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António Lobo Antunes

Novembro 5, 2008 · Deixe um comentário

Fico sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. Olha, as flores da jarra estão a murchar na água cinzenta, as folhas soltam-se, uma a uma, dos caules, tudo isto em silêncio.

Fico sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. Olha, as flores da jarra estão a murchar na água cinzenta, as folhas soltam-se, uma a uma, dos caules, tudo isto em silêncio, sem pressa, a tombarem na toalha, enroladas, secas. Dizia eu que fico sempre espantado
com a vida das pessoas: até o que lhes dá prazer me surpreende. Meu Deus, o que se agitam, tanta pressa sempre. E olhos ocos, aflitos. Tenho agora mais flores na sala do que num velório. Vêm daqui e dali com cartõezinhos simpáticos, a lembrança dos vivos. Se calhar morri sem dar por isso e continuo a existir na memória dos outros. Tocam à campainha e é um sujeito com flores. Estendem-me um papel
– Assine aqui

garatujo a hora, garatujo o nome, carregam no botão do elevador, somem-se e eu com aquilo nos braços. Vou deixando os ramos não importa onde: não há esquife aqui, não os posso encostar ao defunto. A voz da minha mãe ao telefone, a gritar como sempre. Coitada, tem passado algumas aflições com os filhos. Olho para ela e vem-me à ideia que a velhice depena as pessoas, tira-lhes bocados, às vezes dá-
-me a impressão que à minha mãe falta um pedaço da crista quando a vejo sentar-se à mesa ou que o tempo, como uma borracha, lhe apagou parte das feições, quebrou um bocadinho a voz, poliu os dedos que se tornaram sedosos, frágeis. Ali está ela a olhar para dentro, por vezes numa espécie de sorriso, quer dizer não é a boca que sorri, o sorriso à frente da boca, a flutuar sozinho. Eu na outra ponta da mesa, no lugar do meu pai a pensar

– Como é que o garfo vai atravessar o sorriso?

com medo que o garfo o leve para o prato e não leva, o sorriso continua intacto, perfeito, e é por baixo dele que a minha mãe mastiga. Chama-se Margarida. Em criança julgava que as pessoas, à medida que o tempo ia correndo, mudavam de nome. Por exemplo Rita assenta bem numa rapariga, não assenta tão bem numa senhora de idade e então trocavam o Rita por Clotilde ou Leopoldina, por exemplo Joana não calha numa ruiva e então muda-se para Beatriz e ao começar a fazer madeixas recupera o Rita, por exemplo Hermes desafina num bébé de maneira que fica à espera que o bébé tenha cinquenta anos e entretanto dizemos Pedro, mas a minha mãe foi Margarida sempre e não a concebo Fortunata nem Elisa nem Cátia embora para mim fosse

– Mãe

e estava encerrada a questão. E lá vai o garfo sem amolgar o sorriso. A única pessoa que não usava o

– Mãe

era o meu pai e as empregadas não

– Mãe

nem

– Margarida

as empregadas

– Senhora

o que me parecia um pleonasmo, como pôr ketchup em cima das rodelas de tomate. Os meus colegas de escola davam igualmente

– Mãe

às mães deles, o que eu achava estranho até perceber que

– Mãe

era o nome mais vulgar em Portugal. Curto, rápido, preciso e fácil de gritar durante o horrível suplício do corte das unhas, sobretudo o mindinho que uma tesoura feroz atacava magoando-me sempre, ou então era o medo que me magoasse que me magoava. Horas tremendas

– Que horror essas unhas

ordens horríveis

– Chega-te mais para a luz

conselhos tenebrosos

– Não te mexas agora

e isso, o arrancar dos pontos pretos com o aviso

– Está quase

seguido da exibição de uma coisa microscópica na ponta do indicador, sem mencionar a sopa

(– Quem não tem fome de sopa não tem fome de doce)

e a lavagem dos dentes, constituíram os suplícios cardinais da minha infância. Entretanto acho que me desviei do princípio desta crónica, ou seja de ficar sempre espantado com a vida das pessoas, os seus desejos, as suas ambições, os seus medos, as suas minúsculas querelas. E as folhas das jarras a desprenderem-se dos caules. Se me deitasse no chão da sala acabavam por cobrir-me por inteiro e eu debaixo delas dando pela empregada a abrir a porta, a olhar para aquilo e a varrer-nos na direcção da pá: lá vou eu para o contentor dentro de um saco plástico, cheio de perfumes moribundos como os das tias-avós, rodeadas de essências vagas e tristes. Claro que se eu chamar a dona Olívia não liga: não acredita que as plantas falem e para o caso de se atreverem a falar nada melhor do que empurrá-las com força para o fundo. O que os outros se agitam, tanta pressa sempre, e eu quieto.
Sou um narciso, uma begónia, uma túlipa, ou antes restos de narcisos, de begónias, de túlipas, tão doces, tão pálidas. Mas não terei olhos ocos nem aflitos, apenas um caule tranquilo e por cima sacos plásticos dos vizinhos. Hoje voltei para casa, a seguir ao jantar, atrás de um bêbado.
Ia de um lado ao outro do passeio,
majestoso, lento. A certa altura parou a fazer chichi contra uma parede, um chichi interminável, uma abundância de fonte. Lembrei-me do bêbado de Pedro Páramo

– Ai vida não me mereces

e de caminho dei-lhe uma palmada no ombro que por pouco não o fez desmoronar-se, caindo tijolo a tijolo na rua mal iluminada, com grandes manchas de sombra que afogavam os automóveis estacionados, os prédios. Jantei sozinho num restaurantezito onde uma rapariga de cabelo pintado de loiro jantava sozinha. Ao levantar-me tinha saído.
Para onde? O que fará agora?
Sentada diante da televisão, com uma revista esquecida nos joelhos? A ler? À espera de um telefonema que não chega? Na janela em frente dois homens penduram um quadro na parede, afastam-se a observar o efeito, endireitam-se. Vinte e três horas e vinte e três minutos, vinte e três horas e vinte e quatro minutos. Hoje de manhã a televisão holandesa a entrevistar-me: deve ser uma estucha para os jornalistas porque não falo da minha vida e muito menos dos meus livros, eles que se defendam sozinhos. A certa altura silêncio e a produtora a perguntar-me o que pensava eu. Não respondi. Para quê?
É que se respondesse dizia-lhe que não pensava em nada, pensava no vácuo.

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Micro – Leituras

Setembro 17, 2008 · Deixe um comentário

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ESQUECEMO-NOS DE VIVER

Fevereiro 20, 2008 · Deixe um comentário

ESQUECEMO-NOS DE VIVER
 
Leonel Marcelino
Engolidos pelas preocupações do dia-a-dia, deixamos a vida escorrer por entre os dedos como a água fugidia. Quando damos conta, estamos a percorrer a recta final, um pouco atordoados, com a angústia instalada dentro de nós, esquecidos de ser felizes, ansiosos por ainda fazermos isto mais aquilo, embora sabendo, por experiência vivida, que os sonhos raramente se cumprem e os projectos se foram adiando sine die.Consumimos a maior percentagem da nossa existência a cumprir rotinas. Isso bastará para nos dar a felicidade que todos perseguimos? Ou, como seres inquietos que nascemos, ambicionamos sempre algo mais, algo diferente do que satisfaz os outros bichos?

Eis um problema existencial que sempre preocupou espíritos sensíveis. Quem é mais feliz? Quem preenche um ideal de vida mais verdadeiro? A gente simples e inculta do campo, que frui a sua existência em contacto com a natureza, sem interrogações, sem angústias, sem dúvidas, limitando-se a viver uma vida natural, acreditando na pureza dos seus actos e na força da fé, ou as pessoas que lêem, viajam, estudam, se interrogam, duvidam, se angustiam, sempre insatisfeitas, sempre em busca de respostas que não encontram, desesperadas?

Que vida tem mais sentido? A vida simples e natural ou a vida complexa de quem ousa questionar? O povo tem um ditado: “Não vá o sapateiro além da chinela.” Isto é, não estaremos a querer saber demais? Os românticos promoveram o mito do bom selvagem…

Na realidade, quem ousa dizer que tem a chave da felicidade? Como vivíamos quando começámos a erguer-nos nos pés? Não foi o homem que criou os deuses? Não foi o homem que inventou as filosofias? Não foi o homem que criou a moeda, a política, o poder, as guerras, as leis, as confusões? Não é o homem que se vai afastando cada vez mais da simplicidade e cria mais e mais barreiras à naturalidade? Não seremos apenas transitórios e insignificantes bichinhos terrenos, arrogantes inventores de mitos?

Será a pessoa humana, depois de experimentar os venenos da civilização, capaz de recuperar a capacidade de viver de modo simples?

Não serão mais felizes os que, depois de romperem as armaduras em combates vários, caiem na humildade, retornam à natureza-mãe e reaprendem o sabor do pão cozido a lenha, o encanto do cantar do pintassilgo, o rumorejar de um regato de água das serras, o prazer de contar histórias, de conviver, de engolir fungos e bactérias?

Às vezes, esquecemo-nos de que os outros também são natureza, e uma natureza especial. Será que, se aprendermos a viver em comunidade, a respeitarmo-nos, não encontraremos as chaves da alegria que procuramos algures, perdidamente? Não estará o segredo da vida aqui, ao nosso lado, nos outros, e em nós, no nosso coração?

Aprendermos a viver juntos não será um projecto autêntico e suficientemente ambicioso para merecer ser vivido em pleno?

Acabo de reler um soneto de Florbela Espanca onde a poetisa invoca, de certo modo, esta temática.

