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António Lobo Antunes

Novembro 5, 2008 · Deixe um comentário

Fico sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. Olha, as flores da jarra estão a murchar na água cinzenta, as folhas soltam-se, uma a uma, dos caules, tudo isto em silêncio.

Fico sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. Olha, as flores da jarra estão a murchar na água cinzenta, as folhas soltam-se, uma a uma, dos caules, tudo isto em silêncio, sem pressa, a tombarem na toalha, enroladas, secas. Dizia eu que fico sempre espantado
com a vida das pessoas: até o que lhes dá prazer me surpreende. Meu Deus, o que se agitam, tanta pressa sempre. E olhos ocos, aflitos. Tenho agora mais flores na sala do que num velório. Vêm daqui e dali com cartõezinhos simpáticos, a lembrança dos vivos. Se calhar morri sem dar por isso e continuo a existir na memória dos outros. Tocam à campainha e é um sujeito com flores. Estendem-me um papel
– Assine aqui

garatujo a hora, garatujo o nome, carregam no botão do elevador, somem-se e eu com aquilo nos braços. Vou deixando os ramos não importa onde: não há esquife aqui, não os posso encostar ao defunto. A voz da minha mãe ao telefone, a gritar como sempre. Coitada, tem passado algumas aflições com os filhos. Olho para ela e vem-me à ideia que a velhice depena as pessoas, tira-lhes bocados, às vezes dá-
-me a impressão que à minha mãe falta um pedaço da crista quando a vejo sentar-se à mesa ou que o tempo, como uma borracha, lhe apagou parte das feições, quebrou um bocadinho a voz, poliu os dedos que se tornaram sedosos, frágeis. Ali está ela a olhar para dentro, por vezes numa espécie de sorriso, quer dizer não é a boca que sorri, o sorriso à frente da boca, a flutuar sozinho. Eu na outra ponta da mesa, no lugar do meu pai a pensar

– Como é que o garfo vai atravessar o sorriso?

com medo que o garfo o leve para o prato e não leva, o sorriso continua intacto, perfeito, e é por baixo dele que a minha mãe mastiga. Chama-se Margarida. Em criança julgava que as pessoas, à medida que o tempo ia correndo, mudavam de nome. Por exemplo Rita assenta bem numa rapariga, não assenta tão bem numa senhora de idade e então trocavam o Rita por Clotilde ou Leopoldina, por exemplo Joana não calha numa ruiva e então muda-se para Beatriz e ao começar a fazer madeixas recupera o Rita, por exemplo Hermes desafina num bébé de maneira que fica à espera que o bébé tenha cinquenta anos e entretanto dizemos Pedro, mas a minha mãe foi Margarida sempre e não a concebo Fortunata nem Elisa nem Cátia embora para mim fosse

– Mãe

e estava encerrada a questão. E lá vai o garfo sem amolgar o sorriso. A única pessoa que não usava o

– Mãe

era o meu pai e as empregadas não

– Mãe

nem

– Margarida

as empregadas

– Senhora

o que me parecia um pleonasmo, como pôr ketchup em cima das rodelas de tomate. Os meus colegas de escola davam igualmente

– Mãe

às mães deles, o que eu achava estranho até perceber que

– Mãe

era o nome mais vulgar em Portugal. Curto, rápido, preciso e fácil de gritar durante o horrível suplício do corte das unhas, sobretudo o mindinho que uma tesoura feroz atacava magoando-me sempre, ou então era o medo que me magoasse que me magoava. Horas tremendas

– Que horror essas unhas

ordens horríveis

– Chega-te mais para a luz

conselhos tenebrosos

– Não te mexas agora

e isso, o arrancar dos pontos pretos com o aviso

– Está quase

seguido da exibição de uma coisa microscópica na ponta do indicador, sem mencionar a sopa

(– Quem não tem fome de sopa não tem fome de doce)

e a lavagem dos dentes, constituíram os suplícios cardinais da minha infância. Entretanto acho que me desviei do princípio desta crónica, ou seja de ficar sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. E as folhas das jarras a desprenderem-se dos caules. Se me deitasse no chão da sala acabavam por cobrir-me por inteiro e eu debaixo delas dando pela empregada a abrir a porta, a olhar para aquilo e a varrer-nos na direcção da pá: lá vou eu para o contentor dentro de um saco plástico, cheio de perfumes moribundos como os das tias-avós, rodeadas de essências vagas e tristes. Claro que se eu chamar a dona Olívia não liga: não acredita que as plantas falem e para o caso de se atreverem a falar nada melhor do que empurrá-las com força para o fundo. O que os outros se agitam, tanta pressa sempre, e eu quieto.
Sou um narciso, uma begónia, uma túlipa, ou antes restos de narcisos, de begónias, de túlipas, tão doces, tão pálidas. Mas não terei olhos ocos nem aflitos, apenas um caule tranquilo e por cima sacos plásticos dos vizinhos. Hoje voltei para casa, a seguir ao jantar, atrás de um bêbado.
Ia de um lado ao outro do passeio,
majestoso, lento. A certa altura parou a fazer chichi contra uma parede, um chichi interminável, uma abundância de fonte. Lembrei-me do bêbado de Pedro Páramo

– Ai vida não me mereces

e de caminho dei-lhe uma palmada no ombro que por pouco não o fez desmoronar-se, caindo tijolo a tijolo na rua mal iluminada, com grandes manchas de sombra que afogavam os automóveis estacionados, os prédios. Jantei sozinho num restaurantezito onde uma rapariga de cabelo pintado de loiro jantava sozinha. Ao levantar-me tinha saído.
Para onde? O que fará agora?
Sentada diante da televisão, com uma revista esquecida nos joelhos? A ler? À espera de um telefonema que não chega? Na janela em frente dois homens penduram um quadro na parede, afastam-se a observar o efeito, endireitam-se. Vinte e três horas e vinte e três minutos, vinte e três horas e vinte e quatro minutos. Hoje de manhã a televisão holandesa a entrevistar-me: deve ser uma estucha para os jornalistas porque não falo da minha vida e muito menos dos meus livros, eles que se defendam sozinhos. A certa altura silêncio e a produtora a perguntar-me o que pensava eu. Não respondi. Para quê?
É que se respondesse dizia-lhe que não pensava em nada, pensava no vácuo.

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O Meu Nome É Legião — Parte 3

Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário

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O Meu Nome É Legião – Parte 2

Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário

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«Saber ler é tão difícil como saber escrever»

Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário

Podemos começar por falar de amor?

Se eu souber responder…

O título do seu novo romance, Eu Hei-de Amar Uma Pedra, nascendo embora de um canto popular, terá a ver, igualmente, com impossibilidades do amor?

Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstractos são perigosos.

Há uma personagem no livro, que, à quarta-feira, ao longo de décadas, vai, secretamente, a uma pensão da Graça, ama e ali morre…

Foi daí que o livro veio. Só mudei o sítio. Sempre me espantou essa extraordinária forma de amor. A sexualidade, sempre tão importante para mim – e continua a ser -, cada vez me parece mais vazia de sentido quando não há outro modo de diálogo e de encontro, embora seja muito difícil resistir ao desejo imediato.

Amor é algo mais?

A noção de amor varia de pessoa para pessoa. Muitas vezes estamos apaixonados ou estaremos agradecidos por gostarem de nós? Ou será que o outro é apenas alguém junto de quem nos sentimos menos sozinhos? Não sei bem o que é a verdade acerca do amor e duvido que haja quem saiba. Só tenho perguntas, não tenho respostas. Até que ponto o amor não é apenas a idealização de um outro e de nós mesmos?

Nunca é fácil salvar uma relação…

Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam. Não me preocupa muito. Preocupa-me em relação a mim mesmo, mas há grandes partes da minha vida que eliminei sem piedade. Não vou a jantares, não vou a lançamentos.

E não tem solidões?

Preciso e gosto de estar sozinho.

Ao fim de 25 anos de vida literária, celebrados hoje, quem é António Lobo Antunes para António Lobo Antunes?

Vida literária custa-me a engolir, soa pretensiosa. Digo que se passam 25 anos sobre a publicação do primeiro romance [Memória de Elefante], que andou em bolandas, de editora em editora, a ser rejeitado. Quando saiu, já tinha acabado mais dois livros. Mas 25 anos é muito tempo e serve para ver que já não terei mais 25 para escrever.

Em princípio, a morte não está nas nossas mãos…

Às vezes, a gente morre por desatenção. Outras vezes morre-se quando se pode. Mas, a maior parte das vezes, morremos porque se nos acabou a saúde. Não fomos feitos para a morte, a não ser para a morte voluntária. A involuntária sempre me pareceu uma tremenda injustiça, para não falar em crueldade.

A intensidade poética da sua prosa é para aliviar tensões entre as personagens?

Não me é consciente. Uma coisa para mim é clara: tenho de proteger os meus ovos, que são os meus livros. Se racionalizar as coisas, perco-as. Estaria a fechar portas a mim mesmo e a essas coisas, que não sei bem se me pertencem, e emergem com essa força. Nos momentos felizes, a mão anda sozinha. A cabeça está a ver ao longe e fica contente, porque são as palavras certas que a cabeça não encontraria. É a mão.

Como dissocia o escritor da obra?

Não tenho bem a sensação de o livro nascer de mim. Faço a primeira versão, trabalho muito a segunda, no entanto, depois de entregar o livro, não vejo provas, não faço mais nada. Tudo o que quero é fazer outro. O livro só existe quando estou a escrever. E o tempo é-me muito curto. Se fizer mais dois ou três…

Um autor acéfalo conseguirá realizar uma obra-prima?

Se tiver uma mão suficientemente grande… Prende-se com um conjunto de coisas: primeiro, é preciso ter lido muito. Aprende-se a escrever, lendo. E também é necessária uma grande humildade face ao material da escrita. É a mão que escreve. A nossa mão é mais inteligente do que nós. Não é o autor que tem de ser inteligente, é a obra. O autor não escreve tão bem quanto os livros.

Está a dizer-me que o livro, em relação ao autor, é uma mentira?

Estou a dizer que o livro é melhor do que eu. Não escrevo assim tão bem.

Quem escreve o livro por si?

Um dia, em conversa com Eduardo Lourenço, a propósito de criação literária, ele lembrava o soneto de Pessoa (de quem não sou grande fã e ele é), que fala de «emissário de um rei desconhecido (…)», uma espécie de mensageiro. Há uns tempos, disse ao telefone, ao meu agente, ter a sensação de que era um anjo que estava a escrever por mim. Lembrei- -me, então, que anjo quer dizer mensageiro. Quando estou a escrever, parece que estão a ditar-me e a mão a reproduzir.

Considera-se um predestinado?

Não. Isso até aumenta a humildade. Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

Despojamento, uma outra riqueza?

Quando uma pessoa morre, tira-se-

-lhe a roupa, objectos pessoais, o dinheiro, os óculos. Que vão vestir os mortos quando voltarem? Que dinheiro têm para comer quando voltarem? Morro, podem ficar os livros, mas os livros não são eu, que terei a boca cheia de terra e estarei no céu ou em parte alguma. Que diferença me faz? Quando voltar, com que óculos é que vou ler?

Como regressam os mortos?

E será que partem? Sou um homem religioso. Há um provérbio húngaro muito velho que diz: «Na cova do lobo não há ateus.» O nosso problema é se Deus acreditará em nós. Deus, porém, tem coisas incompreensíveis para mim. Acho que gosta muito dos tolos, porque não pára de os fazer. Mas, se calhar, o caminho de Deus terá tais profundezas que a gente não as entende. Tenho, sobretudo, a experiência das perdas. A perda de qualquer amigo é uma ferida que nunca cicatriza. A perda de pessoas de quem gostei, e que não são substituídas por nada, deixaram vazios que nunca serão preenchidos. Isso também ajuda a tornar-nos humildes.

Na desmultiplicação do narrador, em Eu Hei-de Amar Uma Pedra, todas as personagens se confrontam com perdas…

Dizem que os meus romances são polifónicos. Não são. É sempre a mesma voz que fala e gostaria que fosse também a voz interior do leitor. Ou melhor: essa voz não fala, nós é que a ouvimos.

Uma voz que se desdobra em vozes de muitas sombras?

Sombras, luzes. Gostaria que fossem vozes totais, para mim são vozes totais, porque trazem consigo carne, corpo. O drama é que a gente está a ler em folhas de papel. E, no entanto, nunca tive a sensação de fazer ficções.

O seu novo romance parte de fotografias. São o maior registo da memória?

Não acho que os romances sejam novos. Existem há muito tempo, à espera que seja capaz de chegar a eles. Em miúdo, conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento. Mas temos fotógrafos geniais.

Não tirou fotografias às suas filhas?

A ninguém. Da mesma maneira que nunca gosto de me ver fotografado.

Acha-se feio?

Nunca lidei bem com o meu corpo. Vejo agora fotografias de quando era bebé ou de há 30 anos, e era bonito. Quando tinha 18 anos, as mulheres metiam conversa comigo.

Em dado momento da sua vida, isso foi razão para o tornar vaidoso?

Não era importante. Importante era que as mulheres fossem bonitas. As mulheres sempre exerceram um grande fascínio sobre mim.

Sentiu falta de um elemento feminino entre os seus seis irmãos?

Não podia sentir, porque não sabia o que era o elemento feminino.

Havia a mãe, as avós…

As mães, os pais não têm sexo. A mãe era a mãe, e mulher do meu pai. Também não sabia muito bem o que era ser mulher do meu pai. Julgo que todos os miúdos vêem os pais de uma maneira assexuada. Eu via a barriga da minha mãe a crescer mas não sabia qual o mecanismo que fazia com que a barriga da minha mãe crescesse.

Acreditava que os bebés chegavam no bico de uma cegonha?

Comigo era diferente. O meu pai estava na Alemanha, vinha uma vez por ano e a barriga da minha mãe começava a crescer. Sabia que tinha alguma coisa a ver com o facto de o meu pai ter estado cá. Mas nunca os vi beijarem-se, não sabia muito bem como aquilo era feito.

Não se falava de sexualidade às crianças. Hoje, o próprio ensino dá-lhe alguma atenção. É melhor?

Não faço juízos de valor, não sou médico.

É médico psiquiatra…

Já não faço nada disso. Só escrevo palavras. Nunca analisei essa parte, só me interessava tentar entender. Se analisarmos, não entendemos.

Como se chega ao entendimento sem análise, sem crítica?

Por osmose. Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver. Acho que era Malraux quem dizia: «A partir do momento em que a gente compreende, deixa de julgar.»

Que tempo vivemos: o do julgamento?

Tenho uma vida um pouco especial. Estive recentemente na Roménia, um país que me encanta e me faz reaprender o que é a liberdade. Um país muito parecido connosco…

No aspecto da liberdade?

No da latinidade. Quando voltei, havia todas essas coisas provocadas por este espantoso governo que temos. Tudo o que se tem passado me dá vontade de rir. Nós nunca vivemos em democracia, tal como os EUA não vivem em democracia. A democracia implicaria um referendar constante das decisões, e isso não acontece.

Há eleições…

Vota-se de quatro em quatro anos, mas, entre esses quatro anos, não nos pedem opinião. O que se tem verificado em Portugal, a propósito da liberdade de imprensa, não passa de uma luta de poder igual a tantas outras. De uma forma geral, olho para os políticos com uma indulgência divertida, sejam de que partidos forem. Há pouco tempo, estava no estrangeiro, num encontro com cento e tal escritores, e ouvi falar de Portugal por causa do «barco do aborto». Comentava-se que um ministro nosso terá dito: O mar português é um mar com princípios. Foi um motivo de troça à minha custa, que não tinha culpa nenhuma.

Portugal é diferente dos outros países?

Claro que não. Nem somos piores. E temos uma língua espantosa. E um clima maravilhoso. Cada vez me seria mais difícil viver longe de Portugal. Gosto muito do meu país.

Costuma ler as críticas à sua obra?

Devo ser dos poucos autores que não lêem as críticas, sejam boas ou más. O que faço ainda é cedo para ser compreendido. Tenho a sensação que estou a escrever coisas maiores do que eu. É preciso deixar passar um tempo. Talvez daqui a 50 ou cem anos seja tudo mais claro. Se uma pessoa está à frente do seu tempo, isso provoca reacções contraditórias. Mas há críticos excelentes que iluminam zonas de sombra dos livros. É também preciso grande humildade para se escrever sobre o que se lê e não julgar-se um livro com a nossa chave. Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons.

Prefere que a chave dos seus livros fique na posse do leitor?

A chave vem com o livro. Saber ler é tão difícil como saber escrever.

Há quem tenha dificuldade em entrar nos seus livros…

Para mim, os livros que escrevo são óbvios e evidentes. Ao lermos certos autores muito bons – estou a pensar no Conrad -, parece caminhar-se no meio do nevoeiro e, de repente, o nevoeiro começa a levantar-se e o livro fica totalmente claro. Quando, aos 20 anos, via um filme de Bergman, aborrecia-me profundamente.

A partir de que idade começou a entender Ingmar Bergman, considerado o cineasta da memória?

A partir dos 40, comovia-me até às lágrimas. Era eu que não estava preparado para ver aqueles filmes e notar o quanto de mim existia neles. Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

Quando na sua escrita suspende a frase, a palavra, deseja deixar portas abertas? Pretende ter o leitor como um interlocutor constante?

Fui compreendendo que tinha de pôr a prosa a respirar de uma outra forma. É também uma maneira de pontuar. O problema é como isso se traduz para outras línguas. Neste momento, na Rússia, estamos com problemas de tradutores de português; traduz-se a partir do alemão. O português, em muitos países, é como o esloveno para nós. Um país onde se traduz maravilhosamente é em Espanha.

Que imagem tem da língua portuguesa, falada por 250 milhões?

Na sua maior parte, as pessoas que conhecem o português em alguns países conhecem o português do Brasil, cujo léxico e musicalidade são diferentes. Julgo que o meu português coloca problemas específicos. Estou a lembrar-me do problema que foi para um tradutor expressões como alto lá com o charuto. Todas as línguas têm a sua idiossincrasia. Uma tradução acaba por ser uma fotografia a preto e branco.

Sente-se bem a escrever em português?

É a minha língua, não me imagino a escrever noutra.

Nos seus livros faz sempre uma visita à infância. É o património mais vasto e rico da sua escrita?

Queria que os livros tivessem todos os tempos da minha vida. Talvez a partir de uma certa idade estejamos mais atentos à nossa infância.

Estou a lembrar-me de Séneca, que diz: «Ama como se morresses hoje.» No seu caso, escreve como se pudesse morrer hoje?

Não quero nada morrer hoje. Estou a meio de um livro, não o queria deixar imperfeito. E queria viver mais dois anos para fazer outro, e mais dois para fazer outro, como se andasse a negociar a vida. Gostaria de ter mais dez anos para escrever. E se calhar, mesmo morto, a mão vai continuar a avançar.

Quando poderá o escritor ter a percepção de que deve parar?

A partir de certo momento, tudo começa a ossificar-se. Muitas vezes não temos essa percepção.

Tem palavras por meio das quais procure um significado absoluto?

Tenho aprendido mais a escrever com os poetas do que com os prosadores. Em poesia, pelo menos nos poetas que admiro, cada palavra tem um brilho próprio. Mas não gosto de dividir as coisas em romance, conto, novela, poema.

Convoca tantas flores para os seus livros… Fazem parte da sua natureza?

Vivo sem flores, não tenho flores em casa. Vivo com livros e quadros, a maior parte oferecidos pelo Júlio Pomar. Nunca tive bens materiais. Nem uso relógio. Posso fazer a mala e ir-me embora. Não estou agarrado às coisas.

