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O império da vergonha I – A escassez organizada – J. Ziegler

Outubro 1, 2007

A ESCASSEZ ORGANIZADA

Nos nossos dias constituíram-se novos feudalismos, infinitamente mais poderosos, mais cínicos, mais brutais e mais astutos que os antigos. São as companhias transcontinentais privadas da indústria, da banca, dos serviços e do comércio.

Chamo cosmocratas a esses novos senhores feudais. São os novos soberanos do império da vergonha.
Observemos o mundo que eles criaram.

É verdade que nem a fome nem o endividamento são fenómenos novos na História. Desde a noite dos tempos que os fortes têm os fracos presos pela dívida. No mundo feudal, caracterizado pela ausência de trabalho assalariado, o senhor submetia os seus servos pela dívida. Forma arcaica da produção agrícola, que sobreviveu até aos nossos dias, o sistema dos «cupões» praticado pelo latifúndio equatoriano, paraguaio ou guatemalteco escraviza do mesmo modo o trabalhador rural (Não recebendo salário, mas cupões, o trabalhador troca estes últimos por mercadorias na loja do latifundiário. Como os cupões são sempre insuficientes para garantir a subsistência da sua família, o trabalhador endivida-se para toda a vida.)

Também a fome acompanha a Humanidade desde o seu aparecimento na Terra. As sociedades neolíticas africanas, os mais antigos dos grupos exógamos conhecidos, viviam da recolecção. Os seus membros viviam da apanha de raízes, de ervas e de frutos selvagens de uma estação das chuvas à seguinte. Não conheciam nem a agricultura nem a domesticação dos animais, e praticavam uma forma rudimentar de caça miúda. O infanticídio foi a sua primeira instituição social. No começo de cada estação seca (longo período de mais ou menos sete meses, no curso do qual nenhuma colheita era possível e a caça era rara), os mais velhos contavam as bocas a alimentar e as provisões disponíveis. Em função de uma avaliação prospectiva, eles mandavam eliminar um número variável de recém-nascidos por seus pais.

No cerne da obra imensa de Karl Marx reside uma preocupação essencial: a definição da falta. Até ao seu último fôlego, Marx esteve persuadido de que o homem viveria no reino da carência durante mais alguns séculos. E o par maldito dono-escravo ainda estava longe de se desfazer.

Marx recorre, para tratar desta questão, a uma expressão difícil de traduzir: «Der objektive Mangel» («a carência objectiva»). Esta frase designa uma situação onde os bens materiais disponíveis na Terra são objectivamente insuficientes para satisfazer todas as necessidades incompressíveis, elementares, dos homens. Em vida de Marx (como durante todos os séculos precedentes), a carência objectiva governou de facto o planeta, os bens disponíveis na Terra eram definitivamente insuficientes para satisfazer as necessidades vitais dos homens. Toda a teoria marxista da divisão do trabalho, das classes sociais, da origem do Estado, da luta de classes é fundada nesta hipótese da carência objectiva de bens.

Mas depois da morte de Marx, e mais particularmente durante a segunda metade do século XX, uma formidável sucessão de revoluções industriais, tecnológicas e científicas dinamizou as forças produtivas. Hoje, o planeta não suporta o peso das suas riquezas.

Dito de outro modo: o infanticídio, tal como continua a ser praticado dia após dia, já não obedece a nenhuma necessidade.

Os donos do império da vergonha organizam conscientemente a escassez. E esta obedece à lógica da maximização do lucro.

O preço de um bem depende da sua raridade. Quanto mais raro é um bem, mais elevado é o seu preço. A abundância e a gratuidade são os pesadelos dos cosmocratas, que consagram esforços sobre-humanos a conjurar tal perspectiva. Só a carência garante o lucro. Organizemo-la!

Os cosmocratas têm um horror especial à gratuidade que a natureza possa propiciar. Vêem nela uma concorrência desleal, insuportável. As patentes sobre o vivo, as plantas e os animais geneticamente modificados, a privatização das nascentes de água devem pôr fim a tão intolerável facilidade. Voltaremos ao assunto.

Organizar a carência dos serviços, dos capitais e dos bens é, nestas condições, a actividade prioritária dos donos do império da vergonha. Mas essa carência organizada destrói no planeta, todos os anos, a vida de milhões de homens, de crianças e de mulheres.

Hoje, é possível dizer-se que a miséria atingiu um nível mais pavoroso do que em qualquer outra época da História. É, assim, que mais de 10 milhões de crianças com menos de 5 anos morrem anualmente de subalimentação, de epidemias, de poluição das águas e de insalubridade. Cinquenta por cento destas mortes ocorrem nos seis países mais pobres do planeta. Quarenta e dois por cento dos países do Sul abrigam 90 por cento das vítimas.

Estas crianças não são destruídas por uma falta objectiva de bens, mas por uma distribuição desigual dos mesmos. Logo, por uma falta artificial.

Desde o começo do novo milénio, atentados, catástrofes, uma mais aterradora que a outra, sacodem o planeta. De Nova Iorque a Bagdade, do Cáucaso a Bali, de Gaza a Madrid, milhares de seres humanos são ceifados, queimados, dezenas de milhares feridos.

Nos países do hemisfério sul, as epidemias e a fome fazem cada vez mais vítimas. A exclusão e o desemprego grassam no Ocidente.

Mas os novos feudos capitalistas não cessam de prosperar. O ROE (rendimento dos fundos próprios) das 500 maiores companhias transcontinentais do mundo foi de 15 por cento por ano desde 2001 nos Estados Unidos, de 12 por cento em França.

Os meios financeiros desses empórios excedem, e de longe, as suas necessidades em investimento: é, assim, que a taxa de autofinanciamento se eleva a 130 por cento no Japão, 115 por cento nos Estados Unidos e 110 por cento na Alemanha. O que fazem, nestas condições, os novos senhores feudais? Recompram maciçamente na Bolsa as suas próprias acções. Pagam aos accionistas dividendos faraónicos, e aos administradores, gratificações astronómicas. (Em 20 de Julho de 2004, a Microsoft anunciava que os seus accionistas iam embolsar 75 mil milhões de dólares a título de dividendos durante o período 2004-2008.)

Mas nada os sacia! Os lucros supérfluos continuam a crescer.

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