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Desmontar o processo narrativo

Outubro 3, 2007

Curiosidade junto ao banco

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

No dia 25 de Abril de 1974, a rua é um palco. Os soldados são os protagonistas de uma representação, com altos e baixos. Quer dizer, cenas de maior e de menor intensidade dramática. Aqui, na Praça do Município, viveram-se momentos de grande intensidade, mas já tudo acalmou. Tanto que, dos três soldados da imagem, um encosta-se displicentemente ao vão da montra do banco Borges e Irmão; aproveita para descansar um pouco, que, para ele, o dia já vai longo e as emoções foram muitas.
Um segundo está por perto, com a espingarda automática ao alto, em pose claramente não agressiva. Outro, o terceiro soldado, ao centro na foto, vai mesmo ao ponto de tirar partido desta pausa, para, nas calmas, matar o vício. Fuma o seu cigarrito, descontraidamente, a G3 pendurada no ombro direito, o cano quase a rasar a pedra da calçada portuguesa.
Confrontados com a imagem de repouso dos guerreiros, dois pacatos cidadãos aproximam-se e observam. Um deles, à direita, na foto, está, ao mesmo tempo, curioso e interessado no que faz o soldado que fuma. O outro civil, calças de boca de sino, como então se usava, parece observar o que observa. Dir-se-á que a curiosidade do parceiro o diverte. E a situação é simultaneamente inesperada e divertida.
Olhando a foto só por si, dificilmente se dirá que se vivem ali acontecimentos de uma profundidade respeitável. Nada de importante parece estar a passar-se. Não é assim que se faz a História. Não fora esta imagem, e ninguém referiria como facto, o instante em que um soldado das forças de Salgueiro Maia fuma, completamente alheio à evidência de um cidadão, que espreita o modo como fuma.
Ambos são anónimos, mas ambos são de cena. Uso-os, na pose em que a fotografia os reteve no tempo, para recriar o passado, escrevendo-o; porque a referência ao passado é sempre um acto de criação. Desmontar o processo narrativo é, ainda, dever de quem narra. Só por isso, assumo o desvendamento. Sou o que olha o cidadão, que observa o soldado que, descontraído, fuma. Coisa apenas possível porque um dia, há trinta anos, um repórter fotográfico viu a situação e quis fixá-la. E, afinal, também é assim que se faz a História.
Na foto de baixo, Abril de 2004, no mesmo local, há apenas uma jovem, que caminha e parece em dificuldades para dominar alguma coisa na mala, que tem com ela. Vai a passar, portanto, nem sequer está ali. O que permanece é o edifício do banco. E mais do que isso.
Na montra em que, na foto de cima, a de há 30 anos, se encostavam dois soldados, há agora um cartaz. “Continuo a ganhar dinheiro”, pode ler-se, com algum alívio. O mundo, afinal, pode estar sempre em mudança. A Liberdade pode ter passado por aqui. Mas há coisas que não mudam. Atravessam regimes. Permanecem iguais.

One Comment leave one →
  1. carolina permalink
    Novembro 6, 2007 1:35 am

    mande o sait para eu desmonta as fotos

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