António Lobo Antunes
escritor
DN.TEMA: 25 anos de vida literária

«Saber ler é tão difícil como saber escrever»

maria augusta silva

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António Lobo Antunes

Outubro 7, 2008 · Deixe um comentário

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António Lobo Antunes vence Prémio Juan Rulfo

Setembro 12, 2008 · Deixe um comentário

Depois do Prémio Camões e do Prémio Terence Moix, ambos entregues este ano, o escritor António Lobo Antunes acaba de ser anunciado vencedor do Prémio Literário Juan Rulfo que, pela primeira vez, consagra um autor português.
O prémio, no valor de 150 mil dólares, será entregue no próximo mês de Novembro, durante a Feira do Livro de Guadalajara, no México, onde o romancista português estará presente. Instituído em 1991, o Prémio Juan Rulfo, considerado um dos mais importantes no panorama literário latino-americano, teve no escritor chileno Nicanor Parra o seu primeiro vencedor. Na última vez que o prémio foi atribuído a escolha recaiu no mexicano Fernando del Paso. O Prémio Juan Rulfo já consagrou dois autores cubanos, um peruano, dois argentinos, dois brasileiros e dois espanhóis. Distingue agora, pela primeira vez, um escritor português e a honra coube a António Lobo Antunes.

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“Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras”

Dezembro 19, 2007 · 1 Comentário

“Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras”

Sempre de cigarro entre os dedos, desafiando as regras do politicamente correcto, António Lobo Antunes desmontou também algumas ideias feitas acerca do ofício da escrita. Por exemplo, a de que uma boa ideia faz sempre um bom livro.

O Meu Nome é Legião, o mais recente romance de António Lobo Antunes, foi o pretexto para uma visita do escritor à Biblioteca Municipal de Beja, na quarta-feira, 5, cidade a que não retornava há 14 anos. Mas o autor de Os Cus de Judas, este ano distinguido com o Prémio Camões, não perdeu muito tempo a falar da obra em si, preferindo deixar a conversa fluir ao sabor das perguntas de um auditório cheio e ávido. “Se eu pudesse resumir um livro em cinco minutos, para quê passar dois anos a escrevê-lo?”, declarou, logo de entrada. Os temas sucederam-se assim, sem rumo certo, desde a infância do autor, passando pela experiência da medicina, até ao mundo da literatura, com repetidas referências ao escritor já desaparecido José Cardoso Pires – “um irmão mais velho para mim” – e à sua própria visão dos livros enquanto autor. Sempre de cigarro entre os dedos, desafiando as regras do politicamente correcto, António Lobo Antunes desmontou também algumas ideias feitas acerca do ofício da escrita. Em primeiro lugar, a de que um bom livro se faz de uma boa história: “Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras. Eu insisto muito neste ponto: quando uma pessoa diz que tem uma ideia muito boa para um livro, eu não tenho a menor dúvida de que o livro é mau. Porque são as palavras que geram as palavras”.

Foi assim com o romance anterior, Ontem não te vi em Babilónia, que partiu da simples conjectura “como é que a noite se transforma em manhã?”, e é assim com O Meu Nome é Legião, que segue a vida dos jovens de um bairro social da periferia de uma grande cidade, descrita através de um relatório de polícia, num registo próximo da crónica. “Cada vez mais, quando começo um livro não tenho nada na cabeça. Neste último livro, o que eu tinha era um grupo de miúdos, aquilo a que as pessoas chamam delinquentes, crianças entre os 12 e os 18 anos. Faziam assaltos, matavam pessoas, roubavam. Porque sempre me pareceu que aquilo era muito mais uma forma de comunicar, a única forma que lhes era possível. E que a vida, a morte e a sociedade tinham para eles um significado diferente”.

E foi tudo o que Lobo Antunes disse sobre o romance que anda a promover pelo País, acompanhado pelo editor da D. Quixote. A partir daqui, colocou-se nas mãos da plateia, mediante o acordo de responder o que quisesse ao que lhe fosse perguntado. Por isso recordou a passagem pelo curso de medicina, em obediência aos desejos do pai, médico, o primeiro contacto com a realidade da morte, nos bancos de faculdade, ou a relutância em deixar a carreira, quando era já o que se chama “um psiquiatra da moda”, para se dedicar inteiramente ao que sempre soube que iria fazer, “desde que nasci”. “Sentia-me uma orelha enorme sentada numa cadeira onde as pessoas despejavam. Mas eu tinha medo de não ganhar o dinheiro suficiente para viver. A primeira vez que ganhei o Grande Prémio de Romance e Novela [Associação Portuguesa de Escritores] pensei que tinha que tomar uma decisão mas fiz isso com muito medo”, reconheceu, não enjeitando, no entanto, o seu anterior modo de vida, do qual conserva uma “certa saudade”. Acima de tudo pela “sensação de ser útil”, no contacto directo com os doentes. Pelo contrário, “enquanto escritor, eu não sei para quem escrevo porque não vejo as pessoas, estou ali sozinho”, disse, confessando que trabalha “virado para a parede”, com recurso ao velho método do papel e caneta, e com um livro aberto à frente, como fazia nos tempos do liceu para tentar dissimular, aos olhos dos pais, a “actividade pouco séria” da escrita.

“A literatura não é para distrair ninguém”

Desfiando histórias como se estivesse entre amigos, o premiado e traduzidíssimo escritor, há anos apontado como possível Prémio Nobel da Literatura, confessou também o seu “medo de escrever”. Em primeiro lugar, por nunca estar certo de ser capaz de escrever o próximo livro – “há pessoas que têm três, quatro livros na cabeça. Eu nunca tive nada” – depois, pelo receio de defraudar os leitores, “pessoas que depositaram em mim uma fé que eu nunca tive”. Mas há ainda um terceiro factor: a dificuldade. O primeiro capítulo de um livro pode chegar a ter 15 versões, até a obra “encontrar o seu caminho”, pelo que é frequentemente um processo demorado e penoso, de espera, às vezes infrutífera, pelas palavras certas. Sendo tão difícil escrever, o que mais impressiona o autor é que se publique tanto e – certamente por isso mesmo – tantas vezes, maus livros. Foi talvez o único momento em que Lobo Antunes revelou alguma amargura no discurso, aquele em que se referiu à “política editorial” enquanto algo que o indigna profundamente. “Publica-se o lixo porque o lixo dá dinheiro. E as pessoas compram e dizem: é para me distrair. Mas a literatura não é para distrair ninguém. Eu não quero distrair ninguém, não quero entreter ninguém. A literatura para mim, enquanto leitor, é um acto de conhecimento e aprendizagem. Sobre a vida, sobre mim mesmo”, rematou, deixando também claro a sua especial consideração pelos leitores portugueses, para quem escreve acima de tudo. “Eu escrevo sobretudo para as pessoas do meu país. Cada vez me sinto mais português, cada vez gosto mais do meu país, cada vez me sinto melhor aqui. É aqui que eu quero viver, é aqui que eu quero morrer”.

DIÁRIO DO ALENTEJO

autor Carla Ferreira texto | José Serrano fotos

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António Lobo Antunes

Dezembro 5, 2007 · Deixe um comentário

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«Saber ler é tão difícil como saber escrever»

Dezembro 5, 2007 · Deixe um comentário

Podemos começar por falar de amor?

Se eu souber responder…

O título do seu novo romance, Eu Hei-de Amar Uma Pedra, nascendo embora de um canto popular, terá a ver, igualmente, com impossibilidades do amor?

Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstractos são perigosos.

Há uma personagem no livro, que, à quarta-feira, ao longo de décadas, vai, secretamente, a uma pensão da Graça, ama e ali morre…

Foi daí que o livro veio. Só mudei o sítio. Sempre me espantou essa extraordinária forma de amor. A sexualidade, sempre tão importante para mim – e continua a ser -, cada vez me parece mais vazia de sentido quando não há outro modo de diálogo e de encontro, embora seja muito difícil resistir ao desejo imediato.

Amor é algo mais?

A noção de amor varia de pessoa para pessoa. Muitas vezes estamos apaixonados ou estaremos agradecidos por gostarem de nós? Ou será que o outro é apenas alguém junto de quem nos sentimos menos sozinhos? Não sei bem o que é a verdade acerca do amor e duvido que haja quem saiba. Só tenho perguntas, não tenho respostas. Até que ponto o amor não é apenas a idealização de um outro e de nós mesmos?

Nunca é fácil salvar uma relação…

Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam. Não me preocupa muito. Preocupa-me em relação a mim mesmo, mas há grandes partes da minha vida que eliminei sem piedade. Não vou a jantares, não vou a lançamentos.

E não tem solidões?

Preciso e gosto de estar sozinho.

Ao fim de 25 anos de vida literária, celebrados hoje, quem é António Lobo Antunes para António Lobo Antunes?

Vida literária custa-me a engolir, soa pretensiosa. Digo que se passam 25 anos sobre a publicação do primeiro romance [Memória de Elefante], que andou em bolandas, de editora em editora, a ser rejeitado. Quando saiu, já tinha acabado mais dois livros. Mas 25 anos é muito tempo e serve para ver que já não terei mais 25 para escrever.

Em princípio, a morte não está nas nossas mãos…

Às vezes, a gente morre por desatenção. Outras vezes morre-se quando se pode. Mas, a maior parte das vezes, morremos porque se nos acabou a saúde. Não fomos feitos para a morte, a não ser para a morte voluntária. A involuntária sempre me pareceu uma tremenda injustiça, para não falar em crueldade.

A intensidade poética da sua prosa é para aliviar tensões entre as personagens?

Não me é consciente. Uma coisa para mim é clara: tenho de proteger os meus ovos, que são os meus livros. Se racionalizar as coisas, perco-as. Estaria a fechar portas a mim mesmo e a essas coisas, que não sei bem se me pertencem, e emergem com essa força. Nos momentos felizes, a mão anda sozinha. A cabeça está a ver ao longe e fica contente, porque são as palavras certas que a cabeça não encontraria. É a mão.

Como dissocia o escritor da obra?

Não tenho bem a sensação de o livro nascer de mim. Faço a primeira versão, trabalho muito a segunda, no entanto, depois de entregar o livro, não vejo provas, não faço mais nada. Tudo o que quero é fazer outro. O livro só existe quando estou a escrever. E o tempo é-me muito curto. Se fizer mais dois ou três…

Um autor acéfalo conseguirá realizar uma obra-prima?

Se tiver uma mão suficientemente grande… Prende-se com um conjunto de coisas: primeiro, é preciso ter lido muito. Aprende-se a escrever, lendo. E também é necessária uma grande humildade face ao material da escrita. É a mão que escreve. A nossa mão é mais inteligente do que nós. Não é o autor que tem de ser inteligente, é a obra. O autor não escreve tão bem quanto os livros.

Está a dizer-me que o livro, em relação ao autor, é uma mentira?

Estou a dizer que o livro é melhor do que eu. Não escrevo assim tão bem.

Quem escreve o livro por si?

Um dia, em conversa com Eduardo Lourenço, a propósito de criação literária, ele lembrava o soneto de Pessoa (de quem não sou grande fã e ele é), que fala de «emissário de um rei desconhecido (…)», uma espécie de mensageiro. Há uns tempos, disse ao telefone, ao meu agente, ter a sensação de que era um anjo que estava a escrever por mim. Lembrei- -me, então, que anjo quer dizer mensageiro. Quando estou a escrever, parece que estão a ditar-me e a mão a reproduzir.

Considera-se um predestinado?

Não. Isso até aumenta a humildade. Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

Despojamento, uma outra riqueza?

Quando uma pessoa morre, tira-se-

-lhe a roupa, objectos pessoais, o dinheiro, os óculos. Que vão vestir os mortos quando voltarem? Que dinheiro têm para comer quando voltarem? Morro, podem ficar os livros, mas os livros não são eu, que terei a boca cheia de terra e estarei no céu ou em parte alguma. Que diferença me faz? Quando voltar, com que óculos é que vou ler?

Como regressam os mortos?

E será que partem? Sou um homem religioso. Há um provérbio húngaro muito velho que diz: «Na cova do lobo não há ateus.» O nosso problema é se Deus acreditará em nós. Deus, porém, tem coisas incompreensíveis para mim. Acho que gosta muito dos tolos, porque não pára de os fazer. Mas, se calhar, o caminho de Deus terá tais profundezas que a gente não as entende. Tenho, sobretudo, a experiência das perdas. A perda de qualquer amigo é uma ferida que nunca cicatriza. A perda de pessoas de quem gostei, e que não são substituídas por nada, deixaram vazios que nunca serão preenchidos. Isso também ajuda a tornar-nos humildes.

Na desmultiplicação do narrador, em Eu Hei-de Amar Uma Pedra, todas as personagens se confrontam com perdas…

Dizem que os meus romances são polifónicos. Não são. É sempre a mesma voz que fala e gostaria que fosse também a voz interior do leitor. Ou melhor: essa voz não fala, nós é que a ouvimos.

Uma voz que se desdobra em vozes de muitas sombras?

Sombras, luzes. Gostaria que fossem vozes totais, para mim são vozes totais, porque trazem consigo carne, corpo. O drama é que a gente está a ler em folhas de papel. E, no entanto, nunca tive a sensação de fazer ficções.

O seu novo romance parte de fotografias. São o maior registo da memória?

Não acho que os romances sejam novos. Existem há muito tempo, à espera que seja capaz de chegar a eles. Em miúdo, conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento. Mas temos fotógrafos geniais.

Não tirou fotografias às suas filhas?

A ninguém. Da mesma maneira que nunca gosto de me ver fotografado.

Acha-se feio?

Nunca lidei bem com o meu corpo. Vejo agora fotografias de quando era bebé ou de há 30 anos, e era bonito. Quando tinha 18 anos, as mulheres metiam conversa comigo.

Em dado momento da sua vida, isso foi razão para o tornar vaidoso?

Não era importante. Importante era que as mulheres fossem bonitas. As mulheres sempre exerceram um grande fascínio sobre mim.

Sentiu falta de um elemento feminino entre os seus seis irmãos?

Não podia sentir, porque não sabia o que era o elemento feminino.

Havia a mãe, as avós…

As mães, os pais não têm sexo. A mãe era a mãe, e mulher do meu pai. Também não sabia muito bem o que era ser mulher do meu pai. Julgo que todos os miúdos vêem os pais de uma maneira assexuada. Eu via a barriga da minha mãe a crescer mas não sabia qual o mecanismo que fazia com que a barriga da minha mãe crescesse.

Acreditava que os bebés chegavam no bico de uma cegonha?

Comigo era diferente. O meu pai estava na Alemanha, vinha uma vez por ano e a barriga da minha mãe começava a crescer. Sabia que tinha alguma coisa a ver com o facto de o meu pai ter estado cá. Mas nunca os vi beijarem-se, não sabia muito bem como aquilo era feito.

Não se falava de sexualidade às crianças. Hoje, o próprio ensino dá-lhe alguma atenção. É melhor?

Não faço juízos de valor, não sou médico.

É médico psiquiatra…

Já não faço nada disso. Só escrevo palavras. Nunca analisei essa parte, só me interessava tentar entender. Se analisarmos, não entendemos.

Como se chega ao entendimento sem análise, sem crítica?

Por osmose. Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver. Acho que era Malraux quem dizia: «A partir do momento em que a gente compreende, deixa de julgar.»

Que tempo vivemos: o do julgamento?

Tenho uma vida um pouco especial. Estive recentemente na Roménia, um país que me encanta e me faz reaprender o que é a liberdade. Um país muito parecido connosco…

No aspecto da liberdade?

No da latinidade. Quando voltei, havia todas essas coisas provocadas por este espantoso governo que temos. Tudo o que se tem passado me dá vontade de rir. Nós nunca vivemos em democracia, tal como os EUA não vivem em democracia. A democracia implicaria um referendar constante das decisões, e isso não acontece.

Há eleições…

Vota-se de quatro em quatro anos, mas, entre esses quatro anos, não nos pedem opinião. O que se tem verificado em Portugal, a propósito da liberdade de imprensa, não passa de uma luta de poder igual a tantas outras. De uma forma geral, olho para os políticos com uma indulgência divertida, sejam de que partidos forem. Há pouco tempo, estava no estrangeiro, num encontro com cento e tal escritores, e ouvi falar de Portugal por causa do «barco do aborto». Comentava-se que um ministro nosso terá dito: O mar português é um mar com princípios. Foi um motivo de troça à minha custa, que não tinha culpa nenhuma.

Portugal é diferente dos outros países?

Claro que não. Nem somos piores. E temos uma língua espantosa. E um clima maravilhoso. Cada vez me seria mais difícil viver longe de Portugal. Gosto muito do meu país.

Costuma ler as críticas à sua obra?

Devo ser dos poucos autores que não lêem as críticas, sejam boas ou más. O que faço ainda é cedo para ser compreendido. Tenho a sensação que estou a escrever coisas maiores do que eu. É preciso deixar passar um tempo. Talvez daqui a 50 ou cem anos seja tudo mais claro. Se uma pessoa está à frente do seu tempo, isso provoca reacções contraditórias. Mas há críticos excelentes que iluminam zonas de sombra dos livros. É também preciso grande humildade para se escrever sobre o que se lê e não julgar-se um livro com a nossa chave. Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons.

Prefere que a chave dos seus livros fique na posse do leitor?

A chave vem com o livro. Saber ler é tão difícil como saber escrever.

Há quem tenha dificuldade em entrar nos seus livros…

Para mim, os livros que escrevo são óbvios e evidentes. Ao lermos certos autores muito bons – estou a pensar no Conrad -, parece caminhar-se no meio do nevoeiro e, de repente, o nevoeiro começa a levantar-se e o livro fica totalmente claro. Quando, aos 20 anos, via um filme de Bergman, aborrecia-me profundamente.

A partir de que idade começou a entender Ingmar Bergman, considerado o cineasta da memória?

A partir dos 40, comovia-me até às lágrimas. Era eu que não estava preparado para ver aqueles filmes e notar o quanto de mim existia neles. Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

Quando na sua escrita suspende a frase, a palavra, deseja deixar portas abertas? Pretende ter o leitor como um interlocutor constante?

Fui compreendendo que tinha de pôr a prosa a respirar de uma outra forma. É também uma maneira de pontuar. O problema é como isso se traduz para outras línguas. Neste momento, na Rússia, estamos com problemas de tradutores de português; traduz-se a partir do alemão. O português, em muitos países, é como o esloveno para nós. Um país onde se traduz maravilhosamente é em Espanha.

Que imagem tem da língua portuguesa, falada por 250 milhões?

Na sua maior parte, as pessoas que conhecem o português em alguns países conhecem o português do Brasil, cujo léxico e musicalidade são diferentes. Julgo que o meu português coloca problemas específicos. Estou a lembrar-me do problema que foi para um tradutor expressões como alto lá com o charuto. Todas as línguas têm a sua idiossincrasia. Uma tradução acaba por ser uma fotografia a preto e branco.

Sente-se bem a escrever em português?

É a minha língua, não me imagino a escrever noutra.

Nos seus livros faz sempre uma visita à infância. É o património mais vasto e rico da sua escrita?

Queria que os livros tivessem todos os tempos da minha vida. Talvez a partir de uma certa idade estejamos mais atentos à nossa infância.

Estou a lembrar-me de Séneca, que diz: «Ama como se morresses hoje.» No seu caso, escreve como se pudesse morrer hoje?

Não quero nada morrer hoje. Estou a meio de um livro, não o queria deixar imperfeito. E queria viver mais dois anos para fazer outro, e mais dois para fazer outro, como se andasse a negociar a vida. Gostaria de ter mais dez anos para escrever. E se calhar, mesmo morto, a mão vai continuar a avançar.

