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Entrevista de Mário Crespo a Lobo Antunes

Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário

Categorias: Entrevistas com Escritores · Memória Futura
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A insónia criativa de Lobo Antunes

Outubro 11, 2008 · Deixe um comentário

A insónia criativa de Lobo Antunes em livro novo

A insónia criativa de Lobo Antunes em livro novo


JOÃO CÉU E SILVA no DN.

Lançamento. ‘Arquipélago da Insónia’ Em muitas madrugadas recentes, António Lobo Antunes toma um comprimido para dormir ou senão passaria essa parte do tempo, em que deveria estar a dormir, a “corrigir o livro que está a escrever”. Já não se trata do volume O Arquipélago da Insónia, que está à venda a partir de hoje, mas do próximo livro cuja primeira versão quer ver concluída ainda este ano.

Mas se as suas noites não são de insónia, tal não quer dizer que viva fora do seu arquipélago porque, mais do que nunca, o escritor está a viver para os livros… Livros? É que, apesar de serem catalogados como romances, Lobo Antunes afirma que não tem a certeza de estar a escrever este género literário! Será mais uma outra coisa, que possui essa característica, mas por se exigir a si próprio cumprir-se como escritor que faz algo para além do seu tempo e que, como confessa, não o torne uma unanimidade antes de um futuro, momento em que a revolução que pretende inscrever nas suas obras só então possa ser realmente compreendida. Talvez, por isso, quando recebe mais um dos muitos e importantes prémios literários – como tem acontecido – receia que essa unanimidade seja mau prenúncio para o que pretende pôr na estante da literatura.

O mais recente livro é o 20.º título que publica se excluirmos os três volumes de Crónicas e as Cartas da Guerra que as suas filhas recolheram e editaram. Desde Memória de Elefante que António Lobo Antunes percorre uma vida literária que no próximo Verão irá celebrar trinta anos. Pelo meio ficou um ciclo inicial de três obras que expurgam as suas feridas da Guerra no Ultramar; um volume – Fado Alexandrino – que o seu pai considerou definitivamente um romance; uma primeira trilogia de romances psicanalíticos – desde o Tratado até Carlos Gardel - sobre vida e pessoas triviais; uma segunda série de romances de grande fôlego como O Manual os Inquisidores e O Esplendor de Portugal até que o autor entrou numa retratação mais intimista da sociedade portuguesa (aquela que vigora nas cidades), fixando algum do cosmopolitismo nacionalista e português como cenário para o florescimento das personagens bastante vezes desprovidas de nome e de caracterização. Pelo meio, ficaram as colectâneas de crónicas que tanto seduzem os (proto) leitores de Lobo Antunes e, a ultimar a sua mais recente fase, livros de uma maior e inesperada cumplicidade com o tempo em que vive, como é o caso de O Meu Nome É Legião, onde pontuaram jovens delinquentes de que a primeira notícia da sua existência poderia ter estado nas páginas de crime dos jornais.

Em O Arquipélago da Insónia (ler texto em baixo), o autor regressa geograficamente a dois panoramas naturais que lhe dão prazer: o bucólico interior de um Ribatejo cujo rio que o atravessa desagua na Trafaria. É aqui, nestas duas localizações, que prende as personagens ao correr de uma divisão em três partes e fá-lo em apenas metade do espaço que habitualmente dedica à sua narrativa: 263 concisas páginas.

Para o leitor habitual de Lobo Antunes, esta diminuição gráfica do que fica registado entre as duas capas poderá ser uma surpresa mas, como diz o escritor – que tem o desejo de colocar nesta medida a “vida toda” -, quer chegar à última palavra (“nunca”) sem jamais se sentir fora daquilo que é o resultado da experimentação literária por que tem lutado.

Em O Arquipélago da Solidão o autor faz um quase travelling cinematográfico que se cola/sobrepõe a um exercício de estilo literário ainda mais inovador do que tem entregue aos leitores na última fornada de títulos, com uma ou outra excepção, que terá origem no mundo particular de um autista, não se desobrigando o autor a utilizar todas as ferramentas necessárias à análise histórica e social que fizeram o século XX. |

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Lobo Antunes em entrevista

Julho 23, 2008 · 1 Comentário

É um livro mais curto, com um registo mais rápido que os anteriores. Deixou de gostar daquelas longas «sinfonias»?
Não tem nada a ver porque, como leitor, continuo a gostar de romances grandes. A questão é que, a partir de agora, os meus livros vão sendo sempre cada vez mais curtos. Não sei explicar porquê – o livro acaba por ter a dimensão que ele próprio exige, é ele quem comanda.

Conhece bairros periféricos de Lisboa como o que retrata?
O livro refere-se a um bairro em concreto, embora eu nunca lá tenha estado. Sempre me impressionou o facto de aqueles miúdos não terem raízes de espécie alguma. Não são portugueses, não são africanos, não são nada. Brincam com balas em vez de brincarem com bolas. E no entanto há neles uma sede de ternura, um desejo de amor absolutamente inextinguível. A morte e a vida não têm, para eles, qualquer significado ou, pelo menos, têm um significado muito diferente do que para nós. Na minha ideia, O Meu Nome É Legião era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à procura de uma razão de existir.

Revê-se naqueles garotos?
Quando começo a escrever um livro, não tenho qualquer plano. Aqueles garotos, aqueles polícias e, no fundo, todas aquelas vozes vão-se encadeando de tal modo que sou o primeiro a ficar espantado. Não posso, no entanto, dizer que me revejo neles porque, naquele momento, éramos só uma e a mesma coisa. Uma espécie de relação simbiótica.

Eles estão excluídos deste mundo?
Estão de tal maneira abandonados que matar pessoas é a única maneira que têm de pedir colo. Não sei, porém, o que se passa na realidade, uma palavra idiota porque a realidade é uma coisa que não existe. Todas aquelas pessoas têm, para mim, uma densidade muito profunda.

E, nessa medida, o livro também é uma realidade?
É a única realidade que existe. Não se trata de viver noutro planeta, mas a verdade é que, quando estou a escrever, a minha vida muda por completo. Encontro uma razão, um motivo e uma direcção. E é óbvio que dou muito mais importância aos livros do que às crónicas, que são apenas…

…uma questão alimentar, como costumava explicar.
Não, já não. São antes a possibilidade de poder fazer uma espécie de itinerário paralelo. Como quando, em miúdo, andava com o meu avô em estradas paralelas à via férrea, ficando com a sensação de viajar, ao mesmo tempo, no automóvel e no comboio.

Diz que não conhece aquele bairro…
Não conheço aquela realidade do ponto de vista jornalístico.

Mas sempre gostou de subúrbios.
Aquilo não é sequer um subúrbio. Para mim, o subúrbio é Benfica ou o Cacém. Aquilo é muito pior do que isso. Aquilo é o inferno. Aquelas pessoas vivem num inferno onde eu nunca entrei.

Foi ganhando carinho por aquelas personagens?
Não sei se os leitores entenderão que o livro está a transbordar de amor. Custou-me muito que aquelas personagens morressem. Repare que até o professor não é muito diferente dos garotos – todos estão terrivelmente desamparados. Sempre me comoveu ver o desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo, numa certa desprotecção.

Mas essa não é uma característica apenas do último livro.
Obviamente que não. Lembro-me de começar a escrever Explicação aos Pássaros na Alemanha, em casa da tradutora que tinha na altura. Convencido de que estava a fazer um romance completamente diferente, mostrei-lhe as primeiras linhas e ela disse-me que não via ali nada de diferente: «És tu.» Não consigo fugir disto – há sempre é um «outro eu» que escreve. Como quando aquele admirador da Sarah Bernhardt a encontra na rua e pergunta: «É a dona Sarah Bernhardt?» E ela responde: «Serei esta noite.»

Ficou comovido com o acolhimento que teve agora em Berlim, no Festival Internacional de Literatura?
Comovido é uma palavra exagerada. Agora, a qualquer lado onde vá, é sempre assim. Torna-se um pouco incómodo porque estive o dia inteiro a dar entrevistas no hotel e, quando saí, havia uma série de pessoas cá fora. Queriam um autógrafo não num livro, mas num pedacinho de papel. Como se eu fosse o Enrique Iglesias.

E com o Prémio Camões, que recebeu no princípio deste ano, ficou comovido?
Agora, de três em três meses, recebo um prémio. Antes, tinha vindo o Prémio Ibero-Americano, depois veio o Camões e, há dias, chegou o Neruda. É muito agradável recebê-los, mas um prémio nada tem a ver com a literatura na medida em que não melhora nem piora os livros. Um prémio é só um prémio.

Faz sentido voltar a falar no Nobel?
Nem penso nisso. Agora menos que nunca.

Porquê?
Porque há coisas muito mais importantes. Tenho a certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer Nobel que me possam dar. Mas não me queria alongar sobre esse assunto, porque me parece que se dá excessiva importância a um prémio literário. Tolstoi e Conrad nunca o tiveram. E eles é que são os meus colegas.

Sente-se bem na companhia deles?
Não estou nada mal [sorrisos].

Até se ri…
Sabe, este foi um ano muito duro para mim. Para além de ter recebido constantes lições de dignidade e de coragem por parte de pessoas anónimas, aprendi a ter ainda mais respeito e admiração pelos portugueses. Compreendi porque é que fomos nós a ir naqueles barquinhos de 14 metros sem quilha, porque é que atravessámos o Atlântico, porque é que fizemos o que fizemos. E fiquei muito orgulhoso quando percebi que o povo ainda é o mesmo. Fez-me lembrar aqueles versos de Sophia: «Esta gente cujo rosto/ Às vezes luminoso/ E outras vezes tosco/ Ora me lembra escravos/ Ora me lembra reis». Foi muito bom ter tido essa experiência.

Muito bom?
Aprendi a admirar as pessoas do meu País. E a respeitá-las ainda mais. E a amá-las ainda mais. E a gostar cada vez mais delas. A partir daí, tudo o resto se tornou relativo. Houve coisas que deixaram de ser importantes. E normalmente é quando elas deixam de ser importantes que vêm ter connosco… O que me interessa, neste momento, é poder ter tempo para escrever, viver o suficiente para conseguir acabar o meu trabalho sem decepcionar os que acreditam em mim. Surpreende-me todo este reconhecimento internacional porque, no fundo, só escrevo livros, o que não me dá um mérito por aí além… É apenas trabalho.

E muito trabalho…
Ser pedreiro, médico ou outra coisa qualquer também dá muito trabalho. E ser doente, ser doente dá muito trabalho.

Porque é que decidiu escrever aquela crónica da VISÃO, intitulada Crónica do Hospital, onde revelava que tinha um cancro?
Como já havia muitos boatos contraditórios, resolvi aclarar as coisas e dizer a verdade. A crónica foi escrita mesmo no hospital. Mal conseguia escrever, não tinha forças para nada. O que posso dizer é que eu e todos os outros doentes só recebemos atenções. Dos médicos e dos enfermeiros, mas também das pessoas mais modestas que lá trabalham. Se dizem que tratam mal os doentes nos hospitais, a minha experiência foi justamente a contrária. Sempre vi os doentes serem tratados com a maior dignidade. Estou muito grato às pessoas que cuidaram de mim e que tiveram comigo a maior delicadeza.

O Meu Nome É Legião é, aliás, dedicado a Henrique Bicha Castelo, que o operou.
Para ele, do ponto de vista emocional, não deve ter sido nada fácil. Porque o Henrique não foi apenas o meu médico, é meu amigo. Para além de ser um cirurgião de renome internacional, é um homem de uma qualidade humana, de uma capacidade de amor, de uma generosidade e de uma ternura absolutamente excepcionais.

Durante todo esse período, lembrou-se alguma vez do António Lobo Antunes médico?
Tudo isto me fez ter saudades da Medicina. Pela primeira vez, tive saudades da Medicina. E, nos últimos tempos, tenho tido saudades. Agora já é tarde porque a escolha foi feita há muito tempo. Mas, se pudesse voltar atrás, talvez tentasse manter alguma relação com a Medicina.

