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Pobreza
Outubro 17, 2007 · Deixe um comentário
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Indicadores sobre a pobreza: Portugal e União Europeia
Outubro 17, 2007 · Deixe um comentário
Os dados estatísticos existentes sobre a pobreza e a exclusão social não revelam, por si só, todas as dimensões destes flagelos, mas aproximam-nos da realidade e permitem-nos ir avaliando o caminho que estamos a percorrer.
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No país de Íqbal
Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário
Para todas aquelas crianças
que trabalham sem ter idade,
em qualquer parte do mundo.
1
— Feliz aniversário, querido!
Kevin sopra as velas. Apaga-as de uma só vez. À volta dele, pais e amigos gritam e aplaudem.
Kevin pode agora abrir os presentes. Gosta particularmente deste momento, em que pode rasgar o papel dos embrulhos.
Estragam-no com mimos. Como sempre acontece todos os anos.
Começa pelos sobrescritos que contêm dinheiro, mas o que mais gosta de abrir são, é claro, os presentes de verdade.
Dos três embrulhos, Kevin já percebeu qual é o melhor, aquele por que está à espera. Guarda-o para o fim.
— Uau, é tão bonita! — exclama.
Exactamente o que ele queria: uma bola de couro, cosida. Uma bola de jogador profissional, azul e branca, ainda mais lisa e brilhante do que nos sonhos.
Tira-a da caixa, segurando-a com a ponta dos dedos, como se fosse de açúcar.
Kevin queria uma bola, porque Laurent, o seu vizinho, tem uma e nunca quer emprestá-la por muito tempo. No entanto, é muito menos bonita.
Quando jogam na praceta em frente às vivendas, sempre que Laurent começa a perder encontra um pretexto para se zangar. Pega na bola e vai-se embora. E, claro, o jogo acaba. É irritante.
De futuro, nunca mais ninguém poderá interromper a partida enquanto Kevin quiser continuar a jogar; nunca mais ninguém poderá suspendê-la contra a sua vontade.
Nunca se sentira tão feliz.
— Dá cá! — pede o pai, estendendo as mãos.
É a sua vez de agarrar na bola. Acaricia-a, fá-la saltar, que vontade de lhe dar uns bons chutos!
— Dá-ma — atalha rapidamente Kevin, que sabe o pai que tem. Quando este segura uma bola nas mãos, torna-se uma autêntica criança. É capaz de a estragar sem querer.
— Se querem jogar, vão para o jardim!
A mãe conhece-os bem, e já começa a recear pelos móveis e adornos.
Kevin não espera que lhe digam duas vezes e desata a fugir com o seu presente.
Nem sequer espera até chegar ao relvado. Ainda vai a meio do terraço e já quer experimentar a bola. Lança-a ao chão e estende as mãos para a apanhar…
Mas não apanha nada! As mãos estendidas ficam vazias. A bola não saltou.
Estatelou-se como uma goma sobre a tijoleira. Não voltou a mexer-se, ficou como que colada e mole. Dir-se-ia um marshmallow.
Espantado, Kevin baixa-se para pegar no seu tesouro. Espantado, mas não inquieto.
Esta bola não pode ser de má qualidade. Foi ele, Kevin, que a atirou mal… Ou então é a tijoleira do terraço que está pegajosa, provavelmente cheia de compota. Seja como for, tratou-se de um acidente que não voltará a acontecer.
Kevin limpa a bola e dá-lhe lustro. Observa-lhe discretamente todas as costuras mas, nada, está tudo perfeito.
A bola precisa é de erva. No relvado vai renascer.
Kevin afasta-se da casa e espera o momento de chegar a meio do relvado para atirar ao ar o seu brinquedo.
Lança a bola para o céu, o mais alto que lhe é possível. Orgulhosamente, vê-a descer, lisa, brilhante, azul e branca, bela.
Vê-a descer… e abater-se sobre aquele tapete de relva tão suave, sem o menor desejo de saltar e de se divertir.
Não há dúvida, esta bola tem algum defeito, há algo que não bate certo.
2
— Então! Não chores! É porque a bola não está suficientemente cheia. Acontece muitas vezes quando são novas.
Kevin tinha ido contar ao pai a sua desdita. Apesar dos esforços para se conter, os olhos estão cheios de lágrimas.
O pai enterra os fortes polegares no couro, que cede facilmente.
— O que é que eu dizia! Anda, vamos arranjar isto!
Kevin assoa-se e vai com o pai até à garagem. Está cabisbaixo, ainda não sorri, mas já recuperou a esperança.
O pai de Kevin é habilidoso. Na garagem, penduradas na parede ou guardadas numa gaveta, há ferramentas que permitem consertar tudo o que não funciona bem à face da terra.
— Não mexas! Sei que há uma bomba de ar em qualquer lado… Cá está, nesta caixa…
Introduz um tubo fino como uma agulha na bomba de ar e, com firmeza, segura a bola recalcitrante entre os joelhos. E depressa lhe devolve a boa cara que ela nunca deveria ter perdido.
— Anda, apanha-a, se fores capaz!
A porta da garagem abre para o jardim. O pai lança a bola com tanta força que esta devia saltar até à parede do fundo. Kevin corre atrás dela, a rir-se…
Mas não por muito tempo!
Cheia ou não, a bonita bola deixa-se ficar na relva, após dois ou três saltos ofegantes. Não chegará nunca à parede do fundo.
Mais uma vez a esperança morreu nos olhos de Kevin.
— Tens razão — constata o pai — algum defeito há-de ter, na verdade. Talvez um problema no couro, não compreendo… Guardei o talão de compra. Amanhã vamos à loja para a trocarmos, não te preocupes!
Kevin encolhe os ombros: — Amanhã, amanhã!
Não está preocupado, mas a festa, o seu aniversário é hoje, não amanhã! Com um pontapé furioso, atira aquele trapo mole para um canto, já que de nada serve.
Kevin decide esquecê-la. Afinal, tem outros brinquedos, brinquedos de verdade que gostam de se divertir, brinquedos de confiança.
Chegada a noite, ainda se sente tão zangado que continua a não querer ocupar-se daquele brinquedo tão decepcionante.
— Pode dormir lá fora, é o que merece.
Mas o pai não está de acordo.
— Não, não, Kevin. Vai buscá-la e guarda-a. Se a perderes
ou estragares, já não podes trocá-la.
É verdade. Kevin reconhece-o. O pai tem razão.
Vai buscar a bola. Empurra-a com o pé até ao terraço, como se fosse uma velha lata de conserva, depois pega nela sem qualquer cuidado. À entrada do quarto está o cesto da roupa suja. Atira-a lá para dentro.
— Dorme bem! — ironiza.
De agora em diante só quer esquecê-la, mas sente-se tão irritado que não é capaz de o fazer. Antes de se deitar, não consegue deixar de se virar uma vez mais para o cesto, onde a deixou:
— Não se admite o que fizeste, não se admite. No teu lugar, escondia-me. Não tens o direito de ser tão bonita, de brilhar, para depois não servires para nada quando contamos contigo. Não tens o direito de te esvaziares dessa maneira… Uma idiota, é o que tu és! Detesto-te!… Ainda bem que não te mostrei aos meus colegas. Que vergonha!… Mas não faz mal, não perdes pela demora. Amanhã vais voltar para de onde vieste, e nunca mais quero ouvir falar de ti!
Mais calmo depois destas duras palavras, Kevin deita-se e apaga a luz. Está tão cansado que adormeceria bem depressa se, por detrás dele, um estranho barulho se não fizesse ouvir.
