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António Lobo Antunes em Buenos Aires, 2004

Outubro 1, 2007

Convidado pela Editorial Sudamericana, Grupo Editorial Mondadori, para apresentar o seu livro Buenas Tardes a las cosas de aquí abajo, o escritor português António Lobo Antunes veio no mês de Maio e apresentou-se na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Foi declarado Hóspede de Honra pela Legislatura da Cidade Autónoma de Buenos Aires.

 

Nós que o lemos nas crónicas que escreve para o diário El País de Espanha, excelentemente traduzidas por Mario Merlino, e lemos seus livros, sabemos quão extraordinário escritor é António Lobo Antunes.

 

Falava em voz muito baixa, mostrava-se muito cansado, vinha acompanhado do seu editor espanhol, havendo passado pela Colômbia, onde apresentou o mesmo livro. O público escutava o escritor com respeitoso silêncio.

 

A viagem, o livro

 

Foi muito duro“, disse a respeito da sua estadia na Colômbia, referindo-se à pobreza, à violência, à agressividade das pessoas. Na Colômbia as classes altas olham de cima para o povo, disse o escritor. Situação que poderá ser extensiva a vários países da América Latina.

 

Encontrei cá na Argentina alguns dos melhores jornalistas que encontrei na minha vida“, disse. “Senti-me compreendido sem palavras“, afirmou. O escritor manifestou o seu cansaço em falar, de mostrar simpatia, de sorrir, de demonstrar interesse durante a promoção do seu livro que já vinha antes de Colômbia, em outros países da Europa. “Creio que que não tenho somente respostas mas também perguntas“, disse. “Não quero falar muito sobre o livro porque se pudesse falar dele, não o havia escrito“, afirmou Lobo Antunes. “Passei dois anos da minha vida escrevendo-o. É muito diferente do livro que queria escrever. Necessitava de um ponto de referência“. Partiu da ideia das seitas religiosas que se apropriam das pessoas sem cultura nem dinheiro. “A mão rejeitava essa solução. A mão voou até África, não tinha regressado a África depois da guerra”, disse. “Não há nada mais violento que a guerra. Uma violência e uma crueldade que ao mesmo tempo me fez dar conta de facetas escondidas em mim“, disse. “Há sentimentos contraditórios que nos habitam. Em todos os livros que as editoras publicam com o meu nome interessa-me que as páginas sejam como espelhos que nos devolvam essa visão dos sentimentos que nos habitam“.

 

A guerra

 

Eu queria ter um filho porque pensava que ia morrer. Tive uma filha, quando regressei a casa não a conhecia. Custou-me três ou quatro anos para ter uma relação normal, a minha primeira reacção foi dizer esta não é a minha filha. No país mais sensual que conheci, África, em vez de fazer amor o que se fazia era apanhar prisioneiros, ter mortos.

 

Quando era médico

 

Quando era médico interno tinha que fazer três meses de cirurgia, de obstetrícia, de outras especialidades. Mandaram-me para a enfermaria de crianças com cancro terminal. Havia um caso de um menino de quatro anos, eu tinha vinte e dois. O menino, José Francisco, morreu. Estava na porta da enfermaria e via o pé do menino, haviam-no envolvido num lençol e via-lhe o pé. Tenho a sensação que é por esse pé que escrevo. Por um menino morto, não sei porque razão e em nome de quê. Há que escrever pelos que não têm voz, pelos que não podem falar, pela mãe das minhas filhas que morreu de cancro faz quatro anos. Também escrevo com muita alegria, não tenho tempo para deprimir-me. Tenho momentos em que a minha cabeça está cheia de cães negros que se devoram uns aos outros.

 

O seu último romance: uma história de amor

 

Em Novembro de 2003 terminou o romance “Eu Hei-de Amar Uma Pedra”. De manhã escrevo no hospital, à noite no meu atelier, escrevo com a porta aberta, não gosto das portas fechadas.

 

Então contou o seguinte: “Vi passar uma senhora de negro e o médico que estava por ali contou-me a sua história: a mulher era uma camponesa de origem, e trabalhava como costureira. Quando jovem namorava com um rapaz que trabalhava no campo. Os seus pais mandaram-na a Lisboa para que tivesse uma vida melhor, para casa de uns parentes. O noivo também trabalhava muito. Viam-se quando se cruzavam na rua. Ela adoeceu de tuberculose, o rapaz escrevia-lhe mas os parentes não a deixavam responder-lhe. Ele pensou que ela teria morrido. Casou-se, estudou e teve filhos. A rapariga não morreu, voltou a trabalhar como costureira. Dez anos depois, um dia em que ela regressava depois de entregar umas roupas às clientes, encontrou-se com ele na rua. Durante cinquenta e três anos todas as quartas-feiras encontravam-se numa pensão. Ele estava casado. Não faziam amor, davam as mãos. Iam ver as acácias em flor. Ele ganhava muito dinheiro. Tinha alugado um quarto. Morreu quando estava com ela. O problema era como fazer sair o corpo da pensão sem que a esposa soubesse daquela relação. Ela chamou um dos genros dele para que o fizessem. Ela não pode ir ao funeral. Foi ela que contou assim esta história. Contei-a depois às minhas filhas e disseram-me: que mulher tão idiota. Para mim, a mulher da história tinha ficado com o melhor desse homem. Queria escrever essa história. Estive dois anos e escrevi um livro de amor. Hemingway dizia sempre que as histórias de amor têm um final triste. Tenho visto na minha família histórias de amor felizes, queria que essa história de amor me corresse no sangue. Não gosto de contar histórias mas contei-a para dizer que estou feliz por estar aqui“.

 

 

original escrito por Araceli Otamendi

encontrado no site Triplov

[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

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