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O Manual dos Inquisidores

Outubro 1, 2007

Ainda O Manual dos Inquisidores (Dom Quixote) frequentava os primeiros lugares das listas de vendas nas livrarias, já António Lobo Antunes terminava o seu novíssimo romance – uma história sobre África, tendo como cenário Malanje, em Angola.

 

 

Com O Manual dos Inquisidores regressa a Portugal, volta a eleger Portugal como um tema de romance… Claro que há uma família que se transforma em personagem fundamental, quase saga, mas parece-me que este livro é parte de um projecto mais vasto, uma tetralogia sobre um tema que já quase não está na moda: Portugal.

Sim, mas esse livro já está pronto há dois anos, e, entretanto, estou neste momento a acabar um novo. Bom, já está mesmo acabado e inclui-se nessa série de quatro livros sobre o poder e sobre o exercício do poder em Portugal. Portanto, O Manual dos Inquisidores seria o primeiro. Há este, novo, que já está pronto, e, quanto aos outros dois, vamos a ver…

 

Como é que lhe apareceu a ideia central do Manual?

Um livro começa sempre por um clique e neste, no Manual, foi muito curioso, porque teve a ver com uma frase. Aliás, antes disso, tenho que dizer que devo um pouco livro ao João [João Lobo Antunes, irmão do escritor, neurocirurgião] porque, há uns três ou quatro anos, contou-me uma história de um senhor, um grande solteirão, ou viúvo, já não sei, que dizia, em relação às mulheres: «Eu faço tudo o que elas querem, mas nunca tiro o chapéu da cabeça». Aquilo ficou-me cá dentro. Esta frase foi a primeira coisa que eu tive do livro, é uma frase espantosa. É engraçado porque, normalmente, começo por um plano do livro, com personagens, cenários e tal, mas aqui o clique, esse tal clique que é necessário a todo o livro, foi a frase. Creio que era um proprietário de uma empresa de vinhos, uma marca de vinhos muito conhecida. O livro, propriamente dito, começou com a personagem do ministro, só depois aparecendo os outros personagens da família. Quando comecei a escrever já tinha, como de costume, as várias partes e as vozes principais, mas esse personagem era fascinante. Tal como é fascinante entrar nesse universo das grandes famílias, conhecer as suas histórias…

 

Você opta por um narrador invisível, escritor, que parece munido de um gravador para recolher depoimentos dos personagens. Isso facilitou-lhe as coisas?

É uma técnica que tenho vindo a aperfeiçoar, porque eu estava descontente com os primeiros livros e pensei que uma técnica mais polifónica me permitiria que os personagens se reflectissem melhor na própria história. Eles é que contam, num livro. E o método usado permite ir mais fundo no que diz respeito à caracterização das pessoas. E até ao nível da própria escrita, que é fundamental…

 

Por que é que diz que os outros livros, os primeiros, são livros de aprendiz?

O Memória de Elefante é, claramente, um livro de aprendiz, Os Cus de Judas é um livro binário, com aquele jogo entre mulher-guerra… E, depois, Conhecimento do Inferno, que é provavelmente o mais fraco deles todos, é onde começam a aparecer, ainda que timidamente, todos os processos que eu depois comecei a tentar desenvolver melhor nos livros a seguir. Mas, se eu voltasse atrás, teria começado a publicar com Explicação dos Pássaros.

 

É como se estivesse a renegar livros seus…

Eu poderia ter esperado mais um pouco, sabe? Aliás, esperei até aos trinta e seis anos para publicar um livro. Nunca tinha publicado e também podia ter continuado a viver sem publicar. Publicar não era fundamental, escrever é que sempre escrevi, mas, se calhar, deveria ter continuado a esperar e fazer como fazia até ao Memória de Elefante, que era escrever livros e deitá-los fora.

 

Quantos é que deitou fora?

Muitos, imensos. Comecei a escrever com treze anos. Na adolescência já tinha uma vasta «obra completa», mas depois chegava ao quintal dos meus pais, onde havia uma figueira, e queimava aquilo tudo, porque tinha a consciência de não ter encontrado uma voz, em primeiro lugar, uma maneira de escrever, um modo de contar, e depois havia sempre uma grande distância entre a emoção sentida e o pobre resultado que ficava escrito, tão mau como quando, em muito miúdo, comecei por fazer poesia de muito má qualidade. A distância era muito, muito grande, e o meu problema era como encurtar essa distância…

 

Era uma família de gente precoce: o seu irmão João tinha um programa de televisão aos quinze anos; você, aos treze anos, escrevia romances…

Nós somos seis rapazes e tivemos a sorte de os meus pais serem extremamente estimulantes, no sentido de nos fazerem interessar por tudo, desde cálculo integral até literatura. Havia uma enorme curiosidade intelectual por parte do meu pai, sobretudo, mas também da minha mãe. A minha mãe é das raras mulheres que eu conheço que lia Proust. Lembro-me de, aos catorze anos, o meu pai dar a ler a Voyage au Bout de La Nuit. Falávamos muito de livros, de arte, de coisas assim. Talvez por na família haver uma grande contenção e uma grande austeridade, ainda hoje falo com o meu pai mais de literatura do que dos nossos sentimentos pessoais… Sou capaz de falar de emoções e sentimentos com os meus amigos, mas, com os meus irmãos, embora goste muito deles, e com os meus pais, há um enorme pudor, não sei se estão bem afectivamente, em que partido é que eles votam. Bom, posso presumir, mas não sei com rigor… Portanto, a nossa relação fazia-se através de livros, das ciências, da física… Sobretudo com o João, porque vivíamos dois a dois, em cada quarto, e o João era o meu companheiro. Íamos descobrindo as coisas ao mesmo tempo, mas, sem dúvida, foram os nossos pais que nos incitaram mais nessa descoberta.

 

E a escolha da medicina foi também por razões familiares?