3
Um estranho barulho, na verdade, como o de alguém a fungar, como o soluço abafado de uma criança. No meio da escuridão, Kevin ergue-se e aguça o ouvido.
— És mau! — escuta distintamente.
Desorientado, volta a acender a luz da mesa-de-cabeceira:
— Quem foi que falou, quem? — pergunta Kevin, cada vez mais inquieto.
— Aqui! — decide-se a dizer a voz misteriosa. — Aqui! Na tua bola!
De facto, a voz parece sair do cesto da roupa suja.
Kevin senta-se na beira da cama, virado para o cesto, sem se atrever a aproximar-se. É impossível, não consegue acreditar.
— Uma bola não fala! Uma bola não tem boca!
— Uma bola também não tem ouvidos e, no entanto, dirigiste-me a palavra, deste-me uma lição de moral durante um quarto de hora! Verdade ou mentira? Julgo até que me chamaste “idiota”…
— Escapou-me…
— Bem vês que não é assim tão simples.
Com os olhos encarquilhados e a boca aberta, quase sem respirar, Kevin fixa o recipiente.
— Vá, não fiques assim. Vou explicar-te. Mas, por favor, tira-me deste cesto de roupa suja.
Kevin obedece como um autómato. Aproxima-se e levanta a tampa. É de facto a bola que está lá dentro, a própria bola. Pega nela cautelosamente, com as pontas dos dedos mas, desta vez, é por ter medo dela. Com os braços esticados, leva-a até à cama e pousa-a em cima do colchão.
— Pára lá com essas fitas! Anda ajudar-me! — impacienta-se a voz.
Kevin dá um enorme grito, porque a voz já não vem de dentro da bola.
Um rapazinho da sua idade esforça-se por sair pelo minúsculo orifício da válvula. Já libertou a cabeça e os ombros.
Com as duas mãos apoiadas no couro, tenta soltar o resto do corpo, e é a voz dele que se ouve.
Kevin esconde o rosto. Já nem se atreve a olhar.
— Não! É demais! Vim parar à casa do rei dos medricas, ou quê? Anda ajudar-me, já te disse! Acho que fiquei preso.
Kevin ainda tem medo, mas sente-se envergonhado. Não pode continuar a tremer. Faz um esforço para se aproximar.
É verdade que o rapaz não é nenhum monstro. Com os cabelos muito negros e muito lisos colados à testa, é parecido com qualquer outra criança.
Kevin agarra a bola, segura nela com firmeza para a impedir de deslizar para os lados, enquanto o seu estranho visitante faz cada vez mais força com os braços.
— Assim, isso! Aguenta!
Faz tanta força que se liberta num rompante, de uma forma tão brusca como a rolha de uma garrafa de champanhe. Depois de um enorme trambolhão, dá consigo sentado, de costas contra a parede, a um canto do quarto.
Ri-se. Os dentes reluzem-lhe no rosto tisnado.
Kevin ri também. O medo desaparecera. O coração continua a bater-lhe acelerado, mas por causa do esforço e da emoção.
— É um caso sério sair de lá de dentro. Ainda bem que me ajudaste, se não, ainda lá estava.
Kevin encolheu os ombros. Concorda, sente-se até orgulhoso, mas nem sabe o que dizer. Não se pode falar tranquilamente, como se nada fosse, com alguém saído não se sabe de onde. Antes de mais, Kevin precisa de algumas explicações.
O rapaz compreende.
— Queres saber como cheguei até aqui? É normal! Vou explicar-te, conforme prometi.
Levanta-se e alisa a roupa amarrotada: uma longa túnica, uma espécie de camisa de noite. Satisfeito, senta-se confortavelmente com as pernas cruzadas, em cima da alcatifa. Kevin instala-se a seu lado, com as costas apoiadas na beira da cama.
Para começar, o rapaz apresenta-se:
— Chamo-me Iqbal… Tu, chamas-te Kevin. Ouvi o teu pai chamar-te assim.
— Ouvias tudo dentro da bola?
— Claro!
— E… (Kevin lembra-se dos seus pontapés furiosos) também sentias tudo? Devo ter-te magoado! Desculpa.
— Não te preocupes, já vi outras coisas bem piores no local onde trabalho! Aliás, foi por isso que fugi.
— Trabalhar… Fugir… Continuo sem perceber! Antes de mais, diz-me de onde vens.
— Venho de muito longe. Venho do país onde se fazem as bolas.
4
Kevin, que se instalara sensatamente junto do seu convidado, levanta-se de um salto, furioso:
— Estás a exagerar! Do país onde se fazem as bolas? Tretas! Julgas, se calhar, que na minha idade ainda acredito em contos como o da Branca de Neve e os sete anões? Que ainda acredito naqueles países extraordinários onde se diz que seres minúsculos fabricam os nossos objectos quotidianos? Obrigado, mas já passei a idade dessas tolices! Ando na escola e sei que os objectos são feitos em fábricas por máquinas e até por robots… Não tentes baralhar-me!
— Mas eu não estou a tentar baralhar-te. Juro que estou a dizer a verdade: as bolas como esta são quase todas fabricadas no meu país, um país de verdade. Os bocados são unidos com um fio e uma agulha enorme por crianças da minha idade. No que me diz respeito, não os contei, mas devo ter cosido seguramente uns milhares.
— Ah, bem… Desculpa, é que não gosto que me tomem por um imbecil.
Kevin acalma-se. Senta-se e repete:
— Desculpa! Explica-me agora porque razão fugiste e, principalmente, como.
— Porquê, é fácil de explicar. Mas como foi, já te previno, não é nada fácil. Nem eu consegui ainda perceber!
— Se não percebeste, então quero ouvir o que tens a dizer-me. Conta.
— Foi certamente por influência da minha avó. Ela é extraordinária! É velha, velha, e conhece coisas que tu nem imaginas… Olha, estamos aqui os dois a conversar, como se falássemos a mesma língua!… tenho a certeza de que se deve a ela.
— Estranho, de facto… Mas fala-me da tua avó!
— Ela ficou cega mas, com as mãos, continua a fazer milagres. Cura as queimaduras, afasta o mal. As pessoas vêm vê-la de muito longe, pagam para falar com ela… Gosto de me sentar à beira da minha avó, embora ela às vezes me assuste. Costumava dizer:
— Sinto o infortúnio pairar sobre ti! Tem cuidado.
Um dia, acrescentou:
— Ouve, se alguém quiser fazer-te mal, pronuncia esta palavra, só esta palavra, e serás salvo.
Advertiu-me com um ar tão trágico que a palavra ficou logo gravada na minha memória.
— Serviste-te dela porque queriam matar-te? Foi isso, não foi? — diz Kevin de imediato, impressionado com a história.
— De certo modo… O dono da oficina onde cosemos as bolas batia-me cada vez mais.
— Porque é que te batia?
— Apercebi-me de que ele era um ladrão… Tinha emprestado dinheiro ao meu pai, e o meu trabalho seria para o ajudar a reembolsá-lo. Trabalhava até rebentar e o meu pai também, mas a dívida não diminuía. Havia um ardil por detrás, ele era um ladrão.
— O patife!
— Dizes bem. Da primeira vez que quis protestar, começou a dar-me murros… Uma noite, vinguei-me, inundei-lhe o stock, os caixotes prontos para partir para todos os países do mundo.
— Bem feito!
— Talvez, mas ele ficou louco. Agarrou num pau enorme e atirou-se a mim. Senti muito medo e escondi a cabeça entre os braços. Pensei logo na minha avó, porque ela sempre me defendeu. Sem mesmo reflectir, a palavra que me tinha ensinado veio-me aos lábios. Gritei-a…
— E então?