Enquanto não pôde viver da escrita, viu a Medicina como uma forma de ganhar a vida.
Eu até gostava de ser médico. O meu pai era médico, cresci no meio dos hospitais, mas estar internado é outra coisa muito diferente. Não há nada de mais horrível do que uma noite passada num hospital.

As noites passadas num hospital duram mais?
São infinitas. E é aí que aparece o desamparo. Não estou a falar de mim, estou a falar de uma maneira geral. É óbvio que senti tudo isto. Sofri muito e, ao mesmo tempo, toda esta experiência também me enriqueceu. Sai-se disto com mais amor pela vida e com a sensação de que é uma honra estar-se vivo.

Sai-se mais sereno?
Não lhe sei responder, porque nunca fui uma pessoa de grandes exaltações. É claro que tomei consciência da minha finitude, porque todos vivemos em função de eternidades. Uma pessoa de 20 anos pensa que tem à sua frente 50 anos e, para ela, esses 50 anos não vão passar nunca. A minha mãe, por exemplo, vive em função de eternidades de seis meses. E, na prática, esses seis meses são tão compridos como os 50 anos do jovem de 20 anos. Quando a Maria Antonieta pedia ao carrasco «só mais um minuto, senhor carrasco», para ela aquele minuto era eterno.

Virginia Woolf dizia que, a partir de certa idade, os dias são uma eternidade, mas os anos passam a correr.
E Churchill dizia que os anos passam num instante, o que custa a passar são os minutos. Mas quando os escritores querem parecer inteligentes, eu desconfio sempre. A atitude de sedução sempre me irritou e irrita-me cada vez mais. É isso e, sobretudo, a amargura. Há para aí um cronista num jornal diário que deve ser a pessoa mais infeliz do mundo. Destila tanto fel… Meu Deus, como se pode ser assim?

Está a falar de Vasco Pulido Valente?
É uma dedução sua. Não o conheço, mas o que ele escreve faz-me imensa impressão. E pena. Não me irrita, não me enerva, não me exalta, não me comove. Faz-me pena. Não gosto de pessoas amargas porque são mal agradecidas. A ingratidão é o pior sentimento que pode existir.

Sempre prezou a sua privacidade. Hesitou ao escrever aquela crónica na qual se expôs como nunca antes o havia feito?
Para quem souber ler, exponho-me muito mais nos livros. Em O Meu Nome É Legião, por exemplo, aqueles garotos vieram de dentro de mim, são parte de mim. Quando me fala em serenidade, é evidente que estou muito mais sereno, muito mais seguro do valor do meu trabalho.

Depois da operação, foi difícil voltar a escrever?
Muito difícil. Não era capaz, cansava-me. A seguir à operação, nem sequer escrevia. Estava sentado numa cadeira, sem ler, sem fazer nada, a olhar para a parede. Estive quase dois meses assim. Não tinha nada dentro.

Tinha um romance começado?
Sim, tinha começado a escrevê-lo seis ou sete meses antes. E, como nunca tinha feito uma interrupção, só me perguntava: será que sou capaz de retomar o livro? Depois, devagar, comecei a aproximar-me dele, sem lhe tocar, sem lhe tocar mesmo. Tinha ficado a meio de um capítulo, li o último parágrafo e – é curioso – o livro continuou a sair. É muito estranho porque eu costumo demorar mais de um ano a fazer a primeira versão e, quando chego ao fim, já mal me lembro do princípio. Releio e tudo aquilo faz sentido, tudo aquilo está certo. É uma espécie de trabalho interior que nada tem a ver comigo. Ou melhor: tem a ver comigo, eu não sei é de que parte de dentro de mim é que aquilo vem. Acho que agora estou a escrever como nunca escrevi. Falam muito no Manual dos Inquisidores, mas julgo que foi a partir de Ontem Não te Vi em Babilónia que a escrita começou a ganhar uma densidade, uma espessura, uma força que antes não tinha. Não me importa se me lêem porque escrevo para a eternidade? Claro que me importa, claro que quero que me leiam. Há coisas que já não faço.

Como assim?
Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques. São livros que não devem nada a ninguém. Não se nota ali a voz de ninguém, não há ali influência de qualquer outro autor. Nada. Zero. É a minha voz inteira. E a conquista da minha própria voz foi talvez o mais importante que me aconteceu. Não há ninguém a atravessar-se no meu caminho. Se não nos medimos com os melhores, não vale a pena medirmo-nos. Atingir as alturas de Tolstoi ou de Horácio é muito difícil, mas é aí que eu quero estar. E, ao mesmo tempo, isto tem-me permitido admirar o trabalho de outras pessoas que não considero grandes escritores…

Mas admira-lhes o quê? O esforço?
Esforço faz lembrar ciclismo, não é? Admiro o esforço e, quando ele é digno, respeito-o. Embora, em Portugal, se publique demasiado. As pessoas não sabem o quanto custa escrever. Escrever é tremendamente difícil. Não precisamos de mais de – vá lá, para ser generoso – 200 ou 300 livros. Continuo a ficar surpreendido com o aluvião de livros, livros completamente supérfluos, que se editam. As pessoas não têm vergonha de ter feito aquilo? Não são escritores, são pessoas que fazem livros. Uma coisa é ser escritor, como Torga (por exemplo) o era. Outra coisa é fazer livros, o que agora toda a gente faz. Fico pasmado quando vejo jornalistas, advogados ou apresentadores de televisão que se apresentam como escritores. Já reparou?

Ao regressar ao livro, sentiu-o como seu?
Claro que sim. Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde. A doença trouxe-me isso. Já não estou a fazer tratamentos e só lá mais para o final do ano é que voltarei a fazer exames. Tudo isto dá-me uma grande serenidade, porque olho para as coisas com mais distância. Estive muito perto da morte e palavra de honra que é muito mais fácil do que se imagina. A ideia pode angustiar-nos e apavorar-nos, mas quando se está mesmo ao pé dela é muito mais fácil do que se pensa. Lembre-se do que diz a última frase de Os Thibault, o grande romance de Roger Martin Du Gard: plus simples qu’ on y pense, mais simples do que se pensa. E é, de facto, mais simples do que se pensa, menos assustador do que se pensa.

Quando ouve a palavra cancro, é a morte que vê à sua frente?
Por mais que racionalmente pensemos que o cancro se cura, associamo-lo à morte. Pedi sempre para não me mentirem e, por isso, quando muito francamente me dizem que tenho um cancro, o que vejo à minha frente é a morte. Não é ver a morte à minha frente, é vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. E é mais fácil do que se pensa, não requer coragem, apenas dignidade e elegância. Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna?

A quem é que perguntava?
Ao médico e a uma ou duas pessoas que faziam o favor de se interessar por mim. Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta dele foi: «Outra puta.» Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança. Uma amiga, que é minha médica, disse-me: «Tens que aprender a viver com isto.» Não, não tenho. Não tenho que viver com um filho da puta. Eu não vivo com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele.

Tem que ter pulso firme?
Tem que lutar contra aquilo. O cancro habita-me, está dentro de mim. E queria portar-me com a mesma dignidade com que acho que me portei na guerra. Não sei se ele se importa com a minha atitude ou não, mas, em princípio, é um pesadelo que estará terminado. De qualquer maneira, sei que, mais tarde ou mais cedo, a puta virá. Só espero ter tempo para acabar o meu trabalho.

Na guerra, já tinha visto a morte de perto.
Na guerra, era mais fácil porque era uma qualquer coisa de exterior, podia sempre agarrar numa arma. Em África, tínhamos inimigos (digamos assim) e estávamos armados com morteiros, espingardas e metralhadoras. Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte. Portanto, o tratamento é como fazer um aborto desse monstro que nos quer destruir. Quando ia às sessões de radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava.

A doença torna-nos mais doces ou, pelo contrário, mais amargos?
No meu caso, fez com que se acabassem os disfarces, as máscaras, as meias-frases e as meias-tintas. Agora digo o que penso e o que sinto. Estou a falar com as cartas viradas para cima. E é a primeira vez que o faço. Não há nada escondido, não há nada na manga, não há truques nem tentativas de a impressionar e de a comover.

Sente-se mais livre?
Foi muito difícil. Enfim, muito difícil é exagero…

Exagero porquê?
Porque, ao lado, vi pessoas que estavam muito piores que eu. Pessoas sem esperança, à espera da morte. As minhas hipóteses eram grandes e, por isso, às vezes, sinto-me culpado. Mas é verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para escrever, livre para viver, livre para amar. No outro dia, com os meus irmãos, disse ao João [o neurocirurgião João Lobo Antunes] que ele tinha escrito um texto muito bonito. E um deles comentou que nós não dizemos essas coisas uns aos outros. Eu agora digo, eu agora digo. E isso foi uma conquista porque, de repente, tornou-se evidente que esta é a única maneira de viver. Claro que tem que haver dignidade, e que não podem existir pieguices, mas acabaram-se as contenções. O meu avô morreu e, ainda hoje, sinto remorsos por não lhe ter dito que gostava muito dele.

Teve medo de perder a mão?
Claro que sim. Sempre senti esse medo e agora senti-o ainda mais. Tinha imenso medo que a operação, para além de me tirar o cancro, me tivesse tirado a capacidade de escrever. Não sei por que bulas uma vez que aquilo estava nos intestinos…

E, depois, foi ganhando confiança?
A pouco e pouco, fui aumentando o número de horas de escrita e, hoje, já estou no meu ritmo normal. Não quer dizer que não possa morrer daqui a dois minutos, mas fisicamente nunca me senti como me sinto. Talvez me tenha dado força o facto de a minha condição de mortal ser agora muito mais patente.

No momento em que lhe dizem, pensa…
Não penso em nada, é uma surpresa infinita. Quando disse que queria ser operado, responderam-me que era preciso ver se havia metástases. Fiz exames e, como não havia, fui operado no dia seguinte. Entrei no hospital a pensar que tinha hemorróidas e já não sai de lá. Foi tudo muito rápido.

Como se o mundo lhe caísse em cima dos ombros?
O mundo nunca cai em cima de ninguém. Naquele momento, só pensei nos livros. O que vai acontecer aos livros? Levei o que andava a escrever para o hospital, mas não tinha forças para trabalhar. Queria fazê-lo, mas não conseguia. E não queria deixar o livro inacabado porque, no meu caso, um livro inacabado é um livro cheio de redundâncias, de inutilidades e toda aquela ganga que se escreve. Preocupava-me que publicassem um livro mau. Talvez por uma qualquer coquetterie, por estar seguro que estou a trabalhar para daqui a 500 anos.

Já cá não estaremos.
Não sei se morremos assim. Não sei se não ficamos cá. Não sei se Camões está morto. Mas isso não tem importância, eu não sou importante, os livros é que são importantes.

Isso não é falsa modéstia?
Não tenho falsa nem verdadeira modéstia. Sou orgulhoso, não sou vaidoso. Para quê estar a jogar consigo? O que é que eu ganho? Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente. É uma conquista recente, ganha com tudo aquilo por que passei. Estar aqui à sua frente é a única maneira de estar. E é a primeira vez que o faço.

Como sentiu a reacção dos leitores à sua Crónica do Hospital?
Não sabia que havia tanta gente que gostava de mim.

Sentiu-se menos desamparado?
Não, senti que não merecia tanto afecto.

Apercebeu-se de que o seu testemunho valeu mais do que dezenas de campanhas?
Não. Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau. Se Deus quiser, hei-de escrever mais alguns livros.

Também já não diz que vai escrever apenas mais dois livros.
Não. Dizia isso para negociar com a morte, para não lhe pedir muito. Porque, na altura, ainda a achava uma senhora digna, o que já não acho. E, portanto, se dantes pedia, agora exijo.

Antes pedia para ver se a morte era boa consigo…
Sim, para ver se ela tinha pena de mim. Agora, já não preciso de pena.

Fonte:Visão

Sara Belo Luís 28 Set 2007

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A vida depois do cancro

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

Bastou um dia para lhe mudar a vida. Em Março deste ano, António Lobo Antunes, 65 anos, entrou no Hospital de Santa Maria com o manuscrito em que trabalhava debaixo do braço. E dali já não saiu. A notícia, brutal, de que tinha um cancro, chegaria pouco tempo depois. No mês seguinte, após ter sido operado, escreveu na VISÃO uma crónica na qual revelou o inferno que estava a viver. Agora, seis meses passados, o escritor lança O Meu Nome É Legião e, pela primeira vez, conta o que viu e o que sentiu. Sem as meias-palavras das «doenças prolongadas» nem os disfarces dos testemunhos triunfantes. Como ele próprio diz, com as cartas viradas para cima.

