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“Que valores para este Tempo?”

Outubro 1, 2007

Universalidade e relatividade dos valores.

Podemos considerar o valor uma medida com que avaliamos acções ou formulamos juízos.

Há quem defenda que esta “medida” é fixa, definitiva e fechada. O que está de harmonia com essa medida é correcto; o que não está de harmonia com essa medida é incorrecto. Situam-se nesta perspectiva as teses dogmáticas, essencialistas e objectivistas do valor. Os seus defensores consideram que os valores existem a priori, não se fundamentam no homem, são transcendentais, valem por si mesmos de forma apodíctica (de um modo necessário e incondicional). Platão foi o primeiro a desenvolver a teoria essencialista dos valores. Nos finais do séc. XIX a fenomenologia dos valores de Max Scheler (1875-1928) defendeu que os valores são à priori e considerou que podem ser captados por intuição emocional. De uma forma geral, esta concepção dos valores aproxima-se das éticas da autoridade ou das convicções dogmáticas.

Surge, entretanto, as seguintes questões: poderemos orientar a nossa acção por valores rígidos ou convicções dogmáticas sem termos em conta a avaliação das consequências?!… Nas situações dilemáticas, como resolver o problema da orientação da acção?!…Quem aplica “mecanicamente” regras e valores previamente definidos, sem ter em conta as situações, outros pontos de vista, o contexto no qual se deve determinar a acção será um homem justo?!…. Convertendo os valores em absolutos, poderemos distinguir a acção justa (acção realizada de acordo com os modelos ou normas) do homem justo (o que age de harmonia com a sua consciência livre e responsável)?!…

Num ponto de vista oposto, surge a tese de que os valores configuram uma medida flexível”. O correcto ou incorrecto não está definido uma vez por todas: é preciso ter em conta o contexto da situação. Coloca a moralidade no sujeito e define um Sujeito Moral (o que age de harmonia com a sua consciência). Corresponde ás éticas humanistas e tem relação com a tese do subjectivismo ou relativismo dos valores: os valores não têm uma estrutura própria, nem existem a priori: são criações humanas ou convenções determinadas por contextos culturais. Os valores mudam, porque é o homem que os cria (subjectivismo) e é ele a medida de todos os valores (relativismo– isto é, do que convém ser valor ou não convém; consequencialismo–os valores avaliam-se pelas consequências que provocam na orientação da acção) .

Camões, num dos seus poemas, já tinha referido:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”

De uma forma geral, situam-se nesta perspectiva as seguintes correntes: sociologismo axiológico de Emile Durkheim (1858-1917), o culturalismo, o psicologismo moral de Sigmund Freud (1856-1939), o pragmatismo (o critério de valor é o que é útil) e o perspectivismo. O existencialismo (o homem é liberdade e tem portanto de escolher, mesmo que não escolha, e a escolha envolve sempre uma razão de bem justamente porque escolhi). Escolher é, assim, um acto de valorar. Estas correntes vão provocar o aparecimento da ética aplicada.

O relativismo axiológico levanta, entretanto, as seguintes questões:
Como justificar a criação de valores e submeter-se-lhes?
Em que valores poderemos apoiar uma definição de progresso civilizacional?
Podemos renunciar a determinados valores, como o respeito pela dignidade humana, independentemente das culturas ou circunstâncias?
Em virtude de que princípio é condenável o genocídio?

De facto, sempre a humanidade, em todas as culturas e em todas as épocas, aspirou à “justiça”, ao “bem” e ao “belo” e isso significa que há um mínimo de valores universais, muito embora sejam formulados de diferentes maneiras. Tais valores transcendem o homem individual e constituem princípios universais que fundamentam o respeito pela dignidade humana, muito embora esta não tenha sido entendida da mesma maneira em todas as épocas, nem extensiva a todo o ser humano ao longo da história da humanidade.

Actualmente, a defesa da dignidade humana vai acompanhando os problemas das dinâmicas tecnocientíficas que transformam as sociedades. Não admira, por isso, que surjam novos valores a procurar dar resposta para as questões que se prendem com a vida, o ambiente, etc. É assim que surgem os valores ligados, por exemplo, à bio-ética, à eco-ética, à relação entre privado e público, às questões da organização das empresas, à cibernética, aos problemas da liberdade, da tolerância e da justiça.

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