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À sombra de Nietzsche

Outubro 1, 2007
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“O futuro chega com passinhos de pomba.” Esta frase de Nietzsche é a versão poética de outra de Hegel, mais próximo dele do que é costume pensar-se: “A Ideia não tem pressa.” A Ideia é aqui o Homem mesmo para si mesmo caminhando, menos para um Futuro que nunca terá a forma que lhe sonhamos que para um tempo que não voa como a flecha de Zenão, mas sobre si mesmo se enrola. Uma versão como outras da ideia nietzschiana de Eterno Retorno do mesmo. Se tanto invoco Nietzsche neste colóquio consagrado à crise dos valores, no nosso tempo – programado por Fernando Gil numa perspectiva assumidamente ocidental e não sem razão – é porque Nietzsche, o mais inactual dos pensadores deste tempo de crise cuja essência é a oposta ao seu diagnóstico, é também, sem contradição, o mais actual, o mais profético e com mais futuro à espera dele, por ter deslocado a preocupação ocidental por excelência, a da questão da Verdade, para a mais obscura, mas não menos incontornável, do Valor.

A revolução nietzschiana – só comparável à de Rousseau mas às avessas – não é uma simples denegação ou reversão dialéctica dos valores que durante mais de dois mil anos – de Sócrates a Schopenhauer – subdeterminaram a visão e a leitura ocidentais (europeias) do mundo. A sua estratégia nada tem de polémico, no sentido canónico, de confronto de razão contra razão, é oblíqua, de algum modo comparável às de Marx e de Freud, discursos de tipo médico-pedagógico destinados menos a negar a visão racionalista da realidade de que a ciência, no sentido moderno, é a expressão mais acabada, do que a pôr em evidência os pressupostos, cuidadosamente ocultados ou recalcados, do saber a si mesmo transparente visado pela Filosofia. Do seu educador Schopenhauer herdou Nietzsche a sua aversão quase visceral de um discurso e de uma visão do mundo destinado, sem dúvida, a compreendê-lo, mas sobretudo a justificá-lo, não apenas como inteligível mas como amável. Está escrito no Livro Santo do Ocidente: Deus, tendo criado o mundo contemplou-o e achou-o Bom. Não o tendo criado, “cela va de soi“, Schopenhauer não o achou nem Bom nem Mau. Viu nele apenas a manifestação de uma Vontade (sem ser vontade de ninguém) cega, onde, segundo ele, nos é impossível descortinar uma qualquer finalidade. Voltaire havia troçado de um Deus-Providência preocupado com o destino transcendente que nós nos atribuímos. O Deus de Voltaire impõem-se à exigência da compreensão do mundo como mecanismo (relojoaria divina com letra de Newton), mas nada tem com o nosso coração, não é o famoso “Deus sensível ao coração”, da pascaliana evocação, o homem como ser de pulsão e emoção, sujeito delas e não seu senhor, sensível aos “valores”, filhos da sua liberdade e misteriosamente seus guias como as estrelas nos céus para os caminheiros da mente humana a que chamamos destino. Em última análise nós não somos nada fora da esfera dos “valores” onde inscrevemos o que para nós é o único necessário por ser antes de mais a única realidade. De algum modo o “ente realíssimo” de escolástica lembrança. O Valor, na ética de Nietzsche, nem é Deus, Valor supremo, nem a esfera dos valores em função da qual não só agimos mas somos por assim dizer, por nossa vez, como dizia Nicolau de Cusa, deuses menores. Nada existe para Nietzsche, sempre na esteira de Schopenhauer, que uma Natureza, pura Vontade, em termos apenas anacrónicos, realidade inconsciente detrás da qual nada se esconde, que nós chamamos Mundo, que nos inclui, que é aquilo que parece na sua manifestação e que teria para além da sua aparência (e aparição) uma essência que seria a Verdade dela. Crer nessa Verdade-Essência, supô-la inteligível e racional, operando em vista de um fim, como aquele que não podemos deixar de conceder para os nossos próprios actos para conferir um sentido à nossa existência e imaginá-la assim valiosa, é para ele, como para Schopenhauer, pura ilusão e no vocabulário pessoal dele Mentira. De todas as nossas criações só o que chamamos Arte – e em particular a Música – exprimem a realidade dessa Ilusão como consciência dela. Mas não pertencem à esfera da Verdade, nem mesmo do Valor. Um Rembrandt não é verdadeiro nem falso ou uma sinfonia de Mozart também não tem valor no sentido que damos a esse termo. O que é valioso, se de arte se trata, é sem valor, ou o valor não se lhe pode aplicar. Fica de fora, o valor. Não permitem que a seu propósito possamos separar neles a realidade e a aparência, como o fazemos com a Realidade-Verdade do Ser. Tal como a leitura de Platão a impôs ao Ocidente criando com essa distinção a Metafísica. E subtraindo pela mesma ocasião o Mundo – desde o físico ao político – ao Caos criando a Ordem humana à semelhança da Ordem celeste dos astros incorruptíveis e eternos. Não nos desembaraçamos facilmente deste platonismo eterno. Kant em frase célebre celebrará ao mesmo tempo o céu estrelado, espécie de imagem sensível do divino por cima de nós e lei moral no interior de nós. Mas invertendo a perspectiva: é lei moral que sustenta o céu, é ela a manifestação divina que reclama Deus para se legitimar. Ou para se legitimarem uma ao Outro.