Ainda tem a sensação de o seu novo livro, O Meu Nome É Legião, lhe ter sido ditado por um anjo?

Sim, mas também houve partes de Ontem Não te Vi em Babilónia que me pareciam ditadas. Quando a mão está feliz, os livros parecem-me sempre ditados. O Meu Nome É Legião está pronto há mais de um ano. E, como entretanto já estou a escrever outro livro, vou esquecendo o anterior. Tento, aliás, esquecê-lo para evitar fazer uma sequela.


Não voltou sequer a olhar para ele?

Não, apenas o folheei. Corrijo os livros tantas vezes e, mesmo assim, fico sempre com a sensação que os deveria ter corrigido ainda mais, que lhes devia ter dado mais uma volta ou duas. Há sempre um «que», um «mas», um advérbio ou um adjectivo a mais. Há sempre palavras a mais.


É um livro mais curto, com um registo mais rápido que os anteriores. Deixou de gostar daquelas longas «sinfonias»?

Não tem nada a ver porque, como leitor, continuo a gostar de romances grandes. A questão é que, a partir de agora, os meus livros vão sendo sempre cada vez mais curtos. Não sei explicar porquê – o livro acaba por ter a dimensão que ele próprio exige, é ele quem comanda.


Conhece bairros periféricos de Lisboa como o que retrata?

O livro refere-se a um bairro em concreto, embora eu nunca lá tenha estado. Sempre me impressionou o facto de aqueles miúdos não terem raízes de espécie alguma. Não são portugueses, não são africanos, não são nada. Brincam com balas em vez de brincarem com bolas. E no entanto há neles uma sede de ternura, um desejo de amor absolutamente inextinguível. A morte e a vida não têm, para eles, qualquer significado ou, pelo menos, têm um significado muito diferente do que para nós. Na minha ideia, O Meu Nome É Legião era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à procura de uma razão de existir.


Revê-se naqueles garotos?

Quando começo a escrever um livro, não tenho qualquer plano. Aqueles garotos, aqueles polícias e, no fundo, todas aquelas vozes vão-se encadeando de tal modo que sou o primeiro a ficar espantado. Não posso, no entanto, dizer que me revejo neles porque, naquele momento, éramos só uma e a mesma coisa. Uma espécie de relação simbiótica.


Eles estão excluídos deste mundo?

Estão de tal maneira abandonados que matar pessoas é a única maneira que têm de pedir colo. Não sei, porém, o que se passa na realidade, uma palavra idiota porque a realidade é uma coisa que não existe. Todas aquelas pessoas têm, para mim, uma densidade muito profunda.


E, nessa medida, o livro também é uma realidade?

É a única realidade que existe. Não se trata de viver noutro planeta, mas a verdade é que, quando estou a escrever, a minha vida muda por completo. Encontro uma razão, um motivo e uma direcção. E é óbvio que dou muito mais importância aos livros do que às crónicas, que são apenas…


…uma questão alimentar, como costumava explicar.

Não, já não. São antes a possibilidade de poder fazer uma espécie de itinerário paralelo. Como quando, em miúdo, andava com o meu avô em estradas paralelas à via férrea, ficando com a sensação de viajar, ao mesmo tempo, no automóvel e no comboio.


Diz que não conhece aquele bairro…

Não conheço aquela realidade do ponto de vista jornalístico.


Mas sempre gostou de subúrbios.

Aquilo não é sequer um subúrbio. Para mim, o subúrbio é Benfica ou o Cacém. Aquilo é muito pior do que isso. Aquilo é o inferno. Aquelas pessoas vivem num inferno onde eu nunca entrei.


Foi ganhando carinho por aquelas personagens?

Não sei se os leitores entenderão que o livro está a transbordar de amor. Custou-me muito que aquelas personagens morressem. Repare que até o professor não é muito diferente dos garotos – todos estão terrivelmente desamparados. Sempre me comoveu ver o desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo, numa certa desprotecção.

Mas essa não é uma característica apenas do último livro.

Obviamente que não. Lembro-me de começar a escrever Explicação aos Pássaros na Alemanha, em casa da tradutora que tinha na altura. Convencido de que estava a fazer um romance completamente diferente, mostrei-lhe as primeiras linhas e ela disse-me que não via ali nada de diferente: «És tu.» Não consigo fugir disto – há sempre é um «outro eu» que escreve. Como quando aquele admirador da Sarah Bernhardt a encontra na rua e pergunta: «É a dona Sarah Bernhardt?» E ela responde: «Serei esta noite.»


Ficou comovido com o acolhimento que teve agora em Berlim, no Festival Internacional de Literatura?

Comovido é uma palavra exagerada. Agora, a qualquer lado onde vá, é sempre assim. Torna-se um pouco incómodo porque estive o dia inteiro a dar entrevistas no hotel e, quando saí, havia uma série de pessoas cá fora. Queriam um autógrafo não num livro, mas num pedacinho de papel. Como se eu fosse o Enrique Iglesias.


E com o Prémio Camões, que recebeu no princípio deste ano, ficou comovido?
Agora, de três em três meses, recebo um prémio. Antes, tinha vindo o Prémio Ibero-Americano, depois veio o Camões e, há dias, chegou o Neruda. É muito agradável recebê-los, mas um prémio nada tem a ver com a literatura na medida em que não melhora nem piora os livros. Um prémio é só um prémio.


Faz sentido voltar a falar no Nobel?

Nem penso nisso. Agora menos que nunca.


Porquê?
Porque há coisas muito mais importantes. Tenho a certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer Nobel que me possam dar. Mas não me queria alongar sobre esse assunto, porque me parece que se dá excessiva importância a um prémio literário. Tolstoi e Conrad nunca o tiveram. E eles é que são os meus colegas.


Sente-se bem na companhia deles?

Não estou nada mal [sorrisos].


Até se ri…

Sabe, este foi um ano muito duro para mim. Para além de ter recebido constantes lições de dignidade e de coragem por parte de pessoas anónimas, aprendi a ter ainda mais respeito e admiração pelos portugueses. Compreendi porque é que fomos nós a ir naqueles barquinhos de 14 metros sem quilha, porque é que atravessámos o Atlântico, porque é que fizemos o que fizemos. E fiquei muito orgulhoso quando percebi que o povo ainda é o mesmo. Fez-me lembrar aqueles versos de Sophia: «Esta gente cujo rosto/ Às vezes luminoso/ E outras vezes tosco/ Ora me lembra escravos/ Ora me lembra reis». Foi muito bom ter tido essa experiência.


Muito bom?

Aprendi a admirar as pessoas do meu País. E a respeitá-las ainda mais. E a amá-las ainda mais. E a gostar cada vez mais delas. A partir daí, tudo o resto se tornou relativo. Houve coisas que deixaram de ser importantes. E normalmente é quando elas deixam de ser importantes que vêm ter connosco… O que me interessa, neste momento, é poder ter tempo para escrever, viver o suficiente para conseguir acabar o meu trabalho sem decepcionar os que acreditam em mim. Surpreende-me todo este reconhecimento internacional porque, no fundo, só escrevo livros, o que não me dá um mérito por aí além… É apenas trabalho.


E muito trabalho…

Ser pedreiro, médico ou outra coisa qualquer também dá muito trabalho. E ser doente, ser doente dá muito trabalho.


Porque é que decidiu escrever aquela crónica da VISÃO, intitulada Crónica do Hospital, onde revelava que tinha um cancro?

Como já havia muitos boatos contraditórios, resolvi aclarar as coisas e dizer a verdade. A crónica foi escrita mesmo no hospital. Mal conseguia escrever, não tinha forças para nada. O que posso dizer é que eu e todos os outros doentes só recebemos atenções. Dos médicos e dos enfermeiros, mas também das pessoas mais modestas que lá trabalham. Se dizem que tratam mal os doentes nos hospitais, a minha experiência foi justamente a contrária. Sempre vi os doentes serem tratados com a maior dignidade. Estou muito grato às pessoas que cuidaram de mim e que tiveram comigo a maior delicadeza.


O Meu Nome É Legião é, aliás, dedicado a Henrique Bicha Castelo, que o operou.

Para ele, do ponto de vista emocional, não deve ter sido nada fácil. Porque o Henrique não foi apenas o meu médico, é meu amigo. Para além de ser um cirurgião de renome internacional, é um homem de uma qualidade humana, de uma capacidade de amor, de uma generosidade e de uma ternura absolutamente excepcionais.

 

Durante todo esse período, lembrou-se alguma vez do António Lobo Antunes médico?
Tudo isto me fez ter saudades da Medicina. Pela primeira vez, tive saudades da Medicina. E, nos últimos tempos, tenho tido saudades. Agora já é tarde porque a escolha foi feita há muito tempo. Mas, se pudesse voltar atrás, talvez tentasse manter alguma relação com a Medicina.


Enquanto não pôde viver da escrita, viu a Medicina como uma forma de ganhar a vida.

Eu até gostava de ser médico. O meu pai era médico, cresci no meio dos hospitais, mas estar internado é outra coisa muito diferente. Não há nada de mais horrível do que uma noite passada num hospital.


As noites passadas num hospital duram mais?

São infinitas. E é aí que aparece o desamparo. Não estou a falar de mim, estou a falar de uma maneira geral. É óbvio que senti tudo isto. Sofri muito e, ao mesmo tempo, toda esta experiência também me enriqueceu. Sai-se disto com mais amor pela vida e com a sensação de que é uma honra estar-se vivo.


Sai-se mais sereno?

Não lhe sei responder, porque nunca fui uma pessoa de grandes exaltações. É claro que tomei consciência da minha finitude, porque todos vivemos em função de eternidades. Uma pessoa de 20 anos pensa que tem à sua frente 50 anos e, para ela, esses 50 anos não vão passar nunca. A minha mãe, por exemplo, vive em função de eternidades de seis meses. E, na prática, esses seis meses são tão compridos como os 50 anos do jovem de 20 anos. Quando a Maria Antonieta pedia ao carrasco «só mais um minuto, senhor carrasco», para ela aquele minuto era eterno.


Virginia Woolf dizia que, a partir de certa idade, os dias são uma eternidade, mas os anos passam a correr.

E Churchill dizia que os anos passam num instante, o que custa a passar são os minutos. Mas quando os escritores querem parecer inteligentes, eu desconfio sempre. A atitude de sedução sempre me irritou e irrita-me cada vez mais. É isso e, sobretudo, a amargura. Há para aí um cronista num jornal diário que deve ser a pessoa mais infeliz do mundo. Destila tanto fel… Meu Deus, como se pode ser assim?


Está a falar de Vasco Pulido Valente?

É uma dedução sua. Não o conheço, mas o que ele escreve faz-me imensa impressão. E pena. Não me irrita, não me enerva, não me exalta, não me comove. Faz-me pena. Não gosto de pessoas amargas porque são mal agradecidas. A ingratidão é o pior sentimento que pode existir.


Sempre prezou a sua privacidade. Hesitou ao escrever aquela crónica na qual se expôs como nunca antes o havia feito?

Para quem souber ler, exponho-me muito mais nos livros. Em O Meu Nome É Legião, por exemplo, aqueles garotos vieram de dentro de mim, são parte de mim. Quando me fala em serenidade, é evidente que estou muito mais sereno, muito mais seguro do valor do meu trabalho.


Depois da operação, foi difícil voltar a escrever?

Muito difícil. Não era capaz, cansava-me. A seguir à operação, nem sequer escrevia. Estava sentado numa cadeira, sem ler, sem fazer nada, a olhar para a parede. Estive quase dois meses assim. Não tinha nada dentro.


Tinha um romance começado?

