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No meio do chão

Outubro 3, 2007

No meio do chão

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

O presidente do Conselho de Ministros, prof. doutor Marcelo Caetano, caiu. A sua fotografia oficial está no meio do chão, entre outros restos do regime deposto, em que avultam armas e caixas de balas, para além de retratos, que não são visíveis. O local é um dos mais sinistros do regime, que governou Portugal durante quase cinquenta anos; precisamente a sede da temida e odiada polícia política, na Rua António Maria Cardoso.
Coube a Caetano presidir à queda de um regime, que já não tinha futuro quando assumiu funções, sucedendo ao ditador Oliveira Salazar. Afirmou-se, então, como alguém que respeitava o passado, mas que pretendia abrir caminhos para o futuro. Era isso que queria dizer, quando caracterizou os seus propósitos governativos como uma evolução na continuidade. Não lhe correu bem. É certo que muitos opositores confiaram em meia dúzia de medidas, a que, na altura, se deu o nome de Primavera marcelista.
Foi sol de pouca dura, e teve consequências. Por um lado, os ultras do regime nunca terão confiado em Marcelo Caetano, e ter-lhe-ão negado sempre o seu apoio, por via dessa Primavera, que achavam perigosa. Por outro, os que dele esperavam muito, cedo perceberam que a força primaveril se resumia à fraqueza de uma mão-cheia de operações de cosmética.
A polícia política mudou de nome. Passou a chamar-se Direcção-Geral de Segurança (DGS), em vez de Pide, mas continuou a prender e a torturar portugueses, cujo único delito era o de quererem um país livre. As colónias transformaram-se em províncias ultramarinas, mas persistiu-se em negar a liberdade aos povos colonizados, usando a força das armas. A guerra manteve-se, ao serviço do dogma de um país uno e indivisível; de um Portugal de aquém e de além- mar, em África. Como se manteve a censura ou a proibição da formação de partidos políticos.
De uma maneira ou de outra, a queda de Marcelo era inevitável. Aconteceu com ele em funções. Só por isso presidiu ao cair do pano sobre um regime, que há muito estava mais que caduco. Tinha de cair. E caiu, como lhe competia. É tudo isto que esta foto simboliza, quando nos mostra a fotografia de Caetano, no meio do chão, na sede da Pide/DGS, perante a indiferença do fuzileiro, que guarda o local palitando os dentes.
A foto actual, trinta anos passados, evoca os que caíram, no dia 25 de Abril de 1974, vítimas das balas assassinas dos homens da Pide/DGS. Os agentes da Pide não hesitaram em abrir fogo sobre o povo de Lisboa, matando quatro pessoas. A placa é uma homenagem de um grupo de cidadãos aos que, então, morreram. Menos convencional, um graf quase esconde os nomes dos que caíram, mas sublinha honra aos heróis. Talvez o tenham sido, mas foram, isso sim, sobretudo, vítimas.

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