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Entre o sonho e o pesadelo

Outubro 3, 2007

Um falso paraíso

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

O cartaz na parede é o motivo mais interessante nesta fotografia do dia 25 de Abril de 1974. É um cartaz de promoção turística de Moçambique, que se pretende vender como paraíso balnear. Lugar de "praias de sol", terra de "praias de sonho". Por muito que estas duas ideias promocionais correspondam a uma dada realidade da geografia moçambicana, há neste cartaz uma amarga ironia, mesmo que involuntária.
Portugal era, à época, o último império colonial do Ocidente. Para manter essa condição imperial, o regime português recusava reconhecer o direito à autodeterminação dos povos colonizados, e muito menos queria ouvir falar da possibilidade de eles se constituírem como nações independentes. Impunha essa sua posição pela força, sustentando uma guerra em três frentes, contra os movimentos de libertação de Angola, Guiné e Moçambique.
Condenado em todos os fóruns internacionais, com a Organização das Nações Unidas à cabeça, o regime português teimava em proclamar a sua missão histórica de manter indivisível a Pátria. Mesmo que, para tal, fosse obrigado a afirmar Portugal como um país "orgulhosamente só", no mundo civilizado.
Na mesma linha de conservadora teimosia, os agora Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), eram, então, oficial e hipocritamente, apelidados de "províncias ultramarinas". Com esta manipulação da palavra, o regime caduco de Salazar e Caetano procurava escamotear o facto de possuir colónias, às quais continuava a negar a independência, pela força das armas.
Milhares de jovens portugueses eram, então, forçados a escolher entre exilarem-se, ou aceitar combater, numa guerra que não reconheciam como sua. Guerra que se arrastou anos a fio e fez, de uma forma dolorosa e irreparável, milhares de mortos, de feridos e de deficientes. Por isso, Moçambique, em Portugal, em 1974, era tudo menos um destino turístico. Muito mais um pesadelo indesejável que um sonho possível.
Os dois soldados que vemos na foto, e que se protegem junto a um tapume, na Praça do Município, não vieram apenas, com todos os outros que os acompanharam, devolver a liberdade aos portugueses. Vieram criar, também, as condições necessárias para pôr termo à guerra colonial e apressar a independência das colónias. Mas, a imagem que a objectiva reteve é a de dois militares armados, talvez prontos para disparar, próximos de um cartaz turístico, que evoca momentos mais felizes e tranquilos, perto do mar e do sol.
A fotografia de hoje, trinta anos depois, é do mesmo local. O tapume foi substituído por um painel de pedra, um novo monumento. Já não se vê o cartaz. Mas, esculpido no painel, há um homem nu, liberto das cadeias que o prendiam. E um sol. Facilmente podemos evocar, agora sim, uma verdadeira "praia de sonho". Em liberdade.

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