Onze versos descrevem o paraíso na terra centrado na figura de uma camponesa que vive a vida como o rouxinol, aproveitando o que Deus lhe deu, preenchendo os dias com as rotinas do rio que corre sempre para o mar. Aceita o que lhe acontece, agradece, vai em frente até descer à “terra da verdade”, com a consciência do dever cumprido, feliz. Nos outros três, a autora grita o seu pessimismo, a sua angústia, a sua insatisfação, atormentada por dúvidas, destruindo-se, sobretudo, pelos excessos de quem quis devorar a vida em vez de a saborear, acabando devorada!

Leonel Marcelino (Região Sul )

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O ORÇAMENTO

Novembro 24, 2007 · Deixe um comentário


Quer queira, quer não, Sócrates tem um contrato tácito com os portugueses. Que não cumpriu. Perante a situação financeira criada por Guterres, primeiro, e a seguir pelos governos do PSD, Sócrates tomava as medidas necessárias para pôr as coisas na ordem e os portugueses, como de costume, aceitavam sem protesto alguns sacrifícios. No contrato, estava implícito que, embora os portugueses por um tempo pagassem mais, Sócrates diminuiria drasticamente as despesas do Estado e, acima de tudo, a despesa corrente primária, sustento da ineficiência e do parasitismo. Isto implicava, e ainda implica, uma reforma do Estado séria e drástica, que limitasse o alcance e a área da sua intervenção (em muitos casos notoriamente inútil e em outros nociva) e que reduzisse o número de funcionários da administração central.

Desde que Sócrates governa, os portugueses de ano em ano pagaram de facto cada vez mais. Mas Sócrates só fingiu que reformava o Estado. Para começar, poupou em pensões, poupou em salários, deu (com uma certa justificação) menos dinheiro ao poder local e praticamente parou o investimento público. Foi por este caminho de facilidade e com esta táctica de mercearia que adquiriu uma fama espúria de “coragem” (o inimigo era fraco) e, não se percebe por quê, de persistência e “determinação”. De resto, e se não contarmos o programa Simplex, que não passou de uma campanha publicitária, Sócrates não fez nada. Houve um mar de reuniões, de planos, de papeletas, de promessas, que produziu como único resultado a mistura ou fusão de umas centenas de serviços. No fim, ficou tudo na mesma, como novos nomes: uma velha receita da esperteza indígena.

O equilíbrio financeiro, que inexplicavelmente a imprensa bempensante persiste em gabar, veio na essência da receita, ou seja, do bolso já vazio dos portugueses. O Orçamento para 2008 não deixa uma dúvida. A despesa é de 45,1 por cento do PIB (quando devia descer para 44 por cento). A despesa corrente primária volta a subir para 4 por cento. Do número de funcionários que saíram desde 2006 não vale a pena falar, nem dos que se prevê que saiam em 2008. Como não vale a pena dizer que o IVA, o IRS e o IRC não irão baixar: irão aumentar. O orçamento mostra claramente o fracasso de Sócrates. Não resolveu nenhum problema, conseguiu por um tempo suprimir o efeito de alguns problemas. Chegou a altura de lhe pedir contas.

Por VASCO PULIDO VALENTE

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Tempo de chacais

Novembro 23, 2007 · Deixe um comentário

Num discurso inflamado aos apoiantes da sua “Rússia Unida”, Vladimir Putin queixou-se dos “chacais”. São os que, segundo ele, mendigam desesperadamente em várias embaixadas estrangeiras em Moscovo, para organizar uma campanha de oposição satisfatória.

Pode perguntar-se se este “peditório” (ao Ocidente, presume- -se) resulta de falta de patriotismo de quem se vende por um prato de lentilhas, ou da asfixia que o Kremlin mantém sobre o sistema político. A doutrina divide-se.

Espera-se, a bem da humanidade, que a possível ausência de observadores internacionais não tire legitimidade às próximas escolhas eleitorais dos russos, em Dezembro e em 2008, depois de longas campanhas.

E espera-se, a bem da possibilidade de análise política, que o presidente seja mais explícito sobre os seus planos.

É que a especulação desceu à rua.

Quererá Putin sair da presidência para a chefia do governo? Fá-lo-á com qualquer presidente, ou só com um grupo selecto de candidatos? Será um PM cerimonial, ou quererá um presidente assim?

Por outro lado, dizem alguns exegetas, o imperativo constitucional que proíbe um terceiro mandato consecutivo só se aplica, na letra e espírito da norma, se os dois anteriores forem “completos”.

A ser esta a interpretação do art.º 81, n.º 3, o que impediria Putin de renunciar, meses ou dias antes de completar o presente período legal, para se candidatar outra vez?

Não forçaria uma revisão constitucional à medida, e tudo estaria no melhor dos mundos.

2. Ainda não li o texto, mas dizem-me que o diário “República Islâmica”, de Teerão, publicou, há dias, um editorial violentíssimo contra o presidente Ahmadinejad. Em síntese, acusa-o de “imoralidade, ilegalidade e ilogicidade”, no tratamento da oposição, sobretudo daquela que acusa de “traição”, por contestar a sua estratégia de afirmação nuclear.

O jornal está próximo do Grande Líder Khamenei, não é pago pelo Grande Satã ianque, e costuma ser visto como uma publicação pia, integrista, conservadora e leal.

Segundo o texto, cujo resumo me chegou, chega a sugerir-se aos tribunais que procedam contra o chefe do Governo, impedindo-o de propagar o alarme social e de difamar os adversários internos.

Outra vez a questão dos “chacais”.

3. Meio da noite, Zagreb, Duisburg, Londres alegria familiar, com a Croácia a dar um banho de bom futebol (e um balde de água fria) à Inglaterra. Justos como sempre, os adeptos britânicos acabaram a bater palmas aos gigantes balcânico-adriáticos.

Desta vez, não houve chacais mediáticos, e até José Mourinho aparece como salvador do desporto-rei (diferente de desporto dos reis) na ex-pérfida Albion.

Nuno Rogeiro, Comentador político

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HÁ ALTURAS ASSIM

Novembro 23, 2007 · Deixe um comentário

HÁ ALTURAS ASSIM


Há alturas assim, parece que se vive naqueles sonhos em que se quer correr e não se sai do sítio. Freud explica, qualquer manual dos sonhos explica, mas a gente continua a sonhar o mesmo. Tudo é pastoso, parece um barco que entra no lodo e não avança mais no meio de um grande e enorme rio. Toda a agitação é vã, sabe-se que algures há um perigo indefinido, uma escuridão que avança, um movimento profundo nas águas. Não é por acaso que esta é um das “sete tramas fundamentais” na literatura. Está no Beowulf, está na lenda de S. Jorge e o Dragão, está nos livros de Stephen King, está no Portugal de 2007. O barco está bem encalhado no meio do rio e não se consegue fugir para fora do perigo.

A gente olha para o Correio da Manhã, aquilo que os anglo-saxónicos chamam uma “fatia de realidade”, e vê bem o sonho do quero andar, mas não ando. “”Marta” (nome fictício), de 24 anos, confessou ontem às autoridades que deitou o seu filho num contentor do lixo“, atrás de muitas outras “martas” que desde tempos imemoriais mataram os seus filhos, ou os deixaram na roda, ou na estrada para serem encontrados com um fiozinho e uma medalha para, dizem os leitores de Dickens e os espectadores de telenovelas, um dia mais tarde se dar o improvável rencontro, ou se confirmar qualquer tragédia incestuosa. Destinos. “Marta” não leu a intelectual Prospect, que coloca o dilema ético-social sobre se há direito a ter filhos que não se podem alimentar, ou dito de outro modo, se é moralmente legítimo e socialmente aceitável os pobres terem filhos que depois vão viver dos impostos dos ricos que não os procriaram. Amanhã haverá outras “martas”. O barco decididamente não anda.

A “assassina do ácido voltou a ser posta em liberdade” escreve, perturbado, o jornal perante mais uma saga judiciária. Escrevendo em “juridiquês”, uma linguagem que hoje se tornou popular de tão usada que é, vê-se que a “assassina do ácido“, que estava detida em Tires para cumprir sete anos e nove meses de pena, “recebeu a ordem de libertação imediata, emanada pelos juízes desembargadores“, após recurso do advogado. Continua o jornal: “Nessa altura, o colectivo de juízes considerou que o acórdão condenatório tinha transitado em julgado e, por consequência, estava esgotado o prazo para um eventual recurso. Para chegar a esta deliberação, os juízes guiaram-se pelos prazos dos processos urgentes, mas (o advogado) contestou. Primeiro, entrou com um pedido de habeas corpus (libertação imediata) da sua cliente, que foi indeferido. Depois, alegou que a decisão dos juízes da primeira instância teria efeitos suspensivos sobre a eficácia dos mandados de captura (…) o que foi aceite pelos juízes desembargadores.” Corre Kafka, busca Kafka, bom cão Kafka!

A “assassina do ácido” anda nesta saga desde Maio de 2001, há mais de seis anos. O crime de amor, ciúme e raiva, que a levou a matar o namorado, crime do “coração” (o mesmo “coração” com que o povo se enleva no “pai de coração”) já não suscita sequer atenção de per si, a não ser no epíteto de “assassina do ácido“, são agora as peripécias jurídicas, o outro pântano, a outra areia que está debaixo do barco. Antes o mundo parecia simples: julgada, condenada, presa, libertada no fim da pena. Agora não, há advogados, juízes, polícias, desembargadores, um nome tão arcaico que se percebe bem encaixar na coisa. De que é que tens medo Kafka, não está nada aí, é só uma sombra…


Mantendo-nos nos crimes, temos mais um acto da saga mediática da “pequena Maddie“, opondo os defensores da tese do rapto aos defensores da tese do assassinato, hoje uma matéria patriótica. Cada revelação, num ou noutro sentido, faz parte da também pequena guerra civil que os portugueses travam contra John Bull, contra a pérfida Albion, que insiste em nos tratar como comedores de sardinhas, insulta o nosso embaixador, goza com os nossos polícias, e suspeita que, se algum louro britânico, algum cidadão civilizado dos países frios, cai nas malhas desses brutos (nós) é como no tempo da Inquisição. E nós, nessa altura, ficamos todos índios venezuelanos diante do Borbón que nos manda calar, nós explorados desde o Tratado de Methuen, vítimas dos vexames de Beresford, espoliados pelo Ultimato e que temos agora que aturar a sobranceria desses “bifes” que acham que podem vir cometer crimes ao nosso Algarve e voltaram para casa a dizer mal do senhor inspector de Portimão. Nós que até lhes ganhamos, de vez em quando, no futebol. Agarrem-me senão eu faço e aconteço, ouve-se no barco encalhado pelo medo.

