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O dinheiro do sangue – J. Ziegler

Outubro 1, 2007

O Dinheiro do Sangue

Paradoxo: os oligarcas são ao mesmo tempo unidos e desunidos.

Entre as oligarquias do mundo inteiro, desenrola-se uma guerra impiedosa. As fusões forçadas na indústria e nos serviços, as manobras bolsistas mais tortuosas, as ofertas públicas de venda hostis sucedem-se. As pragas financeiras – biótopos preferidos dos oligarcas – ecoam com o ruído das batalhas.

The New Republic, jornal de opinião norte-americano, publicou no Verão de 2000 um fresco do capitalismo financeiro contemporâneo através do retrato de dois dos seus principais actores, Bill Gates e Larry Ellison. O primeiro, patrão da Microsoft, e o homem mais rico da Terra; o segundo, fundador e accionista maioritário de Oracle, possui a segunda fortuna pessoal do Planeta. Titulo do artigo de Gary Rivlin, seu autor: «Bill Gates o hipócrita, Larry Ellison o matador».

Rivlin começa por citar Mitchell Kertzman, conhecedor subtil e reconhecido dos usos e costumes dos oligarcas norte-americanos. Kertzman diz: «Matar ou ser morto, devorar ou morrer, é essa a divisa deles». «Possuir os mercados, aniquilar os concorrentes», o seu vocabulário é sempre tirado da destruição e da guerra. Kertzman aborda o assunto sem rodeios: «No fundo, todas as grandes empresas de alta tecnologia, aquelas que chegaram ao topo, são dirigidas por assassinos sanguinários… Para se chegar a esse nível, é preciso ser um perfeito tubarão».

Gary Rivlin interrogou vários subordinados dos dois tubarões. O quadro que traçam dos universos respectivos da Microsoft e da Oracle é verdadeiramente assustador. Em parte alguma seguramente a expressão «capitalismo selvagem» é tão justificada.

Um alto responsável da Oracle fala das sessões de «motivação» organizadas por Larry Ellison destinadas a novos empregados. «Nós aqui somos animais carnívoros», tem o hábito de martelar o grande patrão. Os concorrentes são os inimigos; Ellison e os colaboradores e colaboradoras da Oracle, guerreiros.

O grito de batalha de Ellison: «Vamos matá-los, vamos matá-los!»

Outro alto responsável, outra recordação: «Na Oracle, não procurávamos apenas vencer um concorrente, queríamos destruí-lo… Era preciso continuar a bater-lhe, mesmo quando ele já estava por terra. E se ele ainda mexia o dedo mindinho, era preciso esmagar-lhe a mão».

O retrato dos dois homens mais ricos do Planeta termina com uma análise comparada das respectivas maneiras de ser «[Ellison] esconde menos a ferocidade que Gates. Ambos adoptaram a mesma estratégia de destruição maciça. Mas enquanto Gates é simplesmente muito eficaz, Larry dá a impressão de satisfazer uma necessidade».

Como definir um «predador» ou um lobo», segundo as palavras de Michael Lewis?

Michael Lewis foi uma estrela da Bolsa de Nova Iorque, banqueiro da Wall Street e organizador, por conta da agenda de corretagem Salomon Brothers, de algumas das operações mais bem sucedidas destes últimos anos. Mas este antigo aluno da London School of Economics e da Universidade de Princeton não renunciou nunca a pousar neste universo um olhar no mínimo crítico.

Rompendo com o meio, publicou Liar’s Poker, um requisitório impiedoso contra os antigos colegas. Escreve ele: «O lobo adapta-se a todas as situações com uma agilidade e uma rapidez impressionantes. Está-se completamente nas tintas para o que fazem os outros, confiando apenas no seu instinto […]. Um especulador genial não é leal a ninguém, não respeita nenhuma instituição nem nenhuma decisão anterior […]. Emana dele uma calma estranha. Parece quase indiferente, apático, em relação ao que se passa à sua volta […]. Não é movido pelos sentimentos dos investidores normais: a angústia, o pânico, a obsessão do lucro imediato […]. Ele considera-se a si próprio como fazendo parte de uma elite e considera o resto dos humanos como um rebanho de carneiros».

