquele que auferiu e que auferirá – fora os trocos.

Dá para reflectir. E acrescente a essa reflexão o elucidativo texto de Maria João Gago, publicado neste jornal, na terça-feira, dia 22, p.p., sob o título: “Reformas de ex-gestores do BCP superam custos da OPA ao BPI.”

Sabe-se: este numerário escandaloso, oferecido a reformados de luxo, não é de agora. Sobre o dr. Cavaco, actualmente com tanta indignação pelos acontecidos, impende, também, ou talvez sobretudo, parte substancial da responsabilidade pela subida surpreendente das somas destas aposentações. Quando primeiro-ministro, não as travou. E, igualmente, distribuiu sinecuras e tenças por muitos daqueles que o apoiaram. Dir-se-á: ingenuidades de iniciado. Direi: manhosice e astúcia. Um homem sério não é, apenas, o que não põe a mão nos bolsos dos outros. É aquele, quase irrepreensível, que espalha, em seu redor, a ética do despojamento e da integridade, com a exigência do espírito de missão. Evidentemente, o dr. Cavaco é um homem sério, nesse sentido doméstico, porém nobre, da expressão. Mas repare-se na ascensão, por vezes meteórica, de quase todos aqueles da corte.

Creio que as advertências do dr. Cavaco não vá cair em saco roto. Dois anos após a sua posse, torna-se cada vez mais notório que é ele quem dirige as linhas fundamentais da governação. Hirto, grave, imperturbável, vai indicando erros na saúde, na educação, nos excessos da distribuição dos rendimentos. Subrepticiamente critica o aumento do desemprego, a ausência de alternativas. Sustentou o que era sustentável, segundo a lógica da sua ideologia. Não esqueçamos que, apesar de tudo, o dr. Cavaco é conservador. Apesar de tudo, porque sua mulher se afirmou de centro-esquerda. Se as mulheres exercem influência sobre os homens (eu que o diga!), então bem-aventuradas sejam – e, neste particular, a dr.ª Maria Cavaco!

APOSTILA 1 – Na última sexta-feira, a RTP2 exibiu um documentário impressionante, “Fantasmas de Abu Ghraib”, cujo conteúdo indica, inequivocamente, George W. Bush e Donald Rumsfeld como sinistros criminosos de guerra. As práticas recomendadas por aqueles dois cavalheiros, a fim de se obter informações, a todo o custo e a qualquer preço, de prisioneiros no Iraque – mas, também, em Guantanamo -, ferem os mais elementares direitos humanos e provocam a indignação e a cólera em todos os homens de bem. Além de terríveis depoimentos prestados por torturados, apresentam-se outros, pungentes, dos torturadores. O documentário merecia um debate. Sobretudo com a presença daqueles comentadores “independentes” que caucionaram a invasão naquele país e, até agora, não manifestaram o mínimo remorso nem apresentaram a menor desculpa. A visão de “Fantasmas de Abu Ghraib” trouxe-me à memória o pobre do Durão Barroso, sorridente, venerador e obsequioso, a servir de mordomo, nos Açores, aos três senhores da guerra: Bush, Blair e Aznar. Têm sido todos promovidos. O Blair, agora, até se autopromoveu a católico. Mas não consta ter confessado os crimes de que é corresponsável. Quanto ao Barroso, parece estar interessado em voltar a “liderar” o PSD.
Deus perdoar-lhes-á? Já lhes perdoou?

APOSTILA 2 – O extraordinário ministro Correia de Campos afirmou, na terça-feira, a Mário Crespo, na SIC-Notícias, que estava a ferir os interesses das corporações. Só se for as corporações de doentes.

Baptista Bastos (JN)

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“Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras”

Dezembro 19, 2007 · 1 Comentário

“Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras”

Sempre de cigarro entre os dedos, desafiando as regras do politicamente correcto, António Lobo Antunes desmontou também algumas ideias feitas acerca do ofício da escrita. Por exemplo, a de que uma boa ideia faz sempre um bom livro.

O Meu Nome é Legião, o mais recente romance de António Lobo Antunes, foi o pretexto para uma visita do escritor à Biblioteca Municipal de Beja, na quarta-feira, 5, cidade a que não retornava há 14 anos. Mas o autor de Os Cus de Judas, este ano distinguido com o Prémio Camões, não perdeu muito tempo a falar da obra em si, preferindo deixar a conversa fluir ao sabor das perguntas de um auditório cheio e ávido. “Se eu pudesse resumir um livro em cinco minutos, para quê passar dois anos a escrevê-lo?”, declarou, logo de entrada. Os temas sucederam-se assim, sem rumo certo, desde a infância do autor, passando pela experiência da medicina, até ao mundo da literatura, com repetidas referências ao escritor já desaparecido José Cardoso Pires – “um irmão mais velho para mim” – e à sua própria visão dos livros enquanto autor. Sempre de cigarro entre os dedos, desafiando as regras do politicamente correcto, António Lobo Antunes desmontou também algumas ideias feitas acerca do ofício da escrita. Em primeiro lugar, a de que um bom livro se faz de uma boa história: “Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras. Eu insisto muito neste ponto: quando uma pessoa diz que tem uma ideia muito boa para um livro, eu não tenho a menor dúvida de que o livro é mau. Porque são as palavras que geram as palavras”.

Foi assim com o romance anterior, Ontem não te vi em Babilónia, que partiu da simples conjectura “como é que a noite se transforma em manhã?”, e é assim com O Meu Nome é Legião, que segue a vida dos jovens de um bairro social da periferia de uma grande cidade, descrita através de um relatório de polícia, num registo próximo da crónica. “Cada vez mais, quando começo um livro não tenho nada na cabeça. Neste último livro, o que eu tinha era um grupo de miúdos, aquilo a que as pessoas chamam delinquentes, crianças entre os 12 e os 18 anos. Faziam assaltos, matavam pessoas, roubavam. Porque sempre me pareceu que aquilo era muito mais uma forma de comunicar, a única forma que lhes era possível. E que a vida, a morte e a sociedade tinham para eles um significado diferente”.

E foi tudo o que Lobo Antunes disse sobre o romance que anda a promover pelo País, acompanhado pelo editor da D. Quixote. A partir daqui, colocou-se nas mãos da plateia, mediante o acordo de responder o que quisesse ao que lhe fosse perguntado. Por isso recordou a passagem pelo curso de medicina, em obediência aos desejos do pai, médico, o primeiro contacto com a realidade da morte, nos bancos de faculdade, ou a relutância em deixar a carreira, quando era já o que se chama “um psiquiatra da moda”, para se dedicar inteiramente ao que sempre soube que iria fazer, “desde que nasci”. “Sentia-me uma orelha enorme sentada numa cadeira onde as pessoas despejavam. Mas eu tinha medo de não ganhar o dinheiro suficiente para viver. A primeira vez que ganhei o Grande Prémio de Romance e Novela [Associação Portuguesa de Escritores] pensei que tinha que tomar uma decisão mas fiz isso com muito medo”, reconheceu, não enjeitando, no entanto, o seu anterior modo de vida, do qual conserva uma “certa saudade”. Acima de tudo pela “sensação de ser útil”, no contacto directo com os doentes. Pelo contrário, “enquanto escritor, eu não sei para quem escrevo porque não vejo as pessoas, estou ali sozinho”, disse, confessando que trabalha “virado para a parede”, com recurso ao velho método do papel e caneta, e com um livro aberto à frente, como fazia nos tempos do liceu para tentar dissimular, aos olhos dos pais, a “actividade pouco séria” da escrita.

