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O império da vergonha II – A fome – J. Ziegler

Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário

A FOME

O massacre, pela subalimentação e pela fome, de milhões de seres humanos continua a ser o maior escândalo do início deste terceiro milénio. É um absurdo, uma infâmia que nenhuma razão justifica nem nenhuma política pode legitimar. Trata-se de um crime contra a Humanidade indefinidamente repetido.

Hoje, como eu já disse, todos os cinco segundos morre de fome ou de doenças ligadas à malnutrição uma criança com menos de dez anos. Deste modo, a fome terá morto em 2004 mais seres humanos do que todas as guerras juntas desencadeadas nesse mesmo ano.

Em que pé se encontra a luta contra a fome? O seu recuo é evidente. Em 2001, uma criança com menos de 10 anos morria todos os sete segundos. Nesse mesmo ano, 826 milhões de pessoas tinham ficado inválidas em consequência de subalimentação grave e crónica. Hoje são 841 milhões. Entre 1995 e 2004, o número das vítimas da subalimentação crónica aumentou 28 milhões de pessoas.

A fome é o produto directo da dívida, na medida em que é ela que priva os países pobres da sua capacidade de investir os fundos necessários para o desenvolvimento das infra-estruturas agrícolas, sociais, de transporte e serviços.

A fome significa sofrimento agudo do corpo, enfraquecimento das capacidades motoras e mentais, exclusão da vida activa, marginalização social, angústia do amanhã, perda de autonomia económica. Acelera o caminho para a morte.
A subalimentação define-se pelo défice dos aportes de energia contidos na alimentação que o homem consome. Mede-se em calorias – a caloria é a unidade de medida da quantidade de energia queimada pelo corpo.

No mundo, morrem anualmente 62 milhões de pessoas, ou seja, l por mil da Humanidade – todas as causas incluídas. Em 2003, trinta e seis milhões morreram de fome ou de doenças devidas às carências em micronutrientes.
A fome é, pois, a principal causa de morte no nosso planeta. E esta fome é obra do homem. Quem morre de fome morre assassinado. E o assassino tem nome: a dívida.

A FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – estabelece a diferença entre fome «conjuntural» e fome «estrutural». A fome conjuntural é devida ao brusco afundamento da economia de um país ou de uma parte da mesma. Quanto à fome «estrutural», essa é induzida pelo subdesenvolvimento do país.

Eis um exemplo de fome conjuntural. Em Julho de 2004, uma monção especialmente violenta submergiu o Bangladesh. Mais de 70 por cento deste país de 116 000 quilómetros quadrados ficou debaixo de água. Dos 146 milhões de pessoas que o habitam, três milhões ficaram sujeitas a morrer de fome. O Bangladesh é de facto um delta composto por múltiplos rios que se lançam no golfo de Bengala. Esses rios vêm dos contrafortes do Himalaia (Butão, Ladaque, Nepal). Quando chega a monção, a sua cheia torna-se violenta, imprevisível. As vagas arrancam árvores e casas, destroem barragens e diques, cobrem de uma água verde, cheia de limos, turbulenta, centenas de milhares de hectares de terras agrícolas e devastam os bairros ribeirinhos das cidades.

Em tempo normal, se assim se pode dizer, cerca de 30 000 crianças com menos de 10 anos ficam cegas todos os anos no Bangladesh, por falta de vitamina A. A OMS estima que devido às inundações esta cifra vai pelo menos quintuplicar em 2004.

A fome estrutural e a fome conjuntural são consequência directa da dívida. No que concerne à fome estrutural, isso é evidente. As relações de causalidade entre fome conjuntural e dívida, pelo contrário, exigem uma explicação.
Voltemos à fome excepcional do Bangladesh em 2004. As duas principais bacias hidrográficas responsáveis pelas inundações de Julho são as do Bramaputra e do Ganges. Ora, acontece que eu realizei, a pedido das Nações Unidas, uma missão no Bangladesh em 2002. Tratava-se precisamente de examinar os meios próprios para evitar a repetição deste tipo de catástrofes. No amplo gabinete do ministro dos Recursos Hídricos em Daca, passei horas e horas a estudar gráficos, estatísticas, projectos. Pois bem, o que ressaltou desse estudo foi que a tecnologia contemporânea permitiria, sem problemas de maior, domesticar o conjunto dos rios do Bangladesh. Tecnologicamente, as inundações provocadas pela monção seriam perfeitamente controláveis. Mas como o Bangladesh é um dos países mais endividados da Ásia do Sul, falta o dinheiro para represar os rios e quebrar a sua corrente.