Quaisquer que sejam as máscaras ideológicas com que se disfarcem os predadores, o que os move em profundidade é a actividade furiosa do êxito, do lucro máximo, do poder. Em último caso, o poder exprime-se sempre em termos patrimoniais, sob a forma de fortuna pessoal.

Leon Bloy antecipou a maneira de ser e de agir dos oligarcas do capital globalizado: «O rico é um bruto implacável que é preciso travar com uma foice ou com uma carga de chumbo no estômago».

Com um nome bem soante, o National Labor Committee (NLC), esconde-se uma organização não governamental de dimensão reduzida e com meios financeiros e administrativos mais do que modestos. Charles Kemaghan faz parte dela. É um observador e um organizador fora de série. Opera a partir de Nova Iorque. Ocupa-se especialmente de duas coisas. Com olho de lince, observa as práticas salariais e as estratégias comerciais das principais sociedades transcontinentais americanas e, graças a uma rede de associações, de comités e de grupúsculos que funcionam a e-mail, alerta periodicamente a opinião progressista americana, lançando sobre este ou aquele problema preciso urgent action alerts («apelos urgentes à acção»). Nos Estados Unidos, no Canadá, na América Latina e na Ásia, a sua influência é considerável. Todos os inquéritos realizados, todos apelos lançados pelo NLC são acessíveis na Web: http/www.nlicnet.org.

Segundo Kernaghan, a maior parte das fortunas amealhadas pelos grandes predadores releva do blood-money, o dinheiro do sangue. Ele cita este caso.

A sociedade transcontinental Walt Disney manda fabricar pijamas e outro vestuário infantil, ornados com o celebre rato, entre outros em sweat-shops (em oficinas de suor), na ilha de Haiti. O presidente-director-geral da sociedade chama-se Michael Eisner. Este goza de um rendimento anual astronómico. Kernaghan efectuou o seguinte cálculo: Eisner ganha por hora (números de 2000) 2783 dólares americanos. Uma operária haitiana que cose pijamas da Disney ganha 28 cêntimos americanos à hora. Para ganhar o equivalente do rendimento horário de Eisner, a operária de Port-au-Prince deveria trabalhar

Mas Eisner não se contenta com este salário mirífico. No mesmo ano (2000), mete ao bolso igualmente acções no valor de 181 milhões de dólares americanos. Esta soma seria suficiente para manter vivos 19 000 trabalhadores haitianos e respectivas famílias durante catorze anos. As operárias e os operários haitianos da Disney recebem salários escandalosamente baixos, sofrem de mal nutrição e vivem na miséria.

O National Labor Committee seguiu além disso a rodagem de um célebre filme de sucesso, produzido pela Walt Disney, e consagrado às cabriolas de uma matilha de cãezinhos: Os 101 Dálmatas. Durante toda a rodagem, a sociedade transcontinental alojou os cães em «casas de cães», especialmente construídas para o efeito. Nessas «casas», os animais dispunham de camas acolchoadas, de luzes de aquecimento e recebiam todos os dias refeições preparadas por cozinheiros para cães que alternavam uma ementa de carne de vitela ou de frango. Médicos veterinários velavam dia e noite pelo bem-estar dos dálmatas. As operárias e os operários haitianos da Disney – os tais que cosem os pijamas para crianças decorados com a imagem dos famosos dálmatas – vivem em cabanas sórdidas infestadas de malária. Dormem em cima de tábuas. A compra de um pouco de carne releva de um sonho inacessível. E por mais que a sua saúde seja precária, nenhum operário pode pagar uma visita médica.

Mas o blood-money não é uma especialidade norte-americana. Os Europeus, nomeadamente os Suíços, também o praticam.

O dinheiro da corrupção e da pilhagem dos estados do Terceiro Mundo pelos ditadores autóctones e seus cúmplices é uma das grandes fontes da fabulosa riqueza do paraíso helvético. A Suíça pratica a livre convertibilidade das moedas. A neutralidade politica, o cinismo e a extrema competência dos seus banqueiros incitam tradicionalmente os ditadores de toda a espécie – os Sani Abacha (Nigeria), Mobutu (ex-Zaire), Jean-Claude Duvalier (Haiti) e outros Marcos (Filipinas) – a depositar em toda a confiança os produtos das suas rapinas no Paradeplatz de Zurique ou na rue de la Corraterie, em Genebra.

