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O destino de Petr Ginz

Outubro 1, 2007

“No próximo ano em Jerusalém”, diziam os judeus na Diáspora. Digo eu também: no próximo ano, ou no próximo mês, passem pela cidade e visitem o Museu do Holocausto, o novo Yad Vashem, um prodígio de arquitetura desenhado por Moshe Safdie para explicar o horror aos turistas, partindo do pressuposto de que o horror se explica.

O museu é simples como conceito: um túnel subterrâneo em forma triangular que rasga a montanha de um lado ao outro. O visitante entra pela Avenida dos Justos entre as Nações, um memorial de árvores a todos aqueles que arriscaram a vida para salvar judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Como o português Aristides de Sousa Mendes (1885 – 1954), cônsul em Bordeaux, que assinou milhares de vistos para refugiados contrariando as ordens diretas de Salazar. Depois o turista despede-se da luz e entra literalmente nas trevas.

Yad Vashem
Desenho de Petr Ginz levado na última viagem do Columbia
Desenho de Petr Ginz levado na última viagem do Columbia

Escuridão. Salas contíguas que vão mostrando, mais do que explicando, os momentos decisivos que levaram à destruição. Começamos com as comunidades judaicas, plenamente integradas na Europa, antes da década de 1930. Mas depois as perseguições têm início com a chegada de Hitler ao poder em 1933; a normalidade é desfeita; e, em 1942, a “solução final” é posta em marcha. Em cada sala, encontramos o testemunho físico do que ficou. Objetos pessoais. Reconstituições de ruas, casas, guetos. Os filmes clandestinos das execuções clandestinas. Testemunhos de sobreviventes.

E, na última divisão do túnel, a sala dos que não sobreviveram, chamada Sala de Todos os Nomes, por nela estarem os nomes das vítimas que foi possível resgatar e relembrar. Existe luz ao centro, onde se ergue uma cúpula onde centenas de rostos olham para nós. Fotos de homens, mulheres. Velhos, crianças. É provável que, entre esses rostos, esteja o de Petr Ginz.

Nascido em Praga, em 1928, Petr Ginz é o autor do último grande diário sobre o Holocausto, uma obra recentemente descoberta e publicada em circunstâncias que desafiam a credulidade humana.

Aconteceu em 2003, quando a nave espacial “Columbia” incluiu na sua tripulação um astronauta judeu e israelita, Ilan Ramon, também ele filho de uma sobrevivente de Auschwitz. Convidado a levar consigo um símbolo da história judaica, e mais precisamente da tragédia judaica, Ramon acabaria por escolher o desenho de uma criança, entre as centenas que o Yad Vashem tem à sua guarda. O autor do desenho era um rapaz tcheco de 14 anos, chamado Petr Ginz. E o desenho, uma paisagem lunar — ou, mais precisamente, uma paisagem do planeta Terra, vista a partir da Lua.

O destino do “Columbia” seria funesto: ao reentrar na atmosfera terrestre, no dia primeiro de fevereiro de 2003, a nave espacial acabaria por explodir. As notícias do desastre correram o mundo. E, com o desastre, o nome dos astronautas, os objetos que levaram na missão e o nome desconhecido de um desconhecido Petr Ginz, o autor do desenho, e que nesse fatídico dia de fevereiro de 2003, se estivesse vivo, completaria 75 anos de idade.

Peter Ginz fora executado em Auschwitz em 1944, com dezesseis anos. Mas, em 2003, quando as imagens do seu desenho ocuparam as primeiras páginas, alguém em Praga reconheceu o traço do autor e contatou o Yad Vashem de Jerusalém. Um anônimo proprietário da nova República Tcheca encontrara numa antiga casa da capital seis cadernos com textos e desenhos que, com muita certeza, pertenceriam a esse tal “Petr Ginz”. Seria possível?

Os cadernos foram prontamente analisados pelo museu, que os autenticou como verdadeiros. Mas eles foram sobretudo analisados e autenticados por uma pintora israelita ainda viva, de nome Chava Pressburger. Sessenta anos antes, em Praga, fora ela quem os oferecera a seu irmão Petr, para que ele pudesse desenhar e escrever.