Na verdade, nunca quis ser médico. Mas eu era o mais velho e, naquela altura, quando se chegava ao quinto ano, tínhamos de escolher entre ciências e letras. Ora, eu tinha treze anos – o meu pai perguntou-me o que é que eu queria fazer, eu disse que queria ser escritor e, portanto, queria ir, naturalmente, para a Faculdade de Letras. Ele tomou isso a sério, nem sequer fez troça, que era o que eu teria feito se uma filha minha me dissesse que queria ir para pintura ou escultura, ou coisa parecida. Mas lembro-me de o meu pai me dizer, na altura, que, se eu queria ser escritor, o melhor seria tirar um curso técnico, que isso me daria uma preparação melhor. Eu penso que ele estava preocupado com a ideia de eu ter de ser professor de liceu e que tivesse uma vida mais ou menos difícil e triste, e achava que a medicina poderia ser uma via melhor para mim, além de que ele tinha alguns amigos médicos que eram pessoas de grande qualidade, como o Miller Guerra, um homem chamado Furillo de Andrade, que ainda é vivo, e é o único português que tem uma doença com o nome dele. Às vezes telefonava às sete da manhã, o meu pai atravessava a casa, desesperado, a avisar: «É o Furillo! É o Furillo!». Eu penso que essas pessoas também tiveram influência. Olhe, a biblioteca do professor Miller Guerra era enorme, colossal, tinha muitos livros, e eu ia almoçar a casa dele (era amigo de um dos filhos dele) e ficava a olhar para aquilo com ar guloso. Os médicos que eu conhecia interessavam-se todos pela literatura, pela pintura, pela música. Não eram, nem tinham nada a ver com os engenheiros da medicina que a gente vê hoje em dia, os rapazes e as raparigas que acabam o curso agora, e, portanto, embora não gostasse do curso, lá fui matricular-me em medicina. E, de facto, não gostei nada do curso até ao fim. Não estudava nada, estive três anos no primeiro ano. Entrei para a Faculdade com dezasseis anos, dediquei esse ano a escrever, nem fiz exame nenhum. No segundo ano, fui a exame sem saber literalmente nada, o que foi muito aborrecido porque o professor escreveu uma carta ao meu pai a dizer que «o seu filho veio aqui, não sabia nada, tive que o reprovar», e o meu pai apareceu-me com a carta, com um ar muito triste… A partir daí, pronto, não reprovei mais. Também, rapidamente, descobri que não era difícil passar na faculdade. E tive a sorte de haver alguns mestres excepcionais, o professor Cid dos Santos, pai do pintor Reynaldo dos Santos, que era um homem de uma qualidade excepcional e tocava piano no consultório, ou outros, como Celestino da Costa, Juvenal Esteves. Eram homens como eu penso que já não existem. Lembro-me dos professores de psiquiatria, como o Barahona Fernandes, que tinha uma enorme biblioteca, impressionante – ele era casado com a filha do maestro Vianna da Mota e tinha não só a sua enorme biblioteca, mas também a biblioteca de Vianna da Mota. E foi assim que acabei de tirar o curso de medicina… No meio de livros…

 

Você estava fascinado pelo mundo dos médicos, mais do que pelo mundo da medicina…

Por esses médicos que, de facto, eram figuras excepcionais. Julgo que não existem hoje pessoas dessa craveira intelectual e moral…

 

Como é você como médico? Quais são os seus tiques?

Eu já não sou médico, atenção…No início, o que me chocava mais era o poder médico, quer dizer, uma pessoa vai ao hospital e tanto podia levar uma pastilha como ficar ali para ser operado… O poder médico assustava-me muito. Uma pessoa tanto pode levar uma consulta, como uma palmada nas costas, como um electrochoque, e as pessoas entregam-se muito confiadamente nas mãos de um médico. Lem­bro-me de estar no internato geral, e aparecia uma pessoa com uma dor na barriga em Santa Maria. Operava-se o apêndice para fazer curriculum, mas, muitas vezes, era uma cólica ovárica ou outra coisa qualquer… Portanto, essa sensação de poder, para mim, era muito amedrontante, era um poder discricionário, indiscutível e indiscutido. Depois, percebi que a gente só diagnostica aquilo que conhece, por muita intuição que tenha. Hipócrates tinha uma frase muito bonita acerca da medicina: a arte é longa, a vida é breve, a experiência é enganadora, e o juízo difícil. Isto aplica-se a qualquer arte, está claro. Para ser um médico honesto, tinha de saber medicina, não era justo uma pessoa morrer por um erro de diagnóstico. Quando já estava no internato de psiquiatria do hospital Miguel Bombarda, apareceu um rapaz de trinta e dois anos com um delírio megalómano a quem eu fiz um diagnóstico de psicose paranóica, mas, de facto, ele tinha uma sífilis, aquilo era um delírio mega­lómano típico da sífilis. Bom, ele morre, e levado para o Instituto de Medicina Legal com o diagnóstico de psicose paranóica e, na autópsia, descobre-se que é sífilis. O director do hospital, na altura, mandou-me chamar e disse: «Este doente morreu por sua causa, você fez o diagnóstico mal feito, era uma coisa que se podia curar com penicilina…» Este foi o episódio mais dramático que eu tive. Quando fui para África, ainda que contasse com pouca experiência cirúrgica, tinha de fazer amputações, tinha que fazer essas coi­sas tramadas que há a fazer em tempo de guerra… Então, levava o tratado de cirurgia, o furriel enfermeiro, que não podia ver sangue, ia-me lendo aquilo tudo, os procedimentos, e eu ia operando. Felizmente nunca nos morreu ninguém assim. Portanto, a minha rela­ção com a medicina era essa. Melhor, servia, em primeiro lugar, para ganhar dinheiro, porque, entretanto, tinha uma filha, depois tive duas filhas, e trabalhava muito. Depois, quando voltei de África, fazia bancos em vários sítios porque ganhava muito pouco dinheiro como interno e, depois, chegava a casa e continuava a escrever. Mas, mesmo em Angola, mesmo debaixo de fogo, mesmo nos abrigos, eu continuava a escrever sempre. Por um lado, funcionava como anti depressivo e, por outro, tinha a sorte de estar com o Ernesto Melo Antunes, que era o meu capitão. Recebíamos imensos livros, líamos muitos livros. O relacionamento com o Melo Antunes foi decisivo para mim e é uma amizade que ainda hoje dura…

 

E a quem dedica este livro. Mas ainda não respondeu…

Em relação à medicina? Olhe, tem a ver com o interesse de cada um. Veja o caso do João: a medicina é o interesse principal da vida dele, tal como a arquitectura é do Pedro, como ser jurista é o interesse principal do Miguel, como ser diplomata é do Manuel, a neurologia pediátrica do Nuno… O meu foi sempre a literatura, a medici­na era uma espécie de segunda profissão, era o que me dava dinheiro… Quando aparece o Memória de Elefante é que já deixou de ser tanto, porque o livro vendeu muito e estive para abandonar o trabalho no hospital. Só que, entretanto, houve uns problemas com o editor, fomos para tribunal, houve dinheiro que não pagou, etc.

 

Qual é o seu balanço desses primeiros anos de escritor?

É muito estranho. O Daniel Sampaio andou com o livro por todos os editores, e foi recusado em todo o lado. Até que eu fui de férias com as miúdas e, quando regressei, estava o livro nas montras das livrarias. Isto foi em 1979, o livro já tinha feito duas ou três edições durante o Verão… Foi tudo muito estranho e muito rápido. No lançamento do livro, nas instalações da editora, que era ali na Rua Jorge Ferreira de Vasconcelos, estavam dez pessoas. Mas ninguém ligado a escrita. Estavam alguns amigos meus, amigos do editor e uns copos de vinho branco, uma coisa de pequena aldeia. Lembro-me de ter chegado, depois das férias, e de ver o meu nome nas montras…

 

Qual foi a sua reacção?