— E então, vi-me em tua casa, dentro desta bola, e não era nada agradável: davas-me grandes pontapés na cabeça, porque eu não saltava — concluiu Iqbal a rir.
— Pára com isso! Tiveste muita sorte, ele podia ter-te matado!… Que palavra extraordinária é essa?
— Não é extraordinária, até nem quer dizer nada, a minha avó inventou-a com toda a certeza: Shabatsé.
Iqbal já tinha pronunciado a palavra quando se apercebeu que não o devia ter feito. E Kevin repete:
— Shabatsé, é bonito, talvez que…
Não chega a terminar a frase. Torna-se de repente muito leve, começa a flutuar, a baloiçar. E grita:
— Iqbal!
Demasiado tarde. E imediatamente a seguir ao seu amigo, Kevin é aspirado para o interior da bola.
5
— Onde estamos? O que se passou?
Kevin sente medo, tem vontade de chorar.
— Regressámos à minha oficina — responde Iqbal. — Que horror!
Estão sentados no chão de cimento de uma divisão sombria, húmida e suja. À volta deles amontoam-se peles. É o couro que serve para fabricar as bolas. Cheira mal.
— Shabatsé! Shabatsé! Shabatsé! — grita Kevin, desesperado.
— Não te canses! — advertiu Iqbal. — Já tentei, mas parece que a palavra perdeu todo o seu poder.
Kevin lança-se contra a porta… Está fechada à chave pelo lado de fora.
— O que é que nos vai acontecer? Não pedi para vir até cá! — gritou Kevin.
— Ninguém pediu para vir!
Não foi Iqbal quem respondeu. A pessoa que respondeu foi um rapaz ainda mais novo. Está de pé, ao lado de Kevin. Tem olhos grandes, muito tristes, mas sorri.
Não é o único a ter-se levantado e aproximado. Três, cinco, oito crianças mais rodeiam Iqbal, o recém-chegado, e o seu misterioso companheiro.
— De onde saíram? — inquieta-se Kevin.
— Trabalham comigo.
— E vivem aqui? Dormem aqui? Como é que fazem? Há ratos, não?
— Habituamo-nos. Os ratos não fazem mal.
— É nojento. O vosso patrão merece ser preso.
Ninguém se dá ao trabalho de concordar.
— E agora, o que vamos fazer?
Kevin mudou de tom. Começou a perceber. Já não se inquieta apenas por si próprio, mas por todas as crianças que o acaso apanhou numa armadilha, naquele buraco pestilento.
Iqbal queria responder, mas não teve tempo: a chave gira na fechadura enferrujada da única porta. Em pânico, as crianças desaparecem. Voltam a deitar-se e fingem que estão a dormir. O próprio Iqbal foge também, mas regressa; não tem o direito de abandonar Kevin.
O homem que entra é enorme, um brutamontes. Os olhos são tão frios como balas de espingarda:
— Ah! Estás aqui! Sempre voltaste! Onde te meteste? Não perdes nada pela demora!
Está prestes a lançar-se sobre Iqbal, quando de repente se imobiliza:
— E este, quem é?
Descobrira Kevin e compreendera que pertencia a um outro mundo.
— É meu amigo — murmura Iqbal.
— Teu amigo… Teu amigo…
O homem hesita. Hesita, tanto mais que Kevin já não é o mesmo. Não só tinha deixado de tremer como é ele agora quem ataca:
— Devia ter vergonha! O meu professor falou-nos de pessoas como você, mas eu não acreditava! Vou contar-lhe tudo e havemos de escrever ao ministro, ao presidente da República, ao vosso chefe de Estado! Vai pagar caro!
O homem de olhos cruéis hesitou apenas um instante. Desata a rir.
— Estrangeiro imbecil! Não vais contar a tua história a ninguém. Não voltarás a sair daqui. Vou reduzir-te a picado e hás-de ser comido pelos ratos.
Com uma só mão, agarra Kevin pelos colarinhos, levanta-o como se fosse uma palha e encosta-o à parede. Levanta a outra mão, fecha o punho, ganha o impulso necessário… Vai cumprir a ameaça, mas pára no último instante.
Volta-se, sem largar Kevin: o seu instinto de animal selvagem advertiu-o de que havia perigo nas suas costas.
Está cercado por um bando de crianças amotinadas, encurralado contra a parede.
Como seria de esperar, Iqbal e os companheiros encontram-se na primeira linha, mas os restantes vieram em socorro deles. São já trinta, quarenta, em filas cerradas, e cada vez chega mais gente. Empunham o seu instrumento de trabalho, uma temível agulha, tão afiada como um punhal. Mas mais inquietante ainda é o brilho dos seus olhos.
O homem nunca levará a melhor. Sabe-o bem, apesar da sua tacanhez. Pode varrer a primeira fila e, depois, a segunda. Como soldados prontos para o sacrifício, outros tomarão a vez. Mais cedo ou mais tarde será derrotado.
Para poder ver-se livre deles, prefere render-se.
Esquece Kevin, e levanta os braços.
6
As crianças não dão nenhuma hipótese ao seu carrasco.
Com a resistente corda que serve para coser as bolas, prendem-no de imediato e abandonam-no. Agora é cada um por si: todos se dispersam e fogem.
— Vamos ter com a minha avó. Só ela pode ajudar-te a regressar a casa — garante Iqbal a Kevin.
Para deixarem aquela cidade gigantesca, têm de caminhar durante horas antes de chegarem aos primeiros campos, sulcados por uma rede de irrigação.
Algumas frágeis barracas de madeira aninham-se no cruzamento de dois caminhos perdidos.
— É ali — declara Iqbal.
Indica-lhe uma das casas.
Entram na divisão única, sem ninguém, já que naquela altura a família está a trabalhar no campo.
A avó de Iqbal está sentada bem longe da entrada, no meio de um amontoado de tapetes.
— Estava à vossa espera! — afirma. — Aproximem-se, para eu vos ver melhor.
Para poder ver melhor, tal como diz, acaricia o rosto das crianças com as suas velhas mãos cheias de suavidade.
— Meu Deus, estão exaustos! Dá-lhe de beber! Recebe o teu amigo como deve ser.
Sobre uma braseira acesa algures, a água ferve. Iqbal prepara o chá. Serve-o a Kevin com toda a cerimónia.
— Sabes, avó, o homem quis matar Kevin. É preciso castigá-lo. Vais…
— Chiu!
A avó põe um dedo nos lábios. Pede a Iqbal que se cale, antes de continuar:
— Kevin, meu filho… Chamas-te Kevin, não é verdade? Não estou enganada? Descansa primeiro, restabelece-te de tantas emoções. Em seguida, quando estiveres preparado, pronuncia esta palavra: Namasté e voltarás para o teu quarto.
Kevin não se apressa. Acaba o chá, bate na mão de Iqbal, prometendo que tentará vê-lo de novo, embora não saiba como, pronuncia a fórmula e desaparece.
7
— Kevin! Kevin!
Kevin senta-se na cama, acordado em sobressalto pelo pai. Dormira toda a manhã.
— Levanta-te. A bola espera-te lá fora. Já não tem nada, salta como um cabrito.
— Que bola?…
Com os cabelos despenteados e os olhos pesados de sono, Kevin tem o ar de quem veio de outro planeta.
