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Os donos do mundo

Outubro 1, 2007

As notícias de «deslocalização» de um par de grandes empresas agitaram o País. Os comentadores concordam em afirmar que outras lhes seguirão o exemplo e alguns acham até que fazem pouca falta, porque são especialistas em aproveitar fundos e regalias, mas contribuem pouco para o desenvolvimento. Em contrapartida, deixam atrás de si o drama humano de muitos trabalhadores atirados para o desemprego.
Numa intervenção indignada, o Presidente da República lembrou que «as pessoas não são números». Todavia, para as grandes corporações transnacionais, o que conta é o lucro e não as pessoas. Por isso, de modo geral, não se importam com a defesa dos direitos humanos, laborais, sociais e ambientais.
A título de exemplo, recorde-se que o Centro das Nações Unidas para as Corporações Transnacionais (UNCTC) revelou que metade dos gases responsáveis pelo efeito de estufa são produzidos pelas multinacionais, que também são responsáveis por muitos dos desastres ecológicos. O que têm para oferecer não é muito: apesar dos seus lucros fabulosos, dão emprego apenas a três por cento da mão-de-obra mundial.
Os chorudos proveitos obtidos pelas transnacionais são repartidos pelos seus gestores e accionistas. As nações que fornecem a força de trabalho e os recursos – geralmente do Terceiro Mundo – pouco ganham financeiramente e sofrem, de modo consistente, danos sociais, com a exploração desregrada dos trabalhadores.
Os salários dos seus empregados – a maior parte proveniente das zonas rurais – não chegam para pagar a alimentação, o alojamento, os transportes e as outras necessidades. Acabam nos bairros de lata das grandes cidades, onde não têm apoio familiar e social, e onde frequentemente falta água e saneamento básico, escolas e centros de saúde.
A Organização Mundial de Saúde estima que 1,1 mil milhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,4 não dispõem de uma instalação sanitária adequada. Apesar disso, está em curso um processo de privatização dos serviços de abastecimento de água e saneamento básico, que só contribuirá para o aumento da pobreza e das desigualdades. Quanto mais se alarga a esfera privada, mais se restringe a democracia, os direitos dos mais fracos e a sua capacidade de intervenção social.
Mas o poder destes gigantes privados é enorme. Pela sua influência sobre a produção agrícola, o comércio mundial (controlam dois terços), as finanças e mesmo a política. Em última instância, quem decide não são os governos dos diversos países, mas as eminências pardas que movem nos bastidores as suas poderosas e obscuras teias de interesses.
O seu sucesso baseia-se na habilidade para influenciar as políticas governamentais, conseguir os subsídios disponíveis e conquistar o apoio dos principais actores políticos e económicos. O caso mais paradigmático e perigoso é o dos Estados Unidos, onde os gigantes da energia e da defesa exercem um poderoso lobby sobre os membros da Administração Bush.
A tendência mundial para a liberalização dos serviços públicos, como a saúde, o saneamento e a educação, e de bens essenciais, como a água, a electricidade e o gás, é incentivada pelas multinacionais, que vêem neste sectores, tradicionalmente assegurados pelo Estado, uma nova árvore das patacas.
À medida que os Estados se retiram de sectores essenciais para o bem-estar das populações, as megacompanhias entram em cena. E a lógica é a que todos bem conhecemos: quem pode pagar fica bem servido, quem não pode é esquecido.
Como disse Jorge Sampaio, as pessoas não são coisas nem números. Parece evidente, menos para aqueles que reconhecem como único valor absoluto e único deus o lucro pelo lucro.

José Rebelo

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