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António Lobo Antunes

Novembro 5, 2008 · Deixe um comentário

Fico sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. Olha, as flores da jarra estão a murchar na água cinzenta, as folhas soltam-se, uma a uma, dos caules, tudo isto em silêncio.

Fico sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. Olha, as flores da jarra estão a murchar na água cinzenta, as folhas soltam-se, uma a uma, dos caules, tudo isto em silêncio, sem pressa, a tombarem na toalha, enroladas, secas. Dizia eu que fico sempre espantado
com a vida das pessoas: até o que lhes dá prazer me surpreende. Meu Deus, o que se agitam, tanta pressa sempre. E olhos ocos, aflitos. Tenho agora mais flores na sala do que num velório. Vêm daqui e dali com cartõezinhos simpáticos, a lembrança dos vivos. Se calhar morri sem dar por isso e continuo a existir na memória dos outros. Tocam à campainha e é um sujeito com flores. Estendem-me um papel
– Assine aqui

garatujo a hora, garatujo o nome, carregam no botão do elevador, somem-se e eu com aquilo nos braços. Vou deixando os ramos não importa onde: não há esquife aqui, não os posso encostar ao defunto. A voz da minha mãe ao telefone, a gritar como sempre. Coitada, tem passado algumas aflições com os filhos. Olho para ela e vem-me à ideia que a velhice depena as pessoas, tira-lhes bocados, às vezes dá-
-me a impressão que à minha mãe falta um pedaço da crista quando a vejo sentar-se à mesa ou que o tempo, como uma borracha, lhe apagou parte das feições, quebrou um bocadinho a voz, poliu os dedos que se tornaram sedosos, frágeis. Ali está ela a olhar para dentro, por vezes numa espécie de sorriso, quer dizer não é a boca que sorri, o sorriso à frente da boca, a flutuar sozinho. Eu na outra ponta da mesa, no lugar do meu pai a pensar

– Como é que o garfo vai atravessar o sorriso?

com medo que o garfo o leve para o prato e não leva, o sorriso continua intacto, perfeito, e é por baixo dele que a minha mãe mastiga. Chama-se Margarida. Em criança julgava que as pessoas, à medida que o tempo ia correndo, mudavam de nome. Por exemplo Rita assenta bem numa rapariga, não assenta tão bem numa senhora de idade e então trocavam o Rita por Clotilde ou Leopoldina, por exemplo Joana não calha numa ruiva e então muda-se para Beatriz e ao começar a fazer madeixas recupera o Rita, por exemplo Hermes desafina num bébé de maneira que fica à espera que o bébé tenha cinquenta anos e entretanto dizemos Pedro, mas a minha mãe foi Margarida sempre e não a concebo Fortunata nem Elisa nem Cátia embora para mim fosse

– Mãe

e estava encerrada a questão. E lá vai o garfo sem amolgar o sorriso. A única pessoa que não usava o

– Mãe

era o meu pai e as empregadas não

– Mãe

nem

– Margarida

as empregadas

– Senhora

o que me parecia um pleonasmo, como pôr ketchup em cima das rodelas de tomate. Os meus colegas de escola davam igualmente

– Mãe

às mães deles, o que eu achava estranho até perceber que

– Mãe

era o nome mais vulgar em Portugal. Curto, rápido, preciso e fácil de gritar durante o horrível suplício do corte das unhas, sobretudo o mindinho que uma tesoura feroz atacava magoando-me sempre, ou então era o medo que me magoasse que me magoava. Horas tremendas

– Que horror essas unhas

ordens horríveis

– Chega-te mais para a luz

conselhos tenebrosos

– Não te mexas agora

e isso, o arrancar dos pontos pretos com o aviso

– Está quase

seguido da exibição de uma coisa microscópica na ponta do indicador, sem mencionar a sopa

(– Quem não tem fome de sopa não tem fome de doce)

e a lavagem dos dentes, constituíram os suplícios cardinais da minha infância. Entretanto acho que me desviei do princípio desta crónica, ou seja de ficar sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. E as folhas das jarras a desprenderem-se dos caules. Se me deitasse no chão da sala acabavam por cobrir-me por inteiro e eu debaixo delas dando pela empregada a abrir a porta, a olhar para aquilo e a varrer-nos na direcção da pá: lá vou eu para o contentor dentro de um saco plástico, cheio de perfumes moribundos como os das tias-avós, rodeadas de essências vagas e tristes. Claro que se eu chamar a dona Olívia não liga: não acredita que as plantas falem e para o caso de se atreverem a falar nada melhor do que empurrá-las com força para o fundo. O que os outros se agitam, tanta pressa sempre, e eu quieto.
Sou um narciso, uma begónia, uma túlipa, ou antes restos de narcisos, de begónias, de túlipas, tão doces, tão pálidas. Mas não terei olhos ocos nem aflitos, apenas um caule tranquilo e por cima sacos plásticos dos vizinhos. Hoje voltei para casa, a seguir ao jantar, atrás de um bêbado.
Ia de um lado ao outro do passeio,
majestoso, lento. A certa altura parou a fazer chichi contra uma parede, um chichi interminável, uma abundância de fonte. Lembrei-me do bêbado de Pedro Páramo

– Ai vida não me mereces

e de caminho dei-lhe uma palmada no ombro que por pouco não o fez desmoronar-se, caindo tijolo a tijolo na rua mal iluminada, com grandes manchas de sombra que afogavam os automóveis estacionados, os prédios. Jantei sozinho num restaurantezito onde uma rapariga de cabelo pintado de loiro jantava sozinha. Ao levantar-me tinha saído.
Para onde? O que fará agora?
Sentada diante da televisão, com uma revista esquecida nos joelhos? A ler? À espera de um telefonema que não chega? Na janela em frente dois homens penduram um quadro na parede, afastam-se a observar o efeito, endireitam-se. Vinte e três horas e vinte e três minutos, vinte e três horas e vinte e quatro minutos. Hoje de manhã a televisão holandesa a entrevistar-me: deve ser uma estucha para os jornalistas porque não falo da minha vida e muito menos dos meus livros, eles que se defendam sozinhos. A certa altura silêncio e a produtora a perguntar-me o que pensava eu. Não respondi. Para quê?
É que se respondesse dizia-lhe que não pensava em nada, pensava no vácuo.

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O Meu Nome É Legião — Parte 3

Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário

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O Meu Nome É Legião – Parte 2

Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário

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A insónia criativa de Lobo Antunes

Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário

A insónia criativa de Lobo Antunes em livro novo

A insónia criativa de Lobo Antunes em livro novo


JOÃO CÉU E SILVA no DN.

Lançamento. ‘Arquipélago da Insónia’ Em muitas madrugadas recentes, António Lobo Antunes toma um comprimido para dormir ou senão passaria essa parte do tempo, em que deveria estar a dormir, a “corrigir o livro que está a escrever”. Já não se trata do volume O Arquipélago da Insónia, que está à venda a partir de hoje, mas do próximo livro cuja primeira versão quer ver concluída ainda este ano.

Mas se as suas noites não são de insónia, tal não quer dizer que viva fora do seu arquipélago porque, mais do que nunca, o escritor está a viver para os livros… Livros? É que, apesar de serem catalogados como romances, Lobo Antunes afirma que não tem a certeza de estar a escrever este género literário! Será mais uma outra coisa, que possui essa característica, mas por se exigir a si próprio cumprir-se como escritor que faz algo para além do seu tempo e que, como confessa, não o torne uma unanimidade antes de um futuro, momento em que a revolução que pretende inscrever nas suas obras só então possa ser realmente compreendida. Talvez, por isso, quando recebe mais um dos muitos e importantes prémios literários – como tem acontecido – receia que essa unanimidade seja mau prenúncio para o que pretende pôr na estante da literatura.

O mais recente livro é o 20.º título que publica se excluirmos os três volumes de Crónicas e as Cartas da Guerra que as suas filhas recolheram e editaram. Desde Memória de Elefante que António Lobo Antunes percorre uma vida literária que no próximo Verão irá celebrar trinta anos. Pelo meio ficou um ciclo inicial de três obras que expurgam as suas feridas da Guerra no Ultramar; um volume – Fado Alexandrino – que o seu pai considerou definitivamente um romance; uma primeira trilogia de romances psicanalíticos – desde o Tratado até Carlos Gardel - sobre vida e pessoas triviais; uma segunda série de romances de grande fôlego como O Manual os Inquisidores e O Esplendor de Portugal até que o autor entrou numa retratação mais intimista da sociedade portuguesa (aquela que vigora nas cidades), fixando algum do cosmopolitismo nacionalista e português como cenário para o florescimento das personagens bastante vezes desprovidas de nome e de caracterização. Pelo meio, ficaram as colectâneas de crónicas que tanto seduzem os (proto) leitores de Lobo Antunes e, a ultimar a sua mais recente fase, livros de uma maior e inesperada cumplicidade com o tempo em que vive, como é o caso de O Meu Nome É Legião, onde pontuaram jovens delinquentes de que a primeira notícia da sua existência poderia ter estado nas páginas de crime dos jornais.

Em O Arquipélago da Insónia (ler texto em baixo), o autor regressa geograficamente a dois panoramas naturais que lhe dão prazer: o bucólico interior de um Ribatejo cujo rio que o atravessa desagua na Trafaria. É aqui, nestas duas localizações, que prende as personagens ao correr de uma divisão em três partes e fá-lo em apenas metade do espaço que habitualmente dedica à sua narrativa: 263 concisas páginas.

Para o leitor habitual de Lobo Antunes, esta diminuição gráfica do que fica registado entre as duas capas poderá ser uma surpresa mas, como diz o escritor – que tem o desejo de colocar nesta medida a “vida toda” -, quer chegar à última palavra (“nunca”) sem jamais se sentir fora daquilo que é o resultado da experimentação literária por que tem lutado.

Em O Arquipélago da Solidão o autor faz um quase travelling cinematográfico que se cola/sobrepõe a um exercício de estilo literário ainda mais inovador do que tem entregue aos leitores na última fornada de títulos, com uma ou outra excepção, que terá origem no mundo particular de um autista, não se desobrigando o autor a utilizar todas as ferramentas necessárias à análise histórica e social que fizeram o século XX. |

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«Saber ler é tão difícil como saber escrever»

Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário

Podemos começar por falar de amor?

Se eu souber responder…

O título do seu novo romance, Eu Hei-de Amar Uma Pedra, nascendo embora de um canto popular, terá a ver, igualmente, com impossibilidades do amor?

Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstractos são perigosos.

Há uma personagem no livro, que, à quarta-feira, ao longo de décadas, vai, secretamente, a uma pensão da Graça, ama e ali morre…

Foi daí que o livro veio. Só mudei o sítio. Sempre me espantou essa extraordinária forma de amor. A sexualidade, sempre tão importante para mim – e continua a ser -, cada vez me parece mais vazia de sentido quando não há outro modo de diálogo e de encontro, embora seja muito difícil resistir ao desejo imediato.

Amor é algo mais?

A noção de amor varia de pessoa para pessoa. Muitas vezes estamos apaixonados ou estaremos agradecidos por gostarem de nós? Ou será que o outro é apenas alguém junto de quem nos sentimos menos sozinhos? Não sei bem o que é a verdade acerca do amor e duvido que haja quem saiba. Só tenho perguntas, não tenho respostas. Até que ponto o amor não é apenas a idealização de um outro e de nós mesmos?

Nunca é fácil salvar uma relação…

Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam. Não me preocupa muito. Preocupa-me em relação a mim mesmo, mas há grandes partes da minha vida que eliminei sem piedade. Não vou a jantares, não vou a lançamentos.

E não tem solidões?

Preciso e gosto de estar sozinho.

Ao fim de 25 anos de vida literária, celebrados hoje, quem é António Lobo Antunes para António Lobo Antunes?

Vida literária custa-me a engolir, soa pretensiosa. Digo que se passam 25 anos sobre a publicação do primeiro romance [Memória de Elefante], que andou em bolandas, de editora em editora, a ser rejeitado. Quando saiu, já tinha acabado mais dois livros. Mas 25 anos é muito tempo e serve para ver que já não terei mais 25 para escrever.

Em princípio, a morte não está nas nossas mãos…

Às vezes, a gente morre por desatenção. Outras vezes morre-se quando se pode. Mas, a maior parte das vezes, morremos porque se nos acabou a saúde. Não fomos feitos para a morte, a não ser para a morte voluntária. A involuntária sempre me pareceu uma tremenda injustiça, para não falar em crueldade.

A intensidade poética da sua prosa é para aliviar tensões entre as personagens?

Não me é consciente. Uma coisa para mim é clara: tenho de proteger os meus ovos, que são os meus livros. Se racionalizar as coisas, perco-as. Estaria a fechar portas a mim mesmo e a essas coisas, que não sei bem se me pertencem, e emergem com essa força. Nos momentos felizes, a mão anda sozinha. A cabeça está a ver ao longe e fica contente, porque são as palavras certas que a cabeça não encontraria. É a mão.

Como dissocia o escritor da obra?

Não tenho bem a sensação de o livro nascer de mim. Faço a primeira versão, trabalho muito a segunda, no entanto, depois de entregar o livro, não vejo provas, não faço mais nada. Tudo o que quero é fazer outro. O livro só existe quando estou a escrever. E o tempo é-me muito curto. Se fizer mais dois ou três…

Um autor acéfalo conseguirá realizar uma obra-prima?

Se tiver uma mão suficientemente grande… Prende-se com um conjunto de coisas: primeiro, é preciso ter lido muito. Aprende-se a escrever, lendo. E também é necessária uma grande humildade face ao material da escrita. É a mão que escreve. A nossa mão é mais inteligente do que nós. Não é o autor que tem de ser inteligente, é a obra. O autor não escreve tão bem quanto os livros.

Está a dizer-me que o livro, em relação ao autor, é uma mentira?

Estou a dizer que o livro é melhor do que eu. Não escrevo assim tão bem.

Quem escreve o livro por si?

Um dia, em conversa com Eduardo Lourenço, a propósito de criação literária, ele lembrava o soneto de Pessoa (de quem não sou grande fã e ele é), que fala de «emissário de um rei desconhecido (…)», uma espécie de mensageiro. Há uns tempos, disse ao telefone, ao meu agente, ter a sensação de que era um anjo que estava a escrever por mim. Lembrei- -me, então, que anjo quer dizer mensageiro. Quando estou a escrever, parece que estão a ditar-me e a mão a reproduzir.

Considera-se um predestinado?

Não. Isso até aumenta a humildade. Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

Despojamento, uma outra riqueza?

Quando uma pessoa morre, tira-se-

-lhe a roupa, objectos pessoais, o dinheiro, os óculos. Que vão vestir os mortos quando voltarem? Que dinheiro têm para comer quando voltarem? Morro, podem ficar os livros, mas os livros não são eu, que terei a boca cheia de terra e estarei no céu ou em parte alguma. Que diferença me faz? Quando voltar, com que óculos é que vou ler?

Como regressam os mortos?

E será que partem? Sou um homem religioso. Há um provérbio húngaro muito velho que diz: «Na cova do lobo não há ateus.» O nosso problema é se Deus acreditará em nós. Deus, porém, tem coisas incompreensíveis para mim. Acho que gosta muito dos tolos, porque não pára de os fazer. Mas, se calhar, o caminho de Deus terá tais profundezas que a gente não as entende. Tenho, sobretudo, a experiência das perdas. A perda de qualquer amigo é uma ferida que nunca cicatriza. A perda de pessoas de quem gostei, e que não são substituídas por nada, deixaram vazios que nunca serão preenchidos. Isso também ajuda a tornar-nos humildes.

Na desmultiplicação do narrador, em Eu Hei-de Amar Uma Pedra, todas as personagens se confrontam com perdas…

Dizem que os meus romances são polifónicos. Não são. É sempre a mesma voz que fala e gostaria que fosse também a voz interior do leitor. Ou melhor: essa voz não fala, nós é que a ouvimos.

Uma voz que se desdobra em vozes de muitas sombras?

Sombras, luzes. Gostaria que fossem vozes totais, para mim são vozes totais, porque trazem consigo carne, corpo. O drama é que a gente está a ler em folhas de papel. E, no entanto, nunca tive a sensação de fazer ficções.

O seu novo romance parte de fotografias. São o maior registo da memória?

Não acho que os romances sejam novos. Existem há muito tempo, à espera que seja capaz de chegar a eles. Em miúdo, conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento. Mas temos fotógrafos geniais.

Não tirou fotografias às suas filhas?

A ninguém. Da mesma maneira que nunca gosto de me ver fotografado.

Acha-se feio?

Nunca lidei bem com o meu corpo. Vejo agora fotografias de quando era bebé ou de há 30 anos, e era bonito. Quando tinha 18 anos, as mulheres metiam conversa comigo.

Em dado momento da sua vida, isso foi razão para o tornar vaidoso?

Não era importante. Importante era que as mulheres fossem bonitas. As mulheres sempre exerceram um grande fascínio sobre mim.

Sentiu falta de um elemento feminino entre os seus seis irmãos?

Não podia sentir, porque não sabia o que era o elemento feminino.

Havia a mãe, as avós…

As mães, os pais não têm sexo. A mãe era a mãe, e mulher do meu pai. Também não sabia muito bem o que era ser mulher do meu pai. Julgo que todos os miúdos vêem os pais de uma maneira assexuada. Eu via a barriga da minha mãe a crescer mas não sabia qual o mecanismo que fazia com que a barriga da minha mãe crescesse.

Acreditava que os bebés chegavam no bico de uma cegonha?

Comigo era diferente. O meu pai estava na Alemanha, vinha uma vez por ano e a barriga da minha mãe começava a crescer. Sabia que tinha alguma coisa a ver com o facto de o meu pai ter estado cá. Mas nunca os vi beijarem-se, não sabia muito bem como aquilo era feito.

Não se falava de sexualidade às crianças. Hoje, o próprio ensino dá-lhe alguma atenção. É melhor?

Não faço juízos de valor, não sou médico.

É médico psiquiatra…

Já não faço nada disso. Só escrevo palavras. Nunca analisei essa parte, só me interessava tentar entender. Se analisarmos, não entendemos.

Como se chega ao entendimento sem análise, sem crítica?

Por osmose. Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver. Acho que era Malraux quem dizia: «A partir do momento em que a gente compreende, deixa de julgar.»

Que tempo vivemos: o do julgamento?

Tenho uma vida um pouco especial. Estive recentemente na Roménia, um país que me encanta e me faz reaprender o que é a liberdade. Um país muito parecido connosco…

No aspecto da liberdade?

No da latinidade. Quando voltei, havia todas essas coisas provocadas por este espantoso governo que temos. Tudo o que se tem passado me dá vontade de rir. Nós nunca vivemos em democracia, tal como os EUA não vivem em democracia. A democracia implicaria um referendar constante das decisões, e isso não acontece.

Há eleições…

Vota-se de quatro em quatro anos, mas, entre esses quatro anos, não nos pedem opinião. O que se tem verificado em Portugal, a propósito da liberdade de imprensa, não passa de uma luta de poder igual a tantas outras. De uma forma geral, olho para os políticos com uma indulgência divertida, sejam de que partidos forem. Há pouco tempo, estava no estrangeiro, num encontro com cento e tal escritores, e ouvi falar de Portugal por causa do «barco do aborto». Comentava-se que um ministro nosso terá dito: O mar português é um mar com princípios. Foi um motivo de troça à minha custa, que não tinha culpa nenhuma.

Portugal é diferente dos outros países?

Claro que não. Nem somos piores. E temos uma língua espantosa. E um clima maravilhoso. Cada vez me seria mais difícil viver longe de Portugal. Gosto muito do meu país.

Costuma ler as críticas à sua obra?

Devo ser dos poucos autores que não lêem as críticas, sejam boas ou más. O que faço ainda é cedo para ser compreendido. Tenho a sensação que estou a escrever coisas maiores do que eu. É preciso deixar passar um tempo. Talvez daqui a 50 ou cem anos seja tudo mais claro. Se uma pessoa está à frente do seu tempo, isso provoca reacções contraditórias. Mas há críticos excelentes que iluminam zonas de sombra dos livros. É também preciso grande humildade para se escrever sobre o que se lê e não julgar-se um livro com a nossa chave. Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons.

Prefere que a chave dos seus livros fique na posse do leitor?

A chave vem com o livro. Saber ler é tão difícil como saber escrever.

Há quem tenha dificuldade em entrar nos seus livros…

Para mim, os livros que escrevo são óbvios e evidentes. Ao lermos certos autores muito bons – estou a pensar no Conrad -, parece caminhar-se no meio do nevoeiro e, de repente, o nevoeiro começa a levantar-se e o livro fica totalmente claro. Quando, aos 20 anos, via um filme de Bergman, aborrecia-me profundamente.

A partir de que idade começou a entender Ingmar Bergman, considerado o cineasta da memória?

A partir dos 40, comovia-me até às lágrimas. Era eu que não estava preparado para ver aqueles filmes e notar o quanto de mim existia neles. Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

Quando na sua escrita suspende a frase, a palavra, deseja deixar portas abertas? Pretende ter o leitor como um interlocutor constante?

Fui compreendendo que tinha de pôr a prosa a respirar de uma outra forma. É também uma maneira de pontuar. O problema é como isso se traduz para outras línguas. Neste momento, na Rússia, estamos com problemas de tradutores de português; traduz-se a partir do alemão. O português, em muitos países, é como o esloveno para nós. Um país onde se traduz maravilhosamente é em Espanha.

Que imagem tem da língua portuguesa, falada por 250 milhões?

Na sua maior parte, as pessoas que conhecem o português em alguns países conhecem o português do Brasil, cujo léxico e musicalidade são diferentes. Julgo que o meu português coloca problemas específicos. Estou a lembrar-me do problema que foi para um tradutor expressões como alto lá com o charuto. Todas as línguas têm a sua idiossincrasia. Uma tradução acaba por ser uma fotografia a preto e branco.

Sente-se bem a escrever em português?

É a minha língua, não me imagino a escrever noutra.

Nos seus livros faz sempre uma visita à infância. É o património mais vasto e rico da sua escrita?

Queria que os livros tivessem todos os tempos da minha vida. Talvez a partir de uma certa idade estejamos mais atentos à nossa infância.

