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ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Outubro 1, 2007

recolhidas dos livros, entrevistas e declarações do escritor (ordem cronológica)

Lamento que pessoas com talento tenham de trabalhar noutra profissão e só possam escrever à noite e aos fins-de-semana.

fonte: Courrier Internacional, 01.2007

 

O que acontece, porém, é que toda essa história das definições de géneros cada vez me interessa menos. Quando se começa um livro, é isso que se quer fazer, um livro, um livro total que tenha tudo, poesia, prosa, tudo: a vida.

fonte: Courrier Internacional, 01.2007

 

É preciso viver, viver como homem comum entre homens comuns. Só um homem comum pode fazer grandes coisas.

fonte: Courrier Internacional, 01.2007

 

Como quando estamos em bicos de pés à procura de coisas em cima dos armários, os livros andam por aí à espera que alguém os escreva.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Só podes começar um livro quando tens a certeza que não vais ser capaz, porque só então escrever se torna uma luta com o material, e a tua vida se vai estreitando porque estás de tal modo habitado pelo livro, numa relação simbiótica, que formas corpo com ele.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Não podes escrever e fazeres outra coisa. Não se podem fazer bons  livros a ser-se jornalista, médico ou o que quer que seja.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Não vale a pena escreveres se não for para seres o melhor.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Tenho de os ler [aos livros que gosta] duas, três, quatro vezes; há sempre muitas coisas que perdemos na primeira leitura.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Só ficas adulto depois do teu pai morrer, porque deixou de existir a última coisa que existia entre ti e a morte.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Cada vez gosto mais de ser português e cada vez tenho mais orgulho no meu país. É-me insuportável ouvir dizer «somos um país pequeno e periférico». Para mim Portugal é central e muito grande.

fonte: Jornal de Letras, 25.10.2006

 

Queria que cada página fosse um espelho [para o leitor].

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

O que eu queria era pôr a vida toda entre as capas de um livro.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Num livro mau, a pessoa escreve aquilo que quer escrever. Num livro bom a pessoa escreve aquilo que o livro quer que seja escrito.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Como aquilo que aconteceu ao Camões: o que é que eu quero?, é dar trabalho para quinhentos anos aos críticos.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Eu não sei o que é que é light, sei que é light em relação a cigarros. Há literatura, e não há literatura. Pois a literatura não é isso, é uma coisa nobre, a literatura é o que faz o Dostoievski.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Eu duvido que um leitor de maus livros vá ler livros bons.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Eu pergunto-me se é possível entrevistar um escritor. Acho que não é porque ele é muita gente. E é muito difícil apanhar essa multidão toda.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Todos nós somos muitos.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

Em geral, as entrevistas são piores do que as pessoas.

fonte: entrevista na RTP 2, programa Por outro lado, 04.04.2006

 

É próprio do homem não viver livre em liberdade, mas viver livre numa prisão, e já é muito bom.

fonte: Póvoa Semanário, Fevereiro de 2006

 

É mentira que exista liberdade total de expressão, uma vez que os próprios jornais fazem censura, a censura interna, o que é natural pois eu não posso dizer mal do dono do meu jornal.

fonte: Póvoa Semanário, Fevereiro de 2006

 

Os bons escritores são pessoas que não mentem no seu trabalho.

fonte: Visão, 27.02.2006

 

O que me preocupa são os autores que dizem que «puseram os portugueses a ler». Isso é mentira. Puseram, isso sim, os portugueses a lerem-nos a eles – e isso não é ler.

fonte: Visão, 27.02.2006

 

Há mais artistas do que obras de arte.

fonte: Visão, 27.02.2006

 

Quando morre um pai, tem-se a sensação de que, na próxima vez que a morte aparecer à porta, seremos nós a abri-la.

fonte: Visão, 23.02.2006

 

O que eu tento fazer é pôr a vida toda em cada livro.

fonte: Visão, 23.02.2006

 

Só vale a pena começarmos um romance quando temos a certeza de que não somos capazes de o fazer.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

Pensar é ouvir com atenção. Para escrever é preciso escutar a voz que dirige a mão.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

Um bom livro é o que foi escrito só para mim.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

O grande artista traz uma forma diferente de colorir.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

Já reparou como os desenhos das crianças são fascinantes até aprenderem a perspectiva? Quando começam a desenhar a três dimensões, perde-se tudo.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

