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Ninguém recua um milímetro

Outubro 3, 2007

Posições de combate

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

Na Praça do Município e ruas envolventes há um aparato militar, mais marcado do que aquele que se viu, em imagens anteriores, na Praça do Comércio. Não fora o ar tranquilo dos soldados, sobretudo evidente nos que estão junto ao transporte militar, perto do edifício da Câmara Municipal, à esquerda na foto, e poderíamos pensar estar face ao registo de um momento de combate. De uma situação de guerra. Mas, de facto, não chegou a haver confrontos nesta zona da cidade.
Às 04.26 horas, o primeiro comunicado do MFA apelava ao "bom senso dos comandos das forças militarizadas, no sentido de serem evitados quaisquer confrontos" desnecessários com as Forças Armadas. O apelo parece ter produzido efeitos.
Pelo menos, sabe-se que, a caminho do Terreiro de Paço, Salgueiro Maia encontrou viaturas da PSP, no Campo Grande, e elementos da Polícia de Choque, na Avenida Fontes Pereira de Melo, mas seguiu o seu caminho sem qualquer oposição. Mais tarde, uma força da GNR posicionou-se no Campo das Cebolas, disposta a resistir. Porém, o comandante acabou por ser convencido a abandonar o local, sem ter tentado abrir hostilidades.
Contudo, ainda há elementos das Forças Armadas, fiéis ao regime. E é desses que pode vir o verdadeiro perigo. De facto, na Rua do Arsenal tomaram posições militares adversos ao MFA, que ali colocam também dois carros de combate. Chega a pôr-se a hipótese de haver luta. Ou, pelo menos, a "preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português", expressa pelo Movimento, logo no seu primeiro comunicado, parece correr risco. Mas os homens de Salgueiro Maia não recuam um milímetro. Se for preciso, luta-se mesmo. É essa disposição que esta fotografia do 25 de Abril, de 1974, regista. Mas, como se pode ver, a tensão não é muita.
Na foto actual, em baixo, a Praça do Município é um deserto, apenas cruzado por dois táxis. Hoje, tudo ali respira ordem. É um lugar arrumadinho, limpo, despido. Asséptico. Sem vida. Está longe o dia em que o golpe de Estado militar viveu, no mesmo local, sobressaltados momentos. Nada na imagem o deixa adivinhar. Mas o certo é que a Liberdade se afirmou, também, naquele lugar, trinta anos atrás. Fê-lo, é verdade, graças à vontade forte dos jovens que acompanhavam Maia. Mas, também, fruto de uma inevitabilidade. O regime não tinha futuro.
A Praça do Município, seja de que cidade for, é, por excelência, a tribuna do povo, onde o povo deve livremente expressar a sua voz. A acção decidida dos jovens soldados devolveu-a, nessa condição, aos lisboetas. É, sobretudo por isso, que a foto de baixo é tão chocante. A Praça passou do teatro de guerra da foto de cima, ao império do vazio, na de baixo. O contraste é violento. E triste.

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