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Elogio de João Lobo Antunes

Outubro 2, 2007


Elogio de João Lobo Antunes sobre o doutoramento honoris causa de António Lobo Antunes.

«17-09-2007»

Elogio do padrinho no Doutoramento “Honoris causa” pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro de António Lobo Antunes

João Lobo Antunes
Domingo de manhã. Abro ao acaso (a melhor forma de tomar o pulso a um livro), um volume das “Crónicas”.
Página 157: “E agora a noite e eu sem dar por ela. Ainda há um minuto, se tanto, estava muito bem aqui sentada e era dia, o merceeiro aberto, um homem a brincar com o cão, metade da rua
(a metade de lá)
ao sol, a velha do costume a assistir a nada do peitoril porque não se passa nada no bairro, nem uma briga, nem uma discussão, nem uma dessas mulheres que caminham como cordas que se desenrolam, deixando atrás de si um rastro de assobios de homens, as ordinarices que lhes rebentam na própria boca e as sujam a eles à maneira dos balões das pastilhas elásticas”.

“A assistir a nada do peitoril”. Bairro de Benfica, sessenta anos atrás. Na taxonomia moderna, a ultraperiferia de Lisboa. Numa casa velha de mais de cem anos, ao que consta, ao tempo uma escola, (daí nome da rua que nos envergonhava na adolescência: – “Travessa do Vintém das Escolas”). O quarto era pequeno: duas camas, duas cadeiras, duas estantes. Na parede do meu lado uma fotografia de Charlie Parker e o seu saxofone, em que nem o chiaroscuro da prova, esconde um olhar que contem toda a tristeza do mundo. Num escrito dedicado ao Pai, que no fim da vida se mudara para o nosso quarto, António escrevera que a fotografia lhe lembrava uma frase de Van Gogh ao irmão: “Sofremos por conta de uma porção de malandros e safados”. Em cada estante uma biblioteca miniatura. Na de António os volumes alinhavam-se em sentido, e se notava qualquer desvio, protestava porque eu lhe mexera nos livros. De facto, crescemos mais com livros que com brinquedos.

A licenciatura em medicina fora uma solução feliz. Afinal era preciso que se formasse em qualquer coisa, que tivesse para sobreviver uma “enxada”, metáfora tanto ao gosto de nossa Mãe. Assim ele se tornou-se psiquiatra, a mais literária – por vezes mesmo só  literária… – das especialidades médicas. Afinal a ligação entre a medicina e a literatura  é tão antiga quanto a própria medicina. Apolo, o deus da poesia, era pai de Asclépio, deus bastardo da medicina. Para Chekhov esta era a mulher legítima e a literatura a amante. No caso de António são ambas, ao mesmo tempo, mulheres e amantes. Como escrevia Torga, que habitava nas nossas duas bibliotecas, no Diário em 20 de Janeiro de 1961, quando lhe perguntavam porque seria que a medicina “dava” (era o termo) tantos escritores, ele respondia “- Não é ela que os dá. Limita-se simplesmente, a preservar esse dom aos que nasceram com ele, o que já não é pouco. (…) Por isso quando se sobrepõe a uma vocação criadora uma condenação clínica, não há dramas sangrentos.”

Cumpriu o curso com ajuda de uma fenomenal memória, arma que ele celebrou no seu primeiro livro – “Memória de Elefante” –  e que ele musculou toda a vida. Os jantares de família eram – e agora que partiu o Pai, e ele ocupa a cadeira de braços, continuam a sê-lo – , uma espécie de concerto de amadores, uma “desfolhada” de poesia ou de longos nacos de prosa de Eça a O’Neill. Saber de cor é etimologicamente, saber com o coração. George Steiner, um dos maiores admiráveis “maîtres à penser” do nosso tempo, e um admirador devotado de António, nota que nem a censura nem a polícia secreta conseguiram calar a poesia decorada, e os poemas  de Mandelstam sobreviveram de boca em boca, e os “rabis” nos campos da morte eram livros vivos, abertos à consulta dos outros prisioneiros.

