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No ventre de uma chaimite

Outubro 3, 2007

No ventre de uma chaimite

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

Esta é uma foto da revolução de Abril. Neste Largo do Carmo, já não conseguimos distinguir militares e civis. Estão todos misturados. Até as árvores estão “à cunha”. As emoções aqueceram ao rubro. Há alegria e indignação, a rodos. Dentro da autometralhadora chaimite, que vemos na imagem, seguem, sob prisão, o presidente do Conselho, Marcelo Caetano, e os ministros Rui Patrício e Moreira Baptista. São sete da tarde, daqui a pouco, um comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA), tornará pública a queda do Governo. A festa tomará conta de Lisboa.
Mas que se passou, desde que, pouco depois das três da tarde, Maia exigiu a rendição do quartel do Carmo? Que figura, não ligada ao MFA, veio aqui desempenhar um papel? Tornar-se “dono da guerra”. A foto só regista o desenlace, a queda, o fim do regime. Vejamos o que está por detrás dela.
Primeiro, são os soldados do Movimento que se posicionam na sede da companhia de seguros Império, e, cumprindo ordens de Salgueiro Maia, disparam sucessivas rajadas sobre o quartel, com as suas espingardas automáticas. O capitão de Santarém chega mesmo a colocar um carro de combate em posição de fazer fogo sobre o quartel e quase dá a ordem. Evita-a a chegada de dois emissários de António de Spínola, que dizem trazer uma mensagem do general para o presidente do Conselho.
Spínola estava em casa. Desde as quatro da madrugada, que a residência estava guardada por forças do MFA, para garantir a sua segurança. Às quatro e meia da tarde, o general telefonou para o posto de comando do Movimento, na Pontinha. Marcelo queria que fosse ele a receber a rendição do Governo, disse. Isso mesmo afirmou Marcelo Caetano, também a Salgueiro Maia, no interior do quartel do Carmo. Só se rendia a um oficial general. Não queria que o Poder caísse na rua.
Cá fora, no Largo, vive-se a agitação, que a objectiva de Alfredo Cunha tão bem registou. Spínola chega e a multidão envolve o carro em que vem. Só por volta das seis da tarde, o general entra no quartel do Carmo, com Salgueiro Maia. Spínola reúne-se com Marcelo Caetano e Maia sai. Já cá fora, pede à multidão que abandone o Carmo, para que o presidente do Conselho e os ministros possam sair. Em vão. Ninguém arreda pé. Caetano, Patrício e Baptista saem nas condições que a foto documenta. Fechados no ventre de uma chaimite, que avança passo a passo, por entre milhares de pessoas que quiseram testemunhar, participar, na queda do regime.
A foto actual, trinta anos passados, evidencia, por contraste, uma grande serenidade. O Largo do Carmo está limpo, bonito, sereno; quase vazio de gente. Olhando as duas fotos, dificilmente parecem do mesmo local. Mas são. Foi ali que, com a prisão e o posterior exílio de uns, começou a ser vivida a liberdade de todos os outros.

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