Worldroom

Entradas categorizadas como ‘Religião’

Nós os vencidos do catolicismo

Junho 26, 2008 · Deixe um Comentário

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»

Autor: Ruy Belo

«A solidão dos filhos de Deus»

Categorias: A existência dos outros · Micro - Leituras · Poesia · Religião
Tagged: , , ,

Guerra dos Oitenta Anos

Novembro 22, 2007 · Deixe um Comentário

A tomada de Breda, por Velázquez

A tomada de Breda, por Velázquez

A Guerra dos 80 anos ou Revolta Holandesa de 1568 a 1648, foi a guerra de secessão na qual o território englobando aquilo que é hoje os Países Baixos se tornou um país independente frente à Espanha.

Durante esta guerra, a República Holandesa tornou-se uma potência mundial por um curto período histórico, com grande poder naval, e beneficiou de um crescimento económico, científico e cultural sem precedentes, no qual a comunidade Portuguesa desempenhou um papel de relevo (Ver: Sinagoga Portuguesa de Amsterdão).

Os Países Baixos pertenciam ao império espanhol, mas o Conselho de Regência de Filipe II rompeu com os nobres locais, que foram excluídos do governo. Altos impostos, desemprego e temores da perseguição católica contra os calvinistas criaram uma perigosa oposição, esmagada pelo duque de Alba em 1567 com um reino de terror e pesada tributação. Seguiu-se uma revolta liberal iniciada por Guilherme, o Taciturno, que evitou batalhas campais com as forças espanholas, explorando estrategicamente seu conhecimento da região, salvando cidades sitiadas como Leiden (1573-1574) e abrindo diques que inundaram a zona rural. O saque de Antuérpia (1576) levou a uma união temporária de todos os Países Baixos na pacificação de Gante. Os excessos calvinistas logo levaram as províncias do sul a formarem a União de Arras (1579) e a fazer as pazes com a Espanha. As províncias do norte formaram a União de Utrecht e a guerra tornou-se uma luta religiosa pela independência. Guilherme defendeu-se com ajuda estrangeira, até ser assassinado em 1584, quando a liderança passou para Maurício de Nassau e o político Oldenbarneveldt. As Províncias Unidas salvaram-se pelo compromisso de guerra da Espanha com a França, Inglaterra e Turquia. Um armistício (1609) foi seguido pelo reconhecimento da plena independência no Tratado de Westfália (1648).

Categorias: A existência dos outros · Política · Religião · Roubado sem escrúpulos
Tagged: , ,

“A Desilusão de Deus” de Richard Dawkins

Novembro 7, 2007 · 1 Comentário

Capa do livro “A Desilusão de Deus” de Richard Dawkins (editora Casa das Letras) não é apenas uma brilhante obra de divulgação científica, a obra de Dawkins é também uma oportuna obra política. Numa época, em que o fundamentalismo religioso voltou a ganhar terreno, em particular através da progressão do islamismo no Médio Oriente e da ascensão ao poder nos EUA de uma das variantes mais fanáticas de protestantismo evangélico, Dawkins interpela-nos com toda a oportunidade sobre os perigos deste manifesto retrocesso civilizacional.
Artigo de Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra
.

Dawkins actualiza a reflexão científica sobre a existência de Deus ao longo de dois capítulos sucessivos onde analisa a hipótese e os argumentos para a existência de Deus. A tendência dos humanos para acreditar em entidades transcendentes ou espirituais é desenvolvida do ponto de vista da evolução da nossa espécie num capítulo dedicado às raízes da religião. Dawkins desmonta a ideia que a moral só pode existir associada à religião. Através de múltiplos exemplos, Dawkins recorda-nos que há mais de dois mil anos que as maiores atrocidades da nossa história têm sido perpetradas em nome de uma miríade de deuses. Dawkins analisa o papel dos regimes laicos na pacificação da sociedade, sem deixar de caracterizar devidamente o estalinismo e o nazismo. Recorda-se o papel da formação seminarista de Estaline e a espiritualidade maniqueísta de Hitler, bem como a sua cumplicidade com o Vaticano. A intolerância religiosa é analisada por Dawkins, referindo-se este em particular à hostilidade das religiões do livro à homossexualidade, ao modo de vida das sociedades mais abertas, à religiões minoritárias e às religiões minoritárias.