Deste segundo platonismo – mesmo às avessas – expressão de uma religião nos limites da Razão, de uma fé não menos razoável, limitando-se a si mesma nos seus sonhos naturalmente divinos, Nietzsche fez tábua rasa não opondo argumento a argumento, mas como ele o disse “a golpe de martelo”. Não discute com Deus ou a propósito de Deus, não recorre à Razão mesmo crítica, que é para ele máscara de uma só vontade de poderio, essência única da realidade – do nosso paradigma dela e não seu produto. Mata simbolicamente Deus – não como o século das Luzes do Abade Mélier a Diderot e aos materialistas Helvetius e Holbach, filósofos de uma leitura mecanicista do mundo e dos homens que miticamente colocam a Razão num altar – mas, por assim dizer, fisicamente, numa luta corpo a corpo para lhe roubar o seu excesso de realidade, a sua divindade intolerável, reclamando para si e para o homem digno desse nome, criador de valores no sentido mais radical do termo e não seu escravo mesmo se os assim chamados aparecem como positivos ou até sublimes quando para ele são apenas o álibi da nossa vida sem risco. É inútil sublinhar que a chamada filosofia de Nietzsche não só é de uma equivocidade irremediável – outros dizem paradoxal e contraditória – como objectivamente perigosa, epíteto que naturalmente ele assumiu. Viver perigosamente tornou-se uma das exigências éticas (da sua nova ética) nietzschiana. E isto foi lido com entusiasmo e inspirou vocações de gente habitualmente sentada, para tentar aventuras dignas de um Harrison Ford da Arca Perdida. Decerto Nietzsche alegorizou o seu combate – mais que mortal pois comportou o naufrágio da sua própria Razão – como aventura no interior do Labirinto e como nova espécie de marcha no coração das trevas para combater o Minotauro de uma Verdade como duplo de Deus, o que para ele era uma redobrada Ilusão ou uma única e invencível Mentira. A sua luta por uma transmutação de todos os valores na sua linguagem – o seu combate pelas realidades contra as ilusões – foi antes de mais uma luta contra as aparências de valores que serviam ao mesmo tempo como inscrição e justificação da vida mais alta e bastava isso para o colocar numa situação sem precedentes, cavaleiros de um mau combate, niilistas no sentido trivial do termo, vulgarmente, “sem fé nem lei” e numa perspectiva mitológica que ele mesmo assumiu, como um verdadeiro AntiCristo. Quer dizer, em carne e osso, o paradigma do blasfemo – se invocarmos o quadro das atitudes religiosas intoleráveis, reprováveis ou dementes – quando a sua única obsessão, essa sim, heróica, foi a de recusar o que era para ele a forma mesma do niilismo, que não é uma simples constatação de que a ordem dos “valores” qualquer que ela seja, e em particular aquela de que os “valores cristãos” são exemplo, não tem justificação alguma, nem numa perspectiva de