A subalimentação severa e crónica destrói lentamente o corpo. Debilita-o, priva-o das suas forças vitais. A doença mais simples abate-o depois. A sensação de carência é permanente.

Mas os sofrimentos mais terríveis provocados pela subalimentação são a angústia e a humilhação. O faminto trava um combate desesperado e permanente pela sua dignidade. Sim, a fome provoca a vergonha. O pai não consegue alimentar a sua família. A mãe está de mãos vazias diante do filho, que chora de fome.

Noite após noite, dia após dia, a fome diminui as forças de resistência do adulto. Chegará o dia, e ele sabe-o, em que nem sequer já poderá vaguear pelas ruas, vasculhar os caixotes do lixo, mendigar ou procurar aqueles pequenos trabalhos ocasionais que lhe permitam comprar uma libra de mandioca, um quilo de arroz, para sustentar – mediocremente, é certo – a sua família. É corroído pela angústia. Está em farrapos; as sandálias, gastas; o olhar, febril. Vê a sua rejeição no olhar do outro. Muitas vezes os seus e ele próprio estão reduzidos a comer os detritos tirados dos caixotes do lixo dos restaurantes ou das casas burguesas.

Maria do Carmo Soares de Freitas, socióloga, e os seus colaboradores da Universidade Federal da Bahia realizaram um estudo de longa duração no bairro Pela Porco de Salvador, a fim de compreender como os próprios famintos vivem a sua situação. Com os Alagados, Pela Porco é um dos bairros mais miseráveis da metrópole do Norte, antiga capital do vice-reino lusitano do Brasil. Grassam ali a corrupção e o arbítrio policiais, a violência dos bandos armados, o desemprego endémico, a falta total de infra-estruturas escolares, sociais, de saúde, e a habitação é precária. É habitado por cerca de 9000 famílias. Os Textos dos Famintos é o título do volume, ainda não publicado, no qual toda a equipa compilou a palavra dos esfomeados (disponível em fotocópia no Instituto de Saúde Pública da Universidade Federal da Bahia).

Para exorcizar a vergonha, as vítimas da subalimentação crónica recorrem a frases como estas: «A fome vem de fora do corpo». A fome é o agressor, uma besta que me ataca. Nada posso fazer. Não sou responsável pela minha situação. Não devo ter vergonha dos farrapos que uso, dos choros dos meus filhos, do meu próprio corpo debilitado e da incapacidade em que me encontro de alimentar a minha família.
Os que se vêem reduzidos a alimentar-se dos dejectos tirados dos caixotes do lixo do centro da cidade, ou dos luxuosos hotéis que bordejam a praia de areia branca de Itapoa, dizem: «Preciso tirar a vergonha de catar no lixo, porque pior é roubar».
Muitas das mulheres e homens interrogados tratam a fome por «a coisa». «A coisa bate-me à porta». Atirar a fome para fora do seu corpo, considerar-se como a vítima de uma agressão, saber-se ferido por um adversário forte de mais: eis algumas defesas contra a vergonha.
Alguns habitantes também dizem: «Sentimo-nos perseguidos, ou pela polícia ou pela fome», ou ainda: «A fome é sempre um sofrimento que fere o corpo». A besta ataca-me, que hei-de fazer? Nada ou quase nada, «Porque ela é mais de que eu».
As palavras «perseguidos pela fome» fazem parte de quase todas as respostas.
Algumas das pessoas interrogadas, especialmente entre os adolescentes de ambos os sexos, revoltam-se contra a besta. Querem ripostar ao ataque, resistir. «A pessoa tem que ser forte, tem que fazer qualquer negócio; não ter vergonha, não ter medo; pedir a um e a outro, bulir no lixo, tem uns que até rouba, assalta, bole nas coisas dos outros; não pode ficar esperando as coisas cair do céu; tem que ter muita fé pra ficar com força, se levantar e andar, andar…»
Uma série particularmente pertinente de questões postas por Maria do Carmo e colegas diz respeito à «fome nocturna». A quase-totalidade das pessoas interrogadas, de todas as idades e sexos, tem visões nocturnas, sonhos compensatórios onde aparecem mesas cobertas com toalhas imaculadas, mal suportando o peso de montanhas de frutos, de carnes e de bolos. Estas alucinações consolam das privações físicas, da angústia lancinante e da dor.
Uma jovem mulher interrogada disse: «No tempo da noite, quando as crianças choram ou a violência (policial e dos bandos armados) assusta ainda mais, são produzidas insónia e visões».
Face a uma sociedade que o exclui e o priva de comida, o faminto agarra-se a estas quimeras. Elas devolvem-lhe, pelo imaginário, a sua dignidade de sujeito livre.
Dois mil milhões de pessoas sofrem daquilo a que as Nações Unidas chamam o hidden hunger, a fome invisível, ou seja, a malnutrição. Esta define-se pela carência de micronutrientes (sais minerais, vitaminas). São estas carências que provocam doenças em muitos casos mortais.
As calampas de Lima, as favelas de São Paulo ou os sórdidos bairros de lata das smoky mountains de Manila são locais de pestilência. Nas smoky mountains, onde vive meio milhão de pessoas, respira-se um odor pútrido. As ratazanas mordem no rosto os recém-nascidos. Naquelas cabanas de chapa, as mulheres, as crianças, os homens enganam o estômago com os restos de comida respigados em montes de imundices. O aporte de calorias até pode ser suficiente. Mas a composição da alimentação, essa revela carências perigosas.
Uma criança em situação de malnutrição crónica pode dar de comer à sua fome e no entanto agonizar por efeito de uma doença devida à falta de micronutrientes.
Nos 122 países do Terceiro Mundo onde vive, relembro, quase 80 por cento da população do planeta, a carência em micronutrientes provoca hecatombes.
Entre as doenças mais comuns e espalhadas devidas a esta insuficiência, há o kwashiorkor, frequente na África Negra, a anemia, o raquitismo, a cegueira. Os adolescentes vítimas do kwasbiorkor têm o ventre inchado, os cabelos que se tornam ruços, a tez amarela. Perdem os dentes. Quem for privado de modo permanente de um aporte suficiente de vitamina A fica cego. O raquitismo impede o desenvolvimento normal da ossatura da criança.
Quanto à anemia, essa ataca o sistema sanguíneo e priva a vítima de energia e de toda a capacidade de concentração.