“A literatura não é para distrair ninguém”

Desfiando histórias como se estivesse entre amigos, o premiado e traduzidíssimo escritor, há anos apontado como possível Prémio Nobel da Literatura, confessou também o seu “medo de escrever”. Em primeiro lugar, por nunca estar certo de ser capaz de escrever o próximo livro – “há pessoas que têm três, quatro livros na cabeça. Eu nunca tive nada” – depois, pelo receio de defraudar os leitores, “pessoas que depositaram em mim uma fé que eu nunca tive”. Mas há ainda um terceiro factor: a dificuldade. O primeiro capítulo de um livro pode chegar a ter 15 versões, até a obra “encontrar o seu caminho”, pelo que é frequentemente um processo demorado e penoso, de espera, às vezes infrutífera, pelas palavras certas. Sendo tão difícil escrever, o que mais impressiona o autor é que se publique tanto e – certamente por isso mesmo – tantas vezes, maus livros. Foi talvez o único momento em que Lobo Antunes revelou alguma amargura no discurso, aquele em que se referiu à “política editorial” enquanto algo que o indigna profundamente. “Publica-se o lixo porque o lixo dá dinheiro. E as pessoas compram e dizem: é para me distrair. Mas a literatura não é para distrair ninguém. Eu não quero distrair ninguém, não quero entreter ninguém. A literatura para mim, enquanto leitor, é um acto de conhecimento e aprendizagem. Sobre a vida, sobre mim mesmo”, rematou, deixando também claro a sua especial consideração pelos leitores portugueses, para quem escreve acima de tudo. “Eu escrevo sobretudo para as pessoas do meu país. Cada vez me sinto mais português, cada vez gosto mais do meu país, cada vez me sinto melhor aqui. É aqui que eu quero viver, é aqui que eu quero morrer”.

DIÁRIO DO ALENTEJO

autor Carla Ferreira texto | José Serrano fotos

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Conhecimento, de novo o desafio português

Dezembro 17, 2007 · Deixe um comentário

Nós, os portugueses, podemos dizer com orgulho que promovemos a globalização muito antes do termo entrar na vox populi. Os Descobrimentos quinhentistas aproximaram o mundo e inauguraram a competitividade à escala do globo. Competitividade essa que, tal como nos dias de hoje, não assentava apenas em bens e serviços, mas também em capital humano e no conhecimento técnico.

Basta lembrar Fernão de Magalhães que, descontente por não ter obtido de D. Manuel I uma recompensa a que se julgava com direito, foi oferecer os seus serviços a Carlos V da Alemanha e I de Espanha. O imperador confiou, então, ao navegador português uma frota de cinco caravelas, permitindo, assim, que fosse empreendida a primeira viagem de circumnavegação realizada no globo. Já para não falar da tese da origem portuguesa de Cristóvão Colombo, que ofereceu, igualmente, os seus serviços à coroa espanhola e acabou por descobrir a América.

Mas tudo isto serve para dizer que, já nos séculos XV e XVI, o capital humano era determinante para o progresso das nações e a sua mobilidade gerava a partilha de conhecimentos no mundo. As nações mais poderosas eram as que detinham o saber personalizado, neste caso, por navegadores, matemáticos e cosmógrafos. E foi a mobilidade desses especialistas das artes e das técnicas navais que permitiu, por um lado, a disseminação do conhecimento técnico e, por outro, o contacto com realidades culturais fora da Europa.

Ontem como hoje, o progresso económico das nações resultava, essencialmente, do domínio do saber e da sua aplicação às necessidades do Homem. Certo. Mas terá sido sempre assim? Nem sempre. Até há pouco tempo, outras varáveis de negócio rivalizavam em importância com o conhecimento. Falo, por exemplo, da posse de recursos naturais, das vantagens da localização e do acesso a mão-de-obra barata. Tudo variáveis que, nesta transição da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento, perderam relevância face ao imperativo da qualificação humana, da inovação, da investigação científica e do desenvolvimento tecnológico – algo que, no seu conjunto, podemos designar por conhecimento em sentido lato.

Em traços gerais, a criação de empresas resulta do trinómio atitude-capital-conhecimento. A atitude tem origem nas características idiossincráticas do indivíduo, como a iniciativa própria, a coragem para assumir riscos, a capacidade de decisão e o sentido de oportunidade. O capital, pelo contrário, já não depende tanto do perfil do promotor do negócio, mas sim da adequação do projecto empresarial às necessidades do mercado. Ou seja, se um determinado produto ou serviço for pertinente à luz da lógica de mercado, então o respectivo projecto empresarial terá fortes possibilidades de ser financiado pelos diversos instrumentos existentes.

Já o conhecimento, por seu turno, tem uma natureza diferente tanto da atitude como do capital, embora seja transversal a estes dois factores. O conhecimento é percepção, intuição, raciocínio, compreensão, mas também dúvida, incerteza, expectativa e procura. Neste sentido, influencia quer a atitude perante os negócios, quer a capacidade para elaborar projectos empresariais viáveis. Do conhecimento, e em concreto da sua conversão em valor empresarial, depende o futuro das empresas, cuja competitividade resulta, cada vez mais, da compreensão das características e necessidades do ambiente competitivo; da criação permanente de novos produtos, serviços, processos produtivos e sistemas de gestão; e da criatividade, capacidade de aprendizagem e aptidão para as novas tecnologias que o capital humano demonstre.

Esta realidade conduz-nos a um dos mais graves problemas do empreendedorismo português: o défice de qualificação da maioria dos seus protagonistas. Segundo dados recentes do Observatório da Criação de Empresas do IAPMEI (baseados nos inquéritos recolhidos pelos CFE, em 2006, respeitantes a 1084 sociedades e 1748 empresários), 71,3% dos empreendedores portugueses conta apenas com o ensino secundário entre as suas habilitações literárias. Só 22,6% dos empreendedores são licenciados e mais 6,1% têm, para além disso, uma pós-graduação, mestrado ou doutoramento.

Ora, hoje quem se aventura na criação e gestão de empresas necessita de ter qualificações compatíveis com a Economia do Conhecimento, o que significa capacidade de inovação, domínio das TIC e do inglês enquanto língua franca, competências ao nível da I&D e consciência das responsabilidades sociais a que a actividade empresarial obriga. Neste sentido, o empreendedorismo não pode continuar a ser praticado em Portugal de forma naïf. Ou seja, para se ser empreendedor, já não basta ter boas ideias e voluntarismo em doses generosas.

Por isso, importa ter como desígnio nacional a promoção do empreendedorismo qualificado, tal como está, de resto, plasmado na Agenda de Lisboa. É, aliás, por este upgrade do empreendedorismo que a ANJE se tem batido, depois de todo o trabalho desenvolvimento, durante anos, no campo da sensibilização para uma cultura de risco e de iniciativa junto da juventude portuguesa. Só com um empreendedorismo qualificado, Portugal deixará de ser um país de mão-de-obra barata e produtos de baixo perfil tecnológico, para se assumir como um país de capital humano, capaz de operar no topo da cadeia de valor e em áreas de ponta, muitas vezes à escala global e com elevados níveis de competitividade. (JN)

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«Saber ler é tão difícil como saber escrever»

Dezembro 5, 2007 · Deixe um comentário

Podemos começar por falar de amor?

Se eu souber responder…

O título do seu novo romance, Eu Hei-de Amar Uma Pedra, nascendo embora de um canto popular, terá a ver, igualmente, com impossibilidades do amor?

Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstractos são perigosos.

Há uma personagem no livro, que, à quarta-feira, ao longo de décadas, vai, secretamente, a uma pensão da Graça, ama e ali morre…

Foi daí que o livro veio. Só mudei o sítio. Sempre me espantou essa extraordinária forma de amor. A sexualidade, sempre tão importante para mim – e continua a ser -, cada vez me parece mais vazia de sentido quando não há outro modo de diálogo e de encontro, embora seja muito difícil resistir ao desejo imediato.

Amor é algo mais?

A noção de amor varia de pessoa para pessoa. Muitas vezes estamos apaixonados ou estaremos agradecidos por gostarem de nós? Ou será que o outro é apenas alguém junto de quem nos sentimos menos sozinhos? Não sei bem o que é a verdade acerca do amor e duvido que haja quem saiba. Só tenho perguntas, não tenho respostas. Até que ponto o amor não é apenas a idealização de um outro e de nós mesmos?

Nunca é fácil salvar uma relação…

Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam. Não me preocupa muito. Preocupa-me em relação a mim mesmo, mas há grandes partes da minha vida que eliminei sem piedade. Não vou a jantares, não vou a lançamentos.

