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Entradas categorizadas como ‘Opinião’

António Lobo Antunes

Novembro 5, 2008 · Deixe um comentário

Fico sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. Olha, as flores da jarra estão a murchar na água cinzenta, as folhas soltam-se, uma a uma, dos caules, tudo isto em silêncio.

Fico sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. Olha, as flores da jarra estão a murchar na água cinzenta, as folhas soltam-se, uma a uma, dos caules, tudo isto em silêncio, sem pressa, a tombarem na toalha, enroladas, secas. Dizia eu que fico sempre espantado
com a vida das pessoas: até o que lhes dá prazer me surpreende. Meu Deus, o que se agitam, tanta pressa sempre. E olhos ocos, aflitos. Tenho agora mais flores na sala do que num velório. Vêm daqui e dali com cartõezinhos simpáticos, a lembrança dos vivos. Se calhar morri sem dar por isso e continuo a existir na memória dos outros. Tocam à campainha e é um sujeito com flores. Estendem-me um papel
– Assine aqui

garatujo a hora, garatujo o nome, carregam no botão do elevador, somem-se e eu com aquilo nos braços. Vou deixando os ramos não importa onde: não há esquife aqui, não os posso encostar ao defunto. A voz da minha mãe ao telefone, a gritar como sempre. Coitada, tem passado algumas aflições com os filhos. Olho para ela e vem-me à ideia que a velhice depena as pessoas, tira-lhes bocados, às vezes dá-
-me a impressão que à minha mãe falta um pedaço da crista quando a vejo sentar-se à mesa ou que o tempo, como uma borracha, lhe apagou parte das feições, quebrou um bocadinho a voz, poliu os dedos que se tornaram sedosos, frágeis. Ali está ela a olhar para dentro, por vezes numa espécie de sorriso, quer dizer não é a boca que sorri, o sorriso à frente da boca, a flutuar sozinho. Eu na outra ponta da mesa, no lugar do meu pai a pensar

– Como é que o garfo vai atravessar o sorriso?

com medo que o garfo o leve para o prato e não leva, o sorriso continua intacto, perfeito, e é por baixo dele que a minha mãe mastiga. Chama-se Margarida. Em criança julgava que as pessoas, à medida que o tempo ia correndo, mudavam de nome. Por exemplo Rita assenta bem numa rapariga, não assenta tão bem numa senhora de idade e então trocavam o Rita por Clotilde ou Leopoldina, por exemplo Joana não calha numa ruiva e então muda-se para Beatriz e ao começar a fazer madeixas recupera o Rita, por exemplo Hermes desafina num bébé de maneira que fica à espera que o bébé tenha cinquenta anos e entretanto dizemos Pedro, mas a minha mãe foi Margarida sempre e não a concebo Fortunata nem Elisa nem Cátia embora para mim fosse

– Mãe

e estava encerrada a questão. E lá vai o garfo sem amolgar o sorriso. A única pessoa que não usava o

– Mãe

era o meu pai e as empregadas não

– Mãe

nem

– Margarida

as empregadas

– Senhora

o que me parecia um pleonasmo, como pôr ketchup em cima das rodelas de tomate. Os meus colegas de escola davam igualmente

– Mãe

às mães deles, o que eu achava estranho até perceber que

– Mãe

era o nome mais vulgar em Portugal. Curto, rápido, preciso e fácil de gritar durante o horrível suplício do corte das unhas, sobretudo o mindinho que uma tesoura feroz atacava magoando-me sempre, ou então era o medo que me magoasse que me magoava. Horas tremendas

– Que horror essas unhas

ordens horríveis

– Chega-te mais para a luz

conselhos tenebrosos

– Não te mexas agora

e isso, o arrancar dos pontos pretos com o aviso

– Está quase

seguido da exibição de uma coisa microscópica na ponta do indicador, sem mencionar a sopa

(– Quem não tem fome de sopa não tem fome de doce)

e a lavagem dos dentes, constituíram os suplícios cardinais da minha infância. Entretanto acho que me desviei do princípio desta crónica, ou seja de ficar sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. E as folhas das jarras a desprenderem-se dos caules. Se me deitasse no chão da sala acabavam por cobrir-me por inteiro e eu debaixo delas dando pela empregada a abrir a porta, a olhar para aquilo e a varrer-nos na direcção da pá: lá vou eu para o contentor dentro de um saco plástico, cheio de perfumes moribundos como os das tias-avós, rodeadas de essências vagas e tristes. Claro que se eu chamar a dona Olívia não liga: não acredita que as plantas falem e para o caso de se atreverem a falar nada melhor do que empurrá-las com força para o fundo. O que os outros se agitam, tanta pressa sempre, e eu quieto.
Sou um narciso, uma begónia, uma túlipa, ou antes restos de narcisos, de begónias, de túlipas, tão doces, tão pálidas. Mas não terei olhos ocos nem aflitos, apenas um caule tranquilo e por cima sacos plásticos dos vizinhos. Hoje voltei para casa, a seguir ao jantar, atrás de um bêbado.
Ia de um lado ao outro do passeio,
majestoso, lento. A certa altura parou a fazer chichi contra uma parede, um chichi interminável, uma abundância de fonte. Lembrei-me do bêbado de Pedro Páramo

– Ai vida não me mereces

e de caminho dei-lhe uma palmada no ombro que por pouco não o fez desmoronar-se, caindo tijolo a tijolo na rua mal iluminada, com grandes manchas de sombra que afogavam os automóveis estacionados, os prédios. Jantei sozinho num restaurantezito onde uma rapariga de cabelo pintado de loiro jantava sozinha. Ao levantar-me tinha saído.
Para onde? O que fará agora?
Sentada diante da televisão, com uma revista esquecida nos joelhos? A ler? À espera de um telefonema que não chega? Na janela em frente dois homens penduram um quadro na parede, afastam-se a observar o efeito, endireitam-se. Vinte e três horas e vinte e três minutos, vinte e três horas e vinte e quatro minutos. Hoje de manhã a televisão holandesa a entrevistar-me: deve ser uma estucha para os jornalistas porque não falo da minha vida e muito menos dos meus livros, eles que se defendam sozinhos. A certa altura silêncio e a produtora a perguntar-me o que pensava eu. Não respondi. Para quê?
É que se respondesse dizia-lhe que não pensava em nada, pensava no vácuo.

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AS LIÇÕES DO IRAQUE

Outubro 1, 2008 · Deixe um comentário

Por JOSEPH E. STIGLITZ – Prémio Nobel da Economia 2001

A guerra do Iraque foi suplantada pelo declínio da economia como questão mais importante na campanha presidencial dos Estados Unidos, em parte porque os cidadãos desse país crêem que, no Iraque, a maré virou: o reforço de tropas teria, supostamente, intimidado os insurgentes, reduzindo a violência. As implicações são claras: uma demonstração de poder é uma lança em África.

É precisamente este tipo de lógica machista que levou os Estados Unidos para a guerra do Iraque. A guerra tinha por objectivo demonstrar o poder estratégico do poderio militar. Em vez disso, demonstrou as suas limitações. Além disso, a guerra corroeu a verdadeira fonte de poder dos Estados Unidos: a sua autoridade moral.

de Joseph E. Stiglitz

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Micro – Leituras

Setembro 17, 2008 · Deixe um comentário

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O Nada que é Tudo

Setembro 8, 2008 · 1 Comentário


Crente é pouco sê-te Deus
E para o nada que é tudo
Inventa caminhos teus.

Se Ele é o que dizes
Ele nada pode ser
E se nada, livre está
Para ser o que quiser.

Se Deus quisesse ocupar
Lugar a si mesmo igual
Preenchia todo o nada
E o deixava tal e qual.

