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Libertados os presos políticos

Outubro 3, 2007

O fim das prisões

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

Parecem grades as tábuas que constituem este tapume, por detrás do qual populares olham para a sede da Pide/DGS. Os “pides” entregaram-se. Depuseram as armas. Depois de uma conversa telefónica com o general Spínola, o major Silva Pais, último director-geral da Polícia Política, aceitou render-se. O “25 de Abril” já é uma realidade inteira. A liberdade instalou-se. Nos meses que se seguirão, atravessará ainda alguns sobressaltos, de outra índole. Mas, por agora, canta-se vitória. A revolução triunfou.
Com a rendição dos agentes da PIDE/DGS, em Caxias e no forte de Peniche, os prisioneiros políticos são libertados pelos militares do Movimento das Forças Armadas (MFA). Há lágrimas, abraços; emoção a rodos. Familiares e amigos saúdam aqueles que a PIDE prendera, pelo “grave delito” de professarem ideias diferentes daquelas que eram, então, politicamente correctas. E de as espalharem e defenderem.
Aqui, na Rua António Maria Cardoso, na sede da PIDE, foram detidos centenas de agentes, que se renderam sem condições, perante a ameaça de assalto feita pela força militar, encarregada de tomar as instalações. Todo o material encontrado, incluindo armas e munições, é apreendido e os “pides” são transferidos para outro lugar. Deixou de haver perigo para a população. Por isso, estas pessoas olham, através da vedação de madeira, sem oposição dos fuzileiros navais, que guardam o edifício.
Também, em Sete Rios, a escola e museu da PIDE/DGS foi ocupada por fuzileiros navais. Era ali que os agentes daquela terrível Polícia aprendiam o ofício. Técnicas de tortura, incluídas. No local, foram encontrados os mais diversos materiais. Desde cartazes e livros apreendidos, a engenhos explosivos, livros armadilhados, balas envenenadas e instrumentos de tortura.
A festa, em Lisboa, é agora total. Começou já a ouvir-se a frase “o povo unido, jamais será vencido”, que ficará durante meses. Canta-se nas ruas. Partilham-se sonhos. As convenções desaparecem. Os receios também. A PIDE rendeu-se. Já não há lugar para o medo. Por alguns dias, o “país de Abril” será o país de todos. Um ideal partilhado. Consensual.
Na foto de baixo, trinta anos passados, curvado, um calceteiro coloca, pedra a pedra, a calçada de um passeio. Apesar de retratar um acto de recuperação da rua, a foto tem um ar de desolação, que chega a ser chocante. Que Lisboa é esta? Onde está aquela cidade viva, emocionada, que o “25 de Abril” parecia ter-nos dado? Onde está aquela liberdade que enchia as ruas de pessoas, que não se conheciam, mas se sentiam irmanadas? Que ruínas são estas que a objectiva do repórter fotográfico nos mostra? Que é feito do país dos sonhos, que chegou numa manhã enevoada de um Abril distante?

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