E não tem solidões?

Preciso e gosto de estar sozinho.

Ao fim de 25 anos de vida literária, celebrados hoje, quem é António Lobo Antunes para António Lobo Antunes?

Vida literária custa-me a engolir, soa pretensiosa. Digo que se passam 25 anos sobre a publicação do primeiro romance [Memória de Elefante], que andou em bolandas, de editora em editora, a ser rejeitado. Quando saiu, já tinha acabado mais dois livros. Mas 25 anos é muito tempo e serve para ver que já não terei mais 25 para escrever.

Em princípio, a morte não está nas nossas mãos…

Às vezes, a gente morre por desatenção. Outras vezes morre-se quando se pode. Mas, a maior parte das vezes, morremos porque se nos acabou a saúde. Não fomos feitos para a morte, a não ser para a morte voluntária. A involuntária sempre me pareceu uma tremenda injustiça, para não falar em crueldade.

A intensidade poética da sua prosa é para aliviar tensões entre as personagens?

Não me é consciente. Uma coisa para mim é clara: tenho de proteger os meus ovos, que são os meus livros. Se racionalizar as coisas, perco-as. Estaria a fechar portas a mim mesmo e a essas coisas, que não sei bem se me pertencem, e emergem com essa força. Nos momentos felizes, a mão anda sozinha. A cabeça está a ver ao longe e fica contente, porque são as palavras certas que a cabeça não encontraria. É a mão.

Como dissocia o escritor da obra?

Não tenho bem a sensação de o livro nascer de mim. Faço a primeira versão, trabalho muito a segunda, no entanto, depois de entregar o livro, não vejo provas, não faço mais nada. Tudo o que quero é fazer outro. O livro só existe quando estou a escrever. E o tempo é-me muito curto. Se fizer mais dois ou três…

Um autor acéfalo conseguirá realizar uma obra-prima?

Se tiver uma mão suficientemente grande… Prende-se com um conjunto de coisas: primeiro, é preciso ter lido muito. Aprende-se a escrever, lendo. E também é necessária uma grande humildade face ao material da escrita. É a mão que escreve. A nossa mão é mais inteligente do que nós. Não é o autor que tem de ser inteligente, é a obra. O autor não escreve tão bem quanto os livros.

Está a dizer-me que o livro, em relação ao autor, é uma mentira?

Estou a dizer que o livro é melhor do que eu. Não escrevo assim tão bem.

Quem escreve o livro por si?

Um dia, em conversa com Eduardo Lourenço, a propósito de criação literária, ele lembrava o soneto de Pessoa (de quem não sou grande fã e ele é), que fala de «emissário de um rei desconhecido (…)», uma espécie de mensageiro. Há uns tempos, disse ao telefone, ao meu agente, ter a sensação de que era um anjo que estava a escrever por mim. Lembrei- -me, então, que anjo quer dizer mensageiro. Quando estou a escrever, parece que estão a ditar-me e a mão a reproduzir.

Considera-se um predestinado?

Não. Isso até aumenta a humildade. Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

Despojamento, uma outra riqueza?

Quando uma pessoa morre, tira-se-

-lhe a roupa, objectos pessoais, o dinheiro, os óculos. Que vão vestir os mortos quando voltarem? Que dinheiro têm para comer quando voltarem? Morro, podem ficar os livros, mas os livros não são eu, que terei a boca cheia de terra e estarei no céu ou em parte alguma. Que diferença me faz? Quando voltar, com que óculos é que vou ler?

Como regressam os mortos?

E será que partem? Sou um homem religioso. Há um provérbio húngaro muito velho que diz: «Na cova do lobo não há ateus.» O nosso problema é se Deus acreditará em nós. Deus, porém, tem coisas incompreensíveis para mim. Acho que gosta muito dos tolos, porque não pára de os fazer. Mas, se calhar, o caminho de Deus terá tais profundezas que a gente não as entende. Tenho, sobretudo, a experiência das perdas. A perda de qualquer amigo é uma ferida que nunca cicatriza. A perda de pessoas de quem gostei, e que não são substituídas por nada, deixaram vazios que nunca serão preenchidos. Isso também ajuda a tornar-nos humildes.

Na desmultiplicação do narrador, em Eu Hei-de Amar Uma Pedra, todas as personagens se confrontam com perdas…

Dizem que os meus romances são polifónicos. Não são. É sempre a mesma voz que fala e gostaria que fosse também a voz interior do leitor. Ou melhor: essa voz não fala, nós é que a ouvimos.

Uma voz que se desdobra em vozes de muitas sombras?

Sombras, luzes. Gostaria que fossem vozes totais, para mim são vozes totais, porque trazem consigo carne, corpo. O drama é que a gente está a ler em folhas de papel. E, no entanto, nunca tive a sensação de fazer ficções.

O seu novo romance parte de fotografias. São o maior registo da memória?

Não acho que os romances sejam novos. Existem há muito tempo, à espera que seja capaz de chegar a eles. Em miúdo, conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento. Mas temos fotógrafos geniais.

Não tirou fotografias às suas filhas?

A ninguém. Da mesma maneira que nunca gosto de me ver fotografado.

Acha-se feio?

Nunca lidei bem com o meu corpo. Vejo agora fotografias de quando era bebé ou de há 30 anos, e era bonito. Quando tinha 18 anos, as mulheres metiam conversa comigo.

Em dado momento da sua vida, isso foi razão para o tornar vaidoso?

Não era importante. Importante era que as mulheres fossem bonitas. As mulheres sempre exerceram um grande fascínio sobre mim.

Sentiu falta de um elemento feminino entre os seus seis irmãos?

Não podia sentir, porque não sabia o que era o elemento feminino.

Havia a mãe, as avós…

As mães, os pais não têm sexo. A mãe era a mãe, e mulher do meu pai. Também não sabia muito bem o que era ser mulher do meu pai. Julgo que todos os miúdos vêem os pais de uma maneira assexuada. Eu via a barriga da minha mãe a crescer mas não sabia qual o mecanismo que fazia com que a barriga da minha mãe crescesse.

Acreditava que os bebés chegavam no bico de uma cegonha?

Comigo era diferente. O meu pai estava na Alemanha, vinha uma vez por ano e a barriga da minha mãe começava a crescer. Sabia que tinha alguma coisa a ver com o facto de o meu pai ter estado cá. Mas nunca os vi beijarem-se, não sabia muito bem como aquilo era feito.

Não se falava de sexualidade às crianças. Hoje, o próprio ensino dá-lhe alguma atenção. É melhor?

Não faço juízos de valor, não sou médico.

É médico psiquiatra…

Já não faço nada disso. Só escrevo palavras. Nunca analisei essa parte, só me interessava tentar entender. Se analisarmos, não entendemos.

Como se chega ao entendimento sem análise, sem crítica?

Por osmose. Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver. Acho que era Malraux quem dizia: «A partir do momento em que a gente compreende, deixa de julgar.»

Que tempo vivemos: o do julgamento?

Tenho uma vida um pouco especial. Estive recentemente na Roménia, um país que me encanta e me faz reaprender o que é a liberdade. Um país muito parecido connosco…

No aspecto da liberdade?

No da latinidade. Quando voltei, havia todas essas coisas provocadas por este espantoso governo que temos. Tudo o que se tem passado me dá vontade de rir. Nós nunca vivemos em democracia, tal como os EUA não vivem em democracia. A democracia implicaria um referendar constante das decisões, e isso não acontece.

Há eleições…

Vota-se de quatro em quatro anos, mas, entre esses quatro anos, não nos pedem opinião. O que se tem verificado em Portugal, a propósito da liberdade de imprensa, não passa de uma luta de poder igual a tantas outras. De uma forma geral, olho para os políticos com uma indulgência divertida, sejam de que partidos forem. Há pouco tempo, estava no estrangeiro, num encontro com cento e tal escritores, e ouvi falar de Portugal por causa do «barco do aborto». Comentava-se que um ministro nosso terá dito: O mar português é um mar com princípios. Foi um motivo de troça à minha custa, que não tinha culpa nenhuma.

