Skip to content

Globalização a pedir reformas

Outubro 1, 2007

Globalização a pedir reformas

Globalização. A palavra entrou definitivamente no nosso vocabulário. O tema está no topo da nossa agenda política e social. Está tão presente em tudo, que se torna difícil defini-la em poucas palavras. Mas todos sabemos do que se trata, pelas consequências que está a ter no nosso dia-a-dia quando ligamos a televisão, usamos o computador, vamos às compras ao supermercado ou descarregamos música para ouvir nos aparelhos mp3, vemos o desemprego e a inflação a subirem.

A realização, no Quénia – em Nairobi, de 20 a 25 de Janeiro –, do Fórum Social Mundial veio colocar de novo a reflexão sobre a globalização no centro das atenções. Na capital africana, os críticos da globalização prometeram discutir de novo as grandes questões que levanta, como a economia sustentável, a criação de estruturas políticas mais participativas, a democratização da ciência e da informação, o direito à diversidade e a luta contra a discriminação que afecta os países pobres.

Sem esquecer, naturalmente, os países africanos. Que estiveram particularmente em foco devido ao debate de temas incontornáveis como a epidemia da sida, a resistência a novos colonialismos, a emigração africana. A atenção à natureza caracterizou também esta edição do FSM, com a denúncia do impacto negativo que a globalização está a ter na ecologia e nos recursos naturais.

Regras do mercado

Em Portugal, os efeitos da globalização voltaram recentemente à ribalta devido ao desemprego provocado pela onda de deslocalização de empresas de montagem de automóveis. Não há muito, tinha estado em causa o fecho em cadeia de empresas têxteis devido à abertura do mercado nacional aos produtos asiáticos, chineses em particular.

Na globalização da economia, as empresas vão parar onde os salários são mais baixos e a produtividade é maior, e os produtos inundam os mercados independentemente da sua origem. No Natal passado, o Pai Natal veio nos navios contentores, da China, com todo o tipo de produtos de consumo destinados aos mercados europeus. Continuamos assim a sentir entre nós os efeitos da globalização económica. Mas o que para uns é negativo, como o desemprego, poderá ser positivo para outros – emprego, remuneração atractiva, ou produtos a baixo preço –, ao menos por algum tempo.

É na economia onde mais se fazem sentir os efeitos «negativos» da globalização, o que leva muitos a identificar o fenómeno da globalização com o capitalismo global, numa redução simplista. Mesmo se os efeitos negativos na economia são aqueles que aparentemente mais directamente afectam a vida dos povos e das nações, não se deve cair no erro de identificar a globalização com o funcionamento da economia de mercado que a globalização permite e fomenta.

Economia não chega

O capitalismo global, como bem reconhece o economista Amartya Sem, Prémio Nobel da Economia em 1998, procura expandir uma economia de mercado e não se preocupa nada em promover a democracia política e social, o acesso ao ensino e à saúde, a proliferação de oportunidades para os mais pobres. Por isso, e apesar de a globalização ter muito a oferecer aos países pobres, os que protestam contra ela têm razão nas preocupações que avançam. A economia de mercado não chega nem se pode deixar cavalgar livremente. Há que encontrar mecanismos que a tornem mais inclusiva. É necessário encontrar condições para distribuir melhor a riqueza criada e desenvolver mais os recursos humanos disponíveis em cada país.

A simples globalização do mercado, por si só, é insuficiente para garantir o autêntico desenvolvimento humano, das comunidades e das nações. É fundamental, por isso, fomentar uma sensibilidade atenta a estes problemas éticos e morais, e dar corpo a instituições que favoreçam uma distribuição mais justa dos benefícios trazidos pela globalização da economia. Os críticos da globalização, que passaram das palavras aos actos com iniciativas no campo da «finança ética» e do «comércio justo e solidário», estão a mostrar que é possível encontrar respostas concretas para aproveitar positivamente a globalização e corrigir as injustiças da economia de mercado. Na Europa, as iniciativas do «comércio justo» têm vindo a crescer significativamente: existem já mais de três mil lojas e uma centena de importadores que beneficiam mais de cinco centenas de organizações de produtores em 58 países em vias de desenvolvimento.

Marca ocidental

Na sociedade global, a revolução nos meios de comunicação criou um contexto aberto que facilita a circulação dos bens, da técnica e da ciência, do capital e das pessoas, que trouxe à humanidade em vários locais do globo níveis de desenvolvimento e bem-estar nunca dantes conseguidos, como se está a verificar, por exemplo, em algumas regiões da China, na Índia e no Vietname. Historicamente, a humanidade conheceu outros momentos de intercâmbio que favoreceram o desenvolvimento através das viagens, das migrações, das trocas comerciais, das influências culturais. Mas nunca com a intensidade e a extensão com que, hoje, a sociedade global aproxima as nações e os povos, promove a tecnologia e o desenvolvimento.

