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O sangue dos inocentes

Outubro 3, 2007

Conter a multidão

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

Por volta das oito e meia da tarde, do dia 25 de Abril de 1974, agentes da PIDE/DGS, entrincheirados na sede daquela Polícia política, na Rua António Maria Cardoso, abrem fogo sobre a multidão. As rajadas de metralhadora ceifam à volta. Quatro homens morrem, e mais de quarenta pessoas tombam feridas. É um trágico acontecimento, que ensombra o “25 de Abril”. A vontade do Movimento das Forças Armadas de evitar o derramamento de sangue não se concretiza. A conquista da liberdade é manchada com o sangue de inocentes. Na foto, os militares, apoiados pela PSP, contêm a multidão, na Rua Vítor Cordon. Não querem correr mais riscos. Mas a ira popular está ao rubro. A revolta cresce no peito dos lisboetas. Grita-se: “assassinos”! Clama-se: “morte aos pides!”. É difícil suster a raiva popular. Impedir que a indignação, causada pelos mortos e feridos, vítimas dos disparos, vá além das palavras. Antes dos tiros, os agentes da PIDE eram temidos e indesejados, por todos os que não eram adeptos do regime; mesmo que não fossem activistas políticos. Agora, “os pides” são odiados. O mínimo que o mais pacífico dos cidadãos deseja é vê-los atrás das grades. Por isso, é difícil manter a multidão, afastada da sede da PIDE/DGS. Da velha ordem, que afastava Portugal do seu tempo e o impedia de ser uma sociedade verdadeiramente plural, já só restam estes homens. Durante décadas, espalharam o medo em redor, e agora, quando já tudo o mais ruiu à volta, desesperados, teimam em resistir. E, mesmo com o pano prestes a descer sobre a sua malquista actividade, atreveram-se a disparar a eito, matando quem calhou. Para eles, não há piedade ou perdão, no coração das muitas pessoas que aqui estão, emocionadas e ansiosas. Só eles impedem que se afirme inteiro o trajecto de felicidade, que os portugueses trilham, desde o nascer da manhã do dia 25 de Abril. Só eles obscurecem a liberdade, com um resto das trevas do passado. É tempo de virar, também, esta página. É só o que falta para abrir, de vez, a porta do futuro. Trinta anos depois, a mesma rua está deserta, tirando um cidadão que caminha pelo passeio. Nada evoca a agitação, que a foto de cima documenta, quando os populares queriam avançar, para assaltar a PIDE. Quem for por esta Rua Vítor Cordon, até à Rua António Maria Cardoso, verá que a sede da PIDE/DGS é um prédio abandonado e em degradação. Nenhum poder, nenhuma instituição democrática, saído do “25 de Abril”, a soube preservar. Ninguém quis fixar ali o testemunho de um passado, que não deve ser esquecido. E a sede bem poderia ser um museu, um documento vivo sobre a repressão, que em Portugal se viveu, em pleno século XX. Uma História não é, apenas, um acervo de boas memórias. E o que de mau se fez, no passado, não deve ser esquecido. Deve é servir de lição. Para que não se repita. Nunca mais.

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  1. Outubro 3, 2007 6:35 pm

    Viva João! Posso confirmar porque estive lá e foi ferido nesse dia. Na António Maria Cardoso mesmo defronte ao Teatro S. Luis, anichei-me na lateral de VW carocha… fomos alvejados a partir das janelas do edifício da PIDE-DGS. A maioria dos feridos, tal como eu, recusou a ajuda hospitalar que era prometida, fui tratar-me em Queluz… perdi muito sangue e os sentidos antes de lá chegar, valeu-me a ajuda que me deram durante a viagem de comboio, que sei que fiz, mas de que me não recordo. Fui tratado no Posto Médico dos Bombeiros daquela, então, vila… a minha terra de infância e juventude; eu tinha então 19 anos e recordo que chuveu o dia todo e resta em mim, desde então, uma imensa raiva. Paradoxalmente devia guardar memória de alegria e sonho como os demais!

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