Estou a lembrar-me de Séneca, que diz: «Ama como se morresses hoje.» No seu caso, escreve como se pudesse morrer hoje?

Não quero nada morrer hoje. Estou a meio de um livro, não o queria deixar imperfeito. E queria viver mais dois anos para fazer outro, e mais dois para fazer outro, como se andasse a negociar a vida. Gostaria de ter mais dez anos para escrever. E se calhar, mesmo morto, a mão vai continuar a avançar.

Quando poderá o escritor ter a percepção de que deve parar?

A partir de certo momento, tudo começa a ossificar-se. Muitas vezes não temos essa percepção.

Tem palavras por meio das quais procure um significado absoluto?

Tenho aprendido mais a escrever com os poetas do que com os prosadores. Em poesia, pelo menos nos poetas que admiro, cada palavra tem um brilho próprio. Mas não gosto de dividir as coisas em romance, conto, novela, poema.

Convoca tantas flores para os seus livros… Fazem parte da sua natureza?

Vivo sem flores, não tenho flores em casa. Vivo com livros e quadros, a maior parte oferecidos pelo Júlio Pomar. Nunca tive bens materiais. Nem uso relógio. Posso fazer a mala e ir-me embora. Não estou agarrado às coisas.

António Lobo Antunes
escritor
DN.TEMA: 25 anos de vida literária

«Saber ler é tão difícil como saber escrever»

maria augusta silva

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António Lobo Antunes vence Prémio Juan Rulfo

Setembro 12, 2008 · Deixe um comentário

Depois do Prémio Camões e do Prémio Terence Moix, ambos entregues este ano, o escritor António Lobo Antunes acaba de ser anunciado vencedor do Prémio Literário Juan Rulfo que, pela primeira vez, consagra um autor português.
O prémio, no valor de 150 mil dólares, será entregue no próximo mês de Novembro, durante a Feira do Livro de Guadalajara, no México, onde o romancista português estará presente. Instituído em 1991, o Prémio Juan Rulfo, considerado um dos mais importantes no panorama literário latino-americano, teve no escritor chileno Nicanor Parra o seu primeiro vencedor. Na última vez que o prémio foi atribuído a escolha recaiu no mexicano Fernando del Paso. O Prémio Juan Rulfo já consagrou dois autores cubanos, um peruano, dois argentinos, dois brasileiros e dois espanhóis. Distingue agora, pela primeira vez, um escritor português e a honra coube a António Lobo Antunes.

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Lobo Antunes em entrevista

Julho 23, 2008 · 1 Comentário

É um livro mais curto, com um registo mais rápido que os anteriores. Deixou de gostar daquelas longas «sinfonias»?
Não tem nada a ver porque, como leitor, continuo a gostar de romances grandes. A questão é que, a partir de agora, os meus livros vão sendo sempre cada vez mais curtos. Não sei explicar porquê – o livro acaba por ter a dimensão que ele próprio exige, é ele quem comanda.

Conhece bairros periféricos de Lisboa como o que retrata?
O livro refere-se a um bairro em concreto, embora eu nunca lá tenha estado. Sempre me impressionou o facto de aqueles miúdos não terem raízes de espécie alguma. Não são portugueses, não são africanos, não são nada. Brincam com balas em vez de brincarem com bolas. E no entanto há neles uma sede de ternura, um desejo de amor absolutamente inextinguível. A morte e a vida não têm, para eles, qualquer significado ou, pelo menos, têm um significado muito diferente do que para nós. Na minha ideia, O Meu Nome É Legião era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à procura de uma razão de existir.

Revê-se naqueles garotos?
Quando começo a escrever um livro, não tenho qualquer plano. Aqueles garotos, aqueles polícias e, no fundo, todas aquelas vozes vão-se encadeando de tal modo que sou o primeiro a ficar espantado. Não posso, no entanto, dizer que me revejo neles porque, naquele momento, éramos só uma e a mesma coisa. Uma espécie de relação simbiótica.

Eles estão excluídos deste mundo?
Estão de tal maneira abandonados que matar pessoas é a única maneira que têm de pedir colo. Não sei, porém, o que se passa na realidade, uma palavra idiota porque a realidade é uma coisa que não existe. Todas aquelas pessoas têm, para mim, uma densidade muito profunda.

E, nessa medida, o livro também é uma realidade?
É a única realidade que existe. Não se trata de viver noutro planeta, mas a verdade é que, quando estou a escrever, a minha vida muda por completo. Encontro uma razão, um motivo e uma direcção. E é óbvio que dou muito mais importância aos livros do que às crónicas, que são apenas…

…uma questão alimentar, como costumava explicar.
Não, já não. São antes a possibilidade de poder fazer uma espécie de itinerário paralelo. Como quando, em miúdo, andava com o meu avô em estradas paralelas à via férrea, ficando com a sensação de viajar, ao mesmo tempo, no automóvel e no comboio.

Diz que não conhece aquele bairro…
Não conheço aquela realidade do ponto de vista jornalístico.

Mas sempre gostou de subúrbios.
Aquilo não é sequer um subúrbio. Para mim, o subúrbio é Benfica ou o Cacém. Aquilo é muito pior do que isso. Aquilo é o inferno. Aquelas pessoas vivem num inferno onde eu nunca entrei.

Foi ganhando carinho por aquelas personagens?
Não sei se os leitores entenderão que o livro está a transbordar de amor. Custou-me muito que aquelas personagens morressem. Repare que até o professor não é muito diferente dos garotos – todos estão terrivelmente desamparados. Sempre me comoveu ver o desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo, numa certa desprotecção.

Mas essa não é uma característica apenas do último livro.
Obviamente que não. Lembro-me de começar a escrever Explicação aos Pássaros na Alemanha, em casa da tradutora que tinha na altura. Convencido de que estava a fazer um romance completamente diferente, mostrei-lhe as primeiras linhas e ela disse-me que não via ali nada de diferente: «És tu.» Não consigo fugir disto – há sempre é um «outro eu» que escreve. Como quando aquele admirador da Sarah Bernhardt a encontra na rua e pergunta: «É a dona Sarah Bernhardt?» E ela responde: «Serei esta noite.»

Ficou comovido com o acolhimento que teve agora em Berlim, no Festival Internacional de Literatura?
Comovido é uma palavra exagerada. Agora, a qualquer lado onde vá, é sempre assim. Torna-se um pouco incómodo porque estive o dia inteiro a dar entrevistas no hotel e, quando saí, havia uma série de pessoas cá fora. Queriam um autógrafo não num livro, mas num pedacinho de papel. Como se eu fosse o Enrique Iglesias.

E com o Prémio Camões, que recebeu no princípio deste ano, ficou comovido?
Agora, de três em três meses, recebo um prémio. Antes, tinha vindo o Prémio Ibero-Americano, depois veio o Camões e, há dias, chegou o Neruda. É muito agradável recebê-los, mas um prémio nada tem a ver com a literatura na medida em que não melhora nem piora os livros. Um prémio é só um prémio.

Faz sentido voltar a falar no Nobel?
Nem penso nisso. Agora menos que nunca.

Porquê?
Porque há coisas muito mais importantes. Tenho a certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer Nobel que me possam dar. Mas não me queria alongar sobre esse assunto, porque me parece que se dá excessiva importância a um prémio literário. Tolstoi e Conrad nunca o tiveram. E eles é que são os meus colegas.

Sente-se bem na companhia deles?
Não estou nada mal [sorrisos].

Até se ri…
Sabe, este foi um ano muito duro para mim. Para além de ter recebido constantes lições de dignidade e de coragem por parte de pessoas anónimas, aprendi a ter ainda mais respeito e admiração pelos portugueses. Compreendi porque é que fomos nós a ir naqueles barquinhos de 14 metros sem quilha, porque é que atravessámos o Atlântico, porque é que fizemos o que fizemos. E fiquei muito orgulhoso quando percebi que o povo ainda é o mesmo. Fez-me lembrar aqueles versos de Sophia: «Esta gente cujo rosto/ Às vezes luminoso/ E outras vezes tosco/ Ora me lembra escravos/ Ora me lembra reis». Foi muito bom ter tido essa experiência.

Muito bom?
Aprendi a admirar as pessoas do meu País. E a respeitá-las ainda mais. E a amá-las ainda mais. E a gostar cada vez mais delas. A partir daí, tudo o resto se tornou relativo. Houve coisas que deixaram de ser importantes. E normalmente é quando elas deixam de ser importantes que vêm ter connosco… O que me interessa, neste momento, é poder ter tempo para escrever, viver o suficiente para conseguir acabar o meu trabalho sem decepcionar os que acreditam em mim. Surpreende-me todo este reconhecimento internacional porque, no fundo, só escrevo livros, o que não me dá um mérito por aí além… É apenas trabalho.

E muito trabalho…
Ser pedreiro, médico ou outra coisa qualquer também dá muito trabalho. E ser doente, ser doente dá muito trabalho.

Porque é que decidiu escrever aquela crónica da VISÃO, intitulada Crónica do Hospital, onde revelava que tinha um cancro?
Como já havia muitos boatos contraditórios, resolvi aclarar as coisas e dizer a verdade. A crónica foi escrita mesmo no hospital. Mal conseguia escrever, não tinha forças para nada. O que posso dizer é que eu e todos os outros doentes só recebemos atenções. Dos médicos e dos enfermeiros, mas também das pessoas mais modestas que lá trabalham. Se dizem que tratam mal os doentes nos hospitais, a minha experiência foi justamente a contrária. Sempre vi os doentes serem tratados com a maior dignidade. Estou muito grato às pessoas que cuidaram de mim e que tiveram comigo a maior delicadeza.

O Meu Nome É Legião é, aliás, dedicado a Henrique Bicha Castelo, que o operou.
Para ele, do ponto de vista emocional, não deve ter sido nada fácil. Porque o Henrique não foi apenas o meu médico, é meu amigo. Para além de ser um cirurgião de renome internacional, é um homem de uma qualidade humana, de uma capacidade de amor, de uma generosidade e de uma ternura absolutamente excepcionais.

Durante todo esse período, lembrou-se alguma vez do António Lobo Antunes médico?
Tudo isto me fez ter saudades da Medicina. Pela primeira vez, tive saudades da Medicina. E, nos últimos tempos, tenho tido saudades. Agora já é tarde porque a escolha foi feita há muito tempo. Mas, se pudesse voltar atrás, talvez tentasse manter alguma relação com a Medicina.

Enquanto não pôde viver da escrita, viu a Medicina como uma forma de ganhar a vida.
Eu até gostava de ser médico. O meu pai era médico, cresci no meio dos hospitais, mas estar internado é outra coisa muito diferente. Não há nada de mais horrível do que uma noite passada num hospital.

As noites passadas num hospital duram mais?
São infinitas. E é aí que aparece o desamparo. Não estou a falar de mim, estou a falar de uma maneira geral. É óbvio que senti tudo isto. Sofri muito e, ao mesmo tempo, toda esta experiência também me enriqueceu. Sai-se disto com mais amor pela vida e com a sensação de que é uma honra estar-se vivo.

Sai-se mais sereno?
Não lhe sei responder, porque nunca fui uma pessoa de grandes exaltações. É claro que tomei consciência da minha finitude, porque todos vivemos em função de eternidades. Uma pessoa de 20 anos pensa que tem à sua frente 50 anos e, para ela, esses 50 anos não vão passar nunca. A minha mãe, por exemplo, vive em função de eternidades de seis meses. E, na prática, esses seis meses são tão compridos como os 50 anos do jovem de 20 anos. Quando a Maria Antonieta pedia ao carrasco «só mais um minuto, senhor carrasco», para ela aquele minuto era eterno.

Virginia Woolf dizia que, a partir de certa idade, os dias são uma eternidade, mas os anos passam a correr.
E Churchill dizia que os anos passam num instante, o que custa a passar são os minutos. Mas quando os escritores querem parecer inteligentes, eu desconfio sempre. A atitude de sedução sempre me irritou e irrita-me cada vez mais. É isso e, sobretudo, a amargura. Há para aí um cronista num jornal diário que deve ser a pessoa mais infeliz do mundo. Destila tanto fel… Meu Deus, como se pode ser assim?

Está a falar de Vasco Pulido Valente?
É uma dedução sua. Não o conheço, mas o que ele escreve faz-me imensa impressão. E pena. Não me irrita, não me enerva, não me exalta, não me comove. Faz-me pena. Não gosto de pessoas amargas porque são mal agradecidas. A ingratidão é o pior sentimento que pode existir.

Sempre prezou a sua privacidade. Hesitou ao escrever aquela crónica na qual se expôs como nunca antes o havia feito?
Para quem souber ler, exponho-me muito mais nos livros. Em O Meu Nome É Legião, por exemplo, aqueles garotos vieram de dentro de mim, são parte de mim. Quando me fala em serenidade, é evidente que estou muito mais sereno, muito mais seguro do valor do meu trabalho.

Depois da operação, foi difícil voltar a escrever?
Muito difícil. Não era capaz, cansava-me. A seguir à operação, nem sequer escrevia. Estava sentado numa cadeira, sem ler, sem fazer nada, a olhar para a parede. Estive quase dois meses assim. Não tinha nada dentro.

Tinha um romance começado?
Sim, tinha começado a escrevê-lo seis ou sete meses antes. E, como nunca tinha feito uma interrupção, só me perguntava: será que sou capaz de retomar o livro? Depois, devagar, comecei a aproximar-me dele, sem lhe tocar, sem lhe tocar mesmo. Tinha ficado a meio de um capítulo, li o último parágrafo e – é curioso – o livro continuou a sair. É muito estranho porque eu costumo demorar mais de um ano a fazer a primeira versão e, quando chego ao fim, já mal me lembro do princípio. Releio e tudo aquilo faz sentido, tudo aquilo está certo. É uma espécie de trabalho interior que nada tem a ver comigo. Ou melhor: tem a ver comigo, eu não sei é de que parte de dentro de mim é que aquilo vem. Acho que agora estou a escrever como nunca escrevi. Falam muito no Manual dos Inquisidores, mas julgo que foi a partir de Ontem Não te Vi em Babilónia que a escrita começou a ganhar uma densidade, uma espessura, uma força que antes não tinha. Não me importa se me lêem porque escrevo para a eternidade? Claro que me importa, claro que quero que me leiam. Há coisas que já não faço.

Como assim?
Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques. São livros que não devem nada a ninguém. Não se nota ali a voz de ninguém, não há ali influência de qualquer outro autor. Nada. Zero. É a minha voz inteira. E a conquista da minha própria voz foi talvez o mais importante que me aconteceu. Não há ninguém a atravessar-se no meu caminho. Se não nos medimos com os melhores, não vale a pena medirmo-nos. Atingir as alturas de Tolstoi ou de Horácio é muito difícil, mas é aí que eu quero estar. E, ao mesmo tempo, isto tem-me permitido admirar o trabalho de outras pessoas que não considero grandes escritores…

Mas admira-lhes o quê? O esforço?
Esforço faz lembrar ciclismo, não é? Admiro o esforço e, quando ele é digno, respeito-o. Embora, em Portugal, se publique demasiado. As pessoas não sabem o quanto custa escrever. Escrever é tremendamente difícil. Não precisamos de mais de – vá lá, para ser generoso – 200 ou 300 livros. Continuo a ficar surpreendido com o aluvião de livros, livros completamente supérfluos, que se editam. As pessoas não têm vergonha de ter feito aquilo? Não são escritores, são pessoas que fazem livros. Uma coisa é ser escritor, como Torga (por exemplo) o era. Outra coisa é fazer livros, o que agora toda a gente faz. Fico pasmado quando vejo jornalistas, advogados ou apresentadores de televisão que se apresentam como escritores. Já reparou?

Ao regressar ao livro, sentiu-o como seu?
Claro que sim. Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde. A doença trouxe-me isso. Já não estou a fazer tratamentos e só lá mais para o final do ano é que voltarei a fazer exames. Tudo isto dá-me uma grande serenidade, porque olho para as coisas com mais distância. Estive muito perto da morte e palavra de honra que é muito mais fácil do que se imagina. A ideia pode angustiar-nos e apavorar-nos, mas quando se está mesmo ao pé dela é muito mais fácil do que se pensa. Lembre-se do que diz a última frase de Os Thibault, o grande romance de Roger Martin Du Gard: plus simples qu’ on y pense, mais simples do que se pensa. E é, de facto, mais simples do que se pensa, menos assustador do que se pensa.

Quando ouve a palavra cancro, é a morte que vê à sua frente?
Por mais que racionalmente pensemos que o cancro se cura, associamo-lo à morte. Pedi sempre para não me mentirem e, por isso, quando muito francamente me dizem que tenho um cancro, o que vejo à minha frente é a morte. Não é ver a morte à minha frente, é vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. E é mais fácil do que se pensa, não requer coragem, apenas dignidade e elegância. Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna?

A quem é que perguntava?
Ao médico e a uma ou duas pessoas que faziam o favor de se interessar por mim. Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta dele foi: «Outra puta.» Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança. Uma amiga, que é minha médica, disse-me: «Tens que aprender a viver com isto.» Não, não tenho. Não tenho que viver com um filho da puta. Eu não vivo com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele.

Tem que ter pulso firme?
Tem que lutar contra aquilo. O cancro habita-me, está dentro de mim. E queria portar-me com a mesma dignidade com que acho que me portei na guerra. Não sei se ele se importa com a minha atitude ou não, mas, em princípio, é um pesadelo que estará terminado. De qualquer maneira, sei que, mais tarde ou mais cedo, a puta virá. Só espero ter tempo para acabar o meu trabalho.

Na guerra, já tinha visto a morte de perto.
Na guerra, era mais fácil porque era uma qualquer coisa de exterior, podia sempre agarrar numa arma. Em África, tínhamos inimigos (digamos assim) e estávamos armados com morteiros, espingardas e metralhadoras. Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte. Portanto, o tratamento é como fazer um aborto desse monstro que nos quer destruir. Quando ia às sessões de radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava.

A doença torna-nos mais doces ou, pelo contrário, mais amargos?
No meu caso, fez com que se acabassem os disfarces, as máscaras, as meias-frases e as meias-tintas. Agora digo o que penso e o que sinto. Estou a falar com as cartas viradas para cima. E é a primeira vez que o faço. Não há nada escondido, não há nada na manga, não há truques nem tentativas de a impressionar e de a comover.

Sente-se mais livre?
Foi muito difícil. Enfim, muito difícil é exagero…

Exagero porquê?
Porque, ao lado, vi pessoas que estavam muito piores que eu. Pessoas sem esperança, à espera da morte. As minhas hipóteses eram grandes e, por isso, às vezes, sinto-me culpado. Mas é verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para escrever, livre para viver, livre para amar. No outro dia, com os meus irmãos, disse ao João [o neurocirurgião João Lobo Antunes] que ele tinha escrito um texto muito bonito. E um deles comentou que nós não dizemos essas coisas uns aos outros. Eu agora digo, eu agora digo. E isso foi uma conquista porque, de repente, tornou-se evidente que esta é a única maneira de viver. Claro que tem que haver dignidade, e que não podem existir pieguices, mas acabaram-se as contenções. O meu avô morreu e, ainda hoje, sinto remorsos por não lhe ter dito que gostava muito dele.

Teve medo de perder a mão?
Claro que sim. Sempre senti esse medo e agora senti-o ainda mais. Tinha imenso medo que a operação, para além de me tirar o cancro, me tivesse tirado a capacidade de escrever. Não sei por que bulas uma vez que aquilo estava nos intestinos…

E, depois, foi ganhando confiança?
A pouco e pouco, fui aumentando o número de horas de escrita e, hoje, já estou no meu ritmo normal. Não quer dizer que não possa morrer daqui a dois minutos, mas fisicamente nunca me senti como me sinto. Talvez me tenha dado força o facto de a minha condição de mortal ser agora muito mais patente.

No momento em que lhe dizem, pensa…
Não penso em nada, é uma surpresa infinita. Quando disse que queria ser operado, responderam-me que era preciso ver se havia metástases. Fiz exames e, como não havia, fui operado no dia seguinte. Entrei no hospital a pensar que tinha hemorróidas e já não sai de lá. Foi tudo muito rápido.

Como se o mundo lhe caísse em cima dos ombros?
O mundo nunca cai em cima de ninguém. Naquele momento, só pensei nos livros. O que vai acontecer aos livros? Levei o que andava a escrever para o hospital, mas não tinha forças para trabalhar. Queria fazê-lo, mas não conseguia. E não queria deixar o livro inacabado porque, no meu caso, um livro inacabado é um livro cheio de redundâncias, de inutilidades e toda aquela ganga que se escreve. Preocupava-me que publicassem um livro mau. Talvez por uma qualquer coquetterie, por estar seguro que estou a trabalhar para daqui a 500 anos.

Já cá não estaremos.
Não sei se morremos assim. Não sei se não ficamos cá. Não sei se Camões está morto. Mas isso não tem importância, eu não sou importante, os livros é que são importantes.

Isso não é falsa modéstia?
Não tenho falsa nem verdadeira modéstia. Sou orgulhoso, não sou vaidoso. Para quê estar a jogar consigo? O que é que eu ganho? Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente. É uma conquista recente, ganha com tudo aquilo por que passei. Estar aqui à sua frente é a única maneira de estar. E é a primeira vez que o faço.

Como sentiu a reacção dos leitores à sua Crónica do Hospital?
Não sabia que havia tanta gente que gostava de mim.

Sentiu-se menos desamparado?
Não, senti que não merecia tanto afecto.

Apercebeu-se de que o seu testemunho valeu mais do que dezenas de campanhas?
Não. Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau. Se Deus quiser, hei-de escrever mais alguns livros.

Também já não diz que vai escrever apenas mais dois livros.
Não. Dizia isso para negociar com a morte, para não lhe pedir muito. Porque, na altura, ainda a achava uma senhora digna, o que já não acho. E, portanto, se dantes pedia, agora exijo.

Antes pedia para ver se a morte era boa consigo…
Sim, para ver se ela tinha pena de mim. Agora, já não preciso de pena.

