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Às ordens do meu capitão

Outubro 3, 2007

Um polícia sem perfil militar

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

“Meu capitão , dá licença?”, dirá talvez o homem da Polícia de Segurança Pública (PSP), à direita na foto, dirigindo-se a Salgueiro Maia.
O carro da PSP chegara e parara. Salgueiro Maia, a G3 firmemente segura na mão direita, embora pacificamente apontada para o chão, aproxima-se, ladeado por dois outros oficiais. O agente da PSP bate a pala. A continência não tem perfil militar. Falta-lhe aprumo; o agente tem as pernas ligeiramente dobradas, a cabeça inclinada para baixo. Mas o acto tem, em si, uma forte carga simbólica. O polícia reconhece no militar de Abril um outro Poder, distinto daquele a que estava submetido até ao momento.
Compreende-se a atitude do agente. Por detrás das arcadas, no Ministério do Exército, haviam estado refugiados os ministros da Defesa, do Exército, da Marinha e do Interior, do governo de Marcello Caetano. Com eles estavam, também, outros altos dignatários do regime. Agora, já lá não estão. Conseguiram fugir para o Ministério da Marinha, através de um buraco, para o efeito aberto numa parede das traseiras do Ministério do Exército. Já no Ministério da Marinha, meteram-se numa carrinha, que se encontrava no parque de estacionamento interior, e consumaram a fuga.
Por isso, o agente da PSP, perante a atitude dos representantes do Poder antigo, reconhece o novo Poder. Pede instruções ao capitão. Recebe ordens para controlar o trânsito na Praça do Comércio. A isso irá. Os ministérios são um objectivo alcançado. O Governo marcelista começou a cair, com a fuga dos ministros dos seus locais de trabalho, incapazes de oferecer resistência às forças do 25 de Abril. O edifício da Liberdade ergue-se, pedra a pedra, com firmeza e segurança. Contudo, ocorrerão ainda outros sobressaltos nesta zona da cidade, como veremos em próximas imagens.
A foto inferior mostra o mesmo local, numa pacata manhã de Abril, apenas há alguns dias, mas trinta anos depois do evento acima narrado e que a fotografia de Alfredo Cunha reteve. São as mesmas arcadas, os mesmos edifícios do Poder Executivo. Onde antes estavam Maia e os oficiais que o acompanhavam, há agora três cidadãos que esperam impacientemente o autocarro. Cansaram-se de permanecer na paragem e, como não chove, chegaram-se à frente, desejosos de partir para casa.
Mais atrás, com menos pressa, outros três cidadãos aguardam, também, a chegada do transporte, paulatinamente recolhidos no abrigo da paragem. Seguramente, nem por um instante lhes passa pela cabeça que, ali mesmo, há três décadas, um capitão de Cavalaria e um agente da PSP protagonizaram um incidente sem história, mas que ficou na imagem, para memória futura.

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