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José Saramago

Outubro 2, 2007

Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora!

Arranjo de Soares Feitosa

Vem aqui, Tomé,

vem comigo até a borda da água,

vem ver-me fazer uns pássaros

com esta lama que colho…

 

Repara como é tão fácil,

formo e modelo o corpo

e as asas;

afeiçôo a forma da cabeça

e do bico; engasto estas pedrinhas

que são os olhos;

ajeito as penas compridas

da cauda;

equilibro-lhes as pernas e os dedos

e tendo feito

este, faço mais onze;

aqui os tens, um dois, três

quatro, cinco, seis, sete, oito,

nove, dez, onze, doze pássaros

de lama…

 

Imagina, até, se quiseres,

dar-lhes nomes: este é Simão,

este é Tiago, este é André, este é João, e este,

se não te importas, chamar-se-á

Tomé.

 

Quanto aos outros vamos esperar

que os nomes apareçam;

os nomes, muitas vezes, atrasam-se

no caminho, chegam

mais tarde…

 

E agora vê como faço — lanço esta rede

por cima das avezinhas

para que elas não possam fugir, os pássaros…, se

não temos cuidado.

 

Queres dizer-me que se esta rede

for levantada os pássaros fogem?

Esta é a prova com que querias

convencer-me?

 

Sim e não!

 

Como, sim e não?

 

A melhor prova, mas essa

não é de mim que depende, seria

não levantares tu a rede e acreditares

que os pássaros fugiriam se a levantasses.

 

São de barro, não podem fugir.

 

Experimenta! Também Adão,

nosso primeiro pai, foi de barro e tu

descendes dele.

 

A Adão deu-lhe vida Deus!

 

Não duvides mais, Tomé! Levanta a rede, eu sou

o Filho de Deus.

 

Assim o quiseste, assim o terás,

estes pássaros não voarão!

 

Com um movimento

rápido, Tomé levantou

a rede, e os pássaros,

livres, levantaram vôo, chilreando,

duas voltas

sobre a multidão maravilhada

e desapareceram no espaço.

 

Disse Jesus:

Olha, Tomé, o teu pássaro

foi-se embora.

 

E Tomé respondeu:

Não. Senhor, está aqui ajoelhado a teus pés,

sou eu. 

“Versificação”, a partir do ritmo cardíaco e do batimento respiratório (uma “viagem”, como se, entre os olhos e o ouvido Saramamgo, o Nobel da lusonofia médio) de um texto de Saramago, in O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Companhia das Letras, 31ª reimpressão, páginas 398/399, sem nenhuma alteração a mais ou a menos que a mera arrumação em versos e estrofes. Nem preciso mencionar que este texto em Saramago (aliás, o Evangelho inteiro) é um bloco compacto, com mínimas “cesuras” por vírgulas e nada mais.

Prosa e poesia seriam, assim sem mais nem menos, aSoares Feitosa, 2001 mesma coisa? Sim e não, aliás, sim… desde quê. E por favor bote muitos desdes-quês nessa história. De fato, é possível “metrificar” Euclices da Cunha, Guimarães Rosa, José de Alencar, Clarice Lispector e não muito mais que uns cinco gatos pingados. Da mesma forma, excelente “prosa” em… Álvaro de Campos. É só tentar… desde quê.

 

Soares Feitosa

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