Fonte:Visão

Sara Belo Luís 28 Set 2007

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José Luis Peixoto

Abril 25, 2008 · 1 Comentário

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A COMPREENSÃO SEGUNDO SARAMAGO

Janeiro 7, 2008 · Deixe um comentário

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“Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras”

Dezembro 19, 2007 · 1 Comentário

“Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras”

Sempre de cigarro entre os dedos, desafiando as regras do politicamente correcto, António Lobo Antunes desmontou também algumas ideias feitas acerca do ofício da escrita. Por exemplo, a de que uma boa ideia faz sempre um bom livro.

O Meu Nome é Legião, o mais recente romance de António Lobo Antunes, foi o pretexto para uma visita do escritor à Biblioteca Municipal de Beja, na quarta-feira, 5, cidade a que não retornava há 14 anos. Mas o autor de Os Cus de Judas, este ano distinguido com o Prémio Camões, não perdeu muito tempo a falar da obra em si, preferindo deixar a conversa fluir ao sabor das perguntas de um auditório cheio e ávido. “Se eu pudesse resumir um livro em cinco minutos, para quê passar dois anos a escrevê-lo?”, declarou, logo de entrada. Os temas sucederam-se assim, sem rumo certo, desde a infância do autor, passando pela experiência da medicina, até ao mundo da literatura, com repetidas referências ao escritor já desaparecido José Cardoso Pires – “um irmão mais velho para mim” – e à sua própria visão dos livros enquanto autor. Sempre de cigarro entre os dedos, desafiando as regras do politicamente correcto, António Lobo Antunes desmontou também algumas ideias feitas acerca do ofício da escrita. Em primeiro lugar, a de que um bom livro se faz de uma boa história: “Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras. Eu insisto muito neste ponto: quando uma pessoa diz que tem uma ideia muito boa para um livro, eu não tenho a menor dúvida de que o livro é mau. Porque são as palavras que geram as palavras”.

Foi assim com o romance anterior, Ontem não te vi em Babilónia, que partiu da simples conjectura “como é que a noite se transforma em manhã?”, e é assim com O Meu Nome é Legião, que segue a vida dos jovens de um bairro social da periferia de uma grande cidade, descrita através de um relatório de polícia, num registo próximo da crónica. “Cada vez mais, quando começo um livro não tenho nada na cabeça. Neste último livro, o que eu tinha era um grupo de miúdos, aquilo a que as pessoas chamam delinquentes, crianças entre os 12 e os 18 anos. Faziam assaltos, matavam pessoas, roubavam. Porque sempre me pareceu que aquilo era muito mais uma forma de comunicar, a única forma que lhes era possível. E que a vida, a morte e a sociedade tinham para eles um significado diferente”.

E foi tudo o que Lobo Antunes disse sobre o romance que anda a promover pelo País, acompanhado pelo editor da D. Quixote. A partir daqui, colocou-se nas mãos da plateia, mediante o acordo de responder o que quisesse ao que lhe fosse perguntado. Por isso recordou a passagem pelo curso de medicina, em obediência aos desejos do pai, médico, o primeiro contacto com a realidade da morte, nos bancos de faculdade, ou a relutância em deixar a carreira, quando era já o que se chama “um psiquiatra da moda”, para se dedicar inteiramente ao que sempre soube que iria fazer, “desde que nasci”. “Sentia-me uma orelha enorme sentada numa cadeira onde as pessoas despejavam. Mas eu tinha medo de não ganhar o dinheiro suficiente para viver. A primeira vez que ganhei o Grande Prémio de Romance e Novela [Associação Portuguesa de Escritores] pensei que tinha que tomar uma decisão mas fiz isso com muito medo”, reconheceu, não enjeitando, no entanto, o seu anterior modo de vida, do qual conserva uma “certa saudade”. Acima de tudo pela “sensação de ser útil”, no contacto directo com os doentes. Pelo contrário, “enquanto escritor, eu não sei para quem escrevo porque não vejo as pessoas, estou ali sozinho”, disse, confessando que trabalha “virado para a parede”, com recurso ao velho método do papel e caneta, e com um livro aberto à frente, como fazia nos tempos do liceu para tentar dissimular, aos olhos dos pais, a “actividade pouco séria” da escrita.

“A literatura não é para distrair ninguém”

Desfiando histórias como se estivesse entre amigos, o premiado e traduzidíssimo escritor, há anos apontado como possível Prémio Nobel da Literatura, confessou também o seu “medo de escrever”. Em primeiro lugar, por nunca estar certo de ser capaz de escrever o próximo livro – “há pessoas que têm três, quatro livros na cabeça. Eu nunca tive nada” – depois, pelo receio de defraudar os leitores, “pessoas que depositaram em mim uma fé que eu nunca tive”. Mas há ainda um terceiro factor: a dificuldade. O primeiro capítulo de um livro pode chegar a ter 15 versões, até a obra “encontrar o seu caminho”, pelo que é frequentemente um processo demorado e penoso, de espera, às vezes infrutífera, pelas palavras certas. Sendo tão difícil escrever, o que mais impressiona o autor é que se publique tanto e – certamente por isso mesmo – tantas vezes, maus livros. Foi talvez o único momento em que Lobo Antunes revelou alguma amargura no discurso, aquele em que se referiu à “política editorial” enquanto algo que o indigna profundamente. “Publica-se o lixo porque o lixo dá dinheiro. E as pessoas compram e dizem: é para me distrair. Mas a literatura não é para distrair ninguém. Eu não quero distrair ninguém, não quero entreter ninguém. A literatura para mim, enquanto leitor, é um acto de conhecimento e aprendizagem. Sobre a vida, sobre mim mesmo”, rematou, deixando também claro a sua especial consideração pelos leitores portugueses, para quem escreve acima de tudo. “Eu escrevo sobretudo para as pessoas do meu país. Cada vez me sinto mais português, cada vez gosto mais do meu país, cada vez me sinto melhor aqui. É aqui que eu quero viver, é aqui que eu quero morrer”.

DIÁRIO DO ALENTEJO

autor Carla Ferreira texto | José Serrano fotos

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António Lobo Antunes

Dezembro 5, 2007 · Deixe um comentário

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«Saber ler é tão difícil como saber escrever»

Dezembro 5, 2007 · Deixe um comentário

Podemos começar por falar de amor?

Se eu souber responder…

O título do seu novo romance, Eu Hei-de Amar Uma Pedra, nascendo embora de um canto popular, terá a ver, igualmente, com impossibilidades do amor?

Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstractos são perigosos.

Há uma personagem no livro, que, à quarta-feira, ao longo de décadas, vai, secretamente, a uma pensão da Graça, ama e ali morre…

Foi daí que o livro veio. Só mudei o sítio. Sempre me espantou essa extraordinária forma de amor. A sexualidade, sempre tão importante para mim – e continua a ser -, cada vez me parece mais vazia de sentido quando não há outro modo de diálogo e de encontro, embora seja muito difícil resistir ao desejo imediato.

Amor é algo mais?

A noção de amor varia de pessoa para pessoa. Muitas vezes estamos apaixonados ou estaremos agradecidos por gostarem de nós? Ou será que o outro é apenas alguém junto de quem nos sentimos menos sozinhos? Não sei bem o que é a verdade acerca do amor e duvido que haja quem saiba. Só tenho perguntas, não tenho respostas. Até que ponto o amor não é apenas a idealização de um outro e de nós mesmos?

Nunca é fácil salvar uma relação…

Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam. Não me preocupa muito. Preocupa-me em relação a mim mesmo, mas há grandes partes da minha vida que eliminei sem piedade. Não vou a jantares, não vou a lançamentos.

E não tem solidões?

Preciso e gosto de estar sozinho.

Ao fim de 25 anos de vida literária, celebrados hoje, quem é António Lobo Antunes para António Lobo Antunes?

Vida literária custa-me a engolir, soa pretensiosa. Digo que se passam 25 anos sobre a publicação do primeiro romance [Memória de Elefante], que andou em bolandas, de editora em editora, a ser rejeitado. Quando saiu, já tinha acabado mais dois livros. Mas 25 anos é muito tempo e serve para ver que já não terei mais 25 para escrever.

Em princípio, a morte não está nas nossas mãos…

Às vezes, a gente morre por desatenção. Outras vezes morre-se quando se pode. Mas, a maior parte das vezes, morremos porque se nos acabou a saúde. Não fomos feitos para a morte, a não ser para a morte voluntária. A involuntária sempre me pareceu uma tremenda injustiça, para não falar em crueldade.

A intensidade poética da sua prosa é para aliviar tensões entre as personagens?

Não me é consciente. Uma coisa para mim é clara: tenho de proteger os meus ovos, que são os meus livros. Se racionalizar as coisas, perco-as. Estaria a fechar portas a mim mesmo e a essas coisas, que não sei bem se me pertencem, e emergem com essa força. Nos momentos felizes, a mão anda sozinha. A cabeça está a ver ao longe e fica contente, porque são as palavras certas que a cabeça não encontraria. É a mão.

Como dissocia o escritor da obra?

Não tenho bem a sensação de o livro nascer de mim. Faço a primeira versão, trabalho muito a segunda, no entanto, depois de entregar o livro, não vejo provas, não faço mais nada. Tudo o que quero é fazer outro. O livro só existe quando estou a escrever. E o tempo é-me muito curto. Se fizer mais dois ou três…

Um autor acéfalo conseguirá realizar uma obra-prima?

Se tiver uma mão suficientemente grande… Prende-se com um conjunto de coisas: primeiro, é preciso ter lido muito. Aprende-se a escrever, lendo. E também é necessária uma grande humildade face ao material da escrita. É a mão que escreve. A nossa mão é mais inteligente do que nós. Não é o autor que tem de ser inteligente, é a obra. O autor não escreve tão bem quanto os livros.

Está a dizer-me que o livro, em relação ao autor, é uma mentira?

Estou a dizer que o livro é melhor do que eu. Não escrevo assim tão bem.

Quem escreve o livro por si?

Um dia, em conversa com Eduardo Lourenço, a propósito de criação literária, ele lembrava o soneto de Pessoa (de quem não sou grande fã e ele é), que fala de «emissário de um rei desconhecido (…)», uma espécie de mensageiro. Há uns tempos, disse ao telefone, ao meu agente, ter a sensação de que era um anjo que estava a escrever por mim. Lembrei- -me, então, que anjo quer dizer mensageiro. Quando estou a escrever, parece que estão a ditar-me e a mão a reproduzir.

Considera-se um predestinado?

Não. Isso até aumenta a humildade. Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

Despojamento, uma outra riqueza?

Quando uma pessoa morre, tira-se-

-lhe a roupa, objectos pessoais, o dinheiro, os óculos. Que vão vestir os mortos quando voltarem? Que dinheiro têm para comer quando voltarem? Morro, podem ficar os livros, mas os livros não são eu, que terei a boca cheia de terra e estarei no céu ou em parte alguma. Que diferença me faz? Quando voltar, com que óculos é que vou ler?

Como regressam os mortos?

E será que partem? Sou um homem religioso. Há um provérbio húngaro muito velho que diz: «Na cova do lobo não há ateus.» O nosso problema é se Deus acreditará em nós. Deus, porém, tem coisas incompreensíveis para mim. Acho que gosta muito dos tolos, porque não pára de os fazer. Mas, se calhar, o caminho de Deus terá tais profundezas que a gente não as entende. Tenho, sobretudo, a experiência das perdas. A perda de qualquer amigo é uma ferida que nunca cicatriza. A perda de pessoas de quem gostei, e que não são substituídas por nada, deixaram vazios que nunca serão preenchidos. Isso também ajuda a tornar-nos humildes.

Na desmultiplicação do narrador, em Eu Hei-de Amar Uma Pedra, todas as personagens se confrontam com perdas…

Dizem que os meus romances são polifónicos. Não são. É sempre a mesma voz que fala e gostaria que fosse também a voz interior do leitor. Ou melhor: essa voz não fala, nós é que a ouvimos.

Uma voz que se desdobra em vozes de muitas sombras?

Sombras, luzes. Gostaria que fossem vozes totais, para mim são vozes totais, porque trazem consigo carne, corpo. O drama é que a gente está a ler em folhas de papel. E, no entanto, nunca tive a sensação de fazer ficções.

O seu novo romance parte de fotografias. São o maior registo da memória?

Não acho que os romances sejam novos. Existem há muito tempo, à espera que seja capaz de chegar a eles. Em miúdo, conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento. Mas temos fotógrafos geniais.

Não tirou fotografias às suas filhas?

A ninguém. Da mesma maneira que nunca gosto de me ver fotografado.

Acha-se feio?

Nunca lidei bem com o meu corpo. Vejo agora fotografias de quando era bebé ou de há 30 anos, e era bonito. Quando tinha 18 anos, as mulheres metiam conversa comigo.

Em dado momento da sua vida, isso foi razão para o tornar vaidoso?

Não era importante. Importante era que as mulheres fossem bonitas. As mulheres sempre exerceram um grande fascínio sobre mim.

Sentiu falta de um elemento feminino entre os seus seis irmãos?

Não podia sentir, porque não sabia o que era o elemento feminino.

Havia a mãe, as avós…

As mães, os pais não têm sexo. A mãe era a mãe, e mulher do meu pai. Também não sabia muito bem o que era ser mulher do meu pai. Julgo que todos os miúdos vêem os pais de uma maneira assexuada. Eu via a barriga da minha mãe a crescer mas não sabia qual o mecanismo que fazia com que a barriga da minha mãe crescesse.

Acreditava que os bebés chegavam no bico de uma cegonha?

Comigo era diferente. O meu pai estava na Alemanha, vinha uma vez por ano e a barriga da minha mãe começava a crescer. Sabia que tinha alguma coisa a ver com o facto de o meu pai ter estado cá. Mas nunca os vi beijarem-se, não sabia muito bem como aquilo era feito.

Não se falava de sexualidade às crianças. Hoje, o próprio ensino dá-lhe alguma atenção. É melhor?

Não faço juízos de valor, não sou médico.

É médico psiquiatra…

Já não faço nada disso. Só escrevo palavras. Nunca analisei essa parte, só me interessava tentar entender. Se analisarmos, não entendemos.

Como se chega ao entendimento sem análise, sem crítica?

Por osmose. Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver. Acho que era Malraux quem dizia: «A partir do momento em que a gente compreende, deixa de julgar.»

Que tempo vivemos: o do julgamento?

Tenho uma vida um pouco especial. Estive recentemente na Roménia, um país que me encanta e me faz reaprender o que é a liberdade. Um país muito parecido connosco…

No aspecto da liberdade?

No da latinidade. Quando voltei, havia todas essas coisas provocadas por este espantoso governo que temos. Tudo o que se tem passado me dá vontade de rir. Nós nunca vivemos em democracia, tal como os EUA não vivem em democracia. A democracia implicaria um referendar constante das decisões, e isso não acontece.

Há eleições…

Vota-se de quatro em quatro anos, mas, entre esses quatro anos, não nos pedem opinião. O que se tem verificado em Portugal, a propósito da liberdade de imprensa, não passa de uma luta de poder igual a tantas outras. De uma forma geral, olho para os políticos com uma indulgência divertida, sejam de que partidos forem. Há pouco tempo, estava no estrangeiro, num encontro com cento e tal escritores, e ouvi falar de Portugal por causa do «barco do aborto». Comentava-se que um ministro nosso terá dito: O mar português é um mar com princípios. Foi um motivo de troça à minha custa, que não tinha culpa nenhuma.

Portugal é diferente dos outros países?

Claro que não. Nem somos piores. E temos uma língua espantosa. E um clima maravilhoso. Cada vez me seria mais difícil viver longe de Portugal. Gosto muito do meu país.

Costuma ler as críticas à sua obra?

Devo ser dos poucos autores que não lêem as críticas, sejam boas ou más. O que faço ainda é cedo para ser compreendido. Tenho a sensação que estou a escrever coisas maiores do que eu. É preciso deixar passar um tempo. Talvez daqui a 50 ou cem anos seja tudo mais claro. Se uma pessoa está à frente do seu tempo, isso provoca reacções contraditórias. Mas há críticos excelentes que iluminam zonas de sombra dos livros. É também preciso grande humildade para se escrever sobre o que se lê e não julgar-se um livro com a nossa chave. Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons.

Prefere que a chave dos seus livros fique na posse do leitor?

A chave vem com o livro. Saber ler é tão difícil como saber escrever.

Há quem tenha dificuldade em entrar nos seus livros…

Para mim, os livros que escrevo são óbvios e evidentes. Ao lermos certos autores muito bons – estou a pensar no Conrad -, parece caminhar-se no meio do nevoeiro e, de repente, o nevoeiro começa a levantar-se e o livro fica totalmente claro. Quando, aos 20 anos, via um filme de Bergman, aborrecia-me profundamente.

A partir de que idade começou a entender Ingmar Bergman, considerado o cineasta da memória?

A partir dos 40, comovia-me até às lágrimas. Era eu que não estava preparado para ver aqueles filmes e notar o quanto de mim existia neles. Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

Quando na sua escrita suspende a frase, a palavra, deseja deixar portas abertas? Pretende ter o leitor como um interlocutor constante?

Fui compreendendo que tinha de pôr a prosa a respirar de uma outra forma. É também uma maneira de pontuar. O problema é como isso se traduz para outras línguas. Neste momento, na Rússia, estamos com problemas de tradutores de português; traduz-se a partir do alemão. O português, em muitos países, é como o esloveno para nós. Um país onde se traduz maravilhosamente é em Espanha.

Que imagem tem da língua portuguesa, falada por 250 milhões?

Na sua maior parte, as pessoas que conhecem o português em alguns países conhecem o português do Brasil, cujo léxico e musicalidade são diferentes. Julgo que o meu português coloca problemas específicos. Estou a lembrar-me do problema que foi para um tradutor expressões como alto lá com o charuto. Todas as línguas têm a sua idiossincrasia. Uma tradução acaba por ser uma fotografia a preto e branco.

Sente-se bem a escrever em português?

É a minha língua, não me imagino a escrever noutra.

Nos seus livros faz sempre uma visita à infância. É o património mais vasto e rico da sua escrita?

Queria que os livros tivessem todos os tempos da minha vida. Talvez a partir de uma certa idade estejamos mais atentos à nossa infância.

Estou a lembrar-me de Séneca, que diz: «Ama como se morresses hoje.» No seu caso, escreve como se pudesse morrer hoje?

Não quero nada morrer hoje. Estou a meio de um livro, não o queria deixar imperfeito. E queria viver mais dois anos para fazer outro, e mais dois para fazer outro, como se andasse a negociar a vida. Gostaria de ter mais dez anos para escrever. E se calhar, mesmo morto, a mão vai continuar a avançar.

Quando poderá o escritor ter a percepção de que deve parar?

A partir de certo momento, tudo começa a ossificar-se. Muitas vezes não temos essa percepção.

Tem palavras por meio das quais procure um significado absoluto?

Tenho aprendido mais a escrever com os poetas do que com os prosadores. Em poesia, pelo menos nos poetas que admiro, cada palavra tem um brilho próprio. Mas não gosto de dividir as coisas em romance, conto, novela, poema.

Convoca tantas flores para os seus livros… Fazem parte da sua natureza?

Vivo sem flores, não tenho flores em casa. Vivo com livros e quadros, a maior parte oferecidos pelo Júlio Pomar. Nunca tive bens materiais. Nem uso relógio. Posso fazer a mala e ir-me embora. Não estou agarrado às coisas.
António Lobo Antunes
escritor
DN.TEMA: 25 anos de vida literária

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A morte é uma puta

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

O escritor surpreendeu os portugueses ao revelar numa crónica que tinha sido operado a um cancro no intestino. Não se coíbe de falar sobre o assunto, até porque a morte é palavra habitual nas páginas dos seus livros, mas comove-se ao relembrar aqueles dias e o pós-operatório. Uma coisa é certa, saiu deste susto um homem diferente e com vontade de ser mais sincero e de outro amar.

A porta que dá entrada na garagem onde escrevia naquela tarde fica no fundo de um beco. António Lobo Antunes enterra-se num sofá preto e pede para começar a entrevista com um certo ar de vamos cumprir o combinado. No fim, dirá que nem deu pelo tempo passar e encaminha-se para a “tasca” onde pede ao empregado o habitual. Desta vez, só deu duas entrevistas para ajudar o lançamento do novo livro – O Meu Nome é Legião. Está a trabalhar no próximo…

A MORTE

De vez em quando ameaça que só escreverá mais dois ou três livros. Perdeu a vontade?
Não só não é isso que eu tenho vontade como tão-pouco é uma ameaça. Está muito mais relacionado com o medo de não ser mais capaz de escrever. Aparece a cada livro que acabo e pergunto-me se serei capaz de fazer um próximo. Ninguém que escreva a sério vai poder dizer isso. Também é uma espécie de negociação com a morte, deixa-me escrever mais um, mais dois, mais três… Gostava de ter tempo para escrever outro e arredondar o trabalho, é um círculo que ainda não está completo.


Quantos livros faltam para fechar esse círculo. Só mais um?

Gostava que fossem mais porque o círculo vai aumentando sem nos darmos conta. Eu gostava de viver mais duzentos anos mas é improvável que os tenha.


Sofre muito ao escrever?

Há instantes de intensa felicidade – às vezes sinto as lágrimas a caírem-me pela cara – e momentos de grande irritação porque num dia consigo fazer meia página e no noutro só três linhas. O material resiste, as palavras não chegam, o livro não sai. Normalmente as primeiras duas, três horas são perdidas, os mecanismos sensórios ainda estão muito vivos. Então, quando começo a estar cansado, as coisas começam a articular-se com mais facilidade. É como quando estamos a dormir e de repente temos a sensação de termos descoberto os segredos da vida e do mundo, mas sabemos que estamos a dormir. Lutamos para acordar e quando chegamos à superfície não temos nada, diluiu-se enquanto fomos subindo. Quando consigo um estado próximo dos sonhos é muito mais fácil trabalhar e só o tenho estando fatigado.


Já experimentou algumas substâncias para atingir esse estado artificialmente?

Nunca tomei drogas, nunca apanhei uma bebedeira na vida. Não bebo café, não me dá prazer. Acho que o único vício que tenho é fumar.


Portanto, é bem comportado?