… são precisas muitas mulheres para esquecer uma mulher inteligente.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

Teria dificuldade em viver com uma mulher que escrevesse. Eu nunca seria o mais importante na vida dela, viria sempre depois dos livros.

fonte: Diário de Notícias, 17.02.2006

 

Um bom livro ajuda-te, ilumina-te, dá-te a beleza que não encontras em ti. Agora, por exemplo, já se começa a ler aos doentes enfermos. A arte pode ajudar a salvar-te a vida.

fonte: Agência Lusa, 10.11.2005

 

Ainda que o tradutor tenha génio, uma tradução é sempre uma foto a preto e branco de um quadro.

fonte: Agência Lusa, 10.11.2005

 

Um bom livro tem a sua própria chave e o seu manual de instruções.

fonte: Agência Lusa, 10.11.2005

 

Tens obrigação de escrever para os que não têm voz, para os que não conseguem falar, as mulheres casadas, por exemplo, que são as mais infelizes do mundo.

fonte: Agência Lusa, 10.11.2005

 

Os fins-de-semana são horríveis para os casamentos. Em Portugal resolveram o problema com um jornal enorme, que vem em saco plástico.

fonte: Agência Lusa, 10.11.2005

 

Eu adormeço a ler. E há aqueles momentos entre o dormir e o acordar em que começo a ler outras coisas que não estão lá, começo a fazer outro livro. Vinha notando isto e pensei escrever conseguindo um estado próximo deste, em que os meus mecanismos lógicos não funcionam e as palavras flúem através da mão. São as palavras que se geram umas às outras.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Aprende-se a escrever, lendo.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Isto às vezes é tremendo porque a gente que exprimir sentimentos em relação a pessoas e as palavras são gastas e poucas. E depois aquilo que a gente sente é tão mais forte que as palavras…

fonte: Público, 09.11.2004

 

A palavra carne é sempre a mesma, depende das palavras que se põem antes e das palavras que se põem depois. Para que as pessoas sintam o gosto na boca eu tenho que trabalhar como um cão, até encontrar as palavras exactas antes e depois.

fonte: Público, 09.11.2004

 

Qualquer entrevista é muito inferior a um livro. O livro permite corrigir-se. A entrevista necessariamente está cheia de lugares comuns.

fonte: Público, 09.11.2004

 

Uma coisa é o amor, outra é a relação. Não sei se, quando duas pessoas estão na cama, não estarão, de facto, quatro: as duas que estão mais as duas que um e outro imaginam.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Temos de aceitar que há livros muito bons de que não gostamos e livros de que gostamos que podem não ser bons.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Saber ler é tão difícil como saber escrever.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Não fomos feitos para a morte, a não ser para a morte voluntária. A involuntária sempre me pareceu uma tremenda injustiça, para não falar em crueldade.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

Viver é muito perigoso, mas é um privilégio estar vivo, sobretudo para quem tem, como eu, um único objectivo: escrever. E isso salva-me de muita coisa.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

É mais sensual uma mulher vestida do que uma mulher despida. A sensualidade é o intervalo entre a luva e o começo da manga.

fonte: Diário de Notícias, 09.11.2004

 

O livro é escrito por duas pessoas: por mim e pelo leitor.

fonte: Diário de Notícias,  18.11.2003

 

A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.

fonte: Diário de Notícias, 18.11.2003

 

Só há grupos onde existem fraquezas individuais.

fonte: Diário de Notícias, 18.11.2003

 

Quando lemos um bom escritor é para nos conhecermos a nós mesmos.

fonte: Público, 15.11.2003

 

O próprio do homem é viver livre numa prisão. Estamos sempre condicionados e até prisioneiros de nós próprios.

fonte: Diário de Notícias, Novembro 2004

 

Sinto uma consideração quase nula pelo que, em Portugal, se publica. Desgosta-me a infinidade de romances desonestos, entendendo por desonestidade não a falta de valor intrínseco óbvio (isso existe em toda a parte) mas a rede de lucro rápido através da banalização da vida. Livros reles de autores reles.

fonte: Visão,  07.08.2003

 

Às vezes é difícil dizer que uma pessoa tem um coração em cada objecto.

fonte: Diário de Notícias, Novembro 2003

 

Seria incapaz de dizer mal de um livro. Mesmo que o livro fosse desonesto, mesmo que o livro fosse mau, não falaria sobre ele. Portanto, se fosse crítico literário era uma maçada porque quase não tinha sobre que escrever.

fonte: Diário de Notícias, Novembro 2003

 

As pessoas compram aquelas coisas [livros] que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo.

fonte: Diário de Notícias, Novembro 2003

 

Ler é um acto de prazer.

fonte: Diário de Notícias, 2003

 

Ninguém é bom ou mau na cama. Se há um problema sexual, é outra coisa, mas senão há problemas concretos, basta que se goste muito de uma mulher; se isso acontece, ela é a melhor na cama..