Um misto de vergonha e contentamento. Logo a seguir, saiu Os Cus de Judas e, depois, foi esta bola de neve… Em 1980, recebi uma carta de um agente e não respondi. Pensei que era uma piada e não respondi, pronto. Depois começaram as traduções, por aí fora, e é ainda o mesmo agente. Foi como Ihe disse, tudo muito rápido. Na altura das recusas do Memória de Elefante, já estava pronto Os Cus de Judas e já estava a escrever o terceiro. As editoras são muito cruéis para as pessoas que começam, porque nem sequer respondiam, e eu não tive coragem para insistir. Não conhecia nenhum escritor, nem nunca tive a coragem de mandar o romance a alguém só para saber a opinião. Tal como agora acontece em relação a mim. Recebo muitos originais, tenho a cómoda cheia… Mas eu não tinha coragem. E, felizmente, só comecei a conhecer escritores depois de os livros saírem. Nessa altura não conhecia ninguém do mundo literário, e lembro-me de que ia, ainda adolescente, espreitar os génios para os lados do Chiado: o Aquilino, o Ferreira de Castro… Havia uma cervejaria ao lado do Jardim Zoológico, chamada Coral, onde comiam a Natália Correia, o David Mourão-Ferreira, o Namora… Havia uma tertúlia na Sá da Costa, outra na Bertrand, e eu ia lá e fingia que comprava livros, mas a intenção era só a de olhar para eles… Lembro-me de ver o Namora, quando descia a Baixa, e da admiração que sentia por ele. Aos quinze anos, a gente gosta de livros muito maus. Ainda hoje gosto de livros maus, mas houve uma altura em que gostava muito mais…

 

De que livros maus gostava?

Lia tudo, como continuo a ler tudo… É aborrecido pessoalizar, mas você sabe, são aqueles romances que a gente lia aos quinze ou dezasseis anos e que agora… Se chegar a feira do livro e vir os livros do Namora, que era um escritor com imenso sucesso nos anos cinquenta, a cem escudos ou pouco mais e ninguém lhes pegar, é um bocado chocante… Mas, na altura, para mim, o Domingo à Tarde, que descobri com o João, ou os Retalhos da Vida de um Médico eram coisas de primeira linha. Achava esses livros uma maravilha, contra a opinião do meu pai, que achava aquilo tudo muito mau. E, como contrapartida, dava-me a ler os escritores favoritos dele, os grandes russos, alguns bons franceses, os ingleses, por aí fora…

 

O seu pai exerceu uma função determinante na sua formação, inclusive até na literária…

Isso acontece com todos nós, sobretudo através do exemplo. Não tanto através de ordens, conselhos ou opiniões, mas sobretudo através do exemplo. Ele é, realmente, um homem de uma grande visão, de superior inteligência, de grande sensibilidade…

 

Você disse, uma vez, que o seu pai não tinha gostado do Memória de Elefante

Na altura mostrei-lhe o livro, e ele disse: «É um livro de principiante». E tinha toda a razão. Depois, estranhamente, gostou de Os Cus de Judas. Quando voltámos a falar do assunto, vi que tinha gostado do Fado Alexandrino que, aliás, tinha nascido de um desafio lançado pelo meu pai. Ele dizia que eu só seria um escritor quando escrevesse um romance de peso, com muitas páginas, a sério… Escrevi parte desse romance em Nova Iorque, onde estava com o João, no intervalo do basquetebol, que é um espectáculo deslumbrante. À noite, íamos ver os jogos e, durante o dia, ficava em casa a escrever. Ele tinha uma casa muito agradável, com uns esquilos no jardim e uma varanda onde tomávamos chá. Havia também uma criada espanhola… O João ia para o hospital, e eu ficava a trabalhar nesse livro. Nessa altura, já tinham saído algumas traduções e a primeira do Fado foi na Random House nos EUA, justamente. Depressa me apercebi de que, conquistando o eixo Nova lorque-Berlim, por exemplo, o trabalho de divulgação no estrangeiro fica muito facilitado. Não calculava que a crítica alemã tivesse tanta importância na Europa, muito mais do que a francesa… A crítica alemã é decisiva, não só nos países do Leste europeu, como para os países nórdicos…

 

Houve, nessa matéria, alguma estratégia deliberada da sua parte?

Nunca tive. Da minha parte, não. Se alguém teve, foi o agente. Mas tam­bém, de início, ele andava com os livros pelas editoras, e ninguém os queria… Depois, em 1981, salvo erro, saiu uma edição norte-americana, depois saiu uma francesa, e depois foi um pouco uma bola de neve… E tive a sorte de As Naus ter sido publicado na revista da Universidade de Nova Iorque, o que foi muito importante para mim, mas, de facto, parece-me, com as conversas que vou tendo com os editores, que a Alemanha é o país-chave da Europa… E os jornais alemães têm óptimos suplementos literários, excelentes, bem feitos, as criticas são bem feitas… Não é como as pessoas que escrevem sobre livros em Por­tugal… Isto é muito pequeno e há muita inveja, há má-fé e há cobiça, tenho visto classificar livros que me parecem bons no fundo do poço e tenho visto pôr nas nuvens livros que não me parecem grande coisa…

 

Dê um exemplo…

É sempre maçador dar exemplos… Da mesma forma que o Namora era considerado um génio nos anos cinquenta, têm aparecido outras pessoas depois… Reparou que, em todos os séculos, havia um escritor melhor do que o Camões? Olhe, o Tomás Ribeiro no século XIX, o desembargador Gabriel Ferreira de Castro no século XVIII… Todos considerados melhores do que ele! Mas acabaram por passar, e o Camões fica! É como o Pessoa, que me parece, apesar de tudo, melhor que o Tomás Ribeiro!

 

Você disse logo em 1992, numa entrevista, que Ihe ‘deram pancada nos livros’ e que os seus romances nunca tiveram grande recepção em Portugal senão depois de terem começado as traduções no estrangeiro. Acha que, em Portu­gal, não reconhecem a sua importância como romancista? Ou acha que a opinião da crítica é sempre marcada por invejas?

Ao princípio, ficava magoado. Agora, não. Agora, às vezes, quando as críticas são elogiosas em Portugal, dá-me a sensação que os defeitos encontrados não são esses e que as qualidades apontadas também não são essas. É que, muitas vezes, a gente acha qualidades defeitos disfarçados… Já reparou? Defeitos mais ou menos maquilhados… depois, a gente promove-os a qualidades quando não sabe da coisa literária. O Picasso dizia que a pintura se aprende como o chinês. Conheço uma rapariga que acabou o curso de jornalismo e foi para crítica de artes plásticas nessas revistas de senhoras… É impossível! Não sabem! Muitas vezes há até pessoas com uma intuição extraordinária ou só muito inteligentes, mas é muito difícil ser um bom crítico antes dos trinta e tal anos, como é difícil escrever um bom romance antes dessa idade. É preciso ter vivido primeiro, do meu ponto de vista, e, muitas vezes, põem-se meninos e meninas de vinte anos a escrever críticas. E há outros que também escrevem romances. É muito raro aparecerem bons romances antes dos trinta anos, muito raro. Um tipo só pode fazer uma coisa de jeito depois de ter passado pelas coisas. Se não viveu, os livros até podem estar ‘tecnologicamente’ correctos, mas não há ali mais nada. A experiência de vida cada vez mais me parece fundamental…

 

E quais são as experiências de vi­da mais marcantes para si?