Ora, a complexidade da lei helvética é tal que muito poucos governos africanos, latino-americanos ou asiáticos têm a mínima hipótese de recuperar seja o que for, a não ser algumas migalhas, das fortunas acumuladas por esses tiranos caídos em desgraça após a sua queda. Assim, dos cerca de 3400 mil milhões de dólares desviados por Sani Abacha entre 1993 e a sua morte em 1998, quantias depositadas em dezanove bancos, apenas 730 milhões foram encontrados e bloqueados, e 115 milhões restituídos às autoridades de Lagos.

Outro rendimento particularmente sumarento: a evasão fiscal internacional. Do mundo inteiro, mas sobretudo da Alemanha, da Itália e da Franca, os autores de fraudes fiscais transferem os seus capitais para a Suíça. Por uma razão simples: mais ou menos em todo o mundo a evasão fiscal é um delito penal, mas não na Suíça, onde a falsa declaração de impostos e a subtracção intencional de rendimentos colectáveis são consideradas meras infracções administrativas. Penalmente punível é apenas a fabricação de falsos documentos. Em matéria de evasão fiscal, o segredo bancário é, pois, absoluto. Nunca é levantado seja para quem for.

É conhecida a frase de Chateaubriand: «Neutros nas grandes revoluções dos estados que os rodeavam, os Suíços enriqueceram à custa das desgraças dos outros e fundaram um banco sobre as calamidades humanas». A oligarquia financeira reina, sem partilha. Graças a um sistema bancário hipertrofiado, graças igualmente às instituições que constituem o segredo bancário e a conta numérica, essa oligarquia funciona como o receptador do sistema capitalista mundial.

Entretanto, as crianças morrem de fome em Kinshasa, em Lagos, Ibadã e Cano, os doentes morrem nos hospitais à falta de medicamentos.

A actividade do receptador é altamente lucrativa.

Nem todos os salários mirabolantes auferidos pelos senhores das sociedades transcontinentais relevam do blood-money. Alguns dos presidentes mais ricamente pagos são, muito simplesmente, grandes e eméritos destruidores de empregos. O conselho de administração recompensa-os por terem licenciado milhares de empregados e terem assim reduzido as despesas de produção e feito explodir as cotações na bolsa da sociedade «arruinada». Esses predadores praticam com êxito o darwinismo social. Alguns exemplos ao acaso.

Em 1997, o presidente da Eastman-Kodak, George Fisher, destruiu de uma só vez 20 000 postos de trabalhos no mundo inteiro. Recompensa: acções da Eastman-Kodak no valor de 60 milhões de dólares.

Sanford Wiell é presidente da empresa transcontinental Travelers. Em 1998, organiza a fusão da sua sociedade com a concorrente Citicorp. Dezenas de empregados e de empregadas, em dezenas de países, são despedidos de um dia para o outro. Nesse ano, Sanford Wiell receberá, entre gratificações e salários, a bonita soma de 230 milhões de dólares americanos.

Tal como as chuvas ácidas, o cinismo e a amoralidade dos grandes predadores escorrem do alto da pirâmide social para os escalões intermédios. Uma civilização é semelhante a um navio de alto-mar: possui uma linha de flutuação, um limite abaixo do qual o navio se afunda. A linha de flutuação da civilização mercantil europeia baixou dramaticamente durante a década passada.

A cupidez dos senhores envenena o cérebro dos vassalos. Actualmente, muitos dirigentes roubam alegremente as suas próprias empresas. Comportam-se como esses salteadores de estrada do tempo da Guerra dos Cem Anos, que assaltavam os próprios companheiros de viagem.

A 24 de Maio de 2001, os representantes da CGT da direcção dos mercados de capitais do Crédit Lyonnais alertaram a opinião pública: só no ano 2000, dois dirigentes dessa direcção haviam recebido, sob forma de «gratificações» (a juntar a salários já consideráveis), somas que se elevavam a um total de 120 milhões de francos franceses.