Depois o Correio da Manhã explica-nos que há portas e portas. Umas servem para abrir, outras para snifar e ganhar muito, muito dinheiro. São “portas da percepção” diria Huxley, cheias de felicidade terrestre, contendo a módica quantia de 301 quilos (o quilo a mais dos trezentos seria para pagar o transporte?) de cocaína metida numas portas vindas do Brasil, cerca de três milhões e cem mil doses individuais com valor de cerca de 15 milhões de euros. No mesmo dia, mostrando a diferença entre o poderoso cartel latino-americano e a pobreza dos PALOP, um infeliz guineense identificado como Isolmané trazia três quilos numa mala de viagem vindo de Caracas e foi direitinho parar à prisão, porque só lhe devia faltar ter escrito na T-shirt ao que vinha e com que vinha. Nas casas de banho da noite chique de Lisboa, onde os famosos da Nova Gente riscam umas linhas de neve, não vai faltar produto, nem que seja a consumir a porta. Se no barco encalhado se tem medo e se quer fazer de conta que não se passa nada, há sempre maneira de o fazer, no nariz, na veia, na garganta.

O resto? Nem no Correio da Manhã sobra alguma coisa como resto: uma greve na Valorsul, uma empresa que dá “valor” ao lixo do Sul; uma mãe que quer que a filha ouça e arranjou o dinheiro para a operação e diz, sábia, que “as mães não devem ficar à espera do Estado“; uma senhora professora que nem três cancros diferentes chegavam para ser aposentada e que só conseguiu “ter justiça”; a ASAE, mostrando como se leva a sério a gestão política das polícias, deixou por um dia de funcionar como braço armado do fisco, para apreender numa humilde loja das Portas de Santo Antão umas aparelhagens de quinta categoria que servem para escutas, obtendo assim um bom título no jornal para o senhor ministro da Administração Interna. O barco está mesmo encalhado e afunda-se pouco a pouco. Haverá piranhas, crocodilos neste rio? Há sempre.

A culpa é do Correio da Manhã? Longe disso, aquilo é o Portugal de 2007, tal como ele é, irrelevâncias antigas, infelicidades de sempre, vidas miúdas, perdidas num mundo que cada vez menos se controla, de que cada vez menos se descola. Não é obra de cínicos intelectuais que só querem dizer mal e não partilham do glorioso optimismo dos governantes, é o retrato do pântano do nosso lento empobrecimento a que nos condena o “modelo social” vigente, da desorganização atávica das nossas instituições, do salve-se quem puder, de uma mediania muito perto da pobreza e do atraso. É o que o espelho da verdade nos mostra.

É como nos sonhos, bem se quer correr, mas é difícil correr no meio de gelatina, da pasta viscosa da nossa anomia, quando uma a uma se perdem as raríssimas oportunidades de fazer diferente. Até o Papa percebeu isso e fez o que fez aos bispos, só que nós, se o tivéssemos à civil, atirávamos pedras ao homem. Não se é feliz no país do Correio da Manhã, mas o país do Correio da Manhã é o nosso país.

Pacheco Pereira

(No Público de 18 de Novembro de 2007)

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Baptista-Bastos

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

Nome respeitado no jornalismo e na literatura, Baptista-Bastos é um homem de causas e de princípios. Não conhece o meio termo: sem papas na língua, exagerado muitas vezes, escreve como poucos, entrevista como ninguém, é um polemista temível. Conheceu o desemprego várias vezes ao longo da vida – mas nunca soçobrou.

Eis a sua história, como ele a contou.

Autores – Vamos começar pelo princípio: as tuas origens, os factos mais marcantes da tua vida…
Baptista-Bastos – Fiquei órfão de mãe muito cedo: aos seis anos. Mas tive a sorte de ter um pai fabuloso e uma madrasta extraordinária. O meu pai era tipógrafo, fundador de jornais (Diário Popular e Diário Ilustrado), tendo terminado a sua carreira n’ “O Século” como chefe de tipografia. Era um grande animal branco, homem sumptuoso, chapéu às três pancadas, lisboeta típico, com muita graça – e um grande profissional, considerado um mágico na sua arte.

A – Marcou-te profundamente, ao que parece.
BB – Foi uma sorte minha. Incentivou em mim a moral proletária do trabalho, que me tem acompanhado pela vida fora. No fundo não passo de um operário braçal da escrita e do jornalismo. Não sei fazer outra coisa. Ganho mal a minha vida, mas ganho-a, através da moral e das palavras. Ele trabalhou até ao fim da vida – era impressionante vê-lo a paginar jornais. Era o banquete dele. E isso ficou-me: trabalhar, trabalhar, trabalhar sempre. Todos os dias, trabalho todos os dias – leio e escrevo sempre, diariamente, qualquer coisa. Desde os 18 anos.

A – Valeu a pena?
BB – Eu acho que sim. Estou mais pobre do que quando comecei – mas mais rico porque o jornalismo e a literatura permitiram-me conhecer as mais extraordinárias pessoas. Sabes, a história da minha vida foi atravessada pela história das vidas de muita gente, o que me ajudou também a construir o homem que eu sou: ateu, brigão e sentimental. Mas sublinha bem aí: não sou agnóstico – sou ateu.
A – Quem são essas pessoas cujas vidas tanto te influenciaram?
BB – Tantas que temo não referir algumas. Olha, privei de perto com o Aquilino, o Redol, o Carlos de Oliveira, o Joaquim Namorado, o Manuel da Fonseca, o Zé Gomes Ferreira, o João Abel Manta… Tantos, tantos! Tomaram conta de mim. Mas posso referir também o Manuel Taínha, o Júlio Pomar, a Maria Keil, o Jorge de Sena, o Lopes-Graça, o Cochofel – a resistência, afinal. Eu era um miúdo no meio de gigantes, no meio do que havia de melhor neste país.

A – E o que é que daí resultou?
BB – Que criássemos a nossa moral particular e a nossa ética de rigor. Esta gente não permitia uma leviandade ou uma traição. Mas já agora deixa que te diga que n’ “O Século” conheci uma figura maior: o Acúrcio Pereira, um jornalista e um chefe de redacção como nunca vi. Entrei para “O Século” com 18 anos, com uma redacção que metia medo. Era conhecida por “Universidade”. O Zambujal chama-lhe “A Catedral”. O Acúrcio puxava por nós todos, que trabalhávamos rodando em todas as secções.

A – Com o teu feitio tiveste dificuldade em adaptar-te?
BB – Eu era muito senhor do meu nariz, mas que remédio… Trabalhava também no “Século Ilustrado” e ganhei fama de polemista terrível. Eu fazia comentários de cinema, o Redondo Júnior de teatro. Era cá uma dupla… No meu caso aquilo era mais uma tribuna política. Nos EUA o McCarthismo estava em grande vigor – e isso servia-me de pretexto para fazer paralelismos comparativos com a realidade portuguesa. Lembro-me de uma crónica em que condenava a traição do Elia Kazan e que apareceu depois nas paredes de todas as Faculdades de Lisboa. Ganhei uma certa notoriedade que me envaideceu – mas que simultaneamente me enfraqueceu.

A – Porquê?
BB – Tinha 18 anos. Era muito novo. Durante um ou dois anos fiquei um tipo muito presumido, até soberbo.

A – E hoje?
BB – Isso passou-se, e passou-me, há muito tempo. Um dia, estava eu a ler a Bíblia, que é um texto a que recorro frequentemente, estava a ler o Levítico, deu-me cá um estremeção, sabes, sobre a soberba e a arrogância, e disse para mim: não estás no bom caminho. Comecei a ficar menos categórico e mais com a ideia de que os outros podem ter também razão.

A – Mas isso não te impediu de teres participado na Revolta da Sé, em 1959…
BB – Fui aliciado pelo Urbano Tavares Rodrigues. Ele ainda me quis explicar uma série de coisas, mas eu cortei: “Não digas nada. Estou na revolução!”, coisas românticas. Mas a verdade é que uma certa ração de romantismo é essencial para que haja algum júbilo na condição humana. Fazer coisas por romantismo é fantástico.

