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Uma lixeira no Paraíso

Outubro 1, 2007

Uma lixeira no Paraíso

Depois de quase 30 anos em África, Martinho Lopes Moura, missionário comboniano, foi enviado para o Brasil. E há seis foi-lhe confiada a paróquia de Guriri, que abrange a ilha do mesmo nome e redondezas. A ilha é um paraíso turístico, mas há um bairro onde as pessoas vivem do lixo que a cidade de São Mateus lhes oferece. Mais uma vergonha para um país que, sendo um dos mais ricos do mundo, tem mais de 50 milhões de miseráveis.

A área da paróquia de Guriri compreende a ilha do mesmo nome e os bairros e povoações ao longo do rio Cricaré até Urussuquara, no limite com o município de Linhares. A ilha ronda os 100 quilómetros quadrados. Até ao século XIX estava rodeada pela lagoa de Suruaca e pelo rio Ipiranga. Com a abertura da baía de Barra Nova, ficou dividida em duas e o percurso do rio Mariricu foi interrompido.

A paróquia fica portanto entre rios e é banhada pelo Atlântico. A população é na sua maioria descendente dos escravos africanos que, depois da abolição da escravatura pela princesa Isabel, aqui encontraram meios de subsistência, pescando e caçando. Outra parte da população é formada por descendentes de índios, de muitas tribos, e uma boa parte são caboclos (mestiços). Há ainda os moradores da estância balnear de Guriri, que para aqui vieram por causa do clima e das águas tépidas do mar. São na sua maioria gente de Minas Gerais ou Capixabas do Espírito Santo, descendentes dos imigrantes italianos que no século XIX desembarcaram na área. Os primeiros moradores foram, é claro, os índios. Vieram do interior e do norte, por vezes para fugir às perseguições que lhes eram movidas pelos outros índios e pelo Governo colonial. Toda esta área é rica em petróleo – os poços são às centenas –, gás natural e sal-gema. No mar e nos rios abundam o caranguejo, o camarão e os peixes das mais variadas espécies, alguns dos quais com muitas dezenas de quilos. A maior parte dos pescadores usam meios artesanais, e no período em que a pesca lhes é interdita sobrevivem com dificuldade. As piranhas, que estão a tornar-se uma praga, também contribuem para diminuir as capturas.

Uma boa parte da população sobrevive, para além da pesca, da agricultura de subsistência e da criação de gado. O turismo é, sem dúvida, a sua maior riqueza. No Verão (brasileiro, entenda-se), a população, de dez mil pessoas, pode chegar a atingir as 70 mil. Os hotéis e restaurantes são poucos, mas muitas famílias têm aqui as suas residências de férias. No Carnaval, o número pode subir para 100 mil. Os residentes têm de sobreviver no resto do ano com os lucros obtidos na época alta (do Natal ao Carnaval), e alugam tudo o que podem para ganhar mais alguma coisa. O turismo também traz consigo a prostituição, que atinge sobretudo os adolescentes dos bairros mais carenciados. As comunidades cristãs eram 19, quando cheguei. Hoje são 22: 11 dentro da ilha e 11 fora. A paróquia tem dedicado muitas energias à formação religiosa, litúrgica e ao acolhimento das pessoas, sobretudo à obra de promoção humana Vida Plena. De uma forma geral, as comunidades são pobres e pouco numerosas, excepto as três maiores, que se encontram no centro da ilha. No Verão, as igrejas do centro ficam superlotadas. Porém, graças a Deus, a participação é boa também durante o resto do ano. A visita às famílias tem sido uma prioridade pastoral e o resultado é evidente: muitas crianças, adolescentes e jovens frequentam a catequese nas comunidades, e até um bom grupo de adultos. As seitas ainda não são um fenómeno significativo.

Comer lixo

As dezenas e dezenas de quilómetros de praias desertas e de mangais, ainda praticamente virgens e onde abunda o caranguejo, são uma atracção a nível nacional e mundial. Os rios estão rodeados pela mata, que vai encolhendo devido ao abate ilegal. Guriri é ainda a sala de visitas da cidade de São Mateus. Muita gente conhece Guriri como um lugar tranquilo, onde se pode descansar, como um paraíso para idosos, devido ao clima quente mas ameno durante todo o ano, às águas sempre mornas.

Mas também no paraíso existe o reverso da medalha. Para o ironicamente chamado Bairro da Liberdade são trazidos os resíduos de toda a cidade. E há muita gente que «vive» no meio da lixeira, ganhando o seu sustento a escolher de entre os desperdícios aqueles que ainda têm alguma utilidade ou valor. As «casas» são barracas. As condições são, como é natural, extremamente insalubres. E a miséria material traz consigo a miséria humana e moral: o alcoolismo e o consumo de drogas estão a aumentar. Através da obra social «Vida Plena» temos ajudado muita gente dos bairros mais carenciados, nomeadamente apoiando a construção de casas decentes, distribuindo mensalmente um «pacote» de alimentos básicos.

A miséria e a falta de higiene são um «viveiro» de doenças de todo o tipo: infecções intestinais, tuberculose, parasitas, lepra, tifo, cólera e dengue. A chuva e a humidade castigam particularmente aqueles que moram em terrenos alagadiços. Depois, a população não pára de aumentar: não é raro encontrar senhoras com dez e mais filhos e adolescentes já mães e com filhos de vários pais. As pessoas não têm empregos estáveis e não conseguem ter acesso a um médico, muito menos comprar medicamentos. No meio de tanta água, muita gente nem sequer dispõe de água potável.

No Bairro da Liberdade, há quem saboreie as últimas gotas de cerveja das latas vazias que vão juntando para vender, há quem alimente a família com os restos do churrasco que sobrou das mesas dos ricos. É vergonhoso: o Brasil, uns dos países mais ricos do mundo, tem mais de 50 milhões de miseráveis.

Martinho Lopes Moural

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