Do que é o Espírito Santo
Só diga quem ficar mudo
Que palavra há que me leve
Áquele nada que é tudo.

Oxalá por saber tanto
Me apeteça ficar mudo
Só então vendo sem ver
Aquele nada que é tudo.

Agostinho da Silva


Este “nada que é tudo” de que nos fala o mestre Agostinho, falando a partir das bordas do abismo do Mito, essa sobre-excessiva mudez que nada tem que ver com mutismo, não é um vacuum, um vazio, um apelo à nadificação e à abdicação.

Nova Águia

O Nada que é Tudo

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Jogos Olímpicos, Rússia e Paris Hilton

Agosto 25, 2008 · Deixe um comentário

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A FÁBULA DO PAÍS DE SÓCRATES

Junho 2, 2008 · Deixe um comentário

Um cônjuge para se divorciar, basta pedir; um empregador para despedir um trabalhador que o agrediu precisa de uma sentença judicial que demora 5 anos a sair.

Na escola um professor é agredido por um aluno.

O professor nada pode fazer, porque a sua progressão na carreira está dependente da nota que dá ao seu aluno.

Um jovem de 18 anos recebe €200 do Estado para não trabalhar; um idoso recebe de reforma €236 depois de toda uma vida do trabalho.

Um marido oferece um anel à sua mulher e tem de declarar a doação ao fisco.

O mesmo fisco penhora indevidamente o salário de um trabalhador e demora 3 anos a corrigir o erro.

Uma adolescente de 16 anos pode fazer livremente um aborto mas não pode pôr um “piercing”.

O Estado que gasta 6 mil milhões de euros no novo Aeroporto da Ota recusa-se a baixar impostos porque não tem dinheiro.

Nas zonas mais problemáticas das áreas urbanas existe 1 polícia para cada 2.000 habitantes; o Governo diz que não precisa de mais polícias.

Numa empreitada pública, os trabalhadores são todos imigrantes ilegais, que recebem abaixo do salário mínimo e o Estado não fiscaliza.

Num café, o proprietário vê o seu estabelecimento ser encerrado só porque não tinha uma placa a dizer que é proibido fumar.

Um cão ataca uma criança e o Governo faz uma lei.

Um professor é sovado por um aluno e o Governo diz que a culpa é das causas sociais.

O IVA de um preservativo é 5%. O IVA de uma cadeirinha de automóvel, obrigatória para quem tem filhos até aos 12 anos, é 21%.

Numa entrevista à televisão, o Primeiro-Ministro define a Política como “A Arte de aprender a viver com a decepção”.

Estaremos, como Portugueses, condenados a aprender a viver com este Primeiro-Ministro?

De autor desconhecido

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Globalização

Maio 19, 2008 · Deixe um comentário

Muitos países, mesmo entre os mais desenvolvidos, são pouco globalizados nas ideias. Verdadeiramente globalizados no imaterial, encontramos sobretudo cidades, como Londres, Paris, Amesterdão, Nova Iorque ou São Francisco, para falar apenas do Ocidente. Aí circulam pessoas e ideias vindas de todo o lado. Aí, ser ou não politicamente correcto, um debate ainda na moda nos sítios menos abertos, já deixou de ser assunto, pois o que interessa é tratar bem os outros, vindos de onde vierem.

A fraca globalização das ideias nota-se nos noticiários da televisão, nas primeiras páginas dos jornais, nas análises dos colunistas, nos “blogs”, nos trabalhos académicos, nas conversas de café. Os media verdadeiramente globalizados são a excepção, não a regra. Leia-se o “New York Times”, veja-se a BBC, ou mesmo o “El País” e compare-se com a esmagadora maioria da imprensa e dos noticiários em países como Portugal. As universidades globalizadas são também excepção (e as melhores).

Pedro Lains (JN)

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A COMPREENSÃO SEGUNDO SARAMAGO

Janeiro 7, 2008 · Deixe um comentário

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O desassossego tecnológico

Novembro 29, 2007 · Deixe um comentário

O que se explica de muitas maneiras e se atribui às mais variadas causas. Alguns falam do declínio das nações que gera a sensação de perda de identidade; outros do novo capitalismo global que provoca desemprego e precariedade em toda a parte; no aumento da mobilidade humana que amplia conflitos entre diferentes culturas e comportamentos; na crise ambiental; no alastramento da miséria e da exclusão com o inevitável crescimento da criminalidade associada; e, acima de tudo, no papel dos media, através de uma incessante exploração mórbida da desgraça e do negativismo.

Será assim. Mas, mais do que tudo isto junto, as chamadas novas tecnologias constituem hoje a grande fonte da instabilidade. São elas aliás que estão na origem de alguns dos factores referidos.

A tecnologia sempre foi uma ameaça ao que está. A inovação tecnológica resulta inevitavelmente no extermínio de muita actividade económica e humana. São as profissões que perdem utilidade prática, o encerramento de fábricas tornadas subitamente obsoletas, os modos de vida que, tal como os animais e plantas, se extinguem por brutal alteração ambiental. No curto espaço de poucas décadas, certos mundos sofreram impressionantes mutações.

Imagine-se a sorte do tipógrafo que aprendeu a manejar diligentemente o linótipo, compondo letra a letra textos como este e que, de súbito, se teve de readaptar ao domínio do offset e do fotolito, para logo de seguida se ver perante a tremenda revolução dos computadores e dos processos digitais. Quantos foram capazes de sobreviver a tanta reciclagem? Ou ainda, para ficar neste domínio, pense-se no destino das fábricas da famosa e muito revolucionária “letra-set” que rebentou com o constrangimento das colunas e libertou grafismos. Ou no ardina, que percorria a cidade dobrando os jornais como um boomerang que era atirado logo pela manhã para a nossa varanda.

Tudo extinto em muito menos do tempo de uma vida. E que dizer dos professores, aqueles que têm por missão transmitir um conhecimento que agora se desactualiza diariamente? Ou de tantas outras profissões e saberes que simplesmente desapareceram, alfaiates, costureiras, varinas, dactilógrafas, telefonistas, cartógrafos.

Nada que não tenha acontecido desde os primórdios. Contudo, sendo certo que a inovação tecnológica sempre gera mudanças que muitos não são capazes de acompanhar, a revolução digital, expressa nas chamadas novas tecnologias, representa um novo tipo de instabilidade que afecta as vidas de todos. Já que, neste caso, não se trata de simples alterações produtivas, mas de um processo que assenta na própria instabilidade permanente. O novo universo digital é mutante por natureza.

Instável nos produtos e aplicações. Quantos modelos de telemóveis não nos passaram pelas mãos na última década? Quantos computadores não fomos obrigados a adquirir só para nos mantermos minimamente actualizados. Eu que sou da geração do Spectrum já lhes perdi a conta. Quantas linguagens e sistemas operativos tivemos de aprender para logo tudo ter de reaprender passados poucos meses? Que saltos conceptuais não fomos obrigados a dar, desde os excitantes BBS dos anos 80, às sucessivas evoluções da Internet? Que exigências físicas e mentais não nos foram impostas por ratinhos, teclados e monitores? Quantas canetas e envelopes não foram deitados para o lixo com a disseminação dos emails? E isto só no plano da vida corrente e para não falar de todos os grandes medos associados às novas tecnologias: o domínio das máquinas, a manipulação genética, a extinção catastrófica.

No novo mundo digital, nada é estável nem seguro. O desassossego é a condição por excelência do sistema. Um desassossego que naturalmente alastra para as vidas quotidianas gerando fenómenos de resistência e conflitualidade. Potenciando sentimentos do tempo irremediavelmente perdido, expresso em discursos do antigamente é que era bom, ampliando a aversão a essa mudança que tanto afecta o bairro ou a aldeia onde nascemos quanto as ideias que nos fizeram. Desassossego esse que vai povoando o planeta com multidões de gente confusa e inadaptada pronta a agarrar-se a qualquer coisa de aparentemente seguro ou fiável: a nossa terra, a tradição, as religiões. Numa pura ilusão.