Outra nota característica: de momento, este processo está a ser liderado pelo mundo ocidental, a Europa e a América do Norte. Neste sentido, vivemos numa época caracterizada por uma globalização de marca ocidental, o que leva a que algumas instâncias e críticos vejam a globalização como um processo de colonização e domínio ocidental – ou seja, um regresso, por via do domínio económico, aos colonialismos e imperialismos de outrora.

Mas a verdade é que a globalização como tal não é apanágio da nossa época: verificou-se noutros períodos da História, como no Renascimento. Nem é ocidental por natureza: no final do primeiro milénio houve um intercâmbio cultural, uma globalização da ciência, da tecnologia e da matemática, que se ficou a dever aos países árabes. Nem é necessariamente uma maldição: pode trazer benefícios a todos os países que nela intervêm.

Por isso, pode-se concluir que a globalização é um património inerente a todos os povos e culturas que promovem um intercâmbio. Porém, se não faz sentido recusar a globalização da economia e da técnica porque trazem a marca ocidental, também não faz sentido promover uma globalização que ignora as riquezas culturais dos povos do Oriente e da África, que tanto poderão contribuir para uma civilização global que seja realmente património de todos.

Males a superar

Os críticos da globalização insistem que, na prática, o que se está a globalizar é o «capitalismo irresponsável», que beneficia os ricos à custa dos pobres e que abre o mundo ao apetite devastador da tecnologia materialista que explora sem critérios os recursos da natureza. As consequências das fugas de capital de um país para o outro e das crises financeiras são por todos conhecidas. Lembramos as que afectaram alguns países da Ásia, o México e a Argentina, deixando atrás de si ciclos fatais de desvalorização das moedas, de inflação galopante, que se traduziram para as pessoas comuns em desemprego, perda do poder de compra, queda de qualidade de vida. A excessiva exploração dos recursos naturais, os danos causados à natureza e os desastres ecológicos estão à vista, a pedir correcções de percurso e instrumentos de controlo.

As nações, os organismos internacionais e as companhias multinacionais, que lideram o processo da globalização económica e técnica, impõem preços e regras de comércio, que os beneficiam em primeiro lugar e não têm em conta regras elementares de justiça e equidade na distribuição dos benefícios nem um desenvolvimento global justo e benéfico para todos. Países e companhias multinacionais desfazem-se de produtos de qualidade duvidosa e descarregam-nos em países com pouco poder de compra, num sistema de comércio desleal que só serve os seus interesses e adia o desenvolvimento sustentável dos países pobres. Esta situação está a condicionar negativamente, por exemplo, o desenvolvimento do continente africano, que tem sido mantido à margem dos benefícios da globalização.

Pessoas e armas

A este rosário de malefícios da globalização, há que acrescentar o mais fatal de todos: o comércio de pessoas e de armas. A globalização multiplicou os efeitos nefastos destas actividades. O fenómeno do comércio e escravidão de pessoas está a adquirir proporções alarmantes na Europa, com máfias a aproveitarem a pressão da imigração que busca no continente uma saída para a falta de oportunidades nos países da América do Sul, da África e da Ásia. Um fenómeno que escraviza milhares de pessoas na indústria do sexo e na economia paralela. As denúncias, felizmente, não têm escasseado. Mas a opinião pública já não estará tão atenta ao gravíssimo problema do comércio de armas, de que se fala menos e que assume uma nova dimensão com a globalização.

Neste caso, o problema mais grave é que a finança mundial está dependente do fabrico e do comércio das armas. As nações que têm assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas são responsáveis por 81 por cento do comércio e das exportações de armamento. Os países do G8 são os fornecedores de 87 por cento das armas existentes no mercado mundial, com os Estados Unidos da América a superarem a fasquia dos 50 por cento. Cerca de 68 por cento da exportação de ar mas americanas vai para os países em vias de desenvolvimento. Não admira, por isso, que se tenham multiplicado as guerras civis e os conflitos tribais na África, por exemplo, e que o comércio das armas neste mundo globalizado ponha tão dramaticamente em causa o desenvolvimento e a paz de tantos países no Sul do mundo.

Como não admira que a corrida aos recursos naturais se esteja a tornar uma fonte de conflitos armados, alimentados pelas armas tão facilmente disponíveis no mercado mundial. Os países que defendem a globalização têm por isso uma grande responsabilidade numa situação que subverte a democracia, impede o desenvolvimento e viola os direitos humanos em algumas das zonas mais carenciadas do mundo.

Acordos globais

A globalização veio para ficar, mas precisa de reformas. São precisos novos acordos globais para regular o fluxo dos capitais, o funcionamento do mercado, tanto a nível nacional como supranacional. As deficiências da situação actual necessitam de ser corrigidas, com instituições que imponham critérios de maior justiça na distribuição dos benefícios da globalização. Esta é a questão fulcral, que deve empenhar governos e sociedade civil, pois dela depende o futuro de todos, e a paz entre as nações.

Manuel Ferreira

No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: