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Missão num mundo globalizado

Outubro 1, 2007

Missão num mundo globalizado

A Europa parece ter descartado Deus, e com ela o resto do Ocidente e uma boa parte do mundo. Porque, ao mesmo tempo que a globalização difunde até aos confins do planeta novas técnicas e novas formas de sujeição económica, espalha igualmente novas formas de estar, sentir e pensar.

«Agnose» é um neologismo usado por Anton Houtepen num livro recente, God: An Open Question (Deus: Uma Questão em Aberto), no qual o autor o compara com o mais tradicional termo «agnosticismo» para descrever a condição específica da Europa e do Ocidente de hoje. Enquanto o «agnosticismo» significaria «uma atitude básica com fundamentação teórica que encara qualquer referência a Deus como um impossível e desnecessário acrescento ou duplicação do conteúdo do conhecimento humano, e que, por isso, pretende manter Deus fora da ciência e da política», a «agnose» indica «um processo muito mais difuso, no qual Deus e a referência a Deus têm desaparecido lentamente da consciência».

Numa palavra, a sociedade europeia da actualidade tem levado ao abandono de Deus. Não é somente uma questão de escolha pessoal, e não está limitada a uma menor frequência da Igreja ou a um envolvimento reduzido na vida da comunidade cristã. Representa, antes, um fenómeno cultural, que afecta todas as formas do quotidiano: «Pensar de forma diferente, sentir de forma diferente, agir de forma diferente em todas as esferas da vida, incluindo os seus limites, nascimento e morte.» A «questão Deus» parece ter desaparecido do horizonte da vida humana. E mesmo aqueles que ainda continuam a ter uma prática religiosa tomam parte neste novo clima cultural de diversas formas.

Um novo império

A partir do Ocidente, particularmente desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, uma nova ordem socioeconómica e política tem vindo a ser estabelecida, e tem todas as características de um império de tipo novo, nunca antes experimentado na História. A interligação económica de todos os seres humanos em todo o planeta tem lugar através de um fluxo de capital cada vez mais livre, formando assim um mercado global e, sistema financeiro único, conjugado e sustentado por uma rede global de comunicação e que se concretiza numa dispersão da manufactura de produtos únicos a ponto de se aproximar de uma indústria global. Neste sentido, o novo império está em toda a parte, sem nome nem território específico. Este desenvolvimento, mais do que uma neutra transformação económica, atesta o poder de decisão do factor económico nos processos históricos. O chamado «mercado livre»/«comércio aberto» transforma-se na ideologia do capitalismo neoliberal ou «capitalismo total», realça Milton Friedman. Alguns autores falam de cultura do economismo (como R. Esteban e J. Collier) ou, antes, de uma anticultura (Aylward Shorter). Aqui, o «mercado» é visto como uma força hegemónica e auto-reguladora, o «mercado racional» surge para controlar todos os comportamentos e o factor económico é absolutizado. O próprio ser humano é reduzido a uma única dimensão: o homo economicus, o homem económico.

Um círculo vicioso

A complexidade da vida permanece encerrada no círculo da produção-consumo com o lucro como a razão principal do sistema. O mercado e o economismo são propagandeados como a solução mágica para todos o: problemas e estão a adquirir, de certo modo, o estatuto de um ídolo, quando deveríamos, na verdade, falar de «um círculo vicioso diabólico». A tecnocracia dos meios de comunicação, monopolizados pelas forças do mercado, transforma esta cultura num filtro no interior da consciência pública, por meio de uma espécie de lavagem ao cérebro cultural, «pese embora a auto-imagem democrática dos meios de comunicação», sublinha Shorter.

As próprias culturas não ocidentais são atraídas para este vértice eurocêntrico: a monocultura do economismo prejudica as culturas do mundo, ameaçando a sua própria existência e levando a conflitos civilizacionais. O que é mais dramático e directamente pertinente para a «questão Deus» é o facto de a força fundamental deste novo império capitalista ter raízes na tecnologia/disciplina do «desejo»; o desejo humano, como o poder mais profundo pelo qual os seres humanos podiam abrir-se a Deus, é manipulado por uma tal força competitiva que «é submetido às exigências da produção do mercado” defende Daniel M. Bell Jr.