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Há momentos e situações em que o olhar comunica mais que as palavras, isso também é intimidade. Creio que sou capaz de dizer muitas cosas sem falar, é o outro que também tem de compreender e de saber interpretar. Quando se estabelece essa relação de intimidade e de amizade, não é necessário falar. […] frequentemente é melhor não o fazer porque as palavras estão muito gastas.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

A amizade é regida pelo mesmo mecanismo que o amor, é instantânea e absoluta.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

No amor podemos substituir uma pessoa por outra, mas não na amizade, porque cada amigo tem o seu lugar e não podemos substitui-lo.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Penso que as mulheres são mais ciumentas do trabalho que das outras mulheres. Mas eu entendo isso. Eu não gostaria de viver com uma mulher que escrevesse porque, se fosse como eu, estaria tão concentrada no trabalho que não existiria mais nada.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Não me importaria de ser condenado a prisão perpétua se tivesse livros e papel para escrever.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Escrever é como uma droga. Começa-se por puro prazer e acaba-se por organizar a vida como os drogados, em torno do vício. […] até quando sofro vivo isso como um desdobramento: o homem está a sofrer e o escritor está a pensar como aproveitar esse sofrimento para o seu trabalho.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Não descrevo os personagens, apenas algum detalhe, o cabelo, as mãos, algo assim, porque a descrição limita-me. O leitor tem de imaginar os personagens.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Nunca conseguirei o romance que quero fazer porque, primeiro, se o fizer, para quê continuar a escrever?; depois, porque é uma luta constante com as palavras, com a resistência das emoções, mas esse é precisamente o encanto do meu trabalho.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Escrever protege do sofrimento. Quando estou a sofrer e escrevo, não sou só esse homem que sofre, sou também o escritor que está a pensar como aproveitar esse sofrimento para o trabalho.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Creio que os escritores em geral não trabalham muito os seus livros, não os corrigem. E é uma pena porque, por vezes, trata-se de uma única palavra, mas uma palavra que pode ser fundamental.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Com cada novo livro afloram todas as fragilidades e problemas do escritor.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

O autor não deve ser protagonista do seu livro porque o leitor não tem de notar que o escritor está ali, este tem de se tornar invisível.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Porque se escreve? Pergunta a uma macieira  porque dá maçãs.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Não se pode escrever para ter êxito. Se é isso que se procura, o melhor é começar a cantar.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Quando escrevo, é claro que sofro, mas também tenho muito prazer a escrever e gostaria que os meus leitores também sentissem esse prazer.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Tenho uma enorme inveja dos poetas. […] Ninguém escreve romances como eu, mas sou um poeta falhado. […] Talvez os bons romancistas sejam poetas falhados. Não sei.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

O melhor verso é o inesperado, inclusivamente para o poeta.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Não existem livros maus, para mim, um livro merece sempre respeito. Há tanta esperança, por vezes sofrimento e até a saúde do autor… Eu agradeço os livros que me mandam, antes de os ler, para não ter de mentir, porque as pessoas não têm sentido autocrítico. Se lhes digo: «Eu não gostei do seu livro…», confundem-se a eles com o produto e consideram-no como algo pessoal. Se fosse crítico, criticaria só os livros de que gostasse, porque se pode fazer muito mal, as pessoas ficam muito mal quando recebem uma crítica adversa; é muito doloroso.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Hoje, os escritores jovens querem ser lidos na segunda-feira, ser publicados na terça, ter um êxito extraordinário na quarta e na quinta ser traduzidos em todo o mundo.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Viver é como escrever sem corrigir.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Viver diverte-me muito. Nunca me aborreço quando estou sozinho.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Não gosto de ir a determinados ambientes, porque também me dou conta de que há um terror reverencial que impede a proximidade. Estão sempre à espera que diga coisas inteligentes e, por sua vez, protegem-se não falando.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Penso que as mulheres são mais ciumentas do trabalho que das outras mulheres. Mas eu entendo isso. Eu não gostaria de viver com uma mulher que escrevesse porque, se fosse como eu, estaria tão concentrada no trabalho que não existiria mais nada.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

O Partido Comunista é uma Igreja, com a sua fé, as suas tradições e a sua hierarquia. Não mudou.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

Vivemos numa época em que a ideologia é uma ideologia de produção e [os comunistas] não compreenderam que o poder não está nas mãos de nenhuma ideologia, mas das multinacionais: quem produz está bem; quem não produz, é expulso.

fonte: Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, 2002

 

A única forma de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença.

fonte: Segundo Livro de Crónicas, 2002

 

Mesmo as pessoas que escrevem para os jornais, que no dia a seguir servem para embrulhar o peixe frito, devem medir as palavras por respeito à língua e a nós mesmos.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

A forma como lidamos com o fim é muito judaico-cristã, muito ligada à ideia do cadáver e do horrível ritual da morte. Tentei sempre, em relação aos meus mortos, guardar a imagem da pessoa viva, nunca os quis ver depois de terem morrido.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

A morte das pessoas de quem gostamos amputa-nos.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

Nós morremos quando desaparecem as últimas pessoas que ouviram falar de nós.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

A vida faz-me sentido enquanto trabalho.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

A loucura é exceder os limites impostos pelos médicos, limites que variam muito de caso para caso.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

Durante anos, mesmo em relação a jornalistas, tentaram à força colar-me a imagem que imaginavam que eu fosse, ainda agora. […] Sou arrogante, mal-educado, rebelde, geralmente sou sempre o António Lobo Antunes somado a qualquer coisa desagradável. Não corresponde a nada do que sou, a nada.

fonte: Diário de Notícias, 08.12.2001

 

Esquecer uma mulher inteligente custa um número incalculável de mulheres estúpidas.

fonte: Livro de Crónicas, 1998

 

O desgosto é a melhor forma de assassínio por nunca se encontrar a arma do crime.

fonte: Livro de Crónicas, 1998

 

Não sou um senhor de idade que conservou o coração menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.

fonte: Livro de Crónicas, 1998

 

Um parvo em pé vai mais longe que um intelectual sentado.

fonte: Livro de Crónicas, 1998

 

A gente não pode compreender os sentimentos sem o contrário deles.

fonte: Expresso, 07.11.1998

 

Muitas vezes, põem-se meninos e meninas de vinte anos a escrever críticas. E há outros que também escrevem romances. É muito raro aparecerem bons romances antes dos trinta anos, muito raro. Um tipo só pode fazer uma coisa de jeito depois de ter passado pelas coisas. Se não viveu, os livros até podem estar «tecnologicamente» correctos, mas não há ali mais nada. A experiência de vida cada vez mais me parece fundamental.

fonte: Ler, 1997

 

Faz-me imensa confusão a polémica crítica versus escritores. Para mim, o problema é muito simples: a maior parte dos escritores não sabem escrever e a maioria dos críticos não sabe ler. E também há muita ignorância e má-fé de parte a parte. A sensação que tenho é que ando há que tempos a ensinar os meus críticos a ler e eles não há meio de aprenderem.

fonte: Visão, 26.09.1996

 

O que me interessa são pessoas que tenham uma espessura de vida. Interessa-me pouco o romance filosofante, esses livros imóveis onde as personagens são todas cérebro e não têm vida, nem sangue, nem esperma.

fonte: Diário de Notícias, 27.04.1994

 

Não consigo conceber uma história onde as personagens não tenham carne. E se eu partir de uma carne já real para mim, torna-se muito mais fácil.

fonte: Expresso, 07.11.1992

 

O que é escrever? No fundo é estruturar o delírio, e tem graça porque quando se trata o delírio o que aparece sempre é uma depressão subjacente.

fonte: Expresso, 07.11.1992

 

Numa coisa estou de acordo com o [Jorge Luis] Borges, a função do crítico não é dizer “isto é bestial”, mas ajudar a pessoa a ler a porcaria do livro.

fonte: Expresso, 07.11.1992

 

Um amigo meu, o Daniel Sampaio, talvez o melhor psiquiatra português, costuma dizer que só os psicóticos são criadores. Você fala com um neurótico e são tipos que não são nada, que são chatos, repetitivos. Os psicóticos são espantosos, dizem frases espantosas, estou-me a lembrar de uma que era «aquele homem tem uma voz de sabonete embrulhado em papel furtacores». Isto é uma frase do caraças.