Portugal é diferente dos outros países?

Claro que não. Nem somos piores. E temos uma língua espantosa. E um clima maravilhoso. Cada vez me seria mais difícil viver longe de Portugal. Gosto muito do meu país.

Costuma ler as críticas à sua obra?

Devo ser dos poucos autores que não lêem as críticas, sejam boas ou más. O que faço ainda é cedo para ser compreendido. Tenho a sensação que estou a escrever coisas maiores do que eu. É preciso deixar passar um tempo. Talvez daqui a 50 ou cem anos seja tudo mais claro. Se uma pessoa está à frente do seu tempo, isso provoca reacções contraditórias. Mas há críticos excelentes que iluminam zonas de sombra dos livros. É também preciso grande humildade para se escrever sobre o que se lê e não julgar-se um livro com a nossa chave. Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons.

Prefere que a chave dos seus livros fique na posse do leitor?

A chave vem com o livro. Saber ler é tão difícil como saber escrever.

Há quem tenha dificuldade em entrar nos seus livros…

Para mim, os livros que escrevo são óbvios e evidentes. Ao lermos certos autores muito bons – estou a pensar no Conrad -, parece caminhar-se no meio do nevoeiro e, de repente, o nevoeiro começa a levantar-se e o livro fica totalmente claro. Quando, aos 20 anos, via um filme de Bergman, aborrecia-me profundamente.

A partir de que idade começou a entender Ingmar Bergman, considerado o cineasta da memória?

A partir dos 40, comovia-me até às lágrimas. Era eu que não estava preparado para ver aqueles filmes e notar o quanto de mim existia neles. Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

Quando na sua escrita suspende a frase, a palavra, deseja deixar portas abertas? Pretende ter o leitor como um interlocutor constante?

Fui compreendendo que tinha de pôr a prosa a respirar de uma outra forma. É também uma maneira de pontuar. O problema é como isso se traduz para outras línguas. Neste momento, na Rússia, estamos com problemas de tradutores de português; traduz-se a partir do alemão. O português, em muitos países, é como o esloveno para nós. Um país onde se traduz maravilhosamente é em Espanha.

Que imagem tem da língua portuguesa, falada por 250 milhões?

Na sua maior parte, as pessoas que conhecem o português em alguns países conhecem o português do Brasil, cujo léxico e musicalidade são diferentes. Julgo que o meu português coloca problemas específicos. Estou a lembrar-me do problema que foi para um tradutor expressões como alto lá com o charuto. Todas as línguas têm a sua idiossincrasia. Uma tradução acaba por ser uma fotografia a preto e branco.

Sente-se bem a escrever em português?

É a minha língua, não me imagino a escrever noutra.

Nos seus livros faz sempre uma visita à infância. É o património mais vasto e rico da sua escrita?

Queria que os livros tivessem todos os tempos da minha vida. Talvez a partir de uma certa idade estejamos mais atentos à nossa infância.

Estou a lembrar-me de Séneca, que diz: «Ama como se morresses hoje.» No seu caso, escreve como se pudesse morrer hoje?

Não quero nada morrer hoje. Estou a meio de um livro, não o queria deixar imperfeito. E queria viver mais dois anos para fazer outro, e mais dois para fazer outro, como se andasse a negociar a vida. Gostaria de ter mais dez anos para escrever. E se calhar, mesmo morto, a mão vai continuar a avançar.

Quando poderá o escritor ter a percepção de que deve parar?

A partir de certo momento, tudo começa a ossificar-se. Muitas vezes não temos essa percepção.

Tem palavras por meio das quais procure um significado absoluto?

Tenho aprendido mais a escrever com os poetas do que com os prosadores. Em poesia, pelo menos nos poetas que admiro, cada palavra tem um brilho próprio. Mas não gosto de dividir as coisas em romance, conto, novela, poema.

Convoca tantas flores para os seus livros… Fazem parte da sua natureza?

Vivo sem flores, não tenho flores em casa. Vivo com livros e quadros, a maior parte oferecidos pelo Júlio Pomar. Nunca tive bens materiais. Nem uso relógio. Posso fazer a mala e ir-me embora. Não estou agarrado às coisas.
António Lobo Antunes
escritor
DN.TEMA: 25 anos de vida literária

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A SANTIDADE DOS PATRIOTAS

Novembro 28, 2007 · Deixe um comentário

Fiquei grandemente enternecido com o estremecimento patriótico que tem percorrido alguns bondosos agrupamentos financeiros, logo-assim ressurgiu a ideia de construção do novo aeroporto de Lisboa. Atreita a descobrir razões e motivos para aplaudir ou excomungar, a sociedade portuguesa vai tomando confuso partido por um ou por outro dos desinteressados grupos. Acentuemos a nobreza dos pensamentos e a clara distinção dos discursos: tanto os que defendem a Ota como os que pleiteiam a causa de Alcochete são desvelados patriotas e absolutamente alheios ao feio sentimento da ganância. No remanso agasalhante dos seus gabinetes esses homens consomem as meninges, arregimentam olheiras, arquejam de cansaço – apenas com o desígnio exaltante de se sacrificar pela pátria bem-amada.

Preocupa-os a depressão que nos assola, a nós, arraia-miúda; martiriza-os a desdita do nosso destino, a deterioração da nossa qualidade de vida. Arejam os crânios com pensamentos alevantados, caucionados pelos juízos simples e pelas consciências rectas.

Pouco se sabe quem são. Dar outros nomes aos nomes apenas significa modéstia, discrição, orgulho pátrio. Ambos os grupos já gastaram rios de dinheiro em planos, estudos, esboços, gráficos, monografias, análises, testemunhos, depoimentos, exames, investigações. Desinteressadamente, como se sabe. Ambos os intervenientes concla- mam: a minha proposta é melhor do que a tua. Ambos os intervenientes afirmam-se eivados de santas razões e de imaculados propósitos. São impulsionados pelo mesmo ímpeto venturoso que acumulou glórias e saudáveis episódios abençoados por todas as Virgens conhecidas.

A melodia dos desinteressados toca os corações desprevenidos. Quando se soube que o Governo pendia para a Ota, indiscutível e inexoravelmente, a especulação imobiliária foi desencadeada. Mário Lino, dramático e seguro, levemente irado, abertamente decisivo, transformou o jamais francês no estandarte de todas as vitórias. Quando foi apresentada a proposta de Alcochete, argumentativamente muito mais económica, os protestos e os apupos chegaram de alguns pontos cardiais. Mário Lino, calmo como um ser isento de maus costumes, ainda não leu o documento da CIP, diz que vai ler; ao que parece, ninguém o leu ainda. A santidade dos indomáveis patriotas da Ota e de Alcochete, a devoção inextinguível da sua entrega, o piedoso ardor dos seus discursos, a profundidade da sua filantropia, o penoso fardo que transportam – comovem até às lágrimas.

Nunca lhes agradeceremos bastante o grande consolo que nos têm ministrado, com a galante vontade de nos servir a todos. Eles, coitados!, não querem nada. Entre a Ota e Alcochete, venha o LNEC e escolha.
Por BAPTISTA-BASTOS – Escritor e jornalista

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A JUSTIÇA CRIMINOSA

Novembro 28, 2007 · 3 Comentários

Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia que se sabe que nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado. Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços do enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são “abafadas”, como se vivêssemos ainda em ditadura. E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogues, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.

Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa e Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Bragaparques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muito alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos? Vale e Azevedo pagou por todos. Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros. Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência com o vírus da sida? Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático? Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico? Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana? Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?

Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma. No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não substancia. E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou? E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente “importante” estava envolvida, o que aconteceu? Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu. E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente “importante”, jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê? E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha. E aquele médico do Hospital de Santa Maria suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina? E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os “senhores importantes” que abusaram, abusavam, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra. Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa e contra isto o PS e o PSD que fizeram? Assinaram um iníquo pacto de justiça.