Parece ser comum saudar-se hoje o escritor inculto e ignorante, elogiar a escrita que não passa de um mero exercício de um virtuosismo mundano. Para estes, a cultura não só é inútil, como, quem sabe, perigosa. Nada ficará destes escritores de palavras. Pelo contrário, a cultura de António sempre foi alimentada por um apetite insaciável e omnívoro, e ele é, embora o tente esconder, um erudito. A sua cultura tem-lhe servido sobretudo como instrumento de pesquisa das vidas, todos os sentidos convocados por uma curiosidade sem fim, um ouvido apuradíssimo para todo o linguajar, um olhar sorrateiro que parece dormir, mas é tão traiçoeiro como o dos crocodilos que meio submersos vão espiando a vítima. Depois, consolado, mergulha na profundidade de si próprio, como dizia outro poeta médico, William Carlos Williams. Ao mesmo tempo, preserva vivíssima a capacidade de se rir de tudo, e de todos, incluindo ele próprio, e o poder inesgotável de se espantar, que é apanágio dos cientistas da melhor cepa.

Depois de vinte e cinco anos de vida em comum, percorridos em órbitas secantes, cada um seguiu o seu caminho. Ele para África, eu para Nova Iorque. A experiência de África foi decisiva. Atrevo-me a pensar que fez dele um homem e, sobretudo, um escritor. Susan Sontag, e cito-a porque, tal como António, foi distinguida com um dos prémios literários de mais nobre projecção, o Jerusalem Prize, (que no caso do António mereceu entre nós apenas uma menção distraída), escrevia no livro que publicou pouco antes de morrer – “War is a man’s game (…) the killing machine has a gender and it is male”. A escrita de António tem o mesmo género, é claramente masculina, mas também, em surpreendente paradoxo, provavelmente poucos põem como ele uma mulher a falar sem que soe como falsete de  “travesti”, ou burla  de boneco de ventríloquo.

Anos depois, vivia eu então sozinho em Nova Iorque, António foi até lá apresentar um livro, “Os cus de Judas”, crismados agora “South of Nowhere”. Aliás a reincarnação da sua prosa nas línguas mais diversas, a traduzibilidade da sua escrita – e o neologismo é forçado -, é marca distinta do seu génio e da universalidade da sua prosa. Uma confidência: quando em país estrangeiro entro numa livraria (e faço-o sempre, porque alguém me ensinou a marcar cada viagem pela compra de um livro), procuro as suas obras. A última vez foi em Itália e encontrei-o num canon que compilava os livros que era indispensável ler antes de morrer – neste caso era “O Fado Alexandrino”.

Foi nesses dias em que vivemos juntos, só os dois, numa casa grande, que eu o vi na prática do seu oficio. Embrulhado num lençol de banho, ele escrevia, escrevia, em folhas pequenas (muitas vezes o fez no papel de receita do manicómio Bombarda, onde enfermeiras indiscretas lhe segredavam as histórias do “paizinho” que lá fora médico toda a vida), uma caligrafia belíssima e miniatural, como a de um contínuo do liceu onde andámos, que ia escrevendo a Bíblia em bilhetes postais, frases em espirais ou volutas ou ainda em blocos orientados segundo os eixos mais variados, por vezes em mais de uma cor, papiros depois entregues a paciente decifração por outros escribas.

E assim, ao longo dos anos, nos fomos aproximando, num entendimento silencioso e cúmplice do mister de cada um, ele que escreve,  explicou um dia, por não saber dançar como Fred Astaire, quando afinal  sabe, no sapatear incansável de uma voz singular na literatura portuguesa.

Até que um dia o destino que se deleita a bisbilhotar a fisiologia intima dos sentimentos, e expor descarnados os laços mais fundos que unem os homens, lhe enviou o primeiro recado da sua mortalidade, e eu vivi durante longos dias o soluço da sua aflição, pois sabia mais que ele sobre o tudo que lhe podia acontecer. E, de súbito, uma crónica angustiada acordou uma multidão inquieta e solícita – e alguns me escreveram, pedindo a minha intercessão – que parecia depender da sua escrita como alimento do espírito e consolo da alma, extensíssima família de gente anónima que toma aquilo que ele escreve como uma carta secreta que só eles lêem .

Surge então o convite, que rompia praxes e porventura perturbava de forma insólita a liturgia destes actos, para lhe servir de padrinho nesta cerimónia na universidade da admirável terra de Torga, cujo centenário, em coincidência feliz, agora se celebra.

Mas a universidade aceitou o capricho deste filho que hoje adopta, e fê-lo com tal elegância que não me senti obrigado a justificar a impertinência de ter acedido ao pedido de meu irmão, em parte também porque sou, medularmente, um académico, e estou por isso sempre no meu mundo, em qualquer universidade em que entro.