Sim, tinha começado a escrevê-lo seis ou sete meses antes. E, como nunca tinha feito uma interrupção, só me perguntava: será que sou capaz de retomar o livro? Depois, devagar, comecei a aproximar-me dele, sem lhe tocar, sem lhe tocar mesmo. Tinha ficado a meio de um capítulo, li o último parágrafo e – é curioso – o livro continuou a sair. É muito estranho porque eu costumo demorar mais de um ano a fazer a primeira versão e, quando chego ao fim, já mal me lembro do princípio. Releio e tudo aquilo faz sentido, tudo aquilo está certo. É uma espécie de trabalho interior que nada tem a ver comigo. Ou melhor: tem a ver comigo, eu não sei é de que parte de dentro de mim é que aquilo vem. Acho que agora estou a escrever como nunca escrevi. Falam muito no Manual dos Inquisidores, mas julgo que foi a partir de Ontem Não te Vi em Babilónia que a escrita começou a ganhar uma densidade, uma espessura, uma força que antes não tinha. Não me importa se me lêem porque escrevo para a eternidade? Claro que me importa, claro que quero que me leiam. Há coisas que já não faço.


Como assim?

Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques. São livros que não devem nada a ninguém. Não se nota ali a voz de ninguém, não há ali influência de qualquer outro autor. Nada. Zero. É a minha voz inteira. E a conquista da minha própria voz foi talvez o mais importante que me aconteceu. Não há ninguém a atravessar-se no meu caminho. Se não nos medimos com os melhores, não vale a pena medirmo-nos. Atingir as alturas de Tolstoi ou de Horácio é muito difícil, mas é aí que eu quero estar. E, ao mesmo tempo, isto tem-me permitido admirar o trabalho de outras pessoas que não considero grandes escritores…


Mas admira-lhes o quê? O esforço?

Esforço faz lembrar ciclismo, não é? Admiro o esforço e, quando ele é digno, respeito-o. Embora, em Portugal, se publique demasiado. As pessoas não sabem o quanto custa escrever. Escrever é tremendamente difícil. Não precisamos de mais de – vá lá, para ser generoso – 200 ou 300 livros. Continuo a ficar surpreendido com o aluvião de livros, livros completamente supérfluos, que se editam. As pessoas não têm vergonha de ter feito aquilo? Não são escritores, são pessoas que fazem livros. Uma coisa é ser escritor, como Torga (por exemplo) o era. Outra coisa é fazer livros, o que agora toda a gente faz. Fico pasmado quando vejo jornalistas, advogados ou apresentadores de televisão que se apresentam como escritores. Já reparou?


Ao regressar ao livro, sentiu-o como seu?

Claro que sim. Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde. A doença trouxe-me isso. Já não estou a fazer tratamentos e só lá mais para o final do ano é que voltarei a fazer exames. Tudo isto dá-me uma grande serenidade, porque olho para as coisas com mais distância. Estive muito perto da morte e palavra de honra que é muito mais fácil do que se imagina. A ideia pode angustiar-nos e apavorar-nos, mas quando se está mesmo ao pé dela é muito mais fácil do que se pensa. Lembre-se do que diz a última frase de Os Thibault, o grande romance de Roger Martin du Gard: plus simples qu’ on y pense, mais simples do que se pensa. E é, de facto, mais simples do que se pensa, menos assustador do que se pensa.


Quando ouve a palavra cancro, é a morte que vê à sua frente?

Por mais que racionalmente pensemos que o cancro se cura, associamo-lo à morte. Pedi sempre para não me mentirem e, por isso, quando muito francamente me dizem que tenho um cancro, o que vejo à minha frente é a morte. Não é ver a morte à minha frente, é vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. E é mais fácil do que se pensa, não requer coragem, apenas dignidade e elegância. Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna?


A quem é que perguntava?

Ao médico e a uma ou duas pessoas que faziam o favor de se interessar por mim. Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta dele foi: «Outra puta.» Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança. Uma amiga, que é minha médica, disse-me: «Tens que aprender a viver com isto.» Não, não tenho. Não tenho que viver com um filho da puta. Eu não vivo com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele.


Tem que ter pulso firme?

Tem que lutar contra aquilo. O cancro habita-me, está dentro de mim. E queria portar-me com a mesma dignidade com que acho que me portei na guerra. Não sei se ele se importa com a minha atitude ou não, mas, em princípio, é um pesadelo que estará terminado. De qualquer maneira, sei que, mais tarde ou mais cedo, a puta virá. Só espero ter tempo para acabar o meu trabalho.


Na guerra, já tinha visto a morte de perto.

Na guerra, era mais fácil porque era uma qualquer coisa de exterior, podia sempre agarrar numa arma. Em África, tínhamos inimigos (digamos assim) e estávamos armados com morteiros, espingardas e metralhadoras. Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte. Portanto, o tratamento é como fazer um aborto desse monstro que nos quer destruir. Quando ia às sessões de radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava.


A doença torna-nos mais doces ou, pelo contrário, mais amargos?

No meu caso, fez com que se acabassem os disfarces, as máscaras, as meias-frases e as meias-tintas. Agora digo o que penso e o que sinto. Estou a falar com as cartas viradas para cima. E é a primeira vez que o faço. Não há nada escondido, não há nada na manga, não há truques nem tentativas de a impressionar e de a comover.


Sente-se mais livre?

Foi muito difícil. Enfim, muito difícil é exagero…


Exagero porquê?

Porque, ao lado, vi pessoas que estavam muito piores que eu. Pessoas sem esperança, à espera da morte. As minhas hipóteses eram grandes e, por isso, às vezes, sinto-me culpado. Mas é verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para escrever, livre para viver, livre para amar. No outro dia, com os meus irmãos, disse ao João [o neurocirurgião João Lobo Antunes] que ele tinha escrito um texto muito bonito. E um deles comentou que nós não dizemos essas coisas uns aos outros. Eu agora digo, eu agora digo. E isso foi uma conquista porque, de repente, tornou-se evidente que esta é a única maneira de viver. Claro que tem que haver dignidade, e que não podem existir pieguices, mas acabaram-se as contenções. O meu avô morreu e, ainda hoje, sinto remorsos por não lhe ter dito que gostava muito dele.


Teve medo de perder a mão?

Claro que sim. Sempre senti esse medo e agora senti-o ainda mais. Tinha imenso medo que a operação, para além de me tirar o cancro, me tivesse tirado a capacidade de escrever. Não sei por que bulas uma vez que aquilo estava nos intestinos…


E, depois, foi ganhando confiança?

A pouco e pouco, fui aumentando o número de horas de escrita e, hoje, já estou no meu ritmo normal. Não quer dizer que não possa morrer daqui a dois minutos, mas fisicamente nunca me senti como me sinto. Talvez me tenha dado força o facto de a minha condição de mortal ser agora muito mais patente.


No momento em que lhe dizem, pensa…

Não penso em nada, é uma surpresa infinita. Quando disse que queria ser operado, responderam-me que era preciso ver se havia metástases. Fiz exames e, como não havia, fui operado no dia seguinte. Entrei no hospital a pensar que tinha hemorróidas e já não sai de lá. Foi tudo muito rápido.


Como se o mundo lhe caísse em cima dos ombros?

O mundo nunca cai em cima de ninguém. Naquele momento, só pensei nos livros. O que vai acontecer aos livros? Levei o que andava a escrever para o hospital, mas não tinha forças para trabalhar. Queria fazê-lo, mas não conseguia. E não queria deixar o livro inacabado porque, no meu caso, um livro inacabado é um livro cheio de redundâncias, de inutilidades e toda aquela ganga que se escreve. Preocupava-me que publicassem um livro mau. Talvez por uma qualquer coquetterie, por estar seguro que estou a trabalhar para daqui a 500 anos.


Já cá não estaremos.

Não sei se morremos assim. Não sei se não ficamos cá. Não sei se Camões está morto. Mas isso não tem importância, eu não sou importante, os livros é que são importantes.

Isso não é falsa modéstia?

Não tenho falsa nem verdadeira modéstia. Sou orgulhoso, não sou vaidoso. Para quê estar a jogar consigo? O que é que eu ganho? Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente. É uma conquista recente, ganha com tudo aquilo por que passei. Estar aqui à sua frente é a única maneira de estar. E é a primeira vez que o faço.


Como sentiu a reacção dos leitores à sua Crónica do Hospital?

Não sabia que havia tanta gente que gostava de mim.


Sentiu-se menos desamparado?

Não, senti que não merecia tanto afecto.


Apercebeu-se de que o seu testemunho valeu mais do que dezenas de campanhas?

Não. Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau. Se Deus quiser, hei-de escrever mais alguns livros.


Também já não diz que vai escrever apenas mais dois livros.

Não. Dizia isso para negociar com a morte, para não lhe pedir muito. Porque, na altura, ainda a achava uma senhora digna, o que já não acho. E, portanto, se dantes pedia, agora exijo.


Antes pedia para ver se a morte era boa consigo…

Sim, para ver se ela tinha pena de mim. Agora, já não preciso de pena.

 

 

Visão

27.09.2007

(transcrito por Gonçalo Figueiredo Augusto)

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A Literatura Portuguesa actual

Novembro 19, 2007 · 1 Comentário

Lobo Antunes, convidado pela Secção de Português da Universidade Paul-Valéry, participou num seminário organizado em Montpellier em 22 de Novembro de 1983. A Secção de Português agradece vivamente ao escritor por ter querido voluntariamente prestar-se a este exercício universitário. Este texto reúne o essencial das declarações feitas por Lobo Antunes nesta ocasião, declarações recolhidas e coordenadas por Francis Utéza.

 

A Literatura Portuguesa actual

 

Na última Feira Internacional do Livro de Frankfurt, pretendeu-se que não havia actualmente na Europa senão duas literaturas verdadeiramente criativas: Na Alemanha Ocidental e em Portugal. O facto é que houve uma autêntica renovação dois ou três anos após a Revolução de 74, e creio que se pode afirmar que o século XX literário português começou nesse momento. O mais importante consistiu numa verdadeira reconciliação entre o público e os escritores. Anteriormente, devido à censura, nós devíamos fazer uma literatura “alusiva”, depois de 74 tudo mudou, para nós pelo menos. Além disso, vários escritores tiveram o mérito e sobretudo a sorte (porque é também uma questão de sorte) de serem lidos e traduzidos no estrangeiro, nomeadamente nos EUA. Hoje, estamos a caminho de sermos “descobertos” no Brasil. Venho ainda agora de uma viagem nesse país com outros escritores portugueses – José Saramago, José Cardoso Pires, Égito Gonçalves da geração anterior, Lídia Jorge e Almeida Faria da minha geração.

Posso dizer que se instaurou um novo estado de espírito nos escritores do meu país. Não há um “movimento literário” do tipo dos movimentos que juntaram no tempo certos criadores – Orfeu Presença, ou o neo-realismo por exemplo. Permanecemos profundamente diferentes e essa diversidade faz a riqueza da nossa literatura. Mas sobretudo tenho a impressão de que se está a criar uma solidariedade, uma espécie de sentimento de classe parecido ao que existe já no Brasil. Por exemplo, tive problemas técnicos com o romance em que estou a trabalhar agora, e pude discuti-los durante a minha estadia no Brasil com outros escritores. Hoje ajudamo-nos mutuamente. Era impensável há não muito tempo. Antes, quando aparecia um tradutor potencial, em poesia principalmente, o primeiro que lhe metia as mãos em cima, capturava-o e fechava-o em sua casa até ele deixar o país. É verdade, não estou a exagerar. Hoje, pensamos que ninguém tira o público a ninguém. Organizamos conferências colectivas, sessões em comum com os nossos leitores. Vamos às fábricas, às companhias de seguros. Constatamos uma grande adesão do público. É um fenómeno novo em Portugal, que contribui, e bem, para desmistificar o escritor.

 

A crítica portuguesa

 

Os críticos são pessoas que me fascinam. Pergunto-me muitas vezes qual é o papel da crítica. Em Portugal, contudo, não desempenha papel nenhum, não tem qualquer influência no público que se decide a ler um livro pelo sistema de passa-a-palavra. Nos EUA, pelo contrário, uma boa crítica no The New York Times, no Herald Tribune, faz vender um livro de certeza. Alguns chegam a comprar o livro por causa da crítica e não do livro!