Tudo. Lembro-me da tuberculose que tive quando era pequenino. Eu estava deitado na cama, e as pessoas estavam em pé, à minha volta. Era muito estranho, mas isso marcou-me. Antes tive uma meningite, mas dessa não me lembro. Também tive a sorte de ter uma infância muito boa, passada em Benfica que, na altura, era um microcosmos das várias classes sociais, tudo aquilo misturado, larguinhos, pracinhas. Agora nada disso existe… Mas lembro-me de ir buscar o leite todos os dias. Leite fresco, a sério… Havia um investimento na cultura e no desporto, e nós, lá em casa, chegámos a jogar no Benfica. Isto foi há muito tempo, eu tinha quinze anos, e o João a caminho — foi um dirigente do Benfica a casa do meu pai oferecer-nos, na altura, quinhentos escudos, ou lá o que era, para nós nos transferirmos para o Benfica. Imagine que, já nesta altura, e naquela modalidade sem importância nenhuma, se pagava dinheiro para os miúdos jogarem. Eu lembro-me de, um dia, nos balneários, estar a ver fotografias das várias equipas e de haver uma em que estava o meu pai com uma camisa verde por baixo da camisa do Benfica. Perguntei-lhe: «Porquê a camisa verde debaixo da outra?» E ele disse: «Sei lá quem é que lavava as camisolas!» Lembro-me perfeitamente desta frase.

 

Qual era a sua modalidade no Benfica?

Hóquei em patins. Começámos a patinar muito cedo, porque íamos para o Jardim Zoológico onde estava aquele senhor preto todos os domingos, havia aquelas meninas todas vestidas de branco, pareciam anjos, davam piruetas debaixo daquelas árvores…

 

Como é que aparece a literatura no meio disso tudo?

De uma forma muito engraçada, porque eu chegava dos treinos e ia ler e escrever. Em parte às escondidas, para não pensarem que eu não estava a estudar. Ainda hoje tenho esse hábito, por exemplo, que é o de esconder o que estou a fazer… Ainda escrevo, como nessa altura, em blocos pequeninos. Ora, quando ouvia passos no corredor, mudava a ordem das coisas que eu tinha à minha frente, livros de estudo e essa trapalhada toda, e punha o bloquinho em baixo, para os meus pais pensarem que eu estava a estudar. Entretanto, como eu perdi esses anos todos na faculdade, o João, que era mais novo, apanhou-me facilmente… Ele foi sempre brilhante e sublinhava o que é que eu tinha de estudar para os exames. E eu só estudava aquilo. Foi uma experiência boa, porque havia uma outra personagem fundamental para nós que era o meu avô, pai do meu pai, um militar. Era um homem duma coragem lendária, um homem que andava à porrada com a Filarmónica de Benfica inteira. Teve dois desgostos na vida, nesses tempos: um deles era que o neto mais velho, eu, não fosse nem monárquico nem muito católico. O outro teve-o quando soube que eu escrevia, que escrevia umas coisas por aí, em caderninhos. Chamou-me, inquietíssimo, a perguntar: «Ó filho, tu és maricas?» Para um oficial de cavalaria, escrever era sinónimo de mariquice… A angústia dele era ver o neto maricas! Jurei-Ihe que não era maricas e aproveitei para Ihe fanar um maço de Português Suave, que eram umas caixas de cartão que ele tinha sempre na gaveta, e ia fumar com o filho do caseiro para o jardim da quinta em Benfica… A chumbada com o meu avô era aos sábados de manhã quando tínhamos que ir montar a cavalo para Cavalaria 7… Eu detestava os cavalos. Era um frete o ca­valo. O João e os outros meus irmãos, acho que gostavam, mas, para mim, era um tormento. Ainda por cima, eu tinha os rins habituados ao hóquei em patins, andava curvado pelo ringue. Portanto, era terrivelmente difícil montar a cavalo no picadeiro da Ajuda. Para mim, aqueles sábados eram tormentosos, mas ele era um avô espantoso, pegava em nós todos, levava-nos ao Jardim Zoológico, ao Coliseu… Era um homem espantoso, morreu quando eu tinha dezoito anos, e todos os dias me lembro dele. Falava de coisas que para mim eram estranhas e fascinantes, encantadoras, porque ele era filho de ‘brasileiros’, de família do Brasil, e as histórias que ele contava falavam de um universo que provocava imenso a imaginação de um miúdo que se alimentava de Sandokans, de Júlio Verne, de que ainda hoje continuo a gostar muito… Havia em casa dos meus avós um livro do Júlio Verne, de capa encarnada, dura, muito antigo, com gravuras fascinantes… Lembro-me até de alguns diálogos… É um belíssimo escritor e estimulava a escrever. O Júlio Verne e mais o Mundo de Aventuras, mais o Cavaleiro Andante, mais os escritores que a gente ia descobrindo. Como eu era um tipo introvertido e fechado, acabava por brincar sozinho, e, aqui há uns tempos, a minha mãe dizia que se lembra de mim sempre a escrever, sempre a escrever. A ideia que eu tenho do final da minha infância e da minha adolescência passa-se entre ler, escrever e jogar hóquei e futebol…

 

Não tinha amigos?

Tinha muito poucos amigos. Nunca tive muitos amigos, de resto. E, amigos íntimos, quem tenho eu? O Ernesto Melo Antunes, o Zé Cardoso Pires, o Daniel Sampaio, não tenho mais… Há, é claro, pessoas que eu estimo, de quem eu sou amigo, mas não com esse lado de intimidade. Mas há pessoas notáveis como o Pedro Tamen, que eu acho um poeta de grande categoria, do meu ponto de vista. E outras pessoas assim, como o Mário Cláudio, com quem eu tenho uma relação muito agradável, muito boa, e que tem sido sempre muito generoso para mim…

 

Como é que você se dá com o meio literário português?

Não há muito tempo. Dantes, as pessoas encontravam-se nos cafés, nos bares, mas agora não há tempo para nada disso. Bom, por mim nunca fiz vida de café… Mas também tenho os dias por minha conta…

 

O Mário de Carvalho dizia, um dia destes, que não tinha muita paciência para o lado social do meio literário, para ir aos lançamentos… Sei que você também não tem muito, mas isso pode ser confundido, muitas vezes, com uma certa arrogância em relação ao meio literário, com um certo sentimento de superioridade…

Para mim, os lançamentos e as inaugurações de exposições são sítios pouco agradáveis, cheios de conflitos… E, depois, não tenho muito a dizer às pessoas, nem muito para ouvir. Cada vez mais, essas pessoas cansam-me. Ao fim de uma ou duas horas, fico cansado e apetece-me estar sozi­nho. Aquilo que dizem não me interessa muito, e aquilo que eu Ihes digo, provavelmente, também não Ihes interessa muito a eles…

 

Por que é que você se cansa das pessoas?

É uma coisa que anda a acontecer cada vez mais. Mas também outras… Ando a gostar cada vez mais de sopa, comecei a gostar de sopa. É muito curioso, porque o nosso universo vai ganhando outra dimensão, vai-se estreitando… Olhe, o prazer que o futebol me dava já não me dá, já não me interesso pelo Benfica, até aos trinta e tal anos ia todos os domingos aos estádios, mas agora já não vou…

 

Isso é porque o Benfica anda a perder…

Não, isto aconteceu-me quando o Benfica ainda ganhava jogos e conquistava campeonatos. Mas, mesmo ir ao cinema, começo a pensar que é uma maçada, começo a pensar que tenho de arrumar o carro, de voltar para casa… A minha vida é simples porque, quando não estou a escre­ver, tenho muito tempo. Por exemplo, a partir do mês que vem, não vou ser capaz de trabalhar antes do Verão e, portanto, vou ter quatro ou cinco meses sem fazer literalmente nada. Vou aproveitar para ler mais ainda, isso é uma coisa que aumenta cada vez mais em mim, o prazer de ler. Cada vez mais, até livros maus. Outro dia, li um livro da Jackie Collins e adorei! Tinha uma descrição fabulosa de um felatio, uma descrição extremamente bem feita, logo a abrir o livro. É um tipo de descrição muito difícil de fazer… Lembra-se da descrição da primeira relação sexual dos dois velhos no Amor em Tempos de Cólera, a delicadeza com que ele descreve aquilo?…

 

E muito dificil escrever sobre sexo… Pode cair-se facilmente no piroso.

