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As monstruosidades do sistema

Janeiro 25, 2008 · Deixe um comentário

O conceito de empresa pública e empresa privada não possui as disjunções que, habitualmente, lhes são atribuídas. Em ambas os dinheiros são sempre públicos: ou através dos depósitos bancários, ou nos empréstimos contraídos. Os dinheiros serão nossos, adquiridos com o nosso trabalho ou as nossas poupanças. Não constitui nenhuma novidade, o que digo. Depois, os malabarismos dos poderes fazem a soma e o resto.

As democracias articulam-se neste sistema. E como não há democracias perfeitas, os sistemas inclinam-se, obviamente, em benefício daqueles que estatuem os códigos, as leis e as regras. Significa que o sistema está repleto de monstruosidades.

O caso da extraordinária reforma do dr. Paulo Teixeira Pinto obedece a esse sistema. Claro que brada aos céus, e Deus ficará certamente incomodado, que o dr. Teixeira Pinto, dedicado católico e ex-zeloso membro do Opus Dei, vá auferir, até ao remate final dos seus dias, uma reforma equivalente a 7 500 contos mensais. Diz-se, também, que recebeu 10 milhões de euros, como indemnização, por ter saído do BCP. Naturalmente, os céus não vão chorar, nem Deus dará sinais de inquietação por tal desconchavo.

Dizem-me que o dr. Paulo Teixeira Pinto, independentemente do ar tenebroso que ostenta, é homem de riso fácil e fina ironia, além de não confundir Kiri Te Kanawa com Madalena Iglésias, nem Thomas Bernhard com Lobo Antunes. Até se diz que, contrariando as indicações do Índex Librorum Prohibitorum, sempre foi leitor entusiasta de autores apontados à execração. Enfim: pessoa prevenida, reservada, cauta e perigosa. Porquê?, perguntará o Dilecto. Ora: um sujeito assim dotado representa ameaça para uma “elite” que faz gala da ignorância e exposição radiante das suas riquezas. Não será, porventura, muito cristão aceitar tamanho maço de notas, quando há dois milhões de portugueses com fome, meio milhão de desempregados e o resto completamente desesperado. Isto dirá, ressentido e colérico, todo aquele que não recebeu, durante uma vida de trabalho, metade do que o dr. Teixeira Pinto receberá por ano. Eu, não o direi. Espero é que o dr. Teixeira Pinto não apareça nas televisões a conclamar a necessidade de sacrifícios – como o outro reformado com 3 600 contos mensais, por seis meses de “função” na Caixa Geral de Depósitos.

Independentemente dos conceitos de “privado” e de “público” há algo de imoral nestas reformas sumptuosas. E o próprio conhecimento desses aleijões separa, cada vez mais, o grupo de privilegiados detentor dos vários poderes, e aqueles que, por infortúnio ou desgraça de classe, servem de trampolim às escaladas triunfantes. É evidente que o dr. Paulo Teixeira Pinto, a quem desejo longa e jubilosa vida, boas leituras e cuidadoso resguardo, não irá distribuir os 7 500 contos pelos pobres da freguesia em cuja igreja vai orar. Porém, no seu íntimo, nos arcanos das suas reflexões, certamente admitirá que é dinheiro a mais aquele que auferiu e que auferirá – fora os trocos.

Dá para reflectir. E acrescente a essa reflexão o elucidativo texto de Maria João Gago, publicado neste jornal, na terça-feira, dia 22, p.p., sob o título: “Reformas de ex-gestores do BCP superam custos da OPA ao BPI.”

Sabe-se: este numerário escandaloso, oferecido a reformados de luxo, não é de agora. Sobre o dr. Cavaco, actualmente com tanta indignação pelos acontecidos, impende, também, ou talvez sobretudo, parte substancial da responsabilidade pela subida surpreendente das somas destas aposentações. Quando primeiro-ministro, não as travou. E, igualmente, distribuiu sinecuras e tenças por muitos daqueles que o apoiaram. Dir-se-á: ingenuidades de iniciado. Direi: manhosice e astúcia. Um homem sério não é, apenas, o que não põe a mão nos bolsos dos outros. É aquele, quase irrepreensível, que espalha, em seu redor, a ética do despojamento e da integridade, com a exigência do espírito de missão. Evidentemente, o dr. Cavaco é um homem sério, nesse sentido doméstico, porém nobre, da expressão. Mas repare-se na ascensão, por vezes meteórica, de quase todos aqueles da corte.

Creio que as advertências do dr. Cavaco não vá cair em saco roto. Dois anos após a sua posse, torna-se cada vez mais notório que é ele quem dirige as linhas fundamentais da governação. Hirto, grave, imperturbável, vai indicando erros na saúde, na educação, nos excessos da distribuição dos rendimentos. Subrepticiamente critica o aumento do desemprego, a ausência de alternativas. Sustentou o que era sustentável, segundo a lógica da sua ideologia. Não esqueçamos que, apesar de tudo, o dr. Cavaco é conservador. Apesar de tudo, porque sua mulher se afirmou de centro-esquerda. Se as mulheres exercem influência sobre os homens (eu que o diga!), então bem-aventuradas sejam – e, neste particular, a dr.ª Maria Cavaco!

APOSTILA 1 – Na última sexta-feira, a RTP2 exibiu um documentário impressionante, “Fantasmas de Abu Ghraib”, cujo conteúdo indica, inequivocamente, George W. Bush e Donald Rumsfeld como sinistros criminosos de guerra. As práticas recomendadas por aqueles dois cavalheiros, a fim de se obter informações, a todo o custo e a qualquer preço, de prisioneiros no Iraque – mas, também, em Guantanamo -, ferem os mais elementares direitos humanos e provocam a indignação e a cólera em todos os homens de bem. Além de terríveis depoimentos prestados por torturados, apresentam-se outros, pungentes, dos torturadores. O documentário merecia um debate. Sobretudo com a presença daqueles comentadores “independentes” que caucionaram a invasão naquele país e, até agora, não manifestaram o mínimo remorso nem apresentaram a menor desculpa. A visão de “Fantasmas de Abu Ghraib” trouxe-me à memória o pobre do Durão Barroso, sorridente, venerador e obsequioso, a servir de mordomo, nos Açores, aos três senhores da guerra: Bush, Blair e Aznar. Têm sido todos promovidos. O Blair, agora, até se autopromoveu a católico. Mas não consta ter confessado os crimes de que é corresponsável. Quanto ao Barroso, parece estar interessado em voltar a “liderar” o PSD.
Deus perdoar-lhes-á? Já lhes perdoou?

APOSTILA 2 – O extraordinário ministro Correia de Campos afirmou, na terça-feira, a Mário Crespo, na SIC-Notícias, que estava a ferir os interesses das corporações. Só se for as corporações de doentes.

Baptista Bastos (JN)

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Baptista-Bastos

Novembro 19, 2007 · 1 Comentário

Baptista-Bastos

Armando Baptista-Bastos. Nasceu em Lisboa, Bairro da Ajuda (centralizado em vários dos seus romances e numerosas crónicas), 1934.02.27.