fonte: Expresso, 07.11.1992

 

Quando se pergunta porque é que determinado quadro de Picasso está a verde, às vezes é por que o encarnado se tinha acabado. Não vale a pena ir mais longe.

fonte: Expresso, 07.11.1992

 

No fundo o que é um maluco? É qualquer coisa de diferente, um marginal, uma pessoa que não produz imediatamente. Há muitas formas de a sociedade lidar com estes marginais. Ou é engoli-los, transformá-los em artistas, em profetas, em arautos de uma nova civilização, ou então vomitá-los em hospitais psiquiátricos.

fonte: Público, 18.10.1992

 

Todos nós, homens e mulheres, não somos, de facto, tão diferentes, senão aquilo que escrevemos ou pintamos não teria nenhum impacto nos outros. Afinal, o que nos faz aderir a um livro é pensar «É mesmo isto que eu sinto e não era capaz de exprimir», não é?

fonte: O Jornal, 30.10.1992

 

Quando escrevo, penso apenas em exorcizar certas emoções, descrevê-las, vivê-las. O leitor é um acto secundário, penso nele nos últimos acabamentos do livro, quando sinto que isto ou aquilo não está inteligível

fonte: O Jornal, 30.10.1992

 

No fundo, um escritor é um bocado um ladrão, um gatuno de sentimentos, de emoções, de rostos, de citações. Um livro é sempre feito de pequenos roubos com a vantagem de não sermos condenados.

fonte: O Jornal, 30.10.1992

 

Eu penso que aquilo que faz com que nós continuemos vivos e capazes de criar é isso mesmo, uma inquietação constante. Sem ela não pode haver criação, quem não põe sempre tudo em causa, arrisca-se a ter uma vida interior de três assoalhadas, num bairro económico.

fonte: O Jornal, 30.10.1992

 

Todos nós, homens e mulheres, não somos, de facto, tão diferentes, senão aquilo que escrevemos ou pintamos não teria nenhum impacto nos outros. Afinal, o que nos faz aderir a um livro é pensar «É mesmo isto que eu sinto e não era capaz de exprimir», não é?

fonte: O Jornal, 30.10.1992

 

Custa-me conceber um poeta que nunca tenha feito amor. E às vezes quando leio certos prosadores portugueses, não têm esperma nenhum lá dentro, são tudo coisas que se passam dentro da cabeça. Pensam muito. E a literatura faz-se com palavras.

fonte: Público, 18.10.1992

 

Eu gosto desta terra. Nós somos feios, pequenos, estúpidos, mas eu gosto disto.

fonte: Ler, 1997

 

Eu penso que em literatura não há palavrões.

fonte: Jornal de Letras, 05.04.1988

 

Um escritor é, por natureza, um carenciado de afecto.

fonte: Jornal de Letras, Novembro 1985

 

Mas houve livros chatos como o da Agustina Bessa Luís e o do Virgílio Ferreira que os académicos e os universitários devem achar muito bons, eu, como não sou nem académico nem universitário acho-os terrivelmente chatos.

fonte: Jornal de Letras, 1984

 

Se um escritor não agarra o leitor pelas tripas logo nas primeiras páginas, está feito ao bife. Céline é um desses, agarra-nos logo.

fonte: Jornal de Letras, Novembro 1983

 

[escrever] Dá um trabalho do caraças! Despentear a prosa de maneira que aquilo seja feito como uma diarreia.

fonte: Jornal de Letras, 1983

 

(…) penso no absurdo de escrever. De estar a escrever quando podia estar com os amigos, ir ao cinema, ir dançar que é uma coisa de que gosto… mas não, um tipo está ali e é um bocado esquizofrénico. (…) Há sempre uma parte subterrânea nas obras de arte impossível de explicar. Como no amor. Esse mistério é, talvez seja, a própria essência do acto criador. (…) Quando criamos é como se provocássemos uma espécie de loucura, quando nos fechamos sozinhos para escrever é como se nos tornássemos doentes. A nossa superfície de contacto com a realidade diminui, ali estamos encarcerados numa espécie de ovo… só que tem de haver uma parte racional em nós que ordene a desordem provocada. A escrita é um delírio organizado.

fonte: Jornal de Letras, Janeiro 1982

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