Por CLARA FERREIRA ALVES

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UM RAPAZ QUE EU CONHEÇO

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário

A Raríssimas, Associação Nacional de Doenças Mentais e Raras lançou o desafio a personalidades e escritores: escrever um conto sobre o que é para cada um raro. E o desafio foi respondido por 14 individualidades, entre os quais os escritores José Luis Peixoto e Jacinto Lucas Pires, Rosa Lobato de Faria e Carlos Pinto Coelho. O resultado é um livro de contos cuja receita reverte, na totalidade, a favor da Raríssimas.

O conto inédito de José Luís Peixoto é este:

UM RAPAZ QUE EU CONHEÇO

“Eu conheço um rapaz, mais ou menos da minha idade, que sabe ser feliz. Ninguém tem explicação para esta condição altamente fora do normal, altamente improvável. Ele tem três irmãos e todos eles são pessoas comuns, iguais a milhões, biliões de outras. Quanto estão zangados, dizem palavras de que se arrependem. Quando estão desiludidos, vê-se nos seus rostos. Quando estão muito tristes, choram. Já o rapaz que sabe ser feliz nunca diz palavras de que se arrepende, nunca se vê o desalento no seu rosto, nunca chora. O seu rosto é o seu sorriso. Quando chega, sorri. Quando se despede, sorri. Fica muito tempo a ouvir as pessoas que querem falar com ele. Há muitas pessoas que gostam de falar com ele. Ele ouve nos momentos em que as pessoas querem que ele ouça. Ele faz perguntas nos momentos em que as pessoas querem sentir que ele está interessado. Ele sorri durante o tempo todo da conversa. Muitas vezes, as pessoas contam-lhe histórias tristes. Contam-lhe coisas más que fizeram, porque sabem que ele entenderá. Contam-lhe histórias de coisas que aconteceram: maldades e coisas más. Ele ouve porque gosta verdadeiramente de ouvir. Ele faz perguntas porque sente curiosidade verdadeiramente. Ele sorri sempre. Quando as pessoas lhe falam de coisas más, ele não sorri, mas ele sorri. Os seus lábios não têm a forma de um sorriso, mas os seus olhos sorriem. Os seus olhos não sorriem, mas têm um brilho que é um sorriso.

Quando estão muitas pessoas e ele chega, passa pouco tempo e todos sorriem com ele. Os mais amargos sorriem. Os mais invejosos sorriem. Os mais perversos sorriem. Os funcionários de repartições, os poetas, os advogados sorriem. Quando se despede, sorri e o seu sorriso permanece no rosto das pessoas durante o resto do dia. Contam-se muitas histórias sobre ele. Diz-se que, quando ele põe as mãos em concha, cresce uma bola de luz dentro das suas mãos. Diz-se que, quando ninguém está a ver, ele entorna essa luz sobre a cabeça das pessoas. Eu não duvido dessas histórias. Nunca vi essa bola de luz, nunca ninguém a viu, mas acredito. O seu sorriso é a sombra da sua alegria. Quando ele sorri, existe no seu interior uma alegria que é o sol. Quando ele sorri, o sol inteiro está apertado, quase a explodir, dentro dele. O seu sorriso tem muitas formas. É terno, entusiasmado, meigo, vivo, brando. As formas do seu sorriso são as formas exactas da alegria que existe dentro dele. Ele é sincero. Sabe ser feliz e, por isso, ele é feliz.

Contam-se muitas histórias sobre a origem da sua felicidade. Ninguém sabe qual é a verdadeira. Cada pessoa conta uma história diferente. Às vezes, as pessoas discutem sobre isso. Nunca chegam a uma conclusão. Se uns dizem que foi um vírus, outros dizem que nasceu assim. Às vezes, as pessoas zangam-se umas com as outras por causa disso. Às vezes, deixam de falar umas com as outras por causa disso. Fazem as pazes no momento em que voltam a encontrar o rapaz. Se uma dessas pessoas encontrar o rapaz de manhã, se a outra encontrar o rapaz à tarde, ficam com um sorriso grande para o resto do dia. Se depois disso se encontrarem, fazem as pazes. Uma das pessoas ficará a repetir desculpas para a outra que, ao mesmo tempo, repetirá desculpas também. Poucos horas depois de nascer, quando a mãe estava na maternidade, com os cabelos sobre a almofada, sem força, quando o pai estava de pé ao lado da cama, quando a enfermeira chegou com ele ao colo, quando a mãe o aceitou nos braços e fez com os lábios a forma de beijinhos, quando o pai se inclinou para o ver melhor, quando os pais o consideraram seu pela primeira vez, a mãe disse: Olha, parece que está a sorrir. Alguém me contou que, depois dessa hora, os seus pais sorriram durante o resto do dia. As pessoas que eles encontram sorriram também durante o resto do dia, assim como sorriram as pessoas que essas pessoas encontram. Aquele sorriso alastrou-se pelo mundo como se o varresse e, na última hora desse dia, todas as pessoas vivas sorriram. Ninguém sabe ao certo se essa história é verdadeira, mas não deixa de ser uma boa história.

A verdade absoluta é que esse rapaz que eu conheço sabe ser feliz. Já houve gente a pedir-lhe que explicasse a felicidade. Ele sorriu e não soube responder. Aqueles que lhe perguntaram sorriram e aceitaram essa resposta. Talvez ponha as mãos em concha, talvez cresça uma bola de luz dentro das suas mãos. Porque não? Eu e toda a gente que o conhece muitas vezes deixámos que as nossas mãos ficassem em concha durante momentos. Não resultou. Eu e toda a gente que conhece esse rapaz achámos que não conseguíamos. Duvidámos. Sofremos por duvidar. Depois, entendemos. As mãos em concha, uma bola de luz a crescer dentro das mãos. Faltava o mais importante. Eu e todos, em algum momento das nossas vidas percebemos que não basta formar uma concha com as mãos, é preciso sorrir. Depois, se olharmos bem, veremos como cresce uma bola de luz. Natural, incandescente, limpa. Quando ninguém está a ver, podemos entorná-la sobre a cabeça de alguém. O seu sorriso ensinar-nos-à sorrir ainda mais.”

JOSÉ LUÍS PEIXOTO – Escritor

In “Público”

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LARGAR LASTRO

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário

Há uma diferença entre deter poder ou exercer poder. O poder apenas detido é despido de sentido útil: aproveita ao próprio mas não aos outros. Exercer o poder é uma coisa diferente, é aproveitar uma oportunidade para poder fazer coisas que são úteis para os outros. É assim na política, na vida económica ou cultural. O exercício do poder político confere a possibilidade única de transformar coisas, reformar, melhorar, romper bloqueios – é uma actividade nobre, ao contrário do que a cultura de mesa de café gosta de dizer. Conheci muitos políticos que tanto lhes fazia o lugar que ocupavam ou a capacidade de acção de que dispunham nessas funções. Limitavam-se a deter poder, para satisfação da sua própria vaidade ou para se ‘manterem em jogo’ para futuras e outras oportunidades. Mas também conheci os que apenas quiseram o poder enquanto acreditaram que dele podiam fazer um instrumento transformador para melhorar as coisas. E conheci até alguns que nunca aceitaram os cargos para que foram convidados por entenderem que o seu lugar seria inútil ou desprovido de sentido. De igual modo, o exercício do poder económico pode ser uma oportunidade para acrescentar valor às empresas, postos de trabalho, riqueza para o país. E o poder cultural, exercido criativamente, é também um serviço prestado à comunidade.

Entendido assim, o poder não tem nada de corruptor. É uma coisa fugaz, com um objectivo concreto e um espírito de missão claro. Assim que as circunstâncias mudam ou a missão está cumprida, abandona-se e vai-se fazer outra coisa. Por mais que possa custar pessoalmente, a grandeza está em largar e não em continuar agarrado ao poder. Como acontece com tantas outras situações, em determinadas alturas da vida, a sabedoria consiste em saber sair, antes que nos peçam para sair. É o que eu chamo largar lastro: abandonar o que já não serve ou não faz sentido nem bem algum e ir à procura de outra coisa, porque a vida não tem só um caminho e ninguém, mesmo, é insubstituível. Infelizmente, para certas pessoas, largar equivale como que a uma morte em vida. Pobres vidas!