Um dos maiores prosadores portugueses contemporâneos.
Baptista-Bastos frequentou a escola de Artes Decorativas António Arroyo e o Liceu Francês. Começou o seu percurso profissional em «O Século», matutino em representação do qual viajou por numerosos países. N’«O Século Ilustrado», de que foi subchefe de Redacção com, apenas, 19 anos, assinou uma coluna de crítica cinematográfica, «Comentário de Cinema», que se tornou famosa pelo registo extremamente polémico. Em Abril de 1960 é despedido de «O Século» por motivos políticos (esteve envolvido na Revolta da Sé, 1959, na decorrência da candidatura Delgado, de que foi activista), e, devido às circunstâncias, trabalhou na RTP numa semiclandestinidade e com um nome suposto: Manuel Trindade. Com esse pseudónimo redigiu noticiários, e assinou textos de documentários para Fernando Lopes [«Cidade das Sete Colinas», «Os Namorados de Lisboa», «Este Século em que Vivemos»], e para Baptista Rosa, «O Forcado», com imagem de Augusto Cabrita, e música de Miles Davies, «Scketchs of Spain.» Seis meses decorridos foi despedido da RTP, porque o então secretário nacional da Informação, César Moreira Baptista, mais tarde ministro do Interior no governo de Marcelo Caetano, deu instruções nesse sentido, dizendo, num ofício: «Esse senhor é um contumaz adversário do regime.»
Em épocas distintas Baptista-Bastos pertenceu, também, aos quadros redactoriais de «República», «Europeu», «O Diário»; e aos das revistas «Cartaz», «Almanaque», «Seara Nova», «Gazeta Musical e de Todas as Artes», «Época» e «Sábado». Foi, igualmente, redactor em Lisboa da Agence France Press.
Porém, é no vespertino «Diário Popular», onde trabalhou durante vinte e três anos (1965-1988), e no qual desempenhou importantes funções, que marca, «com um estilo inconfundível» [Adelino Gomes] o jornalismo da época. Naquele diário publicou «algumas das mais originais e fascinantes reportagens, entrevistas e crónicas da Imprensa portuguesa da segunda metade do século» [Afonso Praça]. «Um dos maiores jornalistas portugueses de sempre» [David Lopes Ramos, in «Público]. Tanto no jornalismo como na literatura situa-se na primeira linha da narrativa portuguesa contemporânea.
Colaborou, ou ainda colabora, como cronista [«um dos grandes escritores da cidade de Lisboa», Eduardo Prado Coelho, in «O Cálculo das Sombras»], em «Jornal de Notícias», “A Bola”, «Tempo Livre»; e, também, no «JL – Jornal de Letras artes e Ideias», no «Expresso», no «Jornal do Fundão» e no «Correio do Minho». Foi fundador do semanário «O Ponto», no qual, entre outros grandes textos e reportagens, realizou uma série de oitenta entrevistas que assinalaram uma renovação naquele género jornalístico e marcaram a época. Escreveu e leu crónicas para Antena Um e Rádio Comercial. Foi o primeiro dos comentadores de «Crónicas de Escárnio e Maldizer», famosa e popular rubrica da TSF – Rádio Jornal. Colunista do «Público» e do «Diário Económico».
Realizou uma série de entrevistas para as revistas «TV Mais» e «TV Filmes». Presença frequente em debates nas televisões apresentou, no Canal SIC, de Novembro de 1996 e Janeiro de 1998, e a convite de Emídio Rangel, um programa, «Conversas Secretas», com assinalável êxito. De Janeiro a Agosto de 2001 fez, para a SIC-Notícias, um programa de entrevistas, «Cara-a-Cara.»
Percorreu, profissionalmente, todo o Portugal Continental e Insular, e viajou e escreveu sobre Espanha, Canárias, França, Itália, Bélgica, Irlanda, Brasil, Uruguai, Argentina, Suíça, Luxemburgo, Grécia, Áustria, Turquia, República Democrática Alemã, República Federal da Alemanha, Checoslováquia, URSS, Marrocos, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Nigéria, Angola, Moçambique, Cabo Verde, etc.
Um dos seus livros de textos jornalísticos, «As Palavras dos Outros», é considerado «um clássico» e «uma referência obrigatória na profissão» [Adelino Gomes e Fernando Dacosta], sendo recomendado como «leitura indispensável» no I Curso de Jornalismo organizado pelo sindicato da classe.
Todos os livros de Baptista-Bastos (romances, crónicas, entrevistas, reportagens, ensaio cinematográfico) estão antologiados em volumes de ensino de Português, e seleccionados por temas em obras representativas das modernas correntes literárias. Está traduzido em checo, búlgaro, russo, alemão, castelhano e francês. Os romances «Cão Velho entre Flores» e «Viagem de um Pai e de um Filho pelas ruas da Amargura» são geralmente considerados obras-primas. O primeiro foi indicado como leitura obrigatória no Curso de Literatura Portuguesa Contemporânea da Sorbonne, sendo professor o Dr. Duarte Faria, e catedrático o Prof. Dr. Paul Teyssier. Este romance foi, também, lido na Rádio Comercial, em 1979, numa produção de Fernando Correia.
Os livros de Baptista-Bastos têm servido de estudos e para teses de licenciatura em universidades portuguesas e estrangeiras.
Em Abril de 1999, a Direcção do matutino «Público» convidou-o a realizar uma série de dezasseis entrevistas, subordinadas ao tema: «Onde é que Você Estava no 25 de Abril?», que desencadeou grandes polémicas e constituiu um assinalável êxito jornalístico. Doze dessas entrevistas (com Álvaro Guerra, Carlos Brito, D. Januário Torgal Ferreira, Emídio Rangel, Fernando de Velasco, Hermínio da Palma Inácio, João Coito, Joshua Ruah, general Kaúlza de Arriaga, Manuel de Mello, padre Mário de Oliveira e Pedro Feytor Pinto) foram inseridas num CD-Rom (que teve uma tiragem de 55 mil exemplares), juntamente com a edição de 25 de Abril de 1999 daquele jornal.
Pela mesma ocasião, a Direcção do «Diário de Notícias» também convidou Baptista-Bastos a escrever o enquadramento do capítulo «O Efémero», da edição especial «O MILÉNIO», iniciativa daquele matutino.

Baptista-Bastos recebeus os seguintes prémios:

  • Prémio Feira do Livro de 1966
  • Prémio Artur Portela (Casa da Imprensa) de 1978
  • Prémio Nacional de Reportagem / Prémio Gazeta de 1985
  • Prémio Urbano Carrasco de 1986
  • Prémio Casa da Imprensa: Prémio Prestígio – Orgulho de uma Profissão, de 1986
  • Prémio O Melhor Jornalista do Ano (1980 e 1983)
  • Prémio Porto de Lisboa de 1988
  • Prémio Pen Clube de 1987 – «A Colina de Cristal»
  • Prémio Cidade de Lisboa de 1987 – «A Colina de Cristal»
  • Prémio da Crítica de 2002 (Centro Português da Associação Internacional dos Críticos Literários)
  • Grande Prémio de Crónica (Associação Portuguesa de Escritores) de 2003
  • Prémio “Gazeta” de Mérito de 2004
  • Prémio de Crónica João Carreira Bom/SLP (Sociedade da Língua Portuguesa) 2005

hiperligações: “Baptista-Bastos” no Google
“Baptista-Bastos” no IMDb

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Precisa-se de um novo paradigma

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

José Sócrates transformou o Partido Socialista numa metáfora da rapacidade do cinismo neoliberal, cujas pretensões radicam em funções repressivas e no poder cego da imanência do económico sobre o humano.

A Direita não se entende consigo própria. Assim sendo, como poderia entender-se com o País? Os seus chefes putativos, Luís Marques Mendes e José Ribeiro e Castro não possuem «carisma» porque não dispõem de qualquer projecto, minimamente verosímil, para impulsionar alguma alteração ao «sistema». Por outro lado, o «sistema» está viciado de contradições, reflexo da crise do capitalismo, que ameaça prolongar-se, num estertor alargado por décadas e numa renovação sem ética, sem nobreza e sem generosidade.

No PSD, as pessoas mais capazes sumiram-se nos negócios proporcionados pela sua passagem por lugares de decisão. O CDS é um mal entendido histórico, com alguns intermezos cómicos, de que Paulo Portas é, até agora, o exemplo mais esbaforido. Quem se opõe a Mendes? O inesquecível Luís Filipe Meneses, cuja voz doce e macia costuma funcionar como sedativo. Telmo Correia é antagonista de Ribeiro e Castro, assim como Pires de Lima. Nenhum deles possui ideias de seu. Mas apresentam-se de semblante grave, austero e firmemente apostados em estar ao serviço da Nação. Ganham a vida nos negócios e na gestão, e auferem uns trocos como deputados em S. Bento ou nos fofos assentos do Parlamento Europeu.

A Esquerda, ou o que resta do seu naufrágio, constitui uma negação abstracta ou niilista. O PS deixou de o ser, se é que alguma vez o foi. O PCP resume-se a uma espécie de travão aos desmandos do poder, mas perdeu a força e a influência de que dispôs durante décadas. No entanto, ainda representa uma barreira ao definhamento progressivo das grandes conquistas de Abril.

A ascensão da mediocridade é estimulada nas épocas em que a paralisia cívica coloca em órbita o que de pior existe na sociedade. Olha-se para o Parlamento e o resultado é desolador. Observa-se a actividade política, os maneios dos seus protagonistas e as matreirices governamentais e enfastiamo-nos. A cultura «democrático» insiste em que devemos ser prudentes quando criticamos a Assembleia da República. Aparentemente, a curiosa instituição é incriticável por imaculada. Mas a verdade é que os deputados fornecem ao País a péssima imagem de oportunistas que ali estão para orientar a vidinha.

José Sócrates transformou o Partido Socialista numa metáfora da rapacidade do cinismo neoliberal, cujas pretensões radicam em funções repressivas e no poder cego da imanência do económico sobre o humano. A razão estóica que se opõe a este desígnio engendra uma moral prática filiada nos antigos valores da dignidade e da solidariedade. Coisas anacrónicas, diria Telmo Correia, garantindo uma nota de rodapé na História por ter insultado a revolução que lhe permitiu ser o que é, e dizer o que diz.

O ataque ao Estado e às instituições que caucionam a democracia está a ser cuidadosamente perpetrado por este Executivo, através  da destruição das relações de trabalho estáveis, do emprego e da identidade profissional; do favorecimento do «privado» nos sectores mais sensíveis da sociedade; e da perturbação do sistema social no seu todo. O pior é que, independentemente desta panaceia, Sócrates não apresenta nenhuma alternativa original. Apenas visões unilaterais e concepções meramente quantitativas, inspiradas nas doutrinas dominantes do neoliberalismo.

Perante isto, que pode fazer a Direita, senão aplaudir? Quando se caustica Marques Mendes por ausência de oposição, a verdade é que as políticas de Sócrates correspondem aos breviários da catequese do PSD. Mendes unicamente faz-de-conta, e assiste a essa peculiar «desordem democrática» com a serenidade de quem aguarda, paciente, a sua vez, ou a de outro qualquer do seu partido.

O CDS, que sempre viveu na babugem dos partidos de poder, e que, desde praticamente 1975, sempre esteve nos centros de decisão, ou em funções fundamentais nas grandes empresas privadas, ou pró ou para estatais, existe na ambiguidade de aproveitar dos ingredientes de que se alimentam as crises. Uma Direita que nem sequer foi charneira, almofariz de um nacionalismo bafiento, de um ressentimento histórico que se propaga em tentativas de regressão e de expressões discursivas sem direcção nem sentido.