Kuoni-Holding é uma das principais sociedades de viagens do mundo. Tem sede em Zurique. Daniel Affolter era outrora seu presidente. Num ano, conseguiu que lhe fossem atribuídas «gratificações» de 8,1 milhões de francos suíços. Estas «gratificações» somavam-se, naturalmente, aos honorários, ajudas de custo e outros salários normais. Além disso, o hábil Affolter, com 47 anos, tinha-se precavido contra qualquer despedimento eventual: conseguira ser colocado ao abrigo de um contrato que lhe permitia – em caso de perda de emprego – receber um milhão de francos suíços, todos os anos até à idade da reforma.

Interrogado sobre as inúmeras benesses que lhe haviam sido outorgadas, em detrimento da tesouraria da própria empresa, o admirável Affolter respondeu: «Não me envergonho!»

O capitalismo selvagem inaugurou um belo costume: o do chamado «pára-quedas dourado». Um PDG que arruína a sua empresa é afastado, mas recebe à laia de consolação pela sua incompetência pagamentos consideráveis, tirados do cofre da sociedade que acaba de arruinar. Trata-se de uma forma de roubo particularmente pitoresca, uma vez que ele se efectua em prejuízo directo de uma empresa que está de rastos e da qual um bom número de empregados é posto na rua – sem pára-quedas dourado, estes.

Michael Orvitz havia sido talent scout, agente recrutador de actores, em Hollywood. O presidente da sociedade transcontinental Walt Disney, Michael Eisner, contratou-o como seu adjunto directo. Ora, Orvitz não satisfez. Eisner pô-lo, pois, na rua, catorze meses depois. O pára-quedas dourado? Um cheque de 100 milhões de dólares americanos, embolsado alegremente à custa dos empregados e dos accionistas.

Robert Studer e Mathis Cabiavaletta foram, durante os anos 90, os dois presidentes sucessivos da Union de Banques Suisses. Ambos fracassaram lamentavelmente. Nas suas presidências, o banco teve perdas enormes, na sequência de operações especulativas arriscadas. Foram pois despedidos. Pelos brilhantes desempenhos, Robert Studer meteu ao bolso 15 milhões de francos suíços, e Cabiavaletta, 10 milhões.

Em 2001, a companhia de aviação Swissair estava à beira da falência. Philippe Brugisser fora seu presidente durante anos, rodeado de numerosos directores e de um conselho de administração onde havia participado a fina-flor das oligarquias helvéticas. Juntos, tinham levado aquela sociedade altamente lucrativa – cujos accionistas são principalmente colectividades públicas – à catástrofe, por incompetência, megalomania e favorecimento dos amigos. A fina equipa foi finalmente afastada do bunker do Balsberg, perto de Zurique. Mas por decisão do conselho de administração, Brugisser e os seus directores beneficiaram de pára-quedas de ouro maciço.

Accionistas sinistrados constituíram então parte civil e deram início a um processo relativo a perdas e danos contra os pára-quedistas. Fizeram uma descoberta surpreendente: os dirigentes da Swissair estavam precavidos – a expensas da companhia evidentemente – contra qualquer queixa por perdas e danos que pudesse resultar da sua gestão.

No desastre da Swissair, um predador houve que se distinguiu particularmente: Mário A. Corti, último presidente do grupo. Corti pertence à alta-aristocracia do capital globalizado. Antigo director financeiro da Nestlé, segunda sociedade transcontinental de alimentação do mundo, tornou-se presidente da Swissair a 16 de Maio de 2001. Assina então um contrato de cinco anos que previa uma remuneração global de 12,5 milhões de francos suíços. Na qualidade de antigo membro do conselho de administração da Swissair, conhece perfeitamente a situação (dramática) da companhia. Ora, com a cumplicidade de alguns dos antigos colegas do conselho de administração, recebe imediatamente a integralidade desta soma.

Sete meses mais tarde, no mundo inteiro, todos os aviões da Swissair ficam no solo, sendo a companhia incapaz de pagar o carburante e as taxas de aeroporto.