Quando poderá o escritor ter a percepção de que deve parar?

A partir de certo momento, tudo começa a ossificar-se. Muitas vezes não temos essa percepção.

Tem palavras por meio das quais procure um significado absoluto?

Tenho aprendido mais a escrever com os poetas do que com os prosadores. Em poesia, pelo menos nos poetas que admiro, cada palavra tem um brilho próprio. Mas não gosto de dividir as coisas em romance, conto, novela, poema.

Convoca tantas flores para os seus livros… Fazem parte da sua natureza?

Vivo sem flores, não tenho flores em casa. Vivo com livros e quadros, a maior parte oferecidos pelo Júlio Pomar. Nunca tive bens materiais. Nem uso relógio. Posso fazer a mala e ir-me embora. Não estou agarrado às coisas.
António Lobo Antunes
escritor
DN.TEMA: 25 anos de vida literária

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A morte é uma puta

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

O escritor surpreendeu os portugueses ao revelar numa crónica que tinha sido operado a um cancro no intestino. Não se coíbe de falar sobre o assunto, até porque a morte é palavra habitual nas páginas dos seus livros, mas comove-se ao relembrar aqueles dias e o pós-operatório. Uma coisa é certa, saiu deste susto um homem diferente e com vontade de ser mais sincero e de outro amar.

A porta que dá entrada na garagem onde escrevia naquela tarde fica no fundo de um beco. António Lobo Antunes enterra-se num sofá preto e pede para começar a entrevista com um certo ar de vamos cumprir o combinado. No fim, dirá que nem deu pelo tempo passar e encaminha-se para a “tasca” onde pede ao empregado o habitual. Desta vez, só deu duas entrevistas para ajudar o lançamento do novo livro – O Meu Nome é Legião. Está a trabalhar no próximo…

A MORTE

De vez em quando ameaça que só escreverá mais dois ou três livros. Perdeu a vontade?
Não só não é isso que eu tenho vontade como tão-pouco é uma ameaça. Está muito mais relacionado com o medo de não ser mais capaz de escrever. Aparece a cada livro que acabo e pergunto-me se serei capaz de fazer um próximo. Ninguém que escreva a sério vai poder dizer isso. Também é uma espécie de negociação com a morte, deixa-me escrever mais um, mais dois, mais três… Gostava de ter tempo para escrever outro e arredondar o trabalho, é um círculo que ainda não está completo.


Quantos livros faltam para fechar esse círculo. Só mais um?

Gostava que fossem mais porque o círculo vai aumentando sem nos darmos conta. Eu gostava de viver mais duzentos anos mas é improvável que os tenha.


Sofre muito ao escrever?

Há instantes de intensa felicidade – às vezes sinto as lágrimas a caírem-me pela cara – e momentos de grande irritação porque num dia consigo fazer meia página e no noutro só três linhas. O material resiste, as palavras não chegam, o livro não sai. Normalmente as primeiras duas, três horas são perdidas, os mecanismos sensórios ainda estão muito vivos. Então, quando começo a estar cansado, as coisas começam a articular-se com mais facilidade. É como quando estamos a dormir e de repente temos a sensação de termos descoberto os segredos da vida e do mundo, mas sabemos que estamos a dormir. Lutamos para acordar e quando chegamos à superfície não temos nada, diluiu-se enquanto fomos subindo. Quando consigo um estado próximo dos sonhos é muito mais fácil trabalhar e só o tenho estando fatigado.


Já experimentou algumas substâncias para atingir esse estado artificialmente?

Nunca tomei drogas, nunca apanhei uma bebedeira na vida. Não bebo café, não me dá prazer. Acho que o único vício que tenho é fumar.


Portanto, é bem comportado?

Não é uma questão de comportamento, em casa dos meus pais não havia vinho à mesa, só água. Eram muitos filhos…


É normal os filhos romperem hábitos!

Não havia vinho à mesa da mesma maneira que a roupa passava de uns para os outros. Os meus pais deram-nos uma educação de grande austeridade, não tinham muito dinheiro.


Quando faz o julgamento da convivência com a vida acha que ambos se dão bem?

Nunca me pus esse problema, tenho tentado viver o melhor que posso. Fiz certamente muitos erros e continuarei a fazer – espero que menos – mas nós não fomos feitos para a morte, fomos feitos para a vida e sempre me custou ver o sofrimento alheio. Quando fazia muita medicina, não era só o sofrimento que custava mas a minha impotência para com ele. Acho que as pessoas não foram feitas para a morte mas para a vida e para a alegria.


Mas não há escapatória para a morte!

É mais simples do que se pensa. Este ano, tive um problema de saúde e sofri isso na pele, acho que o problema está ultrapassado mas foi um ano duro. E a minha atitude era sobretudo de espanto, e a minha preocupação era ter uma atitude digna e não cobarde. Vi pessoas com uma coragem extraordinária e aprendi com elas lições de vida, coragem e dignidade. As pessoas comportavam-se como príncipes perante a situação e eu pensava estou aqui com pessoas que são melhores do que eu, com uma imensa dignidade no sofrimento. Isso foi uma coisa que me comoveu muito e fez pensar que vale a pena viver entre os homens e com eles. Todo o sofrimento é injusto… Em nome do quê é que uma criança de três anos morre com um cancro ou uma leucemia? É muito injusto, qual a razão disso? Sempre me intrigou a razão deste sofrimento porque o do interior tê-lo-emos sempre. Estamos carregados de dúvidas e certezas e as perguntas que nos fazemos ficam muitas vezes sem resposta. Porque vivo assim, em que falhei e magoamos pessoas sem darmos conta com uma frase que para nós é completamente anódina. Julgo que o segredo é estarmos atentos aos outros mas frequentemente não estamos e, sobretudo, não reparamos que são diferentes de nós. Daí o problema de escrever, como colocar em palavras coisas que por definição são anteriores às palavras? Como tentar cercá-las com palavras? Há zonas em mim que desconheço, portas que nunca abri e que, no entanto, aparecem nos livros e provocam-me uma certa perplexidade ao querer saber de onde é que isto vem, de que profundidades nossas, que todos temos.

O CANCRO


Por isso resguarda tanto a vida privada?

Ela não tem importância nenhuma, só a mim me diz respeito. Quando fui operado escrevi essa crónica sobre o cancro porque já havia tanto jornalista e gente à volta do hospital que resolvi ser eu a dizer: Tenho um cancro no intestino. Não me deu prazer nenhum dizê-lo e garanto que não me deu prazer nenhum tê-lo. O pós-operatório foi horrível e duro, felizmente tive a sorte de ter um grande cirurgião e de todos os que lá trabalhavam serem de uma grande delicadeza. Só tenho gratidão.


O cancro está controlado?

Está controlado, neste momento o que faço são revisões periódicas. Claro que pode haver uma surpresa – pode haver sempre! – mas até agora tem estado tudo bem. É óbvio que na véspera de uma revisão estou tenso e fico assim até saber o resultado mas também sei que se houver um problema o Henrique (o cirurgião) vai lá e resolve-o. Preciso de tempo, preciso desse tempo, preciso ainda de trabalhar.


Está a lutar contra a morte apesar dela estar sempre presente nos seus livros…

Espero que a vida também! É inútil lutar contra a morte tal como é inútil lutar contra a vida. É inútil porque a morte é uma puta – desculpem o palavrão mas é a única palavra que encontro. Quando o meu pai morreu, o padre que foi rezar a missa disse que detestava aquilo porque nós não fomos feitos para a morte. De facto não fomos… Há pessoas de quem gostávamos e que já não podemos tocar e ver e cuja morte foi tão injusta. Ainda no sábado fui a enterrar um camarada da guerra que morreu num acidente de automóvel. Foi muito comovente ver aqueles homens duros, que fizeram a guerra, a chorar como crianças. Eu chorei também, gostava muito dele e agora quando nos reunirmos ele não vai lá estar. E não faz sentido que o Zé não esteja. Eu tenho que viver pelo meu pai, pelo Cardoso Pires, pelo Melo Antunes, estão dentro de mim até eu acabar.


Como contrariar a morte?

Ela corre mais depressa do que qualquer um de nós e a única coisa que posso fazer para contrariar é escrever, a única duração que posso ter é a que os livros tiverem. E aborrece-me que seja assim, é injusto que seja assim, embora haja momentos em que todos nós desejamos morrer, de desânimo e solidão. Há momentos em que quase temos inveja dos mortos porque a vida nem sempre é agradável e fácil mas, agora depois de ver as pessoas lutarem no hospital, senti que muitos pensamentos que tinha eram indignos perante tanta grandeza.


Isso alterou a sua forma de ser?

Eu agora jogo com as cartas para cima, está tudo à vista porque é a única maneira de viver. Demorei anos a perceber porque o conhecimento da vida chega sempre tarde e pensamos que ocultando conseguimos dar boa imagem aos outros. Agora é: eu sou assim! Peguem, larguem, não posso ser amado pelo mundo inteiro embora a sede de amor seja inextinguível.

RELIGIÃO

Qual é a sua atitude perante Deus?

Existe um velho provérbio húngaro que diz que na cova do lobo não há ateus, por isso julgo que não existe quem não acredite. O nada não existe na física ou na biologia e quando se lêem os grandes físicos entende-se como eram homens profundamente crentes, que chegaram a Deus através da física e da matemática e que falavam de Deus de uma maneira fascinante. A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso, cada vez mais, não no sentido desta ou daquela igreja mas porque me parece que a ideia de Deus é óbvia. Cada vez mais o é para mim. É um bocado como diz Einstein, quando afirma que Deus não joga aos dados.


Como é essa relação?

É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo. O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria. A minha atitude em relação à religião é essa, não estou a falar de igrejas, estou a falar em relação a Deus e não acredito quando as pessoas dizem que são agnósticas ou ateias. Não estou a dizer que a pessoa não esteja a ser sincera, mas dentro dela e em qualquer ponto há algo… Uma vez perguntaram ao Hemingway se acreditava em Deus e a resposta foi às vezes, à noite.


Então à noite também acredita?

Acredito sempre mas a dúvida e pôr constantemente em questão é próprio da fé. Muitas vezes pergunto-me será que existe? É óbvio que sim.


Recentemente foram reveladas as dúvidas de madre Teresa sobre a sua própria fé…

Todos os teólogos as tiveram, Sto. Ambrósio dizia “não busco compreender para crer, creio para compreender”; Sto. Agostinho esteve cheio de dúvidas toda a vida e o Sto. António… O mesmo se passa em relação aos livros, pergunto-me será que isto está bem feito? Não é esta palavra ainda, será que é possível fazer aquilo que eu quero fazer ou será demasiado ambicioso?


O título do seu último livro vem da Bíblia?

Estava a passear no Evangelho e apareceu-me. Foi a primeira vez que fui à Bíblia, não tinha título nenhum, não sabia como havia de o chamar e de repente tropeço naqueles versículos do Evangelho de São Lucas e pensei: é isto.


A sua formação em Psiquiatria não lhe dificulta a convivência consigo próprio?

Se os psiquiatras compreendem a mente humana? Não, isso é a vida que nos ensina a entender os outros. Algumas das pessoas mais cultas que conheci eram analfabetas e algumas das coisas mais profundas que ouvi foram ditas por pessoas de pouca instrução. Uma mulher disse-me uma vez ‘quem não tem dinheiro não tem alma’.


Quando está a escrever nunca se sente como se estivesse no divã a tirar coisas de si?

Eu nunca deitei ninguém em nenhum divã e se o fiz ao longo da vida foi para me deitar lá também, não era para ficar a ouvi-la falar. A sensação que tenho é que estamos na idade da pedra do conhecimento, do entendimento humano e das emoções. Não sabemos nada, eu pelo menos sei muito pouco. Isto só tem a ver com a humildade, não sou vaidoso, apenas tenho orgulho. Sei mais ou menos qual é o meu lugar enquanto escritor e o resto da minha vida não é importante, falar da minha vida privada não tem importância nenhuma, os livros sim podem ser importantes mas eu até acho que todos deviam ser publicados anonimamente, sem nome de autor. Isso eliminaria imensos problemas.

O LIVRO

Neste livro O Meu Nome É Legião há uma violência constante?

Não sou eu que a trago, a violência é inerente à situação do livro.


Preocupa-o essa violência quase selvagem num mundo civilizado?

Se é selvagem, o mundo não é civilizado.


Como vê uma realidade com que não é obrigado a conviver?

Era mais ou menos inevitável que isto acontecesse num país onde o abandono, a desigualdade social e a miséria são tão grandes. Com o estrangulamento da classe média era inevitável.


Acha que o Governo devia ter outra atitude?

Não tenho nada que achar porque não sou Governo nem quero ser mas, obviamente, acho que devia haver maior atenção para isto. A partir da altura em que as desigualdades se tornam gritantes é claro que estas crianças são empurradas para a delinquência.


Houve um tempo em que teve militância política. Os partidos terão resposta para estas questões?

Não sei responder mas se achasse que era útil ainda continuava a tê-la. Sou demasiado individualista e rebelde para aceitar uma disciplina partidária, além disso as opções políticas são tão afectivas como as opções clubísticas. Há pessoas de direita mais democratas que as de esquerda, há partidos de esquerda mais conservadores, as ideologias foram-se dissolvendo e a maior parte dos partidos são frentes e aqueles que ainda têm ideologia, ela está caduca. O único partido que vejo com corpo ideológico mais ou menos coerente é o Partido Comunista mas é de um tempo que já não existe. As conquistas de Abril, onde estão? Foram importantes mas passado todo este tempo…


Acha que este Governo é culpado?

Não sei e não estou preparado para responder mas se houvesse eleições – votei muito poucas vezes na vida – e fosse votar era no partido que está no Governo, porque não vejo alternativas.


Por ser o partido que está no Governo ou por ser o Partido Socialista?

Não me parece que este seja o PS do Mário Soares, o que foi fundado em 1973…


Não lhe parece porquê?

Pela prática e pela teoria, mas posso estar enganado.


Conseguiu terminar o livro mas os problemas destes jovens não se resolvem!

Não me compete a mim, sou só um escritor. Esta pergunta terá que ser feita a outro tipo de pessoas, dos que têm respostas para tudo.


Mas se a sua mão seguiu esse caminho foi porque a cabeça também o exigiu?

Eu queria falar era da vida toda, nunca imaginei que saísse assim, nunca estive nestes bairros e nunca conheci estes miúdos. O problema é que não pertencem a parte nenhuma, nasceram cá mas não ganharam Portugal e os pais perderam África. Às vezes comovia-me com a dificuldade de viver deles.


Há frases no livro que revelam racismo!

Pelo menos esses brancos do livro assim o pensam. O racismo é inevitável, vem do medo e do desconhecimento… Às vezes penso que muitas pessoas são como os liberais americanos que dizem dos negros és meu irmão mas nunca serás meu cunhado. Sempre me interroguei porque vi o racismo contra nós portugueses em países como a França. Quando fui receber uma condecoração a Paris, um dos membros do Governo disse-me que pensava que fosse espanhol e ao saber respondeu-me: ‘É português. É engraçado a minha mulher a dias também.’ Isto é profundamente racista, eu estava ao nível da empregada e ao mesmo tempo ali a receber uma condecoração do Presidente.


Há também uma mulher que lamenta não ser branca!

Da mesma maneira que os pobres gostariam de ser ricos, que alguns queriam ser saudáveis… No fundo, o que ela estará a dizer é que gostaria de ter determinados privilégios que no entendimento dela os brancos têm. Mal sabe que o racismo existe entre as várias classes sociais e continua a ser marcante no nosso país.


Mas a desigualdade e a violência preocuparam-no mais neste livro?

Claro que me preocuparam mas sempre houve e até os escritores estabelecem hierarquias ao nível social, para não falar ao nível da literatura. Mas também quantos grandes escritores há hoje em dia a escrever? Três ou quatro no mundo inteiro já não é nada mau, estamos muito longe do século XIX quando havia trinta génios ao mesmo tempo.


Não receia que o seu universo fique desajustado da realidade em que vivemos?

Nunca pensei nisso. Falamos do universo ficcional? Não sei, vivo neste tempo e a realidade é uma coisa que não existe – é muito subjectiva – mas é neste tempo que eu vivo e este é que me foi dado a ter.


Muitas das referências ideológicas do início da sua carreira desapareceram?

Em grande parte por nossa culpa, não fomos suficientemente sedutores para a juventude e refiro-me à participação cívica. Agora, há a ideologia do imediato, do eu quero ser célebre, famoso e rico, jovem e bonito, vive-se uma época de adolescentocracia, o que para mim é repugnante. Uma das minhas filhas esteve em Itália a estudar e as colegas de 17/18 anos quando acabavam o liceu pediam aos pais uma plástica como presente. Houve uma enorme quantidade de valores que a publicidade trouxe e que são seguidos por muitas pessoas.


Nas suas viagens tem medo do terrorismo?

Quando estive em Bogotá era sempre levado por trajectos diferentes porque as pessoas são raptadas na rua em troca de resgates. Fui cobarde tempo de mais para continuar a sê-lo, já não tenho medo. É uma coisa horrível a cobardia, foi em África que me libertei disso tudo, onde aprendi a existência dos outros. Eu nunca teria sido um escritor se não tivesse tido aquela experiência, que mudou muito a minha vida e fez-me perder a concepção ptolemaica do mundo. Passei a faculdade a jogar xadrez, a escrever e a ler, os movimentos estudantis de revolta contra a ditadura passaram-me ao lado por desinteresse e cobardia minha. Tinha medo da polícia, que carregassem na manifestação. Na guerra eu ofereci-me para várias coisas, justamente para me vencer a mim mesmo, para não me envergonhar. A coragem talvez seja uma das formas supremas da elegância e isso os nossos soldados tinham.


Mais alguma vez se sentiu cobarde?

Não.

O sucesso precoce atormentou-o?

Fiquei de boca aberta porque o livro tinha sido sempre recusado. Fui de férias e quando voltei o livro estava por todo o lado e a vender. Foi um espanto, nunca imaginei isto como também o que tem acontecido noutros países. Ainda agora, quando estive doente, vieram milhares de cartas de portugueses. Nunca imaginei que as pessoas fossem tão generosas comigo, dei-me conta que os livros eram importantes para muita gente e acho que não o mereço. Em nome disso tenho a obrigação de dar livros que sejam bons.


Não tem medo de desiludir?

Claro que tenho. Não gostaria nada que estas pessoas que se deram ao trabalho de me escrever ficassem desiludidas com o livro. Afinal, este homem não vale nada e eu gostava dele.


Muito do seu escrever actual é feito de uma reescrita, um livro procura o outro…

Sente isso? Eu queria neste livro dar tudo por tudo e foi um livro que me deu prazer e indignação. Porque estes miúdos que eu não conheço estão à procura de carinho mas não sabem como dá-lo. Do meu ponto de vista, tenho melhorado de livro para livro, sei que nunca vou conseguir lá chegar mas estou mais perto daquilo que queria escrever. Acho que marca um progresso em relação ao livro anterior e espero que o que estou a escrever marque um progresso em relação a este.


O ESCRITOR

Não vê televisão, quase não lê jornais mas quando se começa a ler o livro faz lembrar uma notícia!

Na minha cabeça era um relatório de polícia mas não sei como são porque nunca li nenhum.


Mas aquele início é de quem lê jornais…

Não tenho muito tempo e depois se o vejo fico perdido a ler o jornal. Houve uma altura em que lia A Bola todos os dias… Da televisão, fui-me afastando à medida em que também o fazia do Benfica. Agora já não vejo jogos de futebol, desde que deixou de ser um desporto…


Este Benfica já não o atrai?

Claro que me atrai, continuo a gostar do Benfica mas quando eu era miúdo o lar dos jogadores do clube era ao pé de casa dos meus pais e eles desciam a rua com o fato civil e o emblema na lapela… Era impensável que o Coluna ou o Eusébio fossem jogar para o Sporting ou que o Travassos jogasse no Benfica, eles eram daquele clube. Agora é uma indústria, são sociedades anónimas, deixou de ser um desporto. Os treinadores dizem é preciso paciência, o que é o contrário do desporto e todo o lado lúdico que me interessava deixou de existir, sendo substituído por uma eficácia de marcar golos e de ganhar por interesses económicos. Lembro-me de ter lido uma entrevista do Jesus Correia há muito anos em que ele dizia que o seu doping era o arroz doce que a mãe lhe fazia. Ainda havia aquele prazer como se encontrava no Brasil, de fintar e voltar atrás, como o Garrincha fazia.


Não pára o livro para ver um jogo do Benfica?

Não, já não. Tenho muita pena.


Mas teve conhecimento do murro do Scolari?

É-me completamente indiferente. Não acho normal nem anormal, é-me indiferente. Nem sei se deu o murro… Vi na televisão, foi uma patetice e não comento patetices.


Uma patetice de quem?

Eu não sei o que se passou. Vi o homem estender a mão mas aquilo nem me pareceu um murro, porque se eu der um murro não é assim.


E considera normal que José Mourinho tenha mais biografias do que a maior parte dos escritores portugueses?

Acho natural. José Mourinho atrai mais que Camões ou Shakespeare, as pessoas vivem cada vez mais no sentido hedonista. Não me repugna nada, nem me faz diferença, porque não é isso que tira o público dos livros. As pessoas continuam a comprar livros, portanto esta situação não me incomoda nada.


Um dos prazeres que tinha era dançar. Como é que isso vai de danças?

Não tenho tempo agora.


E tem par?

Isso de arranjar par não deve ser complicado.


Continua a ouvir música?

Tenho problemas de audição e praticamente já não ouço música porque os sons vêm distorcidos.


Disse uma vez que preferia ouvir a Ágata ou Emanuel aos Madredeus?

Disse isso? Eu nem sei bem… Não me recordo de o ter dito, deve ter sido uma boutade. Se me perguntar o nome de uma música desse conjunto não sei mas também não sei dessas outras pessoas referidas.


Mas do jazz continua a gostar?

Não tenho ouvido mas claro que gosto muito porque enquanto escritor aprendi muito com os músicos de jazz a escrever. Pensamos que são os escritores que nos ensinam a escrever mas é mentira, pode ser um fotógrafo, pode ser um músico…


O jazz marcava-lhe o compasso da escrita?

O Charlie Parker fraseava maravilhosamente, aprende-se muito a ouvi-lo.


Também deixou de ir ao cinema?

Muito pouco agora. Vou muito pouco.


E policiais, ainda lê?

Gosto e durante muito tempo tive preconceitos idiotas face à literatura policial. Depois percebi que todos os livros são livros policiais, que têm coisas técnicas que se podem usar e ser muito úteis – a retenção da informação, a informação lateral – e aprendi muito com a sua estrutura.


Algumas mulheres acham-no machista no que escreve?

Não sei, se pensam isso parece-me injusto. Não sei que espécie de gente poderá dizer isso, eu gosto tanto das pessoas…


Como é o seu dia?

Começo às 10.30 e trabalho até às 13.00. Volto a escrever entre as 14.00 e as oito. Das nove até às onze continuo. Sábados e domingos também.


Não folga ao fim-de-semana?

Dou-me umas horas ao sábado como aos magalas. Enquanto estive internado não escrevi e foi muito difícil recomeçar porque pensava que tinha perdido o livro. Para mim é muito importante fazer isto como um trabalho diário.


Como é que escreve?

À mão.


O computador é impensável para si.

Não tenho computador, nem o sei abrir. Gosto de desenhar as letras. Uso os mesmos processos desde o primeiro livro, faço duas versões de cada capítulo, passo para o capítulo seguinte até ao fim, isto demora um ano ou um pouco mais, depois espero quinze dias para começar a rever e quando leio aquilo surpreende-me que tudo se articule.

 

Diário de Notícias

30.09.2007

(transcrição de Gonçalo Figueiredo Augusto)

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“A morte é uma puta”

Outubro 2, 2007 · Deixe um comentário


O escritor surpreendeu os portugueses ao revelar numa crónica que tinha sido operado a um cancro no intestino. Não se coíbe de falar sobre o assunto, até porque a morte é palavra habitual nas páginas dos seus livros, mas comove-se ao relembrar aqueles dias e o pós-operatório. Uma coisa é certa, saiu deste susto um homem diferente e com vontade de ser mais sincero e de outro amar.

A porta que dá entrada na garagem onde escrevia naquela tarde fica no fundo de um beco. António Lobo Antunes enterra-se num sofá preto e pede para começar a entrevista com um certo ar de vamos cumprir o combinado. No fim, dirá que nem deu pelo tempo passar e encaminha-se para a “tasca” onde pede ao empregado o habitual. Desta vez, só deu duas entrevistas para ajudar o lançamento do novo livro – O Meu Nome é Legião. Está a trabalhar no próximo… De vez em quando ameaça que só escreverá mais dois ou três livros. Perdeu a vontade?

Não só não é isso que eu tenho vontade como tão-pouco é uma ameaça. Está muito mais relacionado com o medo de não ser mais capaz de escrever. Aparece a cada livro que acabo e pergunto-me se serei capaz de fazer um próximo. Ninguém que escreva a sério vai poder dizer isso. Também é uma espécie de negociação com a morte, deixa-me escrever mais um, mais dois, mais três… Gostava de ter tempo para escrever outro e arredondar o trabalho, é um círculo que ainda não está completo.

Quantos livros faltam para fechar esse círculo. Só mais um?

Gostava que fossem mais porque o círculo vai aumentando sem nos darmos conta. Eu gostava de viver mais duzentos anos mas é improvável que os tenha.

Sofre muito ao escrever?

Há instantes de intensa felicidade – às vezes sinto as lágrimas a caírem-me pela cara – e momentos de grande irritação porque num dia consigo fazer meia página e no noutro só três linhas. O material resiste, as palavras não chegam, o livro não sai. Normalmente as primeiras duas, três horas são perdidas, os mecanismos sensórios ainda estão muito vivos. Então, quando começo a estar cansado, as coisas começam a articular-se com mais facilidade. É como quando estamos a dormir e de repente temos a sensação de termos descoberto os segredos da vida e do mundo, mas sabemos que estamos a dormir. Lutamos para acordar e quando chegamos à superfície não temos nada, diluiu-se enquanto fomos subindo. Quando consigo um estado próximo dos sonhos é muito mais fácil trabalhar e só o tenho estando fatigado.

Já experimentou algumas substâncias para atingir esse estado artificialmente?

Nunca tomei drogas, nunca apanhei uma bebedeira na vida. Não bebo café, não me dá prazer. Acho que o único vício que tenho é fumar.

Portanto, é bem comportado?

Não é uma questão de comportamento, em casa dos meus pais não havia vinho à mesa, só água. Eram muitos filhos…

É normal os filhos romperem hábitos!

Não havia vinho à mesa da mesma maneira que a roupa passava de uns para os outros. Os meus pais deram-nos uma educação de grande austeridade, não tinham muito dinheiro.

Quando faz o julgamento da convivência com a vida acha que ambos se dão bem?

Nunca me pus esse problema, tenho tentado viver o melhor que posso. Fiz certamente muitos erros e continuarei a fazer – espero que menos – mas nós não fomos feitos para a morte, fomos feitos para a vida e sempre me custou ver o sofrimento alheio. Quando fazia muita medicina, não era só o sofrimento que custava mas a minha impotência para com ele. Acho que as pessoas não foram feitas para a morte mas para a vida e para a alegria.

Mas não há escapatória para a morte!

É mais simples do que se pensa. Este ano, tive um problema de saúde e sofri isso na pele, acho que o problema está ultrapassado mas foi um ano duro. E a minha atitude era sobretudo de espanto, e a minha preocupação era ter uma atitude digna e não cobarde. Vi pessoas com uma coragem extraordinária e aprendi com elas lições de vida, coragem e dignidade. As pessoas comportavam-se como príncipes perante a situação e eu pensava estou aqui com pessoas que são melhores do que eu, com uma imensa dignidade no sofrimento. Isso foi uma coisa que me comoveu muito e fez pensar que vale a pena viver entre os homens e com eles. Todo o sofrimento é injusto… Em nome do quê é que uma criança de três anos morre com um cancro ou uma leucemia? É muito injusto, qual a razão disso? Sempre me intrigou a razão deste sofrimento porque o do interior tê-lo-emos sempre. Estamos carregados de dúvidas e certezas e as perguntas que nos fazemos ficam muitas vezes sem resposta. Porque vivo assim, em que falhei e magoamos pessoas sem darmos conta com uma frase que para nós é completamente anódina. Julgo que o segredo é estarmos atentos aos outros mas frequentemente não estamos e, sobretudo, não reparamos que são diferentes de nós. Daí o problema de escrever, como colocar em palavras coisas que por definição são anteriores às palavras? Como tentar cercá-las com palavras? Há zonas em mim que desconheço, portas que nunca abri e que, no entanto, aparecem nos livros e provocam-me uma certa perplexidade ao querer saber de onde é que isto vem, de que profundidades nossas, que todos temos.

Por isso resguarda tanto a vida privada?

Ela não tem importância nenhuma, só a mim me diz respeito. Quando fui operado escrevi essa crónica sobre o cancro porque já havia tanto jornalista e gente à volta do hospital que resolvi ser eu a dizer: Tenho um cancro no intestino. Não me deu prazer nenhum dizê-lo e garanto que não me deu prazer nenhum tê-lo. O pós-operatório foi horrível e duro, felizmente tive a sorte de ter um grande cirurgião e de todos os que lá trabalhavam serem de uma grande delicadeza. Só tenho gratidão.

O cancro está controlado?

Está controlado, neste momento o que faço são revisões periódicas. Claro que pode haver uma surpresa – pode haver sempre! – mas até agora tem estado tudo bem. É óbvio que na véspera de uma revisão estou tenso e fico assim até saber o resultado mas também sei que se houver um problema o Henrique (o cirurgião) vai lá e resolve-o. Preciso de tempo, preciso desse tempo, preciso ainda de trabalhar.

Está a lutar contra a morte apesar dela estar sempre presente nos seus livros…

Espero que a vida também! É inútil lutar contra a morte tal como é inútil lutar contra a vida. É inútil porque a morte é uma puta – desculpem o palavrão mas é a única palavra que encontro. Quando o meu pai morreu, o padre que foi rezar a missa disse que detestava aquilo porque nós não fomos feitos para a morte. De facto não fomos… Há pessoas de quem gostávamos e que já não podemos tocar e ver e cuja morte foi tão injusta. Ainda no sábado fui a enterrar um camarada da guerra que morreu num acidente de automóvel. Foi muito comovente ver aqueles homens duros, que fizeram a guerra, a chorar como crianças. Eu chorei também, gostava muito dele e agora quando nos reunirmos ele não vai lá estar. E não faz sentido que o Zé não esteja. Eu tenho que viver pelo meu pai, pelo Cardoso Pires, pelo Melo Antunes, estão dentro de mim até eu acabar.

Como contrariar a morte?

Ela corre mais depressa do que qualquer um de nós e a única coisa que posso fazer para contrariar é escrever, a única duração que posso ter é a que os livros tiverem. E aborrece-me que seja assim, é injusto que seja assim, embora haja momentos em que todos nós desejamos morrer, de desânimo e solidão. Há momentos em que quase temos inveja dos mortos porque a vida nem sempre é agradável e fácil mas, agora depois de ver as pessoas lutarem no hospital, senti que muitos pensamentos que tinha eram indignos perante tanta grandeza.

Isso alterou a sua forma de ser?

Eu agora jogo com as cartas para cima, está tudo à vista porque é a única maneira de viver. Demorei anos a perceber porque o conhecimento da vida chega sempre tarde e pensamos que ocultando conseguimos dar boa imagem aos outros. Agora é: eu sou assim! Peguem, larguem, não posso ser amado pelo mundo inteiro embora a sede de amor seja inextinguível. |

Qual é a sua atitude perante Deus?

Existe um velho provérbio húngaro que diz que na cova do lobo não há ateus, por isso julgo que não existe quem não acredite. O nada não existe na física ou na biologia e quando se lêem os grandes físicos entende-se como eram homens profundamente crentes, que chegaram a Deus através da física e da matemática e que falavam de Deus de uma maneira fascinante. A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso, cada vez mais, não no sentido desta ou daquela igreja mas porque me parece que a ideia de Deus é óbvia. Cada vez mais o é para mim. É um bocado como diz Einstein, quando afirma que Deus não joga aos dados.

Como é essa relação?

É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo. O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria. A minha atitude em relação à religião é essa, não estou a falar de igrejas, estou a falar em relação a Deus e não acredito quando as pessoas dizem que são agnósticas ou ateias. Não estou a dizer que a pessoa não esteja a ser sincera, mas dentro dela e em qualquer ponto há algo… Uma vez perguntaram ao Hemingway se acreditava em Deus e a resposta foi às vezes, à noite.

Então à noite também acredita?

Acredito sempre mas a dúvida e pôr constantemente em questão é próprio da fé. Muitas vezes pergunto-me será que existe? É óbvio que sim.

Recentemente foram reveladas as dúvidas de madre Teresa sobre a sua própria fé…

Todos os teólogos as tiveram, Sto. Ambrósio dizia “não busco compreender para crer, creio para compreender”; Sto. Agostinho esteve cheio de dúvidas toda a vida e o Sto. António… O mesmo se passa em relação aos livros, pergunto-me será que isto está bem feito? Não é esta palavra ainda, será que é possível fazer aquilo que eu quero fazer ou será demasiado ambicioso?

O título do seu último livro vem da Bíblia?

Estava a passear no Evangelho e apareceu-me. Foi a primeira vez que fui à Bíblia, não tinha título nenhum, não sabia como havia de o chamar e de repente tropeço naqueles versículos do Evangelho de São Lucas e pensei: é isto.

A sua formação em Psiquiatria não lhe dificulta a convivência consigo próprio?

Se os psiquiatras compreendem a mente humana? Não, isso é a vida que nos ensina a entender os outros. Algumas das pessoas mais cultas que conheci eram analfabetas e algumas das coisas mais profundas que ouvi foram ditas por pessoas de pouca instrução. Uma mulher disse-me uma vez ‘quem não tem dinheiro não tem alma’.

Quando está a escrever nunca se sente como se estivesse no divã a tirar coisas de si?

Eu nunca deitei ninguém em nenhum divã e se o fiz ao longo da vida foi para me deitar lá também, não era para ficar a ouvi-la falar. A sensação que tenho é que estamos na idade da pedra do conhecimento, do entendimento humano e das emoções. Não sabemos nada, eu pelo menos sei muito pouco. Isto só tem a ver com a humildade, não sou vaidoso, apenas tenho orgulho. Sei mais ou menos qual é o meu lugar enquanto escritor e o resto da minha vida não é importante, falar da minha vida privada não tem importância nenhuma, os livros sim podem ser importantes mas eu até acho que todos deviam ser publicados anonimamente, sem nome de autor. Isso eliminaria imensos problemas. |

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António Lobo Antunes em Buenos Aires, 2004

Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário

Convidado pela Editorial Sudamericana, Grupo Editorial Mondadori, para apresentar o seu livro Buenas Tardes a las cosas de aquí abajo, o escritor português António Lobo Antunes veio no mês de Maio e apresentou-se na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Foi declarado Hóspede de Honra pela Legislatura da Cidade Autónoma de Buenos Aires.

 

Nós que o lemos nas crónicas que escreve para o diário El País de Espanha, excelentemente traduzidas por Mario Merlino, e lemos seus livros, sabemos quão extraordinário escritor é António Lobo Antunes.

 

Falava em voz muito baixa, mostrava-se muito cansado, vinha acompanhado do seu editor espanhol, havendo passado pela Colômbia, onde apresentou o mesmo livro. O público escutava o escritor com respeitoso silêncio.

 

A viagem, o livro

 

Foi muito duro“, disse a respeito da sua estadia na Colômbia, referindo-se à pobreza, à violência, à agressividade das pessoas. Na Colômbia as classes altas olham de cima para o povo, disse o escritor. Situação que poderá ser extensiva a vários países da América Latina.

 

Encontrei cá na Argentina alguns dos melhores jornalistas que encontrei na minha vida“, disse. “Senti-me compreendido sem palavras“, afirmou. O escritor manifestou o seu cansaço em falar, de mostrar simpatia, de sorrir, de demonstrar interesse durante a promoção do seu livro que já vinha antes de Colômbia, em outros países da Europa. “Creio que que não tenho somente respostas mas também perguntas“, disse. “Não quero falar muito sobre o livro porque se pudesse falar dele, não o havia escrito“, afirmou Lobo Antunes. “Passei dois anos da minha vida escrevendo-o. É muito diferente do livro que queria escrever. Necessitava de um ponto de referência“. Partiu da ideia das seitas religiosas que se apropriam das pessoas sem cultura nem dinheiro. “A mão rejeitava essa solução. A mão voou até África, não tinha regressado a África depois da guerra”, disse. “Não há nada mais violento que a guerra. Uma violência e uma crueldade que ao mesmo tempo me fez dar conta de facetas escondidas em mim“, disse. “Há sentimentos contraditórios que nos habitam. Em todos os livros que as editoras publicam com o meu nome interessa-me que as páginas sejam como espelhos que nos devolvam essa visão dos sentimentos que nos habitam“.

 

A guerra

 

Eu queria ter um filho porque pensava que ia morrer. Tive uma filha, quando regressei a casa não a conhecia. Custou-me três ou quatro anos para ter uma relação normal, a minha primeira reacção foi dizer esta não é a minha filha. No país mais sensual que conheci, África, em vez de fazer amor o que se fazia era apanhar prisioneiros, ter mortos.

 

Quando era médico

 

Quando era médico interno tinha que fazer três meses de cirurgia, de obstetrícia, de outras especialidades. Mandaram-me para a enfermaria de crianças com cancro terminal. Havia um caso de um menino de quatro anos, eu tinha vinte e dois. O menino, José Francisco, morreu. Estava na porta da enfermaria e via o pé do menino, haviam-no envolvido num lençol e via-lhe o pé. Tenho a sensação que é por esse pé que escrevo. Por um menino morto, não sei porque razão e em nome de quê. Há que escrever pelos que não têm voz, pelos que não podem falar, pela mãe das minhas filhas que morreu de cancro faz quatro anos. Também escrevo com muita alegria, não tenho tempo para deprimir-me. Tenho momentos em que a minha cabeça está cheia de cães negros que se devoram uns aos outros.

 

O seu último romance: uma história de amor

 

Em Novembro de 2003 terminou o romance “Eu Hei-de Amar Uma Pedra”. De manhã escrevo no hospital, à noite no meu atelier, escrevo com a porta aberta, não gosto das portas fechadas.

 

Então contou o seguinte: “Vi passar uma senhora de negro e o médico que estava por ali contou-me a sua história: a mulher era uma camponesa de origem, e trabalhava como costureira. Quando jovem namorava com um rapaz que trabalhava no campo. Os seus pais mandaram-na a Lisboa para que tivesse uma vida melhor, para casa de uns parentes. O noivo também trabalhava muito. Viam-se quando se cruzavam na rua. Ela adoeceu de tuberculose, o rapaz escrevia-lhe mas os parentes não a deixavam responder-lhe. Ele pensou que ela teria morrido. Casou-se, estudou e teve filhos. A rapariga não morreu, voltou a trabalhar como costureira. Dez anos depois, um dia em que ela regressava depois de entregar umas roupas às clientes, encontrou-se com ele na rua. Durante cinquenta e três anos todas as quartas-feiras encontravam-se numa pensão. Ele estava casado. Não faziam amor, davam as mãos. Iam ver as acácias em flor. Ele ganhava muito dinheiro. Tinha alugado um quarto. Morreu quando estava com ela. O problema era como fazer sair o corpo da pensão sem que a esposa soubesse daquela relação. Ela chamou um dos genros dele para que o fizessem. Ela não pode ir ao funeral. Foi ela que contou assim esta história. Contei-a depois às minhas filhas e disseram-me: que mulher tão idiota. Para mim, a mulher da história tinha ficado com o melhor desse homem. Queria escrever essa história. Estive dois anos e escrevi um livro de amor. Hemingway dizia sempre que as histórias de amor têm um final triste. Tenho visto na minha família histórias de amor felizes, queria que essa história de amor me corresse no sangue. Não gosto de contar histórias mas contei-a para dizer que estou feliz por estar aqui“.

 

 

original escrito por Araceli Otamendi

encontrado no site Triplov

[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

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Exortação ao Lobo

Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário

caricatura sobre Antonio Lobo Antunes, da autoria de Miguel Soares, com que a revista abre a entrevista

 

António Lobo Antunes é, no mínimo, desconcertante. A meio da entrevista, tenho vontade de vir embora. Sinto-me como quando estava no exame de condução – sabia que tinha chumbado mas o examinador continuava a pedir-me que fizesse manobras e tentasse meter o carro em espaços impossíveis. E, no entanto, Lobo Antunes só fez sorrisos – um sorriso angelical que condiz com os seus olhos muito azuis e que se segue, quase como um tique, a uma frase que percebe ter-nos deixado nervosos.

Não grita, fala num tom suave e é educadíssimo – pede para repetirmos a pergunta duas ou tês vezes, as suficientes para que fique bem evidente que estúpida e vazia é.

Afirma repetidamente que não faz juízos de valor, nem se acha acima dos outros, mas depois vai dizendo, a propósito de tudo e de nada, que só gosta de entrevistas quando os entrevistadores têm qualidade, até ao momento em que temos vontade de apresentar desculpas e sair. E aí, faz um outro dos seus sorrisos ternos e garante que não são insinuações, porque não é homem dessas coisas e, de resto, “só a conheço há meia hora”.

Tento mais uma pergunta. “Falar de mim? Mas isso não me interessa”, diz-me hoje, agora, porque quando marcou a entrevista, informado desse mesmo objectivo, não protestou.

E eu volto a sentir a mesma perplexidade que senti quando lhe perguntei qual era a memória mais antiga da mãe e ele me respondeu que isso era pessoal e não me dizia, ou se inclinou várias vezes sobre a secretária para me pedir (educadamente) que repetisse outra vez aquela pergunta absurda, estranha, inacreditável do “Tinha um urso de peluche?”.

Culpo-me a mim própria. “Ele tem toda a razão, isto são perguntas que se façam a um grande escritor?”, penso eu, intoxicada por aquela estratégia que à distância percebo não ser mais do que uma forma de confundir o inimigo.

E, de facto, o que é que interessam as mães, os pais e irmãos, os ursos de peluche e os comboios eléctricos, os psiquiatras e os amigos de infância, a relação com os doentes, as criadas e as tias, os livros lidos alto e os lares de terceira idade, as árvores de Benfica e os jardins onde habitavam os corvos e tudo aquilo com que Lobo Antunes transforma os seus livros em obras de arte, nos atrai, emociona, faz rir e prende página após página? Que importância têm e que interesse há em falar neles, quando podemos meditar sobre o fio da narrativa ou embrenharmo-nos em citações de escritores, grande escritores, que os bananas dos jornalistas não conhecem, nem querem discutir, porque – imagine-se – gastam o tempo todo a tentar perguntar coisas que os leitores da entrevista estariam mais interessados em saber.

E o mais extraordinário de tudo isto é que, durante umas horas, não percebemos a contradição, não damos pelo facto de Lobo Antunes ir falando repetidamente de si próprio – desde, evidentemente, que não seja directamente em resposta a uma pergunta feita, como a criança que só come a sopa quando a mãe olha para o lado. E o mais extraordinário, ainda, é que ficamos com vontade de rezar dois Padres-Nossos e três Avé-Marias por não estarmos à altura de o entrevistar, em lugar de pura e simplesmente batermos com a porta.

E, no entanto, quando deixamos o seu gabinete e percorremos os corredores do Hospital Miguel Bombarda, cruzando-nos com doentes de roupão e a arrastar os chinelos, a conversa parece que normaliza. Ou, pelo menos, a minha cabeça volta a funcionar normalmente – sim, porque não duvido que para o ex-psiquiatra nada disto seja mais que um “delírio persecutório!”.

Vamos almoçar ao restaurante mais próximo. Falamos sobre snobeiras e beijos de um lado e dos dois lados, de espelhos de talha e da grandeza da alma, de telenovelas e de tipos de pessoas. E faço o “diagnóstico”: Lobo Antunes é um “menino bem (formado)”, inteligente, com sentido de humor e espírito crítico que soube libertar-se do casulo onde os “meninos bem” habitualmente vivem a vida toda, e percorrer o resto do mundo, torcendo aqui e ali instintivamente o nariz às mulheres que o tratam por filho e aos escritores que comparam carros parados em semáforos a cavalos impacientes, capaz de gostar para além das aparências, de se emocionar para além do que gostaria e com um génio extraordinário para juntar tudo isto e transformá-lo em personagens e palavras que o tornam num dos nossos melhores escritores. Tudo isto sem deixar de ser, basicamente, um menino “mimado”, que com aquele sorriso e aqueles olhos azuis aprendeu todas as técnicas de deixar os outros desconcertados, infelizes e humilhados. Quando quer. Para no momento seguinte ter tanto charme e encanto, que temos medo de ter incorrido em juízos precipitados.  E assim sucessivamente.

[texto de Isabel Stilwell]

 

Detesta mesmo dar entrevistas?

Não me parece muito importante. Acho que é sempre um exercício de vaidade.

 

Um exercício de vaidade?

Acho que sim. E também um exercício de voyeurismo de quem a faz. É de parte a parte. O importante são os livros. Depois, a minha vida não tem importância nenhuma.

 

Mas acha que os entrevistadores querem é tirar uma fotografia consigo e dizer que o conheceram?

Não, não acho nada disso. Há de tudo. Tenho tido a felicidade de encontrar pessoas que são muito boas e que sabem muito de literatura e outras que serão menos boas. É difícil haver em Portugal pessoas com a categoria intelectual, por exemplo, da Marisa Blanco [gralha da revista: o nome é María Luisa Blanco, obviamente], uma grande jornalista espanhola. O País é pequeno e nós somos poucos.

 

Mas gosta de dar entrevistas sobre os seus livros?

Deve reparar que, normalmente, falo pouco dos livros.

 

Então, o que é que adianta ao entrevistador saber muito de literatura? Mesmo naquelas em que ele obviamente sabe, diz que não responde!

Mas também falo pouco de mim! É que por vezes as perguntas… Como é que hei-de explicar isto?

 

São estúpidas?

Não, estava a tentar encontrar uma maneira de dizer isto porque as emoções são muito anteriores às palavras e depois dizer isto em palavras é complicado. Tenho a sensação que me vou repetindo, percebe?

 

É o mesmo, não pode dizer coisas muito diferentes.

Uma entrevista é boa se o entrevistador é bom. Lembro-me que as entrevistas do Fellini eram maravilhosas, mas ele tinha uma graça, um humor, uma facilidade verbal que eu não tenho.

 

Nas entrevistas aos jornais estrangeiros, as respostas parecem mais desenvolvidas que as que dá aos portugueses. Faz mais cerimónia, quer ter lá uma imagem diferente da que tem cá?

Muitas vezes nas respostas estão coisas que não disse. Mas julgo que tem a ver… é curioso… com é que eu hei-de dizer? Nós aqui, em Portugal, quer conheçamos quer não as pessoas, temos uma imagem delas. E como normalmente a imagem é errada, as entrevistas também são erradas porque acabamos por querer que o entrevistado corresponda ao estereótipo que temos dele. Enquanto num país estrangeiro não têm nenhuma imagem pessoal, nenhuma fantasia, é uma pessoa que vêem pela primeira vez…

 

Não têm uma imagem pré-definida?

Exacto. E nós ouvimos falar de uma pessoa e temos imediatamente uma ideia, inventamos coisas, supomos coisas, mesmo acerca da vida pessoal dela e isso necessariamente vai inquinar o trabalho, do ponto de vista jornalístico, percebe?

 

Eu própria tive sempre medo de pedir-lhe uma entrevista, porque a imagem que me davam de si era a de uma pessoa agressiva, até malcriada…

Isso é uma coisa completamente absurda. Sempre achei (risos) isso tão absurdo. Eu não entendo, não sei de onde é que veio.

 

Tive uma colega, no Diário de Notícias, que regressou de uma entrevista consigo a dizer que a não tinha feito porque lhe disse que ela era feia e que, de certeza, morava nos Olivais.

Não creio. É possível que tenha feito uma brincadeira qualquer que ela não tenha percebido. Mas acho pouco natural.

 

Mas em geral não é verdade que gosta de ter uma imagem de pessoa que não tem paciência?

Não, não é verdade. Se conhece algum amigo meu, sabe que não é essa a imagem que têm de mim. A mim, parece-me muito estranho, porque de facto eu não sou assim.

 

Agora mesmo estava a dizer, irritado, que não atendia o telefone porque não tinha paciência para aturar a pessoa que lhe ligava, e para os seus amigos deve ter a disponibilidade toda do mundo.

Eu não tenho paciência para os meus amigos, tenho amor por eles.

 

E esse amor cria uma relação que lhes permite ter uma imagem muito positiva de si?

Não sei. Eu tenho muito poucos amigos. Muito poucos. Então agora, que morreram duas pessoas que eram tão importantes para mim.

 

E porque é que tem poucos amigos?

Porque a amizade é como o amor. É uma coisa muito difícil. Para mim. E é muito engraçado porque as amizades que tenho foram amizades à primeira vista. Por exemplo, a primeira vez que vi o Daniel Sampaio, tinha vindo da guerra. Já o conhecia da Faculdade, ele interessava-se pelo movimento antifascista, associativo, eu jogava xadrez e escrevia e estava-me borrifando, tudo isso me passava ao lado. Fui colocado em Santa Maria e entrei no gabinete de enfermagem e estava um rapaz de olhos claros encostado à balança e foi assim. Ficámos amigos  desde aí. E com os outros também. Foram todas amizades assim. Como é que hei-de dizer? A gente conhece-se e fica amigos de infância, não sei explicar… E depois a amizade tem coisas óptimas, é assexuada, não é exclusivista, não tem ciúme. E por outro lado, sentimos que são pessoas que estão ali quando precisamos delas. Por exemplo, com o Ernesto Melo Antunes. Ele já estava tão doente e eu tinha sido operado a uma porcaria qualquer na língua e ele telefonava a perguntar se eu já estava melhor. Feita destas atenções, deste amor. Mas acho que é uma coisa muito rara. Julgo que nós não podemos contar com mais do que quatro ou cinco pessoas na vida. Por exemplo, em relação aos meus irmãos. Nunca tive nenhuma conversa pessoal com nenhum deles, nem com os meus pais, nem nada disso. Existe muita cerimónia entre nós. Não são meus amigos, são meus irmãos.

 

E porque é que é assim?

Por pudor. Porque éramos uma casa  de muitos filhos e de pais austeros, onde ao jantar se falava de música ou poesia ou medicina ou outra coisa qualquer, não havia, nem há, conversas pessoais.

 

E sente falta dessas conversas pessoais?

Não, porque nunca houve e não posso sentir falta do que nunca tive! Sinto falta das pessoas que morreram. Por exemplo, o telefone toca às 10 da manhã e penso “É o Zé” (Cardoso Pires), que era a hora a que ele telefonava, ou apetece-me ver o Ernesto (Melo Antunes) e não posso vê-lo.

 

Diz que escreve para si…

Cada vez penso mais que escrevo contra a morte. Então depois destas últimas mortes, porque em face da morte a maior parte das coisas desaparece, a vaidade… Quando o Howard Hughes morreu, um jornalista perguntou ao advogado dele quanto é que ele tinha deixado e o advogado respondeu: “Deixou tudo”. Eu julgo que escrevo fundamentalmente contra a morte.

 

Tem medo de morrer?

Não sei, não sei responder…

 

Porquê? Porque o assusta pensar nisso?

Passei muito tempo perto da morte. Quando era miúdo a morte não existia, porque era o filho mais velho de dois filhos mais velhos. Eram todos muito novos, os meus pais, os meus avós. Só aprendi a morte quando fui para a Faculdade, com 16 anos. Fui para medicina por acaso. Nunca pensei ser médico. Mas foi o primeiro contacto que tive com a morte. Depois nos hospitais, depois na guerra. A pouco e pouco, as pessoas de quem gostamos vão morrendo. No fundo, envelhecer é ver morrer as pessoas de quem gostamos e às quais, a maior parte das vezes, não tivemos sequer tempo de dizer, por pudor, que gostávamos delas. E o remorso que se sente depois por não o termos feito.

 

 

Não quero desiludir as pessoas

 

Mas porque é que acha que escreve contra a morte? Explique lá.

Não sei, porque talvez seja a única coisa que posso dar às pessoas. Lembro-me que esses amigos que eu tinha (e os poucos que ainda me sobram) viviam os livros, não enquanto eu os escrevia, mas depois, com muito mais entusiasmo que eu. E é a sensação constante de não ter o direito de os desiludir, escrevendo um livro que seja mau ou que os decepcione.

 

Nos seus livros e nas suas crónicas, com as devidas proporções, acho que é um pouco o Herman José da literatura. Eu explico: o que o Herman faz mesmo bem é apanhar os diferentes tipos de pessoas e acho que uma das suas qualidades – e não conheço muito da sua obra, nem sou especialista em literatura, nem em nada – é exactamente “apanhar” as pessoas.

Eu, com todo o respeito que tenho pelo Herman José, acho essa comparação perfeitamente atroz. Por essa ordem de ideias, o Camões é o José Cid da literatura, por amor de Deus!

 

Não, era só uma provocação no sentido de que é capaz de descrever muito bem os diferentes tipos de pessoas.

Mas isso não me preocupa nada. Não é isso que me interessa quando escrevo um livro. Não me interessa nada isso. Se as pessoas estão bem ou mal apanhadas. Nem entendo bem o que é que quer dizer…

 

Quando descreve, por exemplo no Manual dos Inquisidores, a Sofia…

Não me lembro a Sofia, quem é a Sofia?

 

A Sofia é a mulher do João.

Não me lembro, esse livro já foi há muito tempo.

 

Então, pronto, é uma “menina bem” típica e acho que à medida que vamos lendo sobre ela identificamo-la imediatamente com um tipo de pessoa, que existe de facto. E essa capacidade de fazer personagens que existem mesmo, é fascinante.

Não sei. Sabe, uma vez estava em Nova Iorque com o meu agente, que é americano, e líamos o Hemingway. E eu dizia-lhe que as pessoas falam exactamente assim, que os diálogos dele eram assombrosos e o agente comentou: “Ai tu achas isso?”. E começou a ler em voz alta e ficou perfeitamente evidente que ninguém fala assim.

 

Ninguém fala como os põe a falar nos seus livros?

Não é isso que estou a dizer. É que tudo aquilo me parece tão verosímil quando lemos com os olhos, deixa de o ser quando lemos com a boca. Mas isso não me preocupa nada. A única coisa que me interessa é dar espessura humana às personagens. Caricaturas fazia o Eça de Queirós. Eu quero é que as personagens tenham uma espessura de carne. Embora sejam criaturas de papel, que seja possível senti-las respirar, viver, que nos comovam, como nos comovem as personagens de Tchekhov, percebe?

 

Mas quando anda pela rua, vai ao supermercado, olha para as pessoas, diverte-se a observá-las?

Não.

 

Não? Então de onde é que elas surgem?

Não, as pessoas não me divertem, não nesse sentido, estar a ver os tiques das pessoas, acho isso de uma arrogância miúda que não me interessa nada, para isso escreveria light literature, não me interessa nada também.

 

Mas de onde é que vêm as pessoas, se as não observa, como é que sabe o que elas são? Senão, só era capaz de escrever sobre si.

Eu nunca disse que sabia como elas eram.

 

Mas sabe, por isso é que as pessoas gostam de ler as coisas que escreve. Quando descreve uma cozinheira ou uma menina de Cascais.

Eu nunca descrevi uma menina de Cascais.

 

Então não descreveu?

Não, está a reduzir os livros a estereótipos. Não me interessa nada isso. Recuso qualquer explicação psicológica acerca das personagens.

 

Não estamos a pedir uma explicação psicológica das personagens. Parece-nos é que se diverte, não no sentido de troça, com a variedade de pessoas diferentes que existem.

Primeiro não acho que as pessoas sejam muito diferentes, depois as pessoas espantam-me muito mais do que me divertem. Sinto muito mais espanto que divertimento. Senti imenso espanto com essa história do Herman José da literatura. Se falasse do Camões, com que actor é que o comparava?

 

Não comparava com ninguém. Porque há-de ser só o senhor a provocar os outros?

Eu não costumo provocar ninguém. Estava aqui tão quietinho.

 

Não sou psiquiatra

 

Fale-me da sua mãe. Qual é a memória mais antiga que tem dela?

Isso é muito pessoal. Não sei. Nós vivíamos numa casa muito grande. Lembro-me de nascer o meu irmão Pedro, com dois anos ou três, nós somos seis, todos uns atrás dos outros.

 

Os seus avós eram muito importantes para si?

A minha família era muito importante para mim, porque eram duas famílias muito diferentes. A família do meu pai e a família da minha mãe. Tinham uma qualidade que é muito rara. Eram pessoas bem formadas.

 

O que é que entende por bem formado?

O mesmo que você.

 

É uma palavra muito típica de um certo meio social, não é?

Não sei, nunca pensei nisso. Até porque nenhum dos meus amigos nasceu no meio social onde eu nasci, que foi um meio que rejeitei muito cedo. Mas ser bem formado, para mim é ter bom carácter, e isso para mim é muito importante. Já está a querer colar-me uma imagem e eu recuso isso.

 

Não estou a querer colar imagem nenhuma!

Está, meninas de Cascais, o bem formado é uma expressão de um certo meio social…

 

Mas é, desculpe mas é. O bem formado significava que eram baptizados, que tinham valores cristãos, amavam o próximo como a si mesmos, eram honestos…

Por amor de Deus, ninguém ama o próximo como a si mesmo!!! O critério do bem formado tem a ver com a honestidade consigo próprio e com os outros, e se as pessoas tiverem isso eu não lhes peço muito mais.

 

Fala muito nos seus avós. A psiquiatria não liga muito aos avós, pois não?

Eu não me considero psiquiatra.

 

Então, médico?

Nem médico. Eu apenas escrevo, a medicina foi porque era necessário escolher um curso.

 

Mas dá consultas.

É só o que faço.

 

Mas se dá consultas e passa receitas reconhece-se a si mesmo o estatuto de médico, ou não?