Não é uma questão de comportamento, em casa dos meus pais não havia vinho à mesa, só água. Eram muitos filhos…


É normal os filhos romperem hábitos!

Não havia vinho à mesa da mesma maneira que a roupa passava de uns para os outros. Os meus pais deram-nos uma educação de grande austeridade, não tinham muito dinheiro.


Quando faz o julgamento da convivência com a vida acha que ambos se dão bem?

Nunca me pus esse problema, tenho tentado viver o melhor que posso. Fiz certamente muitos erros e continuarei a fazer – espero que menos – mas nós não fomos feitos para a morte, fomos feitos para a vida e sempre me custou ver o sofrimento alheio. Quando fazia muita medicina, não era só o sofrimento que custava mas a minha impotência para com ele. Acho que as pessoas não foram feitas para a morte mas para a vida e para a alegria.


Mas não há escapatória para a morte!

É mais simples do que se pensa. Este ano, tive um problema de saúde e sofri isso na pele, acho que o problema está ultrapassado mas foi um ano duro. E a minha atitude era sobretudo de espanto, e a minha preocupação era ter uma atitude digna e não cobarde. Vi pessoas com uma coragem extraordinária e aprendi com elas lições de vida, coragem e dignidade. As pessoas comportavam-se como príncipes perante a situação e eu pensava estou aqui com pessoas que são melhores do que eu, com uma imensa dignidade no sofrimento. Isso foi uma coisa que me comoveu muito e fez pensar que vale a pena viver entre os homens e com eles. Todo o sofrimento é injusto… Em nome do quê é que uma criança de três anos morre com um cancro ou uma leucemia? É muito injusto, qual a razão disso? Sempre me intrigou a razão deste sofrimento porque o do interior tê-lo-emos sempre. Estamos carregados de dúvidas e certezas e as perguntas que nos fazemos ficam muitas vezes sem resposta. Porque vivo assim, em que falhei e magoamos pessoas sem darmos conta com uma frase que para nós é completamente anódina. Julgo que o segredo é estarmos atentos aos outros mas frequentemente não estamos e, sobretudo, não reparamos que são diferentes de nós. Daí o problema de escrever, como colocar em palavras coisas que por definição são anteriores às palavras? Como tentar cercá-las com palavras? Há zonas em mim que desconheço, portas que nunca abri e que, no entanto, aparecem nos livros e provocam-me uma certa perplexidade ao querer saber de onde é que isto vem, de que profundidades nossas, que todos temos.

O CANCRO


Por isso resguarda tanto a vida privada?

Ela não tem importância nenhuma, só a mim me diz respeito. Quando fui operado escrevi essa crónica sobre o cancro porque já havia tanto jornalista e gente à volta do hospital que resolvi ser eu a dizer: Tenho um cancro no intestino. Não me deu prazer nenhum dizê-lo e garanto que não me deu prazer nenhum tê-lo. O pós-operatório foi horrível e duro, felizmente tive a sorte de ter um grande cirurgião e de todos os que lá trabalhavam serem de uma grande delicadeza. Só tenho gratidão.


O cancro está controlado?

Está controlado, neste momento o que faço são revisões periódicas. Claro que pode haver uma surpresa – pode haver sempre! – mas até agora tem estado tudo bem. É óbvio que na véspera de uma revisão estou tenso e fico assim até saber o resultado mas também sei que se houver um problema o Henrique (o cirurgião) vai lá e resolve-o. Preciso de tempo, preciso desse tempo, preciso ainda de trabalhar.


Está a lutar contra a morte apesar dela estar sempre presente nos seus livros…

Espero que a vida também! É inútil lutar contra a morte tal como é inútil lutar contra a vida. É inútil porque a morte é uma puta – desculpem o palavrão mas é a única palavra que encontro. Quando o meu pai morreu, o padre que foi rezar a missa disse que detestava aquilo porque nós não fomos feitos para a morte. De facto não fomos… Há pessoas de quem gostávamos e que já não podemos tocar e ver e cuja morte foi tão injusta. Ainda no sábado fui a enterrar um camarada da guerra que morreu num acidente de automóvel. Foi muito comovente ver aqueles homens duros, que fizeram a guerra, a chorar como crianças. Eu chorei também, gostava muito dele e agora quando nos reunirmos ele não vai lá estar. E não faz sentido que o Zé não esteja. Eu tenho que viver pelo meu pai, pelo Cardoso Pires, pelo Melo Antunes, estão dentro de mim até eu acabar.


Como contrariar a morte?

Ela corre mais depressa do que qualquer um de nós e a única coisa que posso fazer para contrariar é escrever, a única duração que posso ter é a que os livros tiverem. E aborrece-me que seja assim, é injusto que seja assim, embora haja momentos em que todos nós desejamos morrer, de desânimo e solidão. Há momentos em que quase temos inveja dos mortos porque a vida nem sempre é agradável e fácil mas, agora depois de ver as pessoas lutarem no hospital, senti que muitos pensamentos que tinha eram indignos perante tanta grandeza.


Isso alterou a sua forma de ser?

Eu agora jogo com as cartas para cima, está tudo à vista porque é a única maneira de viver. Demorei anos a perceber porque o conhecimento da vida chega sempre tarde e pensamos que ocultando conseguimos dar boa imagem aos outros. Agora é: eu sou assim! Peguem, larguem, não posso ser amado pelo mundo inteiro embora a sede de amor seja inextinguível.

RELIGIÃO

Qual é a sua atitude perante Deus?

Existe um velho provérbio húngaro que diz que na cova do lobo não há ateus, por isso julgo que não existe quem não acredite. O nada não existe na física ou na biologia e quando se lêem os grandes físicos entende-se como eram homens profundamente crentes, que chegaram a Deus através da física e da matemática e que falavam de Deus de uma maneira fascinante. A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso, cada vez mais, não no sentido desta ou daquela igreja mas porque me parece que a ideia de Deus é óbvia. Cada vez mais o é para mim. É um bocado como diz Einstein, quando afirma que Deus não joga aos dados.


Como é essa relação?

É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo. O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria. A minha atitude em relação à religião é essa, não estou a falar de igrejas, estou a falar em relação a Deus e não acredito quando as pessoas dizem que são agnósticas ou ateias. Não estou a dizer que a pessoa não esteja a ser sincera, mas dentro dela e em qualquer ponto há algo… Uma vez perguntaram ao Hemingway se acreditava em Deus e a resposta foi às vezes, à noite.


Então à noite também acredita?

Acredito sempre mas a dúvida e pôr constantemente em questão é próprio da fé. Muitas vezes pergunto-me será que existe? É óbvio que sim.


Recentemente foram reveladas as dúvidas de madre Teresa sobre a sua própria fé…

Todos os teólogos as tiveram, Sto. Ambrósio dizia “não busco compreender para crer, creio para compreender”; Sto. Agostinho esteve cheio de dúvidas toda a vida e o Sto. António… O mesmo se passa em relação aos livros, pergunto-me será que isto está bem feito? Não é esta palavra ainda, será que é possível fazer aquilo que eu quero fazer ou será demasiado ambicioso?


O título do seu último livro vem da Bíblia?

Estava a passear no Evangelho e apareceu-me. Foi a primeira vez que fui à Bíblia, não tinha título nenhum, não sabia como havia de o chamar e de repente tropeço naqueles versículos do Evangelho de São Lucas e pensei: é isto.


A sua formação em Psiquiatria não lhe dificulta a convivência consigo próprio?

Se os psiquiatras compreendem a mente humana? Não, isso é a vida que nos ensina a entender os outros. Algumas das pessoas mais cultas que conheci eram analfabetas e algumas das coisas mais profundas que ouvi foram ditas por pessoas de pouca instrução. Uma mulher disse-me uma vez ‘quem não tem dinheiro não tem alma’.


Quando está a escrever nunca se sente como se estivesse no divã a tirar coisas de si?

Eu nunca deitei ninguém em nenhum divã e se o fiz ao longo da vida foi para me deitar lá também, não era para ficar a ouvi-la falar. A sensação que tenho é que estamos na idade da pedra do conhecimento, do entendimento humano e das emoções. Não sabemos nada, eu pelo menos sei muito pouco. Isto só tem a ver com a humildade, não sou vaidoso, apenas tenho orgulho. Sei mais ou menos qual é o meu lugar enquanto escritor e o resto da minha vida não é importante, falar da minha vida privada não tem importância nenhuma, os livros sim podem ser importantes mas eu até acho que todos deviam ser publicados anonimamente, sem nome de autor. Isso eliminaria imensos problemas.

O LIVRO

Neste livro O Meu Nome É Legião há uma violência constante?

Não sou eu que a trago, a violência é inerente à situação do livro.


Preocupa-o essa violência quase selvagem num mundo civilizado?

Se é selvagem, o mundo não é civilizado.


Como vê uma realidade com que não é obrigado a conviver?

Era mais ou menos inevitável que isto acontecesse num país onde o abandono, a desigualdade social e a miséria são tão grandes. Com o estrangulamento da classe média era inevitável.


Acha que o Governo devia ter outra atitude?

Não tenho nada que achar porque não sou Governo nem quero ser mas, obviamente, acho que devia haver maior atenção para isto. A partir da altura em que as desigualdades se tornam gritantes é claro que estas crianças são empurradas para a delinquência.


Houve um tempo em que teve militância política. Os partidos terão resposta para estas questões?

Não sei responder mas se achasse que era útil ainda continuava a tê-la. Sou demasiado individualista e rebelde para aceitar uma disciplina partidária, além disso as opções políticas são tão afectivas como as opções clubísticas. Há pessoas de direita mais democratas que as de esquerda, há partidos de esquerda mais conservadores, as ideologias foram-se dissolvendo e a maior parte dos partidos são frentes e aqueles que ainda têm ideologia, ela está caduca. O único partido que vejo com corpo ideológico mais ou menos coerente é o Partido Comunista mas é de um tempo que já não existe. As conquistas de Abril, onde estão? Foram importantes mas passado todo este tempo…


Acha que este Governo é culpado?

Não sei e não estou preparado para responder mas se houvesse eleições – votei muito poucas vezes na vida – e fosse votar era no partido que está no Governo, porque não vejo alternativas.


Por ser o partido que está no Governo ou por ser o Partido Socialista?

Não me parece que este seja o PS do Mário Soares, o que foi fundado em 1973…


Não lhe parece porquê?

Pela prática e pela teoria, mas posso estar enganado.


Conseguiu terminar o livro mas os problemas destes jovens não se resolvem!

Não me compete a mim, sou só um escritor. Esta pergunta terá que ser feita a outro tipo de pessoas, dos que têm respostas para tudo.


Mas se a sua mão seguiu esse caminho foi porque a cabeça também o exigiu?

Eu queria falar era da vida toda, nunca imaginei que saísse assim, nunca estive nestes bairros e nunca conheci estes miúdos. O problema é que não pertencem a parte nenhuma, nasceram cá mas não ganharam Portugal e os pais perderam África. Às vezes comovia-me com a dificuldade de viver deles.


Há frases no livro que revelam racismo!

Pelo menos esses brancos do livro assim o pensam. O racismo é inevitável, vem do medo e do desconhecimento… Às vezes penso que muitas pessoas são como os liberais americanos que dizem dos negros és meu irmão mas nunca serás meu cunhado. Sempre me interroguei porque vi o racismo contra nós portugueses em países como a França. Quando fui receber uma condecoração a Paris, um dos membros do Governo disse-me que pensava que fosse espanhol e ao saber respondeu-me: ‘É português. É engraçado a minha mulher a dias também.’ Isto é profundamente racista, eu estava ao nível da empregada e ao mesmo tempo ali a receber uma condecoração do Presidente.


Há também uma mulher que lamenta não ser branca!

Da mesma maneira que os pobres gostariam de ser ricos, que alguns queriam ser saudáveis… No fundo, o que ela estará a dizer é que gostaria de ter determinados privilégios que no entendimento dela os brancos têm. Mal sabe que o racismo existe entre as várias classes sociais e continua a ser marcante no nosso país.


Mas a desigualdade e a violência preocuparam-no mais neste livro?

Claro que me preocuparam mas sempre houve e até os escritores estabelecem hierarquias ao nível social, para não falar ao nível da literatura. Mas também quantos grandes escritores há hoje em dia a escrever? Três ou quatro no mundo inteiro já não é nada mau, estamos muito longe do século XIX quando havia trinta génios ao mesmo tempo.


Não receia que o seu universo fique desajustado da realidade em que vivemos?

Nunca pensei nisso. Falamos do universo ficcional? Não sei, vivo neste tempo e a realidade é uma coisa que não existe – é muito subjectiva – mas é neste tempo que eu vivo e este é que me foi dado a ter.


Muitas das referências ideológicas do início da sua carreira desapareceram?

Em grande parte por nossa culpa, não fomos suficientemente sedutores para a juventude e refiro-me à participação cívica. Agora, há a ideologia do imediato, do eu quero ser célebre, famoso e rico, jovem e bonito, vive-se uma época de adolescentocracia, o que para mim é repugnante. Uma das minhas filhas esteve em Itália a estudar e as colegas de 17/18 anos quando acabavam o liceu pediam aos pais uma plástica como presente. Houve uma enorme quantidade de valores que a publicidade trouxe e que são seguidos por muitas pessoas.


Nas suas viagens tem medo do terrorismo?

Quando estive em Bogotá era sempre levado por trajectos diferentes porque as pessoas são raptadas na rua em troca de resgates. Fui cobarde tempo de mais para continuar a sê-lo, já não tenho medo. É uma coisa horrível a cobardia, foi em África que me libertei disso tudo, onde aprendi a existência dos outros. Eu nunca teria sido um escritor se não tivesse tido aquela experiência, que mudou muito a minha vida e fez-me perder a concepção ptolemaica do mundo. Passei a faculdade a jogar xadrez, a escrever e a ler, os movimentos estudantis de revolta contra a ditadura passaram-me ao lado por desinteresse e cobardia minha. Tinha medo da polícia, que carregassem na manifestação. Na guerra eu ofereci-me para várias coisas, justamente para me vencer a mim mesmo, para não me envergonhar. A coragem talvez seja uma das formas supremas da elegância e isso os nossos soldados tinham.


Mais alguma vez se sentiu cobarde?

Não.

O sucesso precoce atormentou-o?

Fiquei de boca aberta porque o livro tinha sido sempre recusado. Fui de férias e quando voltei o livro estava por todo o lado e a vender. Foi um espanto, nunca imaginei isto como também o que tem acontecido noutros países. Ainda agora, quando estive doente, vieram milhares de cartas de portugueses. Nunca imaginei que as pessoas fossem tão generosas comigo, dei-me conta que os livros eram importantes para muita gente e acho que não o mereço. Em nome disso tenho a obrigação de dar livros que sejam bons.


Não tem medo de desiludir?

Claro que tenho. Não gostaria nada que estas pessoas que se deram ao trabalho de me escrever ficassem desiludidas com o livro. Afinal, este homem não vale nada e eu gostava dele.


Muito do seu escrever actual é feito de uma reescrita, um livro procura o outro…

Sente isso? Eu queria neste livro dar tudo por tudo e foi um livro que me deu prazer e indignação. Porque estes miúdos que eu não conheço estão à procura de carinho mas não sabem como dá-lo. Do meu ponto de vista, tenho melhorado de livro para livro, sei que nunca vou conseguir lá chegar mas estou mais perto daquilo que queria escrever. Acho que marca um progresso em relação ao livro anterior e espero que o que estou a escrever marque um progresso em relação a este.


O ESCRITOR

Não vê televisão, quase não lê jornais mas quando se começa a ler o livro faz lembrar uma notícia!

Na minha cabeça era um relatório de polícia mas não sei como são porque nunca li nenhum.


Mas aquele início é de quem lê jornais…

Não tenho muito tempo e depois se o vejo fico perdido a ler o jornal. Houve uma altura em que lia A Bola todos os dias… Da televisão, fui-me afastando à medida em que também o fazia do Benfica. Agora já não vejo jogos de futebol, desde que deixou de ser um desporto…


Este Benfica já não o atrai?

Claro que me atrai, continuo a gostar do Benfica mas quando eu era miúdo o lar dos jogadores do clube era ao pé de casa dos meus pais e eles desciam a rua com o fato civil e o emblema na lapela… Era impensável que o Coluna ou o Eusébio fossem jogar para o Sporting ou que o Travassos jogasse no Benfica, eles eram daquele clube. Agora é uma indústria, são sociedades anónimas, deixou de ser um desporto. Os treinadores dizem é preciso paciência, o que é o contrário do desporto e todo o lado lúdico que me interessava deixou de existir, sendo substituído por uma eficácia de marcar golos e de ganhar por interesses económicos. Lembro-me de ter lido uma entrevista do Jesus Correia há muito anos em que ele dizia que o seu doping era o arroz doce que a mãe lhe fazia. Ainda havia aquele prazer como se encontrava no Brasil, de fintar e voltar atrás, como o Garrincha fazia.


Não pára o livro para ver um jogo do Benfica?

Não, já não. Tenho muita pena.


Mas teve conhecimento do murro do Scolari?

É-me completamente indiferente. Não acho normal nem anormal, é-me indiferente. Nem sei se deu o murro… Vi na televisão, foi uma patetice e não comento patetices.


Uma patetice de quem?

Eu não sei o que se passou. Vi o homem estender a mão mas aquilo nem me pareceu um murro, porque se eu der um murro não é assim.


E considera normal que José Mourinho tenha mais biografias do que a maior parte dos escritores portugueses?

Acho natural. José Mourinho atrai mais que Camões ou Shakespeare, as pessoas vivem cada vez mais no sentido hedonista. Não me repugna nada, nem me faz diferença, porque não é isso que tira o público dos livros. As pessoas continuam a comprar livros, portanto esta situação não me incomoda nada.


Um dos prazeres que tinha era dançar. Como é que isso vai de danças?

Não tenho tempo agora.


E tem par?

Isso de arranjar par não deve ser complicado.


Continua a ouvir música?

Tenho problemas de audição e praticamente já não ouço música porque os sons vêm distorcidos.


Disse uma vez que preferia ouvir a Ágata ou Emanuel aos Madredeus?

Disse isso? Eu nem sei bem… Não me recordo de o ter dito, deve ter sido uma boutade. Se me perguntar o nome de uma música desse conjunto não sei mas também não sei dessas outras pessoas referidas.


Mas do jazz continua a gostar?

Não tenho ouvido mas claro que gosto muito porque enquanto escritor aprendi muito com os músicos de jazz a escrever. Pensamos que são os escritores que nos ensinam a escrever mas é mentira, pode ser um fotógrafo, pode ser um músico…


O jazz marcava-lhe o compasso da escrita?

O Charlie Parker fraseava maravilhosamente, aprende-se muito a ouvi-lo.


Também deixou de ir ao cinema?

Muito pouco agora. Vou muito pouco.


E policiais, ainda lê?

Gosto e durante muito tempo tive preconceitos idiotas face à literatura policial. Depois percebi que todos os livros são livros policiais, que têm coisas técnicas que se podem usar e ser muito úteis – a retenção da informação, a informação lateral – e aprendi muito com a sua estrutura.


Algumas mulheres acham-no machista no que escreve?

Não sei, se pensam isso parece-me injusto. Não sei que espécie de gente poderá dizer isso, eu gosto tanto das pessoas…


Como é o seu dia?

Começo às 10.30 e trabalho até às 13.00. Volto a escrever entre as 14.00 e as oito. Das nove até às onze continuo. Sábados e domingos também.


Não folga ao fim-de-semana?

Dou-me umas horas ao sábado como aos magalas. Enquanto estive internado não escrevi e foi muito difícil recomeçar porque pensava que tinha perdido o livro. Para mim é muito importante fazer isto como um trabalho diário.


Como é que escreve?

À mão.


O computador é impensável para si.

Não tenho computador, nem o sei abrir. Gosto de desenhar as letras. Uso os mesmos processos desde o primeiro livro, faço duas versões de cada capítulo, passo para o capítulo seguinte até ao fim, isto demora um ano ou um pouco mais, depois espero quinze dias para começar a rever e quando leio aquilo surpreende-me que tudo se articule.

 

Diário de Notícias

30.09.2007

(transcrição de Gonçalo Figueiredo Augusto)

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A vida depois do cancro

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

Bastou um dia para lhe mudar a vida. Em Março deste ano, António Lobo Antunes, 65 anos, entrou no Hospital de Santa Maria com o manuscrito em que trabalhava debaixo do braço. E dali já não saiu. A notícia, brutal, de que tinha um cancro, chegaria pouco tempo depois. No mês seguinte, após ter sido operado, escreveu na VISÃO uma crónica na qual revelou o inferno que estava a viver. Agora, seis meses passados, o escritor lança O Meu Nome É Legião e, pela primeira vez, conta o que viu e o que sentiu. Sem as meias-palavras das «doenças prolongadas» nem os disfarces dos testemunhos triunfantes. Como ele próprio diz, com as cartas viradas para cima.

Ainda tem a sensação de o seu novo livro, O Meu Nome É Legião, lhe ter sido ditado por um anjo?

Sim, mas também houve partes de Ontem Não te Vi em Babilónia que me pareciam ditadas. Quando a mão está feliz, os livros parecem-me sempre ditados. O Meu Nome É Legião está pronto há mais de um ano. E, como entretanto já estou a escrever outro livro, vou esquecendo o anterior. Tento, aliás, esquecê-lo para evitar fazer uma sequela.


Não voltou sequer a olhar para ele?

Não, apenas o folheei. Corrijo os livros tantas vezes e, mesmo assim, fico sempre com a sensação que os deveria ter corrigido ainda mais, que lhes devia ter dado mais uma volta ou duas. Há sempre um «que», um «mas», um advérbio ou um adjectivo a mais. Há sempre palavras a mais.


É um livro mais curto, com um registo mais rápido que os anteriores. Deixou de gostar daquelas longas «sinfonias»?

Não tem nada a ver porque, como leitor, continuo a gostar de romances grandes. A questão é que, a partir de agora, os meus livros vão sendo sempre cada vez mais curtos. Não sei explicar porquê – o livro acaba por ter a dimensão que ele próprio exige, é ele quem comanda.


Conhece bairros periféricos de Lisboa como o que retrata?