Actualmente, o grupo está em liquidação judicial. Milhares de homens e de mulheres estão no desemprego, não tendo beneficiado de nenhum plano social. As acções da Swissair não valem um cêntimo. Centenas de fundos de pensões, dezenas de colectividades públicas e várias dezenas de milhares de aforradores foram espoliados dos seus investimentos. Quanto a Mário A. Corti goza tranquilamente o seu pé-de-meia, instalado no seu palacete de Zürichberg.

Um dos desportos favoritos dos predadores é a fusão de empresas. As fusões, como se sabe, podem proceder de uma aproximação voluntária entre duas equipas dirigentes ou de um raid bolsista.

A CNUCED (Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento) calculou que, em 2000, as fusões transfronteiriças de empresas haviam aumentado 50 por cento, implicando somas que se elevavam no total a l bilião 145 000 milhões de dólares. De Janeiro a Agosto de 2001, ocorreram, só neste período, 75 mega fusões de empresas. Por «mega fusão», a CNUCED designa uma fusão que implica empresas que têm um volume de negócios de mais de mil milhões de dólares por ano. Por ocasião destas 75 mega fusões, 235 000 milhões de dólares mudaram de proprietários.

Segundo a CNUCED, existem 63 000 sociedades transnacionais que controlam 800 000 filiais activas à volta do Planeta. Classificação em 2001: General Electric (Estados Unidos), Royal Dutch/Shell (Países Baixos/Reino Unido), General Motors (Estados Unidos). Seguem-se a Ford Motor (Estados Unidos), Toyota (Japão), Daimler Chrysler (Alemanha), Total-Fina (França), IBM (Estados Unidos) e BP (Reino Unido). A Nestlé (Suíça) ocupa o 11° lugar, ABB o 12°, Roche o 27°. Em 2001, a aquisição mais importante foi a de Voice-Stream (Estados Unidos) pela Deutsch Telekom, por 14 600 milhões de dólares. Seguida da Viag Interkom (Alemanha) pela British Telecoms (GB), por 13 800 milhões de dólares.

A Citigroup (Estados Unidos) comprou além disso a Banamex (México) por 12 400 milhões, a Deutsche Telekom Powertel (Estados Unidos) por 12 300 milhões; e o australiano BHP, o Billiton Pie (GB) por 11 500 milhões. A compra por 10 400 milhões do Raiston Purina Group (Estados Unidos) pela Nestlé é a oitava aquisição mais importante de 2001.

A consequência principal e imediata de uma fusão entre duas empresas é a liquidação de um certo número de postos de trabalho. Chama-se a isto o efeito de sinergia. Quem sofre com o facto? Os empregados. Os predadores falam em «sacrifícios necessários». Subentendido: como o valor da empresa aumenta consideravelmente na sequência da fusão, os sacrifícios dos trabalhadores justificam-se. Uma lógica superior legitima a destruição. Ora, os últimos números disponíveis mostram o seguinte: a teoria dos «sacrifícios justificados» releva muitas vezes da mentira. A maior parte das fusões desembocaram com efeito em consideráveis desvalorizações de activos. O jornal Le Monde analisou doze das maiores fusões bolsistas. Ora, praticamente todas se saldaram por uma perda maciça do valor bolsista da sociedade saída da fusão. As doze fusões examinadas produziram uma perda conjunta de mais de 720 000 milhões de dólares.

Podemos, a partir deste momento, interrogar-nos por que razão os predadores gostam tanto de fusões. A resposta releva simultaneamente da psicologia e da economia. Uma mega fusão satisfaz a megalomania do nababo. E satisfaz simultaneamente a sua cupidez. Praticando como que por reflexo (e geralmente de modo perfeitamente impune) o delito de iniciado, o nababo realiza a cada fusão benefícios pessoais de monta.