Dawkins oferece-nos ainda uma reflexão brilhante dedicada às dificuldades do cidadão comum em compreender os problemas cuja escala o ultrapassa do ponto de vista espacial e temporal. O muito grande ou muito pequeno, o Universo ou um quark não são conceitos intuitivos tendo em conta as nossas dimensões naturais e o alcance do nosso campo de visão. Um tempo de vida média de um positrão inferior ao nanossegundo ou os milhares de milhões anos da vida de uma estrela dificilmente são assimilados pela maioria dos cidadãos. A incompreensão da base científica associada a fenómenos cuja escala nos transcende é uma recorrente fonte de espiritualismo e de sentimentos religiosos.

Outras passagens interessantes desta obra são o desmontar do Desenho Inteligente, a análise ao niilismo militante contra o darwinismo e a ciência moderna, bem como a descrição de variadíssimas passagens insólitas da Bíblia onde se relatam genocídios, homicídios e abuso de mulheres e crianças em nome de Deus. Dawkins relata com humor os evangelhos de conteúdo mais embaraçoso, aqueles que foram estrategicamente deixados fora da Bíblia pelos últimos compiladores das escrituras, em que se descreve Jesus Cristo em criança a abusar dos seus poderes divinos como se fosse um mágico, ora transformando os seus colegas em cabras ora ajudando o seu pai nos trabalhos de carpintaria aumentando miraculosamente as dimensões das peças de madeira.

Categorias: A existência dos outros · Livros · Micro - Leituras · Religião
Tagged: , , , , ,

A Desilusão de Deus

Novembro 7, 2007 · Deixe um Comentário

Esta é uma discussão ingrata, mas também uma das que dá mais prazer. Porque se eu perguntar como se define deus, dizem-me que DEUS não se define :)

O Deus que eu me foi dado a conhecer da cultura popular portuguesa é Jeová (que se não me engano é o nome do deus monoteísta, quer dos cristãos, dos judeus ou dos muçulmanos).

Ora dizer-se que existe Jeová, (ou Deus) é negar todas as outras religiões e as suas crendices, o seu sagrado. O contrário, ou seja, ao afirmar-se que existem as divindades orientais, nega-se Deus (ou Jeová) na sua essência.

Então pela afirmação de uma das crenças não se chega a lado nenhum.

Ora. Uma das dificuldades em discutir religião é o seu casulo quanto à racionalidade. A racionalidade tem um espaço muito limitado de actuação na discussão de assuntos religiosos. O que nos leva à matemática. :)

Ora, o que tem a matemática a ver com isto?! É simples, a matemática tem o conjunto dos números imaginários, para contrapor aos números reais, servindo para calcular raízes negativas.

O que quero dizer com isto? Se calhar estamos a discutir a religião no plano errado… :) Temos que sair do plano do lógico e passar para o ilógico. E fazer isto é dar razão aos gnósticos, que afirmam que a religião não se compreende pela sua lógica, mas antes pela sua ilógica. A lógica do gnósticismo é simples: mortal/imortal, lógico/ilógico, etc. Tal como na matemática: nºs reais e nºs imaginários. Ora, a existência de lógica no raciocínio do próprio gnósticismo mata-o na sua base :)

Então, ou não faz qualquer sentido a religião, ou então nós não existimos.

Quero eu dizer que, o que faz sentido para mim é dizer-se que o espiritual tem importância para o homem. Mas deuses não! Deuses ou homens, ou animais, são apenas o recurso, o meio, ou a ferramenta, para atingir um fim: a espiritualidade. A espiritualidade no sentido de força anímica. Que nos impele à acção.

Ora, esta espiritualidade pode ser atingida através do culto da personalidade (seja ela Estaline, Jesus, ou Dawkins). Por isso o ateísmo está aí para ficar. Pois a não existência de deus, ou entidade divina, não implica a não existência de espiritualidade, excepto se o divino é o único meio exclusivo para o exercício da espiritualidade.