O livro refere-se a um bairro em concreto, embora eu nunca lá tenha estado. Sempre me impressionou o facto de aqueles miúdos não terem raízes de espécie alguma. Não são portugueses, não são africanos, não são nada. Brincam com balas em vez de brincarem com bolas. E no entanto há neles uma sede de ternura, um desejo de amor absolutamente inextinguível. A morte e a vida não têm, para eles, qualquer significado ou, pelo menos, têm um significado muito diferente do que para nós. Na minha ideia, O Meu Nome É Legião era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à procura de uma razão de existir.


Revê-se naqueles garotos?

Quando começo a escrever um livro, não tenho qualquer plano. Aqueles garotos, aqueles polícias e, no fundo, todas aquelas vozes vão-se encadeando de tal modo que sou o primeiro a ficar espantado. Não posso, no entanto, dizer que me revejo neles porque, naquele momento, éramos só uma e a mesma coisa. Uma espécie de relação simbiótica.


Eles estão excluídos deste mundo?

Estão de tal maneira abandonados que matar pessoas é a única maneira que têm de pedir colo. Não sei, porém, o que se passa na realidade, uma palavra idiota porque a realidade é uma coisa que não existe. Todas aquelas pessoas têm, para mim, uma densidade muito profunda.


E, nessa medida, o livro também é uma realidade?

É a única realidade que existe. Não se trata de viver noutro planeta, mas a verdade é que, quando estou a escrever, a minha vida muda por completo. Encontro uma razão, um motivo e uma direcção. E é óbvio que dou muito mais importância aos livros do que às crónicas, que são apenas…


…uma questão alimentar, como costumava explicar.

Não, já não. São antes a possibilidade de poder fazer uma espécie de itinerário paralelo. Como quando, em miúdo, andava com o meu avô em estradas paralelas à via férrea, ficando com a sensação de viajar, ao mesmo tempo, no automóvel e no comboio.


Diz que não conhece aquele bairro…

Não conheço aquela realidade do ponto de vista jornalístico.


Mas sempre gostou de subúrbios.

Aquilo não é sequer um subúrbio. Para mim, o subúrbio é Benfica ou o Cacém. Aquilo é muito pior do que isso. Aquilo é o inferno. Aquelas pessoas vivem num inferno onde eu nunca entrei.


Foi ganhando carinho por aquelas personagens?

Não sei se os leitores entenderão que o livro está a transbordar de amor. Custou-me muito que aquelas personagens morressem. Repare que até o professor não é muito diferente dos garotos – todos estão terrivelmente desamparados. Sempre me comoveu ver o desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo, numa certa desprotecção.

Mas essa não é uma característica apenas do último livro.

Obviamente que não. Lembro-me de começar a escrever Explicação aos Pássaros na Alemanha, em casa da tradutora que tinha na altura. Convencido de que estava a fazer um romance completamente diferente, mostrei-lhe as primeiras linhas e ela disse-me que não via ali nada de diferente: «És tu.» Não consigo fugir disto – há sempre é um «outro eu» que escreve. Como quando aquele admirador da Sarah Bernhardt a encontra na rua e pergunta: «É a dona Sarah Bernhardt?» E ela responde: «Serei esta noite.»


Ficou comovido com o acolhimento que teve agora em Berlim, no Festival Internacional de Literatura?

Comovido é uma palavra exagerada. Agora, a qualquer lado onde vá, é sempre assim. Torna-se um pouco incómodo porque estive o dia inteiro a dar entrevistas no hotel e, quando saí, havia uma série de pessoas cá fora. Queriam um autógrafo não num livro, mas num pedacinho de papel. Como se eu fosse o Enrique Iglesias.


E com o Prémio Camões, que recebeu no princípio deste ano, ficou comovido?
Agora, de três em três meses, recebo um prémio. Antes, tinha vindo o Prémio Ibero-Americano, depois veio o Camões e, há dias, chegou o Neruda. É muito agradável recebê-los, mas um prémio nada tem a ver com a literatura na medida em que não melhora nem piora os livros. Um prémio é só um prémio.


Faz sentido voltar a falar no Nobel?

Nem penso nisso. Agora menos que nunca.


Porquê?
Porque há coisas muito mais importantes. Tenho a certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer Nobel que me possam dar. Mas não me queria alongar sobre esse assunto, porque me parece que se dá excessiva importância a um prémio literário. Tolstoi e Conrad nunca o tiveram. E eles é que são os meus colegas.


Sente-se bem na companhia deles?

Não estou nada mal [sorrisos].


Até se ri…

Sabe, este foi um ano muito duro para mim. Para além de ter recebido constantes lições de dignidade e de coragem por parte de pessoas anónimas, aprendi a ter ainda mais respeito e admiração pelos portugueses. Compreendi porque é que fomos nós a ir naqueles barquinhos de 14 metros sem quilha, porque é que atravessámos o Atlântico, porque é que fizemos o que fizemos. E fiquei muito orgulhoso quando percebi que o povo ainda é o mesmo. Fez-me lembrar aqueles versos de Sophia: «Esta gente cujo rosto/ Às vezes luminoso/ E outras vezes tosco/ Ora me lembra escravos/ Ora me lembra reis». Foi muito bom ter tido essa experiência.


Muito bom?

Aprendi a admirar as pessoas do meu País. E a respeitá-las ainda mais. E a amá-las ainda mais. E a gostar cada vez mais delas. A partir daí, tudo o resto se tornou relativo. Houve coisas que deixaram de ser importantes. E normalmente é quando elas deixam de ser importantes que vêm ter connosco… O que me interessa, neste momento, é poder ter tempo para escrever, viver o suficiente para conseguir acabar o meu trabalho sem decepcionar os que acreditam em mim. Surpreende-me todo este reconhecimento internacional porque, no fundo, só escrevo livros, o que não me dá um mérito por aí além… É apenas trabalho.


E muito trabalho…

Ser pedreiro, médico ou outra coisa qualquer também dá muito trabalho. E ser doente, ser doente dá muito trabalho.


Porque é que decidiu escrever aquela crónica da VISÃO, intitulada Crónica do Hospital, onde revelava que tinha um cancro?

Como já havia muitos boatos contraditórios, resolvi aclarar as coisas e dizer a verdade. A crónica foi escrita mesmo no hospital. Mal conseguia escrever, não tinha forças para nada. O que posso dizer é que eu e todos os outros doentes só recebemos atenções. Dos médicos e dos enfermeiros, mas também das pessoas mais modestas que lá trabalham. Se dizem que tratam mal os doentes nos hospitais, a minha experiência foi justamente a contrária. Sempre vi os doentes serem tratados com a maior dignidade. Estou muito grato às pessoas que cuidaram de mim e que tiveram comigo a maior delicadeza.


O Meu Nome É Legião é, aliás, dedicado a Henrique Bicha Castelo, que o operou.

Para ele, do ponto de vista emocional, não deve ter sido nada fácil. Porque o Henrique não foi apenas o meu médico, é meu amigo. Para além de ser um cirurgião de renome internacional, é um homem de uma qualidade humana, de uma capacidade de amor, de uma generosidade e de uma ternura absolutamente excepcionais.

 

Durante todo esse período, lembrou-se alguma vez do António Lobo Antunes médico?
Tudo isto me fez ter saudades da Medicina. Pela primeira vez, tive saudades da Medicina. E, nos últimos tempos, tenho tido saudades. Agora já é tarde porque a escolha foi feita há muito tempo. Mas, se pudesse voltar atrás, talvez tentasse manter alguma relação com a Medicina.


Enquanto não pôde viver da escrita, viu a Medicina como uma forma de ganhar a vida.

Eu até gostava de ser médico. O meu pai era médico, cresci no meio dos hospitais, mas estar internado é outra coisa muito diferente. Não há nada de mais horrível do que uma noite passada num hospital.


As noites passadas num hospital duram mais?

São infinitas. E é aí que aparece o desamparo. Não estou a falar de mim, estou a falar de uma maneira geral. É óbvio que senti tudo isto. Sofri muito e, ao mesmo tempo, toda esta experiência também me enriqueceu. Sai-se disto com mais amor pela vida e com a sensação de que é uma honra estar-se vivo.


Sai-se mais sereno?

Não lhe sei responder, porque nunca fui uma pessoa de grandes exaltações. É claro que tomei consciência da minha finitude, porque todos vivemos em função de eternidades. Uma pessoa de 20 anos pensa que tem à sua frente 50 anos e, para ela, esses 50 anos não vão passar nunca. A minha mãe, por exemplo, vive em função de eternidades de seis meses. E, na prática, esses seis meses são tão compridos como os 50 anos do jovem de 20 anos. Quando a Maria Antonieta pedia ao carrasco «só mais um minuto, senhor carrasco», para ela aquele minuto era eterno.


Virginia Woolf dizia que, a partir de certa idade, os dias são uma eternidade, mas os anos passam a correr.

E Churchill dizia que os anos passam num instante, o que custa a passar são os minutos. Mas quando os escritores querem parecer inteligentes, eu desconfio sempre. A atitude de sedução sempre me irritou e irrita-me cada vez mais. É isso e, sobretudo, a amargura. Há para aí um cronista num jornal diário que deve ser a pessoa mais infeliz do mundo. Destila tanto fel… Meu Deus, como se pode ser assim?


Está a falar de Vasco Pulido Valente?

É uma dedução sua. Não o conheço, mas o que ele escreve faz-me imensa impressão. E pena. Não me irrita, não me enerva, não me exalta, não me comove. Faz-me pena. Não gosto de pessoas amargas porque são mal agradecidas. A ingratidão é o pior sentimento que pode existir.


Sempre prezou a sua privacidade. Hesitou ao escrever aquela crónica na qual se expôs como nunca antes o havia feito?

Para quem souber ler, exponho-me muito mais nos livros. Em O Meu Nome É Legião, por exemplo, aqueles garotos vieram de dentro de mim, são parte de mim. Quando me fala em serenidade, é evidente que estou muito mais sereno, muito mais seguro do valor do meu trabalho.


Depois da operação, foi difícil voltar a escrever?

Muito difícil. Não era capaz, cansava-me. A seguir à operação, nem sequer escrevia. Estava sentado numa cadeira, sem ler, sem fazer nada, a olhar para a parede. Estive quase dois meses assim. Não tinha nada dentro.


Tinha um romance começado?

Sim, tinha começado a escrevê-lo seis ou sete meses antes. E, como nunca tinha feito uma interrupção, só me perguntava: será que sou capaz de retomar o livro? Depois, devagar, comecei a aproximar-me dele, sem lhe tocar, sem lhe tocar mesmo. Tinha ficado a meio de um capítulo, li o último parágrafo e – é curioso – o livro continuou a sair. É muito estranho porque eu costumo demorar mais de um ano a fazer a primeira versão e, quando chego ao fim, já mal me lembro do princípio. Releio e tudo aquilo faz sentido, tudo aquilo está certo. É uma espécie de trabalho interior que nada tem a ver comigo. Ou melhor: tem a ver comigo, eu não sei é de que parte de dentro de mim é que aquilo vem. Acho que agora estou a escrever como nunca escrevi. Falam muito no Manual dos Inquisidores, mas julgo que foi a partir de Ontem Não te Vi em Babilónia que a escrita começou a ganhar uma densidade, uma espessura, uma força que antes não tinha. Não me importa se me lêem porque escrevo para a eternidade? Claro que me importa, claro que quero que me leiam. Há coisas que já não faço.


Como assim?

Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques. São livros que não devem nada a ninguém. Não se nota ali a voz de ninguém, não há ali influência de qualquer outro autor. Nada. Zero. É a minha voz inteira. E a conquista da minha própria voz foi talvez o mais importante que me aconteceu. Não há ninguém a atravessar-se no meu caminho. Se não nos medimos com os melhores, não vale a pena medirmo-nos. Atingir as alturas de Tolstoi ou de Horácio é muito difícil, mas é aí que eu quero estar. E, ao mesmo tempo, isto tem-me permitido admirar o trabalho de outras pessoas que não considero grandes escritores…


Mas admira-lhes o quê? O esforço?

Esforço faz lembrar ciclismo, não é? Admiro o esforço e, quando ele é digno, respeito-o. Embora, em Portugal, se publique demasiado. As pessoas não sabem o quanto custa escrever. Escrever é tremendamente difícil. Não precisamos de mais de – vá lá, para ser generoso – 200 ou 300 livros. Continuo a ficar surpreendido com o aluvião de livros, livros completamente supérfluos, que se editam. As pessoas não têm vergonha de ter feito aquilo? Não são escritores, são pessoas que fazem livros. Uma coisa é ser escritor, como Torga (por exemplo) o era. Outra coisa é fazer livros, o que agora toda a gente faz. Fico pasmado quando vejo jornalistas, advogados ou apresentadores de televisão que se apresentam como escritores. Já reparou?


Ao regressar ao livro, sentiu-o como seu?

Claro que sim. Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde. A doença trouxe-me isso. Já não estou a fazer tratamentos e só lá mais para o final do ano é que voltarei a fazer exames. Tudo isto dá-me uma grande serenidade, porque olho para as coisas com mais distância. Estive muito perto da morte e palavra de honra que é muito mais fácil do que se imagina. A ideia pode angustiar-nos e apavorar-nos, mas quando se está mesmo ao pé dela é muito mais fácil do que se pensa. Lembre-se do que diz a última frase de Os Thibault, o grande romance de Roger Martin du Gard: plus simples qu’ on y pense, mais simples do que se pensa. E é, de facto, mais simples do que se pensa, menos assustador do que se pensa.


Quando ouve a palavra cancro, é a morte que vê à sua frente?

Por mais que racionalmente pensemos que o cancro se cura, associamo-lo à morte. Pedi sempre para não me mentirem e, por isso, quando muito francamente me dizem que tenho um cancro, o que vejo à minha frente é a morte. Não é ver a morte à minha frente, é vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. E é mais fácil do que se pensa, não requer coragem, apenas dignidade e elegância. Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna?


A quem é que perguntava?

Ao médico e a uma ou duas pessoas que faziam o favor de se interessar por mim. Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta dele foi: «Outra puta.» Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança. Uma amiga, que é minha médica, disse-me: «Tens que aprender a viver com isto.» Não, não tenho. Não tenho que viver com um filho da puta. Eu não vivo com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele.


Tem que ter pulso firme?

Tem que lutar contra aquilo. O cancro habita-me, está dentro de mim. E queria portar-me com a mesma dignidade com que acho que me portei na guerra. Não sei se ele se importa com a minha atitude ou não, mas, em princípio, é um pesadelo que estará terminado. De qualquer maneira, sei que, mais tarde ou mais cedo, a puta virá. Só espero ter tempo para acabar o meu trabalho.


Na guerra, já tinha visto a morte de perto.

Na guerra, era mais fácil porque era uma qualquer coisa de exterior, podia sempre agarrar numa arma. Em África, tínhamos inimigos (digamos assim) e estávamos armados com morteiros, espingardas e metralhadoras. Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte. Portanto, o tratamento é como fazer um aborto desse monstro que nos quer destruir. Quando ia às sessões de radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava.


A doença torna-nos mais doces ou, pelo contrário, mais amargos?

No meu caso, fez com que se acabassem os disfarces, as máscaras, as meias-frases e as meias-tintas. Agora digo o que penso e o que sinto. Estou a falar com as cartas viradas para cima. E é a primeira vez que o faço. Não há nada escondido, não há nada na manga, não há truques nem tentativas de a impressionar e de a comover.


Sente-se mais livre?

Foi muito difícil. Enfim, muito difícil é exagero…


Exagero porquê?

Porque, ao lado, vi pessoas que estavam muito piores que eu. Pessoas sem esperança, à espera da morte. As minhas hipóteses eram grandes e, por isso, às vezes, sinto-me culpado. Mas é verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para escrever, livre para viver, livre para amar. No outro dia, com os meus irmãos, disse ao João [o neurocirurgião João Lobo Antunes] que ele tinha escrito um texto muito bonito. E um deles comentou que nós não dizemos essas coisas uns aos outros. Eu agora digo, eu agora digo. E isso foi uma conquista porque, de repente, tornou-se evidente que esta é a única maneira de viver. Claro que tem que haver dignidade, e que não podem existir pieguices, mas acabaram-se as contenções. O meu avô morreu e, ainda hoje, sinto remorsos por não lhe ter dito que gostava muito dele.


Teve medo de perder a mão?

Claro que sim. Sempre senti esse medo e agora senti-o ainda mais. Tinha imenso medo que a operação, para além de me tirar o cancro, me tivesse tirado a capacidade de escrever. Não sei por que bulas uma vez que aquilo estava nos intestinos…


E, depois, foi ganhando confiança?

A pouco e pouco, fui aumentando o número de horas de escrita e, hoje, já estou no meu ritmo normal. Não quer dizer que não possa morrer daqui a dois minutos, mas fisicamente nunca me senti como me sinto. Talvez me tenha dado força o facto de a minha condição de mortal ser agora muito mais patente.


No momento em que lhe dizem, pensa…

Não penso em nada, é uma surpresa infinita. Quando disse que queria ser operado, responderam-me que era preciso ver se havia metástases. Fiz exames e, como não havia, fui operado no dia seguinte. Entrei no hospital a pensar que tinha hemorróidas e já não sai de lá. Foi tudo muito rápido.


Como se o mundo lhe caísse em cima dos ombros?

O mundo nunca cai em cima de ninguém. Naquele momento, só pensei nos livros. O que vai acontecer aos livros? Levei o que andava a escrever para o hospital, mas não tinha forças para trabalhar. Queria fazê-lo, mas não conseguia. E não queria deixar o livro inacabado porque, no meu caso, um livro inacabado é um livro cheio de redundâncias, de inutilidades e toda aquela ganga que se escreve. Preocupava-me que publicassem um livro mau. Talvez por uma qualquer coquetterie, por estar seguro que estou a trabalhar para daqui a 500 anos.


Já cá não estaremos.

Não sei se morremos assim. Não sei se não ficamos cá. Não sei se Camões está morto. Mas isso não tem importância, eu não sou importante, os livros é que são importantes.

Isso não é falsa modéstia?

Não tenho falsa nem verdadeira modéstia. Sou orgulhoso, não sou vaidoso. Para quê estar a jogar consigo? O que é que eu ganho? Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente. É uma conquista recente, ganha com tudo aquilo por que passei. Estar aqui à sua frente é a única maneira de estar. E é a primeira vez que o faço.


Como sentiu a reacção dos leitores à sua Crónica do Hospital?

Não sabia que havia tanta gente que gostava de mim.


Sentiu-se menos desamparado?

Não, senti que não merecia tanto afecto.


Apercebeu-se de que o seu testemunho valeu mais do que dezenas de campanhas?

Não. Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau. Se Deus quiser, hei-de escrever mais alguns livros.


Também já não diz que vai escrever apenas mais dois livros.

Não. Dizia isso para negociar com a morte, para não lhe pedir muito. Porque, na altura, ainda a achava uma senhora digna, o que já não acho. E, portanto, se dantes pedia, agora exijo.


Antes pedia para ver se a morte era boa consigo…

Sim, para ver se ela tinha pena de mim. Agora, já não preciso de pena.

 

 

Visão

27.09.2007

(transcrito por Gonçalo Figueiredo Augusto)

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As entrevistas de António Lobo Antunes

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

As entrevistas de António Lobo Antunes onde aborda a sua doença foi tema do programa da Antena 1 O Amor é (fim de semana), de Júlio Machado Vaz e Ana Mesquita, do passado dia 7 de Outubro. Os interessados podem ouvir o programa e sobre o que se disse, seguindo esta ligação >> (formato wma). Para mais informações, consulte o site do Centro Multimédia da RTP.

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A Literatura Portuguesa actual

Novembro 19, 2007 · 1 Comentário

Lobo Antunes, convidado pela Secção de Português da Universidade Paul-Valéry, participou num seminário organizado em Montpellier em 22 de Novembro de 1983. A Secção de Português agradece vivamente ao escritor por ter querido voluntariamente prestar-se a este exercício universitário. Este texto reúne o essencial das declarações feitas por Lobo Antunes nesta ocasião, declarações recolhidas e coordenadas por Francis Utéza.

 

A Literatura Portuguesa actual

 

Na última Feira Internacional do Livro de Frankfurt, pretendeu-se que não havia actualmente na Europa senão duas literaturas verdadeiramente criativas: Na Alemanha Ocidental e em Portugal. O facto é que houve uma autêntica renovação dois ou três anos após a Revolução de 74, e creio que se pode afirmar que o século XX literário português começou nesse momento. O mais importante consistiu numa verdadeira reconciliação entre o público e os escritores. Anteriormente, devido à censura, nós devíamos fazer uma literatura “alusiva”, depois de 74 tudo mudou, para nós pelo menos. Além disso, vários escritores tiveram o mérito e sobretudo a sorte (porque é também uma questão de sorte) de serem lidos e traduzidos no estrangeiro, nomeadamente nos EUA. Hoje, estamos a caminho de sermos “descobertos” no Brasil. Venho ainda agora de uma viagem nesse país com outros escritores portugueses – José Saramago, José Cardoso Pires, Égito Gonçalves da geração anterior, Lídia Jorge e Almeida Faria da minha geração.

Posso dizer que se instaurou um novo estado de espírito nos escritores do meu país. Não há um “movimento literário” do tipo dos movimentos que juntaram no tempo certos criadores – Orfeu Presença, ou o neo-realismo por exemplo. Permanecemos profundamente diferentes e essa diversidade faz a riqueza da nossa literatura. Mas sobretudo tenho a impressão de que se está a criar uma solidariedade, uma espécie de sentimento de classe parecido ao que existe já no Brasil. Por exemplo, tive problemas técnicos com o romance em que estou a trabalhar agora, e pude discuti-los durante a minha estadia no Brasil com outros escritores. Hoje ajudamo-nos mutuamente. Era impensável há não muito tempo. Antes, quando aparecia um tradutor potencial, em poesia principalmente, o primeiro que lhe metia as mãos em cima, capturava-o e fechava-o em sua casa até ele deixar o país. É verdade, não estou a exagerar. Hoje, pensamos que ninguém tira o público a ninguém. Organizamos conferências colectivas, sessões em comum com os nossos leitores. Vamos às fábricas, às companhias de seguros. Constatamos uma grande adesão do público. É um fenómeno novo em Portugal, que contribui, e bem, para desmistificar o escritor.