Até há pouco tempo, a Confederação Helvética era famosa pela qualidade dos serviços públicos. A maioria ultraliberal do Parlamento pôs fim a esta situação. A administração de Estado dos Caminhos-de-Ferro Federais (CFF), orgulho da nação desde a abertura, no final do século XIX, dos grandes túneis do Gothard, do Loetschberg e do Simplon, foi transformada numa sociedade por acções anónima de direito privado. Com numerosos gabinetes, autocarros amarelos percorrendo os vales alpinos e jurássicos, o seu serviço outrora lendário e os seus preços abordáveis, o Correio, também este, deixou de ser um serviço do Estado. As telecomunicações tiveram o mesmo destino. Resultado destas privatizações galopantes: nas aldeias suíças, as estações de correio fecham. Para se mandar uma encomenda, cartas ou efectuar um pagamento, é agora preciso fazer uma bicha interminável numa das raras estações abertas. A mesma desventura espera o utente que tenha a ideia peregrina de comprar um bilhete de comboio na estação de Cornavin, em Genebra.

A intenção dos privatizadores é transparente. E está perfeitamente em conformidade com a ideologia ultraliberal: desmantelar os serviços públicos, a fim de deixar o terreno livre às empresas privadas que trabalham no mesmo domínio. Na Suíça, as sociedades privadas transnacionais do correio – DHL, UPS – fazem negócios de ouro. O presidente do Correio em vias de liquidação, por seu lado, sonha fazer da sua empresa um banco de negócios. Quanto à maioria do governo, totalmente afecta ao desmantelamento dos serviços públicos, assiste passivamente à pilhagem.

Os salários astronómicos concedidos pelos conselhos de administração aos directores das sociedades transcontinentais, bancos e empresas de serviço provocam a cólera da opinião pública.

O presidente do directório da UBS, Lukman Arnold, transforma-se em pedagogo. À pergunta: Como é que se justificam estes salários indecentes? Ele responde: «Para a maioria da população, é certamente impossível compreender por que razão um indivíduo deve auferir de tais rendimentos».

Os grandes e os pequenos predadores apresentam em sua defesa uma argumentação francamente insultuosa em relação aos assalariados correntes. Dizem eles: «As nossas responsabilidades são excepcionais. Podemos perder o lugar a qualquer momento. Pomos diariamente em jogo a nossa reputação de managers». Subentendido: tudo isto justifica os nossos ordenados exorbitantes.

No seu Petit Almanach des grands hommes, o conde Antoine de Rivarol escreve: «Os povos mais civilizados são tão vizinhos da barbárie quanto o ferro mais polido, da ferrugem».

Dois dos mais belos golpes dos predadores que roubam sistematicamente as próprias empresas, levando-as conscientemente à ruína, a fim de enriquecerem pessoalmente, ocorreram em 2002.

O conglomerado transcontinental de energia Enron tinha sede em Houston (Texas) e era dirigido por Kenneth Lay. Para roubar a sociedade – uma das dez mais poderosas dos Estados Unidos –, Kenneth Lay e seus cúmplices montaram uma conspiração, no fim de contas, bastante simples. Em primeiro lugar, financiaram maciçamente as diferentes campanhas políticas de George W. Bush, de Dick Cheney e de alguns outros homens e mulheres da direita texana. Uma vez no poder, os beneficiários destas benesses concederam à Enron a «co-gestão» da política energética dos Estados Unidos.

Lay e os cúmplices montaram então um sistema de apresentação das contas da sociedade absolutamente opaco. Em seguida, Lay obteve dos amigos políticos a desregulação do mercado dos derivados dos títulos que tinham por objecto produtos energéticos (petróleo, electricidade hidráulica, etc.). O senador que assegurou a promoção da lei foi Phil Gramm. A sua esposa Wendy era quem presidia ao Audit Committee da Enron – o comité de vigilância da contabilidade da sociedade. Magnificamente remunerada, ela fechava os olhos, nariz, boca e orelhas, sempre que devia exercer a sua obrigação de controlo das finanças de Lay.

O ministro das Finanças de George W. Bush, Paul O’Neill, protegia a Enron contra todo o controle fiscal. Ora, graças a uma sábia rede de bancos offshore, Lay organizava anualmente gigantescas fraudes… fiscais.