Verdade, nem de evidência por assim dizer irrecusável como imperativos de uma acção exemplar, mas do simples facto de a sua essência ser negação do valor mesmo da vida ou melhor de negação activa dela. O “cogito” nietzschiano, o único fundamento do seu pensamento em função do qual todas as realidades devem ser julgadas. Nietzsche não se importa, ou na sua perspectiva isso não tem sentido, em demonstrar que a ideia de Deus é, em si mesma, contraditória, como um materialista clássico o podia fazer, ou que é virtual e exigida pela “moralidade como em Kant”, ou mesmo simples reflexo da nossa nulidade ontológica invertida (a nossa impotência transfigurada), como em Feuerbach, mas a manifestação mesma da nossa inexistência. “Se Deus existisse como toleraria eu ser não-Deus?” A legitimação mesma da Terra, o assentimento, não a uma Criação (e por conseguinte a um Criador nosso Pai e nosso Senhor) mas à realidade-Mundo como puro fenómeno que não tem mais finalidade nem sentido que manifestar-se, que não diz com o Deus bíblico “eu sou o que sou” mas só recebe “voz” na nossa voz – que não é a de Deus – mas a de um eco de si mesma como palavra-Mundo que não tem mais realidade que a Linguagem que é a única casa do Ser que conhecemos – é para Nietzsche o pressuposto transcendental concreto, não uma fantasmagoria, para que o que chamamos “valores” sejam as mil maneiras de reiterar o nosso “sim” à existência, em suma, de aceitar que os “alimentos terrestres” de que vivemos são os únicos realmente celestes. O seu consumo não nos torna deuses. Nem sequer “homens”. Nós não somos os macacos de Deus depois de o ter morto para nos crer realmente existentes e não mero reflexo do pensamento e de uma vontade divina que já nos antecipava desde sempre como meros reflexos da sua Luz infinita. Nós somos grãos de uma solitude infinita à volta da qual gravita o verdadeiro sol de Deus e as suas constelações, os Valores que não existem em si como as ideias platónicas, e que Nietzsche pensava que eram menos a máscara que a expressão da pura vontade de poderio. Por sua vez e contrariamente à vulgata nietzschiana, esta misteriosa “vontade de poderio” não é a óbvia capacidade de impor a “nossa” vontade à vontade alheia, para “além do bem e do mal” – como na versão “darwinista” de Nietzsche o podia parecer – mas antes de tudo e além de tudo, aquilo que Nietzsche entendia por imperativo de transcensão de si, de que comporta a negação da nossa própria aparência, o que supõe não a complacência para o que julgamos ser como homens que cumpriram o seu dever, como servos ou sacerdotes dos “verdadeiros valores”, de algum modo deuses para si mesmos, mas a consciência aguda e dolorosa de os ter falhado, tê-los idolatrado, considerados como “coisas em si” ou o conjunto deles como uma nova “Coisa em si”, em suma, uma nova figura de Deus.

