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“Fui cobarde tempo de mais”

Outubro 2, 2007

“Fui cobarde tempo de mais” (continuação da entrevista a António Lobo Antunes)

Neste livro O Meu Nome É Legião há uma violência constante?

Não sou eu que a trago, a violência é inerente à situação do livro.

Preocupa-o essa violência quase selvagem num mundo civilizado?

Se é selvagem, o mundo não é civilizado.

Como vê uma realidade com que não é obrigado a conviver?

Era mais ou menos inevitável que isto acontecesse num país onde o abandono, a desigualdade social e a miséria são tão grandes. Com o estrangulamento da classe média era inevitável.

Acha que o Governo devia ter outra atitude?

Não tenho nada que achar porque não sou Governo nem quero ser mas, obviamente, acho que devia haver maior atenção para isto. A partir da altura em que as desigualdades se tornam gritantes é claro que estas crianças são empurradas para a delinquência.

Houve um tempo em que teve militância política. Os partidos terão resposta para estas questões?

Não sei responder mas se achasse que era útil ainda continuava a tê-la. Sou demasiado individualista e rebelde para aceitar uma disciplina partidária, além disso as opções políticas são tão afectivas como as opções clubísticas. Há pessoas de direita mais democratas que as de esquerda, há partidos de esquerda mais conservadores, as ideologias foram-se dissolvendo e a maior parte dos partidos são frentes e aqueles que ainda têm ideologia, ela está caduca. O único partido que vejo com corpo ideológico mais ou menos coerente é o Partido Comunista mas é de um tempo que já não existe. As conquistas de Abril, onde estão? Foram importantes mas passado todo este tempo…

Acha que este Governo é culpado?

Não sei e não estou preparado para responder mas se houvesse eleições – votei muito poucas vezes na vida – e fosse votar era no partido que está no Governo, porque não vejo alternativas.

Por ser o partido que está no Governo ou por ser o Partido Socialista?

Não me parece que este seja o PS do Mário Soares, o que foi fundado em 1973…

Não lhe parece porquê?

Pela prática e pela teoria, mas posso estar enganado.

Conseguiu terminar o livro mas os problemas destes jovens não se resolvem!

Não me compete a mim, sou só um escritor. Esta pergunta terá que ser feita a outro tipo de pessoas, dos que têm respostas para tudo.

Mas se a sua mão seguiu esse caminho foi porque a cabeça também o exigiu?

Eu queria falar era da vida toda, nunca imaginei que saísse assim, nunca estive nestes bairros e nunca conheci estes miúdos. O problema é que não pertencem a parte nenhuma, nasceram cá mas não ganharam Portugal e os pais perderam África. Às vezes comovia-me com a dificuldade de viver deles.

Há frases no livro que revelam racismo!

Pelo menos esses brancos do livro assim o pensam. O racismo é inevitável, vem do medo e do desconhecimento… Às vezes penso que muitas pessoas são como os liberais americanos que dizem dos negros és meu irmão mas nunca serás meu cunhado. Sempre me interroguei porque vi o racismo contra nós portugueses em países como a França. Quando fui receber uma condecoração a Paris, um dos membros do Governo disse-me que pensava que fosse espanhol e ao saber respondeu-me: ‘É português. É engraçado a minha mulher a dias também.’ Isto é profundamente racista, eu estava ao nível da empregada e ao mesmo tempo ali a receber uma condecoração do Presidente.

Há também uma mulher que lamenta não ser branca!

Da mesma maneira que os pobres gostariam de ser ricos, que alguns queriam ser saudáveis… No fundo, o que ela estará a dizer é que gostaria de ter determinados privilégios que no entendimento dela os brancos têm. Mal sabe que o racismo existe entre as várias classes sociais e continua a ser marcante no nosso país.

Mas a desigualdade e a violência preocuparam-no mais neste livro?

Claro que me preocuparam mas sempre houve e até os escritores estabelecem hierarquias ao nível social, para não falar ao nível da literatura. Mas também quantos grandes escritores há hoje em dia a escrever? Três ou quatro no mundo inteiro já não é nada mau, estamos muito longe do século XIX quando havia trinta génios ao mesmo tempo.

Não receia que o seu universo fique desajustado da realidade em que vivemos?