 

A crítica portuguesa

 

Os críticos são pessoas que me fascinam. Pergunto-me muitas vezes qual é o papel da crítica. Em Portugal, contudo, não desempenha papel nenhum, não tem qualquer influência no público que se decide a ler um livro pelo sistema de passa-a-palavra. Nos EUA, pelo contrário, uma boa crítica no The New York Times, no Herald Tribune, faz vender um livro de certeza. Alguns chegam a comprar o livro por causa da crítica e não do livro!

Por que é que a crítica portuguesa não tem efeito no público? Creio que isso se deve à inexistência de críticos bons. Muitos são demasiado velhos e fazem sobretudo terapia ocupacional. Pode vir a surgir uma nova geração de críticos que compreendam melhor o fenómeno literário?

Por outro lado, a crítica portuguesa emite sempre juízos de valor: por exemplo o Sr. João Gaspar Simões julga-se proprietário de Fernando Pessoa e portanto se alguém escreve sobre Pessoa isso não vale nada porque não foi o Sr. Gaspar Simões que escreveu. Em Portugal julga-se sempre, a crítica é laudativa para os amigos e diz mal dos outros. A crítica não deve trazer juízos, deve descodificar, fazer perceber como funciona um livro ou um poema – Borges tem belas páginas sobre isso. Em Portugal, se quiserem uma boa crítica escrevam um livro obscuro, que ninguém vai ler, que ninguém vai comprar: dirão bem de vocês, porque não são um potencial concorrente… No que a mim me diz respeito, os meus primeiros livros foram ignorados. Hoje, não podem fingir que não sabem que eu existo porque estou entre os que vendem mais, e como a crítica do The New York Times e do Herald Tribune disse bem de mim, pouco a pouco começam a dizer também em Portugal, pelo que agora os meus livros são maravilhosos. É típico do que Pessoa chamava o “provincianismo português”.

 

O escritor e o seu trabalho

 

Não acredito na inspiração. O talento não existe. Há pessoas que trabalham. Raymond Radiguet dizia não ler senão livros maus porque eles permitem descobrir a marosca; ao lê-los, aprendemos o mecanismo do texto, mas quando lemos Guerra e Paz por exemplo, não apreendemos o trabalho, é como um ovo, não chegamos a entrar. Manuel da Fonseca dizia: “ser espontâneo dá muito trabalho”. Pelo meu lado, trabalho muito para tentar dar ao leitor uma impressão de facilidade.

Escrevo durante cinco a seis horas por dia. Faço sempre um plano muito detalhado, com todas as peripécias; depois escrevo quatro versões seguindo o plano. Quando termino, dou a dactilografar (escrevo sempre à mão), revejo o texto dactilografado e decido que versão envio ao editor e é esquecida. Nunca releio os meus livros porque os reescreveria sem parar. Ao começar um livro, não tenho senão uma ideia, livrar-me de tudo o mais depressa possível.

O mais difícil para mim, não são as personagens, é o problema do tempo. No princípio resolvi-o limitando-me a um dia, a uma noite, depois tornei-me mais ambicioso… O meu último romance cobre dez anos. Para o cenário, sou uma espécie de ladrão, observo por exemplo as casas dos meus amigos e sirvo-me, não sei inventar casas…

Quando escrevo, tenho uma sensação de gravidez. Os homens invejam a gravidez das mulheres. Freud não falou disso, falou da inveja de pénis das mulheres, mas não da inveja da gravidez dos homens. Para mim, a única forma de responder a esta inveja é escrever um livro.

Um romance corresponde sempre a uma época determinada da nossa vida. É por isso que é estranho para mim falar-vos de um romance como Os Cus de Judas, que está hoje tão longe de mim, a minha maneira de escrever está tão mudada…

É curioso, nunca encontrei prazer em escrever. Creio sempre que estaria melhor a divertir-me com os meus amigos do que a escrever. Mas quando não escrevo, sinto uma espécie de doença física, como se me vestisse de manhã sem ter tomado banho. Então, escrevo… Administro o meu tempo, cinco a seis horas de trabalho por dia, e depois faço o que apetece. Quando era adolescente, uma da minha numerosas tias dizia-me: meu filho, tu não tens ainda idade de viver dos teus defeitos. Hoje, creio que tenho idade suficiente de viver dos meus defeitos.

Escrever é sempre um desafio. Deveríamos mudar A Bíblia, onde diz: “no começo era o Verbo”, deveria dizer: “no começo era a depressão”. A nossa vida é uma espécie de luta contra a depressão, até à depressão final, a morte. Não procuro dar conselhos, a quem servem os conselhos? Também não tenho moral. Não sou La Fontaine.

Tento dar o máximo de verosimilhança. É bem verdade que se diga que os livros são autobiográficos. Isto aprendi com os Americanos: acreditamos que as coisas chegaram, que elas podem chegar. Recebi uma data de correspondência de pessoas que me davam conselhos para organizar a minha vida!

Parece-me que em França o mito do escritor ainda é muito profundo. Creio que ainda não entenderam aqui que os escritores são homens que mijam como toda a gente, escrevem livros e é tudo, são seres comuns.

No século XX temos tendência a fabricar mitos para os destruir. Os chefes, por exemplo, a sua função é serem detestados. Os mitos não servem senão para serem destruídos. Escritores, médicos, é o mesmo. Lembro-me que quando era criança, era suficiente que aparecesse o mito para que não me sentisse mal… Queria dizer: “deixe-me tocar-lhe com o dedo”. Tenho a impressão de ser uma espécie de Júlio Iglésisas com os seus fãs! É o lado folclórico da adesão do público e por um lado é bom. Em Portugal, sempre disse que havia demasiado de Joyce e não bastante de Harold Robbins. Em Portugal, ser um grande escritor é como significasse não ser lido. A minha ambição é tocar o máximo de leitores, para lá dos dois milhões que já tenho.

Estou convencido de que os escritores portugueses estavam afastados do público por uma linguagem demasiado cara. Era necessário estoirar essa linguagem. Pensei que ao empregar uma linguagem mais comum poderia facilmente chegar às pessoas. De facto, aprendi isso com Céline, o mestre de todos nós. Quando eu tinha 15 anos, o meu pai ofereceu-me os seus livros dizendo-me: “é um nazi, mas é um escritor revolucionário”. Descobri que o meu pai tinha razão. Escrevi a Céline para lhe pedir uma foto com dedicatória. Respondeu-me e correspondemo-nos até à sua morte, em 1961. Disse-me: “pequeno, se queres ser escritor, é preciso trabalhar muito”. Assim, permaneci muito ligado a este homem que nunca vi. Lembro-me das grandes folhas de papel amarelo que ele me enviava. Céline e os Americanos, as grandes descobertas da minha vida.

 

Romance e psiquiatria

 

Não queria ser médico. O meu pai é neurologista na Faculdade de Medicina de Lisboa. Tive que fazer os meus estudos em medicina em protesto. Pensei, o que se parece mais com Dostoievski? A psiquiatria. Então, especializei-me em psiquiatria. Mas hoje acabou, já não sou psiquiatra. Tenho uma posição muito crítica face à psicanálise. Fiz uma análise freudiana, mas creio que a psicanálise é uma indústria. Foram feitas pesquisas nos EUA sobre o perfil do psicanalista. Interrogaram-se milhares e chegou-se à conclusão de que o perfil destes homens era o seguinte:

- inteligência média

                        – pouca imaginação

                        – grande dificuldade de integração

                        – enorme apetite de poder

                        – voyeurismo.

Em Portugal os psiquiatras são os pilares de uma ordem social que eles estão obstinados em manter. Para certos psicanalistas americanos, os operários que se revoltam contra os seus patrões são pessoas que não resolveram o seu Édipo, é por isso que se revoltam. A ideia inicial de Freud era muito revolucionária: foi o primeiro a dar atenção ao facto de as diferenças sociais serem factores de angústia, de depressão. Este pensamento foi completamente invertido. Escrevi um livro sobre esta questão, e isso valeu-me aborrecimentos com a Sociedade Internacional de Psicanálise. Diatkine(1) veio especialmente de Paris a Portugal para me interrogar, para decidir se me iriam expulsar da sociedade, que é uma espécie de máfia. Era muito jovem na época e isso foi muito duro para mim.

Nós somos todos esquizofrénicos. Por exemplo esta sensação de ser observado por toda gente quando entramos num local público, é uma sensação muito comum. Não há nada de psicótico nisso. Para criar as minhas personagens, observo à minha volta… O narrador de Os Cus de Judas era um neurótico. É uma neurose da guerra que atingiu muitos portugueses. Sei que muito tempo antes de terem voltado da guerra, metiam-se debaixo da cama ao menor barulho que se assemelhasse a uma explosão.

Creio que somos muito sós; recorremos a um psicanalista porque estamos sós, fazemos amor porque estamos sós, e retiramos um grande sentimento da solidão. Trabalhamos numa sociedade esquizofrénica onde a ideologia é sempre industrial. Há pouco lugar para o amor ou a afeição. É preciso ganhar a vida. No final da semana chega o terrível fim-de-semana em que os casais se olham. Cheios de fantasmas paranóicos a rondar: é por causa dela; é por causa dele que não sou feliz… Recebo clientes que não suportam os fins-de-semana, esse face a face terrível porque as pessoas não sabem viver a dois, a maior parte.

Espero que a solidão não seja absolutamente inevitável. Eu sou como a mãe de Blondin que lhe dizia muitas vezes; “não tenho fé, mas tenho esperança”. Encontrei esta fórmula admirável e reutilizei-a num dos meus livros, na Memória de Elefante, acho eu.

Os homens, quando se encontram, é para discutir política, futebol ou mulheres, sobre os méritos de uma ou de outra. Fazem uma espécie de aliança artificial contra a solidão. Freud dizia muitas vezes que o objectivo da análise deveria ser de poder apreender a realidade, a angústia da existência sem procurar constantemente escapatórias. Recentemente, li a autobiografia de Graham Greene de quem gosto muito, e ele dizia qualquer coisa como: “Não sei como fazem as pessoas que não escrevem para escapar à loucura, à paranóia, ao suicídio”. Eu creio que, enquanto escritores, nunca estamos sós.

 

Sobre Os Cus de Judas

 

Este livro faz parte de uma trilogia onde quis abordar três temas fundamentais para mim: a guerra, a relação entre homens e mulheres e o universo contraditório dos hospitais psiquiátricos em Portugal, considerado como um microcosmos representativo do país inteiro. Para Os Cus de Judas, no princípio pensei na história de uma relação entre um homem e uma mulher onde não houvesse amor, uma relação onde as pessoas se separam, se assassinam lentamente porque são egoístas, narcisistas, etc…

Depois ocorreu-me a ideia de reforçar esta história fazendo um contraponto com a guerra de Angola. Não é para mim um romance de guerra, é um contraponto entre duas guerras sangrentas, uma guerra entre um homem e uma mulher por um lado, e o absurdo da guerra colonial por outro lado. A mulher tinha duas funções para mim: aquela a quem o homem se destinava, não tinha um papel concreto – e é assim que se passa na realidade da sociedade portuguesa e talvez de todo o mundo latino, onde a mulher não é de certa forma senão um lacaio do homem, onde nos compreendemos tão pouco, onde estamos tão pouco preparados para nos compreendermos – e por outro lado, seria um pouco o leitor. Então temos um tipo que fala, fala que se destina a uma mulher mais ou menos consistente…

Por fim, queria também evocar uma forma muito particular da vida nocturna de Lisboa que é muito intensa, com os seus bares, as suas discotecas e a extrema solidão que lá reina. Entra-se num bar, e o que nos assalta primeiro é a solidão. Uma vez a dona de um bar disse-me; “Ganho dinheiro com a depressão das pessoas”.

O título do romance tem dois sentidos: o da distância e o da traição. Judas era a expressão que utilizavam os partidários do MPLA para designar os portugueses e os que colaboravam com o exército português. Era obrigado enquanto médico a assistir aos interrogatórios dos prisioneiros pela PIDE, e era o que diziam os prisioneiros aos agentes da PIDE que eles queriam insultar. No hospital Miguel Bombarda, onde trabalhava, tínhamos internado um certo número de presos políticos que também eles usavam esta expressão Judas sobre nós.

Então a ideia surgiu-me muito naturalmente, quando o meu editor me pediu para mudar o título que eu lhe propusera pois não lhe parecia muito comercial (tratava-se da última frase da autobiografia de um poeta do grupo de Fernando Pessoa que morreu no Miguel Bombarda após 40 anos de internamento. Encontrei o manuscrito que ele tinha redigido à atenção do seu médico, e escolhi a última linha para título do meu livro).

A guerra fez-me tomar consciência de coisas que eu ignorava totalmente. Durante muito tempo vivi numa espécie de redoma. A família – nós vivíamos em Portugal segundo os costumes da grande família patriarcal de Belém do Pará, com numerosos filhos – o liceu, a faculdade, Londres – onde durante cinco anos estudei no hospital onde trabalhou Somerset Maugham – e depois quando regressei a Portugal fui chamado para a guerra.

À época as classes sociais eram estanques. Nenhum contacto. Estávamos fechados, o mesmo nível, a mesma cultura, sou mesmo levado a dizer que não era português. Foi no exército que conheci uma outra relação, vertical e não horizontal. Em Angola eu era como clínico geral, e quando era preciso amputar uma perna com uma serra de carpinteiro porque não havia outra coisa, tornamo-nos forçosamente diferentes.

Foi lá que conheci Melo Antunes, devo-lhe muito, fez-me descobrir muitas coisas, e permanecemos amigos. É um homem muito corajoso. Um dia, no Sul, apontou uma pistola a um agente da PIDE e disse-lhe: “se não te vais embora mato-te”. Antunes foi mudado de unidade, mas os interrogatórios de prisioneiros pela PIDE foram interrompidos.

O suicídio para mim não é uma obsessão, é um tema que se pode encontrar em todos os meus romances. Isto não significa que eu me quisesse suicidar, pelo contrário! Naquela altura preparava uma tese de doutoramento sobre o suicídio das pessoas jovens. Discutindo com os jovens que tinham sobrevivido a uma tentativa de suicídio, fui assolado pelo seu sentimento de imortalidade. O suicídio era sempre o assassínio de alguém. Assassinavam a parte má. O meu avô, que amava muito, suicidou-se. Ele tinha um cancro. Deixou uma carta muito clara na qual dizia que ia matar o seu cancro e que poderia depois viver de boa saúde. Isto marcou-me muito, tal como o meu contacto de vários anos com jovens suicidas. Dizemos muitas vezes que é preciso muita coragem para cometer suicídio. Não acredito nisso. Em Explicação dos Pássaros tentei contar um suicídio como uma história de circo porque quando era criança tinha muito medo dos palhaços, faziam-me sempre pensar na morte.

As minhas personagens têm pouca realidade física, para deixar ao leitor a possibilidade de se identificar com elas e melhor aderir à história. Perguntaram-me sobre a Teresa, era a dona de uma casa de putas que existia mesmo no meio da selva, uma preta enorme como as personagens femininas de Jorge Amado, muito maternal com os soldados e os oficiais. Ela tinha com ela duas ou três raparigas esfomeadas e era perto delas que procurávamos um pouco de ternura. Sabem, o amor maternal é uma coisa da qual tenho pouca experiência. Tive uma infância muito estragada, com relações familiares muito distantes, a minha mãe nunca me beijou quando era criança.

Os grupos feministas em Portugal afirmam que os meus livros são repugnantes – os grupos mais virulentos, claro – e que as mulheres os rejeitam. Eu não sei, fica ao vosso critério.

As referências culturais abundam nos meus três primeiros romances. Hoje, penso que é um erro mas que isso fazia parte de uma espécie de ajuste de contas com a minha infância. Fui educado de uma forma muito especial. O meu pai metia uma sinfonia e anunciava: “quem não souber o nome desta sinfonia não sai no domingo”. Ou lia duas ou três páginas de Zola ou de Flaubert ou de Kipling e depois acrescentava: “quem não conhecer o autor destas linhas não sai no domingo”. Lembro-me que um dia à mesa ele perguntou quem era Einstein. A minha mãe respondeu: “acho que é um preto que toca jazz”. Não sei se ele privou a minha mãe de sair, mas sei que para nós, seis filhos quase da mesma idade, isso era terrível. Então vinguei-me nos meus leitores metendo armadilhas destas nos meus livros, por vezes mesmo frases inteiras sem citar os seus autores. Hoje já não faço isso.

No que toca a Paul Simon, foi uma época da minha vida. No meu último romance também há um poema de Simon, mas não no texto. O próximo terá versos de Bob Dylan. A minha ideia era tirar a literatura do seu gueto intelectual. Não gosto de intelectuais. Em Portugal têm um uniforme: barba, óculos, cabelos compridos, não muito limpos, o Le Monde debaixo do braço. Temos em Portugal uma “classe intelectual”, o que faz com que tenhamos muitos artistas e poucas obras de arte. Os artistas enchem os bares, – não as boites, eles não ousam – eles pensam o tempo todo, não se divertem. Pensei em misturar um pouco tudo isto. Creio que Paul Simon é um grande compositor, que certas canções dos Beatles estão ao nível das Lieder de Shubert. Bernstein disse-o e ele é mais qualificado do que eu. É preciso dessacralizar tudo isto. Os intelectuais não são intocáveis, pelo contrário…

 

(1)    René Diatkine (1918-1998) foi uma das figuras mais importantes da psicanálise em França

 

texto original por cortesia de Francis Utéza

Novembro de 1983

traduzido do francês por Gonçalo Figueiredo Augusto

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Baptista-Bastos

Novembro 19, 2007 · 1 Comentário

Baptista-Bastos

Armando Baptista-Bastos. Nasceu em Lisboa, Bairro da Ajuda (centralizado em vários dos seus romances e numerosas crónicas), 1934.02.27.

Um dos maiores prosadores portugueses contemporâneos.
Baptista-Bastos frequentou a escola de Artes Decorativas António Arroyo e o Liceu Francês. Começou o seu percurso profissional em «O Século», matutino em representação do qual viajou por numerosos países. N’«O Século Ilustrado», de que foi subchefe de Redacção com, apenas, 19 anos, assinou uma coluna de crítica cinematográfica, «Comentário de Cinema», que se tornou famosa pelo registo extremamente polémico. Em Abril de 1960 é despedido de «O Século» por motivos políticos (esteve envolvido na Revolta da Sé, 1959, na decorrência da candidatura Delgado, de que foi activista), e, devido às circunstâncias, trabalhou na RTP numa semiclandestinidade e com um nome suposto: Manuel Trindade. Com esse pseudónimo redigiu noticiários, e assinou textos de documentários para Fernando Lopes [«Cidade das Sete Colinas», «Os Namorados de Lisboa», «Este Século em que Vivemos»], e para Baptista Rosa, «O Forcado», com imagem de Augusto Cabrita, e música de Miles Davies, «Scketchs of Spain.» Seis meses decorridos foi despedido da RTP, porque o então secretário nacional da Informação, César Moreira Baptista, mais tarde ministro do Interior no governo de Marcelo Caetano, deu instruções nesse sentido, dizendo, num ofício: «Esse senhor é um contumaz adversário do regime.»
Em épocas distintas Baptista-Bastos pertenceu, também, aos quadros redactoriais de «República», «Europeu», «O Diário»; e aos das revistas «Cartaz», «Almanaque», «Seara Nova», «Gazeta Musical e de Todas as Artes», «Época» e «Sábado». Foi, igualmente, redactor em Lisboa da Agence France Press.
Porém, é no vespertino «Diário Popular», onde trabalhou durante vinte e três anos (1965-1988), e no qual desempenhou importantes funções, que marca, «com um estilo inconfundível» [Adelino Gomes] o jornalismo da época. Naquele diário publicou «algumas das mais originais e fascinantes reportagens, entrevistas e crónicas da Imprensa portuguesa da segunda metade do século» [Afonso Praça]. «Um dos maiores jornalistas portugueses de sempre» [David Lopes Ramos, in «Público]. Tanto no jornalismo como na literatura situa-se na primeira linha da narrativa portuguesa contemporânea.
Colaborou, ou ainda colabora, como cronista [«um dos grandes escritores da cidade de Lisboa», Eduardo Prado Coelho, in «O Cálculo das Sombras»], em «Jornal de Notícias», “A Bola”, «Tempo Livre»; e, também, no «JL – Jornal de Letras artes e Ideias», no «Expresso», no «Jornal do Fundão» e no «Correio do Minho». Foi fundador do semanário «O Ponto», no qual, entre outros grandes textos e reportagens, realizou uma série de oitenta entrevistas que assinalaram uma renovação naquele género jornalístico e marcaram a época. Escreveu e leu crónicas para Antena Um e Rádio Comercial. Foi o primeiro dos comentadores de «Crónicas de Escárnio e Maldizer», famosa e popular rubrica da TSF – Rádio Jornal. Colunista do «Público» e do «Diário Económico».
Realizou uma série de entrevistas para as revistas «TV Mais» e «TV Filmes». Presença frequente em debates nas televisões apresentou, no Canal SIC, de Novembro de 1996 e Janeiro de 1998, e a convite de Emídio Rangel, um programa, «Conversas Secretas», com assinalável êxito. De Janeiro a Agosto de 2001 fez, para a SIC-Notícias, um programa de entrevistas, «Cara-a-Cara.»
Percorreu, profissionalmente, todo o Portugal Continental e Insular, e viajou e escreveu sobre Espanha, Canárias, França, Itália, Bélgica, Irlanda, Brasil, Uruguai, Argentina, Suíça, Luxemburgo, Grécia, Áustria, Turquia, República Democrática Alemã, República Federal da Alemanha, Checoslováquia, URSS, Marrocos, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Nigéria, Angola, Moçambique, Cabo Verde, etc.
Um dos seus livros de textos jornalísticos, «As Palavras dos Outros», é considerado «um clássico» e «uma referência obrigatória na profissão» [Adelino Gomes e Fernando Dacosta], sendo recomendado como «leitura indispensável» no I Curso de Jornalismo organizado pelo sindicato da classe.
Todos os livros de Baptista-Bastos (romances, crónicas, entrevistas, reportagens, ensaio cinematográfico) estão antologiados em volumes de ensino de Português, e seleccionados por temas em obras representativas das modernas correntes literárias. Está traduzido em checo, búlgaro, russo, alemão, castelhano e francês. Os romances «Cão Velho entre Flores» e «Viagem de um Pai e de um Filho pelas ruas da Amargura» são geralmente considerados obras-primas. O primeiro foi indicado como leitura obrigatória no Curso de Literatura Portuguesa Contemporânea da Sorbonne, sendo professor o Dr. Duarte Faria, e catedrático o Prof. Dr. Paul Teyssier. Este romance foi, também, lido na Rádio Comercial, em 1979, numa produção de Fernando Correia.
Os livros de Baptista-Bastos têm servido de estudos e para teses de licenciatura em universidades portuguesas e estrangeiras.
Em Abril de 1999, a Direcção do matutino «Público» convidou-o a realizar uma série de dezasseis entrevistas, subordinadas ao tema: «Onde é que Você Estava no 25 de Abril?», que desencadeou grandes polémicas e constituiu um assinalável êxito jornalístico. Doze dessas entrevistas (com Álvaro Guerra, Carlos Brito, D. Januário Torgal Ferreira, Emídio Rangel, Fernando de Velasco, Hermínio da Palma Inácio, João Coito, Joshua Ruah, general Kaúlza de Arriaga, Manuel de Mello, padre Mário de Oliveira e Pedro Feytor Pinto) foram inseridas num CD-Rom (que teve uma tiragem de 55 mil exemplares), juntamente com a edição de 25 de Abril de 1999 daquele jornal.
Pela mesma ocasião, a Direcção do «Diário de Notícias» também convidou Baptista-Bastos a escrever o enquadramento do capítulo «O Efémero», da edição especial «O MILÉNIO», iniciativa daquele matutino.

