Skip to content

O outro nome do medo

Outubro 3, 2007

Falta a “Pide”

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

O Governo caiu. O Poder está nas mãos do Movimento das Forças Armadas (MFA), que controla a situação em todo o país. Mas a odiada polícia política, a PIDE, ainda não se rendeu. Resiste em Caxias e, aqui, na sua sede, na Rua António Maria Cardoso, em pleno Chiado.
É preciso pôr fim a este último reduto de um regime, que amordaçou Portugal durante gerações. É a isso que vão estes fuzileiros navais, acompanhados por militares do Regimento de Infantaria 1. É para isso que lá está este carro de combate, com o seu canhão, bem visível na foto, pronto para esmagar os mais sinistros sicários do regime, se necessário for.
Enquanto a PIDE continuar activa, não serão libertados os presos políticos, que os agentes da terrível polícia encarceraram. Enquanto a PIDE não entregar as armas, a Liberdade não será uma verdade indiscutível. Militares e civis, todos querem ver o fim da PIDE. Só então a festa poderá ser total. Por isso, os populares começam a chegar às imediações, enquanto os militares se posicionam no terreno, para forçar a rendição. Dentro em pouco, estará ali uma multidão.
Ao longo de 40 anos, a PIDE foi o mais eficaz e terrível instrumento de repressão do regime. Oliveira Salazar criou-a em 1933, então com a denominação de Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE). Doze anos mais tarde, em 1945, a PVDE foi substituída pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). Em 1969, Marcello Caetano, que ocupara a cadeira de Salazar, extinguiu a PIDE e criou, em sua substituição, a Direcção Geral de Segurança (DGS).
Mas, na boca do povo, a DGS nunca existiu. Continuou a ser “a Pide”. Uma organização policial que, sob a capa da “defesa do Estado”, e dispondo de uma vasta rede de informadores, prendia, torturava e matava cidadãos que se atrevessem a ter uma opinião diferente da autorizada pelos senhores do poder. “Falar mal” do regime chegava para destruir vidas, arruinar carreiras, condenar ao exílio ou à prisão. “Pide” era o outro nome do medo, com que os portugueses viviam.
Por isso, neste dia de Abril, de 1974, é tão importante que a PIDE caia, que os seus chefes se rendam, que os seus agentes se entreguem. Por isso, se começa a juntar gente, na Rua António Maria Cardoso, para acompanhar a acção dos militares do MFA. Todos querem poder respirar fundo.
Hoje, o local é um como qualquer outro, nesta Lisboa de 2004. Morno. Cruzado por automóveis e eléctricos, apesar das restrições ao trânsito, que envolvem a área do Chiado. Trinta anos passados, muitos portugueses nasceram desconhecedores do que é ter medo de falar. Ignorando que havia uma polícia que vigiava as palavras, que perseguia as ideias. Que tinha por missão impedir que os homens e mulheres fossem cidadãos livres.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: