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Entradas marcadas como ‘Religião’

O Nada que é Tudo

Setembro 8, 2008 · 1 Comentário


Crente é pouco sê-te Deus
E para o nada que é tudo
Inventa caminhos teus.

Se Ele é o que dizes
Ele nada pode ser
E se nada, livre está
Para ser o que quiser.

Se Deus quisesse ocupar
Lugar a si mesmo igual
Preenchia todo o nada
E o deixava tal e qual.

Do que é o Espírito Santo
Só diga quem ficar mudo
Que palavra há que me leve
Áquele nada que é tudo.

Oxalá por saber tanto
Me apeteça ficar mudo
Só então vendo sem ver
Aquele nada que é tudo.

Agostinho da Silva


Este “nada que é tudo” de que nos fala o mestre Agostinho, falando a partir das bordas do abismo do Mito, essa sobre-excessiva mudez que nada tem que ver com mutismo, não é um vacuum, um vazio, um apelo à nadificação e à abdicação.

Nova Águia

O Nada que é Tudo

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Nós os vencidos do catolicismo

Junho 26, 2008 · Deixe um Comentário

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»

Autor: Ruy Belo

«A solidão dos filhos de Deus»

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“INTELIGENT DESIGN”

Novembro 24, 2007 · Deixe um Comentário


Acabei de assistir no Canal Dois, a uma emissão do Programa “Nova”, à volta do “Criacionismo”. Trata-se de uma controvérsia ocorrida numa comunidade rural americana, inspirada pela milenária luta entre a Ciência e Fé. Luta que já fez correr muito sangue à volta do mundo. E quando o sábio Galileu, que já aqui mencionei várias vezes, teve a coragem de dizer que era a Terra que girava à volta do Sol e não o Sol à volta da Terra, como era crença da Igreja Católica, o pobre estudioso, esteve prestes a ser queimado na fogueira da Inquisição, se não abjurasse de joelhos, as suas observações cientificas. Que a fé, exaltada pelo fanatismo, é muito perigosa. Basta ver o que está acontecendo no Iraque, com os bombistas suicidas e fanáticos do Islão.

O Creacionismo, ou “Inteligent Desig”, é uma crença religiosa, a qual postula que os humanos, os animais, as aves e os peixes foram desenhados e criados assim, e que a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin, está errada. E a controvérsia está, em o Criacionismo querer passar por uma teoria científica, e não uma crença religiosa. Claro, a comunidade cientifica bateu o pé, e disse: ciência é ciencia, religião é religião, e há lugar para as duas mas sem misturas. Segundo a Ciência, criacionismo é uma crença, uma suposição, uma fé de cunho religioso, sem fundamento científico. Como não tem qualquer fundamento cientifico o que a Bíblia nos diz àcerca de criação do mundo em seis dias, com Deus, cansado do esforço, a “descansar” ao sétimo dia. A Terra era então o centro do Universo, havia sido criada há dez mil anos – não há dez triliões, mas apenas há dez mil – o Sol é que girava, a Terra era plana e estava quieta, as estrelas eram lamparinas suspensas no tecto do céu e outras coisas mais. A Bíblia não explica também, se Adão e Eva eram brancos, pretos ou amarelos, e como é que se produziram essas diferentes raças, se não houve evolução das espécies. Pelo menos os mulatos, sabemos nós, que foram os portugueses que os produziram, e isto não e uma crença religiosa, mas uma conclusão científica.

O objectivo dos criacionistas americanos, é desbancar as observações de Charles Darwin, sobre a evolução das espécies, dando carácter de ciência, a uma convicção religiosa. Ora a Ciência, é o esforço do homem para desvendar os mistérios da Criação. Ciência, não é religião. Não é uma crença, é um trabalho mental profundo, que analiza minuciosamente as ínfimas partículas de que é formado o Universo, de que nós, e toda a vida, somos parte integrante. A ciência não proselitiza nem vende na praça pública as suas verdades. A ciência não sofre da doença do ódio de que enfermam as religiões, que se guerreiam e contradizem .Todos os cientistas do mundo, são membros da mesma confraria. As suas verdades e experiências são partilhadas .São património da Humanidade. Muitos cientistas até crêem na existência de um ser superior responsável pela criação do Universo, e decerto pedem que essa Força Criadora, que eles procuram desvendar, os inspire nos seus esforços de descoberta. Os cientistas não criam. Descobrem. Levantam um poucochinho o véu do mistério, mas não se arrogam a petulância de dizer que tudo sabem, e que a Ciência é infalível.