O radicalismo com que Nietzsche combateu a ideia de Verdade – ou melhor a ideia de possuir a Verdade, tornava inevitável que a sua recusa não fosse menor em considerar os Valores numa perspectiva “idolátrica” como seus passivos suportes ou consumidores. Mais do que as “verdades”, os chamados valores são os nossos valores e os nossos valores, em última análise, além do carácter de polaridade que os caracteriza (um valor vive do que nega e é inseparável dele – o Bem do Mal, o Belo do Feio, o Justo do Injusto) são sustentados pela nossa vontade de os afirmar ou negar, afirmando através deles o sentido da vida, não em função dum fora dela, dum céu para ele imaginário, mas de vontade de, de capacidade, do desejo de os encarnar, efectivamente, como tais. Nós podemos compensar com eles o deserto em que voluntariamente nos instalámos e Nietzsche nos instalou com a “morte de Deus” e com ela a nossa morte como Sujeitos susceptíveis de conferir à ideia de Verdade e de Valor essa evidência e esse esplendor, na Luz da ideia de Deus e mais ainda a convicção da sua Presença quando ela era (ou é) vivida como fundamento da nossa própria existência e garantia de um sentido para ela.

Foi para recuperar um sentido unicamente humano para o nosso destino – a propósito, pode ser ou louco ou contestável -que Nietzsche denunciou as fricções antigas, as da razão grega e a tábua dos valores cristãos como caluniadoras da verdade da Terra ou da Terra como Verdade. Não se pode dizer que cem anos mais tarde a nossa Civilização e a nossa Cultura, que ele quis purificar da ilusão, não para lhe retirar uma verdade consoladora como a antiga, tenham restaurado “os verdadeiros valores” que deviam converter o antigo homem iluso num “mais que homem” capaz de olhar a realidade em face, inundado de uma alegria e de uma felicidade adultas, libertas, pensava ele, da sombra de Deus. Dioniso deus dançante e cristão não conduz o baile do mundo. O mundo convertido num espectáculo permanente dança sozinho. A famosa “morte de Deus” que devia ter não apenas abalado mas comovido o mundo, como catástrofe sem igual na História dos Homens, de tragédia que foi que era já para Lutero e de paixão para Nietzsche, tornou-se um “cliché” cultural e é hoje vivida com indiferença. Descendo da sua montanha Zaratustra encontrou um eremita que continuava a honrar Deus com a sua solidão e com o seu fervor. “É possível que este velho santo na sua floresta não tenha ainda ouvido que Deus morreu?”

Entre nós alguém viveu essa morte de Deus com uma seriedade infinita. Chamou-se Pessoa. A desertificação deixada na alma moderna por essa morte atingiu-o como uma revelação e tornou-o incapaz de reconstituir em si o Dioniso que como Nietzsche também era. Na ordem da cultura – embora exterior – é difícil encontrar alguém que tivesse glosado essa morte com tanta paixão e tanta violência. A sua Obra é, toda ela, luto de Deus. Podia ser tido como o exemplo mesmo da “crise de valores” que é o tema que aqui nos reuniu. Temo que seja só a excepção, não a regra, mesmo se ele também já foi integrado, como dizia Kafka, ao ritual dos leopardos, dos valores antigos que continuam a assolar o tempo. A pior “crise de valores” é a que se não vê. Ou se vê e nos deixa indiferentes. Entre tantas virtudes o pensamento-acto de Nietzsche não permite a indiferença em nós, que temos de nos responsabilizar pelo sol de Deus ou consumir com a sua morte e viver a sua ausência. E este é o desafio que Nietzsche deixou entre nós, não restaurando valores que, por sua vez, eram para nós uma sombra de uma outra ilusão, provavelmente pior do que a de Deus, que era uma ilusão que fazia viver, ou que faz viver, mas deixando-nos unicamente em face de nós mesmos, como responsáveis pela nomeação daquilo que, de uma maneira vulgar, chamamos valores.

E essa é a crise. É que nós não temos critério para distinguir o que é verdadeiramente valor do que não é. E esta é a crise, que não é uma crise por acaso, não é uma crise da cultura nem da civilização, mas é uma crise do senso, daquilo que nós somos como seres que pensam, sofrem, morrem sem saber se morrem, pensam e sentem e isso tem um sentido, ou não; a nós cabe decidir, é um problema de aposta, uma outra espécie de aposta pascaliana, aposta que nos faz viver ou morrer, somos nós, não os pais dos valores, mas os criadores dos valores ou, por não os sermos capazes de os criar, as suas vítimas.

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