Pois pode, e é o mais tentador. Escrever sobre sexo é muito difícil, de facto. Nunca fui capaz de escrever uma cena de sexo… O Orson Welles dizia que havia duas coisas que não se podiam filmar: um acto sexual e uma pessoa a rezar. Mas essa cena de sexo entre os dois velhos, escrita pelo García Márquez, é muito boa, muito bem feita. Eu não sou um grande fã do García Márquez, mas devo reconhecer que é um grande escritor, mas não sou grande fã. Prefiro outros sul-americanos, como o Juan Rulfo, mas acho esse romance do García Márquez um romance notável, um grande livro em qualquer parte do mundo…

 

Você falou do Juan Rulfo, mas o Pedro Páramo não tem nada a ver com a sua maneira de escrever…

Pois não, mas gosto, escreve de uma forma tocante. É um homem muito amargurado, como o Ernesto Sábato, outro escritor admirável. Escreveu três romances, era professor de física atómica… Olhe, tenho uma fotografia muito gira com ele em Paris. Temos o mesmo agente… É um homem muito alto, calado, secreto…

 

Quais são os romances que recorda com mais emoção?

Em primeiro lugar os do Salgari, com aquelas aventuras todas. Depois, os do Júlio Verne. Aos treze ou catorze anos, tive a descoberta dos franceses, com aquela gente, Sartre, Camus, Malraux, que rapidamente me desinteressaram, porque rapidamente descobri os ingleses e os norte-americanos. Graham Greene foi uma grande descoberta para mim. É um escritor que eu ainda hoje admiro. Gosto de ler os livros dele, mas não gostaria de os ter escrito. Mais tarde, foi a descoberta do Simenon, que continuo a achar um grande escritor, homem de três ou quatro frases, espantoso com aqueles ambientes e o modo de descrever as personagens. Depois, ainda, foi a grande descoberta dos russos, com o Tolstoi, o Tchekov… Sobretudo estes dois, e até o Dostoievski, mas muito, muito menos. O Dostoievski era um bocado aborrecido. Mas o Gorki é que me enerva. Aqueles livros davam uma grande vontade de chorar, livros chuvosos, cheios de chuva e de lama, uma coisa horrorosa. Finalmente, a descoberta dos ingleses e dos norte-americanos do século passado, que, para mim, foi decisiva na minha formação.

 

É curioso isso que você diz: gostar do Tolstoi e não gostar do Dostoievski, porque Milan Kundera diz que há duas linhas fundamentais na história do romance: uma que vem de Tolstoi e outra de Dostoievski. Uma ligada ao romance—problema e outra, se quiser, a de Tolstoi, ligada ao ‘romance de história’.

Eu não defendo nem ataco, mas comecei por ler o Tolstoi na adolescência. Ana Karenine e depois o Guerra e Paz, que são dois livros fabulosos…. Todas as pessoas são felizes da mesma maneira, mas as pessoas infelizes, meu Deus, é dramático… A Morte de Ivan Ilitch é uma obra-prima, parece-me a mim. E o Moby Dick, do Melville, ou as histórias de Stephen Crane…

 

A Insígnia Rubra da Coragem…

Espantoso. Aquele sofrimento da guerra...

 

Disse, há uns anos, que uma das razões por que preferia viver em Portugal é porque queria mostrar como é que se fazia um romance. Ainda continua a tentar? Ou gostava mesmo era de viver no estrangeiro?

Uma vez fui para a Alemanha com um convite da cidade de Berlim, em 1984 ou 1986, já não me recordo, e era tremendo, ninguém falava a minha língua, não havia Portugueses. Também estive em Paris a escrever metade de um livro, estive em Nova Iorque muito tempo, já Ihe contei… Mas foi sempre muito difícil estar longe de Portugal, deixar de ouvir a minha língua. A língua, sobretudo… Eu gosto desta terra. Nós somos feios, pequenos, estúpidos, mas eu gosto disto. Quando estava mais tempo longe, chegava ao aeroporto e via polícias e tinha vontade de beijar os polícias. Palavra de honra! Mas, em momentos de desespero, apetecia-me era ser angolano. Estive lá durante a guerra, e era o país mais bonito que eu conheci. Angola. Era uma terra de uma ternura, de uma beleza! Tudo era novo, tudo flutua, a terra dava arroz, girassol, algodão duas vezes por ano, e uma paisagem daquelas… As noites são enormes, e o que era estranho para mim era o céu, que é completamente diferente do nosso. Não se vêem as Ursas, vê-se o Cruzeiro do Sul… Não tenho saudades de nenhum lugar, mas de África tenho muitas saudades. Há uns tempos, convidaram-me para ir a Africa, mas as cidades de que eu gostava já não existem, foram destruídas pela guerra civil… Olhe, Malanje. Não me importava de viver em Malanje, na Malanje que eu conheci…

 

O seu novo livro fala de África…

É todo sobre Africa, a volta de Malanje. Há lá um sítio chamado Baixa do Cassanje em que a gente via vinte hectares de algodão e de girassol, era muito engraçado ver aquelas flores a abrirem os olhos, enormes, voltadas para o sol…

 

Vão acusá-lo de neocolonialismo…

E eu nas tintas. Mas não sei. A verdade é que não me preocupa muito. Este livro é todo sobre os colonos de África, um livro sobre a vida em África até 1961. Depois salta de 1961 para 1975, sem falar da guerra colonial…

 

Qual é a história do livro?

É sobre uma mãe, que está em An­gola, e três filhos que ela pôs no barco para cá em finais dos anos setenta. É um livro com trinta capítulos e três partes… Eu penso que tenho vindo a aprender a escrever e acho que o livro marca um passo muito grande em relação a este [O Manual dos Inquisidores]. São só quatro pessoas. Penso que, ao nível da escrita, está muito mais maduro, sério, bem construído. Como tenho estado a trabalhar nele nos últimos dias, acho que marca um passo em frente. Bom, este foi tão bem recebido pela crítica, que não sei que adjectivos vão usar para o próximo! Já reparou que, com este livro, se fez a unanimidade em Portugal?

 

Não a unanimidade…

Está bem, O Independente diz sem­pre mal, isso não é relevante…

 

De que forma é que vê a relação dos Portugueses com África? É da África ainda portuguesa que você fala neste livro… Como é que vê, hoje, a memória dos Portugueses de África?

A situação dos colonos, que nos achávamos — e eram — reaccionários, era muito complexa, porque eles tinham a sensação de ser os pretos dos brancos daqui…

 

Brancos de segunda?