Divulgação
Foto tirada em 1934 mostra os irmãos tchecos Eva e Petr Ginz
Foto tirada em 1934 mostra os irmãos tchecos Eva e Petr Ginz, vítimas do nazismo

O resultado desta descoberta pode hoje ser lido, e contemplado, em “The Diary of Petr Ginz: 1941-1942″ (Atlantic Monthly Press, 180 págs.). Encontramos os desenhos, sim, a começar pelo desenho lunar com que Ginz regressou ao mundo dos vivos no dia do seu aniversário, em 2003. Encontramos excertos dos seus cinco romances inéditos, que o pequeno prodígio escreveu entre os 8 e os 14 anos. Mas encontramos sobretudo dois cadernos que descrevem a vida de um rapaz numa Tchecoslováquia ocupada, entre 1941 e 1942, antes da primeira deportação para o campo de Theresienstadt. E, já no campo, encontramos os artigos que ele escreveu para uma revista que ele próprio editava, de nome “Verdem” (”Nós Lideramos”, ou “Nós Venceremos”, segundo a tradutora Elena Lappin). E encontramos, finalmente, excertos do diário da irmã, Chava, também ela deportada para Theresienstadt em 1942: são os excertos da sua despedida de Petr, quando este, aos dezesseis anos e “já sem as feições de uma criança”, fez a sua última viagem para Auschwitz.

Especialistas na literatura sobre a Shoah estabeleceram de imediato comparações entre o diário de Petr Ginz e a obra célebre de Anne Frank. Entendo a tentação: o diário de Frank é também o produto de uma adolescente que, entre os 13 e os 15, testemunhou por escrito o medo e a destruição em volta. Mas existe uma diferença crucial: o diário de Anne Frank presta-se a uma leitura “literária” porque ele surge escrito com uma preocupação estética evidente. É, se preferirem e no sentido mais estrito do termo, um documento expressivo e “sentimental”.

O texto de Ginz é anti-sentimental, mesmo nos seus momentos mais pungentes. Ou, inversamente, o diário de Ginz é pungente precisamente pela capacidade do autor em permitir que o horror absoluto seja sugerido pela ausência, pelo silêncio, pelo não-dito. O tom é contido. A ironia também. Os fatos são registrados como fatos (como nos diários de Victor Klemperer), com um distanciamento “científico” e impessoal. Como se a obsessão pela verdade impedisse qualquer concessão emotiva.

Mas o que impressiona no diário de Ginz não é apenas a secura do que é dito. Impressiona a forma como o autor vai relatando a gradual contaminação das rotinas diárias por uma inescapável sombra de morte.

Nas páginas do diário, encontramos o que é suposto encontrar num rapaz de 14 anos. A escola, a família, os amigos. Os passeios. O registro minucioso dos presentes recebidos no aniversário (um bolo, laranjas, livros de empréstimo). E algumas histórias de humor — como o dia em que os vizinhos, tomados por comoção súbita, abandonaram a idéia de degolar um peru, optando antes por lhe ministrar Veronal. “Mas então o peru, já depenado, despertou subitamente”, conta Petr a 20 de fevereiro de 1942, “e, como estava frio, vestiram-lhe uma camisola, e é assim que ele agora anda pela rua”.

São risadas que duram pouco. O horror começa a chegar. Ginz ainda recebe os primeiros sinais com inusitada ironia: se os judeus têm de usar uma estrela na roupa, para sinalizar a sua condição inferior, ele confessa nas páginas do diário que, a caminho da escola, conseguiu contar 69 “sheriffs”. É a cidade de Praga transformada em Faroeste.