A – Só foste romântico na Sé?
BB – Fiz toda a espécie de disparates por romantismo. Mas também fiz coisas belas, que hoje me arrepiam quando delas falo ou nelas penso. Um dia fui encarregado de lançar uns panfletos no cinema Condes, onde passava o filme “E tudo o vento levou”. Fui para lá de gabardine, à Humphrey Bogart, escondendo os papéis. Eu estava no 2º Balcão, e havia outro camarada no 1º. Um do lado esquerdo, outro do direito. Lançámos os papéis, estabeleceu-se um burburinho na sala, as luzes acenderam-se, a polícia a apitar, um turbilhão de pessoas a descer pelas escada, a escapar. Quando estou também a descer vejo o meu camarada, que era um pouco mais velho, com um lenço na boca cheio de sangue. Teve uma hemoptise, passei-lhe a mão pelo ombro, e fui com ele por aí fora, atravessei a avenida para o elevador da Glória, acartei-o pela calçada acima, do lado direito havia uma cabine telefónica, as pessoas estavam tão preocupadas consigo próprias que nem deram por nada, pu-lo no meio do chão, liguei para um número que me tinham dado, perguntei o que é que devia fazer, disseram-me para sair dali e ir para um banco de jardim esperar, assim fiz, e lá apareceu o Alexandre Cabral com um carro, levando esse nosso amigo, que ainda hoje é vivo…

A – Ao que sei, o episódio da revolta da Sé veio, mais tarde, a ter consequências na tua vida…
BB – Fui denunciado por uns canalhas. Os patrões d’ “O Século” chamaram-me no dia 10 de Abril de 1960, disseram-me “Você esteve metido nessa coisa”, e o Carlos Alberto Pereira da Rosa perguntou-me: “Olhe cá, isso já se passou há uma data de tempo e hoje, em idênticas circunstâncias o que é que fazia?”. Respondi: “A mesma coisa”. Apertou-me a mão e disse-me: “Não pode trabalhar mais neste jornal. Veja lá no que se vai meter”. Tinha 25 anos, fiquei apavorado, pensei que tinha sido denunciado na PIDE, quis ir falar com o meu pai e encontrei o Augusto Abelaira junto do Solar do Vinho do Porto, disse-lhe o que se estava a passar e ele levou-me a casa do Jacinto Baptista – e fiquei a saber que andávam todos metidos no mesmo e passei a uma semi-clandestinidade. Pensei então ir para Paris, o Urbano conseguiu-me arranjar documentos, vendi o carro que tinha… Neste intervalo a PIDE tinha ido ao Século para saber o que se passara comigo, mas os patrões disseram que não tinha nada a ver com a política, garantiram que eu tinha sido despedido por ter publicado no Século Ilustrado três páginas de fotos do Fidel sem terem ido à censura. Conto isto porque quero salientar a grandeza daqueles patrões. Se compararmos com o que se passa agora…

A – Foste para o desemprego, portanto.
BB – Claro. Traduzia livros e vivia com muitas dificuldades.

A – É mais ou menos por essa altura que conheces o Fernando Lopes, trabalhando com ele em vários projectos.
BB – É verdade. O Lopes é um velho camarada de tudo. Quando vivi na tal semi-clandestinidade, estive aboletado em casa dele. Fizemos o “Belarmino” e mais outros filmes para a Televisão. O meu livro “O Secreto Adeus” foi escrito junto dele, na Ericeira, para onde tínhamos ido em Fevereiro de 62, para fazermos a adaptação do “Domingo à Tarde”, do Namora. Estava um frio de rachar, tínhamos 30 dias para fazer o trabalho, despachámos a adaptação em 10 e nos outros 20 escrevi a primeira versão daquele que foi o meu primeiro livro de ficção, mas que na verdade era um livro contra o jornalismo que se fazia naquela altura e que era muito mau. Olha, ainda hoje tem actualidade… Foi um êxito.

A – Continuas muito ligado ao Fernando Lopes…
BB – Gosto muitíssimo dele. Estamos a envelhecer com dignidade e decência, ao longo de cinquenta anos de amizade sem beliscões. Preocupo-me com ele, ele preocupa-se comigo. É, além disso, um dos maiores cineastas europeus, e um intelectual muito brilhante da minha geração que ofereceu à cultura portuguesa gente extremamente talentosa, e até genial!, em múltiplos sectores de actividade.

A – Foi com a ajuda dele que durante uns tempos trabalhaste para o Telejornal da RTP…
BB – Também é verdade. Um dia disse-me que havia um tipo que queria falar comigo. Era o Manuel Figueira, director na RTP, um homem do regime, marcelista, mas de grande qualidade humana. À primeira vista não gostei do seu aspecto. Mas ele era um sedutor e no final do almoço – no “Varina”, no Parque Mayer – eu estava rendido à sua dialéctica, ficando seu amigo até à morte. Ainda hoje venero a sua memória. Diz-me o Figueira: nós sabemos que você se prepara para sair do país, mas eu vou-lhe fazer uma proposta: quer ir trabalhar nos noticiários da RTP? Tem é que ser com outro nome, embora isso não passe de um pró-forma. Hesitei e perguntei: qual é o compromisso que tenho que fazer? Respondeu: nenhum, só tem que fazer notícias assinando Manuel Trindade. Fui e aí ganhei a vida durante uns meses, com o apoio e a solidariedade de pessoas que pensavam o oposto do que eu pensava: o Carlos Miguel de Araújo, monárquico e miguelista, ainda hoje um querido amigo; o Henrique Mendes; o Gomes Ferreira; o Fialho Gouveia; o Manuel Caetano, irmão do Marcelo.

A – Foi sol de pouca dura – voltaste a ser despedido…
BB – Foi o César Moreira Baptista, então secretário nacional da Informação e mais tarde ministro do Interior de Caetano, quem deu instruções nesse sentido, dizendo num ofício: “Esse senhor é um contumaz adversário do regime”. E era mesmo…

A – Como é que te safaste no desemprego outra vez?
BB – Entrei pouco tempo depois para o “República” e daí fui para o Brasil…

A – Para o Brasil?
BB – O meu amigo Raul Solnado foi contratado pela TV Rio e levou-me como seu secretário – cama, mesa, roupa lavada e dinheiro no bolso. Chegámos ao Rio de Janeiro quando aconteceu o golpe militar contra o Presidente Goulart. Mandei logo uma série de telegramas para o “República”, mas o chefe de redacção, o Artur Inês, respondeu-me a dizer para eu mudar de tom que a censura estava a cortar os meus textos todos… Assisti a cenas de violência e perseguição incríveis. Mas percorri o Brasil todo e tive a possibilidade de conviver com pessoas como Rubem Braga, Otto Lara Resende, Vinícius, Péricles do Amaral (secretário do Luís Carlos Prestes na coluna Prestes) e tantos outros – e isso caldeou também a minha maneira de ser e de ver o mundo. Foram oito meses marcantes.

A – De novo em Portugal, arranjaste emprego?
BB – Voltei para o “República”. Mas um dia recebo um telefonema do dr. Guilherme Brás Medeiros, patrão do “Diário Popular”, a perguntar-me se poderia almoçar com ele. Eu julgava que era uma brincadeira, mas ainda perguntei: quando? Hoje, disse ele. Foi a 22 de Fevereiro de 1965. No Parque Mayer, mais uma vez. No final do almoço, avança: quer ir trabalhar para o “Diário Popular”? Quero, disse logo. Quem puxou os cordelinhos disto tudo foram o José de Freitas, o Jacinto Baptista e o Mário Ventura Henriques. Fui aceite por unanimidade pela redacção. Disseram-me: sabemos muito bem o que você pensa, mas os patrões do jornal nunca cortarão uma palavra sua. E quando tive problemas com a censura o dr. Guilherme Brás Monteiro esteve sempre ao meu lado. Nunca assinei qualquer contrato – um aperto de mão bastava. Tenho saudades da honra desse tempo. Não gosto nada do passado, mas não posso deixar de sublinhar que havia um sentido de honra que desapareceu.

A – Quanto tempo trabalhaste no “Diário Popular”?
BB – Saí após 23 anos de intenso trabalho. Foi o mais belo período da minha vida profissional. N’ “O Século” deram-me as ferramentas; no “Popular” escancararam-me as portas e incitaram-me a expender a minha criatividade. Era uma redacção sumptuosa. Recordo, com emoção e orgulho, os nomes de Urbano Carrasco, um dos maiores repórteres portugueses de sempre; José de Freitas, Jacinto Baptista, Abel Pereira, José de Lemos, Alfredo Marques, Álvaro de Andrade, Mário Rocha, Ricardo Ornellas, Aurélio Márcio, António Rêgo Chaves, João Paulo de Oliveira, Manuel Magro, Mário Ventura Henriques. E Chico Rodrigues e Manuel Pereira Rodrigues, excepcionais de faro para a notícia. Havia outros, claro!, mas desejo deliberadamente omiti-los: nada tinham a ver comigo e muito pouco com o jornalismo, tal como eu o entendo. Cito, também, os grandes repórteres-fotográficos João Ribeiro, José Antunes, Corrêa dos Santos, Eurico de Vasconcelos, Miranda Castela. Foram estes os meus companheiros inesquecíveis. Os meus camaradas autênticos, envolvidos, como eu, emocionalmente, em dar continuidade a um admirável projecto jornalístico que nos fora legado.

A – E saíste porquê?
BB – No imediato 25 de Abril, as coisas complicaram-se, e comecei a sentir-me muito mal (eu e outros) com o rumo “editorial” que o vespertino tomava. Registaram-se as traições e as ambiçõezinhas pessoais. O costume. Saí, sem levar comigo um tostão. Ganhava sessenta contos mensais.

A – Foste para onde? Há aí um novo período difícil da tua vida profissional…
BB – Trabalhei, durante seis meses, para o João Soares Louro, fui para o “Europeu” e segui para “o diário”, onde experimentei alguns dos mais nefastos momentos do meu trajecto profissional. Criaturas que possuíam a carteira do sindicato e que nada tinham a ver com jornalismo: eram, apenas, sargentos políticos dispostos a tudo. Desejo colocar os nomes desses senhoritos à margem desta conversa, desejadamente asseada. Claro que me senti feliz em trabalhar com gente como o António Borga, o Luís de Barros, a Teresa Horta, o Joaquim Benite, o Alferes Gonçalves, o João Paulo Guerra, o Sérgio Figueiredo… Deixo para um texto memorialístico que estou a escrever o cuidado de escarmentar quem é desprezível. Mas quero fazer uma grande ressalva: os cuidadosos avisos que me foram feitos pelo José Sucena, querido amigo e homem de bem. “o diário” foi uma experiência de cinco meses, inesquecível pela negativa.