Ou isso. Trabalharam aquelas ter­ras com muita dedicação. Devia ser terrível andarem a lavrar a terra com bois e os homens de colete com um calor insuportável, as mulheres com lenço na cabeça, xaile… Não estou a falar ao nível das pessoas muito ricas, mas ao nível do colono pobre. E há coisas espantosas, como o túmulo do Zé do Telhado. É um túmulo espantoso. Depois, falo de personagens que se distinguiram vindos do nada, como um que era soldado da Guarda Republicana e que ficou podre de rico com alguns negócios… É disso tudo que eu falo, da compra dos Bailundos cá de baixo, da maneira como os chefes colaboravam com o negócio, dos cubos de gelo pelo rabo acima para aqueles que não queriam trabalhar, dos enforcamentos que ainda vi. Era muito brutal tudo aquilo, muito estra­nho para um portuguesinho qualquer da Metrópole. Lembro-me de umas eleições de misses lá no Ferroviário local. Pois, nesse mesmo dia, assassinaram a miss eleita, a tiro… Era um faroeste cruel. Antes da primeira revolta, houve uma chacina na baixa do Cassanje, mataram mais de mil trabalhadores. O livro anda à volta destes pormenores, mas é evidente que isto é só o enredo de base. O Picasso diria que a intriga é o prego onde eu tenho os meus quadros, e o que me interessa é ao nível da escrita.

 

Só?

Bom, tem que ter uma história, mas isso a gente aprende nos americanos. Os romances ‘paralisados’, à francesa, é que não…

 

Você fala dos americanos, sobretudo dos ’seus americanos’, como se eles tivessem inventado a arte do romance. Mas você tem algumas histórias muito boas, e não são só os americanos que sabem contar histórias… Antes dos seus americanos já havia muita gente a escrever como você diz. Desde o princípio do mundo…

Pois, talvez. Mas, voltando à conversa, as inovações técnicas do Faulkner existem para servirem a narrativa que ele está a contar, enquanto que, muitas vezes, as inovações técnicas do Joyce são piruetas apenas… Do género: «Eu sou o Joyce, vejam como é que o Joyce brinca com as frases, vejam esta construção, vejam como ele sabe fazê-las bem…» Eu sou um grande admirador do Joyce, um leitor e releitor do Ulisses, e até das diferentes edições, por causa dos prefácios, mas há uma pirotecnia técnica que não está, muitas vezes, a servir a história. Isso prende-se com aquela noção do Tolstoi, que falava da arte do romance em termos de eficácia. Ele dizia que um bom romancista era um romancista eficaz, aquele que não se sacrifica à pirueta, à metáfora… O seu objectivo é a eficácia da narrativa.

 

Mas você tem diminuído aquelas metáforas que usava a princípio…

É aí que reside grande parte dos erros dos meus primeiros livros — eu tinha muito o desejo de mostrar como era capaz de fazer imagens bonitas, bom… que eu achava bonitas, ou me­táforas ou não sei quê. Todo o livro é que tem de ser a metáfora…

 

E este novo livro é a metáfora de quê?

De uma parte da nossa identidade. Os outros livros também tenho tentado que sejam, sobretudo a partir do Tratado das Paixões da Alma… Acho que os primeiros livros que escrevi são fraquinhos, os outros a seguir são promessas agradáveis, mas acho que, a partir do Tratado, os livros estão bem.

 

Sim, mas há referências permanentes…

As minhas opções é que são sempre as mesmas: a vida, a morte, a ausência de amor, a incomunicabilidade. Sob esse aspecto, tenho sido fiel. Mas todos vivemos com as mesmas obsessões. Por exemplo, antes de vir para esta entrevista estive a ler os seus livros de poemas, que tenho ali, e é curioso que, depois de passar para os seus romances, que também tenho, as suas opções também são sempre as mes­mas. São sempre quatro ou cinco: a água, a luz, o céu, os lugares e o perigo das paixões são coisas que aparecem com uma frequência imensa…

 

Mas há outro aspecto para além das obsessões. Por exemplo, quando você fala de amor… Nunca há uma relação nova que se inicia, há sempre fins de relação, restos…

Lembro-me do que o Columbano dizia: «não tenho fé, mas tenho muita esperança». Eu acho que também tenho pudor em mostrar isso, talvez por educação, por temperamento, mas, curiosamente, a crítica espanhola e alemã acham os livros optimistas e divertidos.

 

Por que é que não há nunca esses ‘começos’ de amor?

Isso tem, talvez, que ver com a minha relação com a morte e com a incompreensão que eu tenho perante o sofrimento. Quando eu era interno de pediatria, estavam na minha enfermaria muitos miúdos com doenças terminais. Não era bonito de se ver. Eu não me esqueço de ver miúdos e miúdas de quatro anos a chamarem aos gritos por uma injecção de morfina… Isto era comovente até às lágrimas, e era desesperante a sensação de impotência perante o sofrimento de pessoas que nunca tinham feito mal a ninguém. Era desesperante estar diante dessa injustiça. Lembro-me de uma miúda que tinha uma leucemia com treze anos e que se levantou e foi ao gabinete de enfermagem e, quando fui ver, ela estava a chorar porque tinha uma leucemia… Só conheci a morte muito tarde… Sou o filho mais velho de dois filhos mais velhos, os meus avós não tinham cinquenta anos quando eu nasci, não havia mortos, não havia nada, e, de repente, dou de caras com a morte nos hospitais. Em primeiro lugar, foi muito bom porque poucas coisas têm realmente importância quando se fala no sucesso. Tal­vez por isso esteja sempre presente em mim o fantasma da morte. E os fantasmas de tudo, do amor, da nossa própria morte. Acho injusto que o Bach, que é reconhecido só no século passado, praticamente não tenha podido usufruir nada do seu êxito! Acho que o Namora deve ter morrido feliz, era um escritor de sucesso. Depois, acho injusto, até ao nível da literatura, que certos escritores tenham sido esquecidos, como o Redol, tenho uma grande admiração pelo Redol, não me atrevo a dizer que um livro dele é mau, porque há ali trabalho de operário. Tenho uma grande admiração pelo Redol porque era um escritor a sério e acho que é um bom exemplo para nós todos que andamos a mexer nas palavras. Acho injusto o esquecimento em redor do Carlos de Oliveira… Quem é que lê, hoje, Carlos de Oliveira? A mim choca-me isto. Por isso é bom descobrir vozes novas, como eu agora descobri o António Franco Alexandre, um poeta extraordinário. Escrevi para o Publico sobre ele, que eu não sei quem é, não conheço, não sei o que faz, mas parece-me um escritor de grande qualidade.

