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No país de Íqbal

Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário

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Para todas aquelas crianças
que trabalham sem ter idade,
em qualquer parte do mundo.

1

— Feliz aniversário, querido!
Kevin sopra as velas. Apaga-as de uma só vez. À volta dele, pais e amigos gritam e aplaudem.
Kevin pode agora abrir os presentes. Gosta particularmente deste momento, em que pode rasgar o papel dos embrulhos.
Estragam-no com mimos. Como sempre acontece todos os anos.
Começa pelos sobrescritos que contêm dinheiro, mas o que mais gosta de abrir são, é claro, os presentes de verdade.
Dos três embrulhos, Kevin já percebeu qual é o melhor, aquele por que está à espera. Guarda-o para o fim.
— Uau, é tão bonita! — exclama.
Exactamente o que ele queria: uma bola de couro, cosida. Uma bola de jogador profissional, azul e branca, ainda mais lisa e brilhante do que nos sonhos.
Tira-a da caixa, segurando-a com a ponta dos dedos, como se fosse de açúcar.
Kevin queria uma bola, porque Laurent, o seu vizinho, tem uma e nunca quer emprestá-la por muito tempo. No entanto, é muito menos bonita.
Quando jogam na praceta em frente às vivendas, sempre que Laurent começa a perder encontra um pretexto para se zangar. Pega na bola e vai-se embora. E, claro, o jogo acaba. É irritante.
De futuro, nunca mais ninguém poderá interromper a partida enquanto Kevin quiser continuar a jogar; nunca mais ninguém poderá suspendê-la contra a sua vontade.
Nunca se sentira tão feliz.
— Dá cá! — pede o pai, estendendo as mãos.
É a sua vez de agarrar na bola. Acaricia-a, fá-la saltar, que vontade de lhe dar uns bons chutos!
— Dá-ma — atalha rapidamente Kevin, que sabe o pai que tem. Quando este segura uma bola nas mãos, torna-se uma autêntica criança. É capaz de a estragar sem querer.
— Se querem jogar, vão para o jardim!
A mãe conhece-os bem, e já começa a recear pelos móveis e adornos.
Kevin não espera que lhe digam duas vezes e desata a fugir com o seu presente.
Nem sequer espera até chegar ao relvado. Ainda vai a meio do terraço e já quer experimentar a bola. Lança-a ao chão e estende as mãos para a apanhar…
Mas não apanha nada! As mãos estendidas ficam vazias. A bola não saltou.
Estatelou-se como uma goma sobre a tijoleira. Não voltou a mexer-se, ficou como que colada e mole. Dir-se-ia um marshmallow.
Espantado, Kevin baixa-se para pegar no seu tesouro. Espantado, mas não inquieto.
Esta bola não pode ser de má qualidade. Foi ele, Kevin, que a atirou mal… Ou então é a tijoleira do terraço que está pegajosa, provavelmente cheia de compota. Seja como for, tratou-se de um acidente que não voltará a acontecer.
Kevin limpa a bola e dá-lhe lustro. Observa-lhe discretamente todas as costuras mas, nada, está tudo perfeito.
A bola precisa é de erva. No relvado vai renascer.
Kevin afasta-se da casa e espera o momento de chegar a meio do relvado para atirar ao ar o seu brinquedo.
Lança a bola para o céu, o mais alto que lhe é possível. Orgulhosamente, vê-a descer, lisa, brilhante, azul e branca, bela.
Vê-a descer… e abater-se sobre aquele tapete de relva tão suave, sem o menor desejo de saltar e de se divertir.
Não há dúvida, esta bola tem algum defeito, há algo que não bate certo.

2

— Então! Não chores! É porque a bola não está suficientemente cheia. Acontece muitas vezes quando são novas.
Kevin tinha ido contar ao pai a sua desdita. Apesar dos esforços para se conter, os olhos estão cheios de lágrimas.
O pai enterra os fortes polegares no couro, que cede facilmente.
— O que é que eu dizia! Anda, vamos arranjar isto!
Kevin assoa-se e vai com o pai até à garagem. Está cabisbaixo, ainda não sorri, mas já recuperou a esperança.
O pai de Kevin é habilidoso. Na garagem, penduradas na parede ou guardadas numa gaveta, há ferramentas que permitem consertar tudo o que não funciona bem à face da terra.
— Não mexas! Sei que há uma bomba de ar em qualquer lado… Cá está, nesta caixa…
Introduz um tubo fino como uma agulha na bomba de ar e, com firmeza, segura a bola recalcitrante entre os joelhos. E depressa lhe devolve a boa cara que ela nunca deveria ter perdido.
— Anda, apanha-a, se fores capaz!
A porta da garagem abre para o jardim. O pai lança a bola com tanta força que esta devia saltar até à parede do fundo. Kevin corre atrás dela, a rir-se…
Mas não por muito tempo!
Cheia ou não, a bonita bola deixa-se ficar na relva, após dois ou três saltos ofegantes. Não chegará nunca à parede do fundo.
Mais uma vez a esperança morreu nos olhos de Kevin.
— Tens razão — constata o pai — algum defeito há-de ter, na verdade. Talvez um problema no couro, não compreendo… Guardei o talão de compra. Amanhã vamos à loja para a trocarmos, não te preocupes!
Kevin encolhe os ombros: — Amanhã, amanhã!
Não está preocupado, mas a festa, o seu aniversário é hoje, não amanhã! Com um pontapé furioso, atira aquele trapo mole para um canto, já que de nada serve.
Kevin decide esquecê-la. Afinal, tem outros brinquedos, brinquedos de verdade que gostam de se divertir, brinquedos de confiança.
Chegada a noite, ainda se sente tão zangado que continua a não querer ocupar-se daquele brinquedo tão decepcionante.
— Pode dormir lá fora, é o que merece.
Mas o pai não está de acordo.
— Não, não, Kevin. Vai buscá-la e guarda-a. Se a perderes
ou estragares, já não podes trocá-la.
É verdade. Kevin reconhece-o. O pai tem razão.
Vai buscar a bola. Empurra-a com o pé até ao terraço, como se fosse uma velha lata de conserva, depois pega nela sem qualquer cuidado. À entrada do quarto está o cesto da roupa suja. Atira-a lá para dentro.
— Dorme bem! — ironiza.
De agora em diante só quer esquecê-la, mas sente-se tão irritado que não é capaz de o fazer. Antes de se deitar, não consegue deixar de se virar uma vez mais para o cesto, onde a deixou:
— Não se admite o que fizeste, não se admite. No teu lugar, escondia-me. Não tens o direito de ser tão bonita, de brilhar, para depois não servires para nada quando contamos contigo. Não tens o direito de te esvaziares dessa maneira… Uma idiota, é o que tu és! Detesto-te!… Ainda bem que não te mostrei aos meus colegas. Que vergonha!… Mas não faz mal, não perdes pela demora. Amanhã vais voltar para de onde vieste, e nunca mais quero ouvir falar de ti!
Mais calmo depois destas duras palavras, Kevin deita-se e apaga a luz. Está tão cansado que adormeceria bem depressa se, por detrás dele, um estranho barulho se não fizesse ouvir.

3


Um estranho barulho, na verdade, como o de alguém a fungar, como o soluço abafado de uma criança. No meio da escuridão, Kevin ergue-se e aguça o ouvido.
— És mau! — escuta distintamente.
Desorientado, volta a acender a luz da mesa-de-cabeceira:
— Quem foi que falou, quem? — pergunta Kevin, cada vez mais inquieto.
— Aqui! — decide-se a dizer a voz misteriosa. — Aqui! Na tua bola!
De facto, a voz parece sair do cesto da roupa suja.
Kevin senta-se na beira da cama, virado para o cesto, sem se atrever a aproximar-se. É impossível, não consegue acreditar.
— Uma bola não fala! Uma bola não tem boca!
— Uma bola também não tem ouvidos e, no entanto, dirigiste-me a palavra, deste-me uma lição de moral durante um quarto de hora! Verdade ou mentira? Julgo até que me chamaste “idiota”…
— Escapou-me…
— Bem vês que não é assim tão simples.
Com os olhos encarquilhados e a boca aberta, quase sem respirar, Kevin fixa o recipiente.
— Vá, não fiques assim. Vou explicar-te. Mas, por favor, tira-me deste cesto de roupa suja.
Kevin obedece como um autómato. Aproxima-se e levanta a tampa. É de facto a bola que está lá dentro, a própria bola. Pega nela cautelosamente, com as pontas dos dedos mas, desta vez, é por ter medo dela. Com os braços esticados, leva-a até à cama e pousa-a em cima do colchão.
— Pára lá com essas fitas! Anda ajudar-me! — impacienta-se a voz.
Kevin dá um enorme grito, porque a voz já não vem de dentro da bola.
Um rapazinho da sua idade esforça-se por sair pelo minúsculo orifício da válvula. Já libertou a cabeça e os ombros.
Com as duas mãos apoiadas no couro, tenta soltar o resto do corpo, e é a voz dele que se ouve.
Kevin esconde o rosto. Já nem se atreve a olhar.
— Não! É demais! Vim parar à casa do rei dos medricas, ou quê? Anda ajudar-me, já te disse! Acho que fiquei preso.
Kevin ainda tem medo, mas sente-se envergonhado. Não pode continuar a tremer. Faz um esforço para se aproximar.
É verdade que o rapaz não é nenhum monstro. Com os cabelos muito negros e muito lisos colados à testa, é parecido com qualquer outra criança.
Kevin agarra a bola, segura nela com firmeza para a impedir de deslizar para os lados, enquanto o seu estranho visitante faz cada vez mais força com os braços.
— Assim, isso! Aguenta!
Faz tanta força que se liberta num rompante, de uma forma tão brusca como a rolha de uma garrafa de champanhe. Depois de um enorme trambolhão, dá consigo sentado, de costas contra a parede, a um canto do quarto.
Ri-se. Os dentes reluzem-lhe no rosto tisnado.
Kevin ri também. O medo desaparecera. O coração continua a bater-lhe acelerado, mas por causa do esforço e da emoção.
— É um caso sério sair de lá de dentro. Ainda bem que me ajudaste, se não, ainda lá estava.
Kevin encolheu os ombros. Concorda, sente-se até orgulhoso, mas nem sabe o que dizer. Não se pode falar tranquilamente, como se nada fosse, com alguém saído não se sabe de onde. Antes de mais, Kevin precisa de algumas explicações.
O rapaz compreende.
— Queres saber como cheguei até aqui? É normal! Vou explicar-te, conforme prometi.
Levanta-se e alisa a roupa amarrotada: uma longa túnica, uma espécie de camisa de noite. Satisfeito, senta-se confortavelmente com as pernas cruzadas, em cima da alcatifa. Kevin instala-se a seu lado, com as costas apoiadas na beira da cama.
Para começar, o rapaz apresenta-se:
— Chamo-me Iqbal… Tu, chamas-te Kevin. Ouvi o teu pai chamar-te assim.
— Ouvias tudo dentro da bola?
— Claro!
— E… (Kevin lembra-se dos seus pontapés furiosos) também sentias tudo? Devo ter-te magoado! Desculpa.
— Não te preocupes, já vi outras coisas bem piores no local onde trabalho! Aliás, foi por isso que fugi.
— Trabalhar… Fugir… Continuo sem perceber! Antes de mais, diz-me de onde vens.
— Venho de muito longe. Venho do país onde se fazem as bolas.

