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Ser Leitor

Outubro 1, 2007

Ser Leitor foi para mim um acidente de percurso. Eu tinha uma má informação da PIDE e o ministro José Hermano Saraiva falou com o meu pai e achou que eu arejaria as ideias se fosse trabalhar uns tempos para o estrangeiro. Como Leitor. (…) Foi assim que o Instituto de Alta Cultura me adoptou como leitor, e eu lá parti, nomeado para Aix-en-Provence. Nunca cheguei a alugar uma casa. Vivia num quarto de hotel cujas prateleiras foram empenando com a chegada de livros. Dessas vagas instalações só me lembro o deslumbramento dos meus olhos quando uma manhã vi os telhados cobertos de neve.

Sei que fui para França sem conhecer praticamente nenhum outro Leitor, sem nenhuma informação específica, desconhecendo se havia métodos ou não no ensino do Português e sem a menor formação para as tarefas que me esperavam. (…)

Aix-en-Provence era uma cidade que parecia um filme musical: reformados que tinham resolvido regressar a um lugar tranquilo; e jovens estudantes, muito jovens e nem sempre estudantes. Tinha bastante actividade cultural, tanto no plano da música como no do cinema (vi uma semana organizada pelos «Cahiers», e recordo-me de um filme canadiano, cujo francês me pareceu ininteligível, e da maravilha que foi sair pela noite dentro depois de ter visto «Prima delle Rivoluzione»).

Mas eu estava ali para ser professor. Por um lado, professor de Literatura, e aí desembaraçava-me bem. Mas, por outro lado, professor da Língua Portuguesa de Iniciação, e eu era incapaz de ter uma metodologia própria e desconhecia o pouco que já se fizera nesse sentido. Tenha a consciência de que neste domínio era um verdadeiro desastre. Programado pela incúria lusitana.

E invejo aqueles que hoje têm cursos de selecção adequada, provas de avaliação específica. A faculdade era um conjunto de edifícios (sendo Direito o bastião da Direita) de uma certa brutalidade, e uma cantina onde eu às vezes comia e onde fiz uma experiência traumatizante: um prato de sopa e depois trouxeram para a mesa uma travessa com comida. Olhei para a minha volta para ver o que os outros faziam: concluí que a solução consistia em limpar o prato de sopa com o pão. E comer a carne nele. Não gostei. Preferi comer em tascas baratas do que voltar a utilizar a cantina.

De resto, que fazia? Preparava as aulas o melhor que sabia. Estava longas horas a ler em cafés e esplanadas. Ouvia o bater da chuva quando as esplanadas já estavam invernosamente protegidas. Via televisão num café. Assistia a espectáculos musicais. Ia todas as semanas a Marselha de autocarro – ver os lugares do conde de Monte-Cristo. Fazia compras (baratas). Fui visitar o Eduardo Lourenço a Sain-Paul de Vence. Lia Blanchot. Lia Durrell. Vi pela primeira vez Susan Sontag na montra de uma loja de aparelhos eléctrico-domésticos. Durante umas semanas, convivi com uma grande amiga minha por quem sinto uma imensa saudade: Isabel Colaço. Comprava livros em diversas livrarias (desde Makaire até «Le Divan»). Escrevia cartas. Atirava almofadas ao ar quando estava deitado na cama. Escrevia – embora pouco.

Uma das minhas primeiras experiências foi culinária. Na lista havia «boudin» e eu perguntei o que era. Responderam-me: «Mais Monsieur, le boudin est le boudin». E foram buscar um bocado. Assim descobri a definição ostensiva. E por outro lado comi «um cachorro» com mostarda de Dijon e tive a concretização do que eu julgava ser apenas uma figura de retórica: subiu-me a mostarda ao nariz.

Eu não sabia quanto tempo iria ficar (…) Mas os anos de Aix continuam a ser um entusiasmante conjunto de imagens musicais. Algo desafinadas no plano do ensino, claro.

Eduardo Prado Coelho

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