A crise actual revela dois problemas, para cuja solução o neoliberalismo não é remédio: o esgotamento do capitalismo contemporâneo e do Estado-providência nas suas formas burocráticas. E há, ainda, que redefinir os diferentes poderes públicos, entre os quais a natureza dos sindicatos perante as modulações de uma sociedade que põe em causa todas as formas anteriores de actuação e de concertação.
Não é com estes partidos, à Esquerda e à Direita, que vai encontrar-se um outro paradigma.

APOSTILA 1  -  Dilecto, recomendo-lhe «A Felicidade e a Tranquilidade da Alma», de Séneca, editado pela Esquilo, com introdução, notas e tradução directa do latim por Ricardo Ventura, e posfácio de José Carlos Fernández. São grandes textos, apropriados para esta hora dramática em que vivemos, porque são textos de sempre. Devo dizer aos meus pios leitores que um dos meus livros de cabeceira é «Cartas a Lucílio» de Séneca, claro!, assim como a Bíblia de Jerusalém, manuseio diuturno, feliz e eficaz. Montesquieu escreveu: «Não há desgosto que não seja dissipado por uma boa hora de leitura». Nem mais! Quando a nefasta melancolia me invade, aí vêm Séneca e os textos sagrados. Dilecto: leia «A Felicidade e a Tranquilidade da Alma». Afasta-o da mediocridade reinante e dominante e dispõe-o bem com a careta humana.

APOSTILA 2 -  Outro livro. «Primeiro as Senhoras -  Relato do Último Bom Malandro», de Mário Zambujal, edição Oficina do Livro. Zambujal é um dos últimos grandes profissionais de Imprensa deste país, um homem decente, íntegro e bom  -  e, ainda por cima, escreve com mão feliz e jubilosa; quero dizer: com gramática, elegância, bom senso e bom gosto. O livro é uma fábula risonha, mas não leviana, do nosso viver português. Um texto muito cuidado, que não agride a inteligência dos leitores e que os trata como pessoas adultas.

APOSTILA 3 -  Alguns leitores pedem-me lhes explique em que consistem Os Empatados da Vida. Aí vai: é um grupo de amigos, que não é vencido nem vencedor (empatou), e se reúne, todas as sextas-feiras, a partira das 13 horas, no Solar dos Presuntos, para comer bem, beber do melhor e falar do que lhe apraz. Quem são os amigalhaços? Mário Zambujal (que inventou o nome da tertúlia), Eugénio Alves, José Manuel Saraiva, Fernando Dacosta, Mário Ventura e o caxadóclos signatário desta crónica. Fátima Campos Ferreira é uma quase constante. E, cada semana, há um convidado. Apareça quando quiser.

Baptista Bastos

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Prosa com endereço certo

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

Sempre escrevi para pessoas adultas, desejavelmente inteligentes, cultas e informadas. Reconhecendo, embora, a modéstia dos meus objectivos, e admitindo, até agora, ter sido beneficiado, sei não haver regra sem excepção: também me tocam no batente alguns visitantes com declaradas evanescências intelectuais e evidentes amolgadelas de carácter.

Sempre escrevi para pessoas adultas, desejavelmente inteligentes, cultas e informadas. Reconhecendo, embora, a modéstia dos meus objectivos, e admitindo, até agora, ter sido beneficiado, sei não haver regra sem excepção: também me tocam no batente alguns visitantes com declaradas evanescências intelectuais e evidentes amolgadelas de carácter.

Por doentia natureza, encapuçam-se no anonimato, sem conseguirem dissimular um atroz fanatismo reaccionário, que vai ao ponto de chamarem «comunistas» a quem dissente do que julgam «pensar». Divirto-me um pouco com as tonterias, e mais ainda porque os irrito. Adianto: sem estes esquizofrénicos correspondentes, a minha vida seria mais chata.

Aquilino Ribeiro, de quem fui amigo, costumava dizer: «Todo aquele que quer ser lido e escutado tem de escrever e falar com endereço». Procuro seguir a norma. Independente de partidos, a minha liberdade não se conclui na assinatura do que escrevo: continua-se no comportamento ético e na exigência de não ceder a pressões, sem abdicar das convicções que me acompanham desde a juventude. Pertenço a uma Esquerda sem emblema.

Gosto muito da crítica: de exercê-la e de ser dela objecto. Durante um longo percurso de vida em voz alta, escrevi, certamente, textos medíocres e injustos. Moralmente reprováveis, penso que não. Intransigente para os falhos de carácter, nunca receei os riscos daí advenientes. Gosto de bons jornalistas, de bons escritores; detesto o marquetingue que vende fruta bichada; desprezo oponentes mascarados, prezo as amizades, sou ferreamente fiel ao grupo, à comunidade, e a um par de ideias que alimento sobre Portugal. Ah!, já me esquecia, para o que der e vier, almoço, todas as sextas-feiras (hoje é dia) no Solar dos Presuntos, com Mário Zambujal, Eugénio Alves, Fernando Dacosta, José Manuel Saraiva, designamo-nos por Os Empatados da Vida, porque não somos vencedores nem vencidos. Um dos nossos, Mário Ventura, morreu há dois meses, e deixou-nos a dor irreparável da perda. Era um homem de bem, importante escritor e jornalista, e meu camarada desde há mais de quarenta anos.

Um dos meus opositores anónimos teve a desfaçatez de afirmar que sou «rico» e «estalinista». Aprendi que as relações humanas são sempre complexas, e que a ignorância é tão arrojada como triste por solitária. Devo dizer que não me vejo como o epítome de coisa alguma e, simultaneamente, sou o resultado de tudo quanto aprendi: nos livros, nas viagens, com os amigos, correspondendo aos apelos da minha consciência, participando nas batalhas políticas do meu tempo, actuando na clandestinidade contra o fascismo – que me fez perder tempo e os anos mais estelares da juventude.

Essa de «estalinista», de «rico», e de estar a soldo de tenebrosas forças do mal só provoca risos. Coloco-me, isso sim, num ângulo de visão oposto ao da maioria. Eis porque desconsidero os comentadores do óbvio, seguidores dos ventos e das marés favoráveis; e dos editorialistas sem perigo. É raro estar de acordo com o Vasco Pulido Valente; todavia, a circunstância de ele nadar contra a corrente das vulgaridades e o facto de escrever num português de lei tornam os seus artigos leitura estimulante. Ele tem tinetas e birras, difíceis de compreender e de administrar. Não as oculta, nem dissimula a soberba com que observa a pátria. Mas é o admirável autor de «O Poder e o Povo». Aqueles que o «defenderam», na quezília sobre o fascismo português, deixaram adivinhar uma menoridade mental e cultural que o próprio Pulido Valente metodicamente desdenha.

Sei do que falo. Trabalhámos, anos de 60, na revista «Almanaque», que tinha uma Redacção imparável: José Cardoso Pires, Luís de Sttau Monteiro, Augusto Abelaira, Alexandre O’Neill, José Cutileiro; e ilustradores como João Abel Manta, Guilherme Casquilho, Sebastião Rodrigues, Pilo da Silva. O Vasco era o mais novo. Escreveu, entre outros, um texto formidável, «The Black Horse Square», sobre o Terreiro do Paço, e lançava ácido sulfúrico por tudo o que era bonzo nas artes, nas letras, na universidade e na política. Jamais perdeu o sainete. Não tenta aproximar Oxford, geográfica e culturalmente, de Lisboa. Mas gosta de Portugal, e zurze-o para melhor o amar? fazendo caretas.

O fascismo português deixou esquírolas na cabeça de muitos. O fascismo e a Inquisição. É pena; mas é lá com eles: andam de antolhos, desconhecendo, por contumaz ignorância, que o método se sobrepõe à pessoa, e que o mundo não é a preto e branco. Há, nesta triste gente, uma falsa euforia: a droga da iliteracia obstinada tornou-a naquilo que é. A net serve como o divã no psiquiatra. Emoldurando-se no silêncio denso e inquietante do gabinete de sombras, atrelam as suas pequeninas frustrações a um computador que, presumem, mas presumem mal, as salva de mágoas e desesperos.

Chamar «comunistas» a quem desacorda é pecha antiga. Marca d’água do fascismo santacombadense, que, pelos vistos, permanece. Mas não é insulto: é acusação, bufaria, delação, velhacaria dos sem carácter, dos desprovidos de argumentos sérios. Nos dias de hoje, como nos do fascismo, a aleivosia pode ser perigosa; porém, não é indigna para o denunciado. Pertence ao livro de linhagem da Resistência. Resistência à brutalidade fascista, ao obscurantismo, à superstição, à corrupção na política e na Imprensa, ao indiferentismo, à abulia, à conivência com o terror. Resistência de que fizeram parte Álvaro Cunhal e Gonçalo Ribeiro Telles; Mário Soares e Francisco Sousa Tavares; Nuno Rodrigues dos Santos e Sophia de Mello Breyner; Francisco Salgado Zenha e Carlos Carvalhas; Natália Correia e Manuel Mendes; António Dias Lourenço e Carlos de Oliveira; Manuel Serra e João Varela Gomes, o padre Felicidade Alves e Jaime Serra. São milhares e milhares. Serão sempre os meus camaradas, os meus companheiros.

APOSTILA – Dilecto: vale a pena deslocar-se ao belo edifício do «Diário de Notícias», na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e apreciar a exposição documental sobre António Rodrigues Sampaio, o Sampaio da Revolução, que foi, certamente, o maior jornalista português do século XIX. «Soldado intrépido e amigo incorruptível da liberdade» [Camilo Castelo Branco, dixit], nada mais desejou do que viver numa pátria «onde o homem fosse, sobretudo, cidadão». Entre os textos e volumes que sobre Rodrigues Sampaio foram escritos, merece, como acepipe, conhecer o artigo que Ramalho Ortigão lhe consagrou n’«As Farpas», e o texto de Camilo em «Memórias do Cárcere». Jornalista, político, governante, par do reino, morreu como nasceu e viveu: pobre. Desloque-se ao «Diário de Notícias», Dilecto, ao menos para homenagear um português incomum.

Baptista Bastos

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Baptista-Bastos

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

Nome respeitado no jornalismo e na literatura, Baptista-Bastos é um homem de causas e de princípios. Não conhece o meio termo: sem papas na língua, exagerado muitas vezes, escreve como poucos, entrevista como ninguém, é um polemista temível. Conheceu o desemprego várias vezes ao longo da vida – mas nunca soçobrou.

Eis a sua história, como ele a contou.

Autores – Vamos começar pelo princípio: as tuas origens, os factos mais marcantes da tua vida…
Baptista-Bastos – Fiquei órfão de mãe muito cedo: aos seis anos. Mas tive a sorte de ter um pai fabuloso e uma madrasta extraordinária. O meu pai era tipógrafo, fundador de jornais (Diário Popular e Diário Ilustrado), tendo terminado a sua carreira n’ “O Século” como chefe de tipografia. Era um grande animal branco, homem sumptuoso, chapéu às três pancadas, lisboeta típico, com muita graça – e um grande profissional, considerado um mágico na sua arte.

A – Marcou-te profundamente, ao que parece.
BB – Foi uma sorte minha. Incentivou em mim a moral proletária do trabalho, que me tem acompanhado pela vida fora. No fundo não passo de um operário braçal da escrita e do jornalismo. Não sei fazer outra coisa. Ganho mal a minha vida, mas ganho-a, através da moral e das palavras. Ele trabalhou até ao fim da vida – era impressionante vê-lo a paginar jornais. Era o banquete dele. E isso ficou-me: trabalhar, trabalhar, trabalhar sempre. Todos os dias, trabalho todos os dias – leio e escrevo sempre, diariamente, qualquer coisa. Desde os 18 anos.

A – Valeu a pena?
BB – Eu acho que sim. Estou mais pobre do que quando comecei – mas mais rico porque o jornalismo e a literatura permitiram-me conhecer as mais extraordinárias pessoas. Sabes, a história da minha vida foi atravessada pela história das vidas de muita gente, o que me ajudou também a construir o homem que eu sou: ateu, brigão e sentimental. Mas sublinha bem aí: não sou agnóstico – sou ateu.
A – Quem são essas pessoas cujas vidas tanto te influenciaram?
BB – Tantas que temo não referir algumas. Olha, privei de perto com o Aquilino, o Redol, o Carlos de Oliveira, o Joaquim Namorado, o Manuel da Fonseca, o Zé Gomes Ferreira, o João Abel Manta… Tantos, tantos! Tomaram conta de mim. Mas posso referir também o Manuel Taínha, o Júlio Pomar, a Maria Keil, o Jorge de Sena, o Lopes-Graça, o Cochofel – a resistência, afinal. Eu era um miúdo no meio de gigantes, no meio do que havia de melhor neste país.

A – E o que é que daí resultou?
BB – Que criássemos a nossa moral particular e a nossa ética de rigor. Esta gente não permitia uma leviandade ou uma traição. Mas já agora deixa que te diga que n’ “O Século” conheci uma figura maior: o Acúrcio Pereira, um jornalista e um chefe de redacção como nunca vi. Entrei para “O Século” com 18 anos, com uma redacção que metia medo. Era conhecida por “Universidade”. O Zambujal chama-lhe “A Catedral”. O Acúrcio puxava por nós todos, que trabalhávamos rodando em todas as secções.

A – Com o teu feitio tiveste dificuldade em adaptar-te?
BB – Eu era muito senhor do meu nariz, mas que remédio… Trabalhava também no “Século Ilustrado” e ganhei fama de polemista terrível. Eu fazia comentários de cinema, o Redondo Júnior de teatro. Era cá uma dupla… No meu caso aquilo era mais uma tribuna política. Nos EUA o McCarthismo estava em grande vigor – e isso servia-me de pretexto para fazer paralelismos comparativos com a realidade portuguesa. Lembro-me de uma crónica em que condenava a traição do Elia Kazan e que apareceu depois nas paredes de todas as Faculdades de Lisboa. Ganhei uma certa notoriedade que me envaideceu – mas que simultaneamente me enfraqueceu.

A – Porquê?
BB – Tinha 18 anos. Era muito novo. Durante um ou dois anos fiquei um tipo muito presumido, até soberbo.

A – E hoje?
BB – Isso passou-se, e passou-me, há muito tempo. Um dia, estava eu a ler a Bíblia, que é um texto a que recorro frequentemente, estava a ler o Levítico, deu-me cá um estremeção, sabes, sobre a soberba e a arrogância, e disse para mim: não estás no bom caminho. Comecei a ficar menos categórico e mais com a ideia de que os outros podem ter também razão.

A – Mas isso não te impediu de teres participado na Revolta da Sé, em 1959…
BB – Fui aliciado pelo Urbano Tavares Rodrigues. Ele ainda me quis explicar uma série de coisas, mas eu cortei: “Não digas nada. Estou na revolução!”, coisas românticas. Mas a verdade é que uma certa ração de romantismo é essencial para que haja algum júbilo na condição humana. Fazer coisas por romantismo é fantástico.

A – Só foste romântico na Sé?
BB – Fiz toda a espécie de disparates por romantismo. Mas também fiz coisas belas, que hoje me arrepiam quando delas falo ou nelas penso. Um dia fui encarregado de lançar uns panfletos no cinema Condes, onde passava o filme “E tudo o vento levou”. Fui para lá de gabardine, à Humphrey Bogart, escondendo os papéis. Eu estava no 2º Balcão, e havia outro camarada no 1º. Um do lado esquerdo, outro do direito. Lançámos os papéis, estabeleceu-se um burburinho na sala, as luzes acenderam-se, a polícia a apitar, um turbilhão de pessoas a descer pelas escada, a escapar. Quando estou também a descer vejo o meu camarada, que era um pouco mais velho, com um lenço na boca cheio de sangue. Teve uma hemoptise, passei-lhe a mão pelo ombro, e fui com ele por aí fora, atravessei a avenida para o elevador da Glória, acartei-o pela calçada acima, do lado direito havia uma cabine telefónica, as pessoas estavam tão preocupadas consigo próprias que nem deram por nada, pu-lo no meio do chão, liguei para um número que me tinham dado, perguntei o que é que devia fazer, disseram-me para sair dali e ir para um banco de jardim esperar, assim fiz, e lá apareceu o Alexandre Cabral com um carro, levando esse nosso amigo, que ainda hoje é vivo…

A – Ao que sei, o episódio da revolta da Sé veio, mais tarde, a ter consequências na tua vida…
BB – Fui denunciado por uns canalhas. Os patrões d’ “O Século” chamaram-me no dia 10 de Abril de 1960, disseram-me “Você esteve metido nessa coisa”, e o Carlos Alberto Pereira da Rosa perguntou-me: “Olhe cá, isso já se passou há uma data de tempo e hoje, em idênticas circunstâncias o que é que fazia?”. Respondi: “A mesma coisa”. Apertou-me a mão e disse-me: “Não pode trabalhar mais neste jornal. Veja lá no que se vai meter”. Tinha 25 anos, fiquei apavorado, pensei que tinha sido denunciado na PIDE, quis ir falar com o meu pai e encontrei o Augusto Abelaira junto do Solar do Vinho do Porto, disse-lhe o que se estava a passar e ele levou-me a casa do Jacinto Baptista – e fiquei a saber que andávam todos metidos no mesmo e passei a uma semi-clandestinidade. Pensei então ir para Paris, o Urbano conseguiu-me arranjar documentos, vendi o carro que tinha… Neste intervalo a PIDE tinha ido ao Século para saber o que se passara comigo, mas os patrões disseram que não tinha nada a ver com a política, garantiram que eu tinha sido despedido por ter publicado no Século Ilustrado três páginas de fotos do Fidel sem terem ido à censura. Conto isto porque quero salientar a grandeza daqueles patrões. Se compararmos com o que se passa agora…

A – Foste para o desemprego, portanto.
BB – Claro. Traduzia livros e vivia com muitas dificuldades.

A – É mais ou menos por essa altura que conheces o Fernando Lopes, trabalhando com ele em vários projectos.
BB – É verdade. O Lopes é um velho camarada de tudo. Quando vivi na tal semi-clandestinidade, estive aboletado em casa dele. Fizemos o “Belarmino” e mais outros filmes para a Televisão. O meu livro “O Secreto Adeus” foi escrito junto dele, na Ericeira, para onde tínhamos ido em Fevereiro de 62, para fazermos a adaptação do “Domingo à Tarde”, do Namora. Estava um frio de rachar, tínhamos 30 dias para fazer o trabalho, despachámos a adaptação em 10 e nos outros 20 escrevi a primeira versão daquele que foi o meu primeiro livro de ficção, mas que na verdade era um livro contra o jornalismo que se fazia naquela altura e que era muito mau. Olha, ainda hoje tem actualidade… Foi um êxito.