A – Conheceste de novo o desemprego, portanto.
BB – Pedi trabalho em tudo o que é Imprensa portuguesa. Nada. O então director do “Público”, contou-me o João Mesquita, disse que eu não entrava porque era… amigo dos cubanos. Outro, um arquitecto que se diz jornalista, e é um arrebatado medíocre, além de ser uma figurinha hilariante, e esteve na direcção do “Expresso”!, fez-me uma malandrice do pior que possas imaginar. Já o ferrei na praça pública: certa noite, estendeu-me a mão; ficou com ela no ar. Estas coisas devem ser feitas com testemunhas, para que as histórias não sejam contadas de outra maneira. Assistiram ao higiénico acto o José Quitério, o João Carreira Bom, a Maria José Mauperrin, e alguns mais. Contos largos, também assomados na memorialística que redijo. Desempregado, com sete pessoas a meu cargo, lancei-me à tradução, a escrever discursos para empresários e, até, para políticos… de Esquerda, socialistas ou mais ou menos… A Hermínia Rosa, da Caixa dos Jornalistas, agora destruída por um governo… dito socialista… mas ferozmente déspota, autista e autoritário, a Hermínia Rosa aconselhou-me a inscrever-me no Desemprego. Assim fiz. Tinha 56 anos e esperei, na secção do Saldanha, a hora de ser atendido. O Mário Crespo, então pivô na RTP, soube do assunto e enviou a Isabel Horta a fazer uma reportagem do caso. Eles realizaram um comoventíssimo trabalho jornalístico sobre a situação de um camarada deles colocado numa situação extrema. Crespo assinalou os prémios e as traduções de livros meus. A reportagem teve amplas repercussões, e foi vista em várias partes do mundo. Ainda hoje não consigo rever as imagens da cassete que o Mário Crespo me enviou. E estarei sempre grato tanto a ele quanto à Isabel. E, também, a Manuel Luís Goucha, que me convidou, propositadamente, para aparecer num programa dele. Não conhecia pessoalmente o Goucha, nem sabia o que ia lá fazer. Eis senão quando, directo no ar, o Goucha diz: “Este senhor é um dos maiores jornalistas portugueses, e está desempregado. Isto é uma vergonha que desejo assinalar!” Eu não sabia onde me meter, embaraçado e comovido, e o Goucha, então, abraçou-me, ele também muito comovido.

A – Sei que há também um episódio edificante em que entra o José Eduardo Moniz…
BB – Sim, o Moniz (que fora meu estagiário no “Popular”), então figura poderosa na RTP, chamou-me, a instâncias do João Soares Louro, recebeu-me num gabinete do tamanho de um rinque de patinagem, eu estava ali um pouco atrapalhado, embaraçado e, até, envergonhado, ele abre-me os braços, diz: “Você é o meu mestre! Não era preciso o Soares Louro chamar-me a atenção para a sua situação, eu já estava disposto a telefonar-lhe. Vou já chamar um rapaz muito prometedor, que lhe irá arranjar um trabalho”. O rapaz prometedor, qualquer coisa Nogueira, estava cheio de gel no cabelo, casaco de largos ombros descaídos, calças a condizer. O Moniz repetiu, com a gravidade que talvez o momento não recomendasse (eu preferia que a cena fosse mais alegre): “O Bastos foi o meu mestre! O meu mestre!”. Eu, encolhido, sem saber o que dizer, balbuciei: “Mestre, semestre e trimestre”. Aprazaram comigo que me telefonariam dali a dois dias. Até hoje. Coitado do Moniz! Tenho muita pena dele! Quanto ao resto, aguentei-me, meu amigo, aguentei-me! Cheguei onde desejava chegar com algumas mazelas e alguns desgostos mal remendados. Divirto-me com os vencedores do momento. Mas cheguei são e salvo onde desejava chegar!

A – A conversa já vai longa e quase não falámos de literatura portuguesa nem da da tua obra literária.
BB – A minha actividade literária complementa-se com a minha actividade jornalística. A disjunção, pretendida por alguns indivíduos, entre jornalismo e literatura, é mais de ordem corporativa do que de ordem vital. Escrevo todos os dias, leio todos os dias. Publico livros muito espaçadamente. Nada tenho a ver com estes realejos literários que por aí se editam. Tenho profundíssimo respeito, admiração e consideração por Agustina, Saramago, Mário Cláudio. Não vendem fruto com bicho. O resto, deixou de me interessar. A maioria está a escrever sobre a vidinha, sem ter experimentado a vida, sem a ter arriscado. São escritores que vendem muito bem, põem gel no cabelo e na escrita. A literatura, como o jornalismo, deve ser moral em acção, e ambos são tão perigosos como a prática do alpinismo. Mas quanto aos poetas, esses, enchem uma lista imensa, enchem a minha vida de regozijo.

A – Estás muito ácido em relação à nossa prosa actual…
BB – Penso que os escritores têm de conhecer a matéria com que trabalham – para poderem ir para a cama com ela, para ir para o leito nupcial e para poder brincar com o idioma. E nós só aprendemos isso – e nunca aprendemos totalmente – frequentando os clássicos.

A – Quem são os clássicos a que te referes?
BB – Por exemplo, Vieira, Pascoaes, Carlos Oliveira, D. Francisco Manuel de Melo, Aquilino, Tomás de Figueiredo. Temos que começar a recuperar esta gente.

A – Esta gente?
BB – É, é. Esta gente que cito é que representa rigorosamente aquilo que podemos classificar de cultura portuguesa. E esta gente foi quem deu à Pátria a sua fisionomia específica. Não são os políticos que dão a fisionomia à Pátria. Isso é com os escritores, com os artistas.

A – Tens alguma coisa contra os políticos?
BB – Contra estes políticos tenho tudo e mais alguma coisa. Atingiram o grau superlativo da mediocridade. Pode-se estar em desacordo com os nomes que vou citar – mas eles marcaram decisivamente uma época: Mário Soares, Álvaro Cunhal, Francisco Sá Carneiro, Vasco Gonçalves. Cada um deles, à sua maneira, e com as características culturais próprias, tinham um projecto político-ideológico próprio para Portugal. E tinham, esses quatro homens, convicções. E esta gente de agora não tem convicção nenhuma. E andam neste pequeno jogo de interesses que só favorece o mais torpe e o mais feroz dos capitalismos. E os intelectuais, os escritores portugueses, assistem a isto e… nada. Não estão interessados no compromisso moral com a sociedade e o seu povo, contrariando, aliás, as linhas tradicionais da cultura portuguesa.

A – Continuamos sem falar dos teus livros… Que títulos gostarias que não fossem esquecidos?
BB – Os meus livros… Creio que dois ou três vão ficar, talvez “Cão Velho entre Flores”, talvez “Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura”. Do jornalismo, as entrevistas, talvez “As Palavras dos Outros”. Nunca tive pressa. As coisas vão chegando. Um pouco atrasadas, às vezes, mas vão chegando. Não te esqueças que Portugal vive no lodaçal da amnésia histórica. Um país que esqueceu Aquilino, que não lê Tomaz de Figueiredo, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, os dois Camilos, o Castelo Branco e o Pessanha; que desconhece Cesário Verde, e dois poetas tão ou mais importantes do que Pessoa: Nemésio e Jorge de Sena – é um país condenado.

A – Se bem te conheço, estás longe de desistir seja no que for. Fala-me dos teus projectos.
BB – Entreguei, ao meu editor, a ASA, um romance, “As Bicicletas em Setembro”, título extraído a um dos mais belos poemas de Eduardo Guerra Carneiro, parceiro de bares, de noitadas, de jornalismo e de literatura. Vai também ser editado um álbum “A Lisboa de Baptista-Bastos”, com belíssimas aguarelas de João Abel Manta, selecção de textos sobre a cidade, apresentação e aparato crítico do prof. Ernesto Rodrigues. Há o texto memorialístico de que já falámos. E pretendo ordenar um novo livro de crónicas.

A – Não te vou perguntar onde estavas no 25 de Abril, mas gostaria de saber o que esperavas que essa data histórica proporcionasse ao jornalismo e à literatura. A 32 anos de distância, que balanço?
BB – O 25 de Abril foi o dia do meu coração. O Álvaro Guerra estava metido na conspiração e perguntou-me se eu estava disposto a nela entrar. Disse-lhe que não. Todas em que me tinha metido haviam falhado, porque estávamos no meio dos dois sistemas de mundo que, então, se digladiavam. Tinha filhos e não estava disposto a permitir que fossem para a guerra colonial. Preparava-me, pois, para ir embora, talvez Inglaterra, não sei bem. Não acreditava em nada ou quase em nada. Como agora, aliás. Dá-se o 16 de Março, nas Caldas da Rainha. Vai o Marcelo à Televisão e declara que está tudo sob controlo. A partir daí percebi que algo de muito importante ia ocorrer. Quando o tirano diz que controla, é porque já não controla coisíssima nenhuma. Mas os anos posteriores ao 25 de Abril naufragaram na mais atroz mediocridade: escritores e jornalistas que nunca o serão, à força de o quererem ser. Tanto o jornalismo como a literatura são actividades muito sérias. E eu não gosto nada do que por aí vejo: prosa engravatada ou de casaco de peles. Entretanto, continuo ateu, brigão e sentimental.