Tanto mais que, embora do ponto de vista individual a situação seja tantas vezes dramática, se pensarmos em termos de sociedade humana ela significa um enorme salto evolutivo. A instabilidade é a característica mais comum da evolução. É à “beira do caos”, segundo expressão de Christopher Langton, que as coisas realmente acontecem.

Ao mesmo tempo que a revolução digital vem provocando grandes convulsões sociais, por outro lado ela representa uma efectiva aceleração e amplificação das capacidades humanas. Nunca como hoje o saber e a inteligência estiveram tão disponíveis, para uso imediato, por um tão vasto número de pessoas no planeta. Nunca tantos tiveram acesso aos meios da inovação e nela participaram activamente. Nunca a engrenagem da mudança e do desenvolvimento foi tão dinâmica.

A instabilidade não é uma desgraça, é um modelo de criatividade. O desassossego tecnológico não é um mal, é a condição cultural do homem na nossa era.

Leonel Moura (JN)

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A SANTIDADE DOS PATRIOTAS

Novembro 28, 2007 · Deixe um comentário

Fiquei grandemente enternecido com o estremecimento patriótico que tem percorrido alguns bondosos agrupamentos financeiros, logo-assim ressurgiu a ideia de construção do novo aeroporto de Lisboa. Atreita a descobrir razões e motivos para aplaudir ou excomungar, a sociedade portuguesa vai tomando confuso partido por um ou por outro dos desinteressados grupos. Acentuemos a nobreza dos pensamentos e a clara distinção dos discursos: tanto os que defendem a Ota como os que pleiteiam a causa de Alcochete são desvelados patriotas e absolutamente alheios ao feio sentimento da ganância. No remanso agasalhante dos seus gabinetes esses homens consomem as meninges, arregimentam olheiras, arquejam de cansaço – apenas com o desígnio exaltante de se sacrificar pela pátria bem-amada.

Preocupa-os a depressão que nos assola, a nós, arraia-miúda; martiriza-os a desdita do nosso destino, a deterioração da nossa qualidade de vida. Arejam os crânios com pensamentos alevantados, caucionados pelos juízos simples e pelas consciências rectas.

Pouco se sabe quem são. Dar outros nomes aos nomes apenas significa modéstia, discrição, orgulho pátrio. Ambos os grupos já gastaram rios de dinheiro em planos, estudos, esboços, gráficos, monografias, análises, testemunhos, depoimentos, exames, investigações. Desinteressadamente, como se sabe. Ambos os intervenientes concla- mam: a minha proposta é melhor do que a tua. Ambos os intervenientes afirmam-se eivados de santas razões e de imaculados propósitos. São impulsionados pelo mesmo ímpeto venturoso que acumulou glórias e saudáveis episódios abençoados por todas as Virgens conhecidas.

A melodia dos desinteressados toca os corações desprevenidos. Quando se soube que o Governo pendia para a Ota, indiscutível e inexoravelmente, a especulação imobiliária foi desencadeada. Mário Lino, dramático e seguro, levemente irado, abertamente decisivo, transformou o jamais francês no estandarte de todas as vitórias. Quando foi apresentada a proposta de Alcochete, argumentativamente muito mais económica, os protestos e os apupos chegaram de alguns pontos cardiais. Mário Lino, calmo como um ser isento de maus costumes, ainda não leu o documento da CIP, diz que vai ler; ao que parece, ninguém o leu ainda. A santidade dos indomáveis patriotas da Ota e de Alcochete, a devoção inextinguível da sua entrega, o piedoso ardor dos seus discursos, a profundidade da sua filantropia, o penoso fardo que transportam – comovem até às lágrimas.

Nunca lhes agradeceremos bastante o grande consolo que nos têm ministrado, com a galante vontade de nos servir a todos. Eles, coitados!, não querem nada. Entre a Ota e Alcochete, venha o LNEC e escolha.
Por BAPTISTA-BASTOS – Escritor e jornalista

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A JUSTIÇA CRIMINOSA

Novembro 28, 2007 · 3 Comentários

Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia que se sabe que nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado. Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços do enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são “abafadas”, como se vivêssemos ainda em ditadura. E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogues, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.

Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa e Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Bragaparques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muito alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos? Vale e Azevedo pagou por todos. Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros. Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência com o vírus da sida? Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático? Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico? Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana? Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?

Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma. No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não substancia. E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou? E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente “importante” estava envolvida, o que aconteceu? Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu. E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente “importante”, jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê? E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha. E aquele médico do Hospital de Santa Maria suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina? E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os “senhores importantes” que abusaram, abusavam, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra. Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa e contra isto o PS e o PSD que fizeram? Assinaram um iníquo pacto de justiça.

Por CLARA FERREIRA ALVES

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“INTELIGENT DESIGN”

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário


Acabei de assistir no Canal Dois, a uma emissão do Programa “Nova”, à volta do “Criacionismo”. Trata-se de uma controvérsia ocorrida numa comunidade rural americana, inspirada pela milenária luta entre a Ciência e Fé. Luta que já fez correr muito sangue à volta do mundo. E quando o sábio Galileu, que já aqui mencionei várias vezes, teve a coragem de dizer que era a Terra que girava à volta do Sol e não o Sol à volta da Terra, como era crença da Igreja Católica, o pobre estudioso, esteve prestes a ser queimado na fogueira da Inquisição, se não abjurasse de joelhos, as suas observações cientificas. Que a fé, exaltada pelo fanatismo, é muito perigosa. Basta ver o que está acontecendo no Iraque, com os bombistas suicidas e fanáticos do Islão.

O Creacionismo, ou “Inteligent Desig”, é uma crença religiosa, a qual postula que os humanos, os animais, as aves e os peixes foram desenhados e criados assim, e que a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin, está errada. E a controvérsia está, em o Criacionismo querer passar por uma teoria científica, e não uma crença religiosa. Claro, a comunidade cientifica bateu o pé, e disse: ciência é ciencia, religião é religião, e há lugar para as duas mas sem misturas. Segundo a Ciência, criacionismo é uma crença, uma suposição, uma fé de cunho religioso, sem fundamento científico. Como não tem qualquer fundamento cientifico o que a Bíblia nos diz àcerca de criação do mundo em seis dias, com Deus, cansado do esforço, a “descansar” ao sétimo dia. A Terra era então o centro do Universo, havia sido criada há dez mil anos – não há dez triliões, mas apenas há dez mil – o Sol é que girava, a Terra era plana e estava quieta, as estrelas eram lamparinas suspensas no tecto do céu e outras coisas mais. A Bíblia não explica também, se Adão e Eva eram brancos, pretos ou amarelos, e como é que se produziram essas diferentes raças, se não houve evolução das espécies. Pelo menos os mulatos, sabemos nós, que foram os portugueses que os produziram, e isto não e uma crença religiosa, mas uma conclusão científica.

O objectivo dos criacionistas americanos, é desbancar as observações de Charles Darwin, sobre a evolução das espécies, dando carácter de ciência, a uma convicção religiosa. Ora a Ciência, é o esforço do homem para desvendar os mistérios da Criação. Ciência, não é religião. Não é uma crença, é um trabalho mental profundo, que analiza minuciosamente as ínfimas partículas de que é formado o Universo, de que nós, e toda a vida, somos parte integrante. A ciência não proselitiza nem vende na praça pública as suas verdades. A ciência não sofre da doença do ódio de que enfermam as religiões, que se guerreiam e contradizem .Todos os cientistas do mundo, são membros da mesma confraria. As suas verdades e experiências são partilhadas .São património da Humanidade. Muitos cientistas até crêem na existência de um ser superior responsável pela criação do Universo, e decerto pedem que essa Força Criadora, que eles procuram desvendar, os inspire nos seus esforços de descoberta. Os cientistas não criam. Descobrem. Levantam um poucochinho o véu do mistério, mas não se arrogam a petulância de dizer que tudo sabem, e que a Ciência é infalível.