— Sabes? A tua bola supostamente estragada… Tive tempo de ir à loja. Está impecável. Devemos ter sonhado… Mas o vendedor tranquilizou-me. Tem havido ultimamente muitos problemas, muitas coisas estranhas a acontecer com estes produtos fabricados não se sabe onde… Até me falou de um punching-ball que acabou de receber. Sabes, aqueles grandes sacos de couro com que os boxeurs se treinam. Sempre que alguém lhes dá um soco, tem-se a impressão de que o saco chora e geme! Como se alguém estivesse fechado lá dentro! É estranho, não é?
Jacques Vénuleth
Au pays d’Iqbal
Paris, Ed. Magnard, 2001
tradução
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O microcrédito no mundo
Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário
O microcrédito no mundo
Um instrumento ao serviço das mulheres
Ainda que não seja uma solução milagrosa, o microcrédito demonstra que, à escala global, permite às mulheres adquirirem responsabilidades e autonomia. Desta forma, assegura tanto a sobrevivência da família, como um papel socialmente reconhecido para a própria mulher. Exemplos em quatro continentes.
O microcrédito é um instrumento financeiro ao serviço de um objectivo social. Corresponde à primeira equação que se aprende em economia: trabalho + capital = criação de riqueza. Mas é muito mais que um simples instrumento de investimento. Permite transformar os sonhos em realidade: aqueles e aquelas que a ele recorrem ficam dotados de um poder que antes não possuíam. Desta forma, o microcrédito revela-se particularmente precioso para conferir mais responsabilidade e autonomia às mulheres, dando azo àquilo que os ingleses designam por empowerment (O termo empowerment levanta problemas de tradução. É geralmente traduzido por «auto-afirmação» ou «acesso [das mulheres] à decisão».).
Ainda que se trate de um conceito universal, assume formas diferentes consoante os contextos locais.
Na Ásia, o microcrédito permite às mulheres encontrarem um lugar na sociedade
Em muitos países da Ásia, e mais particularmente nos países muçulmano; as primeiras vítimas da extrema pobreza são as mulheres. No Bangladesh, a carência de terras limita a sua capacidade produtiva. São essencialmente consideradas como um fardo, bocas para alimentar, e os homens livram-se delas à primeira oportunidade, de forma tanto mais fácil, quando lhes é possível repudiar uma esposa para se casarem com outra que traga consigo um dote. Muitas esposas são assim abandonadas, com filhos a seu cargo e sem qualquer fonte de rendimento. A sua situação muda completamente se, à falta de acesso à terra, tiverem acesso ao capital. Um empréstimo de algumas dezenas de euros permite-lhes dar início a pequenas actividades de comércio ou de artesanato, às quais podem associar o seu marido. Graças a esse rendimento, ganham respeito social e por si mesmas. É assim que Minati faz grandes cestos de bambu. Utiliza o seu empréstimo para comprar a matéria-prima. Aícha tece saris, Jahera fabrica bolos e Kalpana tem uma criação de galinhas. Aplicam escrupulosamente o seu empréstimo, o que lhes permite continuarem a investir. Ao fim de alguns anos, podem obter um empréstimo de habitação para construírem ou melhorarem a sua residência ou investirem na escolaridade dos seus filhos. Podem colocar algum dinheiro de lado que, gerido pelo Grameen Bank, lhes permitirá vir a possuir uma reforma. O microcrédito não pode suprimir o problema da carência de terras, das inundações, das epidemias, da falta de infra-estruturas ou da corrupção. Contudo, nas mãos das mulheres, pode transformar-se num instrumento para a sua autopromoção e para proporcionar uma vida melhor às suas famílias.
Em África, o microcrédito permite garantir a sobrevivência da família em zonas rurais, ao oferecer às mulheres uma forma de desenvolverem actividades geradoras de rendimentos
Em África, as mulheres não padecem da mesma inferioridade que na Ásia. São mais respeitadas, na medida em que, na maioria dos casos, possuem pequenas actividades autónomas: possuem uma propriedade sua, cabras ou vacas e, eventualmente, algum dinheiro. No entanto, a sua vida não é fácil. No Sahel, a estação seca faz com que os homens partam à procura de uma fonte de rendimento nos países vizinhos e, por vezes, na Europa. Podem ou não regressar. Enviam dinheiro para ajudar a sua família que permaneceu na aldeia, mas, muitas vezes, o dinheiro não chega e as mulheres vêem-se obrigadas a arranjar forma de garantir a sobrevivência das crianças e dos idosos da comunidade. O microcrédito cria então uma oportunidade para o desenvolvimento, também aqui, das pequenas actividades tradicionais. Mariama faz fritos que vende no mercado, Binta produz cerveja de milho, Aíssatou compra sacas de arroz num grossista, que depois revende no mercado durante o período de escassez.
Na América Latina, o microcrédito financia actividades informais nos bairros-de-lata
Na América Latina, o sector informal abrange uma grande parte da actividade económica e ocupa a maioria dos habitantes dos bairros-de-lata, que continuam a crescer, à margem de qualquer base legal, em redor dos grandes aglomerados populacionais. Também aqui, o microcrédito fornece às mulheres uma forma de aumentarem os seus magros rendimentos. Como em outras regiões, não se trata de grandes investimentos: uma máquina de costura fornece a Isabel os meios de se lançar na confecção, um pequeno empréstimo permitiu a Alba começar a comercializar legumes no mercado, um equipamento muito simples permite a Lucrécia abrir um pequeno salão de cabeleireiro. Em alguns países, como na Bolívia, o microcrédito passou a ser uma actividade bancária; em outros, como no Brasil, ainda se encontra pouco desenvolvido, mas beneficia do apoio do Governo. No Chile, bancos locais e estrangeiros passaram a criar filiais dedicadas à microfinança.
Na Europa Central, o microcrédito permite privatizar a economia a partir da sua base
A impotência do sector público e a ausência de um sistema de protecção social eficaz condenaram à miséria milhões de homens e mulheres do antigo mundo comunista. Tratava-se tanto de operários como de camponeses ou empregados. De um dia para o outro, as mulheres passaram de uma época em que tudo se encontrava programado e assegurado, ainda que o nível de vida fosse muito baixo, para um mundo no qual têm de encontrar novas formas de ganhar a sua vida e de sustentar as suas famílias.
O desenvolvimento do microcrédito foi muito rápido, graças ao financiamento e ao apoio técnico trazidos pelas instituições financeiras internacionais, permitindo a criação de diversas instituições de microfinança, capazes de responder às necessidades das pessoas. A procura por parte das mulheres foi particularmente grande. Muitas vezes, foram elas as primeiras a reagir às dificuldades. Não tinham opção: era necessário alimentar a família. Quer se tratasse de antigos membros das cooperativas ou de operárias das grandes empresas públicas, elas imaginaram novas actividades, correspondentes às necessidades do mercados e às suas próprias capacidades. Da venda ambulante aos serviços de limpeza, dos pequenos restaurantes familiares à hotelaria ou à pequena pecuária, as mulheres tomaram em mãos a sua vida profissional e tornaram-se trabalhadoras independentes. Arrastaram consigo os homens, mais desorientados que as suas cônjuges com este universo novo e desconhecido. Hoje, nos países pós-comunistas, o número de clientes dos dois sexos do microcrédito situa-se entre os quatro e os cinco milhões.