Dou alguns exemplos de gente que, em áreas diferentes, não sabe largar o poder, se acha único e insubstituível e não é capaz de se retirar de cena, convencendo-se que é a vontade dos outros que os mantém atados ao leme, como dizia Fernando Pessoa, a propósito de Bartolomeu Dias.

Comecemos pelo presidente do FC Porto, Pinto da Costa. Depois de 22 anos de poder pessoal e absoluto, teve em 2004 uma oportunidade de retirada em grande que os deuses raramente concedem em casos destes. Campeão Europeu de clubes (uma proeza dificilmente repetível nas décadas seguintes), tinha acabado de inaugurar um estádio novo e lindo e vendera parte das jóias da coroa ao estrangeiro, conseguindo um encaixe financeiro também ele irrepetível e que lhe poderia ter permitido pagar logo o estádio todo ou reduzir o passivo do clube a números residuais. Se tivesse saído nessa altura, teria o Porto a seus pés, o país esmagado de admiração e roído de inveja e a eterna gratidão dos portistas. Mas, preferiu ficar, aparentemente porque não tem vida fora do clube. E o que se seguiu foi uma série de desastres e erros de gestão de toda a ordem: cinco treinadores contratados, dezenas de jogadores adquiridos, dos quais a esmagadora maioria só podem ter vindo por engano, défices astronómicos acumulados em três anos de descontrolo que rapidamente engoliram os lucros de 2004 e, finalmente, a confusão do ‘Apito Dourado’ e as vinganças da ex-primeira-dama, numa sucessão de episódios degradantes que bem poderia ter evitado. Agora, se sair e quando sair, se mandar calar por instantes os aduladores que sempre rodeiam o poder perpétuo, escutará um surpreende suspiro de alívio das bancadas.

Segue-se o caso terminal de Alberto João Jardim. Ao longo de trinta anos, venceu já vinte e não sei quantas eleições consecutivas – o que lhe garante desde logo um lugar, se não na história, pelo menos no ‘Guiness’. Ganha e governa com a mais eficaz e simples das receitas: dinheiro, muito dinheiro, dos outros. Com tanto dinheiro arrancado aos nossos bolsos, só poderia ter obra feita e que dá nas vistas, apesar de todos os desperdícios, os descaminhos e os gastos sumptuários, que convivem com zonas de miséria inexplicáveis, essas escondidas da vista e dos votos. Mas ‘tem obra feita’, como repetem sempre, muito circunspectos, os PSD. E parece que tinha também ambições políticas mais vastas e mais continentais. Mas, à força de se arrastar no poder fácil da Madeira e nas suas vitórias eleitorais de meia-tigela, queimou-as. Se hoje aqui aparecer a votos, será cilindrado (e felizmente!). Porque o que tinha de aura de fazedor acabou por se revelar à luz crua dos dinheiros sem fim que nos custa e o que, a certa altura, chegou a ter de engraçado, acabou por se tornar previsível e repetitivo, até que a audiência deixou de lhe achar graça.

Último exemplo: Jardim Gonçalves, o fundador e eterno mandante do BCP. Criou o primeiro banco privado português e logo revolucionou a banca, passando a tratar os clientes como clientes e não como suplicantes, como até aí sucedia. Fez os bancários vestirem-se de gravata, abandonando o ar de empregados de cervejaria revolucionários e ensinou-lhes a deixar de tratar os clientes com arrogância e desdém. Depois, modernizou a banca toda e fez parte de uma geração que, de facto, tornou a banca portuguesa um dos raros sectores de excelência na gestão empresarial. A certa altura, criada fama, prestígio e riqueza, ultrapassados os 70 anos de idade, usado até à exaustão cada migalha de poder que foi detendo e sempre acrescentando, anunciou a retirada e a chegada ao poder de uma nova geração. Mas era apenas um truque, para fingir que estava de fora, continuando a tudo controlar. E, quando esse controlo se tornou um obstáculo à governação do banco, em lugar de consumar de vez, e sem mais subterfúgios, a retirada, foi à luta – uma luta feia e desprestigiante – para afastar a tal nova geração que lá havia colocado e continuar a governar por interpostos representantes. Perdeu, também ele, a oportunidade de sair em beleza. Agora, as sequelas da guerra que semeou, por pura vontade de mando e vaidade, viram-se contra si, em sucessivas revelações devastadoras e de que, decerto, ainda não vimos o fundo. Os episódios do perdão de dívida e de juros, ao filho e ao aliado, são de tal maneira chocantes que só uma obstinação que já é do domínio da patologia pode ainda fazê-lo manter-se em funções, uma semana depois de a notícia do Expresso ter destruído para sempre a sua imagem de gestor rigoroso, criada ao longo de trinta anos. E tudo se agravou mais com as inacreditáveis justificações que ele e o próprio filho resolveram dar para explicar como é que o maior banco privado português atira borda fora pelo menos 22 milhões de euros em negócios de favor. Decerto que não terá perdido as qualidades que o fizeram conseguir ver antes e mais longe que muitos outros, no negócio bancário. Mas, porque assim é, ele, mais do que ninguém, deve saber que um banco vive da imagem e da credibilidade pública. E, nos últimos meses, ninguém, mais do que o eng.º Jardim Gonçalves, se tem dedicado afanosamente a destruí-las.

Por MIGUEL SOUSA TAVARES

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O ORÇAMENTO

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário


Quer queira, quer não, Sócrates tem um contrato tácito com os portugueses. Que não cumpriu. Perante a situação financeira criada por Guterres, primeiro, e a seguir pelos governos do PSD, Sócrates tomava as medidas necessárias para pôr as coisas na ordem e os portugueses, como de costume, aceitavam sem protesto alguns sacrifícios. No contrato, estava implícito que, embora os portugueses por um tempo pagassem mais, Sócrates diminuiria drasticamente as despesas do Estado e, acima de tudo, a despesa corrente primária, sustento da ineficiência e do parasitismo. Isto implicava, e ainda implica, uma reforma do Estado séria e drástica, que limitasse o alcance e a área da sua intervenção (em muitos casos notoriamente inútil e em outros nociva) e que reduzisse o número de funcionários da administração central.

Desde que Sócrates governa, os portugueses de ano em ano pagaram de facto cada vez mais. Mas Sócrates só fingiu que reformava o Estado. Para começar, poupou em pensões, poupou em salários, deu (com uma certa justificação) menos dinheiro ao poder local e praticamente parou o investimento público. Foi por este caminho de facilidade e com esta táctica de mercearia que adquiriu uma fama espúria de “coragem” (o inimigo era fraco) e, não se percebe por quê, de persistência e “determinação”. De resto, e se não contarmos o programa Simplex, que não passou de uma campanha publicitária, Sócrates não fez nada. Houve um mar de reuniões, de planos, de papeletas, de promessas, que produziu como único resultado a mistura ou fusão de umas centenas de serviços. No fim, ficou tudo na mesma, como novos nomes: uma velha receita da esperteza indígena.

O equilíbrio financeiro, que inexplicavelmente a imprensa bempensante persiste em gabar, veio na essência da receita, ou seja, do bolso já vazio dos portugueses. O Orçamento para 2008 não deixa uma dúvida. A despesa é de 45,1 por cento do PIB (quando devia descer para 44 por cento). A despesa corrente primária volta a subir para 4 por cento. Do número de funcionários que saíram desde 2006 não vale a pena falar, nem dos que se prevê que saiam em 2008. Como não vale a pena dizer que o IVA, o IRS e o IRC não irão baixar: irão aumentar. O orçamento mostra claramente o fracasso de Sócrates. Não resolveu nenhum problema, conseguiu por um tempo suprimir o efeito de alguns problemas. Chegou a altura de lhe pedir contas.