E assim sendo, todos os que acreditam nas suas respectivas religiões, utilizam a ciência, mesmo sem acreditar nela.Quando ficam doentes, ou quando têm de extrair um tumor maligno, não confiam apenas nas orações. Eles entregam-se nas mãos de um médico, que pode ser incréu, judeu, católico, protestante , induista ou maometano… A Ciência não faz guerra à religião. A Religião é que, historicamente, tem feito guerra à Ciência. E não só à Ciência, mas a outras religioes. As relações entre as várias crenças não são bentas.

Acho que a Ciência tem sido mais pacífica. Ela procura desvendar os segredos do Universo, e aliviar as dores da humanidade. E presta os seus serviços a toda a gente, independentemente da cor da sua pele, nacionalidade ou religião. E se não fosse assim , não seria ciência pura, mas astrologia. Esta é uma atitude que devia ser imitada pelas religiões. A Ciência personifica a paz de que nos falou o Rabi da Galileia. Os cientistas americanos, não fazem guerra ou odeiam os cientistas do Irão, da Coreia do Norte, da Siria ou de qualquer outro país que o nosso chefe catologou como “inimigos”. Sejam eles comunistas, democratas ou republicanos, na comunidade científica, todos têm pousada. Porque todos trabalham na mesma vinha.

Mas,voltando à vaca fria, como se diz na Bairrada, o caso da tentativa dos criacionistas americanos, de introduzir a crença religiosa, nas escolas públicas, sob a capa de “ciência”, não surtiu efeito. E o Juiz Johnson, por acaso uma nomeação recomendada por Bush, sentenciou que o Criacionismo ou “Inteligent Design”, não é ciência, mas religião, e que o lugar da religião, é na igreja, e a Ciência, é parte da instrução pública e do progresso da Humanidade. E Darwin, mais uma vez, foi vingado.

Por Manuel Calado

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OMOSESSUALITÀ VATICANA

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário


Helena Matos comenta (texto transcrito abaixo) o caso de monsenhor Tommaso Stenico, suspenso das suas funções na Curia Romana. Ao contrário do que diz Helena Matos, que provavelmente não leu os jornais italianos de ontem, monsenhor Stenico não confessou ser gay. Pelo contrário. Tem negado sistematicamente essa condição. O que nós pensamos disso é outra coisa. Monsenhor Stenico, psicanalista, foi surpreendido com a divulgação pública (num canal de televisão) da gravação de uma das sessões que manteve com um paciente jovem, a quem deu conselhos ao arrepio da doutrina da Igreja. Monsenhor Stenico, psicanalista, defende-se (e com razão) com o segredo profissional e denuncia a criminosa invasão de privacidade.

Continua por apurar como foi efectuada a gravação e como é que ela chegou à televisão e aos jornais. O pano de fundo da história é um site com blogue incorporado, que promove encontros homossexuais, e é mantido por um colectivo de altos prelados que assinam sob nome de código. Aparentemente, monsenhor Stenico — que colaborava no blogue com o seu próprio nome — é um alvo mais fácil do que certas eminências. Monsenhor Stenico foi só um pretexto. Onde é que a gente já viu este filme?

Comentário de HELENA MATOS

Coisas que também não se entendem

A notícia do padre suspenso por ter confessado ser gay tem dado a volta ao mundo.

Segundo o PÚBLICO:

«Vaticano suspende padre que confessou ser gay na televisão O Vaticano suspendeu um padre que tem uma posição elevada na Santa Sé por ter confessado, num programa da televisão italiana, ter tido relações sexuais com outros homens.(…) Este era um dos quatro padres que se declararam homossexuais e participaram num programa transmitido a 1 de Outubro pela televisão La 7.»

Talvez a minha ignorância sobre os procedimentos do Vaticano explique a minha dúvida mas se ele tivesse confessado na televisão que mantinha relações sexuais com mulheres o Vaticano não o suspendia?

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A JUSTIÇA CRIMINOSA

Novembro 24, 2007 · 2 Comentários

Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia que se sabe que nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado. Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços do enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são “abafadas”, como se vivêssemos ainda em ditadura. E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogues, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade. Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa e Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Bragaparques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muito alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos? Vale e Azevedo pagou por todos. Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros. Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência com o vírus da sida? Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático? Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico? Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana? Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?

Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma. No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não substancia. E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou? E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente “importante” estava envolvida, o que aconteceu? Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu. E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente “importante”, jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê? E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha. E aquele médico do Hospital de Santa Maria suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina? E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os “senhores importantes” que abusaram, abusavam, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra. Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa e contra isto o PS e o PSD que fizeram? Assinaram um iníquo pacto de justiça.
Por CLARA FERREIRA ALVES

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LARGAR LASTRO

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário

Há uma diferença entre deter poder ou exercer poder. O poder apenas detido é despido de sentido útil: aproveita ao próprio mas não aos outros. Exercer o poder é uma coisa diferente, é aproveitar uma oportunidade para poder fazer coisas que são úteis para os outros. É assim na política, na vida económica ou cultural. O exercício do poder político confere a possibilidade única de transformar coisas, reformar, melhorar, romper bloqueios – é uma actividade nobre, ao contrário do que a cultura de mesa de café gosta de dizer. Conheci muitos políticos que tanto lhes fazia o lugar que ocupavam ou a capacidade de acção de que dispunham nessas funções. Limitavam-se a deter poder, para satisfação da sua própria vaidade ou para se ‘manterem em jogo’ para futuras e outras oportunidades. Mas também conheci os que apenas quiseram o poder enquanto acreditaram que dele podiam fazer um instrumento transformador para melhorar as coisas. E conheci até alguns que nunca aceitaram os cargos para que foram convidados por entenderem que o seu lugar seria inútil ou desprovido de sentido. De igual modo, o exercício do poder económico pode ser uma oportunidade para acrescentar valor às empresas, postos de trabalho, riqueza para o país. E o poder cultural, exercido criativamente, é também um serviço prestado à comunidade.

Entendido assim, o poder não tem nada de corruptor. É uma coisa fugaz, com um objectivo concreto e um espírito de missão claro. Assim que as circunstâncias mudam ou a missão está cumprida, abandona-se e vai-se fazer outra coisa. Por mais que possa custar pessoalmente, a grandeza está em largar e não em continuar agarrado ao poder. Como acontece com tantas outras situações, em determinadas alturas da vida, a sabedoria consiste em saber sair, antes que nos peçam para sair. É o que eu chamo largar lastro: abandonar o que já não serve ou não faz sentido nem bem algum e ir à procura de outra coisa, porque a vida não tem só um caminho e ninguém, mesmo, é insubstituível. Infelizmente, para certas pessoas, largar equivale como que a uma morte em vida. Pobres vidas!

Dou alguns exemplos de gente que, em áreas diferentes, não sabe largar o poder, se acha único e insubstituível e não é capaz de se retirar de cena, convencendo-se que é a vontade dos outros que os mantém atados ao leme, como dizia Fernando Pessoa, a propósito de Bartolomeu Dias.