Jean Ziegler
O império da vergonha

 

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O fermento das periferias

Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário

O fermento das periferias

Vivo na periferia da periferia de Nairobi. Mas aqui estão sempre a acontecer coisas novas, que nunca acontecem nos condomínios fortificados do centro da capital. Na verdade, é aqui que surgem todos os fermentos da vida.

Quando, em 99, vim viver para aqui, a localidade chamava-se Riruta. Continuo a viver na mesma casa, mas o aumento da população fez com que os nomes também se multiplicassem. Riruta desmultiplicou-se em Riruta East, Ndurarua, Satellite, Railway, etc. assim, agora vivo em Nairobi, periferia do Ocidente. As periferias expandem-se.

Em Riruta e arredores, que somam um total de mais de 100 mil habitantes, as estradas estão em condições calamitosas. Os esgotos, a rede eléctrica, a linha telefónica chegam só às estradas principais. O posto da polícia é um conjunto de barracas de chapa enferrujada. Serviços sanitários e escolas públicas são totalmente inadequados. E todavia, por incrível que possa parecer, esta periferia de periferia de Nairobi é para muitas pessoas o centro, é a meta que promete o fim de todos os sofrimentos, o sonho de um futuro mais bem mantido vivo através das cartas de amigos que aqui se estabeleceram há já alguns anos.

Quem gostaria de viver aqui? Não só quem vive nas zonas rurais semiáridas do Quénia, onde serviços sanitários e escolas públicas são praticamente inexistentes, mas também centenas e centenas de desesperados que fugiram da área dos Grandes Lagos. De facto, o crescimento galopante de Riruta deve-se sobretudo à imigração clandestina daquela área.

Viver no paraíso

À pergunta: “Porque vieste viver para Riruta?”, Jean Jacques, burundês licenciado em Psicologia e casado com uma ruandesa, responde: “Quando o governo tanzaniano decidiu obrigar os refugiados a voltar para os seus países de origem, mandaram-nos para a fronteira. Tínhamos de atravessar o rio Kagera. Sob o olhar dos representantes da ACNUR, dos soldados ruandeses e dos tanzanianos, as pessoas eram atadas com uma corda. Filas inteiras de pessoas preferiram lançar-se ao rio e ali morrer do que voltar ao Ruanda. Até hoje ninguém denunciou o facto. Eu decidi fugir.”