Só aqui. Oiça, a medicina foi sempre para mim apenas uma forma de ganhar a vida enquanto necessitei do dinheiro dela.

 

E hoje, o que é?

Hoje venho aqui ver pessoas de quem gosto, sabe?

 

E pagam-lhe para isso?

Não, não me pagam nada.

 

Não recebe?

Recebo um vencimento por vir ao hospital, é evidente.

 

Para trabalhar.

Não, o vencimento é muito pequeno.

 

Quando se aceita ser funcionário de uma casa recebe-se um vencimento para desempenhar determinada tarefa. Portanto, ou recusa isso e diz deus, hei-de cá vir um dia, mas não é como funcionário, ou então vem como funcionário, neste caso médico, por muito que diga que não.

Não posso dizer-lhe o estatuto em que aqui venho. Agora, ser-me-ia difícil viver sem isto. Porque, sabe, escrever é uma actividade muito solitária, muito isolada, e para mim é importante ver pessoas.

 

Invejo as pessoas que têm fé

 

Como é Deus para os portugueses? Numa entrevista ao Libération diz que a nossa concepção de Deus é a de um Deus velho, ciumento, cruel, furioso e que faz troça dos homens.

Não creio que tenha dito isso.

 

Tenho aqui a entrevista.

Deixe ver. Ah, isto é do Gaudemar, coitado.

 

Inventou, ele também?

Não, é um jornalista do Libé. Isto tinha que ver com determinado contexto. A minha relação com Deus, o meu Deus, a minha ideia de Deus, não é isto.

 

Mas continua a pensar que é esta a ideia que os portugueses têm de Deus?

Não creio que tenha dito isto. Posso ter falado do Deus do Antigo Testamento, um Deus tremendo, a ideia que nos era incutida no catecismo. No outro dia vi uma entrevista admirável de um padre, José Tolentino de Mendonça, que me parece um excelente poeta – digamos que é os D’ Arrasar da poesia, já que gosta deste tipo de imagens – e que é um homem por quem fiquei cheio de respeito e de admiração e invejei imenso a fé dele. É a única coisa de que tenho inveja mesmo.

 

Não tem fé e gostaria de ter, é isso?

Penso que é próprio da fé ter dúvidas, não é? Mas depois de um longo afastamento, a minha reaproximação a Deus tem sido gradual. Mas é uma reaproximação conflituosa.

 

E tem a ver com essa preocupação com a morte?

Não, tem que ver com a minha relação com o transcendente.

 

O facto de estar numa fase em que tanta gente de quem gosta morreu, contribuiu?

As pessoas de quem a gente gosta vão morrendo. Aos 13 anos morreu o meu primeiro avô. Não, é mais antiga do que isso porque sempre pareceu que o nada não existe. Quando comecei a ler os escritos teóricos, sempre me tocou muito a profunda religiosidade daqueles homens que chegaram a Deus através da Física, da Matemática. Na relação com o sagrado e com Deus acho que aprendi muito com essas pessoas. Tenho inveja da fé. Acho que é a maior graça que uma pessoa pode ter.

 

E acha que é uma coisa para a qual a pessoa não contribui nada? Acontece?

Não sou eu que falo assim, estou a repetir o que dizem os doutores da Igreja e estou de acordo com eles, acho que é uma graça. Admiro pessoas que chegam à fé através do raciocínio lógico. Admiro e respeito.

 

Mas a ideia de Deus, de que quando morremos vamos para o Céu, é uma ideia consoladora?

Não sei. Tenho visto pessoas religiosas no sentido de fazerem disso vida, que diante da morte têm um pavor tremendo. Lembre-se do Miguel Marel, filósofo católico, que disse antes de morrer: “Vou finalmente saber se aquilo em que acreditava era verdade”.

 

Brincava sozinho

 

Tinha um urso de peluche quando era pequenino?

ALA (hesita) – Não, porquê?

 

É só uma curiosidade.

Não, nunca fiz colecção de nada.

 

Nem uma pista de comboios eléctrica?

Não. Não estou a perceber esta entrevista! Brincava sozinho. E agradava-me mais brincar com coisas que eu fazia ou coisas simples que me permitiam maior margem de invenção que os brinquedos já feitos.

 

Tem memória da coisa que mais o magoou quando era pequeno?

Muita coisa me magoou, mas também não é algo a que vá responder.

 

E tinha medo do escuro?

Não vou responder-lhe a isso.

 

Porquê? O João do seu livro tem!

Porque são coisas pessoais.

 

Não responde a coisas pessoais?

Não.

 

Mas também não gosta de responder sobre os seus livros. Nem porque é que escreve.

Não é bem assim. Quando as perguntas são bem feitas, respondo. Quando as perguntas são mal feitas, não respondo delicadamente.

 

Não respondeu delicadamente à maior parte das perguntas que a maioria dos jornalistas portugueses que o entrevistaram lhe fizeram?

Porque não eram bem feitas. Porque há perguntas às quais eu não respondo, como aquela do Herman José. São perguntas para outros escritores, não vou dizer agora nomes, mas não para mim.

 

Acha que está muito acima desses escritores?

Não estou acima nem abaixo. Não estou acima de ninguém, meu Deus.

 

Antes de começarmos a entrevista dizia que parece que os jornalistas portugueses só agora se lembraram todos de si.

Era inevitável que mais tarde ou mais cedo houvesse a unanimidade que havia no estrangeiro. Este último livro foi apenas o pretexto e é injusto em relação aos livros anteriores. Como acho ridículo darem às crónicas uma importância que elas não têm. Não são literatura.

 

As pessoas dão importância àquilo que as toca.

Porque as pessoas são preguiçosas e não sabem ler e aquilo é uma coisa facilmente digerível. Oiça, um livro bom é um livro que existe e que é escrito pelo leitor.

 

Sim, mas então porque é que escreve as crónicas? Se é assim, ao escrevê-las não está a ser honesto consigo próprio. Se quer ser escritor…

Se quero ser escritor???

 

Se é escritor…

Não sei se sou. O Hokusai, aos 80 anos, dizia: “Se Deus me tivesse dado mais cinco anos de vida eu tinha-me tornado um escritor”. Escritor é uma palavra muito pesada. Uma coisa é escrever livros, outra coisa é ser escritor. Não sei quantos escritores haverá em Portugal.

 

A questão que lhe coloco é: se acha que as crónicas são má literatura porque é que as escreve?

As crónicas têm uma função muito simples para mim que é divertirem as pessoas, percebe? E um livro acho que é muito mais que isso. Quando o Vicente Jorge Silva me falou, eu pensei isto é para ser lido os domingos por pessoas que lêem jornais e suplementos de jornais e por isso tem que ser uma coisa que as divirta, que as distraia e que não as faça pensar muito. Apenas isso.

 

Acha que não fazem pensar muito?

Acho que não. Está a dar-lhes coisas que não exigem uma atitude activa. Aliás, o que é que faz o sucesso de determinados escritores? Não me apetece nada citar nomes porque não me apetece dizer mal de ninguém. Mas, pronto, estrangeiros, a Susana Tamaro ou o Paulo Coelho, de que temos montes de equivalentes neste país. São coisas facilmente digeríveis e que não exigem de si nem atenção nem esforço, são recebidas passivamente, um pouco como a relação do drogado com a droga.

 

Mas continua a não responder ao porque é que escreve as crónicas.

Comecei a escrever as crónicas porque precisava do dinheiro. Esse foi o ponto de partida.

 

Mas depois continuou e até as publicou em livro.

Sim. E até aceitei que fossem traduzidas.

 

Então, não tem assim tão má opinião delas.

Acho que como literatura de entretenimento são agradáveis. Quando digo que são más, é no sentido de que não são literatura. Enquanto nos livros você joga a sua vida, nas crónicas não joga nada. É completamente diferente.

 

Mas algumas das crónicas têm muito de si.

Algumas. Que provavelmente são as menos apreciadas. Deu-me imenso prazer escrever sobre o Eugénio de Andrade. Ou escrever sobre o Ernesto. Ou escrever sobre o Zé. Mas penso que as pessoas gostam mais de outro tipo de coisas. Divertidas.

 

Em relação às suas filhas tem várias crónicas em que o afecto é muito manifesto.

As crónicas também são ficções, como tudo. O Malcolm Lowy dizia que não era mentiroso, criava ficções autobiográficas. Nós partimos de uma base real e depois inventamos sempre um pouco. É inevitável. Agora, ao contrário do que as pessoas podem pensar, sempre escondi muitas coisas pessoais, mas acho curioso e divertido pensarem que estou a falar de mim, quando a maior parte das vezes não estou. O que faz depois com que exista a tal imagem.

 

Mas nessas crónicas expõe-se, investe muito de si.

Oiça, as crónicas são quatro páginas por mês, eu faço-as em meia hora na cozinha, de manhã. Uma página de romance leva-me mais de um dia inteiro a trabalhar. Está a ver a diferença? Não passo mais de uma hora com aquilo, escrevo-as e leio-as uma vez, enquanto que nos livros estou a puxar palavras do poço e faço uma página com sorte em 12 horas de trabalho.

 

É nos livros que a minha vida se joga

 

Diz que o mais difícil é corrigir… É perfeccionista em todas as coisas que faz, em relação a si próprio?

Em relação a mim próprio, os meus amigos, as minhas filhas, toda a gente, estão sempre a criticar-me porque eu não ligo ao que como, não ligo ao que visto, não ligo aos automóveis, não ligo a nada, foi uma das coisas que os meus pais me deram, porque acabo por ser uma pessoa barata. Mas em relação aos livros sim, porque é aí que a minha vida se joga, sempre foi aquilo que eu quis fazer desde que me conheço, comecei a escrever muito miúdo. A minha mãe tinha-me ensinado a ler e comecei a escrever sem saber o que isso era, e era muito agradável. Até perceber (muito mais tarde) que escrever é uma coisa tremendamente difícil.

 

Cada livro é uma correcção do anterior, é isso?

Quando você escreve, a sua ambição é sempre muito simples, quer renovar e alterar a arte do romance. E há mil maneiras de o fazer e cada pessoa faz à sua maneira. Mas o desejo  de corrigir sempre tem que ver com a insatisfação que sinto perante os resultados que ficam passada a euforia do primeiro mês de acabar o livro – primeiro acho que fiz um bom livro e depois começa o sentido crítico a funcionar, as qualidades aparecem pequenas, os defeitos aparecem maiores e finalmente surge a convicção de que com mais trabalho…

 

Escreveu e deitou fora muitos livros, antes de publicar o primeiro…

Comecei a publicar por causa do Daniel (Sampaio). Escrevia os romances e deitava-os fora e recomeçava. Foi o Daniel que me fez publicar o primeiro. Até aí nunca me tinha passado pela cabeça publicar.

 

E gostou ou preferia ter ficado toda a vida a deitá-los fora?

Retrospectivamente, teria preferido começar a publicar mais tarde.

 

A partir de qual?

Talvez a partir do Fado Alexandrino. Depende dos dias. Os primeiros romances não têm nada que ver com aquilo que acho hoje que é a literatura. Porque a minha ideia de literatura se foi alterando com o tempo. Escritores de quem gostava aos trinta anos quando escrevi os primeiros livros não são aqueles de quem gosto hoje. E a ideia que tinha do que deve ser um romance é diferente da que tenho hoje. A minha ideia acerca das pessoas é diferente também, sou muito mais indulgente, se não fosse indulgente não estava aqui a dar esta entrevista.

 

Acha que somos assim tão intelectualmente menores?

Não tem nada a ver com isso. Não julgo as pessoas assim. Nem me acho superior a ninguém. Acho que sou orgulhoso, mas acho que tenho um orgulho humilde, não tenho a sensação de ser melhor que ninguém.

 

Diz que em Portugal as pessoas não sabem ler. É porque não lêem muito?

As pessoas não sabem ler porque não foram ensinadas a ler e ler ensina-se. Ninguém discute os prémios que dão aos químicos ou aos físicos ou aos matemáticos e toda a gente acha quem é que deve receber um prémio literário. As pessoas não sabem literatura. Lê as críticas e são desoladoras de ignorância. Mas isto também se passa no estrangeiro, não é um fenómeno português.

 

Mas quem é que o ensinou a si, porque é que é diferente da maioria?

Acho que sei muito pouco de literatura, mas sei mais do que sabia há 20 anos. As pessoas não sabem ler por várias razões. Primeiro, porque antes do 25 de Abril não convinha que as pessoas soubessem ler, a seguir ao 25 de Abril nunca houve uma política cultural, nem com um governo mais à direita ou mais à esquerda. Como não ensinam as pessoas a ouvir música. E ensina-se a ouvir Bach ou Beethoven ou Charlie Parker. Ensina-se.

 

E consigo como é que foi?

O dramático disso é que muitas vezes somos autodidactas. E depois a aprendizagem torna-se muito mais penosa, muito mais difícil, muito mais lenta e muito mais imperfeita.

 

Mas tinha livros?

Em casa dos meus pais havia livros, sim.

 

E liam-lhe alto os livros, quando era pequeno?

Sim, o meu pai lia-me alto poesia, romances, etc. Mas fazia poucos juízos de valor. Gostava que os filhos os fizessem como entendessem. Nisso tive bastante sorte. Aliás, acho que tive bastante sorte com a minha família.

 

Mas aprendeu a ler sozinho, no sentido em que fala, porque tecnicamente toda a gente sabe ler, não é?

É uma coisa muito curiosa, vamos falar de literatura, uma vez que é isso que eu tento fazer. Não se ensina, mas aprende-se. Há certa coisas básicas que se aprendem, técnica literária aprende-se. Mas há outras coisas que não se aprendem. As pessoas ou nascem com isso ou não nascem. Um bom leitor é tão difícil de encontrar como um bom escritor.

Há pouco era uma questão de ensino, agora é uma graça, como a fé?

Um bom leitor é como um bom escritor, exige trabalho, exige aprendizagem, exige tempo, exige disponibilidade.

 

Os seus livros em Portugal são muito lidos. Acha que a maior parte deles caem em saco roto porque afinal não são bem lidos?

Continuo a publicar em Portugal apenas por respeito aos meus leitores.

 

Respeita-os porque acha que os seus leitores sabem ler?

Ponho o problema ainda antes disso: nos afectos. Porque tenho recebido ao longo destes anos cartas e outras manifestações de tal maneira comoventes e tocantes que acho que não posso trair e sinto-me reconhecido às pessoas por isso. Agora não tenho dúvidas que há vários níveis de leitura. Quando o Eugénio de Andrade me diz: “Eu não percebo porque é que a Exortação aos Crocodilos vende tanto, porque é um livro tão difícil”, é preciso saber muito de literatura para apreciar este livro, está a ver? Eu percebo o que ele quer dizer, mas provavelmente haverá vários níveis de leitura, entende? Acho que ele tem toda a razão. A tese dele é, um pouco como Stendhal dizia, o leitor ideal é muito raro. Repare que há livros que as pessoas compram mas não lêem, compram para pôr na estante porque têm que ter na estante.

 

Sim, mas isso não são os seus livros!

Por exemplo, O Nome da Rosa [do italiano Umberto Eco], que vendeu tanto. Quem é que foi ler aquilo.

 

Nós lemos.

Está bem, mas muita gente… Por exemplo, fizeram uma edição do Ulisses [de James Joyce], um livro que acho extraordinário, e esgotou num instante. Pergunto-me se as pessoas leram aquilo, porque é um livro extremamente difícil de ler e é preciso entrar naquele arquipélago para poder começar a gostar daquilo. Há certos autores que são muito difíceis e que depois nos podem dar um prazer enorme se se consegue ultrapassar essa resistência inicial.

 

E considera-se um desses autores?

Não me considero nada. Embora ache que os livros que escrevo não são fáceis. Portanto, espanta-me que vendam tantos exemplares. Mas oiça, não sou um best-seller, nunca serei.

 

Mas o que estará por detrás desse fenómeno das pessoas comprarem os seus livros?

Há muita coisa que me espanta. Como me espantam as reacções excessivamente emocionais em relação aos meus livros, de aceitação ou de rejeição apriorística e acrítica muitas vezes. Quando os meus primeiros livros saíram, espantavam-me muito as reacções tão emocionais que as pessoas tinham em relação àquilo, que afinal eram apenas livros.

 

Os seus livros não são livros que contêm uma história, que tenham um fio narrativo, mas sim que se vão vivendo através das personagens.

Os meus primeiros livros têm um fio narrativo.

 

Sim, os primeiros, os autobiográficos.

Mas depois percebi que não era esse o caminho que me interessava. O que me interessava era o desafio, atendendo a que o fio narrativo num romance é o mesmo que a picareta e a corda para um alpinista, de construir um romance sem fio narrativo. Criar personagens, emoções, situações, etc., sem fazer por um lado escrita estática e sem a ajuda desse fio narrativo.

 

E conseguiu?

Não sei.

 

Medo de não voltar a escrever

 

E como é que cada novo livro vai ganhando vida?

É um mecanismo curioso porque no fim de um livro você sente-se completamente vazio. Há pessoas que têm dois, três livros na cabeça, isso nunca me aconteceu, tenho só um, quando tenho. Portanto, há uma sensação de vazio muito grande e o receio de não ser mais capaz de voltar a fazer outro livro. Isso é constante.

 

É o medo de não conseguir que o faz avançar para o próximo, para provar que é capaz?

O medo é muito grande porque você não concebe a sua vida sem isso. E em cada livro que acaba é a mesma dança, o mesmo receio. Depois deste último, estive oito meses sem ser capaz de escrever. Depois, a pouco e pouco, o livro começa a aparecer, vagas ideias, vagos episódios, vagas personagens, que vão confluindo, cristalizando até que, a certa altura, o livro pede para começar a ser escrito, da mesma maneira que quando está acabado rejeita mais trabalho sobre ele. Mas o difícil não é escrever, difícil é corrigir e deitar fora o que está a mais. É dramático, porque quando está a escrever a quente parece-lhe que está a ser capaz de transmitir todos os sentimentos, emoções, etc., e depois a frio, passado algum tempo, a diferença entre a intensidade dos sentimentos e os resultados que ficam no papel é tão grande que todo o trabalho é tentar diminuir essa distância.

 

Onde é que conhece todas aquelas personagens e todos aqueles sentimentos dos seus livros?

Sei lá, com este último livro tinha a sensação de estar a aprender coisas sobre as mulheres com as personagens. Punha-se-me o problema, eu nunca experimentei as vivências femininas, não sei o que é um orgasmo para uma mulher ou o sentimento da maternidade ou o viver a primeira menstruação.

 

E como é que foi encarnar aquelas mulheres?

A sensação que tinha é que elas estavam a ensinar-me coisas sobre o que eram as mulheres. O meu problema era até que ponto estas raparigas são credíveis e têm uma existência própria independente de mim. Penso que quando o livro é sólido, cria as suas próprias leis e então de nada valem os planos muito pormenorizados que se fez, porque caminha muitas vezes em direcções que de início não se esperava.

 

Por exemplo?

Aparece-me um pequeno episódio e depois é como encontrar um botão e fazer um fato para o botão. Normalmente é em torno desse pequeno pormenor, sem importância, que as coisas começam a cristalizar-se. E muitas vezes esse pormenor nem aparece no livro. Mas nunca mudei de processo. Nem irei escrever muito mais livros. Se viver o suficiente, queria acabar esse e escrever mais dois livros e acabou. Não escrevo mais.

 

Porquê?

Leva-se a vida a lutar para arranjar uma maneira própria de dizer as coisas e depois acaba-se por ficar prisioneiro dela. Não acredito em grandes livros que se escrevam antes dos 30 anos e depois dos 70. Há excepções, é evidente.

 

Reforma-se?