E assim sendo, todos os que acreditam nas suas respectivas religiões, utilizam a ciência, mesmo sem acreditar nela.Quando ficam doentes, ou quando têm de extrair um tumor maligno, não confiam apenas nas orações. Eles entregam-se nas mãos de um médico, que pode ser incréu, judeu, católico, protestante , induista ou maometano… A Ciência não faz guerra à religião. A Religião é que, historicamente, tem feito guerra à Ciência. E não só à Ciência, mas a outras religioes. As relações entre as várias crenças não são bentas.

Acho que a Ciência tem sido mais pacífica. Ela procura desvendar os segredos do Universo, e aliviar as dores da humanidade. E presta os seus serviços a toda a gente, independentemente da cor da sua pele, nacionalidade ou religião. E se não fosse assim , não seria ciência pura, mas astrologia. Esta é uma atitude que devia ser imitada pelas religiões. A Ciência personifica a paz de que nos falou o Rabi da Galileia. Os cientistas americanos, não fazem guerra ou odeiam os cientistas do Irão, da Coreia do Norte, da Siria ou de qualquer outro país que o nosso chefe catologou como “inimigos”. Sejam eles comunistas, democratas ou republicanos, na comunidade científica, todos têm pousada. Porque todos trabalham na mesma vinha.

Mas,voltando à vaca fria, como se diz na Bairrada, o caso da tentativa dos criacionistas americanos, de introduzir a crença religiosa, nas escolas públicas, sob a capa de “ciência”, não surtiu efeito. E o Juiz Johnson, por acaso uma nomeação recomendada por Bush, sentenciou que o Criacionismo ou “Inteligent Design”, não é ciência, mas religião, e que o lugar da religião, é na igreja, e a Ciência, é parte da instrução pública e do progresso da Humanidade. E Darwin, mais uma vez, foi vingado.

Por Manuel Calado

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A Desilusão de Deus

Novembro 7, 2007 · Deixe um Comentário

Esta é uma discussão ingrata, mas também uma das que dá mais prazer. Porque se eu perguntar como se define deus, dizem-me que DEUS não se define :)

O Deus que eu me foi dado a conhecer da cultura popular portuguesa é Jeová (que se não me engano é o nome do deus monoteísta, quer dos cristãos, dos judeus ou dos muçulmanos).

Ora dizer-se que existe Jeová, (ou Deus) é negar todas as outras religiões e as suas crendices, o seu sagrado. O contrário, ou seja, ao afirmar-se que existem as divindades orientais, nega-se Deus (ou Jeová) na sua essência.

Então pela afirmação de uma das crenças não se chega a lado nenhum.

Ora. Uma das dificuldades em discutir religião é o seu casulo quanto à racionalidade. A racionalidade tem um espaço muito limitado de actuação na discussão de assuntos religiosos. O que nos leva à matemática. :)

Ora, o que tem a matemática a ver com isto?! É simples, a matemática tem o conjunto dos números imaginários, para contrapor aos números reais, servindo para calcular raízes negativas.

O que quero dizer com isto? Se calhar estamos a discutir a religião no plano errado… :) Temos que sair do plano do lógico e passar para o ilógico. E fazer isto é dar razão aos gnósticos, que afirmam que a religião não se compreende pela sua lógica, mas antes pela sua ilógica. A lógica do gnósticismo é simples: mortal/imortal, lógico/ilógico, etc. Tal como na matemática: nºs reais e nºs imaginários. Ora, a existência de lógica no raciocínio do próprio gnósticismo mata-o na sua base :)

Então, ou não faz qualquer sentido a religião, ou então nós não existimos.

Quero eu dizer que, o que faz sentido para mim é dizer-se que o espiritual tem importância para o homem. Mas deuses não! Deuses ou homens, ou animais, são apenas o recurso, o meio, ou a ferramenta, para atingir um fim: a espiritualidade. A espiritualidade no sentido de força anímica. Que nos impele à acção.

Ora, esta espiritualidade pode ser atingida através do culto da personalidade (seja ela Estaline, Jesus, ou Dawkins). Por isso o ateísmo está aí para ficar. Pois a não existência de deus, ou entidade divina, não implica a não existência de espiritualidade, excepto se o divino é o único meio exclusivo para o exercício da espiritualidade.

