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Entradas marcadas como ‘Poesia’

O Nada que é Tudo

Setembro 8, 2008 · 1 Comentário


Crente é pouco sê-te Deus
E para o nada que é tudo
Inventa caminhos teus.

Se Ele é o que dizes
Ele nada pode ser
E se nada, livre está
Para ser o que quiser.

Se Deus quisesse ocupar
Lugar a si mesmo igual
Preenchia todo o nada
E o deixava tal e qual.

Do que é o Espírito Santo
Só diga quem ficar mudo
Que palavra há que me leve
Áquele nada que é tudo.

Oxalá por saber tanto
Me apeteça ficar mudo
Só então vendo sem ver
Aquele nada que é tudo.

Agostinho da Silva


Este “nada que é tudo” de que nos fala o mestre Agostinho, falando a partir das bordas do abismo do Mito, essa sobre-excessiva mudez que nada tem que ver com mutismo, não é um vacuum, um vazio, um apelo à nadificação e à abdicação.

Nova Águia

O Nada que é Tudo

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Adriano Correia de Oliveira

Novembro 2, 2007 · 1 Comentário

Évora

Há dias em que mais vale…

Há dias
Em que não cabes na pele
Com que andas
Parece comprada em segunda mão
Um pouco curta nas mangas

Há dias
Em que cada passo é mais um
Castigo de Deus

Parece
Que os sapatos que vês
Enfiados nos pés
Nem sequer são os teus

À noite voltas a casa
Ao porto seguro
E p´ra sarar mais esta corrida
Vais lamber a ferida
Para o canto mais escuro

Já vi
Há dias em que tu
não cabes
em ti

 Avança
Na cara desse torpor
Que te perde e te seduz
A espada como a um Matador
Com o gesto maior
Do seu peito Andaluz

Avança
Com a raiva que sentes
Quando rangem os dentes
Ao peso da cruz

Enfim,
Há dias em que eu
Também estou assim

Parece que pagamos os
Pecados deste mundo
Amarrados aos remos de um
Barco que está no fundo.

Ser Alentejano é um estado de Alma…

Alentejo & Sapientia

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“As coisas mais simples”

Outubro 18, 2007 · 1 Comentário

Nuno Júdice, vence Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa 

“As coisas mais simples”

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José Saramago

Outubro 2, 2007 · Deixe um comentário

Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora!

Arranjo de Soares Feitosa

Vem aqui, Tomé,

vem comigo até a borda da água,

vem ver-me fazer uns pássaros

com esta lama que colho…

 

Repara como é tão fácil,

formo e modelo o corpo

e as asas;

afeiçôo a forma da cabeça

e do bico; engasto estas pedrinhas

que são os olhos;

ajeito as penas compridas

da cauda;

equilibro-lhes as pernas e os dedos

e tendo feito

este, faço mais onze;

aqui os tens, um dois, três

quatro, cinco, seis, sete, oito,

nove, dez, onze, doze pássaros

de lama…

 

Imagina, até, se quiseres,

dar-lhes nomes: este é Simão,

este é Tiago, este é André, este é João, e este,

se não te importas, chamar-se-á

Tomé.

 

Quanto aos outros vamos esperar

que os nomes apareçam;

os nomes, muitas vezes, atrasam-se

no caminho, chegam

mais tarde…

 

E agora vê como faço — lanço esta rede

por cima das avezinhas

para que elas não possam fugir, os pássaros…, se

não temos cuidado.

 

Queres dizer-me que se esta rede

for levantada os pássaros fogem?

Esta é a prova com que querias

convencer-me?

 

Sim e não!

 

Como, sim e não?

 

A melhor prova, mas essa

não é de mim que depende, seria

não levantares tu a rede e acreditares

que os pássaros fugiriam se a levantasses.

 

São de barro, não podem fugir.

 

Experimenta! Também Adão,

nosso primeiro pai, foi de barro e tu

descendes dele.

 

A Adão deu-lhe vida Deus!

 

Não duvides mais, Tomé! Levanta a rede, eu sou

o Filho de Deus.

 

Assim o quiseste, assim o terás,

estes pássaros não voarão!

 

Com um movimento

rápido, Tomé levantou

a rede, e os pássaros,

livres, levantaram vôo, chilreando,

duas voltas

sobre a multidão maravilhada

e desapareceram no espaço.

 

Disse Jesus:

Olha, Tomé, o teu pássaro

foi-se embora.

 

E Tomé respondeu:

Não. Senhor, está aqui ajoelhado a teus pés,

sou eu. 

“Versificação”, a partir do ritmo cardíaco e do batimento respiratório (uma “viagem”, como se, entre os olhos e o ouvido Saramamgo, o Nobel da lusonofia médio) de um texto de Saramago, in O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Companhia das Letras, 31ª reimpressão, páginas 398/399, sem nenhuma alteração a mais ou a menos que a mera arrumação em versos e estrofes. Nem preciso mencionar que este texto em Saramago (aliás, o Evangelho inteiro) é um bloco compacto, com mínimas “cesuras” por vírgulas e nada mais.

Prosa e poesia seriam, assim sem mais nem menos, aSoares Feitosa, 2001 mesma coisa? Sim e não, aliás, sim… desde quê. E por favor bote muitos desdes-quês nessa história. De fato, é possível “metrificar” Euclices da Cunha, Guimarães Rosa, José de Alencar, Clarice Lispector e não muito mais que uns cinco gatos pingados. Da mesma forma, excelente “prosa” em… Álvaro de Campos. É só tentar… desde quê.

 

Soares Feitosa

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