Não, vou fazer outras coisas que me apetece muito fazer e para as quais não tenho tempo. Trabalho muitas, muitas horas.

 

 

Tudo menos uma frase mal escrita

 

Falava na felicidade de encontrar pessoas melhores do que si próprio. Sente que as suas personagens lhe são superiores?

Nunca penso nisso quando estou a escrever. Como elas me aparecem já impostas, não escolho. O problema é que são pessoas com quem vou viver um ano, dois anos. Inevitavelmente, é difícil a gente viver com as pessoas sem gostar delas, não é?

 

Mas gosta das personagens todas?

Sim, gosto muito delas. Neste livro que estou a escrever é só uma rapariga a falar, não tem várias personagens, apenas uma – é outro desafio, agarrar numa miúda de 18 anos e pôr dentro dela tudo aquilo que ela não viveu, não sabe nada da vida, da morte, disto, daquilo, daqueloutro, tem olhos virgens e uma virgindade em relação às coisas e como pôr tudo dentro dela. Estou a viver com ela desde Outubro de 98. Agora começamos a estar um bocado fartos um do outro. Mas ainda vamos estar juntos mais uns meses.

 

E os olhos dela continuam virgens depois destes meses todos?

É difícil, só lendo, porque se se pudesse resumir um livro ou um filme para quê escrevê-lo ou realizá-lo, não é? E depois aquilo que conseguimos contar é a anedota, que é o menos importante. Para lhe poder contar um filme do Visconti contava-lhe a anedota que não tem importância nenhuma, o que tem importância é a forma como ele trata a intriga e não a intriga em si, que pouco interessa.

 

Nos seus livros, a forma é muito mais importante que o conteúdo.

O importante é o como, como escrever.

 

A forma como escreve. É isso que o distingue?

Exactamente. Porque os temas mais banais são os mais difíceis. Escrever uma história de amor é terrivelmente difícil. Eu gostava de fazer um romance de amor e é-me terrivelmente difícil. Colocar personagens em situações extremas torna-se tecnicamente muito mais fácil que tentar narrar o quotidiano. Para desbanalizar é preciso uma arte muito consumada. Como fazia o Tchekhov, aquelas peças onde nada acontece e as pessoas usam as frases mais banais deste mundo e ele consegue transmitir toda a dor, todo o sofrimento, toda a alegria do mundo. É extraordinário o trabalho que ele fazia. Ou a Jane Austen. Que no fundo é isso que nos toca, o que é que me toca num livro? É estar a ler e pensar: bolas! é isto mesmo que eu sinto e não era capaz de exprimir. É isto que acontece comigo e eu não reparava.

 

Mas é esse o efeito que as crónicas têm nas pessoas. As suas crónicas tocam as pessoas por aí.

Não sei. Estava a lembrar-me do início desta entrevista, quando falou no pobre do Herman José, em que estava a dizer exactamente o oposto do que está a dizer agora.

 

O seu mal é que pegou numa imagem que usei para tentar explicar uma ideia concreta e a interpretou como uma classificação do que escreve.

Obviamente, mas essas coisas para mim são muito importantes.

 

Não é nada óbvio!

Uma vez, o Herculano disse uma coisa ao Garrett, uma frase que acho assombrosa: “Por dez moedas, o Garrett é capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita”. É evidente que me chocou a comparação com o Herman porque o Herman faz caricaturas e eu nunca quis fazer nenhuma caricatura.

 

Mas não fique chateado.

Não fiquei chateado, mas a caricatura a mim não me toca, pode fazer-me rir. O Herman faz-me rir, mas não me comove.

 

O que tentava explicar é que não pode ser uma pessoa triste  deprimida, como quer às vezes fazer crer – porque quando uma pessoa escreve, tudo na vida é material de trabalho. Por isso, tem que ser uma pessoa alegre, feliz.

Outro dia estava sentado nas Amoreiras divertidíssimo.

 

Perguntei-lhe se ia ao supermercado e olhava para as pessoas e disse que não.

Claro, eu não era bem olhar, era impregnar-me delas.

 

É divertir-se com a riqueza humana.

Não tem que ver com riqueza, tem que ver com disponibilidade para os outros, não ter pressa.

 

Mas pode tirar gozo.

Todos somos capazes de fazer a mesma coisa, basta ter tempo, ter disponibilidade.

 

Não é nada, isso é mentira!

Eu não sou mentiroso.

 

Então pronto, acho que tem uma sorte enorme em ser assim.

Em ser o quê?

 

Em ter talento, em olhar para as pessoas e para as coisas e ser capaz de construir…

Não é uma questão de sorte, é uma questão de tempo, eu tenho tempo, construí a minha vida de maneira a ter tempo para isso. Ou pensa que quando vim de África e tinha que trabalhar no hospital não sei quantas horas e depois como não tinha dinheiro ia fazer bancos para o Montijo e para aqui e para acolá, que tinha tempo? Não tinha tempo nenhum e isso reflectia-se obviamente no que escrevia.

 

A questão não é só de tempo. Nem todos podem ser grandes escritores.

Acho que o João Renan tinha razão quando dizia que não havia talento, havia bois, pessoas que marram, marram, e marram.

 

 

Notícias Magazine

Fevereiro 2000

fotos Lusa, caricatura de Miguel Soares

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Encontro com António Lobo Antunes

Outubro 1, 2007 · 1 Comentário

Na noite em que conheci António Lobo Antunes – disse Armas Marcelo na apresentação – estava exactamente tal como o vêem agora. Estávamos jantando vários numa mesa e ele permanecia absorto, concentrado em si mesmo, como se estivesse noutro lugar. Porém, estava inteirando-se de tudo, como agora…

 

O escritor português António Lobo Antunes com o escritor canário

Juancho Armas Marcelo, durante o encontro. Foto de EFE (El Mundo).

 

Desculpem-me se não me ouvem bem, falo muito baixo.

 

Lembro-me com livros desde que nasci. O meu pai estava sempre a ler. E eu me perguntava que conteriam aqueles livros, que não tinham desenhos, nem fotografias, mas tão só palavras. Aos três anos tive tuberculose, e exilaram-me em casa do meu avô paterno. O meu avô era capitão de cavalaria e achava que isso de ler eram mariquices, coisas de mulheres.. Isso fez com que me sentisse dividido, pois via o meu pai concentrado nas suas leituras e ficava com dúvidas se ela seria maricas. As minhas tias, ali em casa do meu avô, tinham a colecção toda de Corín Tellado. Assim foram essas as minhas primeiras leituras. E Flash Gordon e Mandrake. Não posso dizer como muitos escritores que posam afirmando que as suas primeiras leituras foram Homero, Ovídio, etc.

 

Tempos depois mandaram-me para o outro avô, no Norte. O comboio trazia o jornal ao meio-dia. O meu avô só lia a necrologia. Lia um nome. E exclamava: “morreu aos cinquenta anos, que idiota!”. Depois outro nome, e: “morreu aos quarenta e dois anos, que estúpido!”. Era o seu triunfo quotidiano sobre a morte, o seu modo de exprimir que ia seguindo vivo. Vi a morte então de outro modo: a morte era quando os olhos se tornavam pálpebras. Nada mais que isso. A avó, por seu lado, dava-me a Vida dos Santos para ler, mas não gostava muito.

 

Aos oito ou nove anos, lembro-me, estávamos de férias na praia. Meu pai só ia aos fins-de-semana para nos atormentar. Impunha-nos ler durante a semana o capítulo de um livro e escrever uma “apreciação”. Então passei o verão escrevendo “apreciações”. Embora deveria seguir aquele dito: “eu jamais leio os livros que critico para não me ver influenciado por eles”. Recordo o meu pai nesses fins-de-semana lendo sem parar Flaubert e outros escritores franceses. Meus pais eram um casamento feliz: o meu pai mandava e a minha mãe obedecia. Como todos os homens e mulheres dessa época.

 

Com nove ou dez anos comecei a escrever. Poesia. Muito má. Um dia quis saber o que achava a minha mãe das minhas poesias. Comprei um papel especial e escrevi com uma caligrafia muito cuidada. Minha mãe disse-me para me dedicar a outra coisa, que não pensasse em escrever porque não tinha talento algum para a escrita. Mas esse comentário estimulou-me: comecei a escrever contra a minha mãe.

 

Depois, quando se chega aos quinze anos descobre-se a diferença entre a boa escrita e a má. Aí começa a angústia. E depois, a diferença entre a boa escrita e a obra de arte. E finalmente, entre a obra de arte e a obra-prima. E a angústia já não nos abandona, nunca.

 

O meu tio vinha de vez em quando do Brasil – porque o meu pai era filho de um brasileiro casado com uma alemã – e trazia-nos um montão de livros. Então a minha mãe pegava num lápis vermelho e outro azul, e com o vermelho ia marcando aqueles livros que não podíamos ler e com o azul os livros permitidos. As cruzes vermelhas eram destinadas a livros em que apareciam mulheres nuas e coisas assim. Se fosse por minha mãe, a raça extinguia-se connosco, porque censurava tudo que fosse relacionado com a reprodução.

 

Meu pai era neurologista, um grande admirador de Ramón e Cajal. Trabalhava na Alemanha e vinha apenas uma semana por ano para nos ver. E quando se ia embora, o ventre de minha mãe começava a crescer. Eu perguntava-me: Que haverá na Alemanha que faz crescer o ventre da minha mãe?

 

Um irmão da minha mãe trabalhava numa revista literária, e ofereceu-me uma subscrição. Aí li um poema em que reparei que as palavras, a sintaxe, a gramática podia ser retorcida, forçada. Não há que respeitar as palavras, mas tratá-las como um corpo, como um corpo de mulher, há que apalpá-las, cheirá-las, apertá-las…

 

Frequentava um restaurante de escritores. Escritores que tinham já livros nas livrarias. E eu observava-os: um cuspia ao comer, outro tinha coisas brancas no cabelo, outro remexia continuamente um palito na boca. Eu pensava que os escritores eram espíritos puros. Um dia conheci um deles, um poeta amigo do meu pai, muito gordo, vestido completamente de linho branco e comendo um gelado em frente de uma loja de lingerie. Eu olhava aquele homem chupando sem parar aquele gelado enquanto contemplava os soutiens. Embora depois ele nunca tivesse escrito sobre soutiens. De tanto ver aqueles escritores pensei: “Tenho de ser feio, senão não posso ser escritor”.

 

Aos quinze anos, os dirigentes do Benfica vieram a casa para falar com o meu pai. Queriam inscrever-me, e assim fui jogar no Benfica. Ia aos treinos com um livro, por exemplo, Quevedo, que é um dos meus escritores preferidos. E os outros jogadores estranhavam por eu levar livros para os treinos. Com dezasseis anos, chamaram-me à selecção nacional para jogar a Taça da Europa. O treinador tinha dúvidas em colocar-me: não pelo meu jogo, mas porque lia. Gostava de ler de tudo. Hoje continuo gostando de ver os escritores autografando livros nas férias. Escrever é tão difícil…

 

Chega um dia em que se encontra os escritores favoritos. Quando encontrei os meus, era como ir caminhando entre a névoa: não os entendia. Lemos sempre segundo o nosso critério,  a nossa experiência, as nossas emoções. Mas cada livro há que ser lido não com as nossas chaves mas com olhos virgens, desprevenido, de modo que se estabeleça uma relação pessoal com ele: “Emily Dickson escreveu para mim, não tenho a menor dúvida”. E esses livros não se podem emprestar.

 

Durante o curso de medicina, ia escrevendo, mas tudo me parecia mau. Não participei em movimentos estudantis, nem em revoltas contra Salazar: escrevia, lia e jogava ao xadrez. Ao acabar o curso, comecei a trabalhar num hospital inglês fora de Lisboa e ao regressar a casa pelo Natal, tinha uma notificação do exército para ir à guerra. Pensei em fugir, mas os cidadãos não tinham passaporte. Tudo era controlado pela polícia política. Pagando muito, talvez se pudesse escapar, assim só gente de muito dinheiro conseguiu fugir. Anos antes, o meu avô tinha prometido que se aquele menino de três anos não morresse de tuberculose me levaria a fazer a comunhão a Pádua, ao túmulo de Santo António. Devido à impossibilidade de viajar ao estrangeiro, não me pôde levar, mas ofereceu-me as fábulas de Lafontaine, que não li então, mas depois. Daquelas fábulas impressionou-me que um cão pudesse olhar para um bispo. Esse era um conceito democrático, porque até então só o bispo é que podia olhar para o cão.

 

Mandaram-nos para Angola. Éramos um grupo de seiscentos e morreram cento e cinquenta. Todos putos: nós os oficiais tínhamos vinte e três anos e os soldados tinham vinte. O capitão tinha trinta e quatro e parecia-me um velho, estava acabado. Este capitão obrigava os oficiais a usar gravata para sentar a jantar. Eu odiava isso. Estávamos todo o dia em uniforme de campanha, sujos e salpicados de sangue. Vendo os nossos companheiros morrer ou cair feridos. Tudo era sangue, sangue. Depois entendi que esse gesto de colocarmos a gravata era para preservar a humanidade, para continuar a manter contacto com a humanidade. Também líamos poesia uns aos outros durante o jantar. Creio que isso nos salvou da loucura. Lembro-me de um soldado, que se pôs de pé durante a noite, pegou na sua arma e caminhando entrou sozinho na mata. Queria morrer. Por esse caminho chegava-se ao inimigo. Entendi porque é que os nazis ou a polícia política de Salazar queimavam os livros. Em Angola, durante a guerra, vi que os livros tinham uma utilidade prática.

 

Cada vez gosto de menos escritores, porque agora quando leio não sou inocente. Começo a ler e começo a corrigir. É tão difícil escrever. E mais difícil corrigir. Uma primeira versão é sempre má, mas já está tudo nela. Há que trabalhar e trabalhar sobre ela. Há três coisas necessárias para ser escritor: paciência, orgulho e solidão. Sobre a solidão lembro-me sempre as palavras de Sánchez Ferlosio: “Carmen é uma viúva que tem o defunto em casa”.

 

Eu escrevia romances e atirava-os ao lixo. Escrevia para ser o melhor. E sabia que não o era. Portanto, se não lograva, seria melhor atirá-los ao lixo.

 

Conheci um advogado com uma biblioteca imensa. Era um homem muito atraente, notei pelos olhares das mulheres. Um dia perguntei-lhe: “Miguel, continuas a comprar livros?” “Não, creio que se reproduzem entre si.”

 

Cada vez mais vou diminuindo os meus autores preferidos: Conrad, Tolstoi quase sempre, Tchékov sempre, Quevedo. Gostei de Nabokov. De certo modo todos somos filhos de Nabokov, mas já não gosto.

 

Vive-se sabendo que nunca se fará o livro perfeito que se quer fazer.

 

Com a revolução de 1974 as pessoas esperavam que saíssem as obras primas que tinham permanecido no fundo das gavetas do escritores durante a ditadura. Mas não saiu nada. Os escritores continuavam a ter medo. Sartre, por exemplo, foi muito cobarde na invasão nazi, e foi a Lisboa para ensinar a revolução. E então um dia comecei a escrever Memória de Elefante. Nele narro o país que encontro ao regressar da guerra em Angola. Muitas coisas tinham mudado, e no fundo tudo continuava igual. Leu-o um amigo que depois passou a outro. Um dizia-me: “é melhor que tires a primeira parte”, e o outro: “é melhor que tires a segunda parte”… Esse livro passou um ano sendo rejeitado pelas editoras. Finalmente saiu em 1979, em Julho, quando as pessoas iam de férias. O editor disse-me que Antunes era feio, e que seria melhor que o meu nome se ficasse por António Lobo. Mas disse-lhe: “Meu pai chama-se Lobo Antunes, que quer que faça?”. Suponho que o editor procurava um truque porque não se vendia nada. Fui de férias em Agosto, as minhas filhas mais velhas eram ainda pequenas, e quando regressei tinham-se vendido cento e cinquenta mil exemplares do livro, e era famoso. O livro tinha uma foto na contracapa e as raparigas diziam: “certamente o livro é uma merda, mas vende-se porque ele é tão bonito”. Seria graças aos meus olhos azuis.

 

Depois, comecei a escrever mais devagar: três ou quatro linhas por dia. Meia página se tanto. À noite, quase a dormir, lia coisas que não estavam no livro. E dei-me conta de que esse estado mental próximo dos sonhos tornava-me criativo. E chego a esse estado mental quando me sinto fatigado.

 

(Nesse momento cai o cartaz atrás de si que promove a Noite dos Livros e fica quedo. Depois acrescenta: “É porque me chamo Antunes”)

 

Do que se publica agora, poucas coisas me chamam a atenção. Há dois anos li um livro intitulado “Alondra” que me maravilhou. É um casal velho que tem uma filha muito feia e que parte durante uma semana para visitar os tios. O casal fica só e em duzentas páginas o escritor descreve tudo, todos os sentimentos de angústia, de ternura, de rancor. Tudo está ali. Este romance é de 1924 ou 25 e ainda conserva a frescura. Tudo está descrito com uma mão maravilhosa. A capacidade de surpresa vai diminuindo porque já se leu muito. No século XIX havia trinta génios escrevendo ao mesmo tempo. Só em Inglaterra Dickens, Lewis Carrol, Keats, Dickinson, etc e assim nos outros países da Europa, mas agora não há mais que quatro ou cinco em todo o mundo. Outro dia estava com o meu sobrinho de seis anos. Eu trabalhava e ele jogava com o seu Gameboy. Essa criança foi privada da sua capacidade de imaginar, de sonhar, de desenvolver um pensamento. Só lhe importava matar e matar os inimigos naquela coisa. O mesmo se passa com a televisão. Em Portugal não temos “Aquí hay tomate”, que me encanta. Que se passa com o filho da Pantoja? É tudo tão estúpido que é maravilhoso. Dentro de vinte anos temo que não vão aparecer bons escritores. Mas isso tão pouco importa: de cada vez que se lê Guerra e Paz, Tolstoi escreve-o de novo, porque descobre-se sempre coisas novas. Disse Keats: “A boa arte é uma alegria para sempre”, e tem razão. Um livro tem que ser uma festa. O meu pai morreu fará em Junho dois anos, e lembro o que o padre disse: “Não fomos feitos para a morte mas sim para a vida”. Odeio isto, mas tinha razão. Borges disse que Quevedo não é um escritor, é a literatura inteira. Ontem estive folheando-o no hotel. Um livro é mais possessivo que uma mulher ciumenta.

 

Espero que não se tenham aborrecido por ter falado tanto tempo…

 

original escrito por Oscar Marcos Mallo

em Dosdoce, Abril de 2006

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ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário

recolhidas dos livros, entrevistas e declarações do escritor (ordem cronológica)

Lamento que pessoas com talento tenham de trabalhar noutra profissão e só possam escrever à noite e aos fins-de-semana.

fonte: Courrier Internacional, 01.2007

 

O que acontece, porém, é que toda essa história das definições de géneros cada vez me interessa menos. Quando se começa um livro, é isso que se quer fazer, um livro, um livro total que tenha tudo, poesia, prosa, tudo: a vida.

fonte: Courrier Internacional, 01.2007

 

É preciso viver, viver como homem comum entre homens comuns. Só um homem comum pode fazer grandes coisas.

fonte: Courrier Internacional, 01.2007

 

Como quando estamos em bicos de pés à procura de coisas em cima dos armários, os livros andam por aí à espera que alguém os escreva.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Só podes começar um livro quando tens a certeza que não vais ser capaz, porque só então escrever se torna uma luta com o material, e a tua vida se vai estreitando porque estás de tal modo habitado pelo livro, numa relação simbiótica, que formas corpo com ele.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Não podes escrever e fazeres outra coisa. Não se podem fazer bons  livros a ser-se jornalista, médico ou o que quer que seja.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Não vale a pena escreveres se não for para seres o melhor.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Tenho de os ler [aos livros que gosta] duas, três, quatro vezes; há sempre muitas coisas que perdemos na primeira leitura.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Só ficas adulto depois do teu pai morrer, porque deixou de existir a última coisa que existia entre ti e a morte.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Cada vez gosto mais de ser português e cada vez tenho mais orgulho no meu país. É-me insuportável ouvir dizer «somos um país pequeno e periférico». Para mim Portugal é central e muito grande.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Queria que cada página fosse um espelho [para o leitor].