4


Kevin, que se instalara sensatamente junto do seu convidado, levanta-se de um salto, furioso:
— Estás a exagerar! Do país onde se fazem as bolas? Tretas! Julgas, se calhar, que na minha idade ainda acredito em contos como o da Branca de Neve e os sete anões? Que ainda acredito naqueles países extraordinários onde se diz que seres minúsculos fabricam os nossos objectos quotidianos? Obrigado, mas já passei a idade dessas tolices! Ando na escola e sei que os objectos são feitos em fábricas por máquinas e até por robots… Não tentes baralhar-me!
— Mas eu não estou a tentar baralhar-te. Juro que estou a dizer a verdade: as bolas como esta são quase todas fabricadas no meu país, um país de verdade. Os bocados são unidos com um fio e uma agulha enorme por crianças da minha idade. No que me diz respeito, não os contei, mas devo ter cosido seguramente uns milhares.
— Ah, bem… Desculpa, é que não gosto que me tomem por um imbecil.
Kevin acalma-se. Senta-se e repete:
— Desculpa! Explica-me agora porque razão fugiste e, principalmente, como.
— Porquê, é fácil de explicar. Mas como foi, já te previno, não é nada fácil. Nem eu consegui ainda perceber!
— Se não percebeste, então quero ouvir o que tens a dizer-me. Conta.
— Foi certamente por influência da minha avó. Ela é extraordinária! É velha, velha, e conhece coisas que tu nem imaginas… Olha, estamos aqui os dois a conversar, como se falássemos a mesma língua!… tenho a certeza de que se deve a ela.
— Estranho, de facto… Mas fala-me da tua avó!
— Ela ficou cega mas, com as mãos, continua a fazer milagres. Cura as queimaduras, afasta o mal. As pessoas vêm vê-la de muito longe, pagam para falar com ela… Gosto de me sentar à beira da minha avó, embora ela às vezes me assuste. Costumava dizer:
— Sinto o infortúnio pairar sobre ti! Tem cuidado.
Um dia, acrescentou:
— Ouve, se alguém quiser fazer-te mal, pronuncia esta palavra, só esta palavra, e serás salvo.
Advertiu-me com um ar tão trágico que a palavra ficou logo gravada na minha memória.
— Serviste-te dela porque queriam matar-te? Foi isso, não foi? — diz Kevin de imediato, impressionado com a história.
— De certo modo… O dono da oficina onde cosemos as bolas batia-me cada vez mais.
— Porque é que te batia?
— Apercebi-me de que ele era um ladrão… Tinha emprestado dinheiro ao meu pai, e o meu trabalho seria para o ajudar a reembolsá-lo. Trabalhava até rebentar e o meu pai também, mas a dívida não diminuía. Havia um ardil por detrás, ele era um ladrão.
— O patife!
— Dizes bem. Da primeira vez que quis protestar, começou a dar-me murros… Uma noite, vinguei-me, inundei-lhe o stock, os caixotes prontos para partir para todos os países do mundo.
— Bem feito!
— Talvez, mas ele ficou louco. Agarrou num pau enorme e atirou-se a mim. Senti muito medo e escondi a cabeça entre os braços. Pensei logo na minha avó, porque ela sempre me defendeu. Sem mesmo reflectir, a palavra que me tinha ensinado veio-me aos lábios. Gritei-a…
— E então?
— E então, vi-me em tua casa, dentro desta bola, e não era nada agradável: davas-me grandes pontapés na cabeça, porque eu não saltava — concluiu Iqbal a rir.
— Pára com isso! Tiveste muita sorte, ele podia ter-te matado!… Que palavra extraordinária é essa?
— Não é extraordinária, até nem quer dizer nada, a minha avó inventou-a com toda a certeza: Shabatsé.
Iqbal já tinha pronunciado a palavra quando se apercebeu que não o devia ter feito. E Kevin repete:
Shabatsé, é bonito, talvez que…
Não chega a terminar a frase. Torna-se de repente muito leve, começa a flutuar, a baloiçar. E grita:
— Iqbal!
Demasiado tarde. E imediatamente a seguir ao seu amigo, Kevin é aspirado para o interior da bola.