Enfim, quando algures no mundo, um governo – que Lay não conseguia dobrar nem mesmo com ameaças, chantagem, ou corrupção – recusava conceder à Enron novas concessões petrolíferas ou o direito de construir um oleoduto, por exemplo, Lay telefonava aos amigos no Pentágono. As pressões deste revelavam-se habitualmente suficientes para que a Enron recebesse imediatamente o direito a construir o pipeline ou a explorar o novo campo petrolífero…

Os Estados Unidos têm um sistema de reformas diferente dos da França, da Alemanha, da Suíça, e de muitos outros países. Os fundos de pensões americanos funcionam segundo o método da capitalização. Cada trabalhador, cada filiado activo coloca as suas quotizações – por intermédio dos fundos de pensões – no mercado financeiro, nomeadamente na bolsa. Na idade da reforma, a pensão de cada um deles é calculada segundo as quotizações que acumulou e a mais-valia adquirida. Foi assim que a bancarrota da Enron arruinou centenas de milhares de aforradores cujos fundos de pensões haviam sido investidos em títulos da empresa. Mas, antes da bancarrota, Lay fez no entanto com que o conselho de administração lhe concedesse uma indemnização inicial de 205 milhões dólares…

Mais ou menos na mesma época, outros canibais atacavam no seio da Global Crossing, uma das mais poderosas firmas de telecomunicações dos Estados Unidos. Em Março de 2000 ainda, a capitalização bolsista da Global Crossing elevava-se a 40 000 milhões dólares, em Fevereiro de 2002, a empresa estava exangue, a cotação bolsista no mínimo. Ora, exactamente antes da falência, o presidente Gary Winnick tinha conseguido fazer votar pelo seu conselho de administração uma indemnização inicial a seu favor de 730 milhões de dólares.

Na mais perfeita legalidade.

Último método de pilhagem que convém assinalar. Excelentemente aconselhados pelos peritos fiscais pessoais, muitos predadores recebem anualmente das suas empresas somas astronómicas nas suas próprias contas de reforma junto do fundo de pensões. Em diversos países (e nomeadamente em certos cantões suíços), as prestações efectuadas numa conta de reforma estão isentas de impostos. No final de 2001, os accionistas do gigante da metalurgia ABB, cuja sede central se situa em Zurique, descobriram estupefactos que o presidente, o sueco Percy Barnevik, tinha recebido assim a módica quantia de 140 milhões de francos suíços na sua conta de reforma pessoal, antes da sua demissão em 1996. Tentaram apresentar queixa. Mas nenhuma lei na Suíça (nem no resto do Ocidente) permite sancionar esta última esperteza dos predadores.

Até à descoberta destes pagamentos astronómicos (e todavia legais) em 2001, Percy Barnevik, havia sido considerado como uma espécie de guru ético do big business internacional. Com Kofi Annan, criara o Global Compact, acordo informal concluído entre as Nações Unidas e as principais sociedades transcontinentais privadas, encarregado de vigiar a conduta «decente» destas últimas nos países do Terceiro Mundo. O Global Compact data de Janeiro de 1999.

Nessa época, o prestígio pessoal de Barnevik era enorme. Os Suecos (e muitos Suíços) veneravam-no como um semideus. Num retrato que lhe foi consagrado, o Financial Times de Londres escreve, com uma ponta de ironia britânica: «A única razão pela qual o Senhor Barnevik não caminha sobre as águas que separam a Suécia da Dinamarca, é porque não tem tempo para isso».

No sentido preciso em que os filósofos das Luzes empregam o termo, os predadores são seres «fora da humanidade». Jean-Jacques Rousseau: «Estão perdidos se esquecerem que os frutos pertencem a todos e que a terra não pertence a ninguém».

Os predadores não estão ligados a nenhuma escola de pensamento, não mergulham as suas raízes em nenhuma aventura colectiva, não conhecem horizonte histórico, não concluem alianças a não ser com os seus congéneres e são totalmente desprovidos de motivações – a não ser o gosto pelo poder e pelo dinheiro.

Não são nem de direita nem de esquerda, nem do Sul nem do Norte. Nenhum pensamento colectivo deixou neles marcas identificáveis. Não têm história, não constroem nada e morrem sem jamais ter posto os olhos nos homens que os rodeiam.

Pela sua prática quotidiana, instalam-se à margem da humanidade solidária.

São seres perdidos.

Jean Ziegler
Os novos senhores de mundo

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