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Fernando José Salgueiro Maia

Outubro 3, 2007

Um homem impoluto

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

Se um homem pode ser um símbolo, então é isso que Salgueiro Maia é. Foram, é certo, muitos os jovens que fizeram do 25 de Abril uma obra colectiva. Como é verdade que são muitas as razões que explicam que tivessem avançado os que avançaram, no momento em que avançaram. Mas se procuramos um rosto para simbolizar o 25 de Abril, então esse rosto é o do jovem capitão de Cavalaria que, à uma e meia da madrugada desse dia do nosso contentamento, acordou os seus homens, na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, para marchar sobre Lisboa, duas horas depois, e derrubar o Governo.
“Charlie oito”, nome de código de Salgueiro Maia, foi o braço armado do golpe de Estado, e, simultaneamente, o homem que abriu a porta à revolução, na forma como se relacionou com o povo, no teatro dos acontecimentos. Sobre ele, é fácil reunir adjectivos qualificativos. Pode dizer-se que era um homem simples, pelas raízes vindas do povo, mas, também, pela forma como sempre recusou honrarias e benesses. Mas dizer isto, é dizer pouco.
Elevado à condição de “estrela” maior do MFA, pela população que, sem cessar, o vitoriou nas ruas, Salgueiro Maia saiu de cena, quando terminou a sua acção militar. Quando a soberania foi devolvida ao povo, muito por virtude da coragem e da inteligência de que deu mostras. E saiu pelo seu pé. Sem ser empurrado.
Humildade, rigor, honestidade, comportamento democrático, sobriedade no trato mas permeada por uma grande humanidade, eis algumas coisas que, com justiça, se podem dizer deste homem generoso e impoluto. Porém, a revolução e a vida foram-lhe madrastas, apesar de ter conquistado, por direito, um lugar na História. “Ditosa pátria, que tais filhos tem”, diz o poeta. Maia é um desses filhos, um dos raros. Portugal tem, para com ele, uma dívida irresolúvel. “Desterraram-no” para os Açores, puseram-no a comandar o Presídio militar de Santa Margarida, a ele, que fundara a Liberdade, recusando os louros e o arco do triunfo.
A morte roubou-o muito cedo. Spínola, Costa Gomes, Eanes e Mário Soares acompanharam o funeral de Maia. Era o mínimo que os ex-presidentes e presidente da República podiam fazer. Enquanto o caixão com o corpo deste homem, nobre e respeitável, descia à terra, ouvia-se “Grândola, Vila Morena”. Merecido tributo ao jovem capitão que nos trouxe a Liberdade, sabendo o que ela era e como respeitá-la.
Na foto de hoje, 30 anos depois, está outro jovem. Tem 22 anos e chama-se Pedro Mineiro. É fotógrafo. Trabalha num estúdio de fotografia publicitária e de moda, no Largo do Carmo, precisamente no local de onde Alfredo Cunha fotografou parte dos acontecimentos do Carmo, no dia 25 de Abril, de 1974. Não conheceu, claro, Salgueiro Maia, mas o Alfredo acha-os parecidos. Por tudo isto, fotografou este jovem. Mas, sobretudo, como uma homenagem ao malogrado capitão de Abril.

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