Por VASCO PULIDO VALENTE

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DERROCADA

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário


O mundo das obras de arte (e aqui falo principalmente das obras literárias), só o sinto verdadeiramente próximo de mim quando se abre ou predispõe à expressão tensa da realidade. Não como simples espelhamento (técnica típica do que usa o subterfúgio para entrar na contabilidade das grandes vendas apesar, ou por causa, da habitualidade da escrita que utiliza) mas como comunicação organizada e estilisticamente nova do que explode dentro e fora de quem escreve, de quem se esmaga nas palavras que tenta usar. Quando procura ser um alicerce, ainda que não reconhecido por quase ninguém, de um sentido que combate, testemunha o combate, faz do quase impossível a procura do seu breve bem.

Não sou dos que acreditam que se deva gritar Revolução quando se diz Sofrimento Social. O século XX mostrou-nos como, em crescendo desde os finais do século XVIII, a palavra «revolução» sempre trouxe com ela associada a palavra «terror». O Sofrimento Social precisa de ser enfrentado de outro modo, e creio que só as democracias o podem tentar resolver. Se uma democracia falha a resolução do Sofrimento Social, então ela falha a sua própria razão de ser. E os «monstros» começam a cercá-la, prontos a desfazerem-na, numa intervenção sumária que nos trará a bem conhecida experiência de outro tipo de extermínios.

Creio que em Portugal, se não fosse a União Europeia, haveriam de ter acontecido desses abalos tremendos que transformam milhares em enxurradas. Pois que tudo está descontente, como em 1910, em 1926, em 1974…

A arte não pode ser um movimento social meramente vulgar. Dentro dela, a literatura não pode contentar-se com o ponto de vista da ideologia. Tem de se tornar prova do real. De confronto com o desvirtuamento da humanidade do seu tempo. Para isso, não precisa de tornar-se política (partidária), bem pelo contrário, mas necessita de combater o que o político aniquila no quotidiano, e cada um só tem uma vida para viver. Acredito que todos os políticos actualmente em exercício em Portugal não queiram provocar, por vontade deliberada, o desabamento na aceitação da democracia. Mas penso muitas vezes, contra a minha própria razão, que se tornam cúmplices de um desastre assim.

O que está a trazer a democracia aos portugueses? Fome, agravo, muito pouca capacidade de sobreviver, uma saúde desastrosa, um peso fiscal aterrador que atinge os que precisam desse dinheiro levado para poderem atravessar o fim do mês.

20% dos portugueses concentra 80% da riqueza. Cada ano consegue enriquecer ainda mais. Nada tenho contra a existência de ricos produtivos numa sociedade, penso é que a riqueza não lhes deveria ir sempre parar às mãos e que teria de haver uma classe média muito forte que permitisse inúmeros focos de riqueza distribuída por todos (mas o nosso pequeno neocapitalismo não parece gostar de coisas assim). Como eles fazem, não sei; mas não acredito que o façam criminosamente; sabem apenas aproveitar o que a organização social deste tipo de governações lhes permite conseguir.

Os restantes 80% ou lutam para poder equilibrar as suas finanças (e tanto faz que tenham filhos como não tenham, embora os primeiros sofram sem dúvida bem pior situação, se se preocuparem com os seus filhos, o que nem sempre acontece com todos) ou tombam no dia-a-dia vivido como uma migalha de nada caída em sítio nenhum.

Mas há ainda um maior horror: que fará alguém com 360 euros mensais nos dias portugueses de hoje? Assiste, por certo, a cada um dos seus dias como a um lento suicídio. As políticas de sacrifício (pedidas já por dois governos sucessivos – houve um interregno que não conta – sem que se lhes perceba as diferenças práticas) estão a servir realmente para quê?

Atrás dos computadores tudo se desumaniza e transforma em números e nos é dito em estatísticas. Mas as pessoas? O que são e o que sentem as pessoas? Pouco percebo destes assuntos, mas começo a acreditar que não está nestas políticas solução alguma, o caminho terá de ser outro; a estratégia dos impostos, por exemplo, percebe-se que não é a saída. Há muitos economistas que dizem que sim. Mas não só a economia não é uma ciência (quando muito é uma prática calculante, nem sequer adivinhatória) como é sempre possível, por isso mesmo, encontrar um segundo grupo de economistas que defenda exactamente o contrário e um terceiro grupo ainda que divirja do que os outros grupos proclamam.

Não haverá demasiada tacanhez de economistas neste nosso processo e uma total falta de visão voluntariamente política e sem o suporte de actividades deletérias como todos os partidos até agora existentes praticaram, uma vez que todos eles já estiveram no poder?

A maioria dos meus amigos (quem não terá amigos assim ou não estará a falar de si próprio quando dos seus amigos fala?) está entre os 80% atrás referidos. Se uns vão conseguindo sobreviver gerindo com extrema severidade o seu orçamento, outros há muito que se têm servido de créditos bancários para conseguir «esticar» o ordenado. Vivem no limite do zero. Só podem, além de trabalhar – os mais afortunados -, pensar em como hão-de prover à educação dos filhos, aos seguros que têm de providenciar para protecção dos filhos em empregos arriscados, pagar os juros bancários e deixar para o fim a qualidade dos alimentos com que têm de manter a saúde, que, provavelmente, mais depressa se deteriorará, remédios que já se tem de pensar duas vezes antes de comprar, uma vez que o próprio vestuário teve de deixar de existir como necessidade de primeira. Vejo nas suas caras o mesmo abandono, a mesma apatia, o total desencanto que já reconheço naqueles com quem ando nos autocarros e que não sei quem são.

Os meus amigos: professores, enfermeiros, mesmo médicos, bem como rapazes e raparigas e homens e mulheres de meia-idade que vivem a recibos verdes, em que se incluem artistas ou escritores que não conseguiram ou não quiseram transformar-se em mercado de boa publicidade. Todos estão unidos pela mesma frustração. Vejo o desânimo invadir-lhes a vida que já foi feliz.

Ao referir-me a estes exemplos, estou a pensar insistentemente em palavras de uma mulher que admiro, Isabel Jonet, da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome. E é tanto mais de confiar na minha admiração quanto eu não sou crente de nenhuma religião e ela é profundamente católica (religião que exclui o modo da minha própria vida).

Os que tiverem computador podem encontrar um exemplo do seu pensamento escrevendo o seu nome no Google (por exemplo) e abrindo a primeira entrada que surge aí neste momento, «Solidariedade»: uma entrevista extraordinária. Foi ela quem alertou para o alastramento da pobreza e do sofrimento social daí decorrente ao referir, numa entrevista à TSF amplamente divulgada na Web, «uma nova classe de novos pobres em Portugal, pessoas que, embora auferindo de um salário, não têm no final do mês todos os rendimentos de que necessitam para fazer face às necessidades do seu agregado familiar». Eu acrescentaria, a agregado familiar, pessoas sozinhas a quem o mesmo acontece. Ou pessoas a viverem conjuntamente sem que as deixem constituir-se como agregado familiar.

Fala ainda desse outro pesadelo que parece nada estar a resolver, a não ser consentir que o Estado e os enriquecidos possam lavar as mãos das consequências que tudo isso trará, mais do que no presente, no futuro dessas pessoas: «Jovens a trabalharem a recibos verdes, sem possibilidades de pagar a Segurança Social, que se vêem a braços com situações dramáticas e que muitas vezes têm de pedir apoio a estruturas sociais para poderem sobreviver.» (Peço desculpa a Isabel Jonet pela extensão das citações, mas foi a principal instigadora do meu artigo de hoje.)

Precariedade em quase tudo, vidas alarmadas, o desemprego, pobreza, recursos aflitivos a bancos (que podem nem ser conseguidos), vidas amodorradas à dificuldade de só passarem amargamente de um dia para outro dia, mesmo trabalhando até aos limites das suas possibilidades. Para já não falar dos que nem sequer nada disto têm. Destroem a classe média, precisamente aquela de onde, quando não sujeita às extremas pressões da insuficiência, quase sempre vi irromper as aberturas civilizacionais mais consistentes. Esta, não tendo para onde se voltar (já experimentou todos os partidos desta democracia), aceitará um dia politicamente o quê? Se é o espaço fundamental das conquistas democráticas, rapidamente também se torna o espaço da derrocada das próprias democracias. O nosso sistema político não estará já perigosamente em causa?

