Entradas marcadas como ‘José Saramago’
A COMPREENSÃO SEGUNDO SARAMAGO
Janeiro 7, 2008 · Deixe um Comentário
Categorias: A existência dos outros · História/Estórias · Ligações · Memória Futura · Opinião · Os Mágicos · Política
Tagged: José Saramago, Política
José Saramago em Janela da Alma
Outubro 2, 2007 · Deixe um Comentário
Categorias: Os Mágicos
Tagged: Janela da Alma, José Saramago
José Saramago
Outubro 2, 2007 · Deixe um Comentário
Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora!
Arranjo de Soares Feitosa
Vem aqui, Tomé,
vem comigo até a borda da água,
vem ver-me fazer uns pássaros
com esta lama que colho…
Repara como é tão fácil,
formo e modelo o corpo
e as asas;
afeiçôo a forma da cabeça
e do bico; engasto estas pedrinhas
que são os olhos;
ajeito as penas compridas
da cauda;
equilibro-lhes as pernas e os dedos
e tendo feito
este, faço mais onze;
aqui os tens, um dois, três
quatro, cinco, seis, sete, oito,
nove, dez, onze, doze pássaros
de lama…
Imagina, até, se quiseres,
dar-lhes nomes: este é Simão,
este é Tiago, este é André, este é João, e este,
se não te importas, chamar-se-á
Tomé.
Quanto aos outros vamos esperar
que os nomes apareçam;
os nomes, muitas vezes, atrasam-se
no caminho, chegam
mais tarde…
E agora vê como faço — lanço esta rede
por cima das avezinhas
para que elas não possam fugir, os pássaros…, se
não temos cuidado.
Queres dizer-me que se esta rede
for levantada os pássaros fogem?
Esta é a prova com que querias
convencer-me?
Sim e não!
Como, sim e não?
A melhor prova, mas essa
não é de mim que depende, seria
não levantares tu a rede e acreditares
que os pássaros fugiriam se a levantasses.
São de barro, não podem fugir.
Experimenta! Também Adão,
nosso primeiro pai, foi de barro e tu
descendes dele.
A Adão deu-lhe vida Deus!
Não duvides mais, Tomé! Levanta a rede, eu sou
o Filho de Deus.
Assim o quiseste, assim o terás,
estes pássaros não voarão!
Com um movimento
rápido, Tomé levantou
a rede, e os pássaros,
livres, levantaram vôo, chilreando,
duas voltas
sobre a multidão maravilhada
e desapareceram no espaço.
Disse Jesus:
Olha, Tomé, o teu pássaro
foi-se embora.
E Tomé respondeu:
Não. Senhor, está aqui ajoelhado a teus pés,
sou eu.
“Versificação”, a partir do ritmo cardíaco e do batimento respiratório (uma “viagem”, como se, entre os olhos e o ouvido
médio) de um texto de Saramago, in O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Companhia das Letras, 31ª reimpressão, páginas 398/399, sem nenhuma alteração a mais ou a menos que a mera arrumação em versos e estrofes. Nem preciso mencionar que este texto em Saramago (aliás, o Evangelho inteiro) é um bloco compacto, com mínimas “cesuras” por vírgulas e nada mais.
Prosa e poesia seriam, assim sem mais nem menos, a
mesma coisa? Sim e não, aliás, sim… desde quê. E por favor bote muitos desdes-quês nessa história. De fato, é possível “metrificar” Euclices da Cunha, Guimarães Rosa, José de Alencar, Clarice Lispector e não muito mais que uns cinco gatos pingados. Da mesma forma, excelente “prosa” em… Álvaro de Campos. É só tentar… desde quê.
Soares Feitosa
Categorias: Poesia
Tagged: José Saramago, Poesia














