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A caminho do mar da Palha

Outubro 3, 2007 · Deixe um Comentário

O perigo afasta-se no rio

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

É ainda a fragata “Almirante Gago Coutinho” que, difusa, se vê em último plano na fotografia. Já não é ela a protagonista. Ao contrário do que se temia momentos antes, o vaso de guerra não recebeu ordem de fogo. Nem um disparo faz. Pelo contrário, vai retirar, a caminho do mar da Palha, onde estacionará inofensiva. O perigo que representava para o bom sucesso do golpe militar desaparece. No que diz respeito ao que acontece na Praça do Comércio, o 25 de Abril pode prosseguir.
Mas, durante algum tempo, longo tempo, receou-se o pior. Por isso, o carro de combate que se vê em primeiro plano, com uma guarnição de homens às ordens de Salgueiro Maia, tem o canhão a postos, pronto para responder ao navio de guerra. Perto do blindado, já começa a juntar-se gente. Pessoas a um tempo curiosas de saber o que se passa, e que simultaneamente se ajeitam para ficar no “boneco”. Civis, alheios ao perigo, mas que não fazem ainda a festa. Já não tardará muito, porém, por enquanto, é a curiosidade que se impõe. Um pouco mais à frente, um soldado de mãos nos bolsos, olha também para a objectiva do repórter fotográfico. Tranquilo.
A meio, em segundo plano, entre o blindado e a fragata “Almirante Gago Coutinho”, passa um cacilheiro. As idas e vindas entre as duas margens decorrem com normalidade, que a manhã é de azáfama para a população trabalhadora, apesar do momento-chave que o país vive. Escreve-se uma página decisiva da História do Portugal moderno, ao mesmo tempo que, paulatinamente, se desembarca de um cacilheiro, rumo ao emprego.
No ar, voam gaivotas. É uma foto de grande beleza, esta. Cheia de significado e de poesia. Uma fotografia do momento em que Lisboa e o Tejo se encontraram, no Cais das Colunas, numa manhã de Abril, para saudar a Liberdade. O rio da nossa mágoa, de onde partiram milhares de jovens para uma guerra espúria, como que se abria, mais uma vez, ao sonho. Olhando a foto, quase que se pressente o cheiro a uma doce maresia…
A imagem de baixo, retrata o mesmo local, mas não nos fala de liberdade. É um estaleiro de obras, cinzento e sombrio o que se vê. Passam automóveis, uma carrinha de caixa aberta, um autocarro. Quase não há gente. Trinta anos passados, em Lisboa, anda-se menos a pé.
Da fragata, do cacilheiro, nem rasto. Só o guindaste pode dar-nos, talvez um pouco, a ideia de um estranho instrumento bélico. Mesmo assim, nada nele sugere o canhão do carro de combate, da foto do dia 25 de Abril, de 1974. Apenas o candeeiro, à esquerda, lá está, hoje como ontem, indiferente ao passar dos anos. Será o mesmo? Se for, permanece a muda testemunha do que se passou quando, exactamente naquele local, trinta anos atrás, se começou a inventar ali um país diferente.

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Os caminhos de Abril

Outubro 3, 2007 · Deixe um Comentário

Uma suave tensão

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

O que há de constante nestas fotografias do dia 25 de Abril, de 1974, captadas pela objectiva do Alfredo Cunha, faz agora trinta anos? O que permanece, imagem a imagem, ao longo desta revisitação dos momentos em que um país renasce? Creio que começa a adivinhar-se. A sentir-se. Primeiro há, é certo, uma suave tensão. Mas, mais do que isso, uma vontade de mostrar que a Liberdade foi crescendo, nessa manhã de doce memória, fruto de uma vontade colectiva. Conjugada na primeira pessoa do plural. Como uma empresa comum. De todos nós. Sem “estrelas” no cartaz. Sem vedetas.
O que vemos na fotografia de cima são jovens soldados que, como muitos outros que ajudaram a fazer o golpe militar, que o povo transformou na revolução de Abril, sairão de cena quando o pano descer, e a vida retomar a normalidade do quotidiano. Anónimos como entraram. Este grupo de cinco, em primeiro plano, do lado esquerdo da Praça do Comércio, de frente para o Tejo, têm nas costas o Ministério das Finanças, um dos objectivos das forças de Salgueiro Maia, de que fazem parte. Percebe-se, por isso, que estejam naquele local. É um lugar do Poder, que vieram derrubar e devolver ao povo.
Há um sexto soldado, em segundo plano, desfocado, que parece voltar para trás. Talvez de regresso às portas do Ministério, onde se encontram mais alguns jovens militares, que a foto não mostra. Intruso, vemos ainda um civil que passa. Mas não faz parte da história. É, parece ser, um repórter de jornais, apanhado, sem querer, pela objectiva do colega.
Mais ou menos no mesmo local, há hoje, tinta anos depois, dois semáforos. Um jovem, que passeia o cão, espera o momento de atravessar a rua em segurança. Provavelmente, nem se apercebe que o faz num país diferente; e num local onde a Liberdade começou a nascer, de mansinho, já lá vão três décadas, ainda ele não teria nascido. Pelo aspecto, a sua juventude sugere-nos que nasceu já no Portugal democrático. Pouco saberá de um país em que era proibido ter opinião, em que as pessoas tinham medo de dizer o que pensavam. Talvez nem se dê conta do valor de poder falar livremente, sem medo dos espias a soldo dos donos da verdade.
Passa com o cão, pelo mesmo local por onde passou a Liberdade, nas mãos dos jovens soldados da foto de cima. Vive num país outro. Muito diferente. Igual, talvez só o cheiro a maresia, que envolve as duas manhãs, tão distantes no tempo, que é preciso dar da primeira testemunho. Evocá-la. Festejá-la. Para que não se transforme em apenas mais uma data, nos compêndios de História de Portugal. Para que o ideal permaneça. Para que a Liberdade não deixe, nunca, de passar por aqui.

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Os caminhos de Abril

Outubro 3, 2007 · Deixe um Comentário


Dois rostos anónimos…

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

Dois rostos. Dois rostos anónimos, parados no coração da manhã. Dois jovens prontos para o combate da Liberdade. Sabiam ao que vinham e por isso vieram. Cuidadosos, acoitam-se nas escadas do urinol, do lado direito da Praça do Comércio. Nem as armas se vêem. Só os capacetes lhes dão um ar bélico. Talvez, também, a expressão circunspecta, preocupada, do que se vê à esquerda na fotografia, possa mostrar que o momento é sério.
Muitos jovens como estes acompanharam os “capitães de Abril”; havemos de vê-los em próximas fotografias. Agora, a objectiva sustem no tempo apenas estes dois, surpreendidos por detrás do que resta de duas barras de ferro partidas, do gradeamento do urinol. Serenos, esperam.
Como eles, outros combatentes da Liberdade anseiam, por detrás de outras grades, nas prisões, que chegue a hora. Ainda não sabem, mas a hora chegou. Com o raiar da manhã, começa a nascer em Portugal “o país de Abril”. Daqui a pouco, sairão dos cacilheiros centenas de portugueses, muitos deles também desconhecedores de que está perto do fim, a liberdade vigiada em que vivem. Por agora, é a espera…
Com a farda de trabalho, na quietude do alvorecer, os soldados estão prontos. São operários da nova Descoberta. Mesmo assim quietos, dobram, o cabo de uma tormenta, que durou décadas. E fazem dele um Cabo de Boa Esperança. É assim no momento. Portugal abre a porta do futuro. O “país da desconfiança” está finalmente a morrer…
Trinta anos depois, na fotografia ao lado, dois outros jovens conversam. O cenário não é igual. Os urinóis da Praça do Comércio já não existem, engolidos pela remodelação do Terreiro. Para quem olha, as duas fotos parecem de locais diferentes. Não são. É a mesma Praça, o mesmo ângulo.
Aparentemente, o mais assustador que as duas imagens nos mostram é o “graf”, inscrito no banco onde se sentam os dois jovens, que hoje conversam, indiferentes à ameaça: Morte à Juve”. Mas é apenas uma bazófia. Algum “diabo vermelho”, que quis sublinhar a spray, a rivalidade com o grupo de Alvalade. Nada que se leve em conta.
Entre os dois momentos há um intervalo de 30 anos. Um único elemento de ligação permanece entre eles. A paixão que muito deste povo tem pelo futebol. E eles? Os jovens, de uma e de outra foto? Também serão adeptos de algum emblema? Não podemos saber. Sabemos é que os quatro são homens livres. “/Qual cor da liberdade?/, perguntava Jorge de Sena. E respondia: “/É verde verde e vermelha/”. Enganava-se este português ilustre. A liberdade também é azul. E amarela. E… A liberdade tem todas as cores com que se queira pintar a esperança.
Mas nesta manhã de Abril, a Liberdade tem a cor cinzento-esverdeado, com que se vestem os dois soldados. Os dois rostos que fitam.