Em Franca, o microcrédito ajuda as mulheres a sair da exclusão, ao criarem o seu próprio emprego
O microcrédito, introduzido em França pela ADIE (Association pour le Droit à l’Iniciative Économique) em 1989 dirige-se aos empregados e aos beneficiário do RMI (Revenu Minimum d’Insertion, equivalente ao Rendimento Mínimo Garantido) sem acesso directo aos bancos. Das 30000 microempresas até hoje financiadas, mais de um terço foram criadas por mulheres. Estas são mais lentas a «lançar-se» que os homens, mas, assim que tomam a sua decisão, não largam o seu projecto e recuperam melhor os seus investimentos. Chantal, beneficiária do RMI, após uma vida de pequenos biscates, decide, aos 50 anos, recuperar uma pequena mercearia rural em Mayenne. A comunidade oferece-lhe ajuda. Ela recupera a coragem e a confiança. Para completar a sua actividade, está a criar um pequeno restaurante.
Cármen é posta fora de casa pelo seu marido, que se deseja divorciar. Dorme na rua mas recusa-se a baixar os braços. Com um balde e equipamento apropriado, propõe às lojas lavar-lhes a montra. Obtém um empréstimo junto da ADIE para comprar um velho veículo utilitário e o equipamento mínimo. Passados dois anos, ei-la à frente de uma empresa de limpeza que emprega 30 pessoas. «Recruto-as entre aqueles e aquelas que estão em dificuldade», informa. «Conheço bem esse tipo de situação.» Joelle, que acaba de terminar os seus estudos linguísticos, não encontra trabalho. Mais do que permanecer como beneficiária do RMI, lança-se por sua conta como tradutora. O empréstimo permite-lhe comprar o seu equipamento informático. Ganha bem a sua vida. Também Rachida está sem emprego: sente tanto mais dificuldades em encontrá-lo, na medida em que o seu apelido e endereço atraem as renitências dos potenciais empregadores. Ao fim da sua 200ª carta sem resposta, cria uma auto-escola num bairro difícil. Para além de ter obtido um empréstimo, o acompanhamento da associação facilita-lhe os procedimentos administrativos e ajuda-a a levar por diante a gestão da sua microempresa.
Assim, por toda a parte no mundo, o microcrédito ajuda as mulheres a sair de situações difíceis, a tomarem conta de si mesmas e das suas famílias, a se tornarem autónomas e deixarem de necessitar da ajuda social. Não é uma solução milagrosa para todos os males, mas representa um pequeno apoio financeiro, suficiente para criar riqueza e valorizar o trabalho das mulheres. Para além da sua função financeira, devolve a esperança e o horizonte àquelas que já os tinham perdido. A palavra «crédito» vem de credere, acreditar, e é exactamente a confiança dos outros que permite às mulheres acreditarem em si mesmas.
Assim, «este ágil substituto do dinheiro», usando as palavras de Fernand Braudel relativamente ao «crédito», pode transformar-se simultaneamente num instrumento de crescimento e de coesão social, de igualdade de oportunidades e de promoção das mulheres.
Maria Nowak
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O império da vergonha II – A fome – J. Ziegler
Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário
A FOME
O massacre, pela subalimentação e pela fome, de milhões de seres humanos continua a ser o maior escândalo do início deste terceiro milénio. É um absurdo, uma infâmia que nenhuma razão justifica nem nenhuma política pode legitimar. Trata-se de um crime contra a Humanidade indefinidamente repetido.
Hoje, como eu já disse, todos os cinco segundos morre de fome ou de doenças ligadas à malnutrição uma criança com menos de dez anos. Deste modo, a fome terá morto em 2004 mais seres humanos do que todas as guerras juntas desencadeadas nesse mesmo ano.
Em que pé se encontra a luta contra a fome? O seu recuo é evidente. Em 2001, uma criança com menos de 10 anos morria todos os sete segundos. Nesse mesmo ano, 826 milhões de pessoas tinham ficado inválidas em consequência de subalimentação grave e crónica. Hoje são 841 milhões. Entre 1995 e 2004, o número das vítimas da subalimentação crónica aumentou 28 milhões de pessoas.
A fome é o produto directo da dívida, na medida em que é ela que priva os países pobres da sua capacidade de investir os fundos necessários para o desenvolvimento das infra-estruturas agrícolas, sociais, de transporte e serviços.
A fome significa sofrimento agudo do corpo, enfraquecimento das capacidades motoras e mentais, exclusão da vida activa, marginalização social, angústia do amanhã, perda de autonomia económica. Acelera o caminho para a morte.
A subalimentação define-se pelo défice dos aportes de energia contidos na alimentação que o homem consome. Mede-se em calorias – a caloria é a unidade de medida da quantidade de energia queimada pelo corpo.
No mundo, morrem anualmente 62 milhões de pessoas, ou seja, l por mil da Humanidade – todas as causas incluídas. Em 2003, trinta e seis milhões morreram de fome ou de doenças devidas às carências em micronutrientes.
A fome é, pois, a principal causa de morte no nosso planeta. E esta fome é obra do homem. Quem morre de fome morre assassinado. E o assassino tem nome: a dívida.
A FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – estabelece a diferença entre fome «conjuntural» e fome «estrutural». A fome conjuntural é devida ao brusco afundamento da economia de um país ou de uma parte da mesma. Quanto à fome «estrutural», essa é induzida pelo subdesenvolvimento do país.
Eis um exemplo de fome conjuntural. Em Julho de 2004, uma monção especialmente violenta submergiu o Bangladesh. Mais de 70 por cento deste país de 116 000 quilómetros quadrados ficou debaixo de água. Dos 146 milhões de pessoas que o habitam, três milhões ficaram sujeitas a morrer de fome. O Bangladesh é de facto um delta composto por múltiplos rios que se lançam no golfo de Bengala. Esses rios vêm dos contrafortes do Himalaia (Butão, Ladaque, Nepal). Quando chega a monção, a sua cheia torna-se violenta, imprevisível. As vagas arrancam árvores e casas, destroem barragens e diques, cobrem de uma água verde, cheia de limos, turbulenta, centenas de milhares de hectares de terras agrícolas e devastam os bairros ribeirinhos das cidades.
Em tempo normal, se assim se pode dizer, cerca de 30 000 crianças com menos de 10 anos ficam cegas todos os anos no Bangladesh, por falta de vitamina A. A OMS estima que devido às inundações esta cifra vai pelo menos quintuplicar em 2004.
A fome estrutural e a fome conjuntural são consequência directa da dívida. No que concerne à fome estrutural, isso é evidente. As relações de causalidade entre fome conjuntural e dívida, pelo contrário, exigem uma explicação.
Voltemos à fome excepcional do Bangladesh em 2004. As duas principais bacias hidrográficas responsáveis pelas inundações de Julho são as do Bramaputra e do Ganges. Ora, acontece que eu realizei, a pedido das Nações Unidas, uma missão no Bangladesh em 2002. Tratava-se precisamente de examinar os meios próprios para evitar a repetição deste tipo de catástrofes. No amplo gabinete do ministro dos Recursos Hídricos em Daca, passei horas e horas a estudar gráficos, estatísticas, projectos. Pois bem, o que ressaltou desse estudo foi que a tecnologia contemporânea permitiria, sem problemas de maior, domesticar o conjunto dos rios do Bangladesh. Tecnologicamente, as inundações provocadas pela monção seriam perfeitamente controláveis. Mas como o Bangladesh é um dos países mais endividados da Ásia do Sul, falta o dinheiro para represar os rios e quebrar a sua corrente.
A subalimentação severa e crónica destrói lentamente o corpo. Debilita-o, priva-o das suas forças vitais. A doença mais simples abate-o depois. A sensação de carência é permanente.
Mas os sofrimentos mais terríveis provocados pela subalimentação são a angústia e a humilhação. O faminto trava um combate desesperado e permanente pela sua dignidade. Sim, a fome provoca a vergonha. O pai não consegue alimentar a sua família. A mãe está de mãos vazias diante do filho, que chora de fome.
