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CONSTRUIR UM PAÍS

Novembro 17, 2007 · 1 Comentário

PRECISA-SE DE MATÉRIA-PRIMA PARA CONSTRUIR UM PAÍS

Por EDUARDO PRADO COELHO

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos… e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram o lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é “muito chato ter que ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns. Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser “compradas”, sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.

Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes. Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.

Como “matéria-prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa “CHICO- ESPERTERTICE PORTUGUESA” congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte…

Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria-prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada… Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier.

Qual é a alternativa?

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa” não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados…igualmente abusados!

É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda… Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um Messias.

Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro… Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.

E você, o que pensa?…. MEDITE!

In “Público”

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Ser Leitor

Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário

Ser Leitor foi para mim um acidente de percurso. Eu tinha uma má informação da PIDE e o ministro José Hermano Saraiva falou com o meu pai e achou que eu arejaria as ideias se fosse trabalhar uns tempos para o estrangeiro. Como Leitor. (…) Foi assim que o Instituto de Alta Cultura me adoptou como leitor, e eu lá parti, nomeado para Aix-en-Provence. Nunca cheguei a alugar uma casa. Vivia num quarto de hotel cujas prateleiras foram empenando com a chegada de livros. Dessas vagas instalações só me lembro o deslumbramento dos meus olhos quando uma manhã vi os telhados cobertos de neve.

Sei que fui para França sem conhecer praticamente nenhum outro Leitor, sem nenhuma informação específica, desconhecendo se havia métodos ou não no ensino do Português e sem a menor formação para as tarefas que me esperavam. (…)

Aix-en-Provence era uma cidade que parecia um filme musical: reformados que tinham resolvido regressar a um lugar tranquilo; e jovens estudantes, muito jovens e nem sempre estudantes. Tinha bastante actividade cultural, tanto no plano da música como no do cinema (vi uma semana organizada pelos «Cahiers», e recordo-me de um filme canadiano, cujo francês me pareceu ininteligível, e da maravilha que foi sair pela noite dentro depois de ter visto «Prima delle Rivoluzione»).

Mas eu estava ali para ser professor. Por um lado, professor de Literatura, e aí desembaraçava-me bem. Mas, por outro lado, professor da Língua Portuguesa de Iniciação, e eu era incapaz de ter uma metodologia própria e desconhecia o pouco que já se fizera nesse sentido. Tenha a consciência de que neste domínio era um verdadeiro desastre. Programado pela incúria lusitana.

E invejo aqueles que hoje têm cursos de selecção adequada, provas de avaliação específica. A faculdade era um conjunto de edifícios (sendo Direito o bastião da Direita) de uma certa brutalidade, e uma cantina onde eu às vezes comia e onde fiz uma experiência traumatizante: um prato de sopa e depois trouxeram para a mesa uma travessa com comida. Olhei para a minha volta para ver o que os outros faziam: concluí que a solução consistia em limpar o prato de sopa com o pão. E comer a carne nele. Não gostei. Preferi comer em tascas baratas do que voltar a utilizar a cantina.

De resto, que fazia? Preparava as aulas o melhor que sabia. Estava longas horas a ler em cafés e esplanadas. Ouvia o bater da chuva quando as esplanadas já estavam invernosamente protegidas. Via televisão num café. Assistia a espectáculos musicais. Ia todas as semanas a Marselha de autocarro – ver os lugares do conde de Monte-Cristo. Fazia compras (baratas). Fui visitar o Eduardo Lourenço a Sain-Paul de Vence. Lia Blanchot. Lia Durrell. Vi pela primeira vez Susan Sontag na montra de uma loja de aparelhos eléctrico-domésticos. Durante umas semanas, convivi com uma grande amiga minha por quem sinto uma imensa saudade: Isabel Colaço. Comprava livros em diversas livrarias (desde Makaire até «Le Divan»). Escrevia cartas. Atirava almofadas ao ar quando estava deitado na cama. Escrevia – embora pouco.

Uma das minhas primeiras experiências foi culinária. Na lista havia «boudin» e eu perguntei o que era. Responderam-me: «Mais Monsieur, le boudin est le boudin». E foram buscar um bocado. Assim descobri a definição ostensiva. E por outro lado comi «um cachorro» com mostarda de Dijon e tive a concretização do que eu julgava ser apenas uma figura de retórica: subiu-me a mostarda ao nariz.

Eu não sabia quanto tempo iria ficar (…) Mas os anos de Aix continuam a ser um entusiasmante conjunto de imagens musicais. Algo desafinadas no plano do ensino, claro.

Eduardo Prado Coelho

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