Skip to content

Dois M47 na Ribeira das Naus

Outubro 3, 2007

O ponto mais quente

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

Estamos de volta à margem do Tejo. O local é a Avenida da Ribeira das Naus e vivem-se momentos de grande agitação, que a foto documenta. Ao fundo, do lado do Cais do Sodré, há dois carros de combate M47, canhões apontados para a Praça do Comércio. Nas torres dos dois blindados, estão homens a postos. São forças fiéis ao regime, aparentemente decididas a lutar em sua defesa.
A pé, no empedrado da rua, há idas e vindas de militares devidamente fardados e de gente, que traja civilmente. À esquerda, na foto, de fato e gravata, vemos o ex-alferes miliciano Fernando Brito e Cunha, que terá um papel decisivo na marcha dos acontecimentos. Mais ao fundo, com as botas características da Arma de Cavalaria, envergando uma camisola de gola alta, está o major Pato Anselmo, que comanda os dois blindados.
À direita, na foto, há um grupo de oficiais de Cavalaria, com Salgueiro Maia ao centro. São os que vieram para fazer cair o Governo de Marcelo Caetano e pôr fim ao regime. Maia conversa com um deles. Mas, afinal, o que se passa naquele exacto ponto da Avenida da Ribeira das Naus, frente ao Ministério da Marinha, no dia 25 de Abril de 1974?
Para responder a esta pergunta, é preciso referir um protagonista que não se vê na foto; que nunca será fotografado, ao longo de toda a sua intervenção nos acontecimentos. Já aqui falámos dele. É o brigadeiro Junqueira dos Reis, segundo comandante da Região Militar de Lisboa. Chegou à zona do Terreiro do Paço por volta das nove e meia da manhã, comandando uma força significativa – quatro blindados M47, uma companhia de atiradores do Regimento de Infantaria 1 e alguns pelotões da Polícia Militar.
No local, dividiu as suas forças e mandou dois carros de combate para a Rua do Arsenal, sob as ordens do coronel Romeiras Júnior, gerando os momentos de tensão que se viveram na Praça do Município, de que já demos conta. Os outros dois M47 ficam aqui, na Ribeira das Naus, sob o comando do major Pato Anselmo; são esses os blindados que vemos na foto.
Fazem-se várias tentativas para convencer Pato Anselmo à rendição. O major recusa. Tem a mão na cabeça. Parece pensativo. Irá ele mudar de ideias e aceitar render-se, finalmente?
Na foto de baixo, exactamente no mesmo lugar, quem não parece ter dúvidas, nem temer o risco, é o cidadão anónimo que, numa corrida, tenta atravessar a rua, pelo meio dos carros. Usa mal a liberdade de que goza. Põe em perigo a sua vida e a segurança dos automobilistas, que por ali circulam. Também, neste caso, podemos interrogar-nos sobre se conseguirá o seu intento, e se chegará ao outro lado vivo e inteiro. Chega. Desta vez, a coisa correu-lhe bem.
Amanhã, veremos como se resolveram as coisas no dia 25 de Abril, de há trinta anos, quando ali estava um major, que não queria render-se.

Advertisements
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: