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Encontro com António Lobo Antunes

Outubro 1, 2007

Na noite em que conheci António Lobo Antunes – disse Armas Marcelo na apresentação – estava exactamente tal como o vêem agora. Estávamos jantando vários numa mesa e ele permanecia absorto, concentrado em si mesmo, como se estivesse noutro lugar. Porém, estava inteirando-se de tudo, como agora…

 

O escritor português António Lobo Antunes com o escritor canário

Juancho Armas Marcelo, durante o encontro. Foto de EFE (El Mundo).

 

Desculpem-me se não me ouvem bem, falo muito baixo.

 

Lembro-me com livros desde que nasci. O meu pai estava sempre a ler. E eu me perguntava que conteriam aqueles livros, que não tinham desenhos, nem fotografias, mas tão só palavras. Aos três anos tive tuberculose, e exilaram-me em casa do meu avô paterno. O meu avô era capitão de cavalaria e achava que isso de ler eram mariquices, coisas de mulheres.. Isso fez com que me sentisse dividido, pois via o meu pai concentrado nas suas leituras e ficava com dúvidas se ela seria maricas. As minhas tias, ali em casa do meu avô, tinham a colecção toda de Corín Tellado. Assim foram essas as minhas primeiras leituras. E Flash Gordon e Mandrake. Não posso dizer como muitos escritores que posam afirmando que as suas primeiras leituras foram Homero, Ovídio, etc.

 

Tempos depois mandaram-me para o outro avô, no Norte. O comboio trazia o jornal ao meio-dia. O meu avô só lia a necrologia. Lia um nome. E exclamava: “morreu aos cinquenta anos, que idiota!”. Depois outro nome, e: “morreu aos quarenta e dois anos, que estúpido!”. Era o seu triunfo quotidiano sobre a morte, o seu modo de exprimir que ia seguindo vivo. Vi a morte então de outro modo: a morte era quando os olhos se tornavam pálpebras. Nada mais que isso. A avó, por seu lado, dava-me a Vida dos Santos para ler, mas não gostava muito.

 

Aos oito ou nove anos, lembro-me, estávamos de férias na praia. Meu pai só ia aos fins-de-semana para nos atormentar. Impunha-nos ler durante a semana o capítulo de um livro e escrever uma “apreciação”. Então passei o verão escrevendo “apreciações”. Embora deveria seguir aquele dito: “eu jamais leio os livros que critico para não me ver influenciado por eles”. Recordo o meu pai nesses fins-de-semana lendo sem parar Flaubert e outros escritores franceses. Meus pais eram um casamento feliz: o meu pai mandava e a minha mãe obedecia. Como todos os homens e mulheres dessa época.

 

Com nove ou dez anos comecei a escrever. Poesia. Muito má. Um dia quis saber o que achava a minha mãe das minhas poesias. Comprei um papel especial e escrevi com uma caligrafia muito cuidada. Minha mãe disse-me para me dedicar a outra coisa, que não pensasse em escrever porque não tinha talento algum para a escrita. Mas esse comentário estimulou-me: comecei a escrever contra a minha mãe.

 

Depois, quando se chega aos quinze anos descobre-se a diferença entre a boa escrita e a má. Aí começa a angústia. E depois, a diferença entre a boa escrita e a obra de arte. E finalmente, entre a obra de arte e a obra-prima. E a angústia já não nos abandona, nunca.

 

O meu tio vinha de vez em quando do Brasil – porque o meu pai era filho de um brasileiro casado com uma alemã – e trazia-nos um montão de livros. Então a minha mãe pegava num lápis vermelho e outro azul, e com o vermelho ia marcando aqueles livros que não podíamos ler e com o azul os livros permitidos. As cruzes vermelhas eram destinadas a livros em que apareciam mulheres nuas e coisas assim. Se fosse por minha mãe, a raça extinguia-se connosco, porque censurava tudo que fosse relacionado com a reprodução.

 

Meu pai era neurologista, um grande admirador de Ramón e Cajal. Trabalhava na Alemanha e vinha apenas uma semana por ano para nos ver. E quando se ia embora, o ventre de minha mãe começava a crescer. Eu perguntava-me: Que haverá na Alemanha que faz crescer o ventre da minha mãe?

 

Um irmão da minha mãe trabalhava numa revista literária, e ofereceu-me uma subscrição. Aí li um poema em que reparei que as palavras, a sintaxe, a gramática podia ser retorcida, forçada. Não há que respeitar as palavras, mas tratá-las como um corpo, como um corpo de mulher, há que apalpá-las, cheirá-las, apertá-las…

 

Frequentava um restaurante de escritores. Escritores que tinham já livros nas livrarias. E eu observava-os: um cuspia ao comer, outro tinha coisas brancas no cabelo, outro remexia continuamente um palito na boca. Eu pensava que os escritores eram espíritos puros. Um dia conheci um deles, um poeta amigo do meu pai, muito gordo, vestido completamente de linho branco e comendo um gelado em frente de uma loja de lingerie. Eu olhava aquele homem chupando sem parar aquele gelado enquanto contemplava os soutiens. Embora depois ele nunca tivesse escrito sobre soutiens. De tanto ver aqueles escritores pensei: “Tenho de ser feio, senão não posso ser escritor”.