Nunca pensei nisso. Falamos do universo ficcional? Não sei, vivo neste tempo e a realidade é uma coisa que não existe – é muito subjectiva – mas é neste tempo que eu vivo e este é que me foi dado a ter.

Muitas das referências ideológicas do início da sua carreira desapareceram?

Em grande parte por nossa culpa, não fomos suficientemente sedutores para a juventude e refiro-me à participação cívica. Agora, há a ideologia do imediato, do eu quero ser célebre, famoso e rico, jovem e bonito, vive-se uma época de adolescentocracia, o que para mim é repugnante. Uma das minhas filhas esteve em Itália a estudar e as colegas de 17/18 anos quando acabavam o liceu pediam aos pais uma plástica como presente. Houve uma enorme quantidade de valores que a publicidade trouxe e que são seguidos por muitas pessoas.

Nas suas viagens tem medo do terrorismo?

Quando estive em Bogotá era sempre levado por trajectos diferentes porque as pessoas são raptadas na rua em troca de resgates. Fui cobarde tempo de mais para continuar a sê-lo, já não tenho medo. É uma coisa horrível a cobardia, foi em África que me libertei disso tudo, onde aprendi a existência dos outros. Eu nunca teria sido um escritor se não tivesse tido aquela experiência, que mudou muito a minha vida e fez-me perder a concepção ptolemaica do mundo. Passei a faculdade a jogar xadrez, a escrever e a ler, os movimentos estudantis de revolta contra a ditadura passaram-me ao lado por desinteresse e cobardia minha. Tinha medo da polícia, que carregassem na manifestação. Na guerra eu ofereci-me para várias coisas, justamente para me vencer a mim mesmo, para não me envergonhar. A coragem talvez seja uma das formas supremas da elegância e isso os nossos soldados tinham.

Mais alguma vez se sentiu cobarde?

Não.

O sucesso precoce atormentou-o?

Fiquei de boca aberta porque o livro tinha sido sempre recusado. Fui de férias e quando voltei o livro estava por todo o lado e a vender. Foi um espanto, nunca imaginei isto como também o que tem acontecido noutros países. Ainda agora, quando estive doente, vieram milhares de cartas de portugueses. Nunca imaginei que as pessoas fossem tão generosas comigo, dei-me conta que os livros eram importantes para muita gente e acho que não o mereço. Em nome disso tenho a obrigação de dar livros que sejam bons.

Não tem medo de desiludir?

Claro que tenho. Não gostaria nada que estas pessoas que se deram ao trabalho de me escrever ficassem desiludidas com o livro. Afinal, este homem não vale nada e eu gostava dele.

Muito do seu escrever actual é feito de uma reescrita, um livro procura o outro…

Sente isso? Eu queria neste livro dar tudo por tudo e foi um livro que me deu prazer e indignação. Porque estes miúdos que eu não conheço estão à procura de carinho mas não sabem como dá-lo. Do meu ponto de vista, tenho melhorado de livro para livro, sei que nunca vou conseguir lá chegar mas estou mais perto daquilo que queria escrever. Acho que marca um progresso em relação ao livro anterior e espero que o que estou a escrever marque um progresso em relação a este. |

Não vê televisão, quase não lê jornais mas quando se começa a ler o livro faz lembrar uma notícia!

Na minha cabeça era um relatório de polícia mas não sei como são porque nunca li nenhum.

Mas aquele início é de quem lê jornais…

Não tenho muito tempo e depois se o vejo fico perdido a ler o jornal. Houve uma altura em que lia A Bola todos os dias… Da televisão, fui-me afastando à medida em que também o fazia do Benfica. Agora já não vejo jogos de futebol, desde que deixou de ser um desporto…

Este Benfica já não o atrai?

Claro que me atrai, continuo a gostar do Benfica mas quando eu era miúdo o lar dos jogadores do clube era ao pé de casa dos meus pais e eles desciam a rua com o fato civil e o emblema na lapela… Era impensável que o Coluna ou o Eusébio fossem jogar para o Sporting ou que o Travassos jogasse no Benfica, eles eram daquele clube. Agora é uma indústria, são sociedades anónimas, deixou de ser um desporto. Os treinadores dizem é preciso paciência, o que é o contrário do desporto e todo o lado lúdico que me interessava deixou de existir, sendo substituído por uma eficácia de marcar golos e de ganhar por interesses económicos. Lembro-me de ter lido uma entrevista do Jesus Correia há muito anos em que ele dizia que o seu doping era o arroz doce que a mãe lhe fazia. Ainda havia aquele prazer como se encontrava no Brasil, de fintar e voltar atrás, como o Garrincha fazia.