Noite após noite, dia após dia, a fome diminui as forças de resistência do adulto. Chegará o dia, e ele sabe-o, em que nem sequer já poderá vaguear pelas ruas, vasculhar os caixotes do lixo, mendigar ou procurar aqueles pequenos trabalhos ocasionais que lhe permitam comprar uma libra de mandioca, um quilo de arroz, para sustentar – mediocremente, é certo – a sua família. É corroído pela angústia. Está em farrapos; as sandálias, gastas; o olhar, febril. Vê a sua rejeição no olhar do outro. Muitas vezes os seus e ele próprio estão reduzidos a comer os detritos tirados dos caixotes do lixo dos restaurantes ou das casas burguesas.
Maria do Carmo Soares de Freitas, socióloga, e os seus colaboradores da Universidade Federal da Bahia realizaram um estudo de longa duração no bairro Pela Porco de Salvador, a fim de compreender como os próprios famintos vivem a sua situação. Com os Alagados, Pela Porco é um dos bairros mais miseráveis da metrópole do Norte, antiga capital do vice-reino lusitano do Brasil. Grassam ali a corrupção e o arbítrio policiais, a violência dos bandos armados, o desemprego endémico, a falta total de infra-estruturas escolares, sociais, de saúde, e a habitação é precária. É habitado por cerca de 9000 famílias. Os Textos dos Famintos é o título do volume, ainda não publicado, no qual toda a equipa compilou a palavra dos esfomeados (disponível em fotocópia no Instituto de Saúde Pública da Universidade Federal da Bahia).
Para exorcizar a vergonha, as vítimas da subalimentação crónica recorrem a frases como estas: «A fome vem de fora do corpo». A fome é o agressor, uma besta que me ataca. Nada posso fazer. Não sou responsável pela minha situação. Não devo ter vergonha dos farrapos que uso, dos choros dos meus filhos, do meu próprio corpo debilitado e da incapacidade em que me encontro de alimentar a minha família.
Os que se vêem reduzidos a alimentar-se dos dejectos tirados dos caixotes do lixo do centro da cidade, ou dos luxuosos hotéis que bordejam a praia de areia branca de Itapoa, dizem: «Preciso tirar a vergonha de catar no lixo, porque pior é roubar».
Muitas das mulheres e homens interrogados tratam a fome por «a coisa». «A coisa bate-me à porta». Atirar a fome para fora do seu corpo, considerar-se como a vítima de uma agressão, saber-se ferido por um adversário forte de mais: eis algumas defesas contra a vergonha.
Alguns habitantes também dizem: «Sentimo-nos perseguidos, ou pela polícia ou pela fome», ou ainda: «A fome é sempre um sofrimento que fere o corpo». A besta ataca-me, que hei-de fazer? Nada ou quase nada, «Porque ela é mais de que eu».
As palavras «perseguidos pela fome» fazem parte de quase todas as respostas.
Algumas das pessoas interrogadas, especialmente entre os adolescentes de ambos os sexos, revoltam-se contra a besta. Querem ripostar ao ataque, resistir. «A pessoa tem que ser forte, tem que fazer qualquer negócio; não ter vergonha, não ter medo; pedir a um e a outro, bulir no lixo, tem uns que até rouba, assalta, bole nas coisas dos outros; não pode ficar esperando as coisas cair do céu; tem que ter muita fé pra ficar com força, se levantar e andar, andar…»
Uma série particularmente pertinente de questões postas por Maria do Carmo e colegas diz respeito à «fome nocturna». A quase-totalidade das pessoas interrogadas, de todas as idades e sexos, tem visões nocturnas, sonhos compensatórios onde aparecem mesas cobertas com toalhas imaculadas, mal suportando o peso de montanhas de frutos, de carnes e de bolos. Estas alucinações consolam das privações físicas, da angústia lancinante e da dor.
Uma jovem mulher interrogada disse: «No tempo da noite, quando as crianças choram ou a violência (policial e dos bandos armados) assusta ainda mais, são produzidas insónia e visões».
Face a uma sociedade que o exclui e o priva de comida, o faminto agarra-se a estas quimeras. Elas devolvem-lhe, pelo imaginário, a sua dignidade de sujeito livre.
Dois mil milhões de pessoas sofrem daquilo a que as Nações Unidas chamam o hidden hunger, a fome invisível, ou seja, a malnutrição. Esta define-se pela carência de micronutrientes (sais minerais, vitaminas). São estas carências que provocam doenças em muitos casos mortais.
As calampas de Lima, as favelas de São Paulo ou os sórdidos bairros de lata das smoky mountains de Manila são locais de pestilência. Nas smoky mountains, onde vive meio milhão de pessoas, respira-se um odor pútrido. As ratazanas mordem no rosto os recém-nascidos. Naquelas cabanas de chapa, as mulheres, as crianças, os homens enganam o estômago com os restos de comida respigados em montes de imundices. O aporte de calorias até pode ser suficiente. Mas a composição da alimentação, essa revela carências perigosas.
Uma criança em situação de malnutrição crónica pode dar de comer à sua fome e no entanto agonizar por efeito de uma doença devida à falta de micronutrientes.
Nos 122 países do Terceiro Mundo onde vive, relembro, quase 80 por cento da população do planeta, a carência em micronutrientes provoca hecatombes.
Entre as doenças mais comuns e espalhadas devidas a esta insuficiência, há o kwashiorkor, frequente na África Negra, a anemia, o raquitismo, a cegueira. Os adolescentes vítimas do kwasbiorkor têm o ventre inchado, os cabelos que se tornam ruços, a tez amarela. Perdem os dentes. Quem for privado de modo permanente de um aporte suficiente de vitamina A fica cego. O raquitismo impede o desenvolvimento normal da ossatura da criança.
Quanto à anemia, essa ataca o sistema sanguíneo e priva a vítima de energia e de toda a capacidade de concentração.
Jean Ziegler
O império da vergonha
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O fermento das periferias
Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário
O fermento das periferias
Vivo na periferia da periferia de Nairobi. Mas aqui estão sempre a acontecer coisas novas, que nunca acontecem nos condomínios fortificados do centro da capital. Na verdade, é aqui que surgem todos os fermentos da vida.
Quando, em 99, vim viver para aqui, a localidade chamava-se Riruta. Continuo a viver na mesma casa, mas o aumento da população fez com que os nomes também se multiplicassem. Riruta desmultiplicou-se em Riruta East, Ndurarua, Satellite, Railway, etc. assim, agora vivo em Nairobi, periferia do Ocidente. As periferias expandem-se.
Em Riruta e arredores, que somam um total de mais de 100 mil habitantes, as estradas estão em condições calamitosas. Os esgotos, a rede eléctrica, a linha telefónica chegam só às estradas principais. O posto da polícia é um conjunto de barracas de chapa enferrujada. Serviços sanitários e escolas públicas são totalmente inadequados. E todavia, por incrível que possa parecer, esta periferia de periferia de Nairobi é para muitas pessoas o centro, é a meta que promete o fim de todos os sofrimentos, o sonho de um futuro mais bem mantido vivo através das cartas de amigos que aqui se estabeleceram há já alguns anos.
Quem gostaria de viver aqui? Não só quem vive nas zonas rurais semiáridas do Quénia, onde serviços sanitários e escolas públicas são praticamente inexistentes, mas também centenas e centenas de desesperados que fugiram da área dos Grandes Lagos. De facto, o crescimento galopante de Riruta deve-se sobretudo à imigração clandestina daquela área.
