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A festa está na rua

Outubro 3, 2007

A festa está na rua

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

A hora andará pelo do meio-dia. Há pouco, na rádio, ouviu-se um novo comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA). Nele se informava os portugueses de que a situação estava controlada; que, de Norte a Sul de Portugal, tudo estava sob o domínio das forças do MFA. E, sobretudo, garantia-se que, “em breve, chegará a hora da libertação”. Por isso, a confiança cresce entre a população. Está toda a gente na rua. A baixa está à cunha. As pessoas apinham-se, formam alas para ver passar os homens de Salgueiro Maia, rumo ao Largo do Carmo. É uma multidão em festa.
Nunca se viu uma coisa assim. Nunca houve esta liberdade. Antes, só as manifestações fantoches, preparadas aqui e ali, para dar vivas e bater palmas aos senhores da mordaça. Para fazer de conta que os portugueses amavam o presidente que não elegiam, ou o Governo “escolhido” em eleições manipuladas.
Agora, estes soldados mudam o regime à luz clara do dia; à vista de todos. Mostram-se pouco à vontade com os aplausos que os acompanham. Com a aglomeração de pessoas que lhes dificulta a acção. Mas não mandam ninguém para casa. Não exercem qualquer forma de violência sobre os populares. Apenas procuram garantir o espaço, para que eles próprios e os companheiros possam prosseguir a subida para o Carmo. E sorriem. E fumam descontraidamente. E as pessoas já não assistem só, curiosas. Incentivam. Dão vivas. Aplaudem. É mesmo uma festa!
Dias antes, na última semana do mês de Março, de 1974, também houve festa em Lisboa. Foi o I Encontro da Canção Portuguesa. Encheu completamente o Coliseu. Milhares de lisboetas reuniram-se ali para celebrar um desejo de liberdade, expresso nas canções de Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, Ruy Mingas, Carlos Alberto Moniz, Fausto, Vitorino e, sobretudo, Zeca Afonso, entre muitos outros. Mas foi uma festa vigiada. Havia agentes da PIDE na sala, um forte aparato repressivo nas ruas envolventes. Nem isso impediu que milhares entoassem em coro, de pé, braços dados, a “Grândola, Vila Morena”, do Zeca. Até os pides cantaram.
Essa mesma canção, transmitida na Renascença aos primeiros minutos do dia 25 de Abril, de 1974, foi a confirmação para o arrancar dos homens do Movimento. A música começava, cedo, a ser outra. A mensagem era clara. Não se tratava apenas de fazer cair o Governo, mas também de devolver a soberania a quem efectivamente deve deter, em democracia. Ao povo. Também, por isso, esta festa que a foto documenta e que será uma constante ao longo destes primeiros dias de construção da Liberdade.
A imagem de hoje, no mesmo local, talvez possa evocar esses dias do passado. Lembrar a determinação, a informalidade desses jovens que fizeram o 25 de Abril. Os mesmos que, na foto de cima, asseguram o espaço para os camaradas subirem ao Carmo e terminarem o trabalho, que vieram fazer.

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