Ribeiro Cardoso

TALENTOSO E EXCESSIVO

Tem um corpo enorme, cabelos brancos e coração ao pé da boca. A sua voz roufenha e o seu sorriso, por vezes enigmático e mordaz, são bem conhecidos dos portugueses graças aos programas “Conversas Secretas” e “Cara-a-Cara”, que há anos assinou na SIC e marcaram um estilo nas entrevistas televisivas – como antes o seu talento tinha marcado o jornalismo escrito.
Nome grande da nossa imprensa e da nossa literatura da segunda metade do século XX, Armando Baptista-Bastos, BB para os amigos, nasceu em Lisboa, no Bairro da Ajuda, em 27 de Fevereiro de 1934, tendo frequentado a Escola de Artes Decorativas António Arroio e o Liceu Francês. Quanto a universidades, frequentou a maior de todas: a da vida, que subiu a pulso sem nunca renegar as linhas mestras do exemplo paterno – e por isso pagando um preço alto, como se pode ver na fabulosa história de vida que conta nestas páginas.
Casado, com três filhos licenciados – um arquitecto, um jurista e um psicólogo clínico – nos seus 72 anos de vida intensa já não é um homem da noite nem de excessos e vive feliz e realizado, mas não acomodado, junto da mulher que ao longo de uma vida sempre foi o seu esteio maior, tudo lhe aguentando: chama-se Isaura, tem cabelos prateados e um sorriso bom entre todos.
Com 19 livros publicados até ao momento – ensaios, romances, contos, entrevistas e crónicas (nomeadamente sobre Lisboa) -, autor de admiráveis prosas em jornais e revistas, continua a produzir e cheio de projectos. As suas memórias, aqui anunciadas, serão seguramente um acontecimento.
Privilegiando sempre a conversa, o convívio e os afectos, é vê-lo todas as Sextas-Feiras no Solar dos Presuntos, à mesa com os seus parceiros da tertúlia “Os Empatados da Vida” – distribuindo ferroadas à esquerda e à direita (sobretudo à direita…) e contando casos e histórias respeitando escrupulosamente o ditado popular “Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”. Quem o conhece e dele gosta, garante mesmo que acrescenta sempre muitos pontos… Mas ninguém leva a mal. Ah, é verdade: os livros do BB estão traduzidos em várias línguas, têm sido objecto de estudos e teses de licenciatura em universidades portuguesas e estrangeiras e à sua obra – jornalística e literária – já foram atribuídos numerosos e prestigiados prémios.

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“Esforço-me para que as pessoas gostem de mim”

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

Helena Teixeira da Silva

Está de férias no Ribatejo. Baptista Bastos, 73 anos, atende o telefone, disponível para responder à entrevista no imediato. Mas também aceita que possa ficar para o dia seguinte. O jornalista e escritor interrompe o livro de memórias durante 29 minutos. Alguém duvidará da razão pela qual é controverso? 

António Lobo Antunes só costuma conceder entrevistas a quem leu a obra dele completa. Também só fala com quem conhece o seu percurso jornalístico de 50 anos?

Não conheço o Lobo Antunes.

 

Quer dizer que ainda não fizeram as pazes?

Não sei quem é. Li só um livro dele.

 

O seu estilo de entrevistar é reconhecido. Qual é o par que mais respeita?

Na televisão, é o Mário Crespo.

 

E nos jornais?

É mais difícil, embora eu leia todos os jornais… mas deixe-me cá ver…

 

Anabela Mota Ribeiro?

Não, não… A entrevista para mim é outra coisa… É o Mário Crespo definitivamente que se aproxima mais da ideia que eu tenho de entrevista.

 

Por que desatou a perguntar a toda a gente onde havia estado no 25 de Abril?

Queria saber onde não estiveram. É uma data importantíssima. Costumo dizer que é a minha data do coração.

 

Data a que o tempo fez jus?  

Não. O 25 de Abril não foi cumplido. Foi traído pelo PS.

 

Alguma vez chegou a sentir a inveja de que o seu editor, n’”O Século”, Acúrcio Pereira, disse que iria padecer?

Ele era chefe de redacção; na altura ainda não havia editores. Editor, em Portugal, não quer dizer coisa rigorosamente nenhuma. É uma cedência do jornalismo português ao jornalismo anglo-saxónico. Eu comecei muito novo a trabalhar n’”Século”, que era, de facto, considerado uma universidade. O Mário Zambujal até lhe chama “catedral”, porque saíamos dali como profissionais muito apetrechados. E eu, como vinha de uma tradição literária, comecei a fazer jornalismo de autor, muito marcado, e foi nesse sentido que Acúrcio Pereira disse: “Eh, pá, vais sofrer invejas”. É uma coisa terrível. Mas eu não dou muita importância a essas coisas. Aliás, eu nunca me levei muito a sério. As pessoas que se tomam muito a sério são umas desgraçadas. Tomo a sério os outros.

 

Miguel Sousa Tavares disse, recentemente, o contrário: que se acha superior e que age como se o país estivesse sempre em dívida consigo…

O Miguel Sousa Tavares tem um problema gravíssimo: pensa e escreve como o Miguel Sousa Tavares.

 

O que quer isso dizer?

Quer dizer rigorosamente o que acabei de dizer. É um escritor que não existe e um jornalista que dá vontade de rir.

 

Diz e faz as coisas como lhe apetece. Qual é o preço?

Não podia fazer à maneira do Miguel Sousa Tavares, senão era uma maneira muito mal feita.

 

A integração dos jornais em grandes grupos económicos restringe a nossa liberdade?

Mas isso é resultado da globalização e do mercado livre, que permite tudo. Hoje, qualquer pessoa chega a director de jornal com uma rapidez impressionante, qualquer pessoa começa a escrever artigos de opinião. Não pode ser! Perde-se completamente a credibilidade. Se calhar sou anacrónico, penso de outra maneira, sou de outro tempo… Mas eu trabalhei em grandes jornais, e aquelas redacções metiam medo, porque cada um vigiava o outro. Era um jornalismo que recusava essa grande tese da distanciação; era um jornalismo da proximidade o que nós fazíamos. Aliás, não entendo essa coisa da distanciação quando a única coisa que o jornalismo pode ser é justo, procurar a justeza das coisas. Quanto mais aproximados estamos, mais entendemos os factos.

 

Quando fala de proximidade não está a referir-se a uma proximidade geográfica… Digo isto, porque os jornais têm investido em edições múltiplas, com destaques diferentes para cada região do país…

Não, não. Falo de aproximação no sentido do compromisso com o leitor. A tese da distanciação é como se o jornalista não tivesse nada a ver com a notícia, como se o director e o chefe de redacção não tivessem nada a ver com o jornalista, e o jornal não tivesse a ver com nada. A distanciação é absurda.

 

Os jornais estão a perder leitores. Acredita na inversão do cenário?

Os jornais vendem menos porque estão cada vez estão piores, não correspondem às necessidades e aspirações das pessoas, nem fornecem o retrato da sociedade portuguesa. Veja este caso exemplar: como é possível que durante 15 dias, as televisões, os jornais e as rádios tenham estado a massacrar-nos a cabeça com um problema de dois cavalheiros –  Paulo Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves – cujo problema é pessoal? São pessoas, ao que julgo saber, que ganham mais de 50 milhões por ano. Joe Berardo, com aquela forma que lhe é própria disse esta coisa espantosa: “O Jardim tem 40 guarda-costas e aviões particulares”. O que é isto? Isto não pode ser. Aquilo é uma empresa privada, certo, mas as coisas têm que ter um mínimo de ética e moral. Os jornalistas não fizeram uma interpretação factual daqueles acontecimentos. Como vivem? Como educam os filhos? É importante saber isso. Eu tenho três filhos formados e vi-me à nora para os licenciar. Tive que abdicar de muitas coisas. Ninguém nos ajudou. Mas sim, sim, sim, há aí uma nova geração de jornalistas que está a perceber que não pode ser enganada. E isto vai dar frutos, evidentemente.

 

O futuro da imprensa passa pelos textos curtos ou bem escritos?

Sobretudo bem escritos. Não entrem nessa espécie de depressão que tem sido provocada por uns tipos medíocres que transformaram o jornalismo numa espécie de tabelionato. Há uma frase de um escritor que admiro muito: “Quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Já viu o bando de medíocres que está nas escolas de Comunicação Social sem saber fazer uma notícia?

 

Os textos de necrologia deveriam regressar às páginas dos jornais?

É uma das notícias mais difíceis, mas o Miguel Sousa Tavares não percebe nada disso, julga que o jornalismo é outra coisa. Há grandes jornalistas que fizeram grandes necrologias. Basta ler o terceiro volume de “As farpas”, de Ramalho Ortigão para perceber o que é fazer uma necrologia.

 

Ser-lhe-ía mais apetecível escrever as suas memórias ou um manual de jornalismo?

Manuais, nem pensar. Dei aulas numa Universidade. Começaram com 21 alunos e acabaram com 40. Mas isso aconteceu porque eu levava livros do Sena, do Nemésio, do Eugénio de Andrade e discutia com eles. Estou há muito tempo a escrever um texto memorialistico. Não é que a minha vida tenha alguma importância, mas nela atravessou-se muita gente. Conheci meio mundo. Ainda ontem estive a terminar um texto sobre Aquilino Ribeiro. Eu conheci-o. Ele gostava muito de mim. Foi essa gente que formou o homem que eu sou. Gente que tinha o conceito da ética, da moral, da deontologia, e que a aplicava a todos os sistemas de vida.

 

Está na casa de Constância, no Ribatejo. O que faz aí?

Leio e escrevo no computador.

 

Tinha de si uma imagem mais romântica: a do homem que ainda escreve à mão…

Mas escrevo à mão. Num Moleskine onde aponto uma data de coisas e com uma Mont Blanc. Só depois passo para o computador.