Baptista-Bastos recebeus os seguintes prémios:

  • Prémio Feira do Livro de 1966
  • Prémio Artur Portela (Casa da Imprensa) de 1978
  • Prémio Nacional de Reportagem / Prémio Gazeta de 1985
  • Prémio Urbano Carrasco de 1986
  • Prémio Casa da Imprensa: Prémio Prestígio – Orgulho de uma Profissão, de 1986
  • Prémio O Melhor Jornalista do Ano (1980 e 1983)
  • Prémio Porto de Lisboa de 1988
  • Prémio Pen Clube de 1987 – «A Colina de Cristal»
  • Prémio Cidade de Lisboa de 1987 – «A Colina de Cristal»
  • Prémio da Crítica de 2002 (Centro Português da Associação Internacional dos Críticos Literários)
  • Grande Prémio de Crónica (Associação Portuguesa de Escritores) de 2003
  • Prémio “Gazeta” de Mérito de 2004
  • Prémio de Crónica João Carreira Bom/SLP (Sociedade da Língua Portuguesa) 2005

hiperligações: “Baptista-Bastos” no Google
“Baptista-Bastos” no IMDb

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Precisa-se de um novo paradigma

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

José Sócrates transformou o Partido Socialista numa metáfora da rapacidade do cinismo neoliberal, cujas pretensões radicam em funções repressivas e no poder cego da imanência do económico sobre o humano.

A Direita não se entende consigo própria. Assim sendo, como poderia entender-se com o País? Os seus chefes putativos, Luís Marques Mendes e José Ribeiro e Castro não possuem «carisma» porque não dispõem de qualquer projecto, minimamente verosímil, para impulsionar alguma alteração ao «sistema». Por outro lado, o «sistema» está viciado de contradições, reflexo da crise do capitalismo, que ameaça prolongar-se, num estertor alargado por décadas e numa renovação sem ética, sem nobreza e sem generosidade.

No PSD, as pessoas mais capazes sumiram-se nos negócios proporcionados pela sua passagem por lugares de decisão. O CDS é um mal entendido histórico, com alguns intermezos cómicos, de que Paulo Portas é, até agora, o exemplo mais esbaforido. Quem se opõe a Mendes? O inesquecível Luís Filipe Meneses, cuja voz doce e macia costuma funcionar como sedativo. Telmo Correia é antagonista de Ribeiro e Castro, assim como Pires de Lima. Nenhum deles possui ideias de seu. Mas apresentam-se de semblante grave, austero e firmemente apostados em estar ao serviço da Nação. Ganham a vida nos negócios e na gestão, e auferem uns trocos como deputados em S. Bento ou nos fofos assentos do Parlamento Europeu.

A Esquerda, ou o que resta do seu naufrágio, constitui uma negação abstracta ou niilista. O PS deixou de o ser, se é que alguma vez o foi. O PCP resume-se a uma espécie de travão aos desmandos do poder, mas perdeu a força e a influência de que dispôs durante décadas. No entanto, ainda representa uma barreira ao definhamento progressivo das grandes conquistas de Abril.

A ascensão da mediocridade é estimulada nas épocas em que a paralisia cívica coloca em órbita o que de pior existe na sociedade. Olha-se para o Parlamento e o resultado é desolador. Observa-se a actividade política, os maneios dos seus protagonistas e as matreirices governamentais e enfastiamo-nos. A cultura «democrático» insiste em que devemos ser prudentes quando criticamos a Assembleia da República. Aparentemente, a curiosa instituição é incriticável por imaculada. Mas a verdade é que os deputados fornecem ao País a péssima imagem de oportunistas que ali estão para orientar a vidinha.

José Sócrates transformou o Partido Socialista numa metáfora da rapacidade do cinismo neoliberal, cujas pretensões radicam em funções repressivas e no poder cego da imanência do económico sobre o humano. A razão estóica que se opõe a este desígnio engendra uma moral prática filiada nos antigos valores da dignidade e da solidariedade. Coisas anacrónicas, diria Telmo Correia, garantindo uma nota de rodapé na História por ter insultado a revolução que lhe permitiu ser o que é, e dizer o que diz.

O ataque ao Estado e às instituições que caucionam a democracia está a ser cuidadosamente perpetrado por este Executivo, através  da destruição das relações de trabalho estáveis, do emprego e da identidade profissional; do favorecimento do «privado» nos sectores mais sensíveis da sociedade; e da perturbação do sistema social no seu todo. O pior é que, independentemente desta panaceia, Sócrates não apresenta nenhuma alternativa original. Apenas visões unilaterais e concepções meramente quantitativas, inspiradas nas doutrinas dominantes do neoliberalismo.

Perante isto, que pode fazer a Direita, senão aplaudir? Quando se caustica Marques Mendes por ausência de oposição, a verdade é que as políticas de Sócrates correspondem aos breviários da catequese do PSD. Mendes unicamente faz-de-conta, e assiste a essa peculiar «desordem democrática» com a serenidade de quem aguarda, paciente, a sua vez, ou a de outro qualquer do seu partido.

O CDS, que sempre viveu na babugem dos partidos de poder, e que, desde praticamente 1975, sempre esteve nos centros de decisão, ou em funções fundamentais nas grandes empresas privadas, ou pró ou para estatais, existe na ambiguidade de aproveitar dos ingredientes de que se alimentam as crises. Uma Direita que nem sequer foi charneira, almofariz de um nacionalismo bafiento, de um ressentimento histórico que se propaga em tentativas de regressão e de expressões discursivas sem direcção nem sentido.

A crise actual revela dois problemas, para cuja solução o neoliberalismo não é remédio: o esgotamento do capitalismo contemporâneo e do Estado-providência nas suas formas burocráticas. E há, ainda, que redefinir os diferentes poderes públicos, entre os quais a natureza dos sindicatos perante as modulações de uma sociedade que põe em causa todas as formas anteriores de actuação e de concertação.
Não é com estes partidos, à Esquerda e à Direita, que vai encontrar-se um outro paradigma.

APOSTILA 1  -  Dilecto, recomendo-lhe «A Felicidade e a Tranquilidade da Alma», de Séneca, editado pela Esquilo, com introdução, notas e tradução directa do latim por Ricardo Ventura, e posfácio de José Carlos Fernández. São grandes textos, apropriados para esta hora dramática em que vivemos, porque são textos de sempre. Devo dizer aos meus pios leitores que um dos meus livros de cabeceira é «Cartas a Lucílio» de Séneca, claro!, assim como a Bíblia de Jerusalém, manuseio diuturno, feliz e eficaz. Montesquieu escreveu: «Não há desgosto que não seja dissipado por uma boa hora de leitura». Nem mais! Quando a nefasta melancolia me invade, aí vêm Séneca e os textos sagrados. Dilecto: leia «A Felicidade e a Tranquilidade da Alma». Afasta-o da mediocridade reinante e dominante e dispõe-o bem com a careta humana.

APOSTILA 2 -  Outro livro. «Primeiro as Senhoras -  Relato do Último Bom Malandro», de Mário Zambujal, edição Oficina do Livro. Zambujal é um dos últimos grandes profissionais de Imprensa deste país, um homem decente, íntegro e bom  -  e, ainda por cima, escreve com mão feliz e jubilosa; quero dizer: com gramática, elegância, bom senso e bom gosto. O livro é uma fábula risonha, mas não leviana, do nosso viver português. Um texto muito cuidado, que não agride a inteligência dos leitores e que os trata como pessoas adultas.

APOSTILA 3 -  Alguns leitores pedem-me lhes explique em que consistem Os Empatados da Vida. Aí vai: é um grupo de amigos, que não é vencido nem vencedor (empatou), e se reúne, todas as sextas-feiras, a partira das 13 horas, no Solar dos Presuntos, para comer bem, beber do melhor e falar do que lhe apraz. Quem são os amigalhaços? Mário Zambujal (que inventou o nome da tertúlia), Eugénio Alves, José Manuel Saraiva, Fernando Dacosta, Mário Ventura e o caxadóclos signatário desta crónica. Fátima Campos Ferreira é uma quase constante. E, cada semana, há um convidado. Apareça quando quiser.

Baptista Bastos

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Prosa com endereço certo

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

Sempre escrevi para pessoas adultas, desejavelmente inteligentes, cultas e informadas. Reconhecendo, embora, a modéstia dos meus objectivos, e admitindo, até agora, ter sido beneficiado, sei não haver regra sem excepção: também me tocam no batente alguns visitantes com declaradas evanescências intelectuais e evidentes amolgadelas de carácter.

Sempre escrevi para pessoas adultas, desejavelmente inteligentes, cultas e informadas. Reconhecendo, embora, a modéstia dos meus objectivos, e admitindo, até agora, ter sido beneficiado, sei não haver regra sem excepção: também me tocam no batente alguns visitantes com declaradas evanescências intelectuais e evidentes amolgadelas de carácter.

Por doentia natureza, encapuçam-se no anonimato, sem conseguirem dissimular um atroz fanatismo reaccionário, que vai ao ponto de chamarem «comunistas» a quem dissente do que julgam «pensar». Divirto-me um pouco com as tonterias, e mais ainda porque os irrito. Adianto: sem estes esquizofrénicos correspondentes, a minha vida seria mais chata.

Aquilino Ribeiro, de quem fui amigo, costumava dizer: «Todo aquele que quer ser lido e escutado tem de escrever e falar com endereço». Procuro seguir a norma. Independente de partidos, a minha liberdade não se conclui na assinatura do que escrevo: continua-se no comportamento ético e na exigência de não ceder a pressões, sem abdicar das convicções que me acompanham desde a juventude. Pertenço a uma Esquerda sem emblema.

Gosto muito da crítica: de exercê-la e de ser dela objecto. Durante um longo percurso de vida em voz alta, escrevi, certamente, textos medíocres e injustos. Moralmente reprováveis, penso que não. Intransigente para os falhos de carácter, nunca receei os riscos daí advenientes. Gosto de bons jornalistas, de bons escritores; detesto o marquetingue que vende fruta bichada; desprezo oponentes mascarados, prezo as amizades, sou ferreamente fiel ao grupo, à comunidade, e a um par de ideias que alimento sobre Portugal. Ah!, já me esquecia, para o que der e vier, almoço, todas as sextas-feiras (hoje é dia) no Solar dos Presuntos, com Mário Zambujal, Eugénio Alves, Fernando Dacosta, José Manuel Saraiva, designamo-nos por Os Empatados da Vida, porque não somos vencedores nem vencidos. Um dos nossos, Mário Ventura, morreu há dois meses, e deixou-nos a dor irreparável da perda. Era um homem de bem, importante escritor e jornalista, e meu camarada desde há mais de quarenta anos.

Um dos meus opositores anónimos teve a desfaçatez de afirmar que sou «rico» e «estalinista». Aprendi que as relações humanas são sempre complexas, e que a ignorância é tão arrojada como triste por solitária. Devo dizer que não me vejo como o epítome de coisa alguma e, simultaneamente, sou o resultado de tudo quanto aprendi: nos livros, nas viagens, com os amigos, correspondendo aos apelos da minha consciência, participando nas batalhas políticas do meu tempo, actuando na clandestinidade contra o fascismo – que me fez perder tempo e os anos mais estelares da juventude.

Essa de «estalinista», de «rico», e de estar a soldo de tenebrosas forças do mal só provoca risos. Coloco-me, isso sim, num ângulo de visão oposto ao da maioria. Eis porque desconsidero os comentadores do óbvio, seguidores dos ventos e das marés favoráveis; e dos editorialistas sem perigo. É raro estar de acordo com o Vasco Pulido Valente; todavia, a circunstância de ele nadar contra a corrente das vulgaridades e o facto de escrever num português de lei tornam os seus artigos leitura estimulante. Ele tem tinetas e birras, difíceis de compreender e de administrar. Não as oculta, nem dissimula a soberba com que observa a pátria. Mas é o admirável autor de «O Poder e o Povo». Aqueles que o «defenderam», na quezília sobre o fascismo português, deixaram adivinhar uma menoridade mental e cultural que o próprio Pulido Valente metodicamente desdenha.

Sei do que falo. Trabalhámos, anos de 60, na revista «Almanaque», que tinha uma Redacção imparável: José Cardoso Pires, Luís de Sttau Monteiro, Augusto Abelaira, Alexandre O’Neill, José Cutileiro; e ilustradores como João Abel Manta, Guilherme Casquilho, Sebastião Rodrigues, Pilo da Silva. O Vasco era o mais novo. Escreveu, entre outros, um texto formidável, «The Black Horse Square», sobre o Terreiro do Paço, e lançava ácido sulfúrico por tudo o que era bonzo nas artes, nas letras, na universidade e na política. Jamais perdeu o sainete. Não tenta aproximar Oxford, geográfica e culturalmente, de Lisboa. Mas gosta de Portugal, e zurze-o para melhor o amar? fazendo caretas.

O fascismo português deixou esquírolas na cabeça de muitos. O fascismo e a Inquisição. É pena; mas é lá com eles: andam de antolhos, desconhecendo, por contumaz ignorância, que o método se sobrepõe à pessoa, e que o mundo não é a preto e branco. Há, nesta triste gente, uma falsa euforia: a droga da iliteracia obstinada tornou-a naquilo que é. A net serve como o divã no psiquiatra. Emoldurando-se no silêncio denso e inquietante do gabinete de sombras, atrelam as suas pequeninas frustrações a um computador que, presumem, mas presumem mal, as salva de mágoas e desesperos.

Chamar «comunistas» a quem desacorda é pecha antiga. Marca d’água do fascismo santacombadense, que, pelos vistos, permanece. Mas não é insulto: é acusação, bufaria, delação, velhacaria dos sem carácter, dos desprovidos de argumentos sérios. Nos dias de hoje, como nos do fascismo, a aleivosia pode ser perigosa; porém, não é indigna para o denunciado. Pertence ao livro de linhagem da Resistência. Resistência à brutalidade fascista, ao obscurantismo, à superstição, à corrupção na política e na Imprensa, ao indiferentismo, à abulia, à conivência com o terror. Resistência de que fizeram parte Álvaro Cunhal e Gonçalo Ribeiro Telles; Mário Soares e Francisco Sousa Tavares; Nuno Rodrigues dos Santos e Sophia de Mello Breyner; Francisco Salgado Zenha e Carlos Carvalhas; Natália Correia e Manuel Mendes; António Dias Lourenço e Carlos de Oliveira; Manuel Serra e João Varela Gomes, o padre Felicidade Alves e Jaime Serra. São milhares e milhares. Serão sempre os meus camaradas, os meus companheiros.

APOSTILA – Dilecto: vale a pena deslocar-se ao belo edifício do «Diário de Notícias», na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e apreciar a exposição documental sobre António Rodrigues Sampaio, o Sampaio da Revolução, que foi, certamente, o maior jornalista português do século XIX. «Soldado intrépido e amigo incorruptível da liberdade» [Camilo Castelo Branco, dixit], nada mais desejou do que viver numa pátria «onde o homem fosse, sobretudo, cidadão». Entre os textos e volumes que sobre Rodrigues Sampaio foram escritos, merece, como acepipe, conhecer o artigo que Ramalho Ortigão lhe consagrou n’«As Farpas», e o texto de Camilo em «Memórias do Cárcere». Jornalista, político, governante, par do reino, morreu como nasceu e viveu: pobre. Desloque-se ao «Diário de Notícias», Dilecto, ao menos para homenagear um português incomum.

Baptista Bastos

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Baptista-Bastos

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

Nome respeitado no jornalismo e na literatura, Baptista-Bastos é um homem de causas e de princípios. Não conhece o meio termo: sem papas na língua, exagerado muitas vezes, escreve como poucos, entrevista como ninguém, é um polemista temível. Conheceu o desemprego várias vezes ao longo da vida – mas nunca soçobrou.

Eis a sua história, como ele a contou.

Autores – Vamos começar pelo princípio: as tuas origens, os factos mais marcantes da tua vida…
Baptista-Bastos – Fiquei órfão de mãe muito cedo: aos seis anos. Mas tive a sorte de ter um pai fabuloso e uma madrasta extraordinária. O meu pai era tipógrafo, fundador de jornais (Diário Popular e Diário Ilustrado), tendo terminado a sua carreira n’ “O Século” como chefe de tipografia. Era um grande animal branco, homem sumptuoso, chapéu às três pancadas, lisboeta típico, com muita graça – e um grande profissional, considerado um mágico na sua arte.

A – Marcou-te profundamente, ao que parece.
BB – Foi uma sorte minha. Incentivou em mim a moral proletária do trabalho, que me tem acompanhado pela vida fora. No fundo não passo de um operário braçal da escrita e do jornalismo. Não sei fazer outra coisa. Ganho mal a minha vida, mas ganho-a, através da moral e das palavras. Ele trabalhou até ao fim da vida – era impressionante vê-lo a paginar jornais. Era o banquete dele. E isso ficou-me: trabalhar, trabalhar, trabalhar sempre. Todos os dias, trabalho todos os dias – leio e escrevo sempre, diariamente, qualquer coisa. Desde os 18 anos.

A – Valeu a pena?
BB – Eu acho que sim. Estou mais pobre do que quando comecei – mas mais rico porque o jornalismo e a literatura permitiram-me conhecer as mais extraordinárias pessoas. Sabes, a história da minha vida foi atravessada pela história das vidas de muita gente, o que me ajudou também a construir o homem que eu sou: ateu, brigão e sentimental. Mas sublinha bem aí: não sou agnóstico – sou ateu.
A – Quem são essas pessoas cujas vidas tanto te influenciaram?
BB – Tantas que temo não referir algumas. Olha, privei de perto com o Aquilino, o Redol, o Carlos de Oliveira, o Joaquim Namorado, o Manuel da Fonseca, o Zé Gomes Ferreira, o João Abel Manta… Tantos, tantos! Tomaram conta de mim. Mas posso referir também o Manuel Taínha, o Júlio Pomar, a Maria Keil, o Jorge de Sena, o Lopes-Graça, o Cochofel – a resistência, afinal. Eu era um miúdo no meio de gigantes, no meio do que havia de melhor neste país.

A – E o que é que daí resultou?
BB – Que criássemos a nossa moral particular e a nossa ética de rigor. Esta gente não permitia uma leviandade ou uma traição. Mas já agora deixa que te diga que n’ “O Século” conheci uma figura maior: o Acúrcio Pereira, um jornalista e um chefe de redacção como nunca vi. Entrei para “O Século” com 18 anos, com uma redacção que metia medo. Era conhecida por “Universidade”. O Zambujal chama-lhe “A Catedral”. O Acúrcio puxava por nós todos, que trabalhávamos rodando em todas as secções.

A – Com o teu feitio tiveste dificuldade em adaptar-te?
BB – Eu era muito senhor do meu nariz, mas que remédio… Trabalhava também no “Século Ilustrado” e ganhei fama de polemista terrível. Eu fazia comentários de cinema, o Redondo Júnior de teatro. Era cá uma dupla… No meu caso aquilo era mais uma tribuna política. Nos EUA o McCarthismo estava em grande vigor – e isso servia-me de pretexto para fazer paralelismos comparativos com a realidade portuguesa. Lembro-me de uma crónica em que condenava a traição do Elia Kazan e que apareceu depois nas paredes de todas as Faculdades de Lisboa. Ganhei uma certa notoriedade que me envaideceu – mas que simultaneamente me enfraqueceu.

A – Porquê?
BB – Tinha 18 anos. Era muito novo. Durante um ou dois anos fiquei um tipo muito presumido, até soberbo.

A – E hoje?
BB – Isso passou-se, e passou-me, há muito tempo. Um dia, estava eu a ler a Bíblia, que é um texto a que recorro frequentemente, estava a ler o Levítico, deu-me cá um estremeção, sabes, sobre a soberba e a arrogância, e disse para mim: não estás no bom caminho. Comecei a ficar menos categórico e mais com a ideia de que os outros podem ter também razão.

A – Mas isso não te impediu de teres participado na Revolta da Sé, em 1959…
BB – Fui aliciado pelo Urbano Tavares Rodrigues. Ele ainda me quis explicar uma série de coisas, mas eu cortei: “Não digas nada. Estou na revolução!”, coisas românticas. Mas a verdade é que uma certa ração de romantismo é essencial para que haja algum júbilo na condição humana. Fazer coisas por romantismo é fantástico.