Mas depois os vizinhos começam a desaparecer. As deportações chegam (primeiro, à noite; depois, a qualquer hora do dia). Os amigos da escola despedem-se, ou deixam simplesmente um banco vazio. Os familiares conhecem igual destino — um tio, uma avó. E chegam também as proibições oficiais: freqüentar cafés; usar transportes públicos; ler os jornais; possuir instrumentos de música, câmeras fotográficas, um simples termômetro para medir a febre. Chega a escassez, chega a fome. E, para Petr Ginz, chega a desumanidade da deportação para Theresienstadt, a primeira etapa para o destino final e letal em Auschwitz-Birkenau. A desumanidade que ele, um rapaz de 14 anos, consegue pressagiar no poema que se segue:

Hoje é claro para todos
Quem é Judeu e quem é Ariano,
porque é possível reconhecer os Judeus à distância
pela sua estrela negra e amarela.
E os Judeus assim marcados
têm de viver de acordo com os princípios ditados:

Sempre, depois das oito da noite,
Fica em casa e tranca a porta;
trabalha apenas com uma pá, ou uma enxada
e sem ouvir o rádio.
Não podes ter um rafeiro;
os barbeiros já não podem cortar o teu cabelo;
uma senhora judia, outrora rica,
não pode ter um cachorro, mesmo pequeno;
não pode enviar os seus filhos para as aulas
e tem de fazer as compras entre as três e as cinco, são as ordens.

Não pode ter pulseiras, alho, vinho,
ou ir ao teatro, ou sair para jantar;
não pode ter carros, ou um gramofone,
casacos de peles ou skis ou um telefone;
não pode comer cebolas, porco, ou queijo,
não pode ter instrumentos musicais; ou fôrmas para cozinhar;
não pode ter um clarinete
ou ter um canário como animal de estimação,
alugar bicicletas ou barômetros,
ter meias de lã ou camisolas quentes.

E especialmente o Judeu ostracizado
deve largar todos os hábitos do passado:
ele não pode comprar roupas, não pode comprar um único sapato,
porque vestir elegantemente não é para ele;
não pode ter aves domésticas, creme de barbear,
ou geléia ou algo para fumar;
não pode ter licença para dirigir, ou comprar algum gim,
ou ler revistas, ou um simples boletim,
comprar doces ou ter uma máquina de costura;
ao campo e às lojas ele não pode ir,
nem mesmo para comprar
um único par de roupa interior,
ou uma sardinha, ou uma pêra madura.

E se esta lista não está completa,
é porque há mais, portanto sê discreto;
não compres nada; aceita a derrota completa.

Caminha para onde desejas ir,
Mas só à chuva, ao granizo, sob saraiva ou sob neve.
Não deixes a tua casa, não puxes um carrinho de bebê,
Não tomes um ônibus ou trem ou bonde;
tu não és permitido num trem veloz;
não tomes um táxi, não te lamentes,
por mais sede que tenhas,
num bar não entres;
as margens do rio não são para ti,
nem o museu, ou o parque, ou o zôo
ou nadar na piscina, ou ir ao estádio, ou
ir aos correios, ou a uma repartição pública,
ou à igreja, ao cassino, ou à catedral,
ou a um público urinol.
E está atento para não usares
ruas principais, e sai das avenidas!
E se desejas respirar algum ar fresco
vai ao jardim de Deus e caminha por lá
por entre as sepulturas do cemitério
porque nenhum parque existe para ti.

E se fores um judeu esperto
irás encerrar a tua conta bancária e também
abandonar outros hábitos
como encontrar os arianos que um dia conheceste.

Ao judeu era-lhe permitido um cabaz,
Uma pasta, uma sacola, uma mala de viagem.
Mas agora ele perdeu todos esses direitos.
Todos os judeus preferem nada ver
e seguir todas as regras
e nada saber.

*

“No próximo ano em Jerusalém”, diziam os judeus da Diáspora. Digo eu também: no próximo ano, ou no próximo mês, passem pela cidade e visitem o novo Yad Vashem. É um túnel subterrâneo, sim, mas todos os túneis, por mais longos que sejam, têm sempre um princípio e um fim.

Escrevi anteriormente que o novo Museu do Holocausto termina na Sala de Todos os Nomes, onde centenas de rostos nos contemplam. Erro meu, leitores, pelo qual me penitencio: na verdade, quando deixamos a sala final, ainda existe uma última etapa. O fim do túnel: um balcão que abre diretamente para o ar da manhã, para a luz do dia. E para a cidade de Jerusalém, ao fundo. Como uma promessa, uma redenção, um destino. Como uma simples celebração de vida.

É a imagem que fica.

João Pereira Coutinho

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