 

Que relação tem com a internet? Vasculha blogs?

Não percebo nada disso, nem quero. Gosto do papel impresso, do cheiro dos jornais e das redacções. Aos blogs falta o suor, o cheiro dos corpos, a gritaria…

 

Ameaçou não votar nas eleições intercalares de Lisboa…

… e não votei. E disse ao António Costa, que conheço desde pequeno, que não iria votar nele, porque ele é cúmplice das malfeitorias que este Governo tem feito. É das coisas mais lamentáveis que tenho visto. Felizmente, não votei neles.

 

Critica a Esquerda por estar mais à direita que a Direita._Mas também não se revê na Direita. É um órfão político?

Sou um homem de Esquerda, irremediável e jubilosamente.

 

Mas não é deste PS?

Este PS não tem nada a ver com a Esquerda. Sou de uma Esquerda muito rebelde, que contesta as coisas, que leu Marx, mas que não recusa a bíblia. Que se encontra onde encontra o humanismo. Estamos a precisar de gostar uns dos outros.

 

Gosta que gostem de si ou basta-lhe que o respeitem?

Gosto muito que gostem de mim e faço grandes esforços para isso, sobretudo com as mulheres.

 

Porque razão diz que a vida só é bonita se for difícil?

Eu sou muito feliz. Não há nenhuma pessoa feliz, mas poucos homens estarão tão perto da felicidade como eu. Casei com uma mulher que me tem aguentado tudo, tenho a profissão que escolhi e é verdade, a vida só é bela quando é difícil. A gente só gosta das coisas que custam a adquirir. Tenho tantos amigos, que nem julgava que os tinha. Não tenho medo de dizer as coisas. Não gosto da mediocridade, da soberba, da arrogância. Não gosto daqueles jornalistas – e estou a pensar num em particular, e do qual já disse o nome – que querem ser os catões da moralidade quando na verdade tem telhados de vidro. As pessoas têm que ter com os outros uma relação de respeito e admiração. Eu admiro tanta gente que, às vezes, os meus amigos dizem: “Tu admiras demais”. Tenho um grupo que se reúne todas as sextas-feiras. Somos os “Empatados da vida”, aqueles que nem venceram, nem foram vencidos.

 

Quem são?

O Mário Zambujal, o João Paulo Guerra, o Eugénio Alves, o professor António Borges Coelho, o Fernando Dacosta e o José Manuel Saraiva. Não queira saber o que nós nos divertimos.

 

Gostava de ser uma mosquinha nessas tertúlias…

Posso convidá-la, se quiser. Às vezes, convidamos pessoas. O último foi o Luís Filipe Menezes.

 

A idade ainda é um posto?

A idade não, a amizade é que é um posto. Amigo nunca trai amigo.

 

Recentemente, morreram dois dos seus poetas de eleição: Mário Cesariny e Eugénio de Andrade. Lê-os agora de forma diferente?

Tenho uma colecção de poesia que, se calhar, muitos poetas não tem. A poesia ajudou-me a melhorar a prosa. A poesia e a pintura. Percebi isso muito cedo. Andei em arquitectura, e andei a chumbar, e percebi com Van Gogh e, mais tarde, em Leninegrado – continuo a dizer assim e não São Petersburgo -, no Museu Hermitage, com parte substancial da obra de Picasso, o que era o adjectivo na prosa, com cor, mas com contenção. Não é atirar adjectivos aos molhos como faz o Lobo Antunes.

 

Raul Brandão, um dos seus escritores, escreveu: “A verdade amarga e única é esta: é que na vida é preciso sonhar para não se morrer transido, tantos são os pontapés que a gente leva na alma e noutra parte”: Concorda com ele?

Ainda ontem estive a reler parte de “A Farsa”. É assim. Sou incapaz de pensar numa pessoa que não sonhe. Pode viver sem ideias, mas não pode viver sem sonhar. A vida seria insuportável

 

A sua vida é um acto poético?

Sempre foi; sempre será.

 

Vai continuar a resistir à gravata em prol do laço?

Paginei o “Diário popular” e a gravata, naquela tipografia tradicional, ficava sempre cheia de tinta. Passei a usar laço. O nó do laço é mais fácil de dar do que o da gravata. Sim, porque não os compro feitos.

 

Baptista Bastos

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CONSTRUIR UM PAÍS

Novembro 17, 2007 · 1 Comentário

PRECISA-SE DE MATÉRIA-PRIMA PARA CONSTRUIR UM PAÍS

Por EDUARDO PRADO COELHO

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos… e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram o lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é “muito chato ter que ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns. Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser “compradas”, sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.

Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes. Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.

Como “matéria-prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa “CHICO- ESPERTERTICE PORTUGUESA” congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte…

Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria-prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada… Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier.

Qual é a alternativa?

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa” não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados…igualmente abusados!

É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda… Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um Messias.

Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro… Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.

E você, o que pensa?…. MEDITE!

In “Público”

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Chávez não se cala

Novembro 15, 2007 · Deixe um comentário

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“Campanha desesperada”

Novembro 12, 2007 · Deixe um comentário

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Quem é o cão?

Novembro 7, 2007 · 3 Comentários

É uma bela história: Guillermo Vargas acordou certo dia deprimido com a fome no mundo. Guillermo é artista e um artista, por definição, não faz um sanduíche e alivia seu sofrimento como qualquer mortal. Um artista denuncia as injustiças do mundo, de preferência com gesto “impensável” e “radical”.

Guillermo decidiu: resgatar um cão das ruas da Nicarágua, enfiá-lo numa galeria de arte, amarrá-lo com uma corda à parede e esperar para ver. Não é difícil imaginar o que aconteceu: sem comida e sem água, o bicho morreu. Intencionalmente? A diretora da galeria, Juanita Bermúdez, diz que não. Uma petição on-line contra Guillermo diz que sim. E Guillermo prefere não dizer nada. Prefere contra-atacar a hipocrisia das pessoas, que se comovem com um cão famélico numa galeria de arte mas ignoram os bichos, e sobretudo os humanos, que vagueiam pelas cidades.

A notícia saltou para as primeiras páginas e as discussões dividiram-se em dois campos. O primeiro discute a arte de Guillermo, decidindo se a tortura de um cão é um gesto “artístico” legítimo. O segundo defende o próprio cão, em nome dos “direitos dos animais” que Guillermo teria grosseiramente violado.

Eu respeito os eruditos que discutem a “arte” e os “direitos”. Mas gostaria de regressar ao próprio artista, que não ficou apenas pela denúncia da hipocrisia humana perante a fome. Nas sábias palavras de Guillermo, as pessoas contemplaram o sofrimento do cão mas ninguém decidiu libertá-lo da galeria onde estava amarrado; e, mais ainda, ninguém chamou a polícia.

Nem mais. A palavra central de toda essa história é a palavra “polícia”. Não vale a pena discutir a “arte” de Guillermo, porque a discussão pressupõe levar a sério a psicopatia de terceiros. E os “direitos dos animais” nunca me convenceram. Razão simples: os animais não têm direitos; a capacidade para articular e defender “direitos” é uma prerrogativa racional e humana, que brota da nossa humana dignidade.

Mas se os animais não têm direitos, isso não significa que os homens não têm deveres para com eles. A começar pelo dever de não os abandonar ou maltratar, o que seria uma degradação da nossa própria superioridade enquanto humanos. Dito de outra forma: se os homens não respeitam os seus deveres, eles também não merecem os seus direitos. Quando ignoramos o dever de não torturar ou não matar, perdemos também o direito de não sermos julgados ou presos.

O lugar de Guillermo Vargas e da galerista Juanita Bermúdez não é nos cadernos de cultura; é na delegacia, no tribunal e, quem sabe, na cadeia. Ou, para sermos mais específicos, na jaula que ambos merecem. Matar um cão por capricho “artístico” não é uma violação dos direitos do cão; é uma violação dos deveres do homem. É uma particular forma de desumanidade que coloca qualquer ser humano ao nível de uma besta.

João Pereira Coutinho

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Ser de esquerda

Novembro 7, 2007 · 1 Comentário

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Nick Cohen

Entrevista: “Ser de esquerda significa apoiar o Estado e, temo, ser anti-americano”

O que resta da esquerda ou como a esquerda está sempre pronta a desculpar mais depressa Saddam e Osama do que George W. Bush. Entrevista com Nick Cohen, que acaba de lançar “O que Resta da Esquerda?” em Portugal

Em 2003, Nick Cohen, jornalista, colunista do “Observer” e colaborador da “New Statesman”, escreveu um livro que foi considerado a mais devastadora crítica ao New Labour de Tony Blair. De esquerda, entenda-se. Chamava-se “Pretty Straight Guys” e considerava os seus governos os mais absolutistas desde os Stuarts. Levantou uma gigantesca polémica. A mesma que agora provocou o seu último livro “What’s Left?”, publicado em Fevereiro e agora editado em Portugal pela Aletheia com o título “O que Resta da Esquerda?” É uma diatribe violenta contra a esquerda liberal britânica que… se opôs a Blair.

Incoerente? Não tanto, se soubermos que, em 2003, ele já considerava que a guerra contra Saddam fora das poucas coisas que Blair fizera bem, mesmo que nem sempre pelas melhores razões. O que ele tenta provar em 2007 é como a esquerda liberal britânica (e, de caminho, a das democracias ricas do Ocidente) perdeu qualquer sentido moral virando as costas às vítimas da opressão e do terror a não ser que essa opressão e esse terror possam ser assacados aos americanos. É implacável a desmistificar os Michael Moore e os Noam Chomsky da esquerda, mas deixa-nos perplexos quando argumenta que as suas ideias afectam hoje o mainstream liberal e não apenas as suas margens. Acusa a esquerda, de um modo geral, de estar sempre disponível para desculpar mais depressa Bin Laden, Saddam ou qualquer movimento obscurantista do que George W. Bush.