A – Só foste romântico na Sé?
BB – Fiz toda a espécie de disparates por romantismo. Mas também fiz coisas belas, que hoje me arrepiam quando delas falo ou nelas penso. Um dia fui encarregado de lançar uns panfletos no cinema Condes, onde passava o filme “E tudo o vento levou”. Fui para lá de gabardine, à Humphrey Bogart, escondendo os papéis. Eu estava no 2º Balcão, e havia outro camarada no 1º. Um do lado esquerdo, outro do direito. Lançámos os papéis, estabeleceu-se um burburinho na sala, as luzes acenderam-se, a polícia a apitar, um turbilhão de pessoas a descer pelas escada, a escapar. Quando estou também a descer vejo o meu camarada, que era um pouco mais velho, com um lenço na boca cheio de sangue. Teve uma hemoptise, passei-lhe a mão pelo ombro, e fui com ele por aí fora, atravessei a avenida para o elevador da Glória, acartei-o pela calçada acima, do lado direito havia uma cabine telefónica, as pessoas estavam tão preocupadas consigo próprias que nem deram por nada, pu-lo no meio do chão, liguei para um número que me tinham dado, perguntei o que é que devia fazer, disseram-me para sair dali e ir para um banco de jardim esperar, assim fiz, e lá apareceu o Alexandre Cabral com um carro, levando esse nosso amigo, que ainda hoje é vivo…

A – Ao que sei, o episódio da revolta da Sé veio, mais tarde, a ter consequências na tua vida…
BB – Fui denunciado por uns canalhas. Os patrões d’ “O Século” chamaram-me no dia 10 de Abril de 1960, disseram-me “Você esteve metido nessa coisa”, e o Carlos Alberto Pereira da Rosa perguntou-me: “Olhe cá, isso já se passou há uma data de tempo e hoje, em idênticas circunstâncias o que é que fazia?”. Respondi: “A mesma coisa”. Apertou-me a mão e disse-me: “Não pode trabalhar mais neste jornal. Veja lá no que se vai meter”. Tinha 25 anos, fiquei apavorado, pensei que tinha sido denunciado na PIDE, quis ir falar com o meu pai e encontrei o Augusto Abelaira junto do Solar do Vinho do Porto, disse-lhe o que se estava a passar e ele levou-me a casa do Jacinto Baptista – e fiquei a saber que andávam todos metidos no mesmo e passei a uma semi-clandestinidade. Pensei então ir para Paris, o Urbano conseguiu-me arranjar documentos, vendi o carro que tinha… Neste intervalo a PIDE tinha ido ao Século para saber o que se passara comigo, mas os patrões disseram que não tinha nada a ver com a política, garantiram que eu tinha sido despedido por ter publicado no Século Ilustrado três páginas de fotos do Fidel sem terem ido à censura. Conto isto porque quero salientar a grandeza daqueles patrões. Se compararmos com o que se passa agora…

A – Foste para o desemprego, portanto.
BB – Claro. Traduzia livros e vivia com muitas dificuldades.

A – É mais ou menos por essa altura que conheces o Fernando Lopes, trabalhando com ele em vários projectos.
BB – É verdade. O Lopes é um velho camarada de tudo. Quando vivi na tal semi-clandestinidade, estive aboletado em casa dele. Fizemos o “Belarmino” e mais outros filmes para a Televisão. O meu livro “O Secreto Adeus” foi escrito junto dele, na Ericeira, para onde tínhamos ido em Fevereiro de 62, para fazermos a adaptação do “Domingo à Tarde”, do Namora. Estava um frio de rachar, tínhamos 30 dias para fazer o trabalho, despachámos a adaptação em 10 e nos outros 20 escrevi a primeira versão daquele que foi o meu primeiro livro de ficção, mas que na verdade era um livro contra o jornalismo que se fazia naquela altura e que era muito mau. Olha, ainda hoje tem actualidade… Foi um êxito.

A – Continuas muito ligado ao Fernando Lopes…
BB – Gosto muitíssimo dele. Estamos a envelhecer com dignidade e decência, ao longo de cinquenta anos de amizade sem beliscões. Preocupo-me com ele, ele preocupa-se comigo. É, além disso, um dos maiores cineastas europeus, e um intelectual muito brilhante da minha geração que ofereceu à cultura portuguesa gente extremamente talentosa, e até genial!, em múltiplos sectores de actividade.

A – Foi com a ajuda dele que durante uns tempos trabalhaste para o Telejornal da RTP…
BB – Também é verdade. Um dia disse-me que havia um tipo que queria falar comigo. Era o Manuel Figueira, director na RTP, um homem do regime, marcelista, mas de grande qualidade humana. À primeira vista não gostei do seu aspecto. Mas ele era um sedutor e no final do almoço – no “Varina”, no Parque Mayer – eu estava rendido à sua dialéctica, ficando seu amigo até à morte. Ainda hoje venero a sua memória. Diz-me o Figueira: nós sabemos que você se prepara para sair do país, mas eu vou-lhe fazer uma proposta: quer ir trabalhar nos noticiários da RTP? Tem é que ser com outro nome, embora isso não passe de um pró-forma. Hesitei e perguntei: qual é o compromisso que tenho que fazer? Respondeu: nenhum, só tem que fazer notícias assinando Manuel Trindade. Fui e aí ganhei a vida durante uns meses, com o apoio e a solidariedade de pessoas que pensavam o oposto do que eu pensava: o Carlos Miguel de Araújo, monárquico e miguelista, ainda hoje um querido amigo; o Henrique Mendes; o Gomes Ferreira; o Fialho Gouveia; o Manuel Caetano, irmão do Marcelo.

A – Foi sol de pouca dura – voltaste a ser despedido…
BB – Foi o César Moreira Baptista, então secretário nacional da Informação e mais tarde ministro do Interior de Caetano, quem deu instruções nesse sentido, dizendo num ofício: “Esse senhor é um contumaz adversário do regime”. E era mesmo…

A – Como é que te safaste no desemprego outra vez?
BB – Entrei pouco tempo depois para o “República” e daí fui para o Brasil…

A – Para o Brasil?
BB – O meu amigo Raul Solnado foi contratado pela TV Rio e levou-me como seu secretário – cama, mesa, roupa lavada e dinheiro no bolso. Chegámos ao Rio de Janeiro quando aconteceu o golpe militar contra o Presidente Goulart. Mandei logo uma série de telegramas para o “República”, mas o chefe de redacção, o Artur Inês, respondeu-me a dizer para eu mudar de tom que a censura estava a cortar os meus textos todos… Assisti a cenas de violência e perseguição incríveis. Mas percorri o Brasil todo e tive a possibilidade de conviver com pessoas como Rubem Braga, Otto Lara Resende, Vinícius, Péricles do Amaral (secretário do Luís Carlos Prestes na coluna Prestes) e tantos outros – e isso caldeou também a minha maneira de ser e de ver o mundo. Foram oito meses marcantes.

A – De novo em Portugal, arranjaste emprego?
BB – Voltei para o “República”. Mas um dia recebo um telefonema do dr. Guilherme Brás Medeiros, patrão do “Diário Popular”, a perguntar-me se poderia almoçar com ele. Eu julgava que era uma brincadeira, mas ainda perguntei: quando? Hoje, disse ele. Foi a 22 de Fevereiro de 1965. No Parque Mayer, mais uma vez. No final do almoço, avança: quer ir trabalhar para o “Diário Popular”? Quero, disse logo. Quem puxou os cordelinhos disto tudo foram o José de Freitas, o Jacinto Baptista e o Mário Ventura Henriques. Fui aceite por unanimidade pela redacção. Disseram-me: sabemos muito bem o que você pensa, mas os patrões do jornal nunca cortarão uma palavra sua. E quando tive problemas com a censura o dr. Guilherme Brás Monteiro esteve sempre ao meu lado. Nunca assinei qualquer contrato – um aperto de mão bastava. Tenho saudades da honra desse tempo. Não gosto nada do passado, mas não posso deixar de sublinhar que havia um sentido de honra que desapareceu.

A – Quanto tempo trabalhaste no “Diário Popular”?
BB – Saí após 23 anos de intenso trabalho. Foi o mais belo período da minha vida profissional. N’ “O Século” deram-me as ferramentas; no “Popular” escancararam-me as portas e incitaram-me a expender a minha criatividade. Era uma redacção sumptuosa. Recordo, com emoção e orgulho, os nomes de Urbano Carrasco, um dos maiores repórteres portugueses de sempre; José de Freitas, Jacinto Baptista, Abel Pereira, José de Lemos, Alfredo Marques, Álvaro de Andrade, Mário Rocha, Ricardo Ornellas, Aurélio Márcio, António Rêgo Chaves, João Paulo de Oliveira, Manuel Magro, Mário Ventura Henriques. E Chico Rodrigues e Manuel Pereira Rodrigues, excepcionais de faro para a notícia. Havia outros, claro!, mas desejo deliberadamente omiti-los: nada tinham a ver comigo e muito pouco com o jornalismo, tal como eu o entendo. Cito, também, os grandes repórteres-fotográficos João Ribeiro, José Antunes, Corrêa dos Santos, Eurico de Vasconcelos, Miranda Castela. Foram estes os meus companheiros inesquecíveis. Os meus camaradas autênticos, envolvidos, como eu, emocionalmente, em dar continuidade a um admirável projecto jornalístico que nos fora legado.

A – E saíste porquê?
BB – No imediato 25 de Abril, as coisas complicaram-se, e comecei a sentir-me muito mal (eu e outros) com o rumo “editorial” que o vespertino tomava. Registaram-se as traições e as ambiçõezinhas pessoais. O costume. Saí, sem levar comigo um tostão. Ganhava sessenta contos mensais.

A – Foste para onde? Há aí um novo período difícil da tua vida profissional…
BB – Trabalhei, durante seis meses, para o João Soares Louro, fui para o “Europeu” e segui para “o diário”, onde experimentei alguns dos mais nefastos momentos do meu trajecto profissional. Criaturas que possuíam a carteira do sindicato e que nada tinham a ver com jornalismo: eram, apenas, sargentos políticos dispostos a tudo. Desejo colocar os nomes desses senhoritos à margem desta conversa, desejadamente asseada. Claro que me senti feliz em trabalhar com gente como o António Borga, o Luís de Barros, a Teresa Horta, o Joaquim Benite, o Alferes Gonçalves, o João Paulo Guerra, o Sérgio Figueiredo… Deixo para um texto memorialístico que estou a escrever o cuidado de escarmentar quem é desprezível. Mas quero fazer uma grande ressalva: os cuidadosos avisos que me foram feitos pelo José Sucena, querido amigo e homem de bem. “o diário” foi uma experiência de cinco meses, inesquecível pela negativa.

A – Conheceste de novo o desemprego, portanto.
BB – Pedi trabalho em tudo o que é Imprensa portuguesa. Nada. O então director do “Público”, contou-me o João Mesquita, disse que eu não entrava porque era… amigo dos cubanos. Outro, um arquitecto que se diz jornalista, e é um arrebatado medíocre, além de ser uma figurinha hilariante, e esteve na direcção do “Expresso”!, fez-me uma malandrice do pior que possas imaginar. Já o ferrei na praça pública: certa noite, estendeu-me a mão; ficou com ela no ar. Estas coisas devem ser feitas com testemunhas, para que as histórias não sejam contadas de outra maneira. Assistiram ao higiénico acto o José Quitério, o João Carreira Bom, a Maria José Mauperrin, e alguns mais. Contos largos, também assomados na memorialística que redijo. Desempregado, com sete pessoas a meu cargo, lancei-me à tradução, a escrever discursos para empresários e, até, para políticos… de Esquerda, socialistas ou mais ou menos… A Hermínia Rosa, da Caixa dos Jornalistas, agora destruída por um governo… dito socialista… mas ferozmente déspota, autista e autoritário, a Hermínia Rosa aconselhou-me a inscrever-me no Desemprego. Assim fiz. Tinha 56 anos e esperei, na secção do Saldanha, a hora de ser atendido. O Mário Crespo, então pivô na RTP, soube do assunto e enviou a Isabel Horta a fazer uma reportagem do caso. Eles realizaram um comoventíssimo trabalho jornalístico sobre a situação de um camarada deles colocado numa situação extrema. Crespo assinalou os prémios e as traduções de livros meus. A reportagem teve amplas repercussões, e foi vista em várias partes do mundo. Ainda hoje não consigo rever as imagens da cassete que o Mário Crespo me enviou. E estarei sempre grato tanto a ele quanto à Isabel. E, também, a Manuel Luís Goucha, que me convidou, propositadamente, para aparecer num programa dele. Não conhecia pessoalmente o Goucha, nem sabia o que ia lá fazer. Eis senão quando, directo no ar, o Goucha diz: “Este senhor é um dos maiores jornalistas portugueses, e está desempregado. Isto é uma vergonha que desejo assinalar!” Eu não sabia onde me meter, embaraçado e comovido, e o Goucha, então, abraçou-me, ele também muito comovido.

A – Sei que há também um episódio edificante em que entra o José Eduardo Moniz…
BB – Sim, o Moniz (que fora meu estagiário no “Popular”), então figura poderosa na RTP, chamou-me, a instâncias do João Soares Louro, recebeu-me num gabinete do tamanho de um rinque de patinagem, eu estava ali um pouco atrapalhado, embaraçado e, até, envergonhado, ele abre-me os braços, diz: “Você é o meu mestre! Não era preciso o Soares Louro chamar-me a atenção para a sua situação, eu já estava disposto a telefonar-lhe. Vou já chamar um rapaz muito prometedor, que lhe irá arranjar um trabalho”. O rapaz prometedor, qualquer coisa Nogueira, estava cheio de gel no cabelo, casaco de largos ombros descaídos, calças a condizer. O Moniz repetiu, com a gravidade que talvez o momento não recomendasse (eu preferia que a cena fosse mais alegre): “O Bastos foi o meu mestre! O meu mestre!”. Eu, encolhido, sem saber o que dizer, balbuciei: “Mestre, semestre e trimestre”. Aprazaram comigo que me telefonariam dali a dois dias. Até hoje. Coitado do Moniz! Tenho muita pena dele! Quanto ao resto, aguentei-me, meu amigo, aguentei-me! Cheguei onde desejava chegar com algumas mazelas e alguns desgostos mal remendados. Divirto-me com os vencedores do momento. Mas cheguei são e salvo onde desejava chegar!

A – A conversa já vai longa e quase não falámos de literatura portuguesa nem da da tua obra literária.
BB – A minha actividade literária complementa-se com a minha actividade jornalística. A disjunção, pretendida por alguns indivíduos, entre jornalismo e literatura, é mais de ordem corporativa do que de ordem vital. Escrevo todos os dias, leio todos os dias. Publico livros muito espaçadamente. Nada tenho a ver com estes realejos literários que por aí se editam. Tenho profundíssimo respeito, admiração e consideração por Agustina, Saramago, Mário Cláudio. Não vendem fruto com bicho. O resto, deixou de me interessar. A maioria está a escrever sobre a vidinha, sem ter experimentado a vida, sem a ter arriscado. São escritores que vendem muito bem, põem gel no cabelo e na escrita. A literatura, como o jornalismo, deve ser moral em acção, e ambos são tão perigosos como a prática do alpinismo. Mas quanto aos poetas, esses, enchem uma lista imensa, enchem a minha vida de regozijo.

A – Estás muito ácido em relação à nossa prosa actual…
BB – Penso que os escritores têm de conhecer a matéria com que trabalham – para poderem ir para a cama com ela, para ir para o leito nupcial e para poder brincar com o idioma. E nós só aprendemos isso – e nunca aprendemos totalmente – frequentando os clássicos.

A – Quem são os clássicos a que te referes?
BB – Por exemplo, Vieira, Pascoaes, Carlos Oliveira, D. Francisco Manuel de Melo, Aquilino, Tomás de Figueiredo. Temos que começar a recuperar esta gente.

A – Esta gente?
BB – É, é. Esta gente que cito é que representa rigorosamente aquilo que podemos classificar de cultura portuguesa. E esta gente foi quem deu à Pátria a sua fisionomia específica. Não são os políticos que dão a fisionomia à Pátria. Isso é com os escritores, com os artistas.

A – Tens alguma coisa contra os políticos?
BB – Contra estes políticos tenho tudo e mais alguma coisa. Atingiram o grau superlativo da mediocridade. Pode-se estar em desacordo com os nomes que vou citar – mas eles marcaram decisivamente uma época: Mário Soares, Álvaro Cunhal, Francisco Sá Carneiro, Vasco Gonçalves. Cada um deles, à sua maneira, e com as características culturais próprias, tinham um projecto político-ideológico próprio para Portugal. E tinham, esses quatro homens, convicções. E esta gente de agora não tem convicção nenhuma. E andam neste pequeno jogo de interesses que só favorece o mais torpe e o mais feroz dos capitalismos. E os intelectuais, os escritores portugueses, assistem a isto e… nada. Não estão interessados no compromisso moral com a sociedade e o seu povo, contrariando, aliás, as linhas tradicionais da cultura portuguesa.

A – Continuamos sem falar dos teus livros… Que títulos gostarias que não fossem esquecidos?
BB – Os meus livros… Creio que dois ou três vão ficar, talvez “Cão Velho entre Flores”, talvez “Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura”. Do jornalismo, as entrevistas, talvez “As Palavras dos Outros”. Nunca tive pressa. As coisas vão chegando. Um pouco atrasadas, às vezes, mas vão chegando. Não te esqueças que Portugal vive no lodaçal da amnésia histórica. Um país que esqueceu Aquilino, que não lê Tomaz de Figueiredo, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, os dois Camilos, o Castelo Branco e o Pessanha; que desconhece Cesário Verde, e dois poetas tão ou mais importantes do que Pessoa: Nemésio e Jorge de Sena – é um país condenado.

A – Se bem te conheço, estás longe de desistir seja no que for. Fala-me dos teus projectos.
BB – Entreguei, ao meu editor, a ASA, um romance, “As Bicicletas em Setembro”, título extraído a um dos mais belos poemas de Eduardo Guerra Carneiro, parceiro de bares, de noitadas, de jornalismo e de literatura. Vai também ser editado um álbum “A Lisboa de Baptista-Bastos”, com belíssimas aguarelas de João Abel Manta, selecção de textos sobre a cidade, apresentação e aparato crítico do prof. Ernesto Rodrigues. Há o texto memorialístico de que já falámos. E pretendo ordenar um novo livro de crónicas.

A – Não te vou perguntar onde estavas no 25 de Abril, mas gostaria de saber o que esperavas que essa data histórica proporcionasse ao jornalismo e à literatura. A 32 anos de distância, que balanço?
BB – O 25 de Abril foi o dia do meu coração. O Álvaro Guerra estava metido na conspiração e perguntou-me se eu estava disposto a nela entrar. Disse-lhe que não. Todas em que me tinha metido haviam falhado, porque estávamos no meio dos dois sistemas de mundo que, então, se digladiavam. Tinha filhos e não estava disposto a permitir que fossem para a guerra colonial. Preparava-me, pois, para ir embora, talvez Inglaterra, não sei bem. Não acreditava em nada ou quase em nada. Como agora, aliás. Dá-se o 16 de Março, nas Caldas da Rainha. Vai o Marcelo à Televisão e declara que está tudo sob controlo. A partir daí percebi que algo de muito importante ia ocorrer. Quando o tirano diz que controla, é porque já não controla coisíssima nenhuma. Mas os anos posteriores ao 25 de Abril naufragaram na mais atroz mediocridade: escritores e jornalistas que nunca o serão, à força de o quererem ser. Tanto o jornalismo como a literatura são actividades muito sérias. E eu não gosto nada do que por aí vejo: prosa engravatada ou de casaco de peles. Entretanto, continuo ateu, brigão e sentimental.

Ribeiro Cardoso

TALENTOSO E EXCESSIVO

Tem um corpo enorme, cabelos brancos e coração ao pé da boca. A sua voz roufenha e o seu sorriso, por vezes enigmático e mordaz, são bem conhecidos dos portugueses graças aos programas “Conversas Secretas” e “Cara-a-Cara”, que há anos assinou na SIC e marcaram um estilo nas entrevistas televisivas – como antes o seu talento tinha marcado o jornalismo escrito.
Nome grande da nossa imprensa e da nossa literatura da segunda metade do século XX, Armando Baptista-Bastos, BB para os amigos, nasceu em Lisboa, no Bairro da Ajuda, em 27 de Fevereiro de 1934, tendo frequentado a Escola de Artes Decorativas António Arroio e o Liceu Francês. Quanto a universidades, frequentou a maior de todas: a da vida, que subiu a pulso sem nunca renegar as linhas mestras do exemplo paterno – e por isso pagando um preço alto, como se pode ver na fabulosa história de vida que conta nestas páginas.
Casado, com três filhos licenciados – um arquitecto, um jurista e um psicólogo clínico – nos seus 72 anos de vida intensa já não é um homem da noite nem de excessos e vive feliz e realizado, mas não acomodado, junto da mulher que ao longo de uma vida sempre foi o seu esteio maior, tudo lhe aguentando: chama-se Isaura, tem cabelos prateados e um sorriso bom entre todos.
Com 19 livros publicados até ao momento – ensaios, romances, contos, entrevistas e crónicas (nomeadamente sobre Lisboa) -, autor de admiráveis prosas em jornais e revistas, continua a produzir e cheio de projectos. As suas memórias, aqui anunciadas, serão seguramente um acontecimento.
Privilegiando sempre a conversa, o convívio e os afectos, é vê-lo todas as Sextas-Feiras no Solar dos Presuntos, à mesa com os seus parceiros da tertúlia “Os Empatados da Vida” – distribuindo ferroadas à esquerda e à direita (sobretudo à direita…) e contando casos e histórias respeitando escrupulosamente o ditado popular “Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”. Quem o conhece e dele gosta, garante mesmo que acrescenta sempre muitos pontos… Mas ninguém leva a mal. Ah, é verdade: os livros do BB estão traduzidos em várias línguas, têm sido objecto de estudos e teses de licenciatura em universidades portuguesas e estrangeiras e à sua obra – jornalística e literária – já foram atribuídos numerosos e prestigiados prémios.

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