Não pára o livro para ver um jogo do Benfica?

Não, já não. Tenho muita pena.

Mas teve conhecimento do murro do Scolari?

É-me completamente indiferente. Não acho normal nem anormal, é-me indiferente. Nem sei se deu o murro… Vi na televisão, foi uma patetice e não comento patetices.

Uma patetice de quem?

Eu não sei o que se passou. Vi o homem estender a mão mas aquilo nem me pareceu um murro, porque se eu der um murro não é assim.

E considera normal que José Mourinho tenha mais biografias do que a maior parte dos escritores portugueses?

Acho natural. José Mourinho atrai mais que Camões ou Shakespeare, as pessoas vivem cada vez mais no sentido hedonista. Não me repugna nada, nem me faz diferença, porque não é isso que tira o público dos livros. As pessoas continuam a comprar livros, portanto esta situação não me incomoda nada.

Um dos prazeres que tinha era dançar. Como é que isso vai de danças?

Não tenho tempo agora.

E tem par?

Isso de arranjar par não deve ser complicado.

Continua a ouvir música?

Tenho problemas de audição e praticamente já não ouço música porque os sons vêm distorcidos.

Disse uma vez que preferia ouvir a Ágata ou Emanuel aos Madredeus?

Disse isso? Eu nem sei bem… Não me recordo de o ter dito, deve ter sido uma boutade. Se me perguntar o nome de uma música desse con junto não sei mas também não sei dessas outras pessoas referidas.

Mas do jazz continua a gostar?

Não tenho ouvido mas claro que gosto muito porque enquanto escritor aprendi muito com os músicos de jazz a escrever. Pensamos que são os escritores que nos ensinam a escrever mas é mentira, pode ser um fotógrafo, pode ser um músico…

O jazz marcava-lhe o compasso da escrita?

O Charlie Parker fraseava maravilhosamente, aprende-se muito a ouvi-lo.

Também deixou de ir ao cinema?

Muito pouco agora. Vou muito pouco.

E policiais, ainda lê?

Gosto e durante muito tempo tive preconceitos idiotas face à literatura policial. Depois percebi que todos os livros são livros policiais, que têm coisas técnicas que se podem usar e ser muito úteis – a retenção da informação, a informação lateral – e aprendi muito com a sua estrutura.

Algumas mulheres acham-no machista no que escreve?

Não sei, se pensam isso parece-me injusto. Não sei que espécie de gente poderá dizer isso, eu gosto tanto das pessoas …

Como é o seu dia?

Começo às 10.30 e trabalho até às 13.00. Volto a escrever entre as 14.00 e as oito. Das nove até às onze continuo. Sábados e domingos também.

Não folga ao fim-de-semana?

Dou-me umas horas ao sábado como aos magalas. Enquanto estive internado não escrevi e foi muito difícil recomeçar porque pensava que tinha perdido o livro. Para mim é muito importante fazer isto como um trabalho diário.

Como é que escreve?

À mão.

O computador é impensável para si

Não tenho computador, nem o sei abrir. Gosto de desenhar as letras. Uso os mesmos processos desde o primeiro livro, faço duas versões de cada capítulo, passo para o capítulo seguinte até ao fim, isto demora um ano ou um pouco mais, depois espero quinze dias para começar a rever e quando leio aquilo surpreende-me que tudo se articule.|

One Comment leave one →
  1. Novembro 6, 2007 8:37 pm

    a sua melhor polictica é dançar,dançar,com as palavras,todos os tempos num só,a vida toda entre folhas de papel, e as que o outouno fez cair,
    dançar com fantasmas nos corpos pocessos dos vários pares encontrados á deriva, rendidas por mentiras meladas coitadas,dançar a dança do lobo perdido e nunca por nunca nesta vida encontrado.

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