Num dos mais clássico dos ensaios sobre a missão da universidade, José Ortega y Gasset fala de duas funções principais: o ensino das profissões intelectuais e a investigação cientifica e a preparação dos futuros investigadores. Recorda que a universidade medieval não investigava e ocupava-se muito pouco das profissões – tudo era “cultura geral”, teologia, filosofia, “artes”. É, no fundo a universidade medieval que hoje aqui renasce, nesta celebração da vagabunda ocupação de escrever. Porque, afirma D. José, a cultura é o que nos salva do “naufragio vital”: “no podemos vivir humanamente  sin ideas”, e temos de conter o “nuevo bárbaro”, “el  profesional mas sabio que nunca,  pero mas inculto también – el ingeniero, el medico, el abogado, el científico”. Quase um século antes, Henry, Cardeal Newman, numa outra obra fundamental, “The Idea of University” chamava a atenção para a importância do conhecimento “como um fim em si mesmo”, citando Cícero para quem isto dizia respeito, em primeiro lugar e acima de tudo, à natureza humana. Disse alguém que é a literatura que melhor revela o sentido das coisas que não são redutíveis a teoremas, que protesta contra a tirania da abstracção e por isso desempenha um papel insubstituível na compreensão do sofrimento humano. Esta cerimónia celebra pois a “umana cosa” com que Boccacio inicia o seu Decameron. É a celebração da força da palavra com que se escreve o amor e o ódio, as virtudes teologais e os pecados capitais, o desprezo absoluto e a indizível ternura, as grandes pulsões do espírito e os sentimentos mais microscópicos, o grito e o murmúrio, o sublime e o ridículo, o que é visível e o que se esconde por detrás da aparência mais inocente, a mais nobilíssima visão e a mais abjecta confidência. De tudo isto e muito mais, António tratou, usando um instrumento de admirável ductilidade que é a língua portuguesa, língua que ele, reconhecem-no os especialistas, constantemente reinventa, e por isso ele é, na contemporaneidade, o grande inovador da nossa linguagem. E a abundância daqueles que o imitam é a prova da sua mestria, pois o “imitatio” é sempre consequência inevitável do verdadeiro magistério.

Italo Calvino quando procurava explicar a razão porque se devem ler os clássicos e a forma de os reconhecer citava, entre outros critérios, que o clássico quando lido a primeira vez nos dá a sensação de já termos lido antes. Isto sucede na obra de António porque – e este é um outro critério – o que ele escreve diz respeito a todo um universo, o que lhe dá um peso talismânico, e se a sua criação descobre um mundo que inventou novas formas de martírio e de solidão, o mundo da modernidade áspera, indiferente, dos encontros que nunca floriram, ele deu voz  a quem nunca a teve na ficção contemporânea. Por ele falam assim os mudos que ninguém quer escutar.

Ainda Domingo de manhã. Volto de novo às “Crónicas”
Recuo quatro páginas e leio:
“Gosto de Virgínia Woolf não tanto pelos livros mas porque ouvia os pássaros cantando em grego, eles que normalmente como toda a gente sabe, usam o egípcio quando em liberdade e o latim nos poleiros.
Em que língua comunicam connosco os pássaros de vidro? E os de feltro em gaiolas doiradas, da loja dos chineses  ao pé do sitio onde escrevo?
Os pombos cantam rodas dentadas de relógio avariado. O relógio de parede da casa de meu avô não cantava: limitava-se a anunciar
– Sou gordo, sou gordo
a cada badalada pomposa”

Entretanto, digo-vos eu, os neurobiologistas estão preocupados, como ele, com a explicação dos pássaros, investigando se o som dos pássaros é musica ou linguagem. O rouxinol, por exemplo, organiza os elementos das suas canções em hierarquias e segue regras no modo  como as constrói semelhantes às que usamos na sintaxe. Outros pássaros, da família das cotovias, têm um reportório de mais de vinte  mil canções que nunca repetem.
Sentado à sua mesa, António ouve outros ruídos  e termina a crónica que começou com os pássaros de Virgínia Woolf:

“Carros de polícia lá fora, bombeiros: uma mulher em roupão,  no telhado do prédio em frente, previne aos gritos que se vai atirar dali abaixo. Atirar-se-á?”

E assim fica suspensa a pergunta que nunca terá reposta, porque a resposta não pode existir, pois é a interrogação perpétua que alimenta a escrita, essa perseguição de um infinito só ao alcance dos eleitos. E é um eleito que esta Universidade agora acolhe, aceitando como prova, em invulgar circunstância, o humilíssimo testemunho de um irmão.

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