Comecemos pelo presidente do FC Porto, Pinto da Costa. Depois de 22 anos de poder pessoal e absoluto, teve em 2004 uma oportunidade de retirada em grande que os deuses raramente concedem em casos destes. Campeão Europeu de clubes (uma proeza dificilmente repetível nas décadas seguintes), tinha acabado de inaugurar um estádio novo e lindo e vendera parte das jóias da coroa ao estrangeiro, conseguindo um encaixe financeiro também ele irrepetível e que lhe poderia ter permitido pagar logo o estádio todo ou reduzir o passivo do clube a números residuais. Se tivesse saído nessa altura, teria o Porto a seus pés, o país esmagado de admiração e roído de inveja e a eterna gratidão dos portistas. Mas, preferiu ficar, aparentemente porque não tem vida fora do clube. E o que se seguiu foi uma série de desastres e erros de gestão de toda a ordem: cinco treinadores contratados, dezenas de jogadores adquiridos, dos quais a esmagadora maioria só podem ter vindo por engano, défices astronómicos acumulados em três anos de descontrolo que rapidamente engoliram os lucros de 2004 e, finalmente, a confusão do ‘Apito Dourado’ e as vinganças da ex-primeira-dama, numa sucessão de episódios degradantes que bem poderia ter evitado. Agora, se sair e quando sair, se mandar calar por instantes os aduladores que sempre rodeiam o poder perpétuo, escutará um surpreende suspiro de alívio das bancadas.

Segue-se o caso terminal de Alberto João Jardim. Ao longo de trinta anos, venceu já vinte e não sei quantas eleições consecutivas – o que lhe garante desde logo um lugar, se não na história, pelo menos no ‘Guiness’. Ganha e governa com a mais eficaz e simples das receitas: dinheiro, muito dinheiro, dos outros. Com tanto dinheiro arrancado aos nossos bolsos, só poderia ter obra feita e que dá nas vistas, apesar de todos os desperdícios, os descaminhos e os gastos sumptuários, que convivem com zonas de miséria inexplicáveis, essas escondidas da vista e dos votos. Mas ‘tem obra feita’, como repetem sempre, muito circunspectos, os PSD. E parece que tinha também ambições políticas mais vastas e mais continentais. Mas, à força de se arrastar no poder fácil da Madeira e nas suas vitórias eleitorais de meia-tigela, queimou-as. Se hoje aqui aparecer a votos, será cilindrado (e felizmente!). Porque o que tinha de aura de fazedor acabou por se revelar à luz crua dos dinheiros sem fim que nos custa e o que, a certa altura, chegou a ter de engraçado, acabou por se tornar previsível e repetitivo, até que a audiência deixou de lhe achar graça.

Último exemplo: Jardim Gonçalves, o fundador e eterno mandante do BCP. Criou o primeiro banco privado português e logo revolucionou a banca, passando a tratar os clientes como clientes e não como suplicantes, como até aí sucedia. Fez os bancários vestirem-se de gravata, abandonando o ar de empregados de cervejaria revolucionários e ensinou-lhes a deixar de tratar os clientes com arrogância e desdém. Depois, modernizou a banca toda e fez parte de uma geração que, de facto, tornou a banca portuguesa um dos raros sectores de excelência na gestão empresarial. A certa altura, criada fama, prestígio e riqueza, ultrapassados os 70 anos de idade, usado até à exaustão cada migalha de poder que foi detendo e sempre acrescentando, anunciou a retirada e a chegada ao poder de uma nova geração. Mas era apenas um truque, para fingir que estava de fora, continuando a tudo controlar. E, quando esse controlo se tornou um obstáculo à governação do banco, em lugar de consumar de vez, e sem mais subterfúgios, a retirada, foi à luta – uma luta feia e desprestigiante – para afastar a tal nova geração que lá havia colocado e continuar a governar por interpostos representantes. Perdeu, também ele, a oportunidade de sair em beleza. Agora, as sequelas da guerra que semeou, por pura vontade de mando e vaidade, viram-se contra si, em sucessivas revelações devastadoras e de que, decerto, ainda não vimos o fundo. Os episódios do perdão de dívida e de juros, ao filho e ao aliado, são de tal maneira chocantes que só uma obstinação que já é do domínio da patologia pode ainda fazê-lo manter-se em funções, uma semana depois de a notícia do Expresso ter destruído para sempre a sua imagem de gestor rigoroso, criada ao longo de trinta anos. E tudo se agravou mais com as inacreditáveis justificações que ele e o próprio filho resolveram dar para explicar como é que o maior banco privado português atira borda fora pelo menos 22 milhões de euros em negócios de favor. Decerto que não terá perdido as qualidades que o fizeram conseguir ver antes e mais longe que muitos outros, no negócio bancário. Mas, porque assim é, ele, mais do que ninguém, deve saber que um banco vive da imagem e da credibilidade pública. E, nos últimos meses, ninguém, mais do que o eng.º Jardim Gonçalves, se tem dedicado afanosamente a destruí-las.

Por MIGUEL SOUSA TAVARES

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O ORÇAMENTO

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário


Quer queira, quer não, Sócrates tem um contrato tácito com os portugueses. Que não cumpriu. Perante a situação financeira criada por Guterres, primeiro, e a seguir pelos governos do PSD, Sócrates tomava as medidas necessárias para pôr as coisas na ordem e os portugueses, como de costume, aceitavam sem protesto alguns sacrifícios. No contrato, estava implícito que, embora os portugueses por um tempo pagassem mais, Sócrates diminuiria drasticamente as despesas do Estado e, acima de tudo, a despesa corrente primária, sustento da ineficiência e do parasitismo. Isto implicava, e ainda implica, uma reforma do Estado séria e drástica, que limitasse o alcance e a área da sua intervenção (em muitos casos notoriamente inútil e em outros nociva) e que reduzisse o número de funcionários da administração central.

Desde que Sócrates governa, os portugueses de ano em ano pagaram de facto cada vez mais. Mas Sócrates só fingiu que reformava o Estado. Para começar, poupou em pensões, poupou em salários, deu (com uma certa justificação) menos dinheiro ao poder local e praticamente parou o investimento público. Foi por este caminho de facilidade e com esta táctica de mercearia que adquiriu uma fama espúria de “coragem” (o inimigo era fraco) e, não se percebe por quê, de persistência e “determinação”. De resto, e se não contarmos o programa Simplex, que não passou de uma campanha publicitária, Sócrates não fez nada. Houve um mar de reuniões, de planos, de papeletas, de promessas, que produziu como único resultado a mistura ou fusão de umas centenas de serviços. No fim, ficou tudo na mesma, como novos nomes: uma velha receita da esperteza indígena.

O equilíbrio financeiro, que inexplicavelmente a imprensa bempensante persiste em gabar, veio na essência da receita, ou seja, do bolso já vazio dos portugueses. O Orçamento para 2008 não deixa uma dúvida. A despesa é de 45,1 por cento do PIB (quando devia descer para 44 por cento). A despesa corrente primária volta a subir para 4 por cento. Do número de funcionários que saíram desde 2006 não vale a pena falar, nem dos que se prevê que saiam em 2008. Como não vale a pena dizer que o IVA, o IRS e o IRC não irão baixar: irão aumentar. O orçamento mostra claramente o fracasso de Sócrates. Não resolveu nenhum problema, conseguiu por um tempo suprimir o efeito de alguns problemas. Chegou a altura de lhe pedir contas.

Por VASCO PULIDO VALENTE

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DERROCADA

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário


O mundo das obras de arte (e aqui falo principalmente das obras literárias), só o sinto verdadeiramente próximo de mim quando se abre ou predispõe à expressão tensa da realidade. Não como simples espelhamento (técnica típica do que usa o subterfúgio para entrar na contabilidade das grandes vendas apesar, ou por causa, da habitualidade da escrita que utiliza) mas como comunicação organizada e estilisticamente nova do que explode dentro e fora de quem escreve, de quem se esmaga nas palavras que tenta usar. Quando procura ser um alicerce, ainda que não reconhecido por quase ninguém, de um sentido que combate, testemunha o combate, faz do quase impossível a procura do seu breve bem.