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

O que eu queria era pôr a vida toda entre as capas de um livro.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Num livro mau, a pessoa escreve aquilo que quer escrever. Num livro bom a pessoa escreve aquilo que o livro quer que seja escrito.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Como aquilo que aconteceu ao Camões: o que é que eu quero?, é dar trabalho para quinhentos anos aos críticos.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Eu não sei o que é que é light, sei que é light em relação a cigarros. Há literatura, e não há literatura. Pois a literatura não é isso, é uma coisa nobre, a literatura é o que faz o Dostoievski.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Eu duvido que um leitor de maus livros vá ler livros bons.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Eu pergunto-me se é possível entrevistar um escritor. Acho que não é porque ele é muita gente. E é muito difícil apanhar essa multidão toda.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Todos nós somos muitos.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Em geral, as entrevistas são piores do que as pessoas.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

É próprio do homem não viver livre em liberdade, mas viver livre numa prisão, e já é muito bom.

fonte: Póvoa Semanário, Fevereiro de 2006

 

É mentira que exista liberdade total de expressão, uma vez que os próprios jornais fazem censura, a censura interna, o que é natural pois eu não posso dizer mal do dono do meu jornal.

fonte: Póvoa Semanário, Fevereiro de 2006

 

Os bons escritores são pessoas que não mentem no seu trabalho.

fonte: Visão, 27.02.2006

 

O que me preocupa são os autores que dizem que «puseram os portugueses a ler». Isso é mentira. Puseram, isso sim, os portugueses a lerem-nos a eles – e isso não é ler.

fonte: Visão, 27.02.2006

 

Há mais artistas do que obras de arte.

fonte: Visão, 27.02.2006

 

Quando morre um pai, tem-se a sensação de que, na próxima vez que a morte aparecer à porta, seremos nós a abri-la.

fonte: Visão, 23.02.2006

 

O que eu tento fazer é pôr a vida toda em cada livro.

fonte: Visão, 23.02.2006

 

Só vale a pena começarmos um romance quando temos a certeza de que não somos capazes de o fazer.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

Pensar é ouvir com atenção. Para escrever é preciso escutar a voz que dirige a mão.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

Um bom livro é o que foi escrito só para mim.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

O grande artista traz uma forma diferente de colorir.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

Já reparou como os desenhos das crianças são fascinantes até aprenderem a perspectiva? Quando começam a desenhar a três dimensões, perde-se tudo.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

… são precisas muitas mulheres para esquecer uma mulher inteligente.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

Teria dificuldade em viver com uma mulher que escrevesse. Eu nunca seria o mais importante na vida dela, viria sempre depois dos livros.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

Um bom livro ajuda-te, ilumina-te, dá-te a beleza que não encontras em ti. Agora, por exemplo, já se começa a ler aos doentes enfermos. A arte pode ajudar a salvar-te a vida.

fonte: Agência Lusa, 10.11.2005

 

Ainda que o tradutor tenha génio, uma tradução é sempre uma foto a preto e branco de um quadro.

fonte: Agência Lusa, 10.11.2005

 

Um bom livro tem a sua própria chave e o seu manual de instruções.

fonte: Agência Lusa, 10.11.2005

 

Tens obrigação de escrever para os que não têm voz, para os que não conseguem falar, as mulheres casadas, por exemplo, que são as mais infelizes do mundo.

fonte: Agência Lusa, 10.11.2005

 

Os fins-de-semana são horríveis para os casamentos. Em Portugal resolveram o problema com um jornal enorme, que vem em saco plástico.

fonte: Agência Lusa, 10.11.2005

 

Eu adormeço a ler. E há aqueles momentos entre o dormir e o acordar em que começo a ler outras coisas que não estão lá, começo a fazer outro livro. Vinha notando isto e pensei escrever conseguindo um estado próximo deste, em que os meus mecanismos lógicos não funcionam e as palavras flúem através da mão. São as palavras que se geram umas às outras.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Aprende-se a escrever, lendo.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Isto às vezes é tremendo porque a gente que exprimir sentimentos em relação a pessoas e as palavras são gastas e poucas. E depois aquilo que a gente sente é tão mais forte que as palavras…

fonte: Público, 09.11.2004

 

A palavra carne é sempre a mesma, depende das palavras que se põem antes e das palavras que se põem depois. Para que as pessoas sintam o gosto na boca eu tenho que trabalhar como um cão, até encontrar as palavras exactas antes e depois.

fonte: Público, 09.11.2004

 

Qualquer entrevista é muito inferior a um livro. O livro permite corrigir-se. A entrevista necessariamente está cheia de lugares comuns.

fonte: Público, 09.11.2004

 

Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Saber ler é tão difícil como saber escrever.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Não fomos feitos para a morte, a não ser para a morte voluntária. A involuntária sempre me pareceu uma tremenda injustiça, para não falar em crueldade.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Viver é muito perigoso, mas é um privilégio estar vivo, sobretudo para quem tem, como eu, um único objectivo: escrever. E isso salva-me de muita coisa.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

É mais sensual uma mulher vestida do que uma mulher despida. A sensualidade é o intervalo entre a luva e o começo da manga.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

O livro é escrito por duas pessoas: por mim e pelo leitor.

fonte: Diário de Notícias,  18.11.2003

 

A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.

fonte: Diário de Notícias, 18.11.2003

 

Só há grupos onde existem fraquezas individuais.

fonte: Diário de Notícias, 18.11.2003

 

Quando lemos um bom escritor é para nos conhecermos a nós mesmos.

fonte: Público, 15.11.2003

 

O próprio do homem é viver livre numa prisão. Estamos sempre condicionados e até prisioneiros de nós próprios.

fonte: Diário de Notícias, Novembro 2004

 

Sinto uma consideração quase nula pelo que, em Portugal, se publica. Desgosta-me a infinidade de romances desonestos, entendendo por desonestidade não a falta de valor intrínseco óbvio (isso existe em toda a parte) mas a rede de lucro rápido através da banalização da vida. Livros reles de autores reles.

fonte: Visão,  07.08.2003

 

Às vezes é difícil dizer que uma pessoa tem um coração em cada objecto.

fonte: Diário de Notícias, Novembro 2003

 

Seria incapaz de dizer mal de um livro. Mesmo que o livro fosse desonesto, mesmo que o livro fosse mau, não falaria sobre ele. Portanto, se fosse crítico literário era uma maçada porque quase não tinha sobre que escrever.

fonte: Diário de Notícias, Novembro 2003

 

As pessoas compram aquelas coisas [livros] que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo.

fonte: Diário de Notícias, Novembro 2003

 

Ler é um acto de prazer.

fonte: Diário de Notícias, 2003

 

Ninguém é bom ou mau na cama. Se há um problema sexual, é outra coisa, mas senão há problemas concretos, basta que se goste muito de uma mulher; se isso acontece, ela é a melhor na cama..

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Há momentos e situações em que o olhar comunica mais que as palavras, isso também é intimidade. Creio que sou capaz de dizer muitas cosas sem falar, é o outro que também tem de compreender e de saber interpretar. Quando se estabelece essa relação de intimidade e de amizade, não é necessário falar. […] frequentemente é melhor não o fazer porque as palavras estão muito gastas.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

A amizade é regida pelo mesmo mecanismo que o amor, é instantânea e absoluta.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

No amor podemos substituir uma pessoa por outra, mas não na amizade, porque cada amigo tem o seu lugar e não podemos substitui-lo.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Penso que as mulheres são mais ciumentas do trabalho que das outras mulheres. Mas eu entendo isso. Eu não gostaria de viver com uma mulher que escrevesse porque, se fosse como eu, estaria tão concentrada no trabalho que não existiria mais nada.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Não me importaria de ser condenado a prisão perpétua se tivesse livros e papel para escrever.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Escrever é como uma droga. Começa-se por puro prazer e acaba-se por organizar a vida como os drogados, em torno do vício. […] até quando sofro vivo isso como um desdobramento: o homem está a sofrer e o escritor está a pensar como aproveitar esse sofrimento para o seu trabalho.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Não descrevo os personagens, apenas algum detalhe, o cabelo, as mãos, algo assim, porque a descrição limita-me. O leitor tem de imaginar os personagens.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Nunca conseguirei o romance que quero fazer porque, primeiro, se o fizer, para quê continuar a escrever?; depois, porque é uma luta constante com as palavras, com a resistência das emoções, mas esse é precisamente o encanto do meu trabalho.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Escrever protege do sofrimento. Quando estou a sofrer e escrevo, não sou só esse homem que sofre, sou também o escritor que está a pensar como aproveitar esse sofrimento para o trabalho.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Creio que os escritores em geral não trabalham muito os seus livros, não os corrigem. E é uma pena porque, por vezes, trata-se de uma única palavra, mas uma palavra que pode ser fundamental.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Com cada novo livro afloram todas as fragilidades e problemas do escritor.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

O autor não deve ser protagonista do seu livro porque o leitor não tem de notar que o escritor está ali, este tem de se tornar invisível.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Porque se escreve? Pergunta a uma macieira  porque dá maçãs.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Não se pode escrever para ter êxito. Se é isso que se procura, o melhor é começar a cantar.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Quando escrevo, é claro que sofro, mas também tenho muito prazer a escrever e gostaria que os meus leitores também sentissem esse prazer.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Tenho uma enorme inveja dos poetas. […] Ninguém escreve romances como eu, mas sou um poeta falhado. […] Talvez os bons romancistas sejam poetas falhados. Não sei.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

O melhor verso é o inesperado, inclusivamente para o poeta.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Não existem livros maus, para mim, um livro merece sempre respeito. Há tanta esperança, por vezes sofrimento e até a saúde do autor… Eu agradeço os livros que me mandam, antes de os ler, para não ter de mentir, porque as pessoas não têm sentido autocrítico. Se lhes digo: «Eu não gostei do seu livro…», confundem-se a eles com o produto e consideram-no como algo pessoal. Se fosse crítico, criticaria só os livros de que gostasse, porque se pode fazer muito mal, as pessoas ficam muito mal quando recebem uma crítica adversa; é muito doloroso.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Hoje, os escritores jovens querem ser lidos na segunda-feira, ser publicados na terça, ter um êxito extraordinário na quarta e na quinta ser traduzidos em todo o mundo.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Viver é como escrever sem corrigir.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Viver diverte-me muito. Nunca me aborreço quando estou sozinho.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Não gosto de ir a determinados ambientes, porque também me dou conta de que há um terror reverencial que impede a proximidade. Estão sempre à espera que diga coisas inteligentes e, por sua vez, protegem-se não falando.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Penso que as mulheres são mais ciumentas do trabalho que das outras mulheres. Mas eu entendo isso. Eu não gostaria de viver com uma mulher que escrevesse porque, se fosse como eu, estaria tão concentrada no trabalho que não existiria mais nada.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

O Partido Comunista é uma Igreja, com a sua fé, as suas tradições e a sua hierarquia. Não mudou.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Vivemos numa época em que a ideologia é uma ideologia de produção e [os comunistas] não compreenderam que o poder não está nas mãos de nenhuma ideologia, mas das multinacionais: quem produz está bem; quem não produz, é expulso.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

A única forma de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença.

fonte: Segundo Livro de Crónicas, 2002

 

Mesmo as pessoas que escrevem para os jornais, que no dia a seguir servem para embrulhar o peixe frito, devem medir as palavras por respeito à língua e a nós mesmos.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

A forma como lidamos com o fim é muito judaico-cristã, muito ligada à ideia do cadáver e do horrível ritual da morte. Tentei sempre, em relação aos meus mortos, guardar a imagem da pessoa viva, nunca os quis ver depois de terem morrido.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

A morte das pessoas de quem gostamos amputa-nos.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

Nós morremos quando desaparecem as últimas pessoas que ouviram falar de nós.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

A vida faz-me sentido enquanto trabalho.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

A loucura é exceder os limites impostos pelos médicos, limites que variam muito de caso para caso.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

Durante anos, mesmo em relação a jornalistas, tentaram à força colar-me a imagem que imaginavam que eu fosse, ainda agora. […] Sou arrogante, mal-educado, rebelde, geralmente sou sempre o António Lobo Antunes somado a qualquer coisa desagradável. Não corresponde a nada do que sou, a nada.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

Esquecer uma mulher inteligente custa um número incalculável de mulheres estúpidas.

fonte: Livro de Crónicas, 1998

 

O desgosto é a melhor forma de assassínio por nunca se encontrar a arma do crime.

fonte: Livro de Crónicas, 1998

 

Não sou um senhor de idade que conservou o coração menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.

fonte: Livro de Crónicas, 1998

 

Um parvo em pé vai mais longe que um intelectual sentado.

fonte: Livro de Crónicas, 1998

 

A gente não pode compreender os sentimentos sem o contrário deles.

fonte: Expresso, 07.11.1998

 

Muitas vezes, põem-se meninos e meninas de vinte anos a escrever críticas. E há outros que também escrevem romances. É muito raro aparecerem bons romances antes dos trinta anos, muito raro. Um tipo só pode fazer uma coisa de jeito depois de ter passado pelas coisas. Se não viveu, os livros até podem estar «tecnologicamente» correctos, mas não há ali mais nada. A experiência de vida cada vez mais me parece fundamental.

fonte: Ler, 1997

 

Faz-me imensa confusão a polémica crítica versus escritores. Para mim, o problema é muito simples: a maior parte dos escritores não sabem escrever e a maioria dos críticos não sabe ler. E também há muita ignorância e má-fé de parte a parte. A sensação que tenho é que ando há que tempos a ensinar os meus críticos a ler e eles não há meio de aprenderem.

fonte: Visão, 26.09.1996

 

O que me interessa são pessoas que tenham uma espessura de vida. Interessa-me pouco o romance filosofante, esses livros imóveis onde as personagens são todas cérebro e não têm vida, nem sangue, nem esperma.

fonte: Diário de Notícias, 27.04.1994

 

Não consigo conceber uma história onde as personagens não tenham carne. E se eu partir de uma carne já real para mim, torna-se muito mais fácil.

fonte: Expresso, 07.11.1992

 

O que é escrever? No fundo é estruturar o delírio, e tem graça porque quando se trata o delírio o que aparece sempre é uma depressão subjacente.

fonte: Expresso, 07.11.1992

 

Numa coisa estou de acordo com o [Jorge Luis] Borges, a função do crítico não é dizer “isto é bestial”, mas ajudar a pessoa a ler a porcaria do livro.

fonte: Expresso, 07.11.1992

 

Um amigo meu, o Daniel Sampaio, talvez o melhor psiquiatra português, costuma dizer que só os psicóticos são criadores. Você fala com um neurótico e são tipos que não são nada, que são chatos, repetitivos. Os psicóticos são espantosos, dizem frases espantosas, estou-me a lembrar de uma que era «aquele homem tem uma voz de sabonete embrulhado em papel furtacores». Isto é uma frase do caraças.

fonte: Expresso, 07.11.1992

 

Quando se pergunta porque é que determinado quadro de Picasso está a verde, às vezes é por que o encarnado se tinha acabado. Não vale a pena ir mais longe.

fonte: Expresso, 07.11.1992

 

No fundo o que é um maluco? É qualquer coisa de diferente, um marginal, uma pessoa que não produz imediatamente. Há muitas formas de a sociedade lidar com estes marginais. Ou é engoli-los, transformá-los em artistas, em profetas, em arautos de uma nova civilização, ou então vomitá-los em hospitais psiquiátricos.

fonte: Público, 18.10.1992

 

Todos nós, homens e mulheres, não somos, de facto, tão diferentes, senão aquilo que escrevemos ou pintamos não teria nenhum impacto nos outros. Afinal, o que nos faz aderir a um livro é pensar «É mesmo isto que eu sinto e não era capaz de exprimir», não é?

fonte: O Jornal, 30.10.1992

 

Quando escrevo, penso apenas em exorcizar certas emoções, descrevê-las, vivê-las. O leitor é um acto secundário, penso nele nos últimos acabamentos do livro, quando sinto que isto ou aquilo não está inteligível

fonte: O Jornal, 30.10.1992

 

No fundo, um escritor é um bocado um ladrão, um gatuno de sentimentos, de emoções, de rostos, de citações. Um livro é sempre feito de pequenos roubos com a vantagem de não sermos condenados.

fonte: O Jornal, 30.10.1992

 

Eu penso que aquilo que faz com que nós continuemos vivos e capazes de criar é isso mesmo, uma inquietação constante. Sem ela não pode haver criação, quem não põe sempre tudo em causa, arrisca-se a ter uma vida interior de três assoalhadas, num bairro económico.

fonte: O Jornal, 30.10.1992

 

Todos nós, homens e mulheres, não somos, de facto, tão diferentes, senão aquilo que escrevemos ou pintamos não teria nenhum impacto nos outros. Afinal, o que nos faz aderir a um livro é pensar «É mesmo isto que eu sinto e não era capaz de exprimir», não é?

fonte: O Jornal, 30.10.1992

 

Custa-me conceber um poeta que nunca tenha feito amor. E às vezes quando leio certos prosadores portugueses, não têm esperma nenhum lá dentro, são tudo coisas que se passam dentro da cabeça. Pensam muito. E a literatura faz-se com palavras.

fonte: Público, 18.10.1992

 

Eu gosto desta terra. Nós somos feios, pequenos, estúpidos, mas eu gosto disto.

fonte: Ler, 1997

 

Eu penso que em literatura não há palavrões.

fonte: Jornal de Letras, 05.04.1988

 

Um escritor é, por natureza, um carenciado de afecto.

fonte: Jornal de Letras, Novembro 1985

 

Mas houve livros chatos como o da Agustina Bessa Luís e o do Virgílio Ferreira que os académicos e os universitários devem achar muito bons, eu, como não sou nem académico nem universitário acho-os terrivelmente chatos.

fonte: Jornal de Letras, 1984

 

Se um escritor não agarra o leitor pelas tripas logo nas primeiras páginas, está feito ao bife. Céline é um desses, agarra-nos logo.

fonte: Jornal de Letras, Novembro 1983

 

[escrever] Dá um trabalho do caraças! Despentear a prosa de maneira que aquilo seja feito como uma diarreia.

fonte: Jornal de Letras, 1983

 

(…) penso no absurdo de escrever. De estar a escrever quando podia estar com os amigos, ir ao cinema, ir dançar que é uma coisa de que gosto… mas não, um tipo está ali e é um bocado esquizofrénico. (…) Há sempre uma parte subterrânea nas obras de arte impossível de explicar. Como no amor. Esse mistério é, talvez seja, a própria essência do acto criador. (…) Quando criamos é como se provocássemos uma espécie de loucura, quando nos fechamos sozinhos para escrever é como se nos tornássemos doentes. A nossa superfície de contacto com a realidade diminui, ali estamos encarcerados numa espécie de ovo… só que tem de haver uma parte racional em nós que ordene a desordem provocada. A escrita é um delírio organizado.

fonte: Jornal de Letras, Janeiro 1982

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