A – Continuas muito ligado ao Fernando Lopes…
BB – Gosto muitíssimo dele. Estamos a envelhecer com dignidade e decência, ao longo de cinquenta anos de amizade sem beliscões. Preocupo-me com ele, ele preocupa-se comigo. É, além disso, um dos maiores cineastas europeus, e um intelectual muito brilhante da minha geração que ofereceu à cultura portuguesa gente extremamente talentosa, e até genial!, em múltiplos sectores de actividade.

A – Foi com a ajuda dele que durante uns tempos trabalhaste para o Telejornal da RTP…
BB – Também é verdade. Um dia disse-me que havia um tipo que queria falar comigo. Era o Manuel Figueira, director na RTP, um homem do regime, marcelista, mas de grande qualidade humana. À primeira vista não gostei do seu aspecto. Mas ele era um sedutor e no final do almoço – no “Varina”, no Parque Mayer – eu estava rendido à sua dialéctica, ficando seu amigo até à morte. Ainda hoje venero a sua memória. Diz-me o Figueira: nós sabemos que você se prepara para sair do país, mas eu vou-lhe fazer uma proposta: quer ir trabalhar nos noticiários da RTP? Tem é que ser com outro nome, embora isso não passe de um pró-forma. Hesitei e perguntei: qual é o compromisso que tenho que fazer? Respondeu: nenhum, só tem que fazer notícias assinando Manuel Trindade. Fui e aí ganhei a vida durante uns meses, com o apoio e a solidariedade de pessoas que pensavam o oposto do que eu pensava: o Carlos Miguel de Araújo, monárquico e miguelista, ainda hoje um querido amigo; o Henrique Mendes; o Gomes Ferreira; o Fialho Gouveia; o Manuel Caetano, irmão do Marcelo.

A – Foi sol de pouca dura – voltaste a ser despedido…
BB – Foi o César Moreira Baptista, então secretário nacional da Informação e mais tarde ministro do Interior de Caetano, quem deu instruções nesse sentido, dizendo num ofício: “Esse senhor é um contumaz adversário do regime”. E era mesmo…

A – Como é que te safaste no desemprego outra vez?
BB – Entrei pouco tempo depois para o “República” e daí fui para o Brasil…

A – Para o Brasil?
BB – O meu amigo Raul Solnado foi contratado pela TV Rio e levou-me como seu secretário – cama, mesa, roupa lavada e dinheiro no bolso. Chegámos ao Rio de Janeiro quando aconteceu o golpe militar contra o Presidente Goulart. Mandei logo uma série de telegramas para o “República”, mas o chefe de redacção, o Artur Inês, respondeu-me a dizer para eu mudar de tom que a censura estava a cortar os meus textos todos… Assisti a cenas de violência e perseguição incríveis. Mas percorri o Brasil todo e tive a possibilidade de conviver com pessoas como Rubem Braga, Otto Lara Resende, Vinícius, Péricles do Amaral (secretário do Luís Carlos Prestes na coluna Prestes) e tantos outros – e isso caldeou também a minha maneira de ser e de ver o mundo. Foram oito meses marcantes.

A – De novo em Portugal, arranjaste emprego?
BB – Voltei para o “República”. Mas um dia recebo um telefonema do dr. Guilherme Brás Medeiros, patrão do “Diário Popular”, a perguntar-me se poderia almoçar com ele. Eu julgava que era uma brincadeira, mas ainda perguntei: quando? Hoje, disse ele. Foi a 22 de Fevereiro de 1965. No Parque Mayer, mais uma vez. No final do almoço, avança: quer ir trabalhar para o “Diário Popular”? Quero, disse logo. Quem puxou os cordelinhos disto tudo foram o José de Freitas, o Jacinto Baptista e o Mário Ventura Henriques. Fui aceite por unanimidade pela redacção. Disseram-me: sabemos muito bem o que você pensa, mas os patrões do jornal nunca cortarão uma palavra sua. E quando tive problemas com a censura o dr. Guilherme Brás Monteiro esteve sempre ao meu lado. Nunca assinei qualquer contrato – um aperto de mão bastava. Tenho saudades da honra desse tempo. Não gosto nada do passado, mas não posso deixar de sublinhar que havia um sentido de honra que desapareceu.

A – Quanto tempo trabalhaste no “Diário Popular”?
BB – Saí após 23 anos de intenso trabalho. Foi o mais belo período da minha vida profissional. N’ “O Século” deram-me as ferramentas; no “Popular” escancararam-me as portas e incitaram-me a expender a minha criatividade. Era uma redacção sumptuosa. Recordo, com emoção e orgulho, os nomes de Urbano Carrasco, um dos maiores repórteres portugueses de sempre; José de Freitas, Jacinto Baptista, Abel Pereira, José de Lemos, Alfredo Marques, Álvaro de Andrade, Mário Rocha, Ricardo Ornellas, Aurélio Márcio, António Rêgo Chaves, João Paulo de Oliveira, Manuel Magro, Mário Ventura Henriques. E Chico Rodrigues e Manuel Pereira Rodrigues, excepcionais de faro para a notícia. Havia outros, claro!, mas desejo deliberadamente omiti-los: nada tinham a ver comigo e muito pouco com o jornalismo, tal como eu o entendo. Cito, também, os grandes repórteres-fotográficos João Ribeiro, José Antunes, Corrêa dos Santos, Eurico de Vasconcelos, Miranda Castela. Foram estes os meus companheiros inesquecíveis. Os meus camaradas autênticos, envolvidos, como eu, emocionalmente, em dar continuidade a um admirável projecto jornalístico que nos fora legado.

A – E saíste porquê?
BB – No imediato 25 de Abril, as coisas complicaram-se, e comecei a sentir-me muito mal (eu e outros) com o rumo “editorial” que o vespertino tomava. Registaram-se as traições e as ambiçõezinhas pessoais. O costume. Saí, sem levar comigo um tostão. Ganhava sessenta contos mensais.

A – Foste para onde? Há aí um novo período difícil da tua vida profissional…
BB – Trabalhei, durante seis meses, para o João Soares Louro, fui para o “Europeu” e segui para “o diário”, onde experimentei alguns dos mais nefastos momentos do meu trajecto profissional. Criaturas que possuíam a carteira do sindicato e que nada tinham a ver com jornalismo: eram, apenas, sargentos políticos dispostos a tudo. Desejo colocar os nomes desses senhoritos à margem desta conversa, desejadamente asseada. Claro que me senti feliz em trabalhar com gente como o António Borga, o Luís de Barros, a Teresa Horta, o Joaquim Benite, o Alferes Gonçalves, o João Paulo Guerra, o Sérgio Figueiredo… Deixo para um texto memorialístico que estou a escrever o cuidado de escarmentar quem é desprezível. Mas quero fazer uma grande ressalva: os cuidadosos avisos que me foram feitos pelo José Sucena, querido amigo e homem de bem. “o diário” foi uma experiência de cinco meses, inesquecível pela negativa.

A – Conheceste de novo o desemprego, portanto.
BB – Pedi trabalho em tudo o que é Imprensa portuguesa. Nada. O então director do “Público”, contou-me o João Mesquita, disse que eu não entrava porque era… amigo dos cubanos. Outro, um arquitecto que se diz jornalista, e é um arrebatado medíocre, além de ser uma figurinha hilariante, e esteve na direcção do “Expresso”!, fez-me uma malandrice do pior que possas imaginar. Já o ferrei na praça pública: certa noite, estendeu-me a mão; ficou com ela no ar. Estas coisas devem ser feitas com testemunhas, para que as histórias não sejam contadas de outra maneira. Assistiram ao higiénico acto o José Quitério, o João Carreira Bom, a Maria José Mauperrin, e alguns mais. Contos largos, também assomados na memorialística que redijo. Desempregado, com sete pessoas a meu cargo, lancei-me à tradução, a escrever discursos para empresários e, até, para políticos… de Esquerda, socialistas ou mais ou menos… A Hermínia Rosa, da Caixa dos Jornalistas, agora destruída por um governo… dito socialista… mas ferozmente déspota, autista e autoritário, a Hermínia Rosa aconselhou-me a inscrever-me no Desemprego. Assim fiz. Tinha 56 anos e esperei, na secção do Saldanha, a hora de ser atendido. O Mário Crespo, então pivô na RTP, soube do assunto e enviou a Isabel Horta a fazer uma reportagem do caso. Eles realizaram um comoventíssimo trabalho jornalístico sobre a situação de um camarada deles colocado numa situação extrema. Crespo assinalou os prémios e as traduções de livros meus. A reportagem teve amplas repercussões, e foi vista em várias partes do mundo. Ainda hoje não consigo rever as imagens da cassete que o Mário Crespo me enviou. E estarei sempre grato tanto a ele quanto à Isabel. E, também, a Manuel Luís Goucha, que me convidou, propositadamente, para aparecer num programa dele. Não conhecia pessoalmente o Goucha, nem sabia o que ia lá fazer. Eis senão quando, directo no ar, o Goucha diz: “Este senhor é um dos maiores jornalistas portugueses, e está desempregado. Isto é uma vergonha que desejo assinalar!” Eu não sabia onde me meter, embaraçado e comovido, e o Goucha, então, abraçou-me, ele também muito comovido.