Não sou dos que acreditam que se deva gritar Revolução quando se diz Sofrimento Social. O século XX mostrou-nos como, em crescendo desde os finais do século XVIII, a palavra «revolução» sempre trouxe com ela associada a palavra «terror». O Sofrimento Social precisa de ser enfrentado de outro modo, e creio que só as democracias o podem tentar resolver. Se uma democracia falha a resolução do Sofrimento Social, então ela falha a sua própria razão de ser. E os «monstros» começam a cercá-la, prontos a desfazerem-na, numa intervenção sumária que nos trará a bem conhecida experiência de outro tipo de extermínios.

Creio que em Portugal, se não fosse a União Europeia, haveriam de ter acontecido desses abalos tremendos que transformam milhares em enxurradas. Pois que tudo está descontente, como em 1910, em 1926, em 1974…

A arte não pode ser um movimento social meramente vulgar. Dentro dela, a literatura não pode contentar-se com o ponto de vista da ideologia. Tem de se tornar prova do real. De confronto com o desvirtuamento da humanidade do seu tempo. Para isso, não precisa de tornar-se política (partidária), bem pelo contrário, mas necessita de combater o que o político aniquila no quotidiano, e cada um só tem uma vida para viver. Acredito que todos os políticos actualmente em exercício em Portugal não queiram provocar, por vontade deliberada, o desabamento na aceitação da democracia. Mas penso muitas vezes, contra a minha própria razão, que se tornam cúmplices de um desastre assim.

O que está a trazer a democracia aos portugueses? Fome, agravo, muito pouca capacidade de sobreviver, uma saúde desastrosa, um peso fiscal aterrador que atinge os que precisam desse dinheiro levado para poderem atravessar o fim do mês.

20% dos portugueses concentra 80% da riqueza. Cada ano consegue enriquecer ainda mais. Nada tenho contra a existência de ricos produtivos numa sociedade, penso é que a riqueza não lhes deveria ir sempre parar às mãos e que teria de haver uma classe média muito forte que permitisse inúmeros focos de riqueza distribuída por todos (mas o nosso pequeno neocapitalismo não parece gostar de coisas assim). Como eles fazem, não sei; mas não acredito que o façam criminosamente; sabem apenas aproveitar o que a organização social deste tipo de governações lhes permite conseguir.

Os restantes 80% ou lutam para poder equilibrar as suas finanças (e tanto faz que tenham filhos como não tenham, embora os primeiros sofram sem dúvida bem pior situação, se se preocuparem com os seus filhos, o que nem sempre acontece com todos) ou tombam no dia-a-dia vivido como uma migalha de nada caída em sítio nenhum.

Mas há ainda um maior horror: que fará alguém com 360 euros mensais nos dias portugueses de hoje? Assiste, por certo, a cada um dos seus dias como a um lento suicídio. As políticas de sacrifício (pedidas já por dois governos sucessivos – houve um interregno que não conta – sem que se lhes perceba as diferenças práticas) estão a servir realmente para quê?

Atrás dos computadores tudo se desumaniza e transforma em números e nos é dito em estatísticas. Mas as pessoas? O que são e o que sentem as pessoas? Pouco percebo destes assuntos, mas começo a acreditar que não está nestas políticas solução alguma, o caminho terá de ser outro; a estratégia dos impostos, por exemplo, percebe-se que não é a saída. Há muitos economistas que dizem que sim. Mas não só a economia não é uma ciência (quando muito é uma prática calculante, nem sequer adivinhatória) como é sempre possível, por isso mesmo, encontrar um segundo grupo de economistas que defenda exactamente o contrário e um terceiro grupo ainda que divirja do que os outros grupos proclamam.

Não haverá demasiada tacanhez de economistas neste nosso processo e uma total falta de visão voluntariamente política e sem o suporte de actividades deletérias como todos os partidos até agora existentes praticaram, uma vez que todos eles já estiveram no poder?

A maioria dos meus amigos (quem não terá amigos assim ou não estará a falar de si próprio quando dos seus amigos fala?) está entre os 80% atrás referidos. Se uns vão conseguindo sobreviver gerindo com extrema severidade o seu orçamento, outros há muito que se têm servido de créditos bancários para conseguir «esticar» o ordenado. Vivem no limite do zero. Só podem, além de trabalhar – os mais afortunados -, pensar em como hão-de prover à educação dos filhos, aos seguros que têm de providenciar para protecção dos filhos em empregos arriscados, pagar os juros bancários e deixar para o fim a qualidade dos alimentos com que têm de manter a saúde, que, provavelmente, mais depressa se deteriorará, remédios que já se tem de pensar duas vezes antes de comprar, uma vez que o próprio vestuário teve de deixar de existir como necessidade de primeira. Vejo nas suas caras o mesmo abandono, a mesma apatia, o total desencanto que já reconheço naqueles com quem ando nos autocarros e que não sei quem são.

Os meus amigos: professores, enfermeiros, mesmo médicos, bem como rapazes e raparigas e homens e mulheres de meia-idade que vivem a recibos verdes, em que se incluem artistas ou escritores que não conseguiram ou não quiseram transformar-se em mercado de boa publicidade. Todos estão unidos pela mesma frustração. Vejo o desânimo invadir-lhes a vida que já foi feliz.

Ao referir-me a estes exemplos, estou a pensar insistentemente em palavras de uma mulher que admiro, Isabel Jonet, da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome. E é tanto mais de confiar na minha admiração quanto eu não sou crente de nenhuma religião e ela é profundamente católica (religião que exclui o modo da minha própria vida).

Os que tiverem computador podem encontrar um exemplo do seu pensamento escrevendo o seu nome no Google (por exemplo) e abrindo a primeira entrada que surge aí neste momento, «Solidariedade»: uma entrevista extraordinária. Foi ela quem alertou para o alastramento da pobreza e do sofrimento social daí decorrente ao referir, numa entrevista à TSF amplamente divulgada na Web, «uma nova classe de novos pobres em Portugal, pessoas que, embora auferindo de um salário, não têm no final do mês todos os rendimentos de que necessitam para fazer face às necessidades do seu agregado familiar». Eu acrescentaria, a agregado familiar, pessoas sozinhas a quem o mesmo acontece. Ou pessoas a viverem conjuntamente sem que as deixem constituir-se como agregado familiar.

Fala ainda desse outro pesadelo que parece nada estar a resolver, a não ser consentir que o Estado e os enriquecidos possam lavar as mãos das consequências que tudo isso trará, mais do que no presente, no futuro dessas pessoas: «Jovens a trabalharem a recibos verdes, sem possibilidades de pagar a Segurança Social, que se vêem a braços com situações dramáticas e que muitas vezes têm de pedir apoio a estruturas sociais para poderem sobreviver.» (Peço desculpa a Isabel Jonet pela extensão das citações, mas foi a principal instigadora do meu artigo de hoje.)

Precariedade em quase tudo, vidas alarmadas, o desemprego, pobreza, recursos aflitivos a bancos (que podem nem ser conseguidos), vidas amodorradas à dificuldade de só passarem amargamente de um dia para outro dia, mesmo trabalhando até aos limites das suas possibilidades. Para já não falar dos que nem sequer nada disto têm. Destroem a classe média, precisamente aquela de onde, quando não sujeita às extremas pressões da insuficiência, quase sempre vi irromper as aberturas civilizacionais mais consistentes. Esta, não tendo para onde se voltar (já experimentou todos os partidos desta democracia), aceitará um dia politicamente o quê? Se é o espaço fundamental das conquistas democráticas, rapidamente também se torna o espaço da derrocada das próprias democracias. O nosso sistema político não estará já perigosamente em causa?