Pierre, esse é da República Democrática do Congo e acaba de fazer 19 anos. Está em Riruta há ano e meio, e, precisamente no dia em que escrevia este texto, fui com ele ao encontro com dois investigadores do Tribunal Penal Internacional. Pierre foi um menino-soladado, e fugiu do seu país quando o senhor da guerra lhe ordenou que matasse um jornalista e um missionário, pessoas que o incomodavam porque denunciavam o que estava a acontecer. Pierre decidiu que não podia mais obedecer a estas ordens – já tinha assassinado dezenas de pessoas – e escapou, porque recusar-se a matar significaria inevitavelmente a sua morte. A primeira vez que o encontrei, na paragem dos autocarros que chegam da Campala, com o desespero e o medo estampados num rosto ainda de criança, parecia um animal preso na ratoeira. Depois, notei que se ia acalmando de dia para dia, enquanto procurava voltar a uma vida normal juntamente com os outros jovens da casa onde vivo. Hoje, enquanto contava aos investigadores a sua vida, durante mais de duas horas conseguiu controlar-se e controlar toda a desconfiança nas instituições que a sua experiência lhe incutiu. A dada altura, desatou a soluçar de modo incontrolável; e quando conseguiu falar, disse: “Não quero pensar mais em todo o mal que fiz, nem no mal que me fizeram a mim.”

O encontro com Deus

Em Kibiria, porém, não há só histórias dramáticas. As periferias são também, para quem é capaz de ver, laboratórios da sociedade do futuro. Aqui, a sociedade muda, inventa novas formas de sobrevivência. Nos bairros de Nairobi rica reforçam-se as cercas com arame farpado, há quem se feche atrás dos muros, aumenta-se a potência dos holofotes para iluminar todos os recantos das vivendas e multiplicam-se os seguranças (todos pobretanas que de dia vivem em bairros como Riruta e de noite protegem os ricos); o ideal é que não aconteça nada, que ninguém perturbe o mundo dourado em que se vive. Ao contrário, nas periferias surgem todos os fermentos desta sociedade. Alguns são fermentos de violência e de ódio, mas outros são fermentos de solidariedade e dignidade.

Aqui estão os criadores: o Lionel que, há menos de 30 anos, anda a preparar a sua morte por alcoolismo, mas que pinta quadros onde a vida esplode com cores e formas das mais extraordinárias; a Miriam, que vive só numa barraca, onde, à noite, com uma velha máquina de escrever, inventa a trama de uma telenovela sobre a vida nos bairros de barracas que gostaria de vender a uma televisão privada; o Charles, também ele ruandês, e também ele ilegal, que, depois de um dia de trabalho como técnico de computadores, enquanto a mulher e os filhos preparam o jantar num fogareiro a carvão, trabalha num portátil para desenvolver um novo software; e está também a Anjela, que quer dar vida a um grupo de formação para seropositivos. A periferia, para quem crê e quer deixar-se renovar, é o encontro com o Deus que não tem nada, que vem de baixo, que nos olha com os olhos das crianças, nos fala com a voz das prostitutas, nos abençoa com a voz do velho que está para morrer.

A África mediática

Quem decidiu que Kabiria é a periferia? Onde está o centro? Não teremos talvez, antes de mais, de pôr em discussão a ideia de centro? Não é esta ideia o resultado de uma doença grave, que infectou todo o ocidente, e que se chama, vejam só, etnocentrismo?… Ainda para mais na sua variante mais patológica, o racismo…

O Ocidente, o Norte do mundo, acredita ser o centro do mundo, o modelo de desenvolvimento válido para todos, e que se os outros não o imitam é simplesmente porque são atrasados corruptos, preguiçosos e, naturalmente, pouco inteligentes. Fecha-se por isso num isolacionismo que o condena a não compreender os outros, e portanto a não se interessar pelos outros. Há uma parte da opinião pública ocidental que se insurge contra este estado de coisas, que procura compreender os problemas em profundidade, mas esta parte, que está porventura a aumentar, é certamente ainda uma minoria que não consegue influir nas opções dos grandes meios de comunicação.

Quantas vezes ouvi dizer a competentes e apaixonados enviados especiais de visita a um país africano coisas do género: “O meu director diz que uma notícia por dia sobre a África é mais que suficiente. Portanto, como já se está a falar da Somália, não há esperança de que qualquer outro país africano consiga espaço. Portanto, como já se está a falar da Somália, não há esperança de que qualquer outro país africano consiga espaço. A menos que aconteçam coisas absolutamente extraordinárias, como novas guerras, milhares de mortos, carestias.”

Realmente, guerras, mortos e carestias parecem ser as únicas coisas que podem interessar quando se fala da África.

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