Por que é que a crítica portuguesa não tem efeito no público? Creio que isso se deve à inexistência de críticos bons. Muitos são demasiado velhos e fazem sobretudo terapia ocupacional. Pode vir a surgir uma nova geração de críticos que compreendam melhor o fenómeno literário?

Por outro lado, a crítica portuguesa emite sempre juízos de valor: por exemplo o Sr. João Gaspar Simões julga-se proprietário de Fernando Pessoa e portanto se alguém escreve sobre Pessoa isso não vale nada porque não foi o Sr. Gaspar Simões que escreveu. Em Portugal julga-se sempre, a crítica é laudativa para os amigos e diz mal dos outros. A crítica não deve trazer juízos, deve descodificar, fazer perceber como funciona um livro ou um poema – Borges tem belas páginas sobre isso. Em Portugal, se quiserem uma boa crítica escrevam um livro obscuro, que ninguém vai ler, que ninguém vai comprar: dirão bem de vocês, porque não são um potencial concorrente… No que a mim me diz respeito, os meus primeiros livros foram ignorados. Hoje, não podem fingir que não sabem que eu existo porque estou entre os que vendem mais, e como a crítica do The New York Times e do Herald Tribune disse bem de mim, pouco a pouco começam a dizer também em Portugal, pelo que agora os meus livros são maravilhosos. É típico do que Pessoa chamava o “provincianismo português”.

 

O escritor e o seu trabalho

 

Não acredito na inspiração. O talento não existe. Há pessoas que trabalham. Raymond Radiguet dizia não ler senão livros maus porque eles permitem descobrir a marosca; ao lê-los, aprendemos o mecanismo do texto, mas quando lemos Guerra e Paz por exemplo, não apreendemos o trabalho, é como um ovo, não chegamos a entrar. Manuel da Fonseca dizia: “ser espontâneo dá muito trabalho”. Pelo meu lado, trabalho muito para tentar dar ao leitor uma impressão de facilidade.

Escrevo durante cinco a seis horas por dia. Faço sempre um plano muito detalhado, com todas as peripécias; depois escrevo quatro versões seguindo o plano. Quando termino, dou a dactilografar (escrevo sempre à mão), revejo o texto dactilografado e decido que versão envio ao editor e é esquecida. Nunca releio os meus livros porque os reescreveria sem parar. Ao começar um livro, não tenho senão uma ideia, livrar-me de tudo o mais depressa possível.

O mais difícil para mim, não são as personagens, é o problema do tempo. No princípio resolvi-o limitando-me a um dia, a uma noite, depois tornei-me mais ambicioso… O meu último romance cobre dez anos. Para o cenário, sou uma espécie de ladrão, observo por exemplo as casas dos meus amigos e sirvo-me, não sei inventar casas…

Quando escrevo, tenho uma sensação de gravidez. Os homens invejam a gravidez das mulheres. Freud não falou disso, falou da inveja de pénis das mulheres, mas não da inveja da gravidez dos homens. Para mim, a única forma de responder a esta inveja é escrever um livro.

Um romance corresponde sempre a uma época determinada da nossa vida. É por isso que é estranho para mim falar-vos de um romance como Os Cus de Judas, que está hoje tão longe de mim, a minha maneira de escrever está tão mudada…

É curioso, nunca encontrei prazer em escrever. Creio sempre que estaria melhor a divertir-me com os meus amigos do que a escrever. Mas quando não escrevo, sinto uma espécie de doença física, como se me vestisse de manhã sem ter tomado banho. Então, escrevo… Administro o meu tempo, cinco a seis horas de trabalho por dia, e depois faço o que apetece. Quando era adolescente, uma da minha numerosas tias dizia-me: meu filho, tu não tens ainda idade de viver dos teus defeitos. Hoje, creio que tenho idade suficiente de viver dos meus defeitos.

Escrever é sempre um desafio. Deveríamos mudar A Bíblia, onde diz: “no começo era o Verbo”, deveria dizer: “no começo era a depressão”. A nossa vida é uma espécie de luta contra a depressão, até à depressão final, a morte. Não procuro dar conselhos, a quem servem os conselhos? Também não tenho moral. Não sou La Fontaine.

Tento dar o máximo de verosimilhança. É bem verdade que se diga que os livros são autobiográficos. Isto aprendi com os Americanos: acreditamos que as coisas chegaram, que elas podem chegar. Recebi uma data de correspondência de pessoas que me davam conselhos para organizar a minha vida!

Parece-me que em França o mito do escritor ainda é muito profundo. Creio que ainda não entenderam aqui que os escritores são homens que mijam como toda a gente, escrevem livros e é tudo, são seres comuns.

No século XX temos tendência a fabricar mitos para os destruir. Os chefes, por exemplo, a sua função é serem detestados. Os mitos não servem senão para serem destruídos. Escritores, médicos, é o mesmo. Lembro-me que quando era criança, era suficiente que aparecesse o mito para que não me sentisse mal… Queria dizer: “deixe-me tocar-lhe com o dedo”. Tenho a impressão de ser uma espécie de Júlio Iglésisas com os seus fãs! É o lado folclórico da adesão do público e por um lado é bom. Em Portugal, sempre disse que havia demasiado de Joyce e não bastante de Harold Robbins. Em Portugal, ser um grande escritor é como significasse não ser lido. A minha ambição é tocar o máximo de leitores, para lá dos dois milhões que já tenho.

Estou convencido de que os escritores portugueses estavam afastados do público por uma linguagem demasiado cara. Era necessário estoirar essa linguagem. Pensei que ao empregar uma linguagem mais comum poderia facilmente chegar às pessoas. De facto, aprendi isso com Céline, o mestre de todos nós. Quando eu tinha 15 anos, o meu pai ofereceu-me os seus livros dizendo-me: “é um nazi, mas é um escritor revolucionário”. Descobri que o meu pai tinha razão. Escrevi a Céline para lhe pedir uma foto com dedicatória. Respondeu-me e correspondemo-nos até à sua morte, em 1961. Disse-me: “pequeno, se queres ser escritor, é preciso trabalhar muito”. Assim, permaneci muito ligado a este homem que nunca vi. Lembro-me das grandes folhas de papel amarelo que ele me enviava. Céline e os Americanos, as grandes descobertas da minha vida.

 

Romance e psiquiatria

 

Não queria ser médico. O meu pai é neurologista na Faculdade de Medicina de Lisboa. Tive que fazer os meus estudos em medicina em protesto. Pensei, o que se parece mais com Dostoievski? A psiquiatria. Então, especializei-me em psiquiatria. Mas hoje acabou, já não sou psiquiatra. Tenho uma posição muito crítica face à psicanálise. Fiz uma análise freudiana, mas creio que a psicanálise é uma indústria. Foram feitas pesquisas nos EUA sobre o perfil do psicanalista. Interrogaram-se milhares e chegou-se à conclusão de que o perfil destes homens era o seguinte:

- inteligência média

                        – pouca imaginação

                        – grande dificuldade de integração

                        – enorme apetite de poder

                        – voyeurismo.

Em Portugal os psiquiatras são os pilares de uma ordem social que eles estão obstinados em manter. Para certos psicanalistas americanos, os operários que se revoltam contra os seus patrões são pessoas que não resolveram o seu Édipo, é por isso que se revoltam. A ideia inicial de Freud era muito revolucionária: foi o primeiro a dar atenção ao facto de as diferenças sociais serem factores de angústia, de depressão. Este pensamento foi completamente invertido. Escrevi um livro sobre esta questão, e isso valeu-me aborrecimentos com a Sociedade Internacional de Psicanálise. Diatkine(1) veio especialmente de Paris a Portugal para me interrogar, para decidir se me iriam expulsar da sociedade, que é uma espécie de máfia. Era muito jovem na época e isso foi muito duro para mim.

Nós somos todos esquizofrénicos. Por exemplo esta sensação de ser observado por toda gente quando entramos num local público, é uma sensação muito comum. Não há nada de psicótico nisso. Para criar as minhas personagens, observo à minha volta… O narrador de Os Cus de Judas era um neurótico. É uma neurose da guerra que atingiu muitos portugueses. Sei que muito tempo antes de terem voltado da guerra, metiam-se debaixo da cama ao menor barulho que se assemelhasse a uma explosão.

Creio que somos muito sós; recorremos a um psicanalista porque estamos sós, fazemos amor porque estamos sós, e retiramos um grande sentimento da solidão. Trabalhamos numa sociedade esquizofrénica onde a ideologia é sempre industrial. Há pouco lugar para o amor ou a afeição. É preciso ganhar a vida. No final da semana chega o terrível fim-de-semana em que os casais se olham. Cheios de fantasmas paranóicos a rondar: é por causa dela; é por causa dele que não sou feliz… Recebo clientes que não suportam os fins-de-semana, esse face a face terrível porque as pessoas não sabem viver a dois, a maior parte.

Espero que a solidão não seja absolutamente inevitável. Eu sou como a mãe de Blondin que lhe dizia muitas vezes; “não tenho fé, mas tenho esperança”. Encontrei esta fórmula admirável e reutilizei-a num dos meus livros, na Memória de Elefante, acho eu.

Os homens, quando se encontram, é para discutir política, futebol ou mulheres, sobre os méritos de uma ou de outra. Fazem uma espécie de aliança artificial contra a solidão. Freud dizia muitas vezes que o objectivo da análise deveria ser de poder apreender a realidade, a angústia da existência sem procurar constantemente escapatórias. Recentemente, li a autobiografia de Graham Greene de quem gosto muito, e ele dizia qualquer coisa como: “Não sei como fazem as pessoas que não escrevem para escapar à loucura, à paranóia, ao suicídio”. Eu creio que, enquanto escritores, nunca estamos sós.

 

Sobre Os Cus de Judas

 

Este livro faz parte de uma trilogia onde quis abordar três temas fundamentais para mim: a guerra, a relação entre homens e mulheres e o universo contraditório dos hospitais psiquiátricos em Portugal, considerado como um microcosmos representativo do país inteiro. Para Os Cus de Judas, no princípio pensei na história de uma relação entre um homem e uma mulher onde não houvesse amor, uma relação onde as pessoas se separam, se assassinam lentamente porque são egoístas, narcisistas, etc…

Depois ocorreu-me a ideia de reforçar esta história fazendo um contraponto com a guerra de Angola. Não é para mim um romance de guerra, é um contraponto entre duas guerras sangrentas, uma guerra entre um homem e uma mulher por um lado, e o absurdo da guerra colonial por outro lado. A mulher tinha duas funções para mim: aquela a quem o homem se destinava, não tinha um papel concreto – e é assim que se passa na realidade da sociedade portuguesa e talvez de todo o mundo latino, onde a mulher não é de certa forma senão um lacaio do homem, onde nos compreendemos tão pouco, onde estamos tão pouco preparados para nos compreendermos – e por outro lado, seria um pouco o leitor. Então temos um tipo que fala, fala que se destina a uma mulher mais ou menos consistente…

Por fim, queria também evocar uma forma muito particular da vida nocturna de Lisboa que é muito intensa, com os seus bares, as suas discotecas e a extrema solidão que lá reina. Entra-se num bar, e o que nos assalta primeiro é a solidão. Uma vez a dona de um bar disse-me; “Ganho dinheiro com a depressão das pessoas”.

O título do romance tem dois sentidos: o da distância e o da traição. Judas era a expressão que utilizavam os partidários do MPLA para designar os portugueses e os que colaboravam com o exército português. Era obrigado enquanto médico a assistir aos interrogatórios dos prisioneiros pela PIDE, e era o que diziam os prisioneiros aos agentes da PIDE que eles queriam insultar. No hospital Miguel Bombarda, onde trabalhava, tínhamos internado um certo número de presos políticos que também eles usavam esta expressão Judas sobre nós.

Então a ideia surgiu-me muito naturalmente, quando o meu editor me pediu para mudar o título que eu lhe propusera pois não lhe parecia muito comercial (tratava-se da última frase da autobiografia de um poeta do grupo de Fernando Pessoa que morreu no Miguel Bombarda após 40 anos de internamento. Encontrei o manuscrito que ele tinha redigido à atenção do seu médico, e escolhi a última linha para título do meu livro).

A guerra fez-me tomar consciência de coisas que eu ignorava totalmente. Durante muito tempo vivi numa espécie de redoma. A família – nós vivíamos em Portugal segundo os costumes da grande família patriarcal de Belém do Pará, com numerosos filhos – o liceu, a faculdade, Londres – onde durante cinco anos estudei no hospital onde trabalhou Somerset Maugham – e depois quando regressei a Portugal fui chamado para a guerra.

À época as classes sociais eram estanques. Nenhum contacto. Estávamos fechados, o mesmo nível, a mesma cultura, sou mesmo levado a dizer que não era português. Foi no exército que conheci uma outra relação, vertical e não horizontal. Em Angola eu era como clínico geral, e quando era preciso amputar uma perna com uma serra de carpinteiro porque não havia outra coisa, tornamo-nos forçosamente diferentes.

Foi lá que conheci Melo Antunes, devo-lhe muito, fez-me descobrir muitas coisas, e permanecemos amigos. É um homem muito corajoso. Um dia, no Sul, apontou uma pistola a um agente da PIDE e disse-lhe: “se não te vais embora mato-te”. Antunes foi mudado de unidade, mas os interrogatórios de prisioneiros pela PIDE foram interrompidos.

O suicídio para mim não é uma obsessão, é um tema que se pode encontrar em todos os meus romances. Isto não significa que eu me quisesse suicidar, pelo contrário! Naquela altura preparava uma tese de doutoramento sobre o suicídio das pessoas jovens. Discutindo com os jovens que tinham sobrevivido a uma tentativa de suicídio, fui assolado pelo seu sentimento de imortalidade. O suicídio era sempre o assassínio de alguém. Assassinavam a parte má. O meu avô, que amava muito, suicidou-se. Ele tinha um cancro. Deixou uma carta muito clara na qual dizia que ia matar o seu cancro e que poderia depois viver de boa saúde. Isto marcou-me muito, tal como o meu contacto de vários anos com jovens suicidas. Dizemos muitas vezes que é preciso muita coragem para cometer suicídio. Não acredito nisso. Em Explicação dos Pássaros tentei contar um suicídio como uma história de circo porque quando era criança tinha muito medo dos palhaços, faziam-me sempre pensar na morte.

As minhas personagens têm pouca realidade física, para deixar ao leitor a possibilidade de se identificar com elas e melhor aderir à história. Perguntaram-me sobre a Teresa, era a dona de uma casa de putas que existia mesmo no meio da selva, uma preta enorme como as personagens femininas de Jorge Amado, muito maternal com os soldados e os oficiais. Ela tinha com ela duas ou três raparigas esfomeadas e era perto delas que procurávamos um pouco de ternura. Sabem, o amor maternal é uma coisa da qual tenho pouca experiência. Tive uma infância muito estragada, com relações familiares muito distantes, a minha mãe nunca me beijou quando era criança.

Os grupos feministas em Portugal afirmam que os meus livros são repugnantes – os grupos mais virulentos, claro – e que as mulheres os rejeitam. Eu não sei, fica ao vosso critério.

As referências culturais abundam nos meus três primeiros romances. Hoje, penso que é um erro mas que isso fazia parte de uma espécie de ajuste de contas com a minha infância. Fui educado de uma forma muito especial. O meu pai metia uma sinfonia e anunciava: “quem não souber o nome desta sinfonia não sai no domingo”. Ou lia duas ou três páginas de Zola ou de Flaubert ou de Kipling e depois acrescentava: “quem não conhecer o autor destas linhas não sai no domingo”. Lembro-me que um dia à mesa ele perguntou quem era Einstein. A minha mãe respondeu: “acho que é um preto que toca jazz”. Não sei se ele privou a minha mãe de sair, mas sei que para nós, seis filhos quase da mesma idade, isso era terrível. Então vinguei-me nos meus leitores metendo armadilhas destas nos meus livros, por vezes mesmo frases inteiras sem citar os seus autores. Hoje já não faço isso.

No que toca a Paul Simon, foi uma época da minha vida. No meu último romance também há um poema de Simon, mas não no texto. O próximo terá versos de Bob Dylan. A minha ideia era tirar a literatura do seu gueto intelectual. Não gosto de intelectuais. Em Portugal têm um uniforme: barba, óculos, cabelos compridos, não muito limpos, o Le Monde debaixo do braço. Temos em Portugal uma “classe intelectual”, o que faz com que tenhamos muitos artistas e poucas obras de arte. Os artistas enchem os bares, – não as boites, eles não ousam – eles pensam o tempo todo, não se divertem. Pensei em misturar um pouco tudo isto. Creio que Paul Simon é um grande compositor, que certas canções dos Beatles estão ao nível das Lieder de Shubert. Bernstein disse-o e ele é mais qualificado do que eu. É preciso dessacralizar tudo isto. Os intelectuais não são intocáveis, pelo contrário…

 

(1)    René Diatkine (1918-1998) foi uma das figuras mais importantes da psicanálise em França

 

texto original por cortesia de Francis Utéza

Novembro de 1983

traduzido do francês por Gonçalo Figueiredo Augusto

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Que farei quando tudo arde?

Outubro 1, 2007 · 1 Comentário

Não será necessário gastar muitas linhas para apresentar António Lobo Antunes, talvez apenas dizer que esta entrevista foi o resultado de mais de cinco horas de conversa espalhadas por três tardes, horas bem passadas a falar sobre as coisas pequenas e grandes da vida, sobre a felicidade, loucura, literatura, suicídio, sobre o amor pelas suas três filhas e o desamor pelos pais, sobre o comunismo e a classe politica, sobre a guerra colonial e a amizade. Falámos também de literatura, do que ele gosta e detesta. Do seu último livro, claro. Magnífico Que Farei Quando Tudo Arde?, romance difícil que a partir de um universo homossexual toca magistralmente a perversa questão da identidade. Identidade daquelas personagens, mas sobretudo a nossa própria identidade. Falou-nos sobre o que anda agora a escrever. Explicou o que lhe acontece quando não escreve, o que lhe acontece quando tira o aparelho contra a surdez do único ouvido que ainda tem alguma sensibilidade, o que lhe acontece quando fecha os olhos e volta à mata de Angola, o que Ihe acontece quando pensa nos seus mortos, o que lhe acontece quando pensa no seu próprio fim.

 

Aos 59 anos, António Lobo Antunes publicou 15 romances traduzidos em dezenas e dezenas de países. Todos os anos o seu nome é falado para o Nobel da Literatura. Todos os anos aumentam as vendas e os seus admiradores. Diz-se que Mario Vargas Llosa tem a sua fotografia no escritório.

 

Foram três tardes. Ao Augusto Brázio, que lhe mostrou imagens, leu poesia. A mim, deu-me conselhos para a vida. Esperemos que fique a conhecer mais o homem do que o escritor, mais o que tem dentro do que as máscaras que utiliza para disfarçar a timidez, mais a inquietude do que a arrogância do personagem. Esta é uma entrevista com um homem que continua à procura de um sentido para a vida, um homem igual a tantos outros. Talvez mais próximo da genialidade do que a larguíssima maioria, mas também muito mais perto do sofrimento.

 

 

Vou ligar o gravador para depois, com o tempo, nos podermos esquecer dele.

Está bem. Falávamos de desamparo, de solidão, da minha solidão e do meu desamparo. Sempre tive uma vida muito sozinha, isso defende-me um bocado. É claro que aos 18 anos achava que sabia tudo sobre a literatura e sobre a vida, com os anos percebi que não sei absolutamente nada. Escrevo cada vez mais, escrevo quase compulsivamente… Agora, mesmo antes de chegar, estava para ali às voltas com a imortalidade.

 

Com a sua imortalidade?

Com a minha não, com a minha não. Às vezes, muitas vezes, sinto que devia aprender a não escrever, espero que isso me seja possível. O intervalo entre os livros é cada vez mais difícil de suportar, são intervalos muito penosos. E claro que as pessoas são muito gentis comigo, ainda agora em Espanha a recepção que me fizeram foi impressionante e comovente. Tanta gente, tanta gente… Uma pessoa fica aflita com tanta generosidade, fica aflita quando de repente pessoas que não conheço e que falam uma língua diferente da minha me pedem para continuar a escrever, para não parar.

 

Tem mesmo a intenção de parar?

Escrever mais dois livros e parar. É a minha ideia. Não concebo viver sem escrever, mas julgo que romances não escreverei mais. A maioria dos escritores, a dada altura, limita-se a apodrecer, esse apodrecimento acaba por pôr tudo o que fizeram antes em causa. Por vezes, sinto-me a rapar o tacho e não quero que isso aconteça. Porventura tenho que aprender a não escrever para descobrir múltiplas outras coisas, descobrir coisas que me apeteçam fazer.

 

O que Ihe apetecia fazer agora?

Ir a um quiosque comprar um livro policial. Depois talvez me sentasse numa paragem de autocarros suburbana, naquelas paragens em que param os autocarros que seguem para Lisboa… Sim, apetecia-me ficar para ali sentado. As pessoas entram, as pessoas saem e vou-me abandonando. Gosto dessa sensação. Todos os dias fico meia-hora na casa de banho sem fazer coisa nenhuma. Não tomo banho, não me barbeio, simplesmente estou sentado, mais nada. Os pensamentos não são claros, mas tenho a sensação que programo o resto do dia nessa meia-hora em que olho o tecto e as paredes.

 

Já não exerce a psiquiatria a tempo inteiro, mas continua a ir duas vezes por semana ao Hospital Miguel Bombarda. Para manter contacto com a realidade?

Não, não. Ainda sigo alguns doentes e isso dá-me muito prazer.

 

Que tipo de prazer?

O de ser imediatamente útil. Sabe que no hospital tive a maior lição sobre o que era viver, a maior de todas as lições. Um doente disse-me assim: «Sabe doutor, o mundo foi feito por trás». Na altura não liguei, mas hoje acho uma ideia espantosa. Na literatura e fora dela. Temos de escrever por trás para não estarem visíveis os pregos e as costuras, isso talvez seja o mais difícil porque é grande a tentação de mostrar tudo pela frente. Julgam, e também eu já o julguei, que assim as suas habilidades ficam à mostra, normalmente não percebem que é o leitor que constrói o romance. Sim, no hospital sinto-me útil. Na escrita a utilidade é uma dúvida permanente.

 

As dúvidas, quando são muitas, podem levar-nos ao hospital onde se continua a sentir útil.

A loucura varia muito. De norma para norma, de cultura para cultura. Aquilo a que os médicos chamam loucura não é mais do que algumas coisas que existem dentro de nós mais desenvolvidas. Por exemplo: o que é a timidez?

 

É o medo de sermos rejeitados pelo outro.

A timidez é a sensação de que estamos a ser olhados e que estão a reparar em nós. Num grau mais elevado deixa de ser timidez e passa a auto-relacionação, um dos sintomas da esquizofrenia. Todos os sintomas das doenças mentais acabam por não ser mais do que coisas comuns amplificadas, os médicos criam a norma clínica e consideram em alguns casos que determinados sintomas são desviantes da norma clínica que eles próprios criaram. Se estiver excepcionalmente bem disposto corre o risco de o rotularem com uma qualquer doença e dão-Ihe remédios para atenuar essa sua boa disposição.

 

A loucura varia então de médico para médico.

Julgo que sim. A loucura é exceder os limites impostos pelos médicos, limites que variam muito de caso para caso. O meu amigo Daniel Sampaio tem um patamar de tolerância muito maior do que a maioria, nunca o ouvi usar o termo normalidade. Mas a minha experiência clínica é diminuta, nunca quis ser psiquiatra nem tirar o curso de medicina, sempre quis escrever. Perguntam-me na maior parte das entrevistas se me inquieta a loucura, seria muito mais interessante perguntarem-me se me inquieto com o tempo que tenho à frente… Por um lado a única coisa que temos é o tempo, mas por outro cria-me uma espécie de angústia que tento preencher trabalhando. Talvez seja a razão porque trabalho tantas horas: fintar a angústia crescente.

 

É por isso que as pausas entre livros são penosas.