 

Aos quinze anos, os dirigentes do Benfica vieram a casa para falar com o meu pai. Queriam inscrever-me, e assim fui jogar no Benfica. Ia aos treinos com um livro, por exemplo, Quevedo, que é um dos meus escritores preferidos. E os outros jogadores estranhavam por eu levar livros para os treinos. Com dezasseis anos, chamaram-me à selecção nacional para jogar a Taça da Europa. O treinador tinha dúvidas em colocar-me: não pelo meu jogo, mas porque lia. Gostava de ler de tudo. Hoje continuo gostando de ver os escritores autografando livros nas férias. Escrever é tão difícil…

 

Chega um dia em que se encontra os escritores favoritos. Quando encontrei os meus, era como ir caminhando entre a névoa: não os entendia. Lemos sempre segundo o nosso critério,  a nossa experiência, as nossas emoções. Mas cada livro há que ser lido não com as nossas chaves mas com olhos virgens, desprevenido, de modo que se estabeleça uma relação pessoal com ele: “Emily Dickson escreveu para mim, não tenho a menor dúvida”. E esses livros não se podem emprestar.

 

Durante o curso de medicina, ia escrevendo, mas tudo me parecia mau. Não participei em movimentos estudantis, nem em revoltas contra Salazar: escrevia, lia e jogava ao xadrez. Ao acabar o curso, comecei a trabalhar num hospital inglês fora de Lisboa e ao regressar a casa pelo Natal, tinha uma notificação do exército para ir à guerra. Pensei em fugir, mas os cidadãos não tinham passaporte. Tudo era controlado pela polícia política. Pagando muito, talvez se pudesse escapar, assim só gente de muito dinheiro conseguiu fugir. Anos antes, o meu avô tinha prometido que se aquele menino de três anos não morresse de tuberculose me levaria a fazer a comunhão a Pádua, ao túmulo de Santo António. Devido à impossibilidade de viajar ao estrangeiro, não me pôde levar, mas ofereceu-me as fábulas de Lafontaine, que não li então, mas depois. Daquelas fábulas impressionou-me que um cão pudesse olhar para um bispo. Esse era um conceito democrático, porque até então só o bispo é que podia olhar para o cão.

 

Mandaram-nos para Angola. Éramos um grupo de seiscentos e morreram cento e cinquenta. Todos putos: nós os oficiais tínhamos vinte e três anos e os soldados tinham vinte. O capitão tinha trinta e quatro e parecia-me um velho, estava acabado. Este capitão obrigava os oficiais a usar gravata para sentar a jantar. Eu odiava isso. Estávamos todo o dia em uniforme de campanha, sujos e salpicados de sangue. Vendo os nossos companheiros morrer ou cair feridos. Tudo era sangue, sangue. Depois entendi que esse gesto de colocarmos a gravata era para preservar a humanidade, para continuar a manter contacto com a humanidade. Também líamos poesia uns aos outros durante o jantar. Creio que isso nos salvou da loucura. Lembro-me de um soldado, que se pôs de pé durante a noite, pegou na sua arma e caminhando entrou sozinho na mata. Queria morrer. Por esse caminho chegava-se ao inimigo. Entendi porque é que os nazis ou a polícia política de Salazar queimavam os livros. Em Angola, durante a guerra, vi que os livros tinham uma utilidade prática.

 

Cada vez gosto de menos escritores, porque agora quando leio não sou inocente. Começo a ler e começo a corrigir. É tão difícil escrever. E mais difícil corrigir. Uma primeira versão é sempre má, mas já está tudo nela. Há que trabalhar e trabalhar sobre ela. Há três coisas necessárias para ser escritor: paciência, orgulho e solidão. Sobre a solidão lembro-me sempre as palavras de Sánchez Ferlosio: “Carmen é uma viúva que tem o defunto em casa”.

 

Eu escrevia romances e atirava-os ao lixo. Escrevia para ser o melhor. E sabia que não o era. Portanto, se não lograva, seria melhor atirá-los ao lixo.

 

Conheci um advogado com uma biblioteca imensa. Era um homem muito atraente, notei pelos olhares das mulheres. Um dia perguntei-lhe: “Miguel, continuas a comprar livros?” “Não, creio que se reproduzem entre si.”