Viver no paraíso
À pergunta: “Porque vieste viver para Riruta?”, Jean Jacques, burundês licenciado em Psicologia e casado com uma ruandesa, responde: “Quando o governo tanzaniano decidiu obrigar os refugiados a voltar para os seus países de origem, mandaram-nos para a fronteira. Tínhamos de atravessar o rio Kagera. Sob o olhar dos representantes da ACNUR, dos soldados ruandeses e dos tanzanianos, as pessoas eram atadas com uma corda. Filas inteiras de pessoas preferiram lançar-se ao rio e ali morrer do que voltar ao Ruanda. Até hoje ninguém denunciou o facto. Eu decidi fugir.”
Pierre, esse é da República Democrática do Congo e acaba de fazer 19 anos. Está em Riruta há ano e meio, e, precisamente no dia em que escrevia este texto, fui com ele ao encontro com dois investigadores do Tribunal Penal Internacional. Pierre foi um menino-soladado, e fugiu do seu país quando o senhor da guerra lhe ordenou que matasse um jornalista e um missionário, pessoas que o incomodavam porque denunciavam o que estava a acontecer. Pierre decidiu que não podia mais obedecer a estas ordens – já tinha assassinado dezenas de pessoas – e escapou, porque recusar-se a matar significaria inevitavelmente a sua morte. A primeira vez que o encontrei, na paragem dos autocarros que chegam da Campala, com o desespero e o medo estampados num rosto ainda de criança, parecia um animal preso na ratoeira. Depois, notei que se ia acalmando de dia para dia, enquanto procurava voltar a uma vida normal juntamente com os outros jovens da casa onde vivo. Hoje, enquanto contava aos investigadores a sua vida, durante mais de duas horas conseguiu controlar-se e controlar toda a desconfiança nas instituições que a sua experiência lhe incutiu. A dada altura, desatou a soluçar de modo incontrolável; e quando conseguiu falar, disse: “Não quero pensar mais em todo o mal que fiz, nem no mal que me fizeram a mim.”
O encontro com Deus
Em Kibiria, porém, não há só histórias dramáticas. As periferias são também, para quem é capaz de ver, laboratórios da sociedade do futuro. Aqui, a sociedade muda, inventa novas formas de sobrevivência. Nos bairros de Nairobi rica reforçam-se as cercas com arame farpado, há quem se feche atrás dos muros, aumenta-se a potência dos holofotes para iluminar todos os recantos das vivendas e multiplicam-se os seguranças (todos pobretanas que de dia vivem em bairros como Riruta e de noite protegem os ricos); o ideal é que não aconteça nada, que ninguém perturbe o mundo dourado em que se vive. Ao contrário, nas periferias surgem todos os fermentos desta sociedade. Alguns são fermentos de violência e de ódio, mas outros são fermentos de solidariedade e dignidade.
Aqui estão os criadores: o Lionel que, há menos de 30 anos, anda a preparar a sua morte por alcoolismo, mas que pinta quadros onde a vida esplode com cores e formas das mais extraordinárias; a Miriam, que vive só numa barraca, onde, à noite, com uma velha máquina de escrever, inventa a trama de uma telenovela sobre a vida nos bairros de barracas que gostaria de vender a uma televisão privada; o Charles, também ele ruandês, e também ele ilegal, que, depois de um dia de trabalho como técnico de computadores, enquanto a mulher e os filhos preparam o jantar num fogareiro a carvão, trabalha num portátil para desenvolver um novo software; e está também a Anjela, que quer dar vida a um grupo de formação para seropositivos. A periferia, para quem crê e quer deixar-se renovar, é o encontro com o Deus que não tem nada, que vem de baixo, que nos olha com os olhos das crianças, nos fala com a voz das prostitutas, nos abençoa com a voz do velho que está para morrer.
A África mediática
Quem decidiu que Kabiria é a periferia? Onde está o centro? Não teremos talvez, antes de mais, de pôr em discussão a ideia de centro? Não é esta ideia o resultado de uma doença grave, que infectou todo o ocidente, e que se chama, vejam só, etnocentrismo?… Ainda para mais na sua variante mais patológica, o racismo…
O Ocidente, o Norte do mundo, acredita ser o centro do mundo, o modelo de desenvolvimento válido para todos, e que se os outros não o imitam é simplesmente porque são atrasados corruptos, preguiçosos e, naturalmente, pouco inteligentes. Fecha-se por isso num isolacionismo que o condena a não compreender os outros, e portanto a não se interessar pelos outros. Há uma parte da opinião pública ocidental que se insurge contra este estado de coisas, que procura compreender os problemas em profundidade, mas esta parte, que está porventura a aumentar, é certamente ainda uma minoria que não consegue influir nas opções dos grandes meios de comunicação.
Quantas vezes ouvi dizer a competentes e apaixonados enviados especiais de visita a um país africano coisas do género: “O meu director diz que uma notícia por dia sobre a África é mais que suficiente. Portanto, como já se está a falar da Somália, não há esperança de que qualquer outro país africano consiga espaço. Portanto, como já se está a falar da Somália, não há esperança de que qualquer outro país africano consiga espaço. A menos que aconteçam coisas absolutamente extraordinárias, como novas guerras, milhares de mortos, carestias.”
Realmente, guerras, mortos e carestias parecem ser as únicas coisas que podem interessar quando se fala da África.
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Globalização a pedir reformas
Outubro 1, 2007 · Deixe um comentário
Globalização a pedir reformas
Globalização. A palavra entrou definitivamente no nosso vocabulário. O tema está no topo da nossa agenda política e social. Está tão presente em tudo, que se torna difícil defini-la em poucas palavras. Mas todos sabemos do que se trata, pelas consequências que está a ter no nosso dia-a-dia quando ligamos a televisão, usamos o computador, vamos às compras ao supermercado ou descarregamos música para ouvir nos aparelhos mp3, vemos o desemprego e a inflação a subirem.
A realização, no Quénia – em Nairobi, de 20 a 25 de Janeiro –, do Fórum Social Mundial veio colocar de novo a reflexão sobre a globalização no centro das atenções. Na capital africana, os críticos da globalização prometeram discutir de novo as grandes questões que levanta, como a economia sustentável, a criação de estruturas políticas mais participativas, a democratização da ciência e da informação, o direito à diversidade e a luta contra a discriminação que afecta os países pobres.
Sem esquecer, naturalmente, os países africanos. Que estiveram particularmente em foco devido ao debate de temas incontornáveis como a epidemia da sida, a resistência a novos colonialismos, a emigração africana. A atenção à natureza caracterizou também esta edição do FSM, com a denúncia do impacto negativo que a globalização está a ter na ecologia e nos recursos naturais.
Regras do mercado
Em Portugal, os efeitos da globalização voltaram recentemente à ribalta devido ao desemprego provocado pela onda de deslocalização de empresas de montagem de automóveis. Não há muito, tinha estado em causa o fecho em cadeia de empresas têxteis devido à abertura do mercado nacional aos produtos asiáticos, chineses em particular.
Na globalização da economia, as empresas vão parar onde os salários são mais baixos e a produtividade é maior, e os produtos inundam os mercados independentemente da sua origem. No Natal passado, o Pai Natal veio nos navios contentores, da China, com todo o tipo de produtos de consumo destinados aos mercados europeus. Continuamos assim a sentir entre nós os efeitos da globalização económica. Mas o que para uns é negativo, como o desemprego, poderá ser positivo para outros – emprego, remuneração atractiva, ou produtos a baixo preço –, ao menos por algum tempo.