A – Sei que há também um episódio edificante em que entra o José Eduardo Moniz…
BB – Sim, o Moniz (que fora meu estagiário no “Popular”), então figura poderosa na RTP, chamou-me, a instâncias do João Soares Louro, recebeu-me num gabinete do tamanho de um rinque de patinagem, eu estava ali um pouco atrapalhado, embaraçado e, até, envergonhado, ele abre-me os braços, diz: “Você é o meu mestre! Não era preciso o Soares Louro chamar-me a atenção para a sua situação, eu já estava disposto a telefonar-lhe. Vou já chamar um rapaz muito prometedor, que lhe irá arranjar um trabalho”. O rapaz prometedor, qualquer coisa Nogueira, estava cheio de gel no cabelo, casaco de largos ombros descaídos, calças a condizer. O Moniz repetiu, com a gravidade que talvez o momento não recomendasse (eu preferia que a cena fosse mais alegre): “O Bastos foi o meu mestre! O meu mestre!”. Eu, encolhido, sem saber o que dizer, balbuciei: “Mestre, semestre e trimestre”. Aprazaram comigo que me telefonariam dali a dois dias. Até hoje. Coitado do Moniz! Tenho muita pena dele! Quanto ao resto, aguentei-me, meu amigo, aguentei-me! Cheguei onde desejava chegar com algumas mazelas e alguns desgostos mal remendados. Divirto-me com os vencedores do momento. Mas cheguei são e salvo onde desejava chegar!

A – A conversa já vai longa e quase não falámos de literatura portuguesa nem da da tua obra literária.
BB – A minha actividade literária complementa-se com a minha actividade jornalística. A disjunção, pretendida por alguns indivíduos, entre jornalismo e literatura, é mais de ordem corporativa do que de ordem vital. Escrevo todos os dias, leio todos os dias. Publico livros muito espaçadamente. Nada tenho a ver com estes realejos literários que por aí se editam. Tenho profundíssimo respeito, admiração e consideração por Agustina, Saramago, Mário Cláudio. Não vendem fruto com bicho. O resto, deixou de me interessar. A maioria está a escrever sobre a vidinha, sem ter experimentado a vida, sem a ter arriscado. São escritores que vendem muito bem, põem gel no cabelo e na escrita. A literatura, como o jornalismo, deve ser moral em acção, e ambos são tão perigosos como a prática do alpinismo. Mas quanto aos poetas, esses, enchem uma lista imensa, enchem a minha vida de regozijo.

A – Estás muito ácido em relação à nossa prosa actual…
BB – Penso que os escritores têm de conhecer a matéria com que trabalham – para poderem ir para a cama com ela, para ir para o leito nupcial e para poder brincar com o idioma. E nós só aprendemos isso – e nunca aprendemos totalmente – frequentando os clássicos.

A – Quem são os clássicos a que te referes?
BB – Por exemplo, Vieira, Pascoaes, Carlos Oliveira, D. Francisco Manuel de Melo, Aquilino, Tomás de Figueiredo. Temos que começar a recuperar esta gente.

A – Esta gente?
BB – É, é. Esta gente que cito é que representa rigorosamente aquilo que podemos classificar de cultura portuguesa. E esta gente foi quem deu à Pátria a sua fisionomia específica. Não são os políticos que dão a fisionomia à Pátria. Isso é com os escritores, com os artistas.

A – Tens alguma coisa contra os políticos?
BB – Contra estes políticos tenho tudo e mais alguma coisa. Atingiram o grau superlativo da mediocridade. Pode-se estar em desacordo com os nomes que vou citar – mas eles marcaram decisivamente uma época: Mário Soares, Álvaro Cunhal, Francisco Sá Carneiro, Vasco Gonçalves. Cada um deles, à sua maneira, e com as características culturais próprias, tinham um projecto político-ideológico próprio para Portugal. E tinham, esses quatro homens, convicções. E esta gente de agora não tem convicção nenhuma. E andam neste pequeno jogo de interesses que só favorece o mais torpe e o mais feroz dos capitalismos. E os intelectuais, os escritores portugueses, assistem a isto e… nada. Não estão interessados no compromisso moral com a sociedade e o seu povo, contrariando, aliás, as linhas tradicionais da cultura portuguesa.

A – Continuamos sem falar dos teus livros… Que títulos gostarias que não fossem esquecidos?
BB – Os meus livros… Creio que dois ou três vão ficar, talvez “Cão Velho entre Flores”, talvez “Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura”. Do jornalismo, as entrevistas, talvez “As Palavras dos Outros”. Nunca tive pressa. As coisas vão chegando. Um pouco atrasadas, às vezes, mas vão chegando. Não te esqueças que Portugal vive no lodaçal da amnésia histórica. Um país que esqueceu Aquilino, que não lê Tomaz de Figueiredo, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, os dois Camilos, o Castelo Branco e o Pessanha; que desconhece Cesário Verde, e dois poetas tão ou mais importantes do que Pessoa: Nemésio e Jorge de Sena – é um país condenado.

A – Se bem te conheço, estás longe de desistir seja no que for. Fala-me dos teus projectos.
BB – Entreguei, ao meu editor, a ASA, um romance, “As Bicicletas em Setembro”, título extraído a um dos mais belos poemas de Eduardo Guerra Carneiro, parceiro de bares, de noitadas, de jornalismo e de literatura. Vai também ser editado um álbum “A Lisboa de Baptista-Bastos”, com belíssimas aguarelas de João Abel Manta, selecção de textos sobre a cidade, apresentação e aparato crítico do prof. Ernesto Rodrigues. Há o texto memorialístico de que já falámos. E pretendo ordenar um novo livro de crónicas.

A – Não te vou perguntar onde estavas no 25 de Abril, mas gostaria de saber o que esperavas que essa data histórica proporcionasse ao jornalismo e à literatura. A 32 anos de distância, que balanço?
BB – O 25 de Abril foi o dia do meu coração. O Álvaro Guerra estava metido na conspiração e perguntou-me se eu estava disposto a nela entrar. Disse-lhe que não. Todas em que me tinha metido haviam falhado, porque estávamos no meio dos dois sistemas de mundo que, então, se digladiavam. Tinha filhos e não estava disposto a permitir que fossem para a guerra colonial. Preparava-me, pois, para ir embora, talvez Inglaterra, não sei bem. Não acreditava em nada ou quase em nada. Como agora, aliás. Dá-se o 16 de Março, nas Caldas da Rainha. Vai o Marcelo à Televisão e declara que está tudo sob controlo. A partir daí percebi que algo de muito importante ia ocorrer. Quando o tirano diz que controla, é porque já não controla coisíssima nenhuma. Mas os anos posteriores ao 25 de Abril naufragaram na mais atroz mediocridade: escritores e jornalistas que nunca o serão, à força de o quererem ser. Tanto o jornalismo como a literatura são actividades muito sérias. E eu não gosto nada do que por aí vejo: prosa engravatada ou de casaco de peles. Entretanto, continuo ateu, brigão e sentimental.

Ribeiro Cardoso

TALENTOSO E EXCESSIVO

Tem um corpo enorme, cabelos brancos e coração ao pé da boca. A sua voz roufenha e o seu sorriso, por vezes enigmático e mordaz, são bem conhecidos dos portugueses graças aos programas “Conversas Secretas” e “Cara-a-Cara”, que há anos assinou na SIC e marcaram um estilo nas entrevistas televisivas – como antes o seu talento tinha marcado o jornalismo escrito.
Nome grande da nossa imprensa e da nossa literatura da segunda metade do século XX, Armando Baptista-Bastos, BB para os amigos, nasceu em Lisboa, no Bairro da Ajuda, em 27 de Fevereiro de 1934, tendo frequentado a Escola de Artes Decorativas António Arroio e o Liceu Francês. Quanto a universidades, frequentou a maior de todas: a da vida, que subiu a pulso sem nunca renegar as linhas mestras do exemplo paterno – e por isso pagando um preço alto, como se pode ver na fabulosa história de vida que conta nestas páginas.
Casado, com três filhos licenciados – um arquitecto, um jurista e um psicólogo clínico – nos seus 72 anos de vida intensa já não é um homem da noite nem de excessos e vive feliz e realizado, mas não acomodado, junto da mulher que ao longo de uma vida sempre foi o seu esteio maior, tudo lhe aguentando: chama-se Isaura, tem cabelos prateados e um sorriso bom entre todos.
Com 19 livros publicados até ao momento – ensaios, romances, contos, entrevistas e crónicas (nomeadamente sobre Lisboa) -, autor de admiráveis prosas em jornais e revistas, continua a produzir e cheio de projectos. As suas memórias, aqui anunciadas, serão seguramente um acontecimento.
Privilegiando sempre a conversa, o convívio e os afectos, é vê-lo todas as Sextas-Feiras no Solar dos Presuntos, à mesa com os seus parceiros da tertúlia “Os Empatados da Vida” – distribuindo ferroadas à esquerda e à direita (sobretudo à direita…) e contando casos e histórias respeitando escrupulosamente o ditado popular “Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”. Quem o conhece e dele gosta, garante mesmo que acrescenta sempre muitos pontos… Mas ninguém leva a mal. Ah, é verdade: os livros do BB estão traduzidos em várias línguas, têm sido objecto de estudos e teses de licenciatura em universidades portuguesas e estrangeiras e à sua obra – jornalística e literária – já foram atribuídos numerosos e prestigiados prémios.