Ricardo Silva

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Muito católico

Outubro 3, 2007 · Deixe um Comentário

Na realidade, que sistema ético, senão o católico, confere ao homem uma tão grande esfera de liberdade individual, a qual é levada ao extremo de ele ser livre para pecar e, depois de percorrido o ciclo da confissão, do arrependimento e do perdão, voltar a ser livre para pecar outra vez? Eu não conheço outro e esta é, aos meus olhos, a razão principal da supremacia humanista da cultura católica, face a todas as outras – e, ironicamente, também, o seu grande calcanhar de aquiles.

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O sagrado e o humano

Outubro 1, 2007 · Deixe um Comentário

O sagrado e o humano

Roger Scruton*

Não causa surpresa o fato de pessoas decentes, céticas, ao observarem o ressurgimento em nossos tempos de cultos supersticiosos, do conflito entre liberdades seculares e éditos religiosos, e do radicalismo islâmico assassino, se mostrarem receptivas às polêmicas anti-religiosas de Richard Dawkins, Christopher Hitchens e outros. O “sono da razão” trouxe monstros, como Goya previu em sua gravura.

Hitchens é um homem inteligente e altamente erudito que reconhece que o argumento mais útil para ele era bastante conhecido há 200 anos. Mas pensadores do Iluminismo, tendo mostrado que as alegações da fé não contavam com fundamentação racional, não desdenharam a religião, como alguém poderia desdenhar uma teoria refutada. A facilidade com que as doutrinas comuns da religião podem ser refutados os alertou para a idéia de que a religião não é, em essência, uma questão de doutrina, mas outra coisa. E decidiram descobrir o que poderia ser.

Para os pensadores no período imediato pós-Iluminismo, não era fé, mas fés, no plural, que compunham a essência básica da teologia. Para os pensadores pós-Iluminismo, os sistemas de crença monoteísta não estavam relacionados aos mitos e rituais antigos da mesma forma que a ciência para a superstição, ou a lógica para a magia. Em vez disso, eles eram cristalizações de uma necessidade emocional. Um mito não descreve o que aconteceu em algum período obscuro antes da contagem humana de tempo, mas algo que acontece sempre e repetidamente. Ele não explica as origens causais de nosso mundo, mas recita sua permanente importância espiritual.

Se você olhar para a religião antiga desta forma, então inevitavelmente sua visão do cânone judaico-cristão muda. A história da criação no Gênesis é facilmente refutada como relato de eventos históricos: como pode haver dias sem sol, homem sem mulher, vida sem morte? Mas lida como mito, este texto aparentemente ingênuo revela ser um estudo da condição humana.

Mitos e rituais, escreveu Hegel, são formas de autodescoberta, por meio das quais entendemos o lugar do indivíduo em um mundo de objetos e a liberdade interior que condiciona tudo o que fazemos. A ascensão do monoteísmo a partir das religiões politeístas da antiguidade não é apenas uma forma de descoberta, mas de autocriação, à medida que o espírito aprende a reconhecer a si mesmo no todo das coisas e a superar sua finitude.

Entre estas primeiras incursões na antropologia da religião e estudos posteriores, dois pensadores se destacam como fundadores de um novo empreendimento intelectual – um empreendimento que parece não ter sido notado por Hitchens, Dawkins ou Daniel Dennett. Os pensadores são Friedrich Nietzsche e Richard Wagner, e o empreendimento intelectual é o de mostrar o lugar do sagrado na vida humana e o tipo de conhecimento e entendimento que nos chega por meio da experiência das coisas sagradas.

A lição que ambos os pensadores extraíram dos gregos é de que é possível subtrair os deuses e suas histórias da religião grega sem tirar o mais importante. Esta coisa tinha sua realidade primária não em mitos, teologia ou doutrina, mas nos rituais, nos momentos que ficam fora do tempo, nos quais a solidão e a ansiedade do indivíduo humano são confrontadas e superadas por meio de uma imersão no grupo. Ao chamar estes momentos de “sagrados”, nós reconhecemos tanto seu complexo significado social quanto o alívio que fornecem à alienação.