Ele próprio começou por criticar a guerra, para mudar de posição quando se interrogou sobre as gigantescas manifestações de Fevereiro de 2003 contra a guerra. “O Iraque é o único país árabe com um forte movimento de oposição democrática. E, no entanto, eu pergunto-me quantos dos manifestantes sabem sequer da existência dos dissidentes.”

O seu livro, como admite na entrevista ao P2, nasce desta interrogação. Extractos.

Em 2001 era contra a guerra do Afeganistão, contra Blair, contra Bush, como muita gente na esquerda. O que é que o fez mudar desta forma, ao ponto de escrever este livro que deixa a esquerda de rastos, quando as coisas estão mesmo a correr mal no Iraque?

Uma coisa peculiar. Durante a ditadura de Saddam, que se assemelhava em tudo ao fascismo, havia uma oposição que era perfeitamente conhecida pela velha esquerda europeia – os socialistas, os comunistas, os sindicalistas. O que me fez mudar foi a constatação de que a esquerda no Reino Unido, na Europa e na América não conseguia opor-se a Bush e, ao mesmo tempo, continuar a apoiar essas pessoas que, no Iraque, partilhavam os seus valores. A partir do momento em que se pergunta porquê, então temos de perguntar a seguir que valores são esses. Parece uma coisa insignificante, mas não é.

Os valores da esquerda?

Deus sabe os terríveis crimes que a esquerda cometeu no século XX, mas era boa na luta contra o fascismo. Bom, nem sempre, mas quase sempre. E o seu lado mais nobre era o internacionalismo, a solidariedade, a camaradagem. E eu perguntei-me: porque é que tudo isto desapareceu? Nunca consegui ver ninguém de esquerda dizer: esperem aí, porque é que não apoiamos as pessoas que, no Iraque, querem exactamente o mesmo que nós e que sofreram mais do que algum de nós pode sequer imaginar?

Depois, percebi uma coisa terrível: que as pessoas que são vítimas de movimentos extremistas e de regimes ditatoriais cujos actos não podem ser atribuídos à responsabilidade dos americanos passam a ter muito pouco apoio. Por exemplo, as feministas iranianas, os palestinianos secularistas, os sindicalistas chineses. É só quando o sofrimento das pessoas pode ser atribuído à América, ou ao Ocidente em geral, só nessas condições é que merece solidariedade.
O Iraque é um exemplo clássico disto que lhe estou a dizer. Nos anos 80, quando Saddam era aliado dos EUA, as pessoas em Londres reuniam-se, choravam, sofriam com o sofrimento dos iraquianos. No momento em que Saddam invadiu o Koweit e se tornou inimigo da América, foram-se todos embora.

O seu livro foi publicado em Fevereiro, precisamente no momento em que as pessoas, da esquerda ou da direita, que apoiaram a guerra estão a pensar se valeu a pena derrubar um ditador

Mas este não é um livro a favor da guerra no Iraque. E também não é sobre o Iraque. Cada vez que menciono a oposição à guerra digo que havia muito boas razões para o fazer e que quase tudo o que se disse na altura acabou por revelar-se verdadeiro Já lhe disse que a minha questão é outra.
Olhe, no Reino Unido, há uma maneira muito estranha de se descrever o que se passa hoje no Iraque. Diz-se que não sei quantas pessoas foram mortas num atentado, que uma bomba despedaçou um sindicalista, mas não se diz quem fez isso, quem pôs a bomba. Não se diz qual é a ideologia extremista que está por trás disso.

Tenta comparar o que aconteceu na Europa nos anos trinta com o que está a acontecer agora…

O que me interessou não foi o facto de parte da esquerda ter seguido Estaline. Foi ver como é que as pessoas de esquerda que eram contra o fascismo acabaram por estar ao lado de Hitler. Quando se passa a vida, tendo ou não razão, a denunciar a nossa própria sociedade e os seus abusos, fica-se quase sem defesa para compreender como o totalitarismo é mil vezes pior. Dizia-se: “O Hitler é um nazi mas o Churchill é um fascista.” Hoje vimos este tipo de raciocínio todos os dias. “OK, os taliban e a Al Qaeda são horríveis, mas os Abu Ghraib, os Guantánamo são a mesma coisa.”

Pensa que o maior problema dessa esquerda que critica é não gostar da democracia liberal?

É parte do problema. Mas creio que é mais profundo do que isso. O socialismo acabou e era o socialismo que definia a esquerda desde o final do século XIX até ao final dos anos 80. E o que acontece a seguir? De alguma maneira, isso liberta as pessoas para seguir qualquer tipo de ideias e também torna muito mais fácil ser de esquerda. Porque, verdadeiramente, não é preciso acreditar em nada de positivo. Antes, era preciso acreditar num programa positivo. Sou de esquerda porque acredito que os bancos devem ser nacionalizados em Portugal, por exemplo. Agora já não é preciso acreditar em nada disto. O que eu digo é que a esquerda liberal, do mainstream, traiu todos os seus princípios.

É esse salto que não compreendo no seu livro. A sua crítica concentra-se em fenómenos marginais. Mas o Fahrenheit 9/11 de Michael Moore não convence ninguém que seja normal. Noam Chomsky não tem assim tantos adeptos. Isso não é significativo do pensamento da esquerda liberal.

O que tento fazer é mostrar como algumas ideias que começaram na extrema-esquerda, que nasceram dos restos do socialismo, nos movimentos trotskistas, anarquistas, anti-globalização, nas franjas como você diz, se transformaram em ideias comuns do maisnstream liberal.

Foi um crítico duro de Blair e do New Labour. Mas quando se chega ao fim do seu livro somos obrigados a perguntar porquê. Ele foi internacionalista, quis derrubar um ditador terrível, defendeu os valores das nossas sociedades com tenacidade. Nada disso tem a ver com a esquerda?

Agora, estou menos crítico, é verdade. Mas tem razão, era crítico. Perguntava-me quando é que as pessoas iam erguer-se contra aquilo que ele estava a fazer no Reino Unido. E, afinal, as pessoas só se ergueram contra ele quando ele quis derrubar um regime totalitário. A partir daí, você tem de começar a fazer algumas perguntas.

O problema com Blair era o que acontece normalmente com líderes muito fortes. As pessoas que os rodeiam acham que não se pode discordar de uma parte sem discordar de tudo e isso torna-as dogmáticas.

Não acha, pois, que o New Labour seja uma forma moderna de esquerda?

(Pausa longa) Se eu fosse um conservador, chamar-lhe-ia assim. Mas eu não sou. É uma forma de gerir a globalização e tentar encontrar algum dinheiro dos impostos para gerir o Estado de bem-estar. O que perdeu, o que o Labour deixou cair, foi o sentido de missão, de fé.

É pragmático. Isso é mau?

Não estou a dizer que seja errado. Estou a dizer que não é reconhecível no que era a esquerda, que é diferente da esquerda do século XX, que tinha esse zelo, essa fé quase religiosa no progresso. Isso desapareceu porque foi descredibilizado pelo comunismo e também pelo sucesso do capitalismo global em tirar muita gente da pobreza. E isso deixa nas pessoas, que na Europa votam sem estados de alma nos partidos pragmáticos sociais-democratas, um vazio espiritual que pode ser facilmente ocupado por ideias negras e perigosas, essas que vêm dos extremos.

A integração dos imigrantes, as sociedades multiculturais… A esquerda também, do seu ponto de vista, não está a saber responder a isto?

Num certo sentido, o meu livro é sobre isso. As mulheres muçulmanas que vivem na Europa, por exemplo, deviam poder contar com o apoio da esquerda para se poderem emancipar. Mas, por causa do dogmatismo sobre o multiculturalismo, não podem. É a esquerda que hoje lhes diz: isso é a vossa cultura. E qualquer pessoa que se lembre de criticar essa cultura em termos mais duros é logo acusada de ser islamofóbica e racista.

Mas não lhe parece que a sua crítica é demasiado generalizada? Há intelectuais liberais no seu país que sabem perfeitamente fazer as distinções essenciais. Garton Ash, por exemplo…

Sim? Não sabia que Timothy Garton Ash criticou duramente Ayaan Hirsi Ali [a deputado holandesa de origem somali], quando ela escreveu um livro a defender os valores do iluminismo e o feminismo? Não sabia? Os principais ataques a Hirsi Ali não vieram dos conservadores, vieram dos liberais como ele. Quando são confrontados com uma mulher que precisa de guarda-costas para sair de casa porque defende os direitos das mulheres e o direito a escolher a sua fé, a mudar de fé, a não ter qualquer fé, sentem-se desconfortáveis. Penso que se colocaram numa atitude que anda próxima do racismo ao considerarem que os direitos dela são diferentes dos de qualquer mulher branca emancipada que viva em Lisboa ou em Londres só porque tem pele escura e é da Somália ou do Irão, oriunda de uma cultura diferente.

O que sobra para a esquerda então, para além da protecção do ambiente como você refere?

No livro, recuo 100 anos para os socialistas e intelectuais do início do século XX, que hoje diriam que ganharam quase tudo. Essa é uma parte do problema. Actualmente, ser de esquerda significa apoiar o Estado de bem-estar e as instituições públicas. E, temo, ser anti-americano. Não sei como é que as coisas vão avançar a partir daqui. Mas quero acreditar que o lado melhor da esquerda, o seu lado emancipador, volte a existir.
Para além disso, essa ideia do New Labour de saber como é que preservamos essa democracia social que faz a civilização europeia num mundo globalizado é interessante.

Nick Cohen,

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