Segundo dados da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal (Setembro de 2007), surgimos em último ou em penúltimo lugar em: taxa de risco de pobreza, situação de desemprego, risco de pobreza de pessoas empregadas, abandono escolar, desigualdade na distribuição do rendimento. Entre nós, onde a taxa de pobreza objectiva é de 20% (uma imensa fatia populacional que já é pobre por completo), 47% consideram-se pobres e 39% afirmam ter dificuldades financeiras. Segundo o Senhor Presidente da República, em 18/10/2007, «sozinho, o Estado não consegue melhorar a situação». Conseguirá melhorá-la mesmo com ajudas? Porque o Senhor Presidente da República confessou: «Envergonho-me um pouco desta posição.» Fica-lhe muito bem essa vergonha. Mas é estranho o facto de só se envergonhar «um pouco». A vergonha total, quem terá de a sofrer?
Por JOAQUIM MANUEL MAGALHÃESIn “Expresso”

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SÓCRATES O DITADOR

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário

  A saída de António Costa para a Câmara de Lisboa pode ser interpretada de muitas maneiras. Mas, se as intenções podem ser interessantes, os resultados é que contam.

Entre estes, está o facto de o candidato à Autarquia se ter afastado do Governo e do Partido, o que deixa Sócrates praticamente sozinho à frente de um e de outro. Único senhor a bordo tem um mestre e uma inspiração. Com Guterres, o primeiro-ministro aprendeu a ambição pessoal, mas, contra ele, percebeu que a indecisão pode ser fatal.

A ponto de, com zelo, se exceder: prefere decidir mal, mas rapidamente, do que adiar para estudar. Em Cavaco, colheu o desdém pelo seu partido. Com os dois e com a sua própria intuição autoritária, compreendeu que se pode governar sem políticos.

Onde estão os políticos socialistas? Aqueles que conhecemos, cujas ideias pesaram alguma coisa e que são responsáveis pelo seu passado? Uns saneados, outros afastados. Uns reformaram-se da política, outros foram encostados. Uns foram promovidos ao céu, outros mudaram de profissão. Uns foram viajar, outros ganhar dinheiro. Uns desapareceram sem deixar vestígios, outros estão empregados nas empresas que dependem do Governo.

Manuel Alegre resiste, mas já não conta.

Medeiros Ferreira ensina e escreve. Jaime Gama preside sem poderes. João Cravinho emigrou. Jorge Coelho está a milhas de distância e vai dizendo, sem convicção, que o socialismo ainda existe. António Vitorino, eterno desejado, exerce a sua profissão. Almeida Santos justifica tudo. Freitas do Amaral reformou-se. Alberto Martins apagou-se. Mário Soares ocupa-se da globalização. Carlos César limitou-se

A saída de António Costa para a Câmara de Lisboa pode ser interpretada de muitas maneiras. Mas, se as intenções podem ser interessantes, os resultados é que contam.

Entre estes, está o facto de o candidato à Autarquia se ter afastado do Governo e do Partido, o que deixa Sócrates praticamente sozinho à frente de um e de outro. Único senhor a bordo tem um mestre e uma inspiração. Com Guterres, o primeiro-ministro aprendeu a ambição pessoal, mas, contra ele, percebeu que a indecisão pode ser fatal.

A ponto de, com zelo, se exceder: prefere decidir mal, mas rapidamente, do que adiar para estudar. Em Cavaco, colheu o desdém pelo seu partido. Com os dois e com a sua própria intuição autoritária, compreendeu que se pode governar sem políticos.

Onde estão os políticos socialistas? Aqueles que conhecemos, cujas ideias pesaram alguma coisa e que são responsáveis pelo seu passado? Uns saneados, outros afastados. Uns reformaram-se da política, outros foram encostados. Uns foram promovidos ao céu, outros mudaram de profissão. Uns foram viajar, outros ganhar dinheiro. Uns desapareceram sem deixar vestígios, outros estão empregados nas empresas que dependem do Governo.

Manuel Alegre resiste, mas já não conta.

Medeiros Ferreira ensina e escreve. Jaime Gama preside sem poderes. João Cravinho emigrou. Jorge Coelho está a milhas de distância e vai dizendo, sem convicção, que o socialismo ainda existe. António Vitorino, eterno desejado, exerce a sua profissão. Almeida Santos justifica tudo. Freitas do Amaral reformou-se. Alberto Martins apagou-se. Mário Soares ocupa-se da globalização. Carlos César limitou-se definitivamente aos Açores. João Soares espera. Helena Roseta foi à sua vida independente. Os grandes autarcas do partido estão reduzidos à insignificância. O Grupo Parlamentar parece um jardim-escola sedado. Os sindicalistas quase não existem. O actual pensamento dos socialistas resume-se a uma lengalenga pragmática, justificativa e repetitiva sobre a inevitabilidade do governo e da luta contra o défice. O ideário contemporâneo dos socialistas portugueses é mais silencioso do que a meditação budista. Ainda por cima, Sócrates percebeu depressa que nunca o sentimento público esteve, como hoje, tão adverso e tão farto da política e dos políticos. Sem hesitar, apanhou a onda.

Desengane-se quem pensa que as gafes dos ministros incomodam Sócrates. Não mais do que picadas de mosquito. As gafes entretêm a opinião, mobilizam a imprensa, distraem a oposição e ocupam o Parlamento. Mas nada de essencial está em causa. Os disparates de Manuel Pinho fazem rir toda a gente. As tontarias e a prestidigitação estatística de Mário Lino são pura diversão. E não se pense que a irrelevância da maior parte dos ministros, que nada têm a dizer para além dos seus assuntos técnicos, perturba o primeiro-ministro. É assim que ele os quer, como se fossem directores-gerais. Só o problema da Universidade Independente e dos seus diplomas o incomodou realmente. Mas tratava-se, politicamente, de questão menor. Percebeu que as suas fragilidades podiam ser expostas e que nem tudo estava sob controlo. Mas nada de semelhante se repetirá.

O estilo de Sócrates consolida-se. Autoritário. Crispado. Despótico. Irritado. Enervado.

Detesta ser contrariado. Não admite perguntas que não estavam previstas. Pretende saber, sobre as pessoas, o que há para saber. Deseja ter tudo quanto vive sob controlo.

Tem os seus sermões preparados todos os dias. Só ele faz política, ajudado por uma máquina poderosa de recolha de informações, de manipulação da imprensa, de propaganda e de encenação. O verdadeiro Sócrates está presente nos novos bilhetes de identidade, nas tentativas de Augusto Santos Silva de tutelar a imprensa livre, na teimosia descabelada de Mário Lino, na concentração das polícias sob seu mando e no processo que o Ministério da Educação abriu contra um funcionário que se exprimiu em privado. O estilo de Sócrates está vivo, por inteiro, no ambiente que se vive, feito já de medo e apreensão. A austeridade administrativa e orçamental ameaça a tranquilidade de cidadãos que sentem que a sua liberdade de expressão pode ser onerosa. A imprensa sabe o que tem de pagar para aceder à informação. As empresas conhecem as iras do Governo e fazem as contas ao que têm de fazer para ter acesso aos fundos e às autorizações.

Sem partido que o incomode, sem ministros politicamente competentes e sem oposição à altura, Sócrates trata de si. Rodeado de adjuntos dispostos a tudo e com a benevolência de alguns interesses económicos, Sócrates governa. Com uma maioria dócil, uma oposição desorientada e um rol de secretários de Estado zelosos, ocupa eficientemente, como nunca nas últimas décadas, a Administração Pública e os cargos dirigentes do Estado. Nomeia e saneia a bel-prazer. Há quem diga que o vamos ter durante mais uns anos. É possível. Mas não é boa notícia. É sinal da impotência da oposição. De incompetência da sociedade. De fraqueza das organizações. E da falta de carinho dos portugueses pela liberdade.

*António Barreto faz o retrato de Sócrates

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