A tentativa de Nietzsche e Wagner de entender o conceito do sagrado foi levada adiante não por antropólogos, mas por teólogos e críticos. É a teoria de René Girard, me parece, que mais urgentemente precisa ser debatida, agora que o triunfalismo ateísta está eliminando todos os nuances.

Em “A Violência e o Sagrado” (1972), Girard começa com uma observação que nenhum leitor imparcial da Bíblia judaica ou do Alcorão pode deixar de fazer, que é a de que a religião pode oferecer paz, mas tem suas raízes na violência. O Deus apresentado nestes textos é freqüentemente irado, dado a acessos de destruição. Ele faz exigências ultrajantes e sanguinárias – como a exigência para que Abraão sacrifique seu filho Isaac. Ele é obcecado por genitália e inflexível em que deva ser mutilada em sua honra.

Pensadores como Dawkins e Hitchens concluíram que a religião é a causa desta obsessão sexual e violência, e que os crimes cometidos em nome da religião podem ser vistos como a refutação definitiva dela. Nem tanto, argumenta Girard. A religião não é a causa da violência, mas a solução para ela. A violência vem de outra fonte e não há sociedade sem ela desde a primeira tentativa dos seres humanos viverem juntos. O mesmo pode ser dito da obsessão religiosa com a sexualidade: a religião não é a causa, mas uma tentativa de resolvê-la.

Como Nietzsche, Girard vê a condição primitiva da sociedade como uma de conflito. É do esforço para resolver este conflito que nasce a experiência do sagrado. Esta experiência nos vem de muitas formas -ritual religioso, oração, tragédia – mas sua verdadeira origem está nos atos de violência comunal. As sociedades primitivas são invadidas pelo “desejo mimético”, à medida que rivais lutam para igualar as aquisições materiais e sociais do outro, acentuando o antagonismo e precipitando o ciclo de vingança.

A solução é identificar uma vítima, alguém marcado pelo destino como sendo de fora da comunidade e portanto merecedor da vingança contra ela, que pode ser alvo do desejo de sangue acumulado, e que pode conduzir o ciclo de retribuição ao fim. O bode expiatório é a forma da sociedade de recriar a “diferença” e portanto se restaurar. Ao se unirem contra o bode expiatório, as pessoas são libertadas de suas rivalidades e reconciliadas. Por meio de sua morte, o bode expiatório purga a sociedade de sua violência acumulada. A santidade resultante do bode expiatório é o eco de longo prazo do temor reverente, do alívio e da religação visceral à comunidade que foi experimentada com sua morte.

Segundo Girard, a necessidade do bode expiatório sacrificial está implantada na psique humana, originária da tentativa de formar uma comunidade durável na qual a vida moral pode ser buscada com sucesso.

Em muitas histórias do Velho Testamento, nós vemos os antigos israelitas lidando com este ímpeto sacrificial. As histórias de Caim e Abel, de Abraão e Isaac e de Sodoma e Gomorra são resíduos de conflitos estendidos, nos quais o ritual foi desviado da vítima humana e ligado primeiro a sacrifícios animais, depois às palavras sagradas. Por este processo uma moralidade viável surgiu da competição e conflito, e das rivalidades viscerais da predatoriedade sexual.

Logo, a experiência do sagrado não é um resíduo irracional de medos primitivos, nem uma forma de superstição que algum dia será eliminado pela ciência. Ela é a solução para a agressão acumulada que existe no coração das comunidades humanas. É assim que Girard explica a paz e celebração que acompanha o ritual da comunhão – o senso de renovação que sempre precisa ser ele mesmo renovado. Girard descreve características profundas da condição humana, que podem ser observadas também nos cultos do mistério da antiguidade e nos templos locais do hinduísmo, assim como no “milagre” cotidiano da Eucaristia.

Há muitos elementos na teoria de Girard que podem ser criticados – como a idéia de que as instituições humanas podem ser explicadas pela criação de mitos. Mas tais críticas não influenciam, ao que me parece, o descaso com que as idéias de Girard são tratadas.

Eu suspeito que, como Nietzsche, Girard nos recordou das verdades que preferiríamos esquecer – em particular, a verdade de que a religião não se trata basicamente de Deus, mas do sagrado, e que a experiência do sagrado pode ser suprimida, ignorada e mesmo profanada, mas nunca destruída.

* Roger Scruton é um filósofo e professor de pesquisa do Instituto para as Ciências Psicológicas, Virgínia.

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