Desta maneira, o domínio capitalista adquire uma espécie de carácter «ontológico», um modo de ser, de existir. Num plano mais social, numa sociedade de mercado todos são consumidores-produtores. Primeiro «consumidores», e a liberdade de «escolha é o supra-sumo na economia de mercado. Mas à «liberdade» de escolher como «consumidores» corresponde a «escravização» às exigências do mercado como «produtores».

Por fim, todos são vistos como vendedores de trabalho. Até mesmo a «classe média» e a burguesia, os verdadeiros agentes da modernidade, irão desaparecer. A sociedade do mercado global será formada por um muito pequeno grupo de gente muito rica contra uma grande maioria de pessoas cada vez mais empobrecida.

Num plano individual, a pessoa é para o mercado uma «unidade de produção». Que permanece indefinidamente irrelevante. O sentido de «vocação» pessoal perdeu-se na sequência dos papéis económicos desempenhados pelo indivíduo. O significado de «valor» é redefinido: a consciência do «valor» permanece forte como sempre, mas como valor de mercado «quantificado».

Viajantes sem objectivos

Se pusermos agora lado a lado os dois aspectos que caracterizam a condição actual da sociedade europeia e ocidental, isto é, a sua dialéctica «mentalidade moderna/pós-moderna» e o mercado dominante, a imagem do errar nómada afigura-se adequada. Apesar do que deveria ser um conflito interno e de algumas das reais manifestações de descontentamento da pós-modernidade com a globalização, em certo sentido, os dois convergem. Diversos intelectuais têm assinalado, de diversas maneiras, esta ligação. O teórico e crítico literário norte-americano Fredric Jameson relaciona os sintomas da situação pós-moderna com a formação da cultura da sociedade capitalista actual.

David Harvey, por sua vez, relaciona a ascensão das formas culturais pós-modernas com a emergência de modos mais flexíveis de acumulação de capital. O capitalismo, nas suas infinitas modulações, apropria-se da maneira de ser pós-moderna; o mercado livre e a pós-modernidade coincidem no desenfreado estilo de vida pós-moderno que liga bem com a mentalidade facilitista da sociedade de consumo. De um ponto de vista sociológico, o indivíduo pós-moderno da Europa dos nossos dias é construído tanto pela crise da modernidade como pelo desenvolvimento da sociedade do mercado livre com a sua flexibilidade de papéis económicos.

As pessoas pós-modernas são moldadas como «optantes», saltitando de experiência em experiência, acumulando sensações e procurando o prazer. São «viajantes», mas sem um objectivo definido a atingir. Para o pensamento pós-moderno, a História como uma viagem com um sonho e um desígnio em certo sentido acabou; neste contexto, a única tarefa «é a de abjurar e reinterpretar interminavelmente a ausência de uma fundação (quer seja Deus quer seja humana) na qual a compreensão da realidade foi estabelecida outrora», como defende Tiziano Tosolini. Isto leva o sociólogo Zygmunt Bauman a afirmar: «O ponto central da estratégia da vida pós-moderna não é a construção de uma identidade, mas o evitar ser constante.» E Georges De Schrijver pode dar a seguinte imagem das pessoas pós-modernas: «Libertaram-se com êxito da força centralizadora das normas e estruturas invariáveis.» Têm a coragem de desafiar o papel da «monotonia» e combinam a dança da encantadora dispersão, desta maneira desfrutando a «intolerável frivolidade da existência». «Atentos às diferenças e errando divertidamente no labirinto dos sinais sempre mutáveis, celebram a sua fuga ao controlo total da presença completa […] As pessoas pós-modernas já não sentem necessidade de construir pilares estáveis para pontes que cruzam as areias movediças dos acontecimentos efémeros.»

Turistas e vagabundos

A imagem que melhor se lhes ajusta é talvez a dos turistas, vagueando «de centro comercial para centro comercial, de um local exótico para outro», desta para aquela experiência, até à fantasia da realidade virtual: «O seu deambular não é rectilíneo, antes errático através de séries de episódios sem passado nem consequências.» Seja como for, o «errar nómada» da sociedade pós-moderna do mercado global não é apenas o dos «turistas». O mundo dos «turistas» é perturbado pela irrupção dos vagabundos, isto é, os «proscritos» e os «excluídos», os desempregados e os sem-abrigo, os que pedem asilo e os imigrantes: estes «são os viajantes a que recusaram o direito de se tornarem turistas», afirma Z. Bauman.

Eles são as vítimas do mundo pós-moderno e do mercado global. O capitalismo tardio e a economia globalizadora activam novos mecanismos de exclusão. A experiência da «ligação/interligação», que transforma o mundo numa aldeia global, caminha a par da experiência oposta da «exclusão»: muitos são parte do mundo globalizado apenas porque se tornam ferramentas descartáveis para o mercado e são bombardeados pelos média com os ícones da cultura da globalização. Na realidade, a aldeia global contrai-se e conduz muitas pessoas para fora do sistema.

Uma nova escravidão

Um novo tipo de escravidão surge, focada nos grandes lucros e nas vidas baratas. Neste contexto, o ideal pós-moderno da descentralização e da tão exaltada heterogeneidade mostra todas as suas ambiguidades. A vida pós-moderna é uma vida numa «sociedade dual», defende G. De Schrijver.

Para Joerg Rieger, «enquanto o fosso entre os ricos e os pobres continua a aumentar, a pós-modernidade tende a erodir um sentido para aqueles que falham logo à partida». No meio de todas as diferenças, eis a «diversidade» do povo sofredor. Esta outra «diversidade» poderá ter todos os potenciais para se tornar a estimulante revelação da face do Deus Crucificado no meio da Europa dos nossos dias.

Um mundo em fuga

É também verdade que o homem e a mulher europeus definham sob a perda de sentido e a ansiedade do vazio pós-moderno. Além disso, não apenas os turistas pós-modernos estão debaixo de uma pressão constante para evitar o perigo de «oportunidades perdidas», como também a irrupção de vagabundos no seu cenário os faz compreender a fragilidade da sua própria situação, como se poderão vir a tornar vadios. Isto também faz parte da mobilidade do mercado. Assim, não importa a sua presente posição na sociedade, a pessoa pós-moderna é sempre confrontada novamente com a insegurança existencial.

A necessidade de segurança é também uma das razões pelas quais as sociedades pós-modernas se tornam Estados policiais. Apesar de tudo, o mundo global é um «mundo em fuga», afirma o sociólogo Anthony Giddens, isto é, um mundo sem um sentido partilhado do devir da nossa História, enfrentando na verdade um novo tipo de risco, os «riscos fabricados», tais como o aquecimento global, a poluição, o mercado instável, as consequências imprevisíveis da engenharia genética… Ignoramos os efeitos do que estamos a fazer e para onde vamos: o que provoca uma profunda ansiedade. A questão crucial aqui é se tudo isto facilita o caminho para uma nova religiosidade. Genuíno, o desencanto do homem e da mulher pós-modernos encarna num apelo a algo que poderá ser realmente diferente e novo. De facto, um desejo de uma experiência de transcendência e especialmente de espiritualidade está a tornar-se tão óbvio numa pluralidade de movimentos que povoa o mapa da Europa dos nossos dias e do Ocidente em geral. Alguns julgam identificar nisto um regresso ao sagrado e à religião. Outros, contudo, duvidam que seja o caso. Demasiadas vezes este aparente ressurgimento da nostalgia religiosa permanece confinado e de uma maneira ou de outra aprisionado na esfera do indivíduo ou é canalizado para movimentos que ficam nas margens da sociedade, f ignorando não só a crítica à modernidade da religião como os duros factos do mercado, quando eles não caem no esoterismo ou mesmo no fundamentalismo. Continua igualmente incerto de que maneira a agora chamada experiência religiosa e a procura de espiritualidade podem ser interpretadas num sentido teísta e como poderia levar ao Deus pessoal do Cristianismo. Apesar destas ambiguidades, estes vários ressurgimentos teístas de movimentos espirituais são significativos como sintomas de um mal-estar que se alastra e sinais de fome espiritual, e merecem uma mais cuidadosa atenção em relação com a questão de Deus.

Benito de Marchi

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  1. Novembro 5, 2007 10:55 pm

    Digamos que os seus textos dão que pensar… As suas opiniões convergem em grande parte com as minhas. Desde já me apresento, sou um estudante de macro-economia, com principal destaque para os acontecimentos pós-revolução industrial que afectaram o Mundo e acentuaram as desigualdades (sociedade moderna). Aproveito também para divulgar o blog que criei recentemente apelando que o visitem. Globalize-se.blogspot.com
    Propunha também a criação de um link entre os dois blogs.
    Cumprimentos
    Luis Filipe

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