5

— Onde estamos? O que se passou?
Kevin sente medo, tem vontade de chorar.
— Regressámos à minha oficina — responde Iqbal. — Que horror!
Estão sentados no chão de cimento de uma divisão sombria, húmida e suja. À volta deles amontoam-se peles. É o couro que serve para fabricar as bolas. Cheira mal.
Shabatsé! Shabatsé! Shabatsé! — grita Kevin, desesperado.
— Não te canses! — advertiu Iqbal. — Já tentei, mas parece que a palavra perdeu todo o seu poder.
Kevin lança-se contra a porta… Está fechada à chave pelo lado de fora.
— O que é que nos vai acontecer? Não pedi para vir até cá! — gritou Kevin.
— Ninguém pediu para vir!
Não foi Iqbal quem respondeu. A pessoa que respondeu foi um rapaz ainda mais novo. Está de pé, ao lado de Kevin. Tem olhos grandes, muito tristes, mas sorri.
Não é o único a ter-se levantado e aproximado. Três, cinco, oito crianças mais rodeiam Iqbal, o recém-chegado, e o seu misterioso companheiro.
— De onde saíram? — inquieta-se Kevin.
— Trabalham comigo.
— E vivem aqui? Dormem aqui? Como é que fazem? Há ratos, não?
— Habituamo-nos. Os ratos não fazem mal.
— É nojento. O vosso patrão merece ser preso.
Ninguém se dá ao trabalho de concordar.
— E agora, o que vamos fazer?
Kevin mudou de tom. Começou a perceber. Já não se inquieta apenas por si próprio, mas por todas as crianças que o acaso apanhou numa armadilha, naquele buraco pestilento.
Iqbal queria responder, mas não teve tempo: a chave gira na fechadura enferrujada da única porta. Em pânico, as crianças desaparecem. Voltam a deitar-se e fingem que estão a dormir. O próprio Iqbal foge também, mas regressa; não tem o direito de abandonar Kevin.
O homem que entra é enorme, um brutamontes. Os olhos são tão frios como balas de espingarda:
— Ah! Estás aqui! Sempre voltaste! Onde te meteste? Não perdes nada pela demora!
Está prestes a lançar-se sobre Iqbal, quando de repente se imobiliza:
— E este, quem é?
Descobrira Kevin e compreendera que pertencia a um outro mundo.
— É meu amigo — murmura Iqbal.
— Teu amigo… Teu amigo…
O homem hesita. Hesita, tanto mais que Kevin já não é o mesmo. Não só tinha deixado de tremer como é ele agora quem ataca:
— Devia ter vergonha! O meu professor falou-nos de pessoas como você, mas eu não acreditava! Vou contar-lhe tudo e havemos de escrever ao ministro, ao presidente da República, ao vosso chefe de Estado! Vai pagar caro!
O homem de olhos cruéis hesitou apenas um instante. Desata a rir.
— Estrangeiro imbecil! Não vais contar a tua história a ninguém. Não voltarás a sair daqui. Vou reduzir-te a picado e hás-de ser comido pelos ratos.
Com uma só mão, agarra Kevin pelos colarinhos, levanta-o como se fosse uma palha e encosta-o à parede. Levanta a outra mão, fecha o punho, ganha o impulso necessário… Vai cumprir a ameaça, mas pára no último instante.
Volta-se, sem largar Kevin: o seu instinto de animal selvagem advertiu-o de que havia perigo nas suas costas.
Está cercado por um bando de crianças amotinadas, encurralado contra a parede.
Como seria de esperar, Iqbal e os companheiros encontram-se na primeira linha, mas os restantes vieram em socorro deles. São já trinta, quarenta, em filas cerradas, e cada vez chega mais gente. Empunham o seu instrumento de trabalho, uma temível agulha, tão afiada como um punhal. Mas mais inquietante ainda é o brilho dos seus olhos.
O homem nunca levará a melhor. Sabe-o bem, apesar da sua tacanhez. Pode varrer a primeira fila e, depois, a segunda. Como soldados prontos para o sacrifício, outros tomarão a vez. Mais cedo ou mais tarde será derrotado.
Para poder ver-se livre deles, prefere render-se.
Esquece Kevin, e levanta os braços.

6


As crianças não dão nenhuma hipótese ao seu carrasco.
Com a resistente corda que serve para coser as bolas, prendem-no de imediato e abandonam-no. Agora é cada um por si: todos se dispersam e fogem.
— Vamos ter com a minha avó. Só ela pode ajudar-te a regressar a casa — garante Iqbal a Kevin.
Para deixarem aquela cidade gigantesca, têm de caminhar durante horas antes de chegarem aos primeiros campos, sulcados por uma rede de irrigação.
Algumas frágeis barracas de madeira aninham-se no cruzamento de dois caminhos perdidos.
— É ali — declara Iqbal.
Indica-lhe uma das casas.
Entram na divisão única, sem ninguém, já que naquela altura a família está a trabalhar no campo.
A avó de Iqbal está sentada bem longe da entrada, no meio de um amontoado de tapetes.
— Estava à vossa espera! — afirma. — Aproximem-se, para eu vos ver melhor.
Para poder ver melhor, tal como diz, acaricia o rosto das crianças com as suas velhas mãos cheias de suavidade.
— Meu Deus, estão exaustos! Dá-lhe de beber! Recebe o teu amigo como deve ser.
Sobre uma braseira acesa algures, a água ferve. Iqbal prepara o chá. Serve-o a Kevin com toda a cerimónia.
— Sabes, avó, o homem quis matar Kevin. É preciso castigá-lo. Vais…
— Chiu!
A avó põe um dedo nos lábios. Pede a Iqbal que se cale, antes de continuar:
— Kevin, meu filho… Chamas-te Kevin, não é verdade? Não estou enganada? Descansa primeiro, restabelece-te de tantas emoções. Em seguida, quando estiveres preparado, pronuncia esta palavra: Namasté e voltarás para o teu quarto.
Kevin não se apressa. Acaba o chá, bate na mão de Iqbal, prometendo que tentará vê-lo de novo, embora não saiba como, pronuncia a fórmula e desaparece.

7

— Kevin! Kevin!
Kevin senta-se na cama, acordado em sobressalto pelo pai. Dormira toda a manhã.
— Levanta-te. A bola espera-te lá fora. Já não tem nada, salta como um cabrito.
— Que bola?…
Com os cabelos despenteados e os olhos pesados de sono, Kevin tem o ar de quem veio de outro planeta.
— Sabes? A tua bola supostamente estragada… Tive tempo de ir à loja. Está impecável. Devemos ter sonhado… Mas o vendedor tranquilizou-me. Tem havido ultimamente muitos problemas, muitas coisas estranhas a acontecer com estes produtos fabricados não se sabe onde… Até me falou de um punching-ball que acabou de receber. Sabes, aqueles grandes sacos de couro com que os boxeurs se treinam. Sempre que alguém lhes dá um soco, tem-se a impressão de que o saco chora e geme! Como se alguém estivesse fechado lá dentro! É estranho, não é?

 Jacques Vénuleth
Au pays d’Iqbal
Paris, Ed. Magnard, 2001
tradução

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Missão num mundo globalizado

Outubro 1, 2007 · 1 Comentário

Missão num mundo globalizado

A Europa parece ter descartado Deus, e com ela o resto do Ocidente e uma boa parte do mundo. Porque, ao mesmo tempo que a globalização difunde até aos confins do planeta novas técnicas e novas formas de sujeição económica, espalha igualmente novas formas de estar, sentir e pensar.

«Agnose» é um neologismo usado por Anton Houtepen num livro recente, God: An Open Question (Deus: Uma Questão em Aberto), no qual o autor o compara com o mais tradicional termo «agnosticismo» para descrever a condição específica da Europa e do Ocidente de hoje. Enquanto o «agnosticismo» significaria «uma atitude básica com fundamentação teórica que encara qualquer referência a Deus como um impossível e desnecessário acrescento ou duplicação do conteúdo do conhecimento humano, e que, por isso, pretende manter Deus fora da ciência e da política», a «agnose» indica «um processo muito mais difuso, no qual Deus e a referência a Deus têm desaparecido lentamente da consciência».

Numa palavra, a sociedade europeia da actualidade tem levado ao abandono de Deus. Não é somente uma questão de escolha pessoal, e não está limitada a uma menor frequência da Igreja ou a um envolvimento reduzido na vida da comunidade cristã. Representa, antes, um fenómeno cultural, que afecta todas as formas do quotidiano: «Pensar de forma diferente, sentir de forma diferente, agir de forma diferente em todas as esferas da vida, incluindo os seus limites, nascimento e morte.» A «questão Deus» parece ter desaparecido do horizonte da vida humana. E mesmo aqueles que ainda continuam a ter uma prática religiosa tomam parte neste novo clima cultural de diversas formas.

Um novo império

A partir do Ocidente, particularmente desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, uma nova ordem socioeconómica e política tem vindo a ser estabelecida, e tem todas as características de um império de tipo novo, nunca antes experimentado na História. A interligação económica de todos os seres humanos em todo o planeta tem lugar através de um fluxo de capital cada vez mais livre, formando assim um mercado global e, sistema financeiro único, conjugado e sustentado por uma rede global de comunicação e que se concretiza numa dispersão da manufactura de produtos únicos a ponto de se aproximar de uma indústria global. Neste sentido, o novo império está em toda a parte, sem nome nem território específico. Este desenvolvimento, mais do que uma neutra transformação económica, atesta o poder de decisão do factor económico nos processos históricos. O chamado «mercado livre»/«comércio aberto» transforma-se na ideologia do capitalismo neoliberal ou «capitalismo total», realça Milton Friedman. Alguns autores falam de cultura do economismo (como R. Esteban e J. Collier) ou, antes, de uma anticultura (Aylward Shorter). Aqui, o «mercado» é visto como uma força hegemónica e auto-reguladora, o «mercado racional» surge para controlar todos os comportamentos e o factor económico é absolutizado. O próprio ser humano é reduzido a uma única dimensão: o homo economicus, o homem económico.

Um círculo vicioso

A complexidade da vida permanece encerrada no círculo da produção-consumo com o lucro como a razão principal do sistema. O mercado e o economismo são propagandeados como a solução mágica para todos o: problemas e estão a adquirir, de certo modo, o estatuto de um ídolo, quando deveríamos, na verdade, falar de «um círculo vicioso diabólico». A tecnocracia dos meios de comunicação, monopolizados pelas forças do mercado, transforma esta cultura num filtro no interior da consciência pública, por meio de uma espécie de lavagem ao cérebro cultural, «pese embora a auto-imagem democrática dos meios de comunicação», sublinha Shorter.

As próprias culturas não ocidentais são atraídas para este vértice eurocêntrico: a monocultura do economismo prejudica as culturas do mundo, ameaçando a sua própria existência e levando a conflitos civilizacionais. O que é mais dramático e directamente pertinente para a «questão Deus» é o facto de a força fundamental deste novo império capitalista ter raízes na tecnologia/disciplina do «desejo»; o desejo humano, como o poder mais profundo pelo qual os seres humanos podiam abrir-se a Deus, é manipulado por uma tal força competitiva que «é submetido às exigências da produção do mercado” defende Daniel M. Bell Jr.

Desta maneira, o domínio capitalista adquire uma espécie de carácter «ontológico», um modo de ser, de existir. Num plano mais social, numa sociedade de mercado todos são consumidores-produtores. Primeiro «consumidores», e a liberdade de «escolha é o supra-sumo na economia de mercado. Mas à «liberdade» de escolher como «consumidores» corresponde a «escravização» às exigências do mercado como «produtores».

Por fim, todos são vistos como vendedores de trabalho. Até mesmo a «classe média» e a burguesia, os verdadeiros agentes da modernidade, irão desaparecer. A sociedade do mercado global será formada por um muito pequeno grupo de gente muito rica contra uma grande maioria de pessoas cada vez mais empobrecida.

Num plano individual, a pessoa é para o mercado uma «unidade de produção». Que permanece indefinidamente irrelevante. O sentido de «vocação» pessoal perdeu-se na sequência dos papéis económicos desempenhados pelo indivíduo. O significado de «valor» é redefinido: a consciência do «valor» permanece forte como sempre, mas como valor de mercado «quantificado».

Viajantes sem objectivos

Se pusermos agora lado a lado os dois aspectos que caracterizam a condição actual da sociedade europeia e ocidental, isto é, a sua dialéctica «mentalidade moderna/pós-moderna» e o mercado dominante, a imagem do errar nómada afigura-se adequada. Apesar do que deveria ser um conflito interno e de algumas das reais manifestações de descontentamento da pós-modernidade com a globalização, em certo sentido, os dois convergem. Diversos intelectuais têm assinalado, de diversas maneiras, esta ligação. O teórico e crítico literário norte-americano Fredric Jameson relaciona os sintomas da situação pós-moderna com a formação da cultura da sociedade capitalista actual.

David Harvey, por sua vez, relaciona a ascensão das formas culturais pós-modernas com a emergência de modos mais flexíveis de acumulação de capital. O capitalismo, nas suas infinitas modulações, apropria-se da maneira de ser pós-moderna; o mercado livre e a pós-modernidade coincidem no desenfreado estilo de vida pós-moderno que liga bem com a mentalidade facilitista da sociedade de consumo. De um ponto de vista sociológico, o indivíduo pós-moderno da Europa dos nossos dias é construído tanto pela crise da modernidade como pelo desenvolvimento da sociedade do mercado livre com a sua flexibilidade de papéis económicos.

As pessoas pós-modernas são moldadas como «optantes», saltitando de experiência em experiência, acumulando sensações e procurando o prazer. São «viajantes», mas sem um objectivo definido a atingir. Para o pensamento pós-moderno, a História como uma viagem com um sonho e um desígnio em certo sentido acabou; neste contexto, a única tarefa «é a de abjurar e reinterpretar interminavelmente a ausência de uma fundação (quer seja Deus quer seja humana) na qual a compreensão da realidade foi estabelecida outrora», como defende Tiziano Tosolini. Isto leva o sociólogo Zygmunt Bauman a afirmar: «O ponto central da estratégia da vida pós-moderna não é a construção de uma identidade, mas o evitar ser constante.» E Georges De Schrijver pode dar a seguinte imagem das pessoas pós-modernas: «Libertaram-se com êxito da força centralizadora das normas e estruturas invariáveis.» Têm a coragem de desafiar o papel da «monotonia» e combinam a dança da encantadora dispersão, desta maneira desfrutando a «intolerável frivolidade da existência». «Atentos às diferenças e errando divertidamente no labirinto dos sinais sempre mutáveis, celebram a sua fuga ao controlo total da presença completa […] As pessoas pós-modernas já não sentem necessidade de construir pilares estáveis para pontes que cruzam as areias movediças dos acontecimentos efémeros.»

Turistas e vagabundos

A imagem que melhor se lhes ajusta é talvez a dos turistas, vagueando «de centro comercial para centro comercial, de um local exótico para outro», desta para aquela experiência, até à fantasia da realidade virtual: «O seu deambular não é rectilíneo, antes errático através de séries de episódios sem passado nem consequências.» Seja como for, o «errar nómada» da sociedade pós-moderna do mercado global não é apenas o dos «turistas». O mundo dos «turistas» é perturbado pela irrupção dos vagabundos, isto é, os «proscritos» e os «excluídos», os desempregados e os sem-abrigo, os que pedem asilo e os imigrantes: estes «são os viajantes a que recusaram o direito de se tornarem turistas», afirma Z. Bauman.

Eles são as vítimas do mundo pós-moderno e do mercado global. O capitalismo tardio e a economia globalizadora activam novos mecanismos de exclusão. A experiência da «ligação/interligação», que transforma o mundo numa aldeia global, caminha a par da experiência oposta da «exclusão»: muitos são parte do mundo globalizado apenas porque se tornam ferramentas descartáveis para o mercado e são bombardeados pelos média com os ícones da cultura da globalização. Na realidade, a aldeia global contrai-se e conduz muitas pessoas para fora do sistema.

Uma nova escravidão

Um novo tipo de escravidão surge, focada nos grandes lucros e nas vidas baratas. Neste contexto, o ideal pós-moderno da descentralização e da tão exaltada heterogeneidade mostra todas as suas ambiguidades. A vida pós-moderna é uma vida numa «sociedade dual», defende G. De Schrijver.

Para Joerg Rieger, «enquanto o fosso entre os ricos e os pobres continua a aumentar, a pós-modernidade tende a erodir um sentido para aqueles que falham logo à partida». No meio de todas as diferenças, eis a «diversidade» do povo sofredor. Esta outra «diversidade» poderá ter todos os potenciais para se tornar a estimulante revelação da face do Deus Crucificado no meio da Europa dos nossos dias.

Um mundo em fuga

É também verdade que o homem e a mulher europeus definham sob a perda de sentido e a ansiedade do vazio pós-moderno. Além disso, não apenas os turistas pós-modernos estão debaixo de uma pressão constante para evitar o perigo de «oportunidades perdidas», como também a irrupção de vagabundos no seu cenário os faz compreender a fragilidade da sua própria situação, como se poderão vir a tornar vadios. Isto também faz parte da mobilidade do mercado. Assim, não importa a sua presente posição na sociedade, a pessoa pós-moderna é sempre confrontada novamente com a insegurança existencial.