Sinto-me infiel e culpado quando não escrevo, não sei em relação a quê ou a quem. Nestes últimos dias passados fora de casa estive sempre a roubar tempo para voltar ao quarto do hotel… Eram recepções, homenagens, conferências de imprensa, sessões de autógrafos e eu sempre a pensar no momento em que o elevador me levaria de volta à minha solidão, mais nada.

 

Mas nunca lhe apetece fazer outras coisas?

Apetece-me sempre fazer outras coisas, mas isto tornou-se uma obsessão. A minha vida faz pouco sentido fora da literatura… Creio que é um pouco assim em relação à maioria das pessoas, o trabalho é a única forma de realização possível. Tudo o resto é secundário em relação ao trabalho, mesmo a actividade sexual.

 

E onde coloca o afecto?

Sou uma pessoa muito reservada. Não falo da minha vida privada e dos meus sentimentos, mas não é por ter escolhido ser assim, entristece-me tanto ser assim. Sou assim por causa da educação que tive e pelos problemas que tenho em manifestar afectos, problemas meus. Não falo muito destas coisas nas entrevistas, porque tenho receio da forma como é tratado o jogo entre as perguntas do entrevistador e as minhas respostas. Uma boa entrevista é sempre uma peça de ficção, o jornalista cria uma personagem que é o entrevistado, talvez hoje possamos ir por aí. Mas hoje quase tudo é ficção, as próprias editoras entraram por aí. Com a pressa de vender livros à força publicitam essas meninas todas que por aí andam a escrever e os jornais misturam os que têm qualidade com o que é reles. Essas meninas, esses livros, são reles. Assim como algumas más entrevistas.

 

É comum dizer-se que António Lobo Antunes é arrogante e vaidoso. O traço da personagem não corresponde à forma como olha.

As pessoas criaram uma ficção e agora é difícil esbater essa ideia. Durante anos, mesmo em relação a jornalistas, tentaram à força colar-me a imagem que imaginavam que eu fosse, ainda agora. Na sessão de autógrafos do lançamento deste livro escreveram-se coisas que eu não disse, coisas totalmente fantasiosas.

 

 

Quando se faz um pacto com a fama paga-se sempre um preço.

Não acho grave, surpreende-me apenas. Sou arrogante, mal educado, rebelde, geralmente sou sempre o António Lobo Antunes somado a qualquer coisa desagradável. Não corresponde a nada do que sou, a nada. No estrangeiro, o espaço toma o lugar do tempo. Essa circunstância faz toda a diferença: as pessoas vêem-me com uma distância impossível de conseguir em Portugal, aqui as pessoas confundem a imagem que têm de mim com o meu trabalho. Há sempre esta confusão, esta confusão entre a pessoa que criamos dentro de nós e o trabalho produzido. É fácil etiquetar as pessoas e muito difícil mostrar a nossa verdade. Já reparou que costumamos etiquetar as pessoas pelos seus defeitos físicos? É a critica mais reles que se pode fazer a uma pessoa porque estamos a falar daquilo que elas não têm culpa, criticamo-las pelos nomes que têm ou porque são demasiadamente feias ou gordas ou bêbadas ou fascistas.

 

O caso do seu grande amigo Melo Antunes é bastante claro sobre o que disse há pouco. Para a direita era visto como um comunista, para os comunistas como um perigoso fascista.

Lá estão as etiquetas da ficção. Na verdade não passava de um homem livre e independente, mais nada. Geralmente não se perdoa a um homem livre e independente. Aí sim, paga-se sempre um preço e ele pagou-o até ao fim.

 

Conheceu-o em Angola, durante a guerra colonial.

Jogávamos xadrez antes dos bombardeamentos. Eu não gosto de falar da guerra, nunca falei da guerra numa entrevista, custa-me, sabe. Jogávamos xadrez antes dos bombardeamentos, antes do anoitecer, de vez em quando líamos poesia um ao outro. Foi o homem mais corajoso que conheci na frente de combate… Uma ou duas vezes vi-o, no rescaldo dos confrontos, a passear nas trincheiras com uma lanterna, uma ou duas vezes vi-o a servir de alvo. Um dia perguntei-lhe porque o fazia, ele que era geralmente tão cuidadoso com a vida dos homens, e disse-me assim: «Sabes António, é que às vezes apetece-me tanto morrer». Era um homem livre o Ernesto, talvez o único homem com quem podia estar uma tarde inteira sem dizer uma palavra, numa espécie de pacto de silêncio. Sabe que nunca falámos da guerra? Nunca, nunca.

 

E quem ganhava ao xadrez?

Ganhava-me nove em cada dez jogos. Tenho impressão que, de quando em vez, me deixava ganhar. Era um homem aparentemente muito distante e frio, quem o conheceu sabe que isso não correspondia à figura.

 

Já falou um pouco sobre a guerra.

Falei sobre o Ernesto Melo Antunes, é diferente. Sobre a minha guerra? Há uns anos vi um filme português acerca da guerra colonial e, a dado passo, os soldados falavam da Pátria, da injustiça da guerra e do colonialismo. Coisa absolutamente imbecil e falsa, nada mais falso do que isto. Na guerra estamos apenas preocupados em chegar ao dia seguinte, não havia considerações adicionais para quem se encontrava nas frentes de combate. Estávamos presos, como um bicho na terra, à tentativa desesperada de chegar ao dia seguinte. Queria lá saber do colonialismo, queria lá saber da democracia, queria lá saber do socialismo. O próprio Melo Antunes, ultra-politizado e que combateu a guerra antes e depois de lá ter estado, nunca disse uma palavra durante o tempo em que chefiou o meu batalhão. O erro formidável era estarmos ali, nós estarmos ali, não havia mais nada senão o desejo de voltar a casa.

 

Mas diziam poesia um ao outro.

Como forma de não ficarmos totalmente alienados. É tão penoso falar sobre isto, talvez possamos ficar por aqui. Senão já sei: durante uns dias não encontro concentração para escrever.

 

Continua a ser-lhe difícil voltar.

Tanto ou mais do que antes.

 

Durante aquele tempo, à semelhança de Melo Antunes, também Ihe apeteceu morrer?

Nunca me passou isso pela cabeça, queria viver. Voltar inteiro.

 

E hoje, António?

Continuo a querer viver, apesar de tudo.


Apesar da falta de sentido da vida?

A vida faz-me sentido enquanto trabalho.

 

Só enquanto trabalha?

Fundamentalmente enquanto trabalho. O Daniel Sampaio, que é meu médico, diz-me que sou auto-destrutivo com tendências suicidárias. De há três anos para cá, quando me começaram a acontecer coisas muito más na minha vida, talvez isso se tenha acentuado, não sei. Mas quero viver, quero viver. O Reinaldo Arenas, de quem era muito amigo, telefonou-me uns dias antes de se suicidar com o objectivo de se despedir de mim. Não me passou pela cabeça que o pudesse fazer, para falar verdade não lhe liguei nenhuma.

 

Se alguma vez pensasse fazer o mesmo tinha muitas pessoas a quem telefonar?

Se alguma vez pensasse fazer o mesmo não telefonaria a ninguém. Mas os livros dão-me sentido à vida, o desafio de lutar contra um material que se revolta contra mim, a escrita deste último foi nesse aspecto muito complicada. Já o leu?

 

Gostei muito.

Foi um livro tremendo. Nada sabia sobre o mundo da droga, da homossexualidade, dos travestis. Inventei tudo e o problema foi escrever as coisas com a mesma intensidade com que as fui sentindo dentro de mim. Gostava profundamente de todas aquelas pessoas, percebe isto, Luís?

 

E o contrário acontecia, António? As pessoas que habitavam as suas páginas gostavam de si?

Isso já não sei, não me importa. O importante é que eu gostava delas, o importante é que as tornei vivas em mim – aquela mãe, aquele pai, o rapaz, o namorado do pai. Tudo pessoas por quem tinha um extremo afecto, fui muito sensível ao sofrimento daquele travesti e o que aquele homem sofreu! O livro está muito substantivo, não tem adjectivos ou advérbios, gostava profundamente dele, um amor tudo menos triste.

 

Não considera este livro triste?

Nada triste, nada desesperado. O livro é sobre a procura da identidade, mas a procura da identidade é algo que nos acompanha toda a vida. Quem sou eu? Quem são os outros? Quem sou eu face aos outros? É um jogo de espelhos, mas o problema é que todos os espelhos são ligeiramente deformados, quanta mais não seja somos canhotos nos espelhos, não somos completamente nós. Para escrever seja o que for, mesmo que seja um atestado médico, é fundamental medir bem as palavras. O Alexandre Herculano dizia em relação ao Almeida Garrett que este era capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita. Esta frase definia um e outro. Mesmo as pessoas que escrevem para os jornais, que no dia a seguir servem para embrulhar o peixe frito, devem medir as palavras por respeito à língua e a nós mesmos.

 

Gosta de muitos escritores Portugueses?

Há dois ou três escritores com qualidade, já não é mau. Não há exigência, não há rigor, as pessoas não têm um sentido ético da vida e muito menos um sentido ético do seu trabalho. Estou a falar no geral, mas desta generalização não excluo os escritores. O mais difícil de suportar, para isso não tenho mesmo paciência, é o mau carácter e a desonestidade. Não suporto os plágios descarados, os livros medíocres exaltados pelos jornais e revistas cor-de-rosa, tudo isso é miserável, é pequeno e é reles. Para fugir à verdade tudo isso é, também, universal.

 

Acredita mesmo que a vida se justifica através dos livros?

É a única coisa que vai ficar de mim, pelo menos durante algum tempo.

 

Por muito tempo?

Muito tempo é sempre pouco. De qualquer maneira, já não estarei cá para saber. Nós morremos quando desaparecem as últimas pessoas que ouviram falar de nós.

 

A imagem que vai deixar nas suas filhas é diferente da que vai ficar em si quando os seus pais morrerem?

Espero bem que sim. Até porque a imagem que tenho dos meus pais não é muito positiva. Tenho, cada vez mais, tentado ser uma referência e um abrigo onde elas podem voltar sempre. Nunca lhes faço perguntas, mas oiço com a maior atenção o que elas me querem contar. Quero deixar-lhes uma imagem diferente da que os meus pais me deixaram, não me deixaram nenhum vinco na alma, nenhum. Ficaria muito triste se tal acontecesse com as minhas filhas e os meus amigos, gostaria que se lembrassem de mim com alguma saudade, saudade que não sei se terei quando os meus pais morrerem. Ternura é um sentimento que nunca associei aos meus pais, não me lembro, nunca, nunca, de a minha mãe alguma vez me ter beijado. Tive extrema ternura por tias minhas, pelo irmão mais velho da minha mãe, tenho muita pena de não sentir isso pelos meus pais. Mas isso não os desvaloriza, é apenas um sentimento que tenho em relação a eles, nem sequer construí a minha vida contra eles, construí-a de costas voltadas para eles. Nunca houve respostas às minhas perguntas, os pais devem sempre dar respostas mesmo quando as perguntas não são correctamente formuladas. «não podes meter o dedo na ficha. Por que é que não posso meter o dedo na ficha? Porque dá choque. O que é um choque? Com um choque podes morrer. O que é morrer?» Começavam aí os problemas.

 

O que respondeu às suas filhas quando Ihe perguntaram o que era morrer?

Nunca me perguntaram. Infelizmente para elas tiveram que viver com isso muito mais cedo do que seria desejável, mediante essa realidade não há perguntas.

 

Há silêncio.

Há tantas coisas. Perguntas não. A morte das pessoas de quem gostamos amputa-nos. De certa forma continuamos nas pessoas de quem gostamos, nos livros de que gostamos, nas cidades que amamos. Felizmente os nossos limites não são os do nosso corpo, guardamos por isso as coisas que nos dizem algo. Enquanto viver, as pessoas de quem gostei vivem aqui dentro, sinto que estou a viver por mim e também por elas. Para onde o Luís for os seus filhos vão consigo, sempre. É muito bom sabermos que não acabamos onde acaba o corpo.

 

De todos os seus mortos quem está mais vivo aí dentro?