Segundo dados da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal (Setembro de 2007), surgimos em último ou em penúltimo lugar em: taxa de risco de pobreza, situação de desemprego, risco de pobreza de pessoas empregadas, abandono escolar, desigualdade na distribuição do rendimento. Entre nós, onde a taxa de pobreza objectiva é de 20% (uma imensa fatia populacional que já é pobre por completo), 47% consideram-se pobres e 39% afirmam ter dificuldades financeiras. Segundo o Senhor Presidente da República, em 18/10/2007, «sozinho, o Estado não consegue melhorar a situação». Conseguirá melhorá-la mesmo com ajudas? Porque o Senhor Presidente da República confessou: «Envergonho-me um pouco desta posição.» Fica-lhe muito bem essa vergonha. Mas é estranho o facto de só se envergonhar «um pouco». A vergonha total, quem terá de a sofrer?
Por JOAQUIM MANUEL MAGALHÃESIn “Expresso”

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Tempo de chacais

Novembro 23, 2007 · Deixe um comentário

Num discurso inflamado aos apoiantes da sua “Rússia Unida”, Vladimir Putin queixou-se dos “chacais”. São os que, segundo ele, mendigam desesperadamente em várias embaixadas estrangeiras em Moscovo, para organizar uma campanha de oposição satisfatória.

Pode perguntar-se se este “peditório” (ao Ocidente, presume- -se) resulta de falta de patriotismo de quem se vende por um prato de lentilhas, ou da asfixia que o Kremlin mantém sobre o sistema político. A doutrina divide-se.

Espera-se, a bem da humanidade, que a possível ausência de observadores internacionais não tire legitimidade às próximas escolhas eleitorais dos russos, em Dezembro e em 2008, depois de longas campanhas.

E espera-se, a bem da possibilidade de análise política, que o presidente seja mais explícito sobre os seus planos.

É que a especulação desceu à rua.

Quererá Putin sair da presidência para a chefia do governo? Fá-lo-á com qualquer presidente, ou só com um grupo selecto de candidatos? Será um PM cerimonial, ou quererá um presidente assim?

Por outro lado, dizem alguns exegetas, o imperativo constitucional que proíbe um terceiro mandato consecutivo só se aplica, na letra e espírito da norma, se os dois anteriores forem “completos”.

A ser esta a interpretação do art.º 81, n.º 3, o que impediria Putin de renunciar, meses ou dias antes de completar o presente período legal, para se candidatar outra vez?

Não forçaria uma revisão constitucional à medida, e tudo estaria no melhor dos mundos.

2. Ainda não li o texto, mas dizem-me que o diário “República Islâmica”, de Teerão, publicou, há dias, um editorial violentíssimo contra o presidente Ahmadinejad. Em síntese, acusa-o de “imoralidade, ilegalidade e ilogicidade”, no tratamento da oposição, sobretudo daquela que acusa de “traição”, por contestar a sua estratégia de afirmação nuclear.

O jornal está próximo do Grande Líder Khamenei, não é pago pelo Grande Satã ianque, e costuma ser visto como uma publicação pia, integrista, conservadora e leal.

Segundo o texto, cujo resumo me chegou, chega a sugerir-se aos tribunais que procedam contra o chefe do Governo, impedindo-o de propagar o alarme social e de difamar os adversários internos.

Outra vez a questão dos “chacais”.

3. Meio da noite, Zagreb, Duisburg, Londres alegria familiar, com a Croácia a dar um banho de bom futebol (e um balde de água fria) à Inglaterra. Justos como sempre, os adeptos britânicos acabaram a bater palmas aos gigantes balcânico-adriáticos.

Desta vez, não houve chacais mediáticos, e até José Mourinho aparece como salvador do desporto-rei (diferente de desporto dos reis) na ex-pérfida Albion.

Nuno Rogeiro, Comentador político

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O Fundo do Poço

Novembro 23, 2007 · Deixe um comentário

OPINIÃO  

Mário Negreiros

O Fundo do Poço


Com uma frequência assustadora e cada vez maior, vejo-me a pedir que chegue logo, o quanto antes, o fundo do poço. É a crença redencionista, apocalíptica, cristianíssima, de que a maldade tem que se revelar em toda a sua grandeza para que depois, só depois, nos rendamos à luz, à paz e à harmonia. E, no entanto, sendo o poço um poço, a queda sem fundo é horrível, abismal, mas a outra alternativa – o encontro com o fundo – é trágica. E fatal.

Mas não é um poço. E não tem fundo – embora possa ser trágica – e fatal. É a realidade, que sempre pode piorar. Sempre! E melhorar.

Vivi muitos anos no Rio de Janeiro, cidade que, berço da gentileza da bossa-nova e de tantas outras gentilezas, foi-se tornando, dia-a-dia, palco de violências de uma crueldade insuperável até que, na semana seguinte, outra crueldade a superasse. Pelo menos uma meia dúzia de tragédias cariocas ao longo dos anos 90 foram capazes de me convencer de que a cidade tinha chegado ao fundo do poço e que, a partir dali, só podia encontrar o caminho da luz, da paz, e da harmonia. Uma leitura rápida nos jornais cariocas de hoje (ou de ontem ou de anteontem, ou da semana passada) é o bastante para que se perceba o quão redondamente me enganava. Não há fundo. Sempre pode piorar.

E Portugal está em queda. Os portugueses estão em queda – ainda mais do que Portugal. O país tem instituições minimamente organizadas, consolidadas, bastante mais estáveis do que a vida das pessoas que o habitam. Essas, sim, estão em queda livre: cada vez mais televisão e menos música; mais carro e menos passeio; mais pressa e menos gozo; mais trabalho e menos filhos (já são raros os filhos – um desavisado que visitasse os parques e jardins de Portugal poderia pensar que os portugueses tinham deixado de fazer filhos e passado a fazer logo netos); cada vez menos pais e mais televisão (e avós, para quem tem a sorte de os ter).

O que mais será preciso para que os portugueses vejam que é concreta a sua queda e, em grande parte, reversível com movimentos de carácter meramente individual, independentes de governos, estados ou partidos? Um exemplo: não me consta que as estradas e, muito menos os carros, tenham piorado neste país. Se não são os carros nem as estradas, quem, se não os próprios portugueses, pode merecer a culpa pelo aumento das mortes nas estradas de Portugal? Claro que ao Estado cabe educar quem usa e reprimir e punir quem abusa. Mas se o Estado é que tem a culpa pelo aumento das mortes nas estradas de Portugal será pela mesma razão por que é do Estado a culpa por tudo o que de mal aconteça neste país – a nossa infantil necessidade de desresponsabilização, que, claro, exige um culpado de plantão (papel a que o Estado português – arrogante, ineficaz, etc, etc e etc, sim – se presta lindamente).

E, no entanto, se vejo algum movimento de reversão da queda geral não é naquilo que se convencionou chamar de “cidadania” (algo como “povo” mas mais sóbrio – enquanto o povo vai ao futebol, a cidadania vai passear na “Marginal sem Carros” ). Se alguns sectores da vida portuguesa tiveram os brios acesos pela crítica geral, a maior parte estará no sector público, onde se começa a ver funcionários firmemente empenhados em mostrar, pela sua postura e empenho, que há ali eficiência e respeito pelo utente.