A necessidade de segurança é também uma das razões pelas quais as sociedades pós-modernas se tornam Estados policiais. Apesar de tudo, o mundo global é um «mundo em fuga», afirma o sociólogo Anthony Giddens, isto é, um mundo sem um sentido partilhado do devir da nossa História, enfrentando na verdade um novo tipo de risco, os «riscos fabricados», tais como o aquecimento global, a poluição, o mercado instável, as consequências imprevisíveis da engenharia genética… Ignoramos os efeitos do que estamos a fazer e para onde vamos: o que provoca uma profunda ansiedade. A questão crucial aqui é se tudo isto facilita o caminho para uma nova religiosidade. Genuíno, o desencanto do homem e da mulher pós-modernos encarna num apelo a algo que poderá ser realmente diferente e novo. De facto, um desejo de uma experiência de transcendência e especialmente de espiritualidade está a tornar-se tão óbvio numa pluralidade de movimentos que povoa o mapa da Europa dos nossos dias e do Ocidente em geral. Alguns julgam identificar nisto um regresso ao sagrado e à religião. Outros, contudo, duvidam que seja o caso. Demasiadas vezes este aparente ressurgimento da nostalgia religiosa permanece confinado e de uma maneira ou de outra aprisionado na esfera do indivíduo ou é canalizado para movimentos que ficam nas margens da sociedade, f ignorando não só a crítica à modernidade da religião como os duros factos do mercado, quando eles não caem no esoterismo ou mesmo no fundamentalismo. Continua igualmente incerto de que maneira a agora chamada experiência religiosa e a procura de espiritualidade podem ser interpretadas num sentido teísta e como poderia levar ao Deus pessoal do Cristianismo. Apesar destas ambiguidades, estes vários ressurgimentos teístas de movimentos espirituais são significativos como sintomas de um mal-estar que se alastra e sinais de fome espiritual, e merecem uma mais cuidadosa atenção em relação com a questão de Deus.

Benito de Marchi

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Globalização a pedir reformas

Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário

Globalização a pedir reformas

Globalização. A palavra entrou definitivamente no nosso vocabulário. O tema está no topo da nossa agenda política e social. Está tão presente em tudo, que se torna difícil defini-la em poucas palavras. Mas todos sabemos do que se trata, pelas consequências que está a ter no nosso dia-a-dia quando ligamos a televisão, usamos o computador, vamos às compras ao supermercado ou descarregamos música para ouvir nos aparelhos mp3, vemos o desemprego e a inflação a subirem.

A realização, no Quénia – em Nairobi, de 20 a 25 de Janeiro –, do Fórum Social Mundial veio colocar de novo a reflexão sobre a globalização no centro das atenções. Na capital africana, os críticos da globalização prometeram discutir de novo as grandes questões que levanta, como a economia sustentável, a criação de estruturas políticas mais participativas, a democratização da ciência e da informação, o direito à diversidade e a luta contra a discriminação que afecta os países pobres.

Sem esquecer, naturalmente, os países africanos. Que estiveram particularmente em foco devido ao debate de temas incontornáveis como a epidemia da sida, a resistência a novos colonialismos, a emigração africana. A atenção à natureza caracterizou também esta edição do FSM, com a denúncia do impacto negativo que a globalização está a ter na ecologia e nos recursos naturais.

Regras do mercado

Em Portugal, os efeitos da globalização voltaram recentemente à ribalta devido ao desemprego provocado pela onda de deslocalização de empresas de montagem de automóveis. Não há muito, tinha estado em causa o fecho em cadeia de empresas têxteis devido à abertura do mercado nacional aos produtos asiáticos, chineses em particular.

Na globalização da economia, as empresas vão parar onde os salários são mais baixos e a produtividade é maior, e os produtos inundam os mercados independentemente da sua origem. No Natal passado, o Pai Natal veio nos navios contentores, da China, com todo o tipo de produtos de consumo destinados aos mercados europeus. Continuamos assim a sentir entre nós os efeitos da globalização económica. Mas o que para uns é negativo, como o desemprego, poderá ser positivo para outros – emprego, remuneração atractiva, ou produtos a baixo preço –, ao menos por algum tempo.

É na economia onde mais se fazem sentir os efeitos «negativos» da globalização, o que leva muitos a identificar o fenómeno da globalização com o capitalismo global, numa redução simplista. Mesmo se os efeitos negativos na economia são aqueles que aparentemente mais directamente afectam a vida dos povos e das nações, não se deve cair no erro de identificar a globalização com o funcionamento da economia de mercado que a globalização permite e fomenta.

Economia não chega

O capitalismo global, como bem reconhece o economista Amartya Sem, Prémio Nobel da Economia em 1998, procura expandir uma economia de mercado e não se preocupa nada em promover a democracia política e social, o acesso ao ensino e à saúde, a proliferação de oportunidades para os mais pobres. Por isso, e apesar de a globalização ter muito a oferecer aos países pobres, os que protestam contra ela têm razão nas preocupações que avançam. A economia de mercado não chega nem se pode deixar cavalgar livremente. Há que encontrar mecanismos que a tornem mais inclusiva. É necessário encontrar condições para distribuir melhor a riqueza criada e desenvolver mais os recursos humanos disponíveis em cada país.

A simples globalização do mercado, por si só, é insuficiente para garantir o autêntico desenvolvimento humano, das comunidades e das nações. É fundamental, por isso, fomentar uma sensibilidade atenta a estes problemas éticos e morais, e dar corpo a instituições que favoreçam uma distribuição mais justa dos benefícios trazidos pela globalização da economia. Os críticos da globalização, que passaram das palavras aos actos com iniciativas no campo da «finança ética» e do «comércio justo e solidário», estão a mostrar que é possível encontrar respostas concretas para aproveitar positivamente a globalização e corrigir as injustiças da economia de mercado. Na Europa, as iniciativas do «comércio justo» têm vindo a crescer significativamente: existem já mais de três mil lojas e uma centena de importadores que beneficiam mais de cinco centenas de organizações de produtores em 58 países em vias de desenvolvimento.

Marca ocidental

Na sociedade global, a revolução nos meios de comunicação criou um contexto aberto que facilita a circulação dos bens, da técnica e da ciência, do capital e das pessoas, que trouxe à humanidade em vários locais do globo níveis de desenvolvimento e bem-estar nunca dantes conseguidos, como se está a verificar, por exemplo, em algumas regiões da China, na Índia e no Vietname. Historicamente, a humanidade conheceu outros momentos de intercâmbio que favoreceram o desenvolvimento através das viagens, das migrações, das trocas comerciais, das influências culturais. Mas nunca com a intensidade e a extensão com que, hoje, a sociedade global aproxima as nações e os povos, promove a tecnologia e o desenvolvimento.

Outra nota característica: de momento, este processo está a ser liderado pelo mundo ocidental, a Europa e a América do Norte. Neste sentido, vivemos numa época caracterizada por uma globalização de marca ocidental, o que leva a que algumas instâncias e críticos vejam a globalização como um processo de colonização e domínio ocidental – ou seja, um regresso, por via do domínio económico, aos colonialismos e imperialismos de outrora.

Mas a verdade é que a globalização como tal não é apanágio da nossa época: verificou-se noutros períodos da História, como no Renascimento. Nem é ocidental por natureza: no final do primeiro milénio houve um intercâmbio cultural, uma globalização da ciência, da tecnologia e da matemática, que se ficou a dever aos países árabes. Nem é necessariamente uma maldição: pode trazer benefícios a todos os países que nela intervêm.

Por isso, pode-se concluir que a globalização é um património inerente a todos os povos e culturas que promovem um intercâmbio. Porém, se não faz sentido recusar a globalização da economia e da técnica porque trazem a marca ocidental, também não faz sentido promover uma globalização que ignora as riquezas culturais dos povos do Oriente e da África, que tanto poderão contribuir para uma civilização global que seja realmente património de todos.

Males a superar

Os críticos da globalização insistem que, na prática, o que se está a globalizar é o «capitalismo irresponsável», que beneficia os ricos à custa dos pobres e que abre o mundo ao apetite devastador da tecnologia materialista que explora sem critérios os recursos da natureza. As consequências das fugas de capital de um país para o outro e das crises financeiras são por todos conhecidas. Lembramos as que afectaram alguns países da Ásia, o México e a Argentina, deixando atrás de si ciclos fatais de desvalorização das moedas, de inflação galopante, que se traduziram para as pessoas comuns em desemprego, perda do poder de compra, queda de qualidade de vida. A excessiva exploração dos recursos naturais, os danos causados à natureza e os desastres ecológicos estão à vista, a pedir correcções de percurso e instrumentos de controlo.

As nações, os organismos internacionais e as companhias multinacionais, que lideram o processo da globalização económica e técnica, impõem preços e regras de comércio, que os beneficiam em primeiro lugar e não têm em conta regras elementares de justiça e equidade na distribuição dos benefícios nem um desenvolvimento global justo e benéfico para todos. Países e companhias multinacionais desfazem-se de produtos de qualidade duvidosa e descarregam-nos em países com pouco poder de compra, num sistema de comércio desleal que só serve os seus interesses e adia o desenvolvimento sustentável dos países pobres. Esta situação está a condicionar negativamente, por exemplo, o desenvolvimento do continente africano, que tem sido mantido à margem dos benefícios da globalização.

Pessoas e armas

A este rosário de malefícios da globalização, há que acrescentar o mais fatal de todos: o comércio de pessoas e de armas. A globalização multiplicou os efeitos nefastos destas actividades. O fenómeno do comércio e escravidão de pessoas está a adquirir proporções alarmantes na Europa, com máfias a aproveitarem a pressão da imigração que busca no continente uma saída para a falta de oportunidades nos países da América do Sul, da África e da Ásia. Um fenómeno que escraviza milhares de pessoas na indústria do sexo e na economia paralela. As denúncias, felizmente, não têm escasseado. Mas a opinião pública já não estará tão atenta ao gravíssimo problema do comércio de armas, de que se fala menos e que assume uma nova dimensão com a globalização.

Neste caso, o problema mais grave é que a finança mundial está dependente do fabrico e do comércio das armas. As nações que têm assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas são responsáveis por 81 por cento do comércio e das exportações de armamento. Os países do G8 são os fornecedores de 87 por cento das armas existentes no mercado mundial, com os Estados Unidos da América a superarem a fasquia dos 50 por cento. Cerca de 68 por cento da exportação de ar mas americanas vai para os países em vias de desenvolvimento. Não admira, por isso, que se tenham multiplicado as guerras civis e os conflitos tribais na África, por exemplo, e que o comércio das armas neste mundo globalizado ponha tão dramaticamente em causa o desenvolvimento e a paz de tantos países no Sul do mundo.

Como não admira que a corrida aos recursos naturais se esteja a tornar uma fonte de conflitos armados, alimentados pelas armas tão facilmente disponíveis no mercado mundial. Os países que defendem a globalização têm por isso uma grande responsabilidade numa situação que subverte a democracia, impede o desenvolvimento e viola os direitos humanos em algumas das zonas mais carenciadas do mundo.

Acordos globais

A globalização veio para ficar, mas precisa de reformas. São precisos novos acordos globais para regular o fluxo dos capitais, o funcionamento do mercado, tanto a nível nacional como supranacional. As deficiências da situação actual necessitam de ser corrigidas, com instituições que imponham critérios de maior justiça na distribuição dos benefícios da globalização. Esta é a questão fulcral, que deve empenhar governos e sociedade civil, pois dela depende o futuro de todos, e a paz entre as nações.

Manuel Ferreira

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