É na economia onde mais se fazem sentir os efeitos «negativos» da globalização, o que leva muitos a identificar o fenómeno da globalização com o capitalismo global, numa redução simplista. Mesmo se os efeitos negativos na economia são aqueles que aparentemente mais directamente afectam a vida dos povos e das nações, não se deve cair no erro de identificar a globalização com o funcionamento da economia de mercado que a globalização permite e fomenta.
Economia não chega
O capitalismo global, como bem reconhece o economista Amartya Sem, Prémio Nobel da Economia em 1998, procura expandir uma economia de mercado e não se preocupa nada em promover a democracia política e social, o acesso ao ensino e à saúde, a proliferação de oportunidades para os mais pobres. Por isso, e apesar de a globalização ter muito a oferecer aos países pobres, os que protestam contra ela têm razão nas preocupações que avançam. A economia de mercado não chega nem se pode deixar cavalgar livremente. Há que encontrar mecanismos que a tornem mais inclusiva. É necessário encontrar condições para distribuir melhor a riqueza criada e desenvolver mais os recursos humanos disponíveis em cada país.
A simples globalização do mercado, por si só, é insuficiente para garantir o autêntico desenvolvimento humano, das comunidades e das nações. É fundamental, por isso, fomentar uma sensibilidade atenta a estes problemas éticos e morais, e dar corpo a instituições que favoreçam uma distribuição mais justa dos benefícios trazidos pela globalização da economia. Os críticos da globalização, que passaram das palavras aos actos com iniciativas no campo da «finança ética» e do «comércio justo e solidário», estão a mostrar que é possível encontrar respostas concretas para aproveitar positivamente a globalização e corrigir as injustiças da economia de mercado. Na Europa, as iniciativas do «comércio justo» têm vindo a crescer significativamente: existem já mais de três mil lojas e uma centena de importadores que beneficiam mais de cinco centenas de organizações de produtores em 58 países em vias de desenvolvimento.
Marca ocidental
Na sociedade global, a revolução nos meios de comunicação criou um contexto aberto que facilita a circulação dos bens, da técnica e da ciência, do capital e das pessoas, que trouxe à humanidade em vários locais do globo níveis de desenvolvimento e bem-estar nunca dantes conseguidos, como se está a verificar, por exemplo, em algumas regiões da China, na Índia e no Vietname. Historicamente, a humanidade conheceu outros momentos de intercâmbio que favoreceram o desenvolvimento através das viagens, das migrações, das trocas comerciais, das influências culturais. Mas nunca com a intensidade e a extensão com que, hoje, a sociedade global aproxima as nações e os povos, promove a tecnologia e o desenvolvimento.
Outra nota característica: de momento, este processo está a ser liderado pelo mundo ocidental, a Europa e a América do Norte. Neste sentido, vivemos numa época caracterizada por uma globalização de marca ocidental, o que leva a que algumas instâncias e críticos vejam a globalização como um processo de colonização e domínio ocidental – ou seja, um regresso, por via do domínio económico, aos colonialismos e imperialismos de outrora.
Mas a verdade é que a globalização como tal não é apanágio da nossa época: verificou-se noutros períodos da História, como no Renascimento. Nem é ocidental por natureza: no final do primeiro milénio houve um intercâmbio cultural, uma globalização da ciência, da tecnologia e da matemática, que se ficou a dever aos países árabes. Nem é necessariamente uma maldição: pode trazer benefícios a todos os países que nela intervêm.
Por isso, pode-se concluir que a globalização é um património inerente a todos os povos e culturas que promovem um intercâmbio. Porém, se não faz sentido recusar a globalização da economia e da técnica porque trazem a marca ocidental, também não faz sentido promover uma globalização que ignora as riquezas culturais dos povos do Oriente e da África, que tanto poderão contribuir para uma civilização global que seja realmente património de todos.
Males a superar
Os críticos da globalização insistem que, na prática, o que se está a globalizar é o «capitalismo irresponsável», que beneficia os ricos à custa dos pobres e que abre o mundo ao apetite devastador da tecnologia materialista que explora sem critérios os recursos da natureza. As consequências das fugas de capital de um país para o outro e das crises financeiras são por todos conhecidas. Lembramos as que afectaram alguns países da Ásia, o México e a Argentina, deixando atrás de si ciclos fatais de desvalorização das moedas, de inflação galopante, que se traduziram para as pessoas comuns em desemprego, perda do poder de compra, queda de qualidade de vida. A excessiva exploração dos recursos naturais, os danos causados à natureza e os desastres ecológicos estão à vista, a pedir correcções de percurso e instrumentos de controlo.
As nações, os organismos internacionais e as companhias multinacionais, que lideram o processo da globalização económica e técnica, impõem preços e regras de comércio, que os beneficiam em primeiro lugar e não têm em conta regras elementares de justiça e equidade na distribuição dos benefícios nem um desenvolvimento global justo e benéfico para todos. Países e companhias multinacionais desfazem-se de produtos de qualidade duvidosa e descarregam-nos em países com pouco poder de compra, num sistema de comércio desleal que só serve os seus interesses e adia o desenvolvimento sustentável dos países pobres. Esta situação está a condicionar negativamente, por exemplo, o desenvolvimento do continente africano, que tem sido mantido à margem dos benefícios da globalização.
Pessoas e armas
A este rosário de malefícios da globalização, há que acrescentar o mais fatal de todos: o comércio de pessoas e de armas. A globalização multiplicou os efeitos nefastos destas actividades. O fenómeno do comércio e escravidão de pessoas está a adquirir proporções alarmantes na Europa, com máfias a aproveitarem a pressão da imigração que busca no continente uma saída para a falta de oportunidades nos países da América do Sul, da África e da Ásia. Um fenómeno que escraviza milhares de pessoas na indústria do sexo e na economia paralela. As denúncias, felizmente, não têm escasseado. Mas a opinião pública já não estará tão atenta ao gravíssimo problema do comércio de armas, de que se fala menos e que assume uma nova dimensão com a globalização.
Neste caso, o problema mais grave é que a finança mundial está dependente do fabrico e do comércio das armas. As nações que têm assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas são responsáveis por 81 por cento do comércio e das exportações de armamento. Os países do G8 são os fornecedores de 87 por cento das armas existentes no mercado mundial, com os Estados Unidos da América a superarem a fasquia dos 50 por cento. Cerca de 68 por cento da exportação de ar mas americanas vai para os países em vias de desenvolvimento. Não admira, por isso, que se tenham multiplicado as guerras civis e os conflitos tribais na África, por exemplo, e que o comércio das armas neste mundo globalizado ponha tão dramaticamente em causa o desenvolvimento e a paz de tantos países no Sul do mundo.
Como não admira que a corrida aos recursos naturais se esteja a tornar uma fonte de conflitos armados, alimentados pelas armas tão facilmente disponíveis no mercado mundial. Os países que defendem a globalização têm por isso uma grande responsabilidade numa situação que subverte a democracia, impede o desenvolvimento e viola os direitos humanos em algumas das zonas mais carenciadas do mundo.
Acordos globais
A globalização veio para ficar, mas precisa de reformas. São precisos novos acordos globais para regular o fluxo dos capitais, o funcionamento do mercado, tanto a nível nacional como supranacional. As deficiências da situação actual necessitam de ser corrigidas, com instituições que imponham critérios de maior justiça na distribuição dos benefícios da globalização. Esta é a questão fulcral, que deve empenhar governos e sociedade civil, pois dela depende o futuro de todos, e a paz entre as nações.
Manuel Ferreira
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