Enquanto isso, na Net Cabo…

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HÁ ALTURAS ASSIM

Novembro 23, 2007 · Deixe um comentário

HÁ ALTURAS ASSIM


Há alturas assim, parece que se vive naqueles sonhos em que se quer correr e não se sai do sítio. Freud explica, qualquer manual dos sonhos explica, mas a gente continua a sonhar o mesmo. Tudo é pastoso, parece um barco que entra no lodo e não avança mais no meio de um grande e enorme rio. Toda a agitação é vã, sabe-se que algures há um perigo indefinido, uma escuridão que avança, um movimento profundo nas águas. Não é por acaso que esta é um das “sete tramas fundamentais” na literatura. Está no Beowulf, está na lenda de S. Jorge e o Dragão, está nos livros de Stephen King, está no Portugal de 2007. O barco está bem encalhado no meio do rio e não se consegue fugir para fora do perigo.

A gente olha para o Correio da Manhã, aquilo que os anglo-saxónicos chamam uma “fatia de realidade”, e vê bem o sonho do quero andar, mas não ando. “”Marta” (nome fictício), de 24 anos, confessou ontem às autoridades que deitou o seu filho num contentor do lixo“, atrás de muitas outras “martas” que desde tempos imemoriais mataram os seus filhos, ou os deixaram na roda, ou na estrada para serem encontrados com um fiozinho e uma medalha para, dizem os leitores de Dickens e os espectadores de telenovelas, um dia mais tarde se dar o improvável rencontro, ou se confirmar qualquer tragédia incestuosa. Destinos. “Marta” não leu a intelectual Prospect, que coloca o dilema ético-social sobre se há direito a ter filhos que não se podem alimentar, ou dito de outro modo, se é moralmente legítimo e socialmente aceitável os pobres terem filhos que depois vão viver dos impostos dos ricos que não os procriaram. Amanhã haverá outras “martas”. O barco decididamente não anda.

A “assassina do ácido voltou a ser posta em liberdade” escreve, perturbado, o jornal perante mais uma saga judiciária. Escrevendo em “juridiquês”, uma linguagem que hoje se tornou popular de tão usada que é, vê-se que a “assassina do ácido“, que estava detida em Tires para cumprir sete anos e nove meses de pena, “recebeu a ordem de libertação imediata, emanada pelos juízes desembargadores“, após recurso do advogado. Continua o jornal: “Nessa altura, o colectivo de juízes considerou que o acórdão condenatório tinha transitado em julgado e, por consequência, estava esgotado o prazo para um eventual recurso. Para chegar a esta deliberação, os juízes guiaram-se pelos prazos dos processos urgentes, mas (o advogado) contestou. Primeiro, entrou com um pedido de habeas corpus (libertação imediata) da sua cliente, que foi indeferido. Depois, alegou que a decisão dos juízes da primeira instância teria efeitos suspensivos sobre a eficácia dos mandados de captura (…) o que foi aceite pelos juízes desembargadores.” Corre Kafka, busca Kafka, bom cão Kafka!

A “assassina do ácido” anda nesta saga desde Maio de 2001, há mais de seis anos. O crime de amor, ciúme e raiva, que a levou a matar o namorado, crime do “coração” (o mesmo “coração” com que o povo se enleva no “pai de coração”) já não suscita sequer atenção de per si, a não ser no epíteto de “assassina do ácido“, são agora as peripécias jurídicas, o outro pântano, a outra areia que está debaixo do barco. Antes o mundo parecia simples: julgada, condenada, presa, libertada no fim da pena. Agora não, há advogados, juízes, polícias, desembargadores, um nome tão arcaico que se percebe bem encaixar na coisa. De que é que tens medo Kafka, não está nada aí, é só uma sombra…


Mantendo-nos nos crimes, temos mais um acto da saga mediática da “pequena Maddie“, opondo os defensores da tese do rapto aos defensores da tese do assassinato, hoje uma matéria patriótica. Cada revelação, num ou noutro sentido, faz parte da também pequena guerra civil que os portugueses travam contra John Bull, contra a pérfida Albion, que insiste em nos tratar como comedores de sardinhas, insulta o nosso embaixador, goza com os nossos polícias, e suspeita que, se algum louro britânico, algum cidadão civilizado dos países frios, cai nas malhas desses brutos (nós) é como no tempo da Inquisição. E nós, nessa altura, ficamos todos índios venezuelanos diante do Borbón que nos manda calar, nós explorados desde o Tratado de Methuen, vítimas dos vexames de Beresford, espoliados pelo Ultimato e que temos agora que aturar a sobranceria desses “bifes” que acham que podem vir cometer crimes ao nosso Algarve e voltaram para casa a dizer mal do senhor inspector de Portimão. Nós que até lhes ganhamos, de vez em quando, no futebol. Agarrem-me senão eu faço e aconteço, ouve-se no barco encalhado pelo medo.

Depois o Correio da Manhã explica-nos que há portas e portas. Umas servem para abrir, outras para snifar e ganhar muito, muito dinheiro. São “portas da percepção” diria Huxley, cheias de felicidade terrestre, contendo a módica quantia de 301 quilos (o quilo a mais dos trezentos seria para pagar o transporte?) de cocaína metida numas portas vindas do Brasil, cerca de três milhões e cem mil doses individuais com valor de cerca de 15 milhões de euros. No mesmo dia, mostrando a diferença entre o poderoso cartel latino-americano e a pobreza dos PALOP, um infeliz guineense identificado como Isolmané trazia três quilos numa mala de viagem vindo de Caracas e foi direitinho parar à prisão, porque só lhe devia faltar ter escrito na T-shirt ao que vinha e com que vinha. Nas casas de banho da noite chique de Lisboa, onde os famosos da Nova Gente riscam umas linhas de neve, não vai faltar produto, nem que seja a consumir a porta. Se no barco encalhado se tem medo e se quer fazer de conta que não se passa nada, há sempre maneira de o fazer, no nariz, na veia, na garganta.

O resto? Nem no Correio da Manhã sobra alguma coisa como resto: uma greve na Valorsul, uma empresa que dá “valor” ao lixo do Sul; uma mãe que quer que a filha ouça e arranjou o dinheiro para a operação e diz, sábia, que “as mães não devem ficar à espera do Estado“; uma senhora professora que nem três cancros diferentes chegavam para ser aposentada e que só conseguiu “ter justiça”; a ASAE, mostrando como se leva a sério a gestão política das polícias, deixou por um dia de funcionar como braço armado do fisco, para apreender numa humilde loja das Portas de Santo Antão umas aparelhagens de quinta categoria que servem para escutas, obtendo assim um bom título no jornal para o senhor ministro da Administração Interna. O barco está mesmo encalhado e afunda-se pouco a pouco. Haverá piranhas, crocodilos neste rio? Há sempre.

A culpa é do Correio da Manhã? Longe disso, aquilo é o Portugal de 2007, tal como ele é, irrelevâncias antigas, infelicidades de sempre, vidas miúdas, perdidas num mundo que cada vez menos se controla, de que cada vez menos se descola. Não é obra de cínicos intelectuais que só querem dizer mal e não partilham do glorioso optimismo dos governantes, é o retrato do pântano do nosso lento empobrecimento a que nos condena o “modelo social” vigente, da desorganização atávica das nossas instituições, do salve-se quem puder, de uma mediania muito perto da pobreza e do atraso. É o que o espelho da verdade nos mostra.

É como nos sonhos, bem se quer correr, mas é difícil correr no meio de gelatina, da pasta viscosa da nossa anomia, quando uma a uma se perdem as raríssimas oportunidades de fazer diferente. Até o Papa percebeu isso e fez o que fez aos bispos, só que nós, se o tivéssemos à civil, atirávamos pedras ao homem. Não se é feliz no país do Correio da Manhã, mas o país do Correio da Manhã é o nosso país.

Pacheco Pereira

(No Público de 18 de Novembro de 2007)

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