 

Você parece o doutor Cunhal a fugir às perguntas…

Gosto do Álvaro Cunhal, não acho que ele fuja as perguntas… Aí está outro homem que eu admiro…

 

Você esteve próximo do PCP…

Sabe?, eu gostava de ser do PC, mas, para mim, é impossível. Se a estrutura do Partido não fosse tão ver­tical… gostava de ser militante, sim… Há um lado eclesiástico do PC que me repugna um bocado… A forte hierarquia, a ausência de debate aberto e alargado, isso assusta-me um bocado. Eu li uma vez uma entrevista do Mário de Carvalho em que ele explica por que é que é comunista, e pareceu-me muito romântico… A ideia que tenho dele é que me parece um homem extremamente bom, tem uma margem na política para o sonho, que eu não tenho. Quase todos os homens políticos foram uma profunda desilusão para mim, pelo menos aqueles que eu conheci pessoalmente…

 

Você é um homem permanentemente amargurado, magoado, sem­pre em sofrimento, parece que não tem momentos de alegria…

Então não tenho?! Eu acho que o facto de ser hipercrítico me impede de grandes demonstrações de afecto. Mas, de facto, não sou expansivo. O meu amigo Daniel Sampaio diz que eu tenho a depressão do sucesso: o sucesso nunca me deu alegria, os editores mandam livros meus acabados de sair, e eu nem os abro. Também, nunca li um Iivro meu, porque me dá logo vontade de começar a corrigi-lo e a emendá-lo, como até acontece muitas vezes com os livros dos outros. Dá vontade de me atirar a eles, mas não é por maldade. No fundo, a nossa opinião é sempre muito parcial, e temos tendência para repudiar tudo o resto… E depois confundimos paixões com ideias. É muito raro a gente apreciar um livro de um escritor de quem não gosta de dizer: «Eu não gosto, mas é bom!» E acontece: eu não gostava do Vergílio Ferreira, achava-o um tipo, enfim, um tipo de que eu não podia gostar, um bocadinho para o estupor. No entanto… Ele tem livros mesmo bons, bons a sério. Isto é verdade, e tenho que reconhecer. Há escritores de quem não gosto, e tenho que reconhecer que são bons. E é-nos muito difícil isto, a nós todos. Eu gosto do Camões porquê? Porque é da minha família. Fernando Pessoa não é, por exemplo. Gosto da sensibilidade do Camões, continuo a achar que ele inventou o português tal qual a gente o fala ou sente. Por exem­plo, o José Cardoso Pires adora a Peregrinação. Eu gosto, mas… acho aquilo, enfim… Agora quanto à amargura… Eu não tenho grandes depressões, mas tenho momentos de zanga, de desespero, cada vez mais. O difícil vai ser, agora, passar estes próximos quatro ou cinco meses sem escrever, porque aquelas coisinhas que eu faço para o Público são puramente alimentares… Qualquer jornal que me pagasse, eu fazia também…

 

Como é que você encontra os temas para as crónicas?

Isso é um sarilho. Veja esta última que escrevi… Aqui há uns tempos foi-me proposto fazer crítica literária. Não me acho capaz de a fazer, mas apeteceu-me falar daquele livro que me tinha tocado, os poemas desse An­tónio Franco Alexandre. Eu começo sempre por dizer que me interesso pouco pela história da literatura portuguesa e que os escritores portugueses me surpreendem, geralmente, pela negativa. O Júlio Verne tinha um sistema engraçado… O gabinete dele era uma grande confusão, tudo cheio de papéis, de cadernos, de estampas de livros… Então, quando acabava uma página, punha-a debaixo do rabo para não a perder. Os escritores portugueses deviam fazer isso para não se perderem a si próprios… Há escritores que encontram uma fórmula que fez sucesso e que optam sempre por aquele tipo de escrita. Parecem uma fábrica de pastéis de nata! Mas a nossa relação com os livros é curiosa, por­que acabamos sempre por ir comprar um grande livro, um Simenon ou parecido, à procura de uma certa atmosfera que, ao mesmo tempo, nos irrita… Até os escritores que nós admiramos, sobretudo esses, nos irritam. Irrita-nos aquilo que a gente vai procurar, é muito engraçado, temos uma relação muito ambivalente em relação aos escritores de que gostamos… Então, vamos à procura de uma coisa e queremos que eles fizessem outra?! E depois dizemos «perdeu frescura», ou fomos nós que perdemos frescura? Como é que trabalham os nossos olhos em relação a eles? É muito complicado, até porque, quando a gente anda a trabalhar com livros, são capazes de aparecer sentimentos próximos, muito próximos da inveja, do ciúme, inevitavelmente. E é muito complicado lidar com o sucesso, muitas vezes…

 

Como é que você lida com o seu sucesso?

Acho que cada pessoa tem o direito a pensar a sua realidade, durante algum tempo, como se fosse a única no mundo. Às vezes, há pessoas que vão à televisão, ao seu programa, e que fazem umas figuras… De resto, tenho reparado que os escritores com mais talento são os mais modestos. Das pes­soas que lá tem levado e que eu tenho gostado de ouvir, as que têm mais talento são as mais modestas e as mais abertas. Às vezes tem a ver, só, com a honestidade. Há aí um homem, o Vasco Graça Moura, que não gosta de mim nem eu gosto dele como pessoa, mas parece-me um tipo honesto. Eu acho que ele parece um homem hones­to, bom poeta, bom escritor, e a tradu­ção que ele fez do Dante, e que Ihe dá o prémio, é muito boa… Quer dizer, a tradução pareceu-me excelente, do meu ponto de vista… Traduzir poesia é muito difícil, é tramado. Olhe, o Cavafy traduzido pelo Sena é uma merda… Ele não era lá muito bom tradutor: traduziu as Palmeiras Bravas, do Faulkner, e O Velho e o Mar, do Hemingway, de uma maneira… Não percebeu nada. E depois faz aquele romance que é um pastelão e que a malta gosta de ler, Sinais de Fogo. Mas, também, a malta também gosta de ler o Mau Tempo no Canal, que parece uma sopa de pedra! E nós temos excelentes romances, Casa Grande de Romarigães, que é uma delícia de romance, Finisterra, Barranca de Cegos, O Delfim, por exemplo, etc. Mas há mais, como o Casas Pardas… Não somos assim tão pobres quanto isso… O Que Diz Molero, quer queiramos quer não, é um livro muito engraçado, abriu muitas portas. É um livro muito engraçado…

 

Continua a escrever, dias inteiros?

Catorze ou quinze horas por dia, sábados e domingos, sempre ou quase sempre. Todo o tempo me faz falta, até as horas das refeições, porque, neste momento da minha vida, o trabalho é-me cada vez mais importante e me leva a corrigir, a corrigir, a corrigir… Aquilo que acaba por ser publicado é aí um quinto da primeira versão.

 

Faz muitas versões de cada livro?

Faço duas à mão, primeiro, e depois aí umas três, quatro ou mesmo cinco já em dactilografia, mas sempre a cortar. Havia escritores que acrescentavam: Camilo, Proust… Eu tiro, tiro, tiro…

 

O que é que gostava que acontecesse a este novo livro?

Que fosse feliz, claro. Que fosse o melhor. Aquele homem, o Cabrera Infante, o autor de Três Tristes Tigres, o Cabrera diz que a gente escreve não para ser lido, mas para ser escrito… Não sei… Para mim, agora, a opinião fundamental é a do meu agente, que me diz sempre na cara aquilo que pensa e que é o primeiro leitor. O livro não vai sair cá em Portugal logo, até porque eu acho que não há público para ler um romance por ano em Por­tugal. Tenho de mandar o livro para o agente e para os editores estrangeiros com quem já tenho o contacto feito, e, depois, aqui em Portugal se verá… Até porque este livro [Manual dos Inquisidores] continua a vender bem e, portanto, vou deixá-lo viver…

 

Só vai publicá-lo no Natal?