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Os caminhos de Abril

Outubro 3, 2007 · Deixe um Comentário


Nevoeiro »»» A luz da libertação rompeu a bruma daquela madrugada
que ficaria na nossa memória

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

Evocar Abril, trinta anos depois. Durante trinta dias, reconstruir a memória, fotografia a fotografia. Percorrer os mesmos caminhos que dois jovens repórteres do finado jornal “O Século” fizeram nessa data mágica, que reinventou um país chamado Portugal. Que o devolveu a um povo, até então encerrado na bruma, encostado ao muro da Tradição; homens e mulheres com o estômago contraído pelo medo, fechados na arca do silêncio. Cinzentos. Tristes. Amordaçados.
Trinta anos mais velhos, reolhar locais por onde passou a Liberdade, procurando o rasto dela, surpreendendo o contraste, retendo-o na objectiva. Sempre exactamente dos mesmos locais, com os mesmos ângulos, à procura de interpretar as diferenças. Naquele dia foi assim; e hoje? Dar desta interrogação ao leitor os elementos disponíveis para uma descoberta pessoal. Desafiá-lo a folhear connosco um velho álbum de fotos cheias de sentido, lado a lado com as imagens de hoje.
Sem a preocupação do rigor histórico, sem submissão a qualquer cronologia, correndo o risco do erro. Mas sempre sem malícia. Talvez contando estórias. Talvez como segue.
O calendário confirma a data: dia 25 de Abril, ano de 1974. Ainda não amanheceu. O telefone toca em minha casa. Do outro lado, um dos chefes diz-me: veste-te e vem para o jornal. Precisamos de ti. Vou. Chegado à Redacção, encontro o Alfredo Cunha. O chefe diz-nos: parece que há por aí umas movimentações militares. Fala-se na Praça do Comércio. Vão lá ver. Avançamos excitados. Tensos.
Há realmente militares. Estes, os da foto, estão no cruzamento da Praça com a Rua da Ribeira das Naus. Dois encostam-se displicentemente à esquina do edifício do Ministério do Exército. A manhã nasce brumosa. Há pouca luz. Mal se vê o Tejo, ainda envolto em discreto nevoeiro. Os soldados são jovens e conversam. Falarão de quê? Que estará a passar-se? Têm as armas erguidas. Nada neles ou nelas respira agressividade. O único disparo é o da máquina fotográfica, que captura o instante. Abril chegou e ainda não o sabemos ao certo. Veremos adiante.
Hoje, a mesma esquina está diferente. Parece ter sido engolida por apressados automóveis. Há semáforos onde antes estavam soldados. Três dezenas de anos não melhoraram a paisagem urbana da Praça do Comércio, mas a placa que a identifica continua lá. O dia está cinzento. Chuvisca. As obras do Metro escondem o rio dos nossos olhos ávidos. Mas a maior diferença entre uma e outra foto é a Liberdade. Não se vê, mas há trinta anos passou por aqui. E ficou. Não mais a deixaremos ir-se embora. Este desejo colectivo, partilhado também não é visível. As fotos não mostram tudo. Muitas vezes, “o essencial é o que não se vê”.

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