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Às portas da Rua Augusta

Outubro 3, 2007

Às portas da Rua Augusta

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

São nove os militares que estão no pequeno blindado. Debruçados, cabeças juntas, escutam atentamente alguma coisa que lhes diz o camarada que está de pé, ao lado do carro. Estão quase sob o Arco da Rua Augusta. Dito de outra forma, estão no seu posto. Talvez recebam instruções, no preciso momento em que a objectiva capta o movimento, regista a atenção, e fixa ambos. Um instantâneo do 25 de Abril, agora revisitado.
Simplesmente uma fotografia dos bastidores, em que nada acontece, mas algo se prepara. Ou, talvez mais apropriadamente, um mergulho no que se passa num local propositadamente menos iluminado do palco, fora da boca de cena, que foi, até hoje, nesta nossa incursão pela memória, a Praça do Comércio, mais virada ao Tejo. Mas o acesso à Baixa também exige cuidados, e por isso estes soldados estão aqui, cumprindo a sua parte na tarefa de mudar Portugal.
Último império colonial do Ocidente, desafiado por movimentos de libertação em três frentes africanas, o país via os mais jovens dos seus filhos partirem para guerra, onde demasiados morriam, e da qual muitos regressavam diminuídos.
A mágoa enchia o coração dos que cá ficavam. A revolta abastecia as prisões de presos políticos. O exílio, a censura e a PIDE amordaçavam os outros, os que viviam em liberdade vigiada.
Por isso, a reconquista de Portugal era inevitável. É essa a obra destes jovens que, no momento da fotografia, juntam as cabeças, sobre o blindado que se recolhe à protecção da escurecida pedra pombalina, guardando a “porta” da Rua Augusta.
Destes e de muitos outros como eles, que os “capitães de Abril” não marcharam sozinhos… E é isso, também, que as fotos de Alfredo Cunha não cessam de nos dizer.
A imagem de hoje não é menos interessante, embora menos intensa, menos dramática. Estão lá, é certo, os mesmos pilares, da mesma Rua Augusta. Mas, agora, a rua não está escondida pela mancha negra, que a rouba aos nossos olhos na primeira fotografia. Agora, há luminosidade; tudo é claro e visível. Tudo respira uma leveza, que não se pode ler, ainda, na foto de há 30 anos.
Repare-se nas pessoas que passam. Pressente-se nelas uma tranquilidade que nem a chuva incomodativa consegue beliscar. E o eléctrico rápido, na paragem, mostra-nos que o país se modernizou. Que recuperou o seu lugar no Mundo e na história da Europa, de que esteve afastado durante décadas, “orgulhosamente só” por culpa da inacção de governantes, unidos em torno da vontade de um déspota.
Olhando estas duas fotos, não resta qualquer dúvida. A Liberdade passou, mesmo, por aqui. Soldados e blindados também podem plantar a paz. Mesmo à porta de uma rua da Baixa. Mesmo sob o arco triunfal de uma Rua Augusta.

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