 

Cada vez mais vou diminuindo os meus autores preferidos: Conrad, Tolstoi quase sempre, Tchékov sempre, Quevedo. Gostei de Nabokov. De certo modo todos somos filhos de Nabokov, mas já não gosto.

 

Vive-se sabendo que nunca se fará o livro perfeito que se quer fazer.

 

Com a revolução de 1974 as pessoas esperavam que saíssem as obras primas que tinham permanecido no fundo das gavetas do escritores durante a ditadura. Mas não saiu nada. Os escritores continuavam a ter medo. Sartre, por exemplo, foi muito cobarde na invasão nazi, e foi a Lisboa para ensinar a revolução. E então um dia comecei a escrever Memória de Elefante. Nele narro o país que encontro ao regressar da guerra em Angola. Muitas coisas tinham mudado, e no fundo tudo continuava igual. Leu-o um amigo que depois passou a outro. Um dizia-me: “é melhor que tires a primeira parte”, e o outro: “é melhor que tires a segunda parte”… Esse livro passou um ano sendo rejeitado pelas editoras. Finalmente saiu em 1979, em Julho, quando as pessoas iam de férias. O editor disse-me que Antunes era feio, e que seria melhor que o meu nome se ficasse por António Lobo. Mas disse-lhe: “Meu pai chama-se Lobo Antunes, que quer que faça?”. Suponho que o editor procurava um truque porque não se vendia nada. Fui de férias em Agosto, as minhas filhas mais velhas eram ainda pequenas, e quando regressei tinham-se vendido cento e cinquenta mil exemplares do livro, e era famoso. O livro tinha uma foto na contracapa e as raparigas diziam: “certamente o livro é uma merda, mas vende-se porque ele é tão bonito”. Seria graças aos meus olhos azuis.

 

Depois, comecei a escrever mais devagar: três ou quatro linhas por dia. Meia página se tanto. À noite, quase a dormir, lia coisas que não estavam no livro. E dei-me conta de que esse estado mental próximo dos sonhos tornava-me criativo. E chego a esse estado mental quando me sinto fatigado.

 

(Nesse momento cai o cartaz atrás de si que promove a Noite dos Livros e fica quedo. Depois acrescenta: “É porque me chamo Antunes”)

 

Do que se publica agora, poucas coisas me chamam a atenção. Há dois anos li um livro intitulado “Alondra” que me maravilhou. É um casal velho que tem uma filha muito feia e que parte durante uma semana para visitar os tios. O casal fica só e em duzentas páginas o escritor descreve tudo, todos os sentimentos de angústia, de ternura, de rancor. Tudo está ali. Este romance é de 1924 ou 25 e ainda conserva a frescura. Tudo está descrito com uma mão maravilhosa. A capacidade de surpresa vai diminuindo porque já se leu muito. No século XIX havia trinta génios escrevendo ao mesmo tempo. Só em Inglaterra Dickens, Lewis Carrol, Keats, Dickinson, etc e assim nos outros países da Europa, mas agora não há mais que quatro ou cinco em todo o mundo. Outro dia estava com o meu sobrinho de seis anos. Eu trabalhava e ele jogava com o seu Gameboy. Essa criança foi privada da sua capacidade de imaginar, de sonhar, de desenvolver um pensamento. Só lhe importava matar e matar os inimigos naquela coisa. O mesmo se passa com a televisão. Em Portugal não temos “Aquí hay tomate”, que me encanta. Que se passa com o filho da Pantoja? É tudo tão estúpido que é maravilhoso. Dentro de vinte anos temo que não vão aparecer bons escritores. Mas isso tão pouco importa: de cada vez que se lê Guerra e Paz, Tolstoi escreve-o de novo, porque descobre-se sempre coisas novas. Disse Keats: “A boa arte é uma alegria para sempre”, e tem razão. Um livro tem que ser uma festa. O meu pai morreu fará em Junho dois anos, e lembro o que o padre disse: “Não fomos feitos para a morte mas sim para a vida”. Odeio isto, mas tinha razão. Borges disse que Quevedo não é um escritor, é a literatura inteira. Ontem estive folheando-o no hotel. Um livro é mais possessivo que uma mulher ciumenta.

 

Espero que não se tenham aborrecido por ter falado tanto tempo…

 

original escrito por Oscar Marcos Mallo

em Dosdoce, Abril de 2006

One Comment leave one →
  1. Novembro 25, 2007 5:43 pm

    Viva!

    Seria de bom tom referir de onde tirou este texto, tanto que o original é em castelhano e não em português. Mesmo que faça referência (e referência copiada tal como copiou todo o texto) à fonte do texto original, deve citar a fonte onde copiou o texto traduzido: tradução de José Alexandre Ramos, site não oficila sobre António Lobo Antunes – http://www.ala.nletras.com

    !!!

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