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Chegada sem sobressaltos

Outubro 3, 2007

O cair do pano

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

É o Largo do Carmo. A "porta de armas" do quartel encontra-se fechada e coberta por um blindado. Está próximo o cair do pano, sob um regime que perdurou durante 48 anos, contra tudo e contra todos, cerceando liberdades, dominando pelo medo e pela repressão. Marcelo Caetano, o último presidente do governo, está refugiado no Quartel da Guarda Nacional República (GNR), desde a madrugada. Às cinco da manhã, Silva Pais, o chefe da odiada Pide/Direcção Geral de Segurança, a polícia política, avisara-o de que a revolução começara. E aconselhara-o a proteger-se, resguardando-se no quartel da GNR. Marcelo seguiu o conselho. Agora, as forças de Salgueiro Maia cercam o quartel da Guarda, mas é a Caetano que cercam.
No caminho para aqui, Salgueiro Maia não enfrentou oposição de forças fiéis ao regime. Já pouco sobra. É certo que, no Rossio, uma companhia do Regimento de Infantaria 1 (RI1) ainda parece esboçar resistência, em defesa do Poder instituído. Mas foi sol de pouca dura. Parlamenta-se e, em breve, o comandante da força do RI1 adere, e as suas tropas ficam às ordens de Salgueiro Maia.
Mais tarde, o brigadeiro Junqueira dos Reis, fiel às suas ideias e ao regime que servia, arrancará da Baixa, rumo ao Largo Camões, com o resto dos seus homens e com os dois carros de combate M47, que lhe restavam. Quer ir em apoio da GNR, para com ela libertar o presidente do conselho. Em vão. A maior parte dos seus homens abandonam-no e o brigadeiro nada pode fazer.
Por isso, a chegada ao Largo do Carmo acontece sem sobressaltos dignos de nota, pelo caminho. É já aqui, no Carmo, por volta da uma e meia da tarde, que todos apanham um susto. Nos ares, um helicanhão sobrevoa o Largo. Chega para provocar tensão e ansiedades, a soldados e populares. Mas nada acontece. O heli não dispara um tiro, que seja. E ninguém arreda pé. Os militares mantêm-se nos seus postos. Os civis, há muito que deixaram o Largo do Carmo sem espaço para mais um. Está tudo cheio de gente. Até as árvores.
Salgueiro Maia e os seus homens controlam a situação. Pouco depois das três da tarde, Maia, cumprindo ordens de Otelo Saraiva de Carvalho, exige a rendição do Quartel do Carmo. Faz um ultimato. Dá um prazo de dez minutos para que a rendição ocorra. O tempo passa e do quartel não vem qualquer resposta. Vivem-se momentos de grande tensão. É de tudo isto que nos fala esta foto, do dia 25 de Abril, de 1974.
Hoje, trinta anos depois, a mesma porta de armas do quartel do Carmo, está aberta, apenas guardada por um soldado da GNR. Ninguém se esconde no interior das instalações, onde se refugiou Marcelo Caetano. Nenhuma revolução decorre. Nenhum regime se adivinha prestes a cair. A Liberdade, quando aqui se afirmou, vinha bem armada. A Liberdade é assim. Às vezes, precisa de espingardas.

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