Continuam todos tão vivos como os vivos. É como os livros, como as pessoas que fiz nascer nos livros. Têm muito a ver com a altura em que os escrevi, tudo a ver com a circunstância de estar feliz ou infeliz, mais apaixonado ou menos apaixonado. Na adolescência as minhas leituras eram influenciadas pelas doentias paixões que me chegavam a debilitar fisicamente. Mas as meninas eram substituídas por outras meninas, as outras meninas substituídas pelas actrizes de cinema, as actrizes de cinema substituídas pelas raparigas dos calendários, as meninas dos pneus Pirelli. A atracção pelas mulheres é muito precoce, mais do que os pais podem imaginar…

 

Eis um território que talvez o tenha unido aos seus irmãos.

O território da sedução e da paixão por mulheres? Não, não. Eu não estou distante nem perto deles, são meus irmãos. A gente não escolhe a família, tenho uma relação cerimoniosa com eles, uma boa relação cerimoniosa mas sem intimidade. Não posso dizer que os conheço muito bem, posso dizer que gosto deles e que me são agradáveis.


Não costumo fazer este tipo de perguntas, mas desta vez não resisto. Qual é a sua definição de felicidade?

São momentos. Há alturas de um enorme bem-estar, também não me parece que haja momentos de grande infelicidade, a não ser que as vidas sejam absolutamente dramáticas. Houve uma altura em que a minha surdez me fez infeliz, agora até isso foi ultrapassado. Há anos que não sei o que é um som natural, a voz que oiço não é a sua voz porque está multiplicada por 20 mil decibéis. No restaurante oiço as conversas todas, sem o aparelho não oiço absolutamente nada. Vivi extremamente infeliz nos primeiros tempos, infeliz com o facto de ser um aleijado, mas até isso passa. Se não fizerem um aparelho mais potente ficarei sem ouvir dentro de um ano ou dois, o que quer que faça? Ao princípio irritava-me muito perceber que as pessoas falavam mais alto e que se aproximavam para que as percebesse…

 

Encontrou o silêncio da pior forma possível, o que não deixa de ser irónico para quem sempre o procurou.

Não me dou mal com a mudez total. Cai uma coisa e eu não sei que a coisa caiu porque não ouvi barulho algum. Sem o aparelho não oiço nada, nada de nada. Recusei-me a ir ao médico porque não queria admitir a minha surdez, durante três anos não usei aparelho e especializei-me naqueles sorrisos ausentes. Quando as pessoas me falavam fazia o tal sorriso ou dizia que sim, percebia lá o que as pessoas me estavam a dizer.

 

Podia ter frequentado aulas que o ajudassem a ler nos lábios.

Cheguei a frequentar essas aulas, enfim. As pessoas que me rodeiam não ligam muito, se calhar fingem que não ligam muito para não me magoar. A maioria de nós quando olha para um coxo tenta que o coxo não perceba a anormalidade do nosso olhar, talvez tentem fazer o mesmo comigo.

 

Voltando ao início da conversa. Quando é que esteve sentado numa paragem de autocarro pela última vez?

Foi neste Verão, na praia das Maçãs. Todas as tardes sentava-me para ali, gosto de estar sentado a olhar para as pessoas.

 

E as pessoas olhavam para si?

As pessoas tinham mais que fazer do que estar a olhar para mim. Geralmente, um anão fazia-me companhia, até fiquei com vontade de escrever um livro chamado «Todos os Anões Choram Baixinho». Ali estávamos os dois. Um anão de gravata e de bengala, mais uma cadela piolhosa e chata. Estávamos para ali os três.

 

Ele também observava as pessoas?

Não sei. Ver o movimento nas paragens de autocarro equivale um pouco à meia-hora que passo sentado no bidé antes de todas as coisas começarem a acontecer. É como a arte de governar.

 

A sua meia-hora no bidé?

Sim. A arte de governar é feita sobretudo de nada fazer. As decisões são muito poucas porque, na maioria das vezes, as coisas resolvem-se por si. Nos Estados Unidos, na Alemanha ou na Suécia ninguém foge aos impostos porque sabem onde o seu dinheiro é investido pelo Estado, podem escolher inclusivamente o destino do seu dinheiro. Aqui os nossos impostos servem para engordar e dar automóveis aos partidos que estão no poder, obviamente as pessoas fogem aos impostos, enfim…

 

Continua a definir-se como um homem de esquerda?

Sou um homem de esquerda profundamente desiludido com a esquerda. Nos valores fundamentais continuo a sê-lo. Mas quando se aproximam eleições é sempre muito difícil escolher o sentido de voto. Vou votar em quem? No Partido Socialista? Este PS não me interessa. Nos comunistas? Este PCP não me interessa. Os socialistas não são socialistas e o marxismo não é mais do que uma heresia do judaísmo, tal como a psicanálise. Não é por acaso que Marx e Freud são judeus, como é evidente. O marxismo é uma religião em que o paraíso já está prometido à partida, não existe nenhuma diferença entre isso e a mais reaccionária das igrejas. Claro que tudo irá passar, claro que o marxismo e a psicanálise irão passar, claro que o próprio cristianismo irá passar, tudo acaba sempre por passar…


As folhas espalhadas em cima da mesa são as ideias para o novo romance?

Já o estou a escrever. É sobre quatro mulheres. Percebe alguma coisa de mulheres?

 

Cada vez menos.

Está com sorte. É que eu nada percebo das mulheres. O que sabe um homem sobre as mulheres? É para mim um grande desafio, o desafio de não cristalizar em formas que dão sucesso à partida. Teria sido muito fácil continuar a fazer Memórias de Elefante, iria ter muito sucesso, mas o que ficaria cá dentro? Claro que há uma marca de água na minha escrita, essa fica sempre. Perguntou-me se não acho o Que Farei Quando Tudo Arde? um livro triste, respondi-lhe que não. Mas se nos encontrarmos daqui a algum tempo não Ihe vou poder responder o mesmo em relação às folhas que vê em cima da minha mesa, será um livro muito pesado.

 

Passa-se onde?

Em Angola, é um regresso a África. Gostava imenso de ser angolano, se me dessem a nacionalidade angolana aceitaria de bom grado. É um país com um cheiro único, um país onde a alteração dos sentidos é constante. Durante a guerra vivi em circunstâncias horríveis numa espécie de paraíso único, até as grandes tempestades eram grandiosas. É muito habitual dizer-se que o nosso colonialismo era brando, era brando o tanas, eu vi coisas atrozes. Se fosse angolano nunca teria perdoado a Portugal, vi coisas horríveis e o espantoso é que não tenha ficado ódio da parte deles. A discriminação era total, total. Há pouco tempo houve desmentidos, por parte de altas instâncias militares portuguesas, sobre a utilização de napalm durante a guerra colonial. São mentirosos porque eu vi o napalm, o napalm estava onde eu estava, eu vi-o. Vi bombardear com napalm e vítimas do seu uso, testemunho isto em qualquer tribunal. Ninguém foi condenado por isso, absolutamente ninguém. Todos os meus companheiros de batalhão o sabem. Justificamo-nos com o que fizeram o MPLA e a UNITA, mas nós fizemos coisas horríveis. Falo da UNITA, mas na UNITA limitavam-se a trabalhar com a PIDE, eram pagos e treinados pela PIDE.

 

Parece ainda estar ressentido.

Não com os militares. Não tenho a menor razão de queixa de nenhum oficial do exército, era um alferes como outro qualquer e foram impecáveis comigo. Corajosos, correctos e limpos comigo, todos os que conheci. Não partilho das críticas que se fazem aos militares, que são estúpidos e ignorantes, não corresponde nada ao que penso. Os militares no terreno nada tinham a ver com a polícia política, a PIDE matava os prisioneiros e nunca vi o exército matar um único prisioneiro. Um dia apanhámos um grupo de gente onde se incluía uma mulher grávida… Antes de mais nada um PIDE deu um pontapé na barriga da mulher e o Ernesto Melo Antunes apontou-lhe a pistola e mandou-o voltar. Dois dias depois foi transferido para outro comando. Isto passava-se na zona militar leste e o comandante era o General Bettencourt Rodrigues. Havia um posto militar da PIDE em Gago Coutinho, onde pela janela via torturar pessoas de uma maneira horrível, era a mulher do inspector que Ihes punha eléctrodos nos testículos, estavam ajoelhados em cima de umas varinhas de ferro com os dedos por baixo e os joelhos por cima. Toda a guerra é suja e aquela guerra foi horrivelmente suja, de parte a parte é claro. E esta violência continua a existir agora, de outras formas certamente mais subtis.

 

Que tipo de violência?

Na forma como se manipula, nos telejornais, nos jornais. Não estou a falar de imagens violentas que possam incomodar o normal desenvolvimento das crianças, nada disso, estou a falar da parcialidade e da manipulação. Somos, a maioria de nós, profundamente assassinos e violentos. Apesar de tudo, havia alguma nobreza na guerra: encontrávamos brancos e pretos, sem mais cambiantes. De que livros gostamos mais? Dos que são brancos ou pretos. Nos programas, a que chamam reality shows, o público e os concorrentes não se dão conta de que são manipulados da mais nojenta das maneiras… Estes programas vêm de encontro a um imaginário pobre, acontece o mesmo com alguns livros de grande sucesso. Isso entronca-se com a distinção entre o ser-se de esquerda ou de direita, o respeito pela dignidade de todos os homens. Conheço pessoas de direita profundamente humanas, o José Ribeiro e Castro por exemplo. A bondade, quando a encontro, surpreende-me e alegra-me. Quando encontramos pessoas tão melhores do que nós é um privilégio muito mais importante do que fazer bons livros. Claro que há obras que ficam para sempre, mesmo quando os seus autores não passavam de pulhas – o Wagner, por exemplo.

 

Casou-se antes de ir para a guerra e a sua primeira filha nasceu quando lá estava.

A meio da minha comissão voltei a Lisboa e foi o mês mais horrível da minha vida. Passava os dias a pensar que faltava cada vez menos tempo para regressar ao campo de batalha, passei a maioria do tempo deitado a olhar para o tecto porque o tempo estava a passar. Não usufruí da minha filha e não há nada de mais extraordinário do que os nossos filhos quando são pequenos. Os nossos filhos não são de ninguém, mas são mais nossos do que dos outros. Não tirei partido da bebé nem da mãe da bebé, não tirei partido de nada. Depois, aqui em Lisboa ninguém falava da guerra, é como se nada estivesse a acontecer. Se a sensação dos condenados à morte corresponde ao que senti, então é atroz.

 

Que António Lobo Antunes tem estado à minha frente? Parece-me que durante todas estas horas a pessoa foi ganhando espaço à personagem.

O que Ihe posso dizer? O António Lobo Antunes só existe enquanto escreve, eu sou simplesmente o António. Gosto de estar aqui, tem-me apetecido estar aqui estas horas.

 

Gosta de si?

Nunca me coloquei essa questão. Tenho que viver comigo, direi que não me aborreço. Estou mais preocupado com os outros, com os meus amigos que tanto prezo. Não tenho alguns defeitos: não sou invejoso, não sou pulha, não sou mal formado. Dos defeitos, enfim, dos defeitos…

 

É inevitável que morremos sempre sozinhos…

Absolutamente.

 

Mas nesse momento gostaria de ter alguém por perto?

É impossível responder a isso, é impossível saber como nos vamos comportar. A forma como lidamos com o fim é muito judaico-cristã, muito ligada à ideia do cadáver e do horrível ritual da morte. Tentei sempre, em relação aos meus mortos, guardar a imagem da pessoa viva, nunca os quis ver depois de terem morrido. Estou arrependido por ter visto a minha avó, agora lembro-me dela morta quando preferia lembrar-me dela viva. Era assim que gostava de ser lembrado, vivo e não deitado no caixão, onde nada parece que nos assenta bem.

 

Como é que a sua avó se chamava?

Avó Margarida, a mãe da minha mãe. Essa sim, deixou-me um vinco na alma. As pessoas tocam-nos com um dedo e fica uma nódoa negra, a mais leve impressão deixa
uma nódoa negra que não passa, mesmo quando do contrário estamos convencidos.

 

António, que fará quando tudo estiver a arder?

Tudo arde desde o princípio. Em mim e nos outros.

 

 

Diário de Notícias

08.12.2001

Categorias: Entrevistas com Escritores
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