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“Esforço-me para que as pessoas gostem de mim”

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

Helena Teixeira da Silva

Está de férias no Ribatejo. Baptista Bastos, 73 anos, atende o telefone, disponível para responder à entrevista no imediato. Mas também aceita que possa ficar para o dia seguinte. O jornalista e escritor interrompe o livro de memórias durante 29 minutos. Alguém duvidará da razão pela qual é controverso? 

António Lobo Antunes só costuma conceder entrevistas a quem leu a obra dele completa. Também só fala com quem conhece o seu percurso jornalístico de 50 anos?

Não conheço o Lobo Antunes.

 

Quer dizer que ainda não fizeram as pazes?

Não sei quem é. Li só um livro dele.

 

O seu estilo de entrevistar é reconhecido. Qual é o par que mais respeita?

Na televisão, é o Mário Crespo.

 

E nos jornais?

É mais difícil, embora eu leia todos os jornais… mas deixe-me cá ver…

 

Anabela Mota Ribeiro?

Não, não… A entrevista para mim é outra coisa… É o Mário Crespo definitivamente que se aproxima mais da ideia que eu tenho de entrevista.

 

Por que desatou a perguntar a toda a gente onde havia estado no 25 de Abril?

Queria saber onde não estiveram. É uma data importantíssima. Costumo dizer que é a minha data do coração.

 

Data a que o tempo fez jus?  

Não. O 25 de Abril não foi cumplido. Foi traído pelo PS.

 

Alguma vez chegou a sentir a inveja de que o seu editor, n’”O Século”, Acúrcio Pereira, disse que iria padecer?

Ele era chefe de redacção; na altura ainda não havia editores. Editor, em Portugal, não quer dizer coisa rigorosamente nenhuma. É uma cedência do jornalismo português ao jornalismo anglo-saxónico. Eu comecei muito novo a trabalhar n’”Século”, que era, de facto, considerado uma universidade. O Mário Zambujal até lhe chama “catedral”, porque saíamos dali como profissionais muito apetrechados. E eu, como vinha de uma tradição literária, comecei a fazer jornalismo de autor, muito marcado, e foi nesse sentido que Acúrcio Pereira disse: “Eh, pá, vais sofrer invejas”. É uma coisa terrível. Mas eu não dou muita importância a essas coisas. Aliás, eu nunca me levei muito a sério. As pessoas que se tomam muito a sério são umas desgraçadas. Tomo a sério os outros.

 

Miguel Sousa Tavares disse, recentemente, o contrário: que se acha superior e que age como se o país estivesse sempre em dívida consigo…

O Miguel Sousa Tavares tem um problema gravíssimo: pensa e escreve como o Miguel Sousa Tavares.

 

O que quer isso dizer?

Quer dizer rigorosamente o que acabei de dizer. É um escritor que não existe e um jornalista que dá vontade de rir.

 

Diz e faz as coisas como lhe apetece. Qual é o preço?

Não podia fazer à maneira do Miguel Sousa Tavares, senão era uma maneira muito mal feita.

 

A integração dos jornais em grandes grupos económicos restringe a nossa liberdade?

Mas isso é resultado da globalização e do mercado livre, que permite tudo. Hoje, qualquer pessoa chega a director de jornal com uma rapidez impressionante, qualquer pessoa começa a escrever artigos de opinião. Não pode ser! Perde-se completamente a credibilidade. Se calhar sou anacrónico, penso de outra maneira, sou de outro tempo… Mas eu trabalhei em grandes jornais, e aquelas redacções metiam medo, porque cada um vigiava o outro. Era um jornalismo que recusava essa grande tese da distanciação; era um jornalismo da proximidade o que nós fazíamos. Aliás, não entendo essa coisa da distanciação quando a única coisa que o jornalismo pode ser é justo, procurar a justeza das coisas. Quanto mais aproximados estamos, mais entendemos os factos.

 

Quando fala de proximidade não está a referir-se a uma proximidade geográfica… Digo isto, porque os jornais têm investido em edições múltiplas, com destaques diferentes para cada região do país…

Não, não. Falo de aproximação no sentido do compromisso com o leitor. A tese da distanciação é como se o jornalista não tivesse nada a ver com a notícia, como se o director e o chefe de redacção não tivessem nada a ver com o jornalista, e o jornal não tivesse a ver com nada. A distanciação é absurda.

 

Os jornais estão a perder leitores. Acredita na inversão do cenário?

Os jornais vendem menos porque estão cada vez estão piores, não correspondem às necessidades e aspirações das pessoas, nem fornecem o retrato da sociedade portuguesa. Veja este caso exemplar: como é possível que durante 15 dias, as televisões, os jornais e as rádios tenham estado a massacrar-nos a cabeça com um problema de dois cavalheiros –  Paulo Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves – cujo problema é pessoal? São pessoas, ao que julgo saber, que ganham mais de 50 milhões por ano. Joe Berardo, com aquela forma que lhe é própria disse esta coisa espantosa: “O Jardim tem 40 guarda-costas e aviões particulares”. O que é isto? Isto não pode ser. Aquilo é uma empresa privada, certo, mas as coisas têm que ter um mínimo de ética e moral. Os jornalistas não fizeram uma interpretação factual daqueles acontecimentos. Como vivem? Como educam os filhos? É importante saber isso. Eu tenho três filhos formados e vi-me à nora para os licenciar. Tive que abdicar de muitas coisas. Ninguém nos ajudou. Mas sim, sim, sim, há aí uma nova geração de jornalistas que está a perceber que não pode ser enganada. E isto vai dar frutos, evidentemente.

 

O futuro da imprensa passa pelos textos curtos ou bem escritos?

Sobretudo bem escritos. Não entrem nessa espécie de depressão que tem sido provocada por uns tipos medíocres que transformaram o jornalismo numa espécie de tabelionato. Há uma frase de um escritor que admiro muito: “Quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Já viu o bando de medíocres que está nas escolas de Comunicação Social sem saber fazer uma notícia?

 

Os textos de necrologia deveriam regressar às páginas dos jornais?

É uma das notícias mais difíceis, mas o Miguel Sousa Tavares não percebe nada disso, julga que o jornalismo é outra coisa. Há grandes jornalistas que fizeram grandes necrologias. Basta ler o terceiro volume de “As farpas”, de Ramalho Ortigão para perceber o que é fazer uma necrologia.

 

Ser-lhe-ía mais apetecível escrever as suas memórias ou um manual de jornalismo?

Manuais, nem pensar. Dei aulas numa Universidade. Começaram com 21 alunos e acabaram com 40. Mas isso aconteceu porque eu levava livros do Sena, do Nemésio, do Eugénio de Andrade e discutia com eles. Estou há muito tempo a escrever um texto memorialistico. Não é que a minha vida tenha alguma importância, mas nela atravessou-se muita gente. Conheci meio mundo. Ainda ontem estive a terminar um texto sobre Aquilino Ribeiro. Eu conheci-o. Ele gostava muito de mim. Foi essa gente que formou o homem que eu sou. Gente que tinha o conceito da ética, da moral, da deontologia, e que a aplicava a todos os sistemas de vida.

 

Está na casa de Constância, no Ribatejo. O que faz aí?

Leio e escrevo no computador.

 

Tinha de si uma imagem mais romântica: a do homem que ainda escreve à mão…

Mas escrevo à mão. Num Moleskine onde aponto uma data de coisas e com uma Mont Blanc. Só depois passo para o computador.

 

Que relação tem com a internet? Vasculha blogs?

Não percebo nada disso, nem quero. Gosto do papel impresso, do cheiro dos jornais e das redacções. Aos blogs falta o suor, o cheiro dos corpos, a gritaria…

 

Ameaçou não votar nas eleições intercalares de Lisboa…

… e não votei. E disse ao António Costa, que conheço desde pequeno, que não iria votar nele, porque ele é cúmplice das malfeitorias que este Governo tem feito. É das coisas mais lamentáveis que tenho visto. Felizmente, não votei neles.

 

Critica a Esquerda por estar mais à direita que a Direita._Mas também não se revê na Direita. É um órfão político?

Sou um homem de Esquerda, irremediável e jubilosamente.

 

Mas não é deste PS?

Este PS não tem nada a ver com a Esquerda. Sou de uma Esquerda muito rebelde, que contesta as coisas, que leu Marx, mas que não recusa a bíblia. Que se encontra onde encontra o humanismo. Estamos a precisar de gostar uns dos outros.

 

Gosta que gostem de si ou basta-lhe que o respeitem?

Gosto muito que gostem de mim e faço grandes esforços para isso, sobretudo com as mulheres.

 

Porque razão diz que a vida só é bonita se for difícil?

Eu sou muito feliz. Não há nenhuma pessoa feliz, mas poucos homens estarão tão perto da felicidade como eu. Casei com uma mulher que me tem aguentado tudo, tenho a profissão que escolhi e é verdade, a vida só é bela quando é difícil. A gente só gosta das coisas que custam a adquirir. Tenho tantos amigos, que nem julgava que os tinha. Não tenho medo de dizer as coisas. Não gosto da mediocridade, da soberba, da arrogância. Não gosto daqueles jornalistas – e estou a pensar num em particular, e do qual já disse o nome – que querem ser os catões da moralidade quando na verdade tem telhados de vidro. As pessoas têm que ter com os outros uma relação de respeito e admiração. Eu admiro tanta gente que, às vezes, os meus amigos dizem: “Tu admiras demais”. Tenho um grupo que se reúne todas as sextas-feiras. Somos os “Empatados da vida”, aqueles que nem venceram, nem foram vencidos.

 

Quem são?

O Mário Zambujal, o João Paulo Guerra, o Eugénio Alves, o professor António Borges Coelho, o Fernando Dacosta e o José Manuel Saraiva. Não queira saber o que nós nos divertimos.

 

Gostava de ser uma mosquinha nessas tertúlias…

Posso convidá-la, se quiser. Às vezes, convidamos pessoas. O último foi o Luís Filipe Menezes.

 

A idade ainda é um posto?

A idade não, a amizade é que é um posto. Amigo nunca trai amigo.

 

Recentemente, morreram dois dos seus poetas de eleição: Mário Cesariny e Eugénio de Andrade. Lê-os agora de forma diferente?

Tenho uma colecção de poesia que, se calhar, muitos poetas não tem. A poesia ajudou-me a melhorar a prosa. A poesia e a pintura. Percebi isso muito cedo. Andei em arquitectura, e andei a chumbar, e percebi com Van Gogh e, mais tarde, em Leninegrado – continuo a dizer assim e não São Petersburgo -, no Museu Hermitage, com parte substancial da obra de Picasso, o que era o adjectivo na prosa, com cor, mas com contenção. Não é atirar adjectivos aos molhos como faz o Lobo Antunes.

 

Raul Brandão, um dos seus escritores, escreveu: “A verdade amarga e única é esta: é que na vida é preciso sonhar para não se morrer transido, tantos são os pontapés que a gente leva na alma e noutra parte”: Concorda com ele?

Ainda ontem estive a reler parte de “A Farsa”. É assim. Sou incapaz de pensar numa pessoa que não sonhe. Pode viver sem ideias, mas não pode viver sem sonhar. A vida seria insuportável

 

A sua vida é um acto poético?

Sempre foi; sempre será.

 

Vai continuar a resistir à gravata em prol do laço?

Paginei o “Diário popular” e a gravata, naquela tipografia tradicional, ficava sempre cheia de tinta. Passei a usar laço. O nó do laço é mais fácil de dar do que o da gravata. Sim, porque não os compro feitos.

 

Baptista Bastos

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Os nossos velhos preferem morrer

Outubro 22, 2007 · 1 Comentário

O Rádio Clube Português deu-me a notícia, logo de manhã: o “socialismo moderno” prepara-se para “actualizar” as regras da lei das manifestações. Ia compor a frase com um melancólico advérbio de modo, e um fatigado adjectivo: “Fui tristemente surpreendido” – porém, já nada me surpreende (embora tudo me entristeça) nas decisões tomadas por José Sócrates.

É um pesado fadário que temos de cumprir. Caímos numa armadilha tenebrosa e fomos enganados com ardis, aldrabices e artimanhas.

Devemo-nos perguntar, e exigir que Sócrates se pergunte, quais as razões pelas quais quarenta e sete por cento dos velhos portugueses aceitam como boa a eutanásia? Porque o Governo os despreza, espezinha, explora, humilha, vexa – não lhes acode, não os protege, não os defende, não os agasalha, não os ama.

Herborizados pelo mais assombroso e eficaz dispositivo propagandístico de que me recordo, os portugueses vivem em astenia moral, social e ideológica. Parecem indiferentes à evidência de que este Governo está contra eles: está contra nós. O “socialismo moderno” vai criar novos impostos aos reformados; vai aumentar os combustíveis (e, decorrentemente, tudo o que lhe procede, de bens imprescindíveis); fez crescer o desemprego; encerrou centros de saúde, maternidades e postos de atendimento imediato. Deu às taxas moderadoras a configuração da pornografia política, ao aumentá-las escandalosamente. Sob a obscena e abstrusa afirmação de que há “escolas que não dão rendimento social”, porque têm menos de dez alunos, encerrou centenas delas.

O rol de malfeitorias é infindável. Resoluções marcadamente antisociais explicam o número de portugueses pobres: mais de dois milhões=mais de um quinto da população. Porém, cerca de meio milhão sobrevive nos níveis da miséria. Não se sabe ao certo a percentagem, em todo o País, de portugueses sem-abrigo. O número de jovens licenciados sem emprego nem perspectivas de futuro acresce na pauta de todos os desesperos. As privatizações previstas não resolvem os problemas nacionais, no-lo ensinam economistas prestigiados, como o prof. Medina Carreira, cuja intervenção na vida pública devia ser mais assídua, pelo seu destemor cívico e pela sua excepcional qualidade pedagógica.

Por outro lado, a criação de mais “empresas hospitalares”, rude eufemismo que mascara o fácies do “privado”, não diminui as despesas com o pessoal. Depois, aqui e além, continuam as reformas sumptuosas e os vencimentos ultrajantes de “gestores”, que passam de “especialistas” de televisão a peritos em fábricas de parafusos e destas para companhias de produtos farmacêuticos, a seguir para as oleaginosas.

Assisti, na América Latina, anos de 60, a vergonhas semelhantes. No Brasil, então, o despudor chegou a horizontes tão agressivos que a radicalização foi a solução encontrada pelos desesperados. Percorri, na época, parte substancial da imensa nação. Encontrei-me, clandestinamente, com grandes resistentes, que se opunham à guerrilha urbana. Não a admitiam nem justificavam, mas tentavam explicar-me a natureza profunda da cólera popular. A Igreja vaticana, com excepção de Dom Hélder Câmara e poucos mais bispos, remetia-se ao tradicional silêncio da cumplicidade. Os padres partidários da Teologia da Libertação eram ferozmente perseguidos pela hierarquia católica e pelos militares. Parte da Imprensa, nas mãos de senhores poderosos e oligarcas, foi conivente. Até que.

Viajo, com frequência, por Portugal. Possuo adequada informação do que se passa. Quando posso, e assim que posso, ergo a voz do meu protesto. O famigerado défice tem servido de pretexto para esta furiosa avançada. Um comentador de voz grossa e módica meninge discorria, há dias, acerca do “alívio” que o Governo estava a sentir. E blá-blá-blá sobre exportações, “factores exógenos”, “cepa torta” – trapalhadas sem direcção nem sentido. Como acentuou, meses atrás, o prof. Medina Carreira, a luta contra o défice devia envolver toda a gente, e não os mais desprotegidos. Eis a questão.

Vivemos sob o império da mentira, da dissimulação e do embuste. Nada nos é claramente dito. A informação é escassa. Tornou-se acto institucional o facto de o Executivo fazer e só depois dizer. O clima de medo, de intimidação, de represália instalou-se na sociedade portuguesa de uma forma larvar. Não se ressalva os direitos adquiridos pelas massas trabalhadoras. Aniquila-se as actividades sindicais. A ofensiva “mediática” contra Paulo Sucena, o grande dirigente da Fenprof, desceu a patamares absolutamente sórdidos. O actual, está sob o fogo de “comentadores” sem beira nem beiral. Carvalho da Silva, cuja dimensão intelectual e sindical não sofre comparação com nenhum outro, tem sido, amiúde, objecto de insídias – sobretudo quando a contestação social chega ao rubro.

Estamos numa situação perturbadora. E não se trata, somente, do País, o que, de si, já seria alarmante, mas, também, dos tratos de polé que José Sócrates aplicou à ideia socialista. Guterres, defensor do “socialismo católico”, coisa risível, escancarara as portas à Direita, proporcionando o descalabro de Durão Barroso e o intermezzo cómico protagonizado por Santana Lopes – agora, malamente de novo, em posição de relevo político. Sócrates, com a “modernidade socialista”, procedeu ao trabalho sujo que a Direita se envergonhava de fazer.
O caminho está aberto. Quem nos acode?

APOSTILA – Helena Sacadura Cabral, numa estupenda crónica publicada no diário gratuito “Meia Hora”, escreve sobre a tributação das pensões de reforma, com notável clareza, o seguinte: “Para além do duvidoso critério quantitativo, o senhor ministro esquece que a reforma é algo que se foi constituindo ao longo de uma vida e portanto não pode e não deve ser tratada como um rendimento de trabalho. Esquece, ainda, que a mobilidade profissional de uma pessoa de 70 anos é substancialmente menor do que a daqueles que, ganhando o mesmo, têm 45. Para não falar, já, das necessidades de saúde acrescidas que, nessa altura da existência, os mais velhos terão, com certeza, de enfrentar. Tanto o nosso PM como o dr. Teixeira Santos são jovens. ‘Apenas’ têm o cabelo branco. Mas um dia virá em que outros sintomas surgirão. A vantagem de ambos, e a minha, é que a nossa pensão de reforma será sempre ‘suficiente’ para pagar as maleitas da idade. O problema está naqueles que, ao longo da sua vida, nunca tiveram mais do que o suficiente para pagar o pão de cada dia”.

Baptista Bastos

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