Sim. O Manual dos Inquisidores esteve um ano e tal à espera de ser publi­cado aqui. Saiu primeiro em França, as outras editoras atrasaram-se com a tra­dução, vamos ver o que vai acontecer… Primeiro, é preciso eu estar satisfeito, e eu já estou satisfeito com ele, mas nunca me importei que não gostassem dos meus livros, desde que o façam com boa-fé. Nunca respondi a nenhuma crítica porque há pessoas que não gostam de um livro, escrevem isso mesmo e o fazem de boa-fé… Isso não me importa. Agora, quando as coisas são feitas com burrice e com má-fé, isso choca-me. A única vez que falei sobre um livro foi na primeira crónica do Público, sobre um livro do Mário Cláudio, que é uma pessoa que eu estimo e que respeito e que foi completamente crucificado por uma crítica ao Tocata para Dois Clarins, e eu achei tremendamente injusto. Foi cruci­ficado por toda a parte… No Expresso, no Independente, até no Diário de Notícias, onde uma menina qualquer, uma patetinha, escreveu as maiores burrices sobre o livro, sem ter havido um esforço para entender o trabalho daquele homem… Eu acho que é um livro notável, do meu ponto de vista…

 

Os escritores Portugueses são mal tratados em Portugal?

Não… Eu acho que não tem relevância uma crítica boa ou má dum senhor qualquer ou da menina não sei quantas… Acho que é mais relevante o Eduardo Prado Coelho escrever sobre o livro, mesmo que não goste. Porque tem outra inteligência, tem outra maturidade. Ou o Eduardo Lourenço, ou o Óscar Lopes, com quem eu muitas vezes estou em desacordo, mas não interessa. Tem um peso de honestidade e de seriedade, quer a gente queira ou não. Nisso, o Jorge de Sena tinha razão: quando a crítica é feita por um escritor, ele está a falar de qualquer coisa que conhece de dentro e, então, pode dizer coisas muito mais inteligentes. Por exemplo, o José Cardoso Pires seria um excelente crítico, se quisesse…

 

Porque é que não há muitos escritores a fazer crítica em Portugal?

No estrangeiro, há… Eu não me importava nada de fazer crítica, mas só a livros de que gostasse. Penso que é uma questão de preço; os escritores ganham tão pouco em Portugal que, se fossem bem pagos, faziam com certeza… Olhe, ninguém discute o Pré­mio Nobel da Física, mas toda a gente se acha capaz de discutir o Prémio Nobel da Literatura, como se a literatura fosse uma coisa simples e acessível…

 

Mas romances toda a gente lê, pode ler, enquanto que a investigação em física ou biologia…

Isso é verdade, mas vacinas toda a gente toma! Todos nós temos opiniões sobre pintura ou sobre música, ou não sei quê, e saber, de facto, de literatura é muito complicado. Eu ainda estou a aprender… Então, um livro bom, em que não se vêem as costuras, nem os parafusos, nem as porcas, a gente tem que ler duas e três vezes para ver onde é que o escritor hesitou, onde é que ele teve problemas… A gente vê um livro mau, por exemplo, de um homem de que eu gostava multo, como o David Mourão-Ferreira… Um Amor Feliz, do meu ponto de vista, é um mau romance. Quando Ihe aparece uma dificuldade técnica, faz a pirueta de um poema… Bolas, quer dizer, isso é uma das razões por que eu acho aquilo um livro que não convence nada. De cada vez que apa­rece um problema, o narrador dá uma cambalhota, ou com uma imagem, ou com um poema, ou com uma carta. Isso, não… Olhe, por exemplo, o Fitzgerald, que eu acho um excelente romancista… Quando ele tem uma dificuldade técnica, torna-se muito mais precioso, desce ao pormenor do pormenor, fica uma filigrana… O Grande Gatsby é um romance quase perfeito, não é? A gente vê grandes romances, como, por exemplo, o Debaixo do Vulcão, que ninguém lê, não se fala nele… O Nuno Bragança, num outro plano, quando começa a ter problemas com A Noite e o Riso, lança-se numas piruetas de estilo… Porque se vê logo que ele estava com proble­mas na escrita do livro… Quando li a primeira vez, achei deslumbrante, foi uma descoberta! Depois, comecei a ler aquilo mais vezes e acho que, sem ele querer, acaba por ser responsável por muita merda que se fez depois, com uma série de indivíduos que desataram a escrever porcaria como se fossem modernos.

 

Quando é que você sente que um livro seu está terminado?

Exactamente da mesma maneira que o Freud dizia que uma análise está acabada. Uma análise está acabada quando eu e o paciente estamos, ambos, contentes… A certa altura, o livro já não aceita mais trabalho, é nessa altura que eu sei que já está acabado. Já escrevi livros suficientes para sentir isso. Eu, uma vez, vivi numa casa que não gostava de mim, o que, de si, já era horrível, era uma casa que me empurrava para a rua constantemente… O romance também faz isso connosco. No Manual queria pôr um travesti, à força, como amante do velho ministro. Andei para aí atrás dos travestis e a falar com eles — é um mundo espantoso, de uma crueldade e uma dor infinitas — e, depois, queria meter o tra­vesti e não conseguia! Acabou por entrar a tal Milá… Isso é muito curioso, porque o romance se transforma num organismo vivo, com regras próprias…

 

É muito lento a escrever?

Sou, o que não é virtude nenhuma. Mas eu trabalho todos os dias… Este país é que é muito preguiçoso. Eu acho que ele é preguiçoso, é um país que vai para os bares, para os cafés…

 

Você não vai para os bares?

Eu já não bebo, e os bares são coi­sas tristíssimas. Houve uma altura da minha vida em que eu andava muito com o Dinis Machado e com o Artur Semedo, era um grupo de pessoas engraçadas e divertidas. E eles bebiam, íamos para o Procópio, mas ao fim de uma hora estava farto, já conhecia as pessoas todas… Aliás, eram sempre as mesmas em todos os sítios… Mas eu sou uma pessoa fácil de viver porque não gasto muito dinheiro e também porque não me mexo muito…

 

Por mim, gosto de estar em casa, faço tudo para não sair…

Essa é a vantagem do meu traba­lho, de se ser escritor…

 

Como é que você passa as suas noites?

Trabalho, leio, às vezes vejo televisão, mas pouco… Estou com os amigos muito raramente. Com o Daniel Sampaio, almoço uma vez por mês com dia marcado, é uma tradição… Com o Ernesto Melo Antunes, tam­bém… Vejo mais o Zé [Cardoso Pires], de facto. Mas eu gosto de poupar os meus amigos, e com a idade a gente vai vendo cada vez menos as pessoas. Vejo as miúdas uma vez por semana, e a gente descobre que elas são diferentes de nós, que não são nossas. É espantoso, as filhas prolongam coisas nossas. Uma das minhas filhas tem as mãos iguais às minhas. Mas são outras pessoas completamente diferentes, isso é uma descoberta maravilhosa, ver crescer os filhos…

 

Não se sente sozinho?

Não, não me sinto sozinho… Tenho uma vida afectiva agradável, não me sinto sozinho… Antes, sentia-me horrivelmente sozinho, mas, de há uns anos para cá, não tenho sentido nada disso… Estava a lembrar-me do poema de Carlos Drummond de Andrade acerca do envelhecimento, um poema feito aos quarenta anos. O começo é assombroso: «Talvez uma sensibilidade maior ao frio, desejo de voltar mais cedo para casa…»

 

 

Revista Ler

Inverno de 1997

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