Ricardo Silva

Categorias: A existência dos outros · Opinião · Religião
Tagged: , , , ,

Capela de Nossa Senhora do Desterro

Outubro 9, 2007 · 1 Comentário

Capela de Nossa Senhora do Desterro – Herdade da Abóbada

O Monte da Abóbada, antigamente denominado Aldeia da Mesquita, foi fundado por D. Dinis.

Existe uma capela neste monte em cuja frontaria se pode ler “Santa Capella de Nossa Senhora do Desterro – mandaram fazer Lopo Álvares de Moura e D. Maria de Castro, sua esposa, no ano de 1636”.
No lugar desta capela existia uma ermida muito antiga, em que, no século XVI, foi sepultado um valente Capitão da Índia -  Ruy Lourenço Ravasco – cujos descendentes, os Ravascos, até há pouco tempo habitavam nos Concelhos de Moura e Barrancos

Categorias: Memória Futura · Religião

Igreja de S. Francisco

Outubro 9, 2007 · Deixe um Comentário

Igreja de S. Francisco

Situada no centro da vila, é nesta Igreja que são celebradas as cerimónias religiosas quotidianas.

Desconhece-se ao certo em que ano esta Igreja foi construída, bem como quem a mandou construir, existindo no entanto duas versões diferentes em torno da sua construção.
Segundo os anais históricos da família de Assis e Brito, a igreja foi acabada de construir em 1846, sendo edificada sobre uma capela que no mesmo sítio existia e com o mesmo nome.
Tudo começou com a promessa efectuada pelo Capitão de Ordenanças e Major de Lanceiros Bernardino José de Brito o qual não conseguindo ter filhos (ou melhor, a sua esposa, D. Maria da Conceição Pacheco) prometeu a S. Francisco de Assis que se este a “agraciasse” com um filho varão, construiria uma igreja em seu louvor em Aldeia Nova de S. Bento e colocaria o nome do Santo a seu filho. Em 1804 nasceu o rebento ao qual foi posto o nome de Francisco de Assis de Brito, sendo baptizado a 25 de Julho desse mesmo ano. Faleceu em 1862 e durante a sua vida foi Morgado da Abóbada, morgadio que herdou de seu pai.

Existe outra versão sobre a história desta igreja.

Conta-se que no ano de 1738 o Infante D. Francisco, filho de D. Pedro II, veio em romaria à Igreja de S. Bento, com o intuito de visitar o Santo para cumprimento de uma promessa. Pensa-se que este Infante aquando da sua visita, tenha mandado construir a Igreja de S. Francisco existente nesta localidade.

Categorias: Gosto · Ligações · Memória Futura · Religião
Tagged:

Igreja de S. Bento

Outubro 9, 2007 · Deixe um Comentário

 

Categorias: Gosto · Ligações · Memória Futura · Religião
Tagged:

Cartilha secreta

Outubro 4, 2007 · 2 Comentários

Ratzinger fez cartilha secreta para “ocultar crimes sexuais”

Um documento secreto do Vaticano, elaborado pelo então cardeal Joseph Ratzinger, o actual Papa, terá sido utilizado durante 20 anos para instruir os bispos católicos sobre a melhor forma de ocultar e evitar acusações judiciais em caso de crimes sexuais contra crianças.

Segundo a BBC, que ontem divulgou a existência desta cartilha num programa televisivo intitulado Crimes sexuais e o Vaticano, o documento de 39 páginas, escrito em latim em 1962 e distribuído pelos bispos católicos de todo o mundo, impõe um pacto de silêncio entre a vítima menor, o padre que é acusado do crime e quaisquer testemunhas ou pessoas a par do ocorrido. Quem quebrasse esse pacto seria excomungado pela Igreja Católica.(DN)

Categorias: Não Gosto · Religião
Tagged: , , ,

Muito católico

Outubro 3, 2007 · Deixe um Comentário

Na realidade, que sistema ético, senão o católico, confere ao homem uma tão grande esfera de liberdade individual, a qual é levada ao extremo de ele ser livre para pecar e, depois de percorrido o ciclo da confissão, do arrependimento e do perdão, voltar a ser livre para pecar outra vez? Eu não conheço outro e esta é, aos meus olhos, a razão principal da supremacia humanista da cultura católica, face a todas as outras – e, ironicamente, também, o seu grande calcanhar de aquiles.

Categorias: Actualidade · Religião · Roubado sem escrúpulos
Tagged: ,

O sagrado e o humano

Outubro 1, 2007 · Deixe um Comentário

O sagrado e o humano

Roger Scruton*

Não causa surpresa o fato de pessoas decentes, céticas, ao observarem o ressurgimento em nossos tempos de cultos supersticiosos, do conflito entre liberdades seculares e éditos religiosos, e do radicalismo islâmico assassino, se mostrarem receptivas às polêmicas anti-religiosas de Richard Dawkins, Christopher Hitchens e outros. O “sono da razão” trouxe monstros, como Goya previu em sua gravura.

Hitchens é um homem inteligente e altamente erudito que reconhece que o argumento mais útil para ele era bastante conhecido há 200 anos. Mas pensadores do Iluminismo, tendo mostrado que as alegações da fé não contavam com fundamentação racional, não desdenharam a religião, como alguém poderia desdenhar uma teoria refutada. A facilidade com que as doutrinas comuns da religião podem ser refutados os alertou para a idéia de que a religião não é, em essência, uma questão de doutrina, mas outra coisa. E decidiram descobrir o que poderia ser.

Para os pensadores no período imediato pós-Iluminismo, não era fé, mas fés, no plural, que compunham a essência básica da teologia. Para os pensadores pós-Iluminismo, os sistemas de crença monoteísta não estavam relacionados aos mitos e rituais antigos da mesma forma que a ciência para a superstição, ou a lógica para a magia. Em vez disso, eles eram cristalizações de uma necessidade emocional. Um mito não descreve o que aconteceu em algum período obscuro antes da contagem humana de tempo, mas algo que acontece sempre e repetidamente. Ele não explica as origens causais de nosso mundo, mas recita sua permanente importância espiritual.

Se você olhar para a religião antiga desta forma, então inevitavelmente sua visão do cânone judaico-cristão muda. A história da criação no Gênesis é facilmente refutada como relato de eventos históricos: como pode haver dias sem sol, homem sem mulher, vida sem morte? Mas lida como mito, este texto aparentemente ingênuo revela ser um estudo da condição humana.

Mitos e rituais, escreveu Hegel, são formas de autodescoberta, por meio das quais entendemos o lugar do indivíduo em um mundo de objetos e a liberdade interior que condiciona tudo o que fazemos. A ascensão do monoteísmo a partir das religiões politeístas da antiguidade não é apenas uma forma de descoberta, mas de autocriação, à medida que o espírito aprende a reconhecer a si mesmo no todo das coisas e a superar sua finitude.

Entre estas primeiras incursões na antropologia da religião e estudos posteriores, dois pensadores se destacam como fundadores de um novo empreendimento intelectual – um empreendimento que parece não ter sido notado por Hitchens, Dawkins ou Daniel Dennett. Os pensadores são Friedrich Nietzsche e Richard Wagner, e o empreendimento intelectual é o de mostrar o lugar do sagrado na vida humana e o tipo de conhecimento e entendimento que nos chega por meio da experiência das coisas sagradas.

A lição que ambos os pensadores extraíram dos gregos é de que é possível subtrair os deuses e suas histórias da religião grega sem tirar o mais importante. Esta coisa tinha sua realidade primária não em mitos, teologia ou doutrina, mas nos rituais, nos momentos que ficam fora do tempo, nos quais a solidão e a ansiedade do indivíduo humano são confrontadas e superadas por meio de uma imersão no grupo. Ao chamar estes momentos de “sagrados”, nós reconhecemos tanto seu complexo significado social quanto o alívio que fornecem à alienação.

A tentativa de Nietzsche e Wagner de entender o conceito do sagrado foi levada adiante não por antropólogos, mas por teólogos e críticos. É a teoria de René Girard, me parece, que mais urgentemente precisa ser debatida, agora que o triunfalismo ateísta está eliminando todos os nuances.

Em “A Violência e o Sagrado” (1972), Girard começa com uma observação que nenhum leitor imparcial da Bíblia judaica ou do Alcorão pode deixar de fazer, que é a de que a religião pode oferecer paz, mas tem suas raízes na violência. O Deus apresentado nestes textos é freqüentemente irado, dado a acessos de destruição. Ele faz exigências ultrajantes e sanguinárias – como a exigência para que Abraão sacrifique seu filho Isaac. Ele é obcecado por genitália e inflexível em que deva ser mutilada em sua honra.

Pensadores como Dawkins e Hitchens concluíram que a religião é a causa desta obsessão sexual e violência, e que os crimes cometidos em nome da religião podem ser vistos como a refutação definitiva dela. Nem tanto, argumenta Girard. A religião não é a causa da violência, mas a solução para ela. A violência vem de outra fonte e não há sociedade sem ela desde a primeira tentativa dos seres humanos viverem juntos. O mesmo pode ser dito da obsessão religiosa com a sexualidade: a religião não é a causa, mas uma tentativa de resolvê-la.

Como Nietzsche, Girard vê a condição primitiva da sociedade como uma de conflito. É do esforço para resolver este conflito que nasce a experiência do sagrado. Esta experiência nos vem de muitas formas -ritual religioso, oração, tragédia – mas sua verdadeira origem está nos atos de violência comunal. As sociedades primitivas são invadidas pelo “desejo mimético”, à medida que rivais lutam para igualar as aquisições materiais e sociais do outro, acentuando o antagonismo e precipitando o ciclo de vingança.

A solução é identificar uma vítima, alguém marcado pelo destino como sendo de fora da comunidade e portanto merecedor da vingança contra ela, que pode ser alvo do desejo de sangue acumulado, e que pode conduzir o ciclo de retribuição ao fim. O bode expiatório é a forma da sociedade de recriar a “diferença” e portanto se restaurar. Ao se unirem contra o bode expiatório, as pessoas são libertadas de suas rivalidades e reconciliadas. Por meio de sua morte, o bode expiatório purga a sociedade de sua violência acumulada. A santidade resultante do bode expiatório é o eco de longo prazo do temor reverente, do alívio e da religação visceral à comunidade que foi experimentada com sua morte.

Segundo Girard, a necessidade do bode expiatório sacrificial está implantada na psique humana, originária da tentativa de formar uma comunidade durável na qual a vida moral pode ser buscada com sucesso.

Em muitas histórias do Velho Testamento, nós vemos os antigos israelitas lidando com este ímpeto sacrificial. As histórias de Caim e Abel, de Abraão e Isaac e de Sodoma e Gomorra são resíduos de conflitos estendidos, nos quais o ritual foi desviado da vítima humana e ligado primeiro a sacrifícios animais, depois às palavras sagradas. Por este processo uma moralidade viável surgiu da competição e conflito, e das rivalidades viscerais da predatoriedade sexual.

Logo, a experiência do sagrado não é um resíduo irracional de medos primitivos, nem uma forma de superstição que algum dia será eliminado pela ciência. Ela é a solução para a agressão acumulada que existe no coração das comunidades humanas. É assim que Girard explica a paz e celebração que acompanha o ritual da comunhão – o senso de renovação que sempre precisa ser ele mesmo renovado. Girard descreve características profundas da condição humana, que podem ser observadas também nos cultos do mistério da antiguidade e nos templos locais do hinduísmo, assim como no “milagre” cotidiano da Eucaristia.

Há muitos elementos na teoria de Girard que podem ser criticados – como a idéia de que as instituições humanas podem ser explicadas pela criação de mitos. Mas tais críticas não influenciam, ao que me parece, o descaso com que as idéias de Girard são tratadas.

Eu suspeito que, como Nietzsche, Girard nos recordou das verdades que preferiríamos esquecer – em particular, a verdade de que a religião não se trata basicamente de Deus, mas do sagrado, e que a experiência do sagrado pode ser suprimida, ignorada e mesmo profanada, mas nunca destruída.

* Roger Scruton é um filósofo e professor de pesquisa do Instituto para as Ciências Psicológicas